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O INTERESSANTE EPISÓDIO DOS PRISIONEIROS ALEMÃES EM NOVA FRIBURGO


Durante a Primeira Guerra Mundial(1914-1918) ocorreu um interessante episódio em Nova Friburgo envolvendo prisioneiros alemães. Esse episódio coincide com o início da industrialização do município e esses dois acontecimentos irão se imbricar para dar novos matizes ao momento histórico pelo qual passava Nova Friburgo. Na Primeira Guerra Mundial, vários navios alemães da Marinha Mercante foram detidos nos portos brasileiros. Ao todo foram apreendidos pelo governo brasileiro 45 navios mercantes que se encontravam ancorados em portos nacionais. O objetivo era aprisionar e “internar” os seus tripulantes bem distante do litoral. Uma das cidades a que destinou esses marinheiros foi Nova Friburgo, notadamente reconhecida como um local onde os imigrantes não padeciam do problema de aclimatação e se adaptavam sobremaneira. Nova Friburgo recebera o primeiro grupo de colonos alemães em 1824(343), sendo que em 1892, igualmente, 703 alemães imigraram para o município.


Para abrigar, em Nova Friburgo, uma parte dos alemães detidos nos portos brasileiros, escolheu-se o Sanatório Naval. Inaugurado poucos anos antes, em 1910, o Sanatório Naval foi instalado para tratamento e convalescença de marujos beribéricos e tuberculosos. Era um local perfeito onde compartilhariam o mesmo espaço com “homens do mar”, não obstante os brasileiros serem militares e os alemães civis. Faltam pesquisas para se saber o número exato de prisioneiros que se instalaram no Sanatório Naval, mas Fischer em “Uma História em Quatro Tempos” nos informa que foram, aproximadamente, 227 alemães da Marinha Mercante. Já José Pereira da Costa Filho, o Costinha, que trabalhou na construção dos barracões até 1916, informa-nos que eram 1.500. Os oficiais ficavam nos barracões e os soldados acampados em barracas. Os oficiais ficaram acomodados em casas de alvenaria e o restante em barracas armadas no terreno do Sanatório. Denominou-se o local de Campo de Internação. De acordo com a memória de alguns friburguenses, o Campo de Internação era uma verdadeira atração na cidade, e todos subiam para o Sanatório Naval curiosos em observar os prisioneiros alemães. Como houvesse muitos alemães e descendentes dos primeiros colonos e imigrantes em Nova Friburgo, levavam a sua solidariedade na qualidade de irmãos germanos. Maximilian Falck, proprietário da recém instalada Fábrica Ypu, dava assistência aos alemães internados como prisioneiros. Mas quanto ao restante da população friburguense, era pura curiosidade, assim como apreciavam ir à estação de trem ver quem chegava e partia da cidade. Mas o que a industrialização em Nova Friburgo tem a ver com esses prisioneiros, como dito acima? Aos tripulantes alemães foi dada permissão pelo governo brasileiro para trabalharem onde estivessem “internados”. Para tanto, o empregador deveria manter periódico contato com a Comissão Militar comunicando a permanência do “internado” a seu serviço. Desde 1911, Peter Julius Ferdinand Arp(1858-1945), um grande empresário alemão, estabelecia-se em Nova Friburgo no ramo da indústria têxtil, atraindo inclusive outros empresários alemães. Como a mão de obra especializada talvez fosse um problema para lidar com o maquinário importado, prisioneiros alemães foram cooptados para as recém instaladas indústrias. Muitos deles, principalmente entre os oficiais, tinham capacitação técnica que se amoldava perfeitamente à demanda das novas indústrias em Nova Friburgo. Até então esses profissionais vinham de outros estados do Brasil. Nesse sentido, utilizaremos como exemplo Richard Hugo Otto Ihns(1889-1960). Originário da Prússia, oficial da Marinha Mercante alemã, encontrava-se em Pernambuco quando em 1914, a Primeira Guerra Mundial eclodiu. Seu navio ficaria detido durante três anos até que, em 1917, as autoridades brasileiras resolveram enviar o seu navio, o “Cap. Finister”, para Nova Friburgo.


Foi Maximilian Falck, um dos empresários alemães quem o colocou na empresa de Julius Arp, em razão de suas habilidades técnicas. Em 1919, Ihns já era gerente da Fábrica de Rendas e estabelecido definitivamente no Brasil. Foi devido à morte de um filho seu que transformou o antigo cemitério alemão em um aprazível parque, fundou um clube social somente para os alemães(atual Sociedade Esportiva Friburguense) e reorganizou a Sociedade Evangélica Luterana em Nova Friburgo. A importância dos empresários alemães na economia local se refletiu no novo status dado aos alemães. Richard Ihns tornou-se membro do Conselho Consultivo de Nova Friburgo e ocupou vários cargos na Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Nova Friburgo. Tem-se a impressão de que Richard Ihns resolveu dar à comunidade alemã, em Nova Friburgo, um upgrade. No campo das sociabilidades, foi sócio-fundador do Rotary Club de Nova Friburgo(1950) e igualmente sócio-fundador do Nova Friburgo Country Clube, da Sociedade de Tiro ao Alvo Sans Souci e do grupo de “Bolão”. No tocante ao Country Clube, a elite friburguense resolveu se desgarrar do Clube do Xadrez, já que incomodava a frequência de operários e pequenos comerciantes naquele clube. Assim como Richard Ihns, outros tripulantes de navios optaram por permanecer na aprazível Nova Friburgo, até porque, conforme sabemos, a situação econômica e social da Alemanha se agravaria depois dessa guerra. Mas essa história não teve somente final feliz. Um surto de tifo em Nova Friburgo matou uma dezena de tripulantes alemães. Quem visita o cemitério luterano normalmente estranha a presença de vários túmulos idênticos, de rapazes mortos em tenra idade em curto período de tempo. São eles os tripulantes que se encontravam detidos no Sanatório Naval e que faleceram de tifo. Trata-se ou não de um interessante episódio ocorrido em Nova Friburgo?





FUJAM RAPAZES! O RECRUTAMENTO MILITAR VEM AÍ!


“Aviso Importante: vai ser aberto o recrutamento. Previnam-se no sábado, antes do toque de aleluia, não saiam à rua os homens marca gigante...”. Foi assim que o jornal O Friburguense noticiou a possibilidade de um recrutamento em 1893, em Nova Friburgo. Mas por que o alarde quanto ao recrutamento militar? Na realidade, o problema consistia precipuamente nos “braços” para a lavoura que as famílias perdiam em tendo os seus filhos e até maridos recrutados. Logo, quando corria o boato de recrutamento, os filhos dos agricultores escondiam-se nas matas com o auxílio da família, como verdadeiros fugitivos. Desde o período colonial até o Império, o recrutamento para as tropas sempre foi o maior espantalho da população brasileira e a tradição oral ainda conserva em alguns lugares bem viva a lembrança deste temor, nos informa Caio Prado Júnior. Não havia critério algum para o recrutamento, nem sequer organização. Tudo dependia das necessidades do momento e do arbítrio das autoridades. Por ocasião de revoltas e na guerra, como a Guerra do Paraguai(1865-1870), muitos escravos foram cooptados a defender a soberania nacional como soldados de infantaria. Havendo necessidade de soldados, os agentes recrutadores saíam à cata das vítimas, entrando pelas casas, forçando portas e janelas e se dirigiam até as escolas para arregimentar os estudantes. Nem os eclesiásticos se livravam do recrutamento forçado e eram retirados a força de suas paróquias para servir nas Forças Armadas. Quem fosse encontrado pelo recrutador e julgado em condições de tomar as armas era, incontinenti, arrebanhado e levado aos postos. Logo, ao menor sinal de recrutamento, a população masculina desertava dos lugares habitados embrenhando-se no meio do mato. O maior castigo era por o côvado e meio às costas de um brasileiro, isto é, o pano da farda. A elite da época não valorizava a carreira militar, preferindo chefiar as milícias locais, a exemplo da Guarda Nacional, onde recebiam títulos de coronel e armas.



Com a chegada da Família Real em 1808, D. João VI endureceu estabelecendo em 8 anos o tempo de serviço para os voluntários e o de 16 anos para os não voluntários, ou seja, os recrutados à força. No entanto, como o recrutamento desenfreado estava retirando os braços da lavoura, houve uma crise no fornecimento de alimentos às cidades. João VI, por conseguinte, isentou do recrutamento agricultores, condutores de mantimentos, de gado e mineiros. Como os homens trabalhadores e morigerados não poderiam ser arregimentados, optou-se pelos ociosos, já que havia necessidade de homens para os regimentos de Infantaria e Artilharia da Corte. O Decreto n°9 de 1811, ordenava claramente que se recrutassem vagabundos e homens de má conduta, o que para os padrões atuais das Forças Armadas soa como algo extremamente bizarro. D. Pedro I, igualmente esvaziou as prisões cariocas na condição dos criminosos tomarem em armas nos regimentos da Armada, diminuindo ainda o tempo de 8 para 3 anos no intuito de motivar o voluntariado para o Exército. Manteve a proibição de se recrutarem homens morigerados e de não refrescar no recrutamento dos desocupados. Nas ocasiões de recrutamento, as vilas e cidades aproveitavam a solicitação de recrutas para esvaziar as suas cadeias enviando homicidas e vagabundos para servirem na Armada. Mas na prática os recrutadores não respeitavam os trabalhadores, daí a fuga de rapazes dos campos e das oficinas, acoitados pelas famílias, temendo perder sua força de trabalho. Mas no início da década de 1830, as coisas pareciam estar mudando. Localizamos o seguinte ofício dirigido à Câmara Municipal de Nova Friburgo:“...Manda a Regência, em nome do Imperador (...) que a Câmara do município da vila de Nova Friburgo, na expedição das ordens para o recrutamento aos juízes de paz, toda circunspeção para que no número dos recrutados se não admitam homens desprezíveis, mal procedidos e facínoras a fim de se evitarem as cenas de horror de que infelizmente tem sido testemunha esta capital. Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1832”. Pode ser que esse ofício se refira a revolta dos mercenários alemães ocorrida no Rio de Janeiro.



Chegavam os recrutados ao Rio de Janeiro manietados em grupo, mãos amarradas às costas, pés algemados, os mais rebeldes com gargalheiras e a escolta vez por outra baixando o cacete nos mais desaforados. Os escravos nas ruas faziam pilhéria desses igualmente desgraçados. Em 1826, o governo do Ceará colocou 3.000 homens amontoados em uma sumaca com destino à Corte, seminus, e devido à insalubridade da embarcação morreram 553 recrutas. Há um interessante episódio ocorrido em Nova Friburgo por ocasião da Revolução de 1930. De acordo com a tradição oral, no governo de Galdino do Vale Filho, convocou-se rapazes do município para assistir a uma partida de futebol no Campo do Friburgo. Qual nada! O motivo mesmo para pegar na rede o maior número possível de rapazes para servir nas forças legalistas contra os revolucionários. Muitos rapazes levaram para casa o côvado e meio às costas e nunca mais se esqueceram daquela “partida de futebol”. A técnica de recrutamento era a da surpresa e do sigilo. Geralmente ocorria nos dias de festas religiosas, quando a população rural dispersa vinha à vila. Uma armadilha comum era colocar uma banda de música na praça principal do povoado e dar início a uma maviosa retreta. Tão logo a rapaziada se aproximava para saber o motivo da festa, a patrulha escondida caía-lhes em cima e na base do pau e da corda, arrebanhavam os rapazes e os conduzia, a ferros, para os quartéis do Rio de Janeiro. Não fosse trágico o recrutamento no Brasil, pode-se afirmar que seria cômico.



Todas as fotos acima são relativas ao Tiro de Guerra de Nova Friburgo. Acervo do Centro de Documentação Histórica de Nova Friburgo.


DECIFRA-ME OU TE DEVORO: POR QUE A POLÍCIA É TÃO VIOLENTA?

Édipo expõe o Enigma da Esfinge. Obra de Jean Auguste Dominique Ingres, 1808. Museu do Louvre. Paris.


No carnaval de 1901, a imprensa noticiou cenas de violência da polícia contra os cidadãos friburguenses que procuravam se divertir durante os folguedos carnavalescos. Policiais que se achavam em ronda no Beco do Arco(atual Rua do Arco), causaram grande distúrbio, pondo em completa debandada os “mansos transeuntes e os inocentes assistentes”. Relatou o jornal O Friburguense que a polícia, “transformando sabre em sardinha”, a bambolear o corpo com gestos de capoeiragem e atitude agressiva, ameaçava a tudo e a todos, retirando-se somente quando o beco ficou deserto pela fuga precipitada do povo indefeso. Atualmente, quando a sociedade brasileira se reconciliava com a Polícia no episódio da ocupação do Complexo do Alemão em dezembro desse ano, no Rio de Janeiro, eis que começam a surgir denúncias de violência policial contra a população daquela comunidade. Mas quais são as raízes dessa violência policial? Do ponto de vista da história não se pode estabelecer sempre uma relação de causa e efeito, mas há fatores determinantes que merecem ser considerados. Como em Édipo Rei, de Sófocles, e tentando decifrar o enigma da esfinge, acredito que essa violência se inicie por influência da instituição da escravidão. Era a Intendência Geral da Polícia que, por solicitação dos senhores de escravos, aplicava açoites para correção dos mesmos. Esse “serviço” era remunerado pelo proprietário do escravo, que pagava por cento de açoites e entrava como renda da polícia. Quando em 1824, assumiu como Intendente Geral da Polícia, Teixeira de Aragão, expediu portaria recomendando ao administrador do Calabouço(prisão) que na aplicação dos castigos aos escravos se considerasse a idade e a robustez dos supliciados. Em outra portaria determinava aos senhores de escravos que “os trouxessem sempre vestidos, sem ofensa à moralidade pública e à piedade humana.” Estamos aí esboçando uma prática da polícia, o açoite de escravos, que pode ter degenerado a instituição policial na sua formação.


A polícia foi um instrumento utilizado por José Bonifácio, então ministro do Estado de Negócios de D. Pedro I, para perseguir adversários políticos. José Bonifácio não contemporizava com os opositores e assim inaugurou um sistema repressor e inquisitorial na polícia tornando-a uma arma terrível em suas mãos. Competia à polícia obedecer cegamente às suas ordens, constando nos registros policiais um período sombrio de degredos e prisões ditadas pela vesânia de Bonifácio e do próprio D. Pedro I, que viam conspiração contra o governo em qualquer manifestação, como simples reuniões e conciliábulos. D. Pedro I chegou a fazer uma proclamação ao povo criticando a violência dos policiais e declarando-se avesso ao despotismo e as arbitrariedades praticadas pela Intendência Geral de Polícia. Mas pode ter sido uma farsa para minimizar as tensões provocadas pela violência policial. O poder de polícia tinha um papel tão destacado na sociedade que gerou ídolos como o famoso “Onça”, uma espécie de “capitão Nascimento” de outrora. O “Onça” remonta ao século XVIII quando não existia ainda a instituição da polícia de acordo com o modelo atual e era comandada pelos governadores das capitanias. Luiz Vaía Monteiro, um jovem fidalgo português, ganhou a alcunha de “Onça” porque livrou a cidade do Rio de Janeiro da malta de malandros, mandriões e jogadores. Granjeou o reconhecimento público dos cariocas e marcou uma época durante a sua gestão. Bastava dizer “Aí vem Onça!” e a debandada era geral. Pode-se afirmar que a sua reputação chegou aos tempos atuais, pois ainda hoje quando alguém quer se referir há um tempo que já vai longe, um tempo antigo, se diz: “desde o tempo do Onça”. Já no início do governo de D. Pedro II foi atribuído ao Chefe de Polícia, delegados e subdelegados super poderes, através da Reforma de 1841 do Código de Processo Criminal, onde atribuições judiciais foram transferidas dos juízes de paz para a polícia, fenômeno que se denomina de policialismo judiciário.


Na República Velha é impressionante o comportamento libertino e devasso dos “praças”(policiais) em Nova Friburgo. Eram descritos frequentemente embriagados, da menor a mais alta patente, inclusive o comandante do quartel e viviam sempre envolvidos em jogatinas proibitivas. Na coluna “solicitadas” do jornal O Friburguense, que transcrevia as cartas dos leitores, boa parte das reclamações dizia respeito à má conduta dos policiais. As maiores vítimas da violência desses policiais eram os rapazes e não havia, nesse aspecto, distinção de classe social. Por fim, não se pretende aqui simplificar o problema nem esgotar a discussão, mas se percebe que a conduta policial nasce sob a égide da violência proporcionada pelo próprio governo central que utilizava essa instituição para fins casuísticos como perseguir desafetos políticos. Consequentemente, a instituição introjetou em sua cultura a violência respaldada pelo próprio governo. Acrescente-se a isso o cotidiano de violência provocada pelo cancro da escravidão em nossa sociedade. Essa conjuntura somente poderia resultar o que hoje percebemos na polícia, tanto civil, quanto militar: a violência. A polícia e a sociedade necessitam se reconciliar, mas cabe-nos cobrar de forma mais efetiva do governo estadual melhor preparo e melhor salário para os policiais, se quisermos uma boa polícia. Isso porque, em hipótese alguma, desejamos na polícia o belicoso “capitão Nascimento” de Tropa de Elite.

Fontes dessa matéria: Jornal O Friburguense e livro "História da Polícia do Rio de Janeiro", volume I, de Mello Barreto Filho e Hermeto Lima.



Nesse vídeo o historiador José Murilo de Carvalho fala sobre a violência no Rio de Janeiro, do BOPE, do jogo do bicho, da animosidade entre a população e a polícia e do papel do policial no Rio de Janeiro.




O HOMEM DIANTE DA MORTE: RITOS E MENTALIDADE.SOMOS TODOS CAVEIRAS DO BOPE











Pode causar estranheza, mas muitas vezes os historiadores se valem de fontes que o senso comum pode até considerar bizarro, mas que fornecem ao pesquisador material suficiente para se reconstituir as relações familiares, as mentalidades, as visões de mundo, o comportamento, entre outras. Assim o fez o historiador francês Philippe Ariès em dois volumes de sua obra, “O Homem perante a Morte”, um clássico no tema. No Brasil, “A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira” organizado por José de Souza Martins é um livro interessantíssimo e igualmente “A Morte é uma Festa”, por João José Reis. A morte vem sendo historicizada dando importante contribuição à história das mentalidades. Chamou-me a atenção o emblema do BOPE em uma visita que fiz àquela instituição, em outubro desse ano, com meus alunos de História do Direito Brasileiro da Candido Mendes. O símbolo do BOPE, uma caveira com uma faca verticalmente encravada no crânio e duas pistolas transversas foi apropriado de um esquadrão inglês da Segunda Guerra Mundial, que tinha como missão sabotar as bases nazistas na França ocupada. Essa alegoria significa VENCER A MORTE. Não é necessário esclarecer aqui o risco diário de suas vidas a que esses homens estão sujeitos em suas atividades cotidianas. Em 2007, Marco Antonio Gripp, sargento do BOPE, nascido em Nova Friburgo, foi baleado logo depois de sair do blindado numa incursão em uma comunidade no Rio de Janeiro. Em entrevista a um jornal, assim declarou: “...Eram 23h quando avistamos um grupo. Trocamos tiros e eles entraram no beco. Demos a volta e desembarcamos para ver se tínhamos acertado alguém. Entramos no beco escuro e eu puxei a ponta [foi à frente]. Quando virei a esquina, estava a dois passos do cara[traficante]. Como estava escuro, só vi a boca de fogo da arma dele. Levei dois tiros na barriga. Uma passou a um centímetro do rim. Pensei que ia morrer. Continuei trocando tiros. Travou a arma e fui para um abrigo. Um tiro pegou no carregador e ficou no colete. Dois tiros acertaram o meu fuzil, um bateu na câmara de gás e outra na janela de injeção. FOI MINHA VITÓRIA SOBRE A MORTE..” Apesar de dois tiros que o atingiu, ele sobreviveu e está novamente na ativa. Por isso, esses homens gritam sempre: CAVEIRA!

Como disse antes, a “vitória sobre a morte” é representada pela alegoria da caveira com uma faca encravada sobre o crânio. Mas é possível uma vitória sobre a morte? Desde que a medicina evoluiu é plausível que o homem contemporâneo tenha tal pensamento, o que era absolutamente inconcebível para o homem oitocentista(sec.XIX), época em que medicina ainda dava os primeiros passos. Diante da morte, só lhes restava a resignação, a contrição, o resguardo e principalmente a humildade. No século XIX, quando a medicina nada mais podia fazer no padecimento da doença, quando se vai perdendo o vigor e azougam as forças, os poderosos homens de outrora, senhores de escravos e ricos proprietários, tornam-se humildes diante dos últimos sacramentos. Numa contrição religiosa e desprendidos de tudo que é profano, aprestam-se a comparecer súplices, humildes e caridosos perante o Juiz Divino. Nesse momento, alguns se vestem com indumentárias de ordens religiosas, outros libertam escravos ou pedem mortalhas simples. D. Pedro I, homem autoritário, morreu tuberculoso aos 35 anos de idade em 1834. No seu leito de morte em Portugal, pediu que no seu enterro não houvesse exéquias reais, como determinava o protocolo. Queria ser enterrado em caixão de madeira simples, como um soldado. Já a sua amante, a biscaia Marquesa de Santos, falecida em 1867, encomendou 70 missas: 50 pela sua própria alma e em um gesto de humildade hipócrita, característica das elites da época nessas ocasiões, pediu 20 missas para seus escravos mortos. Elias Antonio de Moraes, o Barão de Duas Barras(1840-1928) por ocasião de sua morte é colocado como um benemérito por ter auxiliado na educação de “moços desfavorecidos” que depois alcançaram posição de relevo na sociedade. Na hora da morte, de senhor de escravo passa a “pai dos pobres”. O Barão de Nova Friburgo(1795-1869) igualmente pediu ritos simples, por ocasião de sua morte, nos informa Luiz Fernando Folly no livro “Barão de Nova Friburgo”. O barão solicitou ser envolto em um pano preto, colocado em caixão simples e enterrado em cova rasa, simbolizando nesse rito o desapego às coisas materiais. Tanto o Barão de Nova Friburgo quanto o de Duas Barras, no derradeiro momento de suas vidas, trocam o açoite do “bacalhau” que tanto rasgou os corpos de seus escravos, pelo cajado e o báculo dos humildes. Imaginam que os ritos simples na hora da morte os tornam sublimes e apagam seu passado onde amealharam fortuna às custas do sofrimento humano, a escravidão.


Passados pouco mais de um século, é interessante comparar essas duas visões de mundo do homem perante a morte: a das elites oitocentistas e a de Marco Antonio Gripp, soldado do BOPE. Dos primeiros, a resignação, a contrição e a humildade. Do segundo, o desafio, a luta e o triunfo. Nessa ambivalência do pensamento humano podemos perceber uma mudança de mentalidade que coloca um fosso profundo, ditado pela linha do tempo, entre esses dois estágios da história da humanidade. Muda-se o pensamento diante da morte que pode ser vencida pelo homem contemporâneo, sendo a ciência médica um fator determinante. Atualmente, doenças como a tuberculose, o câncer e a AIDS não são mais sentenças de morte, começa-se a acreditar. Consequentemente, já que podemos vencer a morte, pode-se afirmar, por analogia à alegoria do BOPE, que somos todos CAVEIRAS!
Foto abaixo: O sargento Marco Antonio Gripp em ação. Na foto é o quinto da esquerda para a direita, em primeiro plano, com uma arma na mão.





O sargento Marco Antonio Gripp é o segundo da esquerda para a direita.



É interessante as representações sobre a morte. No século XIX , era comum as pessoas da elite fotografarem seus familiares mortos antes de os enterrarem, em situações do seu cotidiano. Alguns até já apresentavam o rigor mortis. Muitas vezes os familiares vivos participavam dessas fotos com os mortos.



A simulação era tão perfeita, que abaixo, mal percebemos na foto qual das mocinhas é a morta.



Provavelmente é a que se encontra sentada antes de apresentar o rigor mortis.












Uma criança morta. A mãe provavelmente desejava uma última imagem da filha entre suas bonecas.

A ESCRAVIDÃO EM NOVA FRIBURGO: A HISTÓRIA DO QUILOMBO DE MACAÉ DE CIMA


No princípio do século XIX, os suíços foram cooptados para fundar uma colônia no Brasil, objetivando-se fundamentalmente a produção de alimentos, à margem da economia nacional baseada na monocultura e na mão de obra escrava sobre o latifúndio. No entanto, como algumas datas de terra distribuídas não eram úberes, muitos suíços abandonaram o Núcleo Colonial e procuraram terras mais produtivas. Na ocasião em que os colonos buscaram essas novas terras, há um interessante episódio envolvendo os suíços e os quilombolas. Curiosamente, nessa ocasião, o governador militar e diretor da colônia, o tenente coronel João Manoel de Almeida Moraes Pessanha, indica aos colonos suíços as “novas terras do sertão das Cachoeiras do Rio Macaé”, local onde havia um quilombo. Ao que parece, eram terras devolutas, ou seja, terras abandonadas e que consequentemente retornavam à propriedade da Coroa Portuguesa. Logo, a partir de 1821, os suíços insatisfeitos com as terras do “Núcleo dos Colonos”, ocuparam a região de Macaé de Cima, conforme recomendou o coronel Pessanha, e que originariamente não fazia parte das datas de terra outorgadas aos colonos. Há registro de que foram autorizados por D. Pedro I a ocuparem essa região.
A princípio, parece que o coronel Pessanha indicou essas terras devolutas aos suíços no intuito de provocar um confronto entre eles e os quilombolas, cujo quilombo parecia não conseguir debelar. Não há comprovação de que o coronel Pessanha tivesse tal intenção, mas se não teve, acertou no que não viu, já que os quilombolas, devido o deslocamento dos suíços para aquela região, abandonaram essas terras, se deslocando rio abaixo. Porém, um episódio semelhante nos leva a crer que o coronel Pessanha tivesse tal intenção, ou seja, de provocar o conflito entre os suíços e os escravos fugitivos aquilombados. Em Pernambuco, em 1929, deu-se terras aos colonos alemães e suíços na localidade denominada de Catucá ou Cova da Onça. Naquela província, o plano era afugentar quilombolas, refugiados nas matas de Catucá, utilizando para tanto 150 famílias européias. Supunha-se que se instalando naquelas matas, colonos suíços ou germânicos extinguiriam os “negros do quilombo”. No entanto, os colonos se transformaram em simples carvoeiros e o quilombo cresceu de tal modo que foi necessário o Governo da Província lançar contra eles a Companhia de Caboclos Barreiros. Esse episódio é narrado por Gilberto Freire no livro “Sobrados e Mucambos”.

Retornando ao caso de Nova Friburgo, há registro de que houve contato entre os suíços e os quilombolas, mas não houve confronto. O pesquisador Rafael Jaccoud transformou esse episódio em um acontecimento épico favorável aos suíços, coroando-o como mais uma saga desses colonos em Nova Friburgo, assim escrevendo: “...Os suíços não demoraram a explorar as regiões circunvizinhas(...)Todos sabiam, no entanto, que as terras situadas ao longo do rio eram habitadas por quilombos, que formavam verdadeiras tribos hostis(...) Em 1821 correu a notícia de que no Rio de Janeiro estava sendo organizada uma companhia colonizadora para ocupar a região. Os suíços de Friburgo não perderam tempo, tomaram a dianteira e marcharam para conquistar as novas terras(...)O primeiro trabalho foi o de subjugar os quilombos(...) A conquista do Macaé converteu-se, pois, em outro episódio épico e, em pouco tempo, as margens do rio foram tomadas pelos corajosos suíços oriundos de Nova Friburgo.”


No entanto, no livro traduzido por Armindo Müller, “A Imigração Suíça no Brasil”, o colono suíço Hecht deixou o seguinte registro em suas memórias: “Eles[refere-se aos suíços]tinham deparado com um lugar, onde haviam estabelecido negros foragidos com maravilhosas plantações. O lugar, a localização e as plantações tanto agradaram, que iniciaram conversas com os negros para adquiri-las(...)O líder dos negros, que andava com uma espada desembainhada, falou assim: se vocês suíços fossem lavradores locais, teríamos entrado em luta com vocês; de forma alguma nos teríamos deixado aprisionar.(...)Com pouco dinheiro os colonos suíços compraram as plantações e os negros se mudaram dali. Esse lugar(...)chama-se Macaé...”.
Logo, não houve o confronto e sim, um acordo comercial entre os quilombolas e os suíços. Não eram igualmente “tribos hostis” como descreve Jaccoud, e sim, uma micro sociedade organizada, “com maravilhosas plantações”, onde muitos habitantes da localidade realizavam transações comerciais com os quilombolas. Somente para destacar, antes da chegada dos suíços, já havia ocupação de Macaé de Cima por alguns fazendeiros. É curiosa a animosidade dos quilombolas contra os fazendeiros luso-brasileiros e a solidariedade para com os suíços. Talvez isso se deva ao fato dos suíços e os africanos estarem irmanados por um sentimento comum: longe de seu torrão natal, em busca da sobrevivência em terras estrangeiras.
Abaixo: Remanescentes de populações quilombolas.

ALUNOS DE DIREITO DA CANDIDO MENDES VISITAM O BOPE




Ao chegar às instalações do BOPE se depara com esse cartaz. O bom humor faz parte de seu cotidiano. Provavelmente uma forma de aliviar as tensões.


O sargento Marco Antonio Gripp, um friburguense no BOPE, ao lado da Profa. de História do Direito, Janaína Botelho. O sargento Gripp levou os alunos da UCAM a favela Tavares Bastos, pacificada pela UPP.


Em 1980, o BOPE adota seu polêmico emblema um disco preto, representando o luto permanente, ornado por uma borda em vermelho, representando o sangue derramado em combate; no centro do disco se inscreve um desenho de crânio humano, representando a morte, com um sabre de combate o trespassando de cima para baixo, representando a vitória sobre a morte em combate; o conjunto é ornado por duas garruchas douradas cruzadas, que simbolizam, internacionalmente, a polícia militarizada. “Começava nascer a “mística” da unidade de operações especiais onde a “glória prometida” seria a vitória sobre o que mais se poderia temer no combate: a morte.

“Comentei com os colegas do batalhão que iria me inscrever no curso do BOPE; todo mundo começou a me zoar [sic]: „Aí Mané [sic], é faca na caveira e nada na carteira! Vai comer cobra e tomar tapa na cara! O que você vai ganhar com isto?‟. Virei alvo das brincadeiras.” (Soldado, cinco anos de serviço na PMERJ, candidato ao COEsp)‟

Fonte: BOTELHO, Paulo Storani. “VITÓRIA SOBRE A MORTE: A GLÓRIA PROMETIDA. O rito de passagem na construção da identidade das Operações Especiais do BOPE/PMERJ.” Programa de Pós-Graduação em Antropologia. UFF -2009.



Aluno de Comunicação Social da UCAM posa na favela pacificada Tavares Bastos





Vista do Rio de Janeiro da favela Tavares Bastos













O Prof. Jerônimo Pinto agradece ao Comandante Paulo Henrique de Moraes a recepção do BOPE aos alunos da Universidade Candido Mendes






Prof. Jerônimo, em momento de descontração, posa no caveirão do BOPE. Detalhe para o tiro no vidro do caveirão






















O símbolo do BOPE foi apropriado de uma tropa de elite da Segunda Guerra Mundial de uma missão especial inglesa destinada a sabotar as bases nazistas na França. "CAVEIRA", é assim que os membros do BOPE dão seu grito de guerra numa alusão de que VENCERÃO A MORTE em suas investidas.
















O caveirão, uma arma de guerra contra os narcotraficantes






























O Comandante Paulo Henrique de Moraes expõe aos alunos sobre o que é BOPE e diz esperar que as pessoas não confundam a ficção do filme "Tropa de Elite" com a realidade do BOPE. O filme não é um fac símile da Instituição






















O Capitão Ivan Braz em palestra narrou a história do BOPE aos alunos da UCAM. Segundo ele o BOPE é cheio de mitos. E qual o maior mito do BOPE, indagada um aluno. Segundo Braz, " as pessoas pensam que somos uma horda de bárbaros".













Missão Dada, Missão
Cumprida
. O lema do
BOPE

























Os alunos do curso de Direito da Universidade Candido Mendes, visitaram no dia 27, as instalações do BOPE no Rio de Janeiro. Acompanhados pelos professores Janaína Botelho, Jerônimo Pinto e Luigi Brust, a visita objetivava criar oportunidade aos alunos de conhecer as políticas públicas de segurança do Estado, mais propriamente as Unidades de Pacificação, através do órgão responsável pela sua implementação, o BOPE. Apesar de lidar no seu cotidiano com a tensão e igualmente o confronto com os narcotraficantes, o BOPE ainda tem fairplay e faz humor. Na chegada, um cartaz com o seguinte lembrete: “Seja bem-vindo visitante. Mas não faça movimentos bruscos”. Criado em 19 de janeiro de 1978, em virtude do fracasso de uma libertação de reféns em uma rebelião ocorrida no Presídio Evaristo de Moraes, no Rio de Janeiro, o BOPE inicia suas atividades de uma forma praticamente casuística, ou seja, treinar policiais especializados para lidar com a negociação de reféns. Mas atualmente, sua missão é muito mais abrangente.




Não possuindo sede própria, o BOPE instalava-se provisoriamente em alguns locais da Polícia Militar. Aumentando cada vez mais a sua importância na segurança pública foi-lhe concedida no ano de 2000 uma área pertencente ao Estado, onde havia um hotel em fase de construção. No entanto, era ocupada por narcotraficantes. A região era conhecida como Vale dos Ossos Secos, pertencente à antiga Fazenda Guinle. Como acontece nas áreas periféricas do Rio de Janeiro, houve a favelização do local, transformando-se na favela “Tavares Bastos” onde os narcotraficantes dominavam a comunidade. O BOPE ocupou o esqueleto do hotel e como diz o seu lema “Missão dada. Missão Cumprida”, realizando a primeira ação de pacificação, através da “imposição da paz”, declara o Capitão Ivan Braz. Ainda segundo ele, “não existe pacto entre homens e leões”, por isso, acredita que as ONG’s que tentam uma convivência pacífica entre narcotraficantes e a comunidade nunca conseguirão tal objetivo. Para efetuar atualmente todas as ações de pacificação nas favelas do Rio de Janeiro, as UPPs, logo se imagina um grande contingente de soldados do BOPE. Mas não é o que ocorre. Contam atualmente com somente quatrocentos homens que se dividem nas seguintes funções: operações especiais em área urbana, unidade de intervenção tática(resgate de reféns), centro de treinamento, dando inclusive curso ao Mossade(Israel), FBI(USA) e até ao exército brasileiro, entre outras funções. O BOPE tornou-se referência nacional e tem similares em vários Estados brasileiros com a mesma destinação, mas com denominações diferentes.

De acordo com o Capitão Braz, o filme “Tropa de Elite” é muito mais ficção do que realidade, não sendo um fac-símile da instituição. Qual o maior mito sobre o BOPE, pergunta um aluno da UCAM? Responde o Capitão Braz que o maior mito é que todos acreditam que vão encontrar no batalhão do BOPE uma horda de bárbaros, imagem veiculada no filme. O símbolo do BOPE, uma caveira com uma faca verticalmente encravada no crânio e duas pistolas transversas, foi apropriado de um esquadrão inglês da Segunda Guerra Mundial que tinha como missão sabotar as bases nazistas na França ocupada. O comando do BOPE deu em primeira mão aos alunos da UCAM que futuramente irão ocupar uma área de duzentos e vinte mil metros quadrados no Complexo da Maré, no antigo Batalhão de Infantaria Blindada, onde poderão treinar em torno de sete mil homens.



Em entrevista com o Comandante Paulo Henrique de Moraes aos alunos do Curso de Comunicação da UCAM, Mateus de Carvalho e Bárbara Stork, foi-lhe perguntado o que agregava ao batalhão a visita de universitários. Respondeu que para a polícia militar a relação com a comunidade é essencial, assim como o debate de idéias, e ouvir a percepção do público sobre o trabalho do BOPE auxiliava no planejamento de ações futuras. Quanto ao filme “Tropa Elite”, o Comandante Paulo Henrique teme que o público não saiba diferençar entre realidade e ficção, já que o filme não traduz o que seja realmente a instituição. Não são hordas de bárbaros, como demonstra o filme, e não tomam pílulas para dormir como faz o personagem fictício capitão Nascimento. Mas entende que o BOPE será sempre cercado de mitos pela sociedade brasileira. Ao final da visita o Tenente Gripp conduziu os alunos da UCAM até a favela Tavares Bastos para mostrar o cotidiano dos moradores de uma comunidade pacificada pelo BOPE.





Surpreende a simplicidade das instalações do BOPE e a atenção que deram aos alunos, franqueando a palavra aos estudantes durante a palestra e ouvindo com interesse suas percepções sobre a instituição. Ao percorrer o prédio, os alunos se depararam com uma curiosa oração, a “Oração das Forças Especiais”, onde os homens da elite da polícia pediam a Deus que “estejais conosco, quando procurarmos defender os indefesos e libertar os escravizados”.







Duas entrevistas com Rodrigo Pimentel que fala sobre o BOPE e sobre a violência do Rio de Janeiro. Segundo ele, uma guerra perdida.


UM BRINDE A ADOLF HITLER! NAZISTAS EM FRIBURGO

Em 1824, colonos alemães migraram para o recém criado termo de Nova Friburgo. Sessenta e oito anos depois ocorreria uma segunda onda migratória de alemães, ainda estimulada pelo governo. Já no primeiro decênio do século XX, um grupo de empresários alemães investiu em indústrias de grande porte, transformando Nova Friburgo em uma cidade industrial. Havia no município a Sociedade Alemã de Nova Friburgo e igualmente a Sociedade Alemã de Escola e Culto, essa última com estatuto próprio, cuja sede ficava na Estrada do Reservatório. No dia 20 de abril de 1935, o jornal O Friburguense noticiava a celebração em Friburgo do 46º aniversário do führer Adolf Hitler promovida pela Sociedade Alemã de Escola e Culto que “comemorou este acontecimento com muito brilho e solenidade”. A celebração contou com “grande número de pessoas de destaque” da sociedade friburguense e de muitos alemães domiciliados em Friburgo. A solenidade foi dividida em duas partes: na primeira, foram cantados os hinos nacionais brasileiro, alemão e nacional-socialista, seguidos por saudações e discursos em alemão e português. Um belo solo de violino acompanhado ao piano entremeava os discursos e alguns números de música foram apresentados. Vivas foram erguidos às duas grandes nações: Brasil e Alemanha. Na segunda parte do evento houve um baile, e danças e cantos se seguiram e se prolongaram até alta madrugada “com extraordinária animação e satisfação de todos que compareceram à festa”, noticiou o jornal. A colônia alemã e igualmente membros da colônia italiana e da elite friburguense participaram do evento.

Foi assim que se comemorou em Friburgo naquele ano a data natalícia de Adolf Hitler. Hitler é colocado nos discursos da dita sociedade como um líder que “conseguiu conduzir o povo alemão para uma vida melhor, dando bem estar a milhões de almas e implantando nelas a inabalável confiança em um futuro melhor.....”, assim transcreveu o jornal. Nos discursos proferidos, a idéia de que o nacional-socialismo fez desaparecer as diferenças sociais, onde se cultivava a verdadeira “camaradagem” entre o povo alemão. À luz dos acontecimentos internacionais, Hitler ainda não mostrara ao mundo a sua verdadeira face. A segunda guerra mundial(1939-45) ocorreria somente quatro anos depois dessa comemoração na cidade. Em Nova Friburgo havia muitos representantes da Ação Integralista Brasileira. No aniversário de Plínio Salgado, chefe nacional do partido, os integralistas friburguenses faziam uma passeata à noite pela cidade, “em exercícios”, fazendo uma parada militar na Praça dos Eucaliptos, ou seja, na Praça Getúlio Vargas.

Em entrevistas realizadas com algumas pessoas cujos familiares participavam do movimento nazista em Nova Friburgo, obtivemos duas afirmações: A primeira, a de que realmente houve um movimento nazista em Nova Friburgo. A segunda, a de que tantos os alemães no tocante a Hitler como os italianos no tocante a Mussolini, possuíam um único sentimento em relação a esses líderes políticos: a de que ambos melhoraram as condições econômicas de seus respectivos países. Destaquemos que esses imigrantes somente deixaram o seu torrão natal em razão da crise econômica que lhes afetava, daí a torcida por esses líderes que tiraram os seus países do horror econômico. Finalmente, não se conhecia ainda os campos de concentração que dizimaram ciganos, comunistas, homossexuais e judeus que só se tornaram notórios ao final da guerra.
No entanto, depois da segunda guerra mundial, muitos alemães foram hostilizados em Friburgo e todos os documentos da colônia italiana foram destruídos, temendo-se deportações. Era natural que em Friburgo, com uma forte presença de imigrantes alemães e de italianos tivessem simpatizantes do nazi-facismo, já que Hitler e Mussolini eram líderes carismáticos. Em uma outra ocasião, falaremos de um movimento eugenista existente em Friburgo, liderado pelo Prof. Júlio Caboclo, que pregava a superioridade de uma raça sobre a outra. Movimento nazista e eugenia. Está aí uma interessante passagem da história de Friburgo que merece ser pesquisada.

Movimento nazista em Petrópolis na década de 30, onde também havia forte presença de imigrantes alemães.


































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