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ENGENHO CENTRAL LARANJEIRAS: UMA LINHAGEM DE USINEIROS

PRIMEIRA PARTE:


SEGUNDA PARTE:


NOVA FRIBURGO NA DÉCADA DE 30













ANEXO, TAMBÉM O RIO DE JANEIRO NA DÉCADA DE 30:



Esse vídeo foi cedido pela família SPINELLI, imigrantes italianos que vieram para Nova Friburgo no final do Século 19.

OSWALDO CRUZ E A PESTE BUBÔNICA

O REGIMENTO DE ESTRANGEIROS: A Imigração Alemã – Parte 7



Provavelmente, se D. Pedro I não tivesse se preocupado em organizar as Forças Armadas Imperiais, a independência do Brasil não teria se consolidado e as províncias do nordeste teriam se tornado independentes do país. Para tanto, teve que recorrer a mercenários, pois as tropas nacionais tinham em sua base “vagabundos”, delinqüentes e mondrongos, recrutados através da violência. Quanto aos oficiais, todos portugueses, não desfrutavam da confiança do Imperador. O Regimento de Estrangeiros foi criado pelo decreto de 8 de janeiro de 1823, mas ficou popularmente conhecido como Batalhão de Estrangeiros. Era constituído, em sua grande maioria, por mercenários alemães. Porém, mercenários irlandeses também integraram o Regimento de Estrangeiros, assim como suíços de Nova Friburgo. Mas foi com a chegada dos mercenários alemães em 1824, enviados por Schäffer, que o Regimento de Estrangeiros ganhou visibilidade e representatividade, já que os soldados alemães em tudo eram superiores aos estrangeiros anteriormente incorporados ao Exército. Podemos afirmar que os ingleses compuseram a Marinha e os alemães o Exército brasileiro.








O Regimento de Estrangeiros teve como primeiro Comandante o francês Tenente-Coronel João Augusto Bellard, e segundo cronistas da época era mais negociante do que militar, envolvendo-se em negócios de terras em Nova Friburgo. Foi afastado do serviço ativo em 1825. O Regimento de Estrangeiros ganhou uma proporção tamanha que assustou as autoridades brasileiras. O Ministro da Guerra alertou o Imperador quanto ao perigo representado por uma grande unidade de mercenários no coração do Império. A solução seria dividi-lo em batalhões. Logo, o Regimento de Estrangeiros foi dividido da seguinte forma: dois Batalhões Estrangeiros de Granadeiros e dois Batalhões Estrangeiros de Caçadores. No Batalhão de Granadeiros, devido ao peso dos artefatos, eram escolhidos para compô-lo homens morrudos. Com o tempo, esses soldados granadeiros foram agrupados em tropas autônomas, uma tropa de elite, destinadas às missões de choque. O 2° Batalhão de Granadeiros foi escolhido para fazer a guarda do Palácio de São Cristóvão e proteção especial do Imperador e de sua família. Para esse batalhão eram destinados os alemães mais altos, fortes e de melhor aparência. Com os mercenários alemães vindos nos navios Argus, Caroline, Anna Louise e Germânia organizou-se as primeiras unidades mercenárias alemãs do Exército Imperial. A média de idade desses soldados era de 26 anos. Foram os mercenários alemães que lutaram na Guerra Cisplatina, juntamente com as tropas nacionais, numa interessante passagem de nossa história.






Desde a chegada dos primeiros navios até 1829, foram destinados 3.000 alemães às colônias, 4.000 ao serviço militar e 1.000 cujo destino não há especificação. Sabe-se pelos quadros efetivos das unidades mercenárias alemãs, que apenas 3.000 soldados foram de fato incorporados ao Exército Imperial. Muitos subornaram as autoridades brasileiras e passaram à condição de colonos. No total de homens alemães adultos que imigraram para o Brasil, a proporção foi de para cada 3 soldados, havia 1 colono homem adulto. Essa proporção não agradou em nada as autoridades brasileiras que queriam bem mais soldados do que colonos, pois se desejava braços para o Exército e não agricultores para o campo. Somente os soldados tinham suas passagens custeadas pelo governo brasileiro. A princípio, aquele que custeara sua passagem ficava na condição de colono, mas há quem afirme que houve pressão sobre os colonos para que assentassem praça no Exército. Trazendo essa questão para Nova Friburgo, há o registro de que Peter Grieb(Gripp), 26 anos, assentou praça no Regimento de Estrangeiros. Irmão mais jovem do moleiro Balthasar Grieb, não seguiu com o irmão para Nova Friburgo. Teria sido forçado a assentar praça? Possivelmente sim, devido à sua idade e porte físico. O caso de Peter Grieb é objeto de controvérsia entre os autores Soares de Souza e Saldanha Lemos, que divergem quanto ao livre arbítrio que tiveram os colonos quando chegaram ao Rio de Janeiro. Para o primeiro, os colonos possuíam livre vontade sobre o seu destino, desde que tivessem pagado as suas passagens. Porém, Saldanha Lemos demonstra em “Os Mercenários do Imperador” que mesmo vindo na condição colonos, alguns foram obrigados a servir nas Forças Armadas. Conhecendo a história do recrutamento no Brasil, a “pau e a corda”, ficamos com Saldanha Lemos, pois o governo brasileiro desejava homens não para segurar uma enxada, mas uma espingarda de pederneira. Até meninos eram aproveitados nas bandas de tambores, pífaros, caixas-de-guerra e cornetas.





O 26° Batalhão de Caçadores, devido às desordens que provocavam no Rio de Janeiro, ganhou dos cariocas a alcunha de Batalhão do Diabo, pois nas horas de folga tais soldados viviam bêbados, provocando arruaças e sempre envolvidos em pancadarias com a população. Era o terror dos negros e dos donos de bodegas. Porém, o Batalhão do Diabo gozava de uma especial simpatia do Imperador D. Pedro I devido às suas bem alinhadas evoluções militares e de sua lealdade. O Imperador se divertia com as estripulias desse batalhão. Era exatamente esse tipo de homem que o Imperador precisava. Para exterminar um foco remanescente do movimento insurrecional e separatista, conhecida por Confederação do Equador, iniciada no Recife em 1824 e que se espalhara pelas províncias da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, o Imperador pensou logo no Batalhão do Diabo. Missão dada, missão cumprida. O Batalhão do Diabo, fazendo justiça a sua alcunha, foi para Pernambuco e acabou com a rebelião, trucidando os rebeldes. Na próxima semana “Os Colonos Alemães por Schlichthorst.”



CHILDREN IN ART







HOMENS NA ARTE E NO CINEMA





WOMEN AND MEN IN FILM




WOMEN IN ART










FRANCISCO GOYA











WOMEN IN ART















WOMEN IN ART





















UMA VIAGEM DE TREM PELO CENTRO DE NOVA FRIBURGO

Exposição do trem na Praça Getúlio Vargas em Nova Friburgo:




Percurso de um trem muito próximo do que teria sido em Nova Friburgo:

A Fisiologia da Cidade: Tipos Friburguenses no Século 19

A “fisiologia” foi um gênero literário que surgiu na França na primeira metade do século XIX, sendo denominada “literatura panorâmica”. Nesse tipo de texto, singelos cadernos em tamanho de bolso – que eram chamados de physiologies – assumiram um lugar de destaque. Buscavam tipos como aqueles que são encontrados por alguém que dá uma volta pelo mercado. Desde o camelô até os elegantões do foyer da ópera, não havia nenhuma figura da vida parisiense que o physiologue não tivesse desenhado. Após ter-se dedicado aos tipos humanos, a série chegou à fisiologia da cidade. Aparecem Paris la nuit, Paris à table, Paris dans l’eau, Paris à cheval, Paris pittoresque, Paris marié. O objetivo das fisiologias era dar uma imagem alegre e cordial das pessoas entre si (Benjamin, 1985, p. 65).

Certamente, os jornalistas em Friburgo conheciam esse tipo de literatura. Foi editado por algum physiologue friburguense Typos de Friburgo, um elegante livrinho no qual eram descritas as pessoas mais conhecidas da sociedade, no registro de O Friburguense de 22 de setembro de 1898. Numa sociedade que era uma verdadeira “torre de Babel”, compreendendo portugueses, italianos, espanhóis, franceses, turcos, descendentes de suíços e os nativos, desfilavam por Friburgo variados tipos sociais, personagens ilustres e alegóricos do cotidiano da cidade. A coluna denominada “Typos de Friburgo”, assinada por um certo “Língua de Palmo”, inventariou interessantes descrições de figuras ilustres, entre políticos, médicos, negociantes e capitalistas. Essa coluna nos legou, através do encômio de alguns desses tipos, uma noção do que eram as qualidades do homem oitocentista. Ao se analisar esses “tipos”, observa-se que havia elementos que se repetiam na definição de cada um dos descritos. Uma característica que era vista como uma qualidade e que se manifestava em quase todos eles era a eloqüência, a palestra atraente, o aticismo, a verve, a aptidão para a oratória, a qualidade de um causeur, atributos muito apreciados em um homem naquela época. A modéstia, sem dela fazer gala, vinha também a reboque como uma qualidade do homem oitocentista. Se fosse bom palestrante e ainda por cima modesto, diversos louvores eram tecidos sobre o indivíduo, comungando essas duas qualidades numa simbiose perfeita. Além da oratória, a escrita também era valorizada, principalmente dos que se aventuravam na literatura, como era comum em Friburgo, em particular os advogados.

A erudição e as sentenças clássicas eram ainda muito apreciadas. Logo, a estirpe intelectual era destacada, fosse ela decorrente do conhecimento literário ou filosófico, das artes dramáticas, da ópera, do lírico ou da música. A elegância e o porte eram características também muito destacadas, sendo o tipo dândi o mais reverenciado, cuja indumentária era descrita com detalhes, de forma quase pedagógica, para dar mostras aos pupilos do que era ser um homem elegante e seguir-lhe o modelo. O fumo de charutos era um hábito apreciado por quase todos. O fato de ser um indivíduo trabalhador também era destacado, principalmente quando eram homens de sucesso, numa analogia entre labor e fortuna. Quanto ao aspecto sedutor, alguns eram reverenciados não somente por sua beleza, considerados enfant gaté, como ainda por sua qualidade natural de conquistador que gozava das simpatias das damas da cidade. Eram esportistas, amantes de caminhadas, cavalgadas ou equitação, caça e pesca. A voga dos esportes e dos exercícios físicos combinava com os modelos higienistas da época. Souza Cardoso foi um dos tipos descritos pelos fisiologistas:

(…) É poeta e redactor d’O Friburguense (…) seo jornal é bem feito,
noticioso, litterario, symphatico e no gênero representa um verdadeiro tour de force, de perseverança e abnegação (…) sua política é a da prosperidade desta terra a que muito presa. O typo phisico é atrahente, sente-lhe nas longas barbas brancas a bondade e a paz de patriarcha feliz. O Friburguense é seu filho mais novo, o seu querido Benjamim a quem elle prodigalisa thesouros de ternuras e prosa que não parece velho pelo geito e pela graça (…).

Alguns desses tipos foi possível identificar, mas a seleção a seguir, extraída de diversos números de O Friburguense de 1896, serve para exemplificar o que era objeto de gabo da sociedade friburguense:

1) É popularíssimo em Friburgo. Passo lento e bambo de philosofo nostálgico(…). É um repositório inesgotavel de erudição, de sentenças clássicas, de ironia acerada e brilhante. Tem a nobreza de uma illustre estirpe intellectual. É advogado(…).

2) É barão. Estatura fina e delgada de canário belga.
Madrugador, jovial, percorre Friburgo n’um abrir e fechar d’olhos, passo rápido, nervoso, vestes largas e simples. Tem um repertorio vasto de pilherias conhecidas e inéditas, applica-as com um jeito fidalgo e ferino, roda sobre os calcanhares acuvo, afreimado(…). É amador da musica, assobia Arias, canta duettos, faz variações por flauta, discute a Paixão, enthusiasma-se como um rapaz, deita dircurso (…).

3) Traja irreprehensivelmente. Maneiras fidalgas de uma distincção notável, linguagem fácil, luxuosa, incisiva. Discute tudo, psychologia, briga de gallos, com o mesmo primor de forma, com a mesma belleza e elevação (…). É um prazer delicioso ouvil-o em momentos de humorismo hilariante ou de pessimismo paradoxal(…).

4) É engenheiro e já foi vice-presidente deste Estado. Sympathico, despreoccupado, sua palestra é uma bella orchestração de ditos corroscantes, de conceitos originaes e justos, envolvidos na púrpura de uma imaginação, opulenta, meridional (…). (Getúlio das Neves.)

5)Advogado e philosofo. Contemplativo, absorto, passa horas e horas a scismar em doenças, a construir castelos de pílulas (…).

6) É tabelião(…). Veio para Friburgo como um palito, com o pulmão fraco, versos lipicos e prosa romântica; hoje é um bom burguez, meticuloso e exacto no cumprimento dos seus deveres.

7) Entre os typos sumpathicos de Friburgo cabe-lhe lugar no primeiro plano. É medico e deputado. Medico distincto, caritativo, dispensa com maior desinteresse á todos os cuidados da profissão que converteu em verdadeiro sacerdócio, a confiança e sympathia que inspira aos doentes faz com que cure muitas vezes sem receituário; deputado, a sua política é tolerante e melíflua, seus conselhos são vincados de alto prestigio moral, pela respeitabilidade do seu caracter, pelo bello cultivo de seu espírito. Os adversários, os mais intransigentes prestam-lhe os devidos respeitos e amisades pelo trato gentil e cavalheiroso, pela nobreza e franqueza do seu modo de agir determinado e seguro, mas sempre digno e correcto. Nessa cidade que elle estremece todos lhe são affeiçoados e muitos conhecem os thesouros da sua alma amantíssima e caridosa (…). (Ernesto Brazílio.)

8) É major reformado da velha-guarda tem condecorações que muito o distinguem (…). É monarchista convencido e acredita estar com a verdade(…).

9) Em sua pátria, a bella pátria de Garibaldi, foi militar valoroso e digno (…). A sua vocação porém, é a pharmacopéa (…). Seus extractos fluidos são incomparáveis, seus preparados chimicos fasem milagres, reconstituem organismos gastos, ressuscitam defuntos (…).(Raspatini.)

10) É coronel honorário, propagandista da guarda nacional (…). Vigia com cuidado que ninguém lhe tome o posto (…). Em eleição é mestre, somma bem, em sua arithmethica eleitoral 4 e 4 fazem dose o que o não
impede, entretanto, de ser cavalheiro gentil e estimável.(Coronel Zamith.)

11) É poeta e bacharel em sciencias jurídicas. Que tenha algum dia um
escriptorio com laca á porta e que seja capaz de ler e arrasoar (…). Entre a teoria de Lombroso ou de Tarde, elle se inclinará de preferência para um soneto de Baudellaire, para uma estrophe de Verlaine, se a rabulice forense perder com esta preterição exultará a sublime arte que elle amorosamente trata e cultiva.
Phisico elancé, toilette a Broummel, palestra adorável, fazem delle um typo de selecção a quem a diplomacia offerece as suas graças e o scenario brilhante de seus triunphos. Tem sido infeliz em certas partidas, as mulheres não entendem a extesia caprichosa do seu temperamento mas sentem a volubidade dos seus (…) cantares.

12) (…) na redação do jornal faz tudo; o artigo de fundo, a chronica humorística, a noticia, com a mesma correcção e com o mesmo critério
(…). A critica theatral do Friburguense é um primor. Sente-se que são escriptas por quem conhece as “chevilles” do palco, os segredos da “mise-en-scène”, por quem em outros tempos foi amador dramático (…). Hoje é guarda-livros (…). Tem um gesto favorito: cofia a barba, uma barba digna à Duque de Guise (…). (Francisco Pinto de Almeida.)


13) (…) é o agente consular da colonia italiana desta cidade (…). Quando não exerce dos difíceis misteres de sua missão patriótica no terreno da diplomacia e da política, vende vinhos italianos (…).
Quando não vende vinhos fecha a porta, põe a espingarda ao hombro, enche o cachimbo de tabaco, um cachimbo do tamanho do Diabo, uma botelha de chiante, abala para o mato à caça e quase sempre mata o bicho-chiante. Quando não vai à caça toma os caniços, a tarrafa, põe mais tabaco no cachimbo e vae pescar lambarys nos afluentes do rio Bengala onde pesca infalivelmente uma garrafa de Falerno. Quando não vai à pesca fica em casa engarrafando vinho, enchendo a cada momento o cachimbo e discorrendo sobre as caçadas, grandes caçadas em que há
sempre salsichas, paios, mortadellas e frascos de chiante. (Maggiorino Massa.)

14) É advogado e lavrador. Convenceu-se de que nesta terra a melhor
cousa que um homem intelligente póde fazer é plantar café, cana, batatas, etc. (…). Foi deputado do Estado (…). Entretanto outr’ora, “ça va sans dire”, foi amador de operetas, horisontaes e de ceias “a lá diable”. Hoje mudou completamente, fez-se bom burguez (…) é um excellente rapaz, jovial (…), de maneiras insinuantes, de palestra agradabilíssima pela cultura litteraria, pela espontaneidade da verve, uma verve faiscante e rubra. De quando em vez, transparece n’elle o antigo bohemio, mas bohemio a Murger, de espírito faceto e coração generoso.

15) É uma das figuras obrigadas do Friburguense. Faz a revisão, a noticia, a paginação do jornal, o seu querido jornal (…). É um bonito moço, elegante, correcto e sympathico, d’ahi o prestigio que gosa entre o eterno feminino que elle presa e se orgulha de possuir as sympathias (…). (Augusto Cardoso.)


16) É italiano (…) filho da cidade de Salermo (…). Começou a mascatear, mas só em roupas, artigo que entende bem (…). Hoje é importante negociante de seccos e molhados, trabalhando sempre, mas sabe viver bem, mora em uma das melhores casas dessa cidade (…). (Giovanni Giffoni.)


17) É de Nictheroy onde foi liberal extremado e é proprietário de um bom estabelecimento de seccos e molhados (…). Proporciona todos os dias agradáveis reuniões nas portas de seu estabelecimento onde concorre o “high life” masculino, impondo-lhes a obrigação de tomarem assento em duras cadeiras. Assiste a essas reuniões onde é proihibido tratar da vida alheia, cedendo sempre a presidência a algum dos concurrentes (…).


18) (…) é distincto engenheiro; na câmara dá sentenças. Traja bem, calça bem talhada, colete elegante e palitó de gola de veludo. Mòra em casa pequena, mas mobiliada com arte e gosto; os moveis representam antiguidade de fidalgo. É bem jovial e tem espírito, conta anedoctas que faz lembrar o primo Bazílio. Propagandista da luz electrica (…). Vae sempre a capital assistir as primeiras representaçõese quando volta faz descripções que muito deleitam os ouvintes (…). (Joseph Lynch.)


O periódico O Beija-Flor também retratava os tipos da cidade numa coluna intitulada “Typos e Typões”, mas com um formato diferenciado que objetivava elaborar uma espécie de charada sobre o perfil de quem se descrevia:

TYPOS E TYPÕES
I
Profissão: Desde o fumo,
passando pela polícia até a Câmara.
Particularidade: Cultiva verde para
colher maduro.
Endereço Postal: No quartinho secreto, dos fundos.
Divisa: Ser chefe dos tribudos “guaranys”.
II
Profissão: Não disputa
o boticão, orador popular e membro de commissões
de bailes e manifestações.
Particularidade: Tudo pela classe.
Endereço Postal: Centro.
Divisa:
O operário é o baluarte das grandes nações.
(O Beija-Flor, de 6-10-1895.)

TYPOS E TYPÕES
Profissão: Accusar por dever.
Particularidade: Fallar pouco, quando deve ser ao contrario.
Endereço Postal: órgão (…).
Divisa: Para olhos que ferem há attenuantes.
(O Beija-Flor, de 13-10-1895.)

TYPOS E TYPÕES
Profissão: Administrador
effectivo e coronel honorário.
Particularidade: Repórter por natureza.
Endereço Postal: Mona (…).
Divisa: Quem não quiser ser lobo não lhe
vista a pelle.
(O Beija-Flor, de 27-10-1895.)

Quanto ao perfil feminino, foi retratado usando-se a personagem de um artista que com a sua palheta pintava os perfis das elegantes senhoras e damas da cidade. “Silhouettes” era uma pequena coluna publicada em francês, em O Friburguense, no período de 26 de abril a 31 de maio de 1896. Segundo o periódico, quando se retratavam tão nobres e elegantes friburguenses, somente o idioma de Racine poderia retratar a donaire, a elegância da elite citadina. O porte, as boas maneiras, o garbo, o bom gosto, todas essas qualidades foram pintadas pela palheta e assinadas por C. Fróes e J. Cardoso, esse último provavelmente o articulista Sousa Cardoso:
Blonde.
Elle a um joli visage de deésse de l’ancienne Mythologie.
Elle posséde une élégance exquise, un physique alancé et vaporeux, une grace de parisienne commen faut. Ses toilettes sont toujours chics, toujours à soi même.

Elle a des yeux bleus profonds, des yeux oú les petits symboles de
l’amour dansent comme dans une pagode indienne.
Elle a une beauté pleine de séduction, de genre de beauté qui tourmente les hommes et fait naitre en eux l’amour. Elle est brune.

Elle a les cheveux noirs, les yeur noirs, un noir
illuminé et doux. Materiellement, elle n’est pas belle.
Elle a dans le visage une expression de doucer delicieuse.
Lá reside le secret de son charme.
Elle este pâle.
Quand elle reprend les couleurs de la santé, il
me semble que ce n’est plus elle.
Quando elle rit, de son rire éternel, je ne puis me
defendre d’une vague mouvement d’hostilité et presque de colére contre son rire. Elle est l’image monote du rire.
(O Friburguense, vários números,
de 1896.).

As mulheres também não foram esquecidas pelo periódico O Beija-Flor:

PERFIS
Eu cá no número próximo
Começarei publicando
O perfil airoso
e brando
Das bellas moças de cá;
Darei o perfil das pallidas,
E das
morenas tão cheias
De bellesa, só as feias
Não terão perfil, olá!
Myosotis.
(O Beija-Flor, de 6-10-1895.)

Apesar de não descritos pelo fisiologista, também compunham o elenco de figuras conhecidas alguns personagens das classes populares. Entre elas os “tipos de rua”, que faziam parte do cotidiano da cidade, sendo geralmente indivíduos negros, loucos, alcoólatras e provavelmente
egressos da escravidão: "(…) É a consagração indispensavel que prepara o trimpho immortal dos typos de rua, que os faz tão intimamente ligados a uma phase da vida colletiva, a existência de uma sociedade num determinado período histórico". (O Friburguense, “A Perua”, de 12-7-1896.)

O poder constituído, em Nova Friburgo, costumava despachar os negros e crioulos alcoólatras para o hospital de alienados em Niterói e os velhos indigentes para o asilo de mendicidade na capital federal. O delegado de polícia detinha, inicialmente, esses indivíduos na cadeia e aguardava a autorização do chefe de polícia do estado para realizar o traslado. Apesar de muitos terem sido despachados da cidade, alguns resistiram e passaram a fazer parte da paisagem e do cotidiano de Friburgo. Pequenos furtos ou ainda agressões cometidos por essas personagens eram tolerados pelas autoridades locais. Segundo Magali Gouveia Engel (2003, p. 63), no começo do século XX, personagens cujas trajetórias de vida se desenrolavam nas fronteiras entre a loucura, a embriaguez, a mendicância e a vadiagem conseguiram preservar as vivências e convivências proporcionadas pela liberdade das ruas.

Freqüentemente, os negros eram objetos das brincadeiras e escárnio por parte da população. Havia em Friburgo o “tenente maluco”, que, do meio-dia em diante, ameaçava quebrar a “cuia” de quem passasse por ele. Já o negro “Roão”, quando estava “na chuva”, ou seja, bêbado, despejava um turbilhão de palavrões.147 O articulista queixava-se: “Ou elle ensaboie a lingua ou raspe-se do logar.” “Tiny” era a alcunha de uma célebre crioula de nome Joaquina de Jesus, que costumava roubar roupas e frutos dos quintais, levando sempre uma advertência do delegado de polícia. Já a preta Leopoldina, que atacava geralmente crianças na estrada, ferindo-as, era mais temida e levava bons sopapos e cachações do delegado, quando detida. Uma outra mulher preta que dizia chamar-se Margarida, e que o vulgo mudoulhe o nome para “Coruja”, servia de joguete da molecagem. Por ela não concordar com essa mudança de nome, uma torrente de palavras que, segundo O Friburguense, “a moral repugna reproduzir” era proferida, aumentando ainda mais a gaiatice da rapaziada. “Não haverá quem ponha cobro a isso?”, cobravam os mais moralistas no editorial de O Friburguense de 25 outubro de 1891.
Como disse, os tipos populares eram quase sempre mulheres e homens negros, provavelmente loucos em razão das sevícias da escravidão, cuja extinção era ainda recente.
É significativo que os negros sempre tivessem alcunha, como o preto Vicente da Silva Barros, vulgo “Roão”, e que, por mais que lutassem para adquirir uma identidade, com nome e sobrenome, acabavam sempre sendo reconhecidos por seus apelidos (O Friburguense,
de 31-5-1891.)

A preta Margarida, ou “Perua”, como era conhecida, nome dado pela molecada, era o tipo mais popular da cidade. “Perua” já não se irritava mais com a alcunha que lhe haviam dado e passava requebrando o corpo, envolto em um xale, e arrastando os chinelos. De luneta acavalada sobre o nariz adunco, lápis e papel nas mãos rascunhando caracteres ininteligíveis e bramindo alto, pintava a saracura, numa[ fúria de histeria inofensiva, com terríveis predições apocalípticas. Na estação ou na porta da igreja, a molecada gritava: “Perua! Perua!” Era o grito constante e, por onde ela aparecesse, formava-se logo uma roda. Havia os que a admiravam, os que a provocavam para rir de seus arremessos à garotada e aqueles curiosos em ouvir suas previsões e imprecações de desgraças para o futuro. “Perua” era vista arrastando-se, beijando e chorando o lajedo dos adros da Igreja-Matriz. Nesse momento, comovia os transeuntes mais piedosos, na sublime e dolorosa austeridade da sua religião de histérica. Após a penitência, seguia sob um coro de gestos e apupos, já fazendo parte do cotidiano da cidade a flânerie da jovem preta Margarida. No rosto, sempre a expressão alucinante, ouvindo revelações da outra vida, tão inofensiva na sua demência, tão desgraçada na sua vesânia. Heranças da escravidão.


Fonte: Extraído do livro "O Cotidiano de Nova Friburgo no final do século 19> Práticas e Representação Social".

O COTIDIANO DO RIO DE JANEIRO NO SÉCULO 19: TIPOS CARIOCAS.






FAMÍLIA SPINELLI


Quando comecei a escrever em A VOZ DA SERRA intitulei a coluna de história e memória. História, por tratar das fontes tradicionais e memória para resgatar os acontecimentos do passado, narrada por indivíduos que foram testemunhas ou partícipes da história local.
A partir da segunda metade do século XIX, houve uma significativa imigração de italianos para Nova Friburgo. Entre as inúmeras famílias que migraram estavam os Spinelli, originários de Verona, a romântica cidade que serviu de ambientação da peça de Shakespeare, Romeu e Julieta. Os timoneiros desta família foram Luiz e Marieta Zuanazzi Spinelli, que chegaram ao Rio de Janeiro em 13 de janeiro de 1889 e depois de trabalhar algum tempo para o Barão de Duas Barras, em Cantagalo, migraram para a florescente Nova Friburgo. Recordemos, entre 1881 e 1913, imigraram para o Brasil mais de um milhão e seiscentos mil imigrantes, sendo boa parte deles constituída por italianos.


Luiz Spinelli trabalhou inicialmente em serviços de aluguel de carroças, limpeza pública e na construção civil, tendo inclusive participado da edificação do palacete do Barão de Duas Barras, hoje Faculdade de Odontologia, nas obras do Colégio Anchieta e do pavilhão de caça do Visconde de Nova Friburgo, atualmente Sanatório Naval. Seu primeiro estabelecimento comercial foi uma padaria, a padaria Spinelli, hoje padaria Suíça. A partir de então, Luiz Spinelli, já auxiliado pelos seus onze filhos, fez com que os negócios da família Spinelli crescessem vertiginosamente até tornar-se um grande holding em Nova Friburgo.


Os Spinelli foram proprietários de uma grande loja de departamentos, que funcionava no térreo do atual edifício Spinelli, na Praça Getúlio Vargas. Este prédio, o primeiro edifício da cidade, foi construído onde funcionava o outrora resplandecente Hotel Salusse. Vendiam na loja automóveis, material de construção, eletrodomésticos e tudo que a modernidade oferecia à época, como os primeiros aparelhos de rádio, geladeira e televisão. Dizia-se à época que se alguém fosse casar-se, os Spinelli forneciam tudo. Construíam a casa, faziam os móveis, vendiam os eletrodomésticos, enfim, forneciam tudo.


Os Spinelli possuíram o primeiro automóvel em Nova Friburgo e foram representantes da Ford, além de diversificarem seus negócios no ramo da carpintaria, transporte de cargas e passageiros e agropecuária. Foram os pioneiros na viação em Friburgo. A propósito, os Spinelli foram pioneiros em tudo. Trouxeram para Friburgo na década de quarenta o primeiro avião bimotor para transporte de passageiros. O campo de pouso situava-se onde hoje se localiza o Batalhão da Polícia Militar. Um serviço em que estamos hoje muito longe alcançar, Friburgo já o tinha no século passado.


De acordo com o Sr. Nelson Spinelli, Nova Friburgo cresceu junto com os Spinelli. Impulsionaram as atividades de comércio, serviços e agronegócios na cidade, além de participar das atividades culturais, auxiliando os clubes sociais, como o Xadrez, modalidades esportivas, como o futebol, e o que foi mais importante, colocando Nova Friburgo na vanguarda em tudo que a modernidade oferecia nos primeiros anos do século XX.


Indubitavelmente, pode-se afirmar que o progresso de Friburgo coincide com o crescimento dos negócios dos Spinelli, de forma que se torna impossível separar a urbanização da cidade de um dos seus principais atores: a família Spinelli. Fonte: Entrevista com o Sr. Nelson Spinelli.







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