NOVA FRIBURGO: a História, a Enchente e a Redenção. NOSSO 11 DE SETEMBRO!!!!

Praça do Suspiro. 1930.

Praça do Suspiro. 1905.

Praça do Suspiro, 1930.

Praça do Suspiro. 1920.

Praça do Suspiro. 1990.

Praça do Suspiro. As fotos podem parecer ser de lugares distintos, mas foi a praça que mais sofreu intervenção do poder público, alterando-lhe a paisagem.



A História:
Dois alemães, Leithold e Rango, por ocasião da instalação da colônia dos suíços
em Nova Friburgo, no início do século 19, escreveram: “Só poderá ser um
desastre!”

Quando foi expedido o decreto de 6 de maio de 1818 destinando a Fazenda do Morro Queimado para o assentamento de colonos suíços, era seu proprietário Monsenhor Antonio José da Cunha e Almeida, titular de Mesa de Consciência e Ordens, do Desembargo do Paço e Chanceler das três Ordens Militares. Um tipo de altos coturnos. Monsenhor Almeida havia comprado a Fazenda do Morro Queimado de Lourenço Correa Dias pela modesta quantia de 500$000 e vendeu a propriedade ao governo por 11.932$000, isso sem haver nada que justificasse a valorização do imóvel. A transação foi intermediada pelo Inspetor da Colonização, o eclesiástico Monsenhor Miranda. Não obstante haver terras férteis e devolutas nas proximidades da Corte, o perdulário Monsenhor Miranda escolheu as terras inferiores da Fazenda do Morro Queimado do confrade da Mesa de Consciência e Ordens.


A Fazenda do Morro Queimado tinha esse nome devido a cor tisnada, acinzentada de suas montanhas. Essa antiga fazenda, composta de quatro sesmarias, hoje é Nova Friburgo. A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820 para abrigar uma colônia de suíços, a primeira do Brasil. Era um pitoresco vale, entre cinco grandiosas montanhas. O núcleo urbano foi formado próximo ao Rio São João das Bengalas. As enchentes, desde então, sempre fizeram parte do cotidiano da cidade. Para compreender melhor, ler a matéria “As Enchentes do Velho São João Das Bengalas: Um Déjà Vu na história de Friburgo”, nesse blog.


No entanto, as terras do “Núcleo dos Colonos” não eram úberes o suficiente para a agricultura, sendo localizadas em lugares montanhosos ou repletas de brejos. As datas de terras distribuídas aos colonos suíços foram abandonadas por boa parte deles. Em 1824, colonos alemães foram encaminhados para a vila de Nova Friburgo. As terras sáfaras abandonadas pelos suíços foram as mesmas distribuídas aos colonos alemães. Por conseguinte, metade dos alemães se deslocaram para outras regiões, em busca de terras mais férteis, a exemplo de Cantagalo.


Ao final do século 19, Nova Friburgo recebeu significativa imigração de italianos, onde algumas famílias, a exemplo dos Spinelli, se transformaram na maior fortuna do município. Imigraram ainda para Nova Friburgo, portugueses, e em menor proporção, espanhóis, alemães, libaneses e japoneses. A Praça das Colônias, que possuía o panteão representando todas essas imigrações, inclusive a africana, foi destruída. Cumpre destacar que a partir de 1910, empresários alemães estabeleceram indústrias de grande porte na cidade, alterando significativamente a estrutura social e econômica do município. Pode-se afirmar que Nova Friburgo passou a ser uma cidade industrial. Com a diminuição da atividade dessas grandes indústrias, a partir da década de oitenta do século 20, a economia de Nova Friburgo passou a girar em torno de pequenas e médias empresas metalúrgicas e de um grande pólo de moda íntima, essas últimas estabelecidas por antigos funcionários das indústrias têxteis.

A Tragédia:
Com a tragédia da enchente e deslizamentos dos morros, que é notória, ocorrida na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, dois monumentos históricos se perderam nessa enchente: a Igreja de Santo Antônio e a Fonte do Suspiro. Era na praça em frente a igreja que se realizavam as festas de Santo Antônio, a mais tradicional da cidade. Superava a do orago da cidade, São João Batista. A igreja se localiza na Praça do Suspiro e remonta ao século 19.

A Praça do Suspiro foi completamente destruída pela enchente do rio São João das Bengalas e da queda de barreira. Era o mais importante espaço de sociabilidade de Nova Friburgo no século 19. A praça foi construída no entorno da Fonte do Suspiro, fonte essa que abastecia de água toda a vila, onde os escravos buscavam água para abastecer as residências.

A Fonte do Suspiro era considerada desde tempos antigos, até mais da metade do século 20, uma das “maravilhas” de Friburgo. Jorrava água fresca e cristalina, cantando andeixas sentidas e amarguradas. Não havia quem tendo amado, não tenha procurado aquele recanto florido e bucólico, lugar onde a natureza concentrara sua magia, revestindo-se de galas e pomas. Era o recanto mais formoso da cidade, “onde cada friburguense tem uma parte de sua alma e um pedacinho do seu coração”, de acordo com relatos.

A Fonte do Suspiro possuía três bicas: a do AMOR, da SAUDADE e do CIÚME. Asseguravam os antigos habitantes de Friburgo que a água dessas fontes era misteriosa e atraente, e quem a bebesse, ficava condenado a sofrer no coração os desastrados efeitos do amor, do ciúme e da saudade, formando esses três sentimentos um grosso e inquebrantável elo. Acreditava-se que o viajante que bebia um pouco de sua água pura, que jorrava cantante das três fontes, certamente voltaria a Friburgo, porque a saudade lhe encheria o coração. Era uma fonte impregnada de feitiços e lendas. Para os que viveram grandes paixões nos seus jardins, a Fonte do Suspiro representava o tabernáculo de sonhos do passado. Já para os que vinham buscar a mansuetude bucólica de Nova Friburgo, a salubridade do bom clima, a Fonte do Suspiro promovia um reconforto ao espírito e um retempero para sua saúde, encontrando ali ainda o encantamento doce e a estesia miraculosa que erguem o ser abatido. No imaginário da população, além do romantismo que ela evocava, era também notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Fazia lenir as dores dos que sofriam e dizia-se até mesmo que “ressuscitava os quase-mortos”.

Abaixo, uma sequência de fotos da Fonte do Suspiro.


A Redenção:
Na realidade, parte do desenvolvimento de Nova Friburgo se deu devido ao seu clima salubre, com característica muito próxima a de países europeus. Pode-se afirmar que a partir de 1830, Nova Friburgo encontra a sua verdadeira vocação, vingando como uma aprazível estação de verão, já que a agricultura era economicamente pífia por conta das terras sáfaras. Foi desde então, refúgio dos cariocas que fugiam do calor do Rio de Janeiro e dos que procuravam a saúde do corpo, como a cura da tuberculose, quando se acreditava que o clima era um fator determinante na cura da doença. Por isso, o Sanatório Naval se estabeleceu no município. A partir da segunda metade do século 19, quando começam a grassar as epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro, Nova Friburgo ganha mais visibilidade atraindo uma chusma de cariocas em todo o verão, ponto alto das epidemias.


Passada toda essa tragédia, nós, friburguenses, estamos aguardando os cariocas e fluminenses de Niterói, que sempre procuraram o refúgio de Nova Friburgo, desde os tempos de antanho, para fugir do forte calor do verão e igualmente das epidemias e doenças. Não possuímos o rico patrimônio histórico de Petrópolis, mas temos a oferecer A NATUREZA, já que preservamos setenta por cento da mata atlântica. O espaço urbano de Nova Friburgo se restringe a 30% de seu território.


Dizia a lenda que quem beber da Fonte do Suspiro a ela se prenderá por toda a vida! Mesmo sem poder beber mais a água da fonte encantada, destruída pelo deslizamento das encostas, garantimos aos cariocas e fluminenses que visitarem a bucólica Nova Friburgo que certamente retornarão, porque a saudade lhe encherá o coração!

2 Response to "NOVA FRIBURGO: a História, a Enchente e a Redenção. NOSSO 11 DE SETEMBRO!!!!"

Serrano disse...

Conheci a fonte do suspiro, desde a minha infância, fico triste que o desastre de 11 de janeiro de 2011, fez que as pedras que compunha o conjunto fosse levada por maquinas para lugar incerto, elas continham inscrição de saudade ciúme amor, elas ´podiam ser recolocadas, mais infelizmente até hoje nada foi feito, e o bi centenário como vai ser o hino do município como fica ?..................

Anônimo disse...

A História:
Dois alemães, Leithold e Rango, por ocasião da instalação da colônia dos suíços
em Nova Friburgo, no início do século 19, escreveram: “Só poderá ser um
desastre!”

Quando foi expedido o decreto de 6 de maio de 1818 destinando a Fazenda do Morro Queimado para o assentamento de colonos suíços, era seu proprietário Monsenhor Antonio José da Cunha e Almeida, titular de Mesa de Consciência e Ordens, do Desembargo do Paço e Chanceler das três Ordens Militares. Um tipo de altos coturnos. Monsenhor Almeida havia comprado a Fazenda do Morro Queimado de Lourenço Correa Dias pela modesta quantia de 500$000 e vendeu a propriedade ao governo por 11.932$000, isso sem haver nada que justificasse a valorização do imóvel. A transação foi intermediada pelo Inspetor da Colonização, o eclesiástico Monsenhor Miranda. Não obstante haver terras férteis e devolutas nas proximidades da Corte, o perdulário Monsenhor Miranda escolheu as terras inferiores da Fazenda do Morro Queimado do confrade da Mesa de Consciência e Ordens.


A Fazenda do Morro Queimado tinha esse nome devido a cor tisnada, acinzentada de suas montanhas. Essa antiga fazenda, composta de quatro sesmarias, hoje é Nova Friburgo. A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820 para abrigar uma colônia de suíços, a primeira do Brasil. Era um pitoresco vale, entre cinco grandiosas montanhas. O núcleo urbano foi formado próximo ao Rio São João das Bengalas. As enchentes, desde então, sempre fizeram parte do cotidiano da cidade. Para compreender melhor, ler a matéria “As Enchentes do Velho São João Das Bengalas: Um Déjà Vu na história de Friburgo”, nesse blog.


No entanto, as terras do “Núcleo dos Colonos” não eram úberes o suficiente para a agricultura, sendo localizadas em lugares montanhosos ou repletas de brejos. As datas de terras distribuídas aos colonos suíços foram abandonadas por boa parte deles. Em 1824, colonos alemães foram encaminhados para a vila de Nova Friburgo. As terras sáfaras abandonadas pelos suíços foram as mesmas distribuídas aos colonos alemães. Por conseguinte, metade dos alemães se deslocaram para outras regiões, em busca de terras mais férteis, a exemplo de Cantagalo.


Ao final do século 19, Nova Friburgo recebeu significativa imigração de italianos, onde algumas famílias, a exemplo dos Spinelli, se transformaram na maior fortuna do município. Imigraram ainda para Nova Friburgo, portugueses, e em menor proporção, espanhóis, alemães, libaneses e japoneses. A Praça das Colônias, que possuía o panteão representando todas essas imigrações, inclusive a africana, foi destruída. Cumpre destacar que a partir de 1910, empresários alemães estabeleceram indústrias de grande porte na cidade, alterando significativamente a estrutura social e econômica do município. Pode-se afirmar que Nova Friburgo passou a ser uma cidade industrial. Com a diminuição da atividade dessas grandes indústrias, a partir da década de oitenta do século 20, a economia de Nova Friburgo passou a girar em torno de pequenas e médias empresas metalúrgicas e de um grande pólo de moda íntima, essas últimas estabelecidas por antigos funcionários das indústrias têxteis.

A Tragédia:
Com a tragédia da enchente e deslizamentos dos morros, que é notória, ocorrida na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, dois monumentos históricos se perderam nessa enchente: a Igreja de Santo Antônio e a Fonte do Suspiro. Era na praça em frente a igreja que se realizavam as festas de Santo Antônio, a mais tradicional da cidade. Superava a do orago da cidade, São João Batista. A igreja se localiza na Praça do Suspiro e remonta ao século 19.

A Praça do Suspiro foi completamente destruída pela enchente do rio São João das Bengalas e da queda de barreira. Era o mais importante espaço de sociabilidade de Nova Friburgo no século 19. A praça foi construída no entorno da Fonte do Suspiro, fonte essa que abastecia de água toda a vila, onde os escravos buscavam água para abastecer as residências.


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