A ESCRAVIDÃO EM NOVA FRIBURGO: A HISTÓRIA DO QUILOMBO DE MACAÉ DE CIMA


No princípio do século XIX, os suíços foram cooptados para fundar uma colônia no Brasil, objetivando-se fundamentalmente a produção de alimentos, à margem da economia nacional baseada na monocultura e na mão de obra escrava sobre o latifúndio. No entanto, como algumas datas de terra distribuídas não eram úberes, muitos suíços abandonaram o Núcleo Colonial e procuraram terras mais produtivas. Na ocasião em que os colonos buscaram essas novas terras, há um interessante episódio envolvendo os suíços e os quilombolas. Curiosamente, nessa ocasião, o governador militar e diretor da colônia, o tenente coronel João Manoel de Almeida Moraes Pessanha, indica aos colonos suíços as “novas terras do sertão das Cachoeiras do Rio Macaé”, local onde havia um quilombo. Ao que parece, eram terras devolutas, ou seja, terras abandonadas e que consequentemente retornavam à propriedade da Coroa Portuguesa. Logo, a partir de 1821, os suíços insatisfeitos com as terras do “Núcleo dos Colonos”, ocuparam a região de Macaé de Cima, conforme recomendou o coronel Pessanha, e que originariamente não fazia parte das datas de terra outorgadas aos colonos. Há registro de que foram autorizados por D. Pedro I a ocuparem essa região.
A princípio, parece que o coronel Pessanha indicou essas terras devolutas aos suíços no intuito de provocar um confronto entre eles e os quilombolas, cujo quilombo parecia não conseguir debelar. Não há comprovação de que o coronel Pessanha tivesse tal intenção, mas se não teve, acertou no que não viu, já que os quilombolas, devido o deslocamento dos suíços para aquela região, abandonaram essas terras, se deslocando rio abaixo. Porém, um episódio semelhante nos leva a crer que o coronel Pessanha tivesse tal intenção, ou seja, de provocar o conflito entre os suíços e os escravos fugitivos aquilombados. Em Pernambuco, em 1929, deu-se terras aos colonos alemães e suíços na localidade denominada de Catucá ou Cova da Onça. Naquela província, o plano era afugentar quilombolas, refugiados nas matas de Catucá, utilizando para tanto 150 famílias européias. Supunha-se que se instalando naquelas matas, colonos suíços ou germânicos extinguiriam os “negros do quilombo”. No entanto, os colonos se transformaram em simples carvoeiros e o quilombo cresceu de tal modo que foi necessário o Governo da Província lançar contra eles a Companhia de Caboclos Barreiros. Esse episódio é narrado por Gilberto Freire no livro “Sobrados e Mucambos”.

Retornando ao caso de Nova Friburgo, há registro de que houve contato entre os suíços e os quilombolas, mas não houve confronto. O pesquisador Rafael Jaccoud transformou esse episódio em um acontecimento épico favorável aos suíços, coroando-o como mais uma saga desses colonos em Nova Friburgo, assim escrevendo: “...Os suíços não demoraram a explorar as regiões circunvizinhas(...)Todos sabiam, no entanto, que as terras situadas ao longo do rio eram habitadas por quilombos, que formavam verdadeiras tribos hostis(...) Em 1821 correu a notícia de que no Rio de Janeiro estava sendo organizada uma companhia colonizadora para ocupar a região. Os suíços de Friburgo não perderam tempo, tomaram a dianteira e marcharam para conquistar as novas terras(...)O primeiro trabalho foi o de subjugar os quilombos(...) A conquista do Macaé converteu-se, pois, em outro episódio épico e, em pouco tempo, as margens do rio foram tomadas pelos corajosos suíços oriundos de Nova Friburgo.”


No entanto, no livro traduzido por Armindo Müller, “A Imigração Suíça no Brasil”, o colono suíço Hecht deixou o seguinte registro em suas memórias: “Eles[refere-se aos suíços]tinham deparado com um lugar, onde haviam estabelecido negros foragidos com maravilhosas plantações. O lugar, a localização e as plantações tanto agradaram, que iniciaram conversas com os negros para adquiri-las(...)O líder dos negros, que andava com uma espada desembainhada, falou assim: se vocês suíços fossem lavradores locais, teríamos entrado em luta com vocês; de forma alguma nos teríamos deixado aprisionar.(...)Com pouco dinheiro os colonos suíços compraram as plantações e os negros se mudaram dali. Esse lugar(...)chama-se Macaé...”.
Logo, não houve o confronto e sim, um acordo comercial entre os quilombolas e os suíços. Não eram igualmente “tribos hostis” como descreve Jaccoud, e sim, uma micro sociedade organizada, “com maravilhosas plantações”, onde muitos habitantes da localidade realizavam transações comerciais com os quilombolas. Somente para destacar, antes da chegada dos suíços, já havia ocupação de Macaé de Cima por alguns fazendeiros. É curiosa a animosidade dos quilombolas contra os fazendeiros luso-brasileiros e a solidariedade para com os suíços. Talvez isso se deva ao fato dos suíços e os africanos estarem irmanados por um sentimento comum: longe de seu torrão natal, em busca da sobrevivência em terras estrangeiras.
Abaixo: Remanescentes de populações quilombolas.

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