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O CASO DO CASCATA E O COLÉGIO NOVA FRIBURGO




Dermeval Barbosa Moreira, conhecido em Nova Friburgo como um médico morigerado e caridoso, estranhamente, resolve diversificar a sua atividade profissional. Juntamente com o seu cunhado, edificaram no local denominado “cascata”, um suntuoso prédio destinado a um hotel cassino, o Cassino Cascata. Construíra esse cassino, ao que parece, em sociedade com os mesmos empresários do Cassino da Pampulha, Cassino da Urca e do Quitandinha. No entanto, quando o prédio estava praticamente pronto, eis que o jogo de azar passa a ser proibido no país pelo Governo Dutra e o cassino virou um elefante branco. Desesperado, o médico Dermeval Barbosa Moreira procurou a equipe médica do Hospital de Tuberculosos de Corrêas, em Petrópolis, oferecendo o prédio do Cassino Cascata para a instalação de um hospital de tuberculosos. Houve interesse por parte daquele estabelecimento e as negociações estavam em andamento. Nova Friburgo tinha sido o local escolhido pela Marinha do Brasil para a instalação do Sanatório Naval, estabelecimento destinado a cura de marinheiros tuberculosos. Logo, Nova Friburgo teria mais um sanatório de tísicos na cidade, para desespero da população. Questionava-se se as famílias de outras cidades e Estados continuariam a colocar seus filhos em regime de internato nos colégios existentes; se os turistas continuariam a vir a Nova Friburgo; se os capitalistas se animariam em inverter capital em novas indústrias, sendo o município uma cidade infectada; se após a criação desse hospital não viriam outros.



Surge então um grupo liderado por Augusto Spinelli, e integrado por César Guinle, José Eugênio Muller, Tuffi El Jaick, entre outros, que se mobilizam para impedir a instalação de mais um sanatório, prejudicial à representação de Nova Friburgo como cidade salubre. Resolvem adquirir o prédio a fim de instalar no local um estabelecimento educacional. Criaram então a Empresa Educacional Fluminense, também denominada de Fundação Educacional, e adquiriram o Cassino Cascata de Dr. Dermeval com o propósito de instalar um ginásio. Acontece, entretanto, que a novel empresa não dispondo de recursos financeiros à altura da iniciativa, e também não podendo retroceder na compra do edifício, sob pena de enorme prejuízo, toma a deliberação de procurar um novo proprietário para o prédio. A Empresa Educacional Fluminense entra em entendimentos com os clérigos do Colégio Anchieta a fim de prolongarem aquele estabelecimento até o Cascata, mas o valor para o empreendimento era superior aos recursos do Colégio Anchieta. Oferecem então ao Seminário de São José, no Rio de Janeiro, cujos clérigos vêm à Nova Friburgo estudar as possibilidades. Embora agradassem das instalações, também não puderam arcar com o valor do imóvel. O tempo corria, os prejuízos cresciam, a hipoteca da Caixa Econômica vencendo juros, os fornecedores fazendo pressão e os compromissos com os construtores do Cascata avolumavam-se. A Empresa Educacional Fluminense resolve então abrir o ginásio por conta própria e assim iniciam ampla propaganda pelos grandes jornais do Rio de Janeiro, rádios, etc. No entanto, a empreitada é superior a sua condição econômica e a Empresa Educacional novamente volta ao ponto de partida no intuito de encontrar um comprador para o Cascata. Dessa vez urgia pressa ou uma catástrofe financeira desabaria sobre todos. Surge então a Fundação Getúlio Vargas. O fato do prefeito César Guinle ser amigo de Simões Lopes, presidente da Fundação Getúlio Vargas, e seu cunhado participar do conselho, teria provavelmente facilitado o acordo com essa instituição.
Inicia-se uma negociação que envolve a Prefeitura de Nova Friburgo, a Empresa Educacional Fluminense e a Fundação Getúlio Vargas. A Prefeitura precisaria desembolsar alguns milhões de cruzeiros para viabilizar a vinda de Fundação, o que acabou gerando protestos de alguns segmentos da sociedade friburguense. Porém, a mensagem do prefeito César Guinle foi aprovada pela Câmara Municipal que conseguiu recursos para viabilizar a vinda da Fundação Getúlio Vargas para Nova Friburgo. Foi investido no Cascata um total de CR$6.000.000,00(seis milhões de cruzeiros), nos informa Pedro Cúrio do jornal O Nova Friburgo. A Prefeitura doou CR$2.000.000,00(dois milhões de cruzeiros); uma subscrição realizada entre a população friburguense arrecadou CR$1.000.000,00(um milhão de cruzeiros) e foi feito um empréstimo junto a Caixa Econômica de CR$2.5000.000,00 (dois milhões e quinhentos mil cruzeiros). A Fundação Getúlio Vargas entrou somente com CR$500.000,00(quinhentos mil cruzeiros). Cumpre destacar que particulares ainda doaram terrenos no Cascata para ampliação do colégio. Logo, o Cascata passou a abrigar, a partir de 1949, o Colégio Nova Friburgo sob a égide da Fundação Getúlio Vargas, cujo período letivo se inicia no ano seguinte. Ficou conhecido esse estabelecimento de ensino na cidade como “Fundação”. Tratava-se de um colégio de ensino secundário, em regime de internato, consistindo quase todos os internos do sexo masculino. Esse colégio foi considerado uma referência em todo país pelo alto nível de seu ensino e quadro docente. Foi desativado em 1977, depois de 27 anos em atividade. Mais uma vez evitou-se a “extinção de Friburgo”, como outrora escrevera Rui Barbosa, dotando a cidade de mais um sanatório de tuberculosos. Funciona hoje no local a UERJ. Observando a história desse estabelecimento de ensino, poderíamos afirmar que esse imóvel pertence muito mais à população de Nova Friburgo do que ao órgão estadual. Mas isso é outra história.

DECÁLOGO DE RESPEITO À NATUREZA

Acima: O Prof. Menezes Wanderley




Antonio Francisco de Menezes Wanderley foi o maior intelectual do final do século 19 e início do 20 em Nova Friburgo. Natural do Estado da Paraíba do Norte, residiu na capital federal onde trabalhou em diversos jornais. Do Rio de Janeiro veio para Nova Friburgo contratado para dirigir o periódico O Friburguense. Foi então convidado para ser professor do Lyceo Nacional, do Instituto Sul-Brazil e do Externato América. Abriu uma escola noturna gratuita na cidade para alfabetizar aqueles que labutavam durante o dia. Além de colaborar com diversos periódicos da cidade, como os jornais O Friburguense e A Paz, fundou o Correio Popular, O Rebate, a Escola e dirigiu o Democrata. Muito jovem ainda, com 25 anos de idade, tinha um vasto currículo acadêmico, sendo considerado um excelente orador e latinista, autor de peças teatrais, poeta, literato, tendo lançado os livros “Hosannas” e “Flores Agrestes”, um prodígio à época já que a produção de um livro era muito cara.
Esse ilustre professor era maçom e devido a sua bagagem intelectual, em 1933, recebeu do então prefeito da cidade uma incumbência: elaborar um decálogo, conjunto de dez princípios morais, para educar as crianças friburguenses na sua relação com a natureza. Pelo teor do decálogo, as belas e floridas praças da cidade que povoavam as narrativas e crônicas dos que visitavam o bucólico centro de Nova Friburgo, viviam depredadas por ações de vandalismo, principalmente por parte das crianças. Esse decálogo foi impresso em um livreto e distribuído em todas as escolas municipais de Nova Friburgo.
Vejamos as normas que o Prof. Menezes Wanderley elaborou dando o interessante título de “Voz da Natureza”: “CRIANÇA! OUVE O QUE TE DIGO: SER DE BONS COSTUMES É SER UM MENINO BEM CRIADO E EDUCADO PARA UTILIDADE DA VIDA, DA PÁTRIA E DA FAMÍLIA! 1°: Não derrubes as árvores, não as maltrate, não as desfolhe, seja qual for o lugar em que as encontre; 2°: Não depredes os jardins públicos. São lugares próprios para descanso e recreio dos habitantes do lugar, cujo número tu estás; 3°: não pises no gramado de seus canteiros. É um tapete verde-esmeralda, o qual alegra os olhos em harmonia com o azulado das montanhas e com o anil do céu; 4°: Não arranques as flores que adornam os canteiros. Elas seduzem os olhares dos passeantes e perfumam o ambiente. São como estrelas na terra; 5°: Não tires mudas, pelo fato de achares lindas as flores ou raras as suas qualidades; 6°: Não firas os troncos das árvores, abrindo neles nomes, teu ou de pessoas de tua amizade, só pelo gosto de vê-los aí estampados, quando passares por lá, talvez, um dia na vida; 7°: Não consintas que meninos desocupados e de maus instintos procurem maltratar as plantas que tanto bem fazem abrigando os cansados, atraindo as aves que cantam e as borboletas multicores que adejam; 8°: Não te esqueças que o governo, para ali as colocar, gastou muito dinheiro com o fim de preparar aquele logradouro público e ainda despende anualmente grande soma com a sua conservação. Esse dinheiro é fornecido pelo suor do povo. 9°: Não olvides esses conselhos, que são do maior proveito para a formação do teu caráter, eles dão mostra fiel da tua educação atual, e garantem que hás de ser um homem de bem no futuro. 10°: Não queiras ser um menino que mereça a censura dos homens de bem, mas um amiguinho de tudo o que é bom, merecedor dos aplausos dos homens sensatos e digno das lições que hás recebido na escola.”

Esse decálogo não teria muita razão de ser atualmente. Não que o seu teor esteja ultrapassado, ao contrário. No entanto, perdeu o seu sentido, pois há muito tempo não vemos uma natureza pujante na Praça Getúlio Vargas e nas demais praças da cidade, considerado outrora como o município dos cravos vermelhos e das camélias brancas. É difícil compreender o abandono da praça principal da cidade, que tanto encantava os visitantes do século passado, por sucessivos governos municipais. Foi uma progressiva gestão de administradores que desprezaram o maior e mais simbólico espaço de sociabilidade de uma cidade: as praças públicas. Como no início do século 19 se acreditava que as doenças vinham do ar, pois se desconhecia a existência de microorganismos, só descoberto em 1862, preconizava-se o plantio de árvores e boulevards nas vilas e cidades para higienizar o ar “corrompido” pelos miasmas. Logo, as praças públicas tinham muito mais uma função de atender a uma política pública higienista do que ser um espaço de sociabilidade. Posteriormente essa segunda função superou a primeira.
Porém, atualmente, com a poluição do ar nas cidades, as praças voltam a ter essa função “higiênica” e não somente ser um espaço de recreio da população. A Praça Getúlio Vargas, cujos eucaliptos abrigaram sob suas sombras sucessivas gerações de friburguenses, ainda constitui um espaço de sociabilidade aos mais renitentes, que insistem em sentar-se em seus bancos ruídos, vislumbrar o mato em sua volta e arriscar-se a mordida de roedores. O coreto, com o seu aspecto fúnebre, simboliza o descaso dos prefeitos que justificam a sua inércia sob o manto de que aquele pardieiro é tombado pelo patrimônio histórico. Vamos ver se com as campanhas pela renovação de Nova Friburgo essa praça, e igualmente as demais da cidade, voltem a ser o cartão postal como foi no passado.

LAR-ESCOLA E AS MÃES ESPIRITUAIS



No dia do professor nada mais pertinente do que falar sobre a educação no passado. Para tanto, seguem as memórias de algumas senhorinhas que nasceram na década de vinte do século passado. Em princípios do século XX, no currículo das alunas do curso “Normal” havia aulas de português, matemática, geografia nacional, história do Brasil e geral, história sagrada, catecismo, pedagogia, puericultura, psicologia, sociologia, moral e civismo, trabalhos manuais, higiene escolar e economia doméstica. Aprenderam canto orfeônico, tinham aulas de ginástica e até mesmo de teatro. Boa parte das crianças de classes abastadas em Nova Friburgo, no século passado, iniciava o curso primário nas próprias residências das professoras. O ensino era ministrado normalmente por notórias educadoras da cidade, a exemplo do que foi a Dona Helena Coutinho, a italiana Ítala Massa, D. Ermínia, D. Cely Ennes, entre outras, intituladas à época de “mães espirituais”. Eram mistas essas escolinhas e a atitude de abrir uma escola na própria residência era apenas de professoras. Os homens educadores não tinham tais práticas. A educação era território feminino. As salas de aula eram extensões de seu lar.
Separava-se um cômodo da casa, mobiliavam com uma mesa comprida e bancos coletivos onde todos compartilhavam as lições. Na escolinha de D. Helena, improvisava-se com bancos de madeira e caixotes de banha que funcionavam como carteiras. A professora ensinava a todos conjuntamente, desde os alunos que aprendiam as primeiras letras até a quarta ou quinta série. Iniciavam-se os estudos com cinco anos de idade. Não havia, como hoje, jardim de infância ou maternal. As matérias como geografia, matemática e português eram dadas todas numa só aula. Não eram separadas. A tabuada era de Galhardo. Idiomas somente no ginásio. Algumas professoras, mas muito raro, no último ano do primário davam noções de francês.

Depois do primário, o ginásio. Fazia-se então o exame de admissão para a nova fase. A idade mínima para fazer a admissão era de 11 anos. Era um rito de passagem entre a educação informal, na casa da professora, para um estabelecimento formal de educação. A elite de Friburgo tinha como opção o Colégio N.S.das Dores, o Chateau, como era chamado o Anchieta e o Colégio Modelo. O N.S.das Dores, na década de quarenta, ainda era em regime de internato para moças. Paradoxalmente, muitas meninas, mesmo residindo no município, foram internas do N.S.das Dores. O Chateau era somente para meninos da elite e o Colégio Modelo misto, nesse último estudando o que corresponderia a uma classe média. No lugar dos trabalhos manuais como o bordado, aprendido no primário, ensinavam-se no ginásio as línguas estrangeiras como o latim, inglês e francês. Terminava-se o ginásio, que durava quatro anos, com 15 anos, aproximadamente. Escolhia-se entre o normal, científico, clássico e técnico de contabilidade. Esse último, ainda que destinado aos rapazes, tivera muitas moças na turma que eram cooptadas para trabalhar nos escritórios das recém instaladas indústrias em Friburgo.

Uma professora àquela época era muito respeitada e ganhava um bom salário. A historiadora Guacira Louro em seu trabalho “Mulheres na sala de aula” nos informa que a imagem de “professora solteirona” não passava de uma das representações fabricadas no magistério feminino, muito adequada para justificar a completa entrega das mulheres à atividade docente, esquecendo-se de si, reforçando o caráter de doação para desprofissionalizar a atividade. Mas em Nova Friburgo, apesar do prestígio do magistério e do bom salário, muitas ficaram “solteironas”. E por que? Explicam as entrevistadas que muitos rapazes não quiseram casar-se com professoras para não serem rotulados, devido a importância delas na sociedade, de “marido da professora”.
Entrevistadas: Maria Corrêa de Souza(1920), Maria Luiza Braune(1929), Nelie da Costa(1925) e Leyla da Silva Melo(1937).

AS MEMÓRIAS DE BRIGITTE SCHLUPP: a guerra, as fábricas e o trem no cotidiano da cidade

Nascida na Alemanha em 23 de janeiro de 1918, Brigitte Schlupp veio para Brasil no início da década de vinte. Sua família se instalou inicialmente na Bahia, mas logo se mudaram para o Rio de Janeiro. Da Bahia se recorda de uma história que a mãe lhe contara. Certa feita, sua mãe a mandou ir à rua para comprar pão. Tinha aproximadamente cinco anos de idade. Uma mulher negra lhe pegou pela mão e a conduziu à sua casa, advertindo sua mãe: “Não se pode deixar uma menina branca ir sozinha na rua. Isso não é costume”.

Viveu sua adolescência no Rio de Janeiro, casando-se em 1937 com um pastor luterano, o pastor Schlupp, como era conhecido, e foi morar em Nova Friburgo. Nos seus dezenove anos, Brigitte Schlupp se encantou com a cidade e se sentia muito familiarizada devido a presença de muitos alemães no município. A língua era um fator de unidade entre os alemães. Nas memórias de Brigitte os brasileiros foram muito pacientes. Ouviam os alemães falarem entre si na sua língua pátria em sua presença e não se importavam. Não se sentiam ofendidos por não entenderam o que falavam, recorda-se. Hoje isso seria um gesto de falta de educação, destaca Brigitte. Como os alemães falavam em seu próprio idioma com freqüência, açougueiros e quitandeiros se adaptaram e já falavam alguma coisa em alemão com seus fregueses. Brigitte praticava muito esporte como natação, tênis e ciclismo e chegou a escalar o Pico das Agulhas Negras com seu pai. Os alemães praticavam muitos esportes, se recorda. No dia-a-dia os alemães da primeira geração comiam apenas pratos de seu torrão natal. Brigitte somente comia arroz, feijão e angu na casa dos vizinhos. Mas quando criou seus filhos, já os alimentava nos moldes da típica cozinha brasileira. Só para recordar, os principais industriais e executivos das indústrias em Nova Friburgo àquela época eram alemães, logo, Brigitte convivia com a elite econômica local. Seu marido, o pastor Schlupp, adquiriu em 1949 o Colégio Cêfel, que pertencera anteriormente à Cooperativa Educacional Friburguense Evangélica Ltda., fundada pelo pastor presbiteriano, rev. Trasilbo Filgueiras e posteriormente administrada por professores metodistas ligados à Associação Cristã de Moços (ACM). Este mesmo colégio se tornou um dos maiores estabelecimentos educacionais da cidade, reconhecido pela qualidade de seu ensino.

Mas nem tudo são flores. Veio a Segunda Guerra Mundial(1939-45) e pode-se afirmar que os alemães foram muito hostilizados em Nova Friburgo. Muitos alemães foram presos, inclusive seu marido, entre os anos de 1942 e 1943 e conduzidos a uma penitenciária em Niterói, onde ficaram detidos por três meses. Alguns foram enviados para a Ilha Grande. A Igreja Luterana foi fechada e até mesmo o cemitério dos alemães. Todo alemão para se deslocar de um município a outro deveria apresentar um salvo-conduto expedido pelo delegado de polícia. Há um fato pitoresco ocorrido nessa ocasião. Uma alemã foi presa em Araruama por um motivo bizarro. Faltou luz em sua residência, que ficava próxima à costa do mar e como não havia luz ela acendeu uma vela. Foi presa por suspeita de estar dando sinal a um submarino alemão.

Brigitte se recorda do Teatro D. Eugênia e dos passeios nas alamedas da Praça Getúlio Vargas. Segundo ela, de um lado da alameda circulavam os ricos e na outra as classes populares. Recorda-se que antes das seis horas da manhã, despertava com o som de toc-toc-toc-toc-toc e lá vinham os operários com seus tamancos dirigindo-se às inúmeras fábricas da cidade: “As fábricas apitavam e os tamancos iam para a fábrica.” Depois vieram as bicicletas. Os industriais financiaram esse veículo para os operários. Quando perguntada sobre a tuberculose, lembra-se que haviam muitos tuberculosos e, por isso, não se podia tomar um cafezinho nos bares da cidade. A senhora tinha medo dos tuberculosos, pergunto? “Eu não, todo mundo tinha medo. E muitas vezes houve brigas porque o pessoal lá do Sanatório (Naval) fugia à noite para fazer farra aqui na cidade. Isso era conhecido.....”

Finalmente, o festejado trem que está sempre na memória dos mais antigos. Brigitte ia para a estação de trem ver os veranistas chegarem, uma mania entre os friburguenses. Você conhece a piada do trem, me pergunta? Fiquei na dúvida se era a do “trem atual” ou não. Mas a piada era a do século passado. “O pessoal de fora perguntava. Porque nascem tantas crianças em Friburgo? Ah, isso é claro. O trem passa às dez horas [da noite] batendo o sino, pim pim pim, o pessoal acorda, não consegue mais dormir e então...”. O que mais surpreende é que Brigitte, aos 92 anos de idade, nos fala dos acontecimentos do passado de Nova Friburgo com tanta desenvoltura, incluindo até os sons da cidade, como se fosse notícia de “ontem”. Conversando com Brigitte Schlupp mal nos damos conta que ocorreram há setenta anos atrás.

INSTITUTO COLEGIAL FREESE- A FORMAÇÃO DA ELITE POLÍTICA DO IMPÉRIO


Vista dos fundos do Instituto Colegial Freese. 01/07/1843.

Quando o naturalista alemão Hermann Burmeister visitou Nova Friburgo, em 1851, se impressionou que uma vila tão pacata tivesse um estabelecimento educacional de alto nível, “à altura dos melhores existentes no país”. Tratava-se do Instituto Colegial Freese, do inglês John Henry Freese, fundado em 01 de julho 1841, outrora Instituto de Nova Friburgo, que formou a elite política e profissionais liberais do Império. Depois de terminada a educação lá encetada, muitos ex-alunos do Instituto Colegial Freese ocuparam eminente posição na política, tornando-se deputados e senadores do Império e outros se destacaram “nas letras” e na carreira militar. Casimiro de Abreu estudou no Instituto Freese, dos 11 aos 13 anos(1849-1852), onde recebeu instrução primária. Tschudi referiu-se também ao Instituto Colegial Freese, ao seu ensino musical e a outro estabelecimento que lhe seguiu, o Colégio São Vicente de Paula, cujo fundador era o pedagogo alemão Barão Tautphaeus.

O colégio situava-se na Rua do Colégio, atual Rua Monsenhor Miranda, onde hoje funciona a Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia. Foi posteriormente vendido ao Coronel Galiano Emílo das Neves e a Cristovão Vieira de Freitas, mas o Prof. John Freese continuou como professor do colégio. O estabelecimento de ensino foi fundado pelo Prof. Freese com o nome original de Instituto Collegial de Nova Friburgo. Após a compra por Galiano das Neves e Christovam de Freitas, como preito de admiração ao fundador e antigo proprietário, mudaram o nome para Instituto Colegial Freese. Muitos educadores do afamado Colégio Pedro II foram cooptados para dar aula no Instituto Colegial Freese. Curiosamente, foi vendido ao Dr. Carlos Éboli, para se transformar em um estabelecimento hidroterápico, que recebia pacientes de todo o país para tratamento medicinal à base de hidroterapia. Digo curiosamente, pois saúde e educação sempre foi uma simbiose perfeita na economia da cidade. O Instituto Colegial Freese era amplo, arejado, dispondo de grande pátio para recreio dos alunos, grandes alojamentos para dormitórios, salas de aulas, salas de estudo, sala para exames, refeitório, oratório e uma “rica biblioteca” que impressionou o visitante. Hermann Burmeister relatara que o Instituto Colegial Freese não ficava a dever nada, quanto às instalações, às suas congêneres européias. Durante sua estada em Friburgo, o colégio, que já tivera outrora 80 alunos, contava então com 60, pois a instalação de outro instituto semelhante em Petrópolis fizera com que sua freqüência diminuísse.

As matérias ministradas eram português, grego, latim, inglês, francês, alemão, religião, aritmética, álgebra, filosofia, retórica, geografia, história geral, história natural, física, astronomia geral, desenho, contabilidade, cálculo e música. Abaixo a logomarca do Colégio Freese. Observar nas bordas os símbolos representando cada uma das matérias ministradas nesse estabelecimento de ensino.

Um dos seus diretores, o Coronel Galiano, era um erudito e apreciador de música, formando uma banda no colégio. A Campesina, cujo fundador foi o Major Augusto Marques Braga, enteado de Galiano, tinha os instrumentos gravados com as iniciais C.F., de Colégio Freese, provavelmente uma doação do Coronel Galiano.
Além de ser um estabelecimento de ensino considerado semelhante aos melhores colégios europeus, o clima sadio de Friburgo motivava também os pais a matricularem seus filhos neste colégio. Funcionando em regime de internato, as mães observavam que seus filhos quando retornavam ao lar durante as férias de final de ano, encontravam-se saudáveis e vigorosos. Uma mãe que residia na Corte, e teve três filhos matriculados no Instituto Colegial Freese, observou o bom resultado obtido pelos meninos quanto à saúde. Segundo um relato, “todos gozavam saúde, e José, o mais velho, por ser um pouco fraco e adoentado, foi o que mais lucrou com o magnífico clima do lugar.” Em razão disso, fez toda a formação de seus filhos no Instituto Colegial Freese. Mas como era a viagem destes estudantes a Friburgo? Partindo do Rio de Janeiro, tomavam eles, na Prainha, a barca que atravessava a baía, conduzindo-os até Villa Nova. Daí tomavam “carros” até a estação da estrada de ferro seguindo, pela via férrea até a raiz da serra do Morro Queimado. Neste ponto, deveriam galgar, a cavalo, serra acima até chegar a Friburgo. Ainda não havia o trem entre Cachoeiras e Friburgo, cujo trecho só seria inaugurado em 18 de dezembro de 1873. No mês de novembro, época das férias, quando os alunos regressavam aos seus lares, faziam a viagem de retorno em companhia do Coronel Galiano, que pessoalmente acompanhava os seus discípulos para a Corte, a fim de prestar exames na “Instrução Pública” e entregá-los aos seus pais. Finalizando, a lembrança do Instituto Colegial Freese, serve apenas para destacar um estabelecimento que foi um dos precursores de uma futura geração de colégios que iriam colocar Friburgo como uma referência em ensino, tanto no período imperial quanto republicano, na história da educação do Brasil.

Crédito das Fotos: Acervo pessoal da família Seng das Neves.

CRIANÇAS POBRES. ANIMAIS SEM DONO



No primeiro plano: Crianças pobres

Havia em Friburgo, no final do século XIX, um enorme contingente de menores vagando pelas ruas da cidade, vivendo na ociosidade e na vadiice desenfreada. Vagueavam pelas ruas e praças “como fazem os animais sem dono”, dizia o jornal, em estado de miséria, apesar de a maioria possuir família. Não freqüentavam a escola e nem a igreja, sendo vistos ainda pelas estradas, nas “tavernas da roça”, proferindo obscenidades, já dando mostras dos maus costumes e inclinações perversas. Profissionais do “jogo do pau” sabiam engatilhar uma arma de fogo trazendo ainda à cintura a indispensável faquinha. As autoridades normalmente encaminhavam esses menores para as atividades agrícolas. “De pequenino é que se torce o pepino”, dizia-se à época.

Era uma cena freqüente no cotidiano da cidade a briga de gangues de menores. Quase sempre nas tardes de domingo, um numeroso grupo de meninos do lado sul da cidade concentrava-se na Praça 15 de Novembro, atual Getúlio Vargas, dirigindo-se em seguida para a Praça do Suspiro onde já eram aguardados pelo grupo rival, que residia no lado norte da cidade. Começavam então entre eles as escaramuças, desafiando-se entre si, rolando sopapos e bofetadas a junco. Quando o desafeto não chegava às vias de fato a vozearia era atroadora, apupando-se mutuamente e proferindo palavrões que amedrontava os transeuntes. Muitos desses meninos de gangues andavam armados com bengalas, varas de marmeleiro, canivetes, espingarda, revólver ou garrucha. Aos que se recusavam a pertencer a algum destes grupos e que casualmente eram por estes encontrados na rua, apanhavam com bofetões, varadas e empurrões.

Há o registro de um enorme grupo de menores armados de canivete provocando sarrilho na Rua Gal. Argolo, atual Alberto Braune. O delegado, que conseguiu “pilhar na rede” quinze destes menores, constatou que somente dois deles não tinham família. Todavia, não há registro de furtos praticados por estes menores, referindo-se o periódico somente à algazarra, às brigas entre si e às provocações que encetavam aos transeuntes. Há finalmente o registro de uma malta de meninos tributus, alguns já bem taludos e moradores de um mesmo local, que se reuniam todas as noites na Rua Gal Osório, batucando em latas de querosene e fazendo um barulho “de mil diabos”, num infernal “Zé Pereira”. A matinada vinha acompanhada de gritos e assobios e quando alguém reclamava do barulho, os meninos em algazarra soltavam pachouchadas que estremeciam as senhoras.
Circulavam ainda em grande número pela estação aguardando a chegada dos trens. Empurrando uns aos outros na disputa desenfreada pelo serviço, viviam aos sopapos nas estações pelo privilégio de levar as bagagens dos veranistas, constrangendo os passageiros recém-chegados e aos friburguenses pela falta de civilidade. Alguns mais audaciosos subiam nos carros ainda em movimento um pouco antes da estação para garantir o compromisso do passageiro, correndo o risco de serem esmagados ou mutilados. Muitas vezes, a violência entre eles era tão acirrada que os passageiros ficavam atordoados e amedrontados, permanecendo nos carros até que o sarrilho passasse. Tendo em vista estes incidentes, a direção da Companhia Leopoldina chegou a proibir a presença destes menores nas estações, em virtude do constrangimento que causava aos veranistas. O guarda da estação os dispersava fazendo uso da vara de marmelo. No entanto, lá estavam eles, no dia seguinte, disputando o seu espaço naquela sociedade que os alijava.

As crianças de hoje não vivem situação diferente. São objeto da ação de pedófilos, escravidão infantil e ainda povoam as ruas das grandes cidades em situação muito próxima a de séculos atrás. E então a pergunta que não se quer calar: até quando vão existir estes “animais sem dono” em nossa sociedade?

CORONEL GALIANO DAS NEVES: UM ATÍPICO CORONEL DA REPÚBLICA VELHA


Rua Cel. Galiano Emílio das Neves. Passamos por esta rua, uma das transversais da Praça Getúlio Vargas ou nos referimos à ela como “a rua do shopping”. E foi exatamente onde se localiza o shopping que Galiano Emílio das Neves viveu os últimos dias de sua vida. Nascido em São João del-Rei em 1 de maio de 1826, assim que terminou os estudos preparatórios foi para o Rio de Janeiro, ingressando no Curso de Medicina. No entanto, vítima da tuberculose, foi obrigado a interromper a Faculdade e aconselhado, pelos mais notáveis médicos da época, a residir na então Vila do Morro Queimado, em Nova Friburgo, cujo clima saudável e salubre favorecia a convalescência desta doença. Em Friburgo casou-se com Josephina, filha de família tradicional de franco-suíços que possuíam um dos mais importantes hotéis na cidade, o Hotel Salusse. Na sua vida pública foi um republicano histórico, se envolvendo nos primeiros movimentos revolucionários de Minas Gerais contra a monarquia.
Os irmãos de Galiano, Galdino Emiliano das Neves e Joviano Firmino das Neves, também vieram para Friburgo participando da política local. Homens esbeltos e de bela cepa, são ligados ao tronco familiar do ex-presidente Tancredo Neves. O coronel Galiano possuía uma fazenda de café na localidade de Amparo, denominada Cachoeira do Amparo e outra de criação, a Fazenda São Bento, até hoje conservada pela família Seng das Neves. Mas essas propriedades nos iludem imaginando que o coronel Galiano das Neves era o típico coronel durão e matuto da República Velha, agricultor, plantador de café e com plantel de escravos. O título de coronel era uma patente em que todos os civis que compunham a Guarda Nacional a possuíam. Era mais um título honorífico do que em decorrência de uma formação militar. A aquisição de propriedades rurais denotava mais uma questão de distinção e prestígio social do que propriamente tornar-se um grande agricultor, já que o coronel Galiano das Neves trocou o amanho da terra pela educação.
Galiano das Neves adquiriu o Instituto Colegial Freese, do inglês John Freese e lecionava no colégio. Este colégio foi responsável pela formação da elite política fluminense, a exemplo de Casimiro de Abreu. Apreciador da boa música, chegou a fundar na capital federal, antes de vir residir em Friburgo, uma filarmônica denominada Campesina, onde tocava o general Deodoro da Fonseca. Igualmente, teria trazido o maestro Samuel Antonio dos Santos, fundador da Euterpe Friburguense, para Nova Friburgo, contratado como professor de música do Colégio Freese. Quando o colégio fechou, a Campesina, fundada por seu enteado Major Augusto Marques Braga, teria recebido doações de instrumentos Colégio Freese. Mesmo tendo exercido o papel de vereador, presidente da Câmara e integrar o Partido Autonomista Republicano em Friburgo, a política foi secundária na vida dele. Na realidade, seu filho, Galiano Júnior, conhecido na cidade por “Chon-Chon” quem foi aguerrido na política, tornando-se um ferrenho adversário de Galdino do Vale Filho. Apesar de republicano, D. Pedro II o distinguia com especial carinho, tendo-o convidado para um chá no Paço Imperial.
O coronel Galiano nunca foi combativo politicamente, já que eram a educação e a música a sua verdadeira missão. Homem erudito, exímio tocador de rabeca, ou seja, o violino, seu feitio nobre e moderado nunca se compatibilizou com a “tricas de campanário” da política friburguense. Falecido em 05 de maio de 1916, aos 90 anos, foi um personagem lendário em Nova Friburgo, onde todos tiravam o chapéu em respeito e simpatia ao velho coronel. Seu pai lhe deu o nome de um imperador romano para ser um conquistador, mas seu espírito tendia mais para a civilização grega, já que sua grande paixão foi a sabedoria e as artes musicais. Foi um atípico coronel da República Velha.
Crédito: Foto e documento escrito cedido pela família Seng das Neves.



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