OS COLONOS ALEMÃES POR SCHLICHTHORST:A Imigração Alemã – Parte 9











O alemão Schlichthorst, ex-oficial do Imperial Exército Brasileiro, que serviu no período de 1824 a 1826, nos deixou interessante registro sobre a situação dos colonos de Nova Friburgo e do sistema de distribuição de terras no Brasil. Não obstante o regime de sesmarias(doação de terras) ter sido extinto no Brasil em 1822, desconhecendo tal circunstância, Schlichthorst aconselha aos alemães que desejassem emigrar para Brasil, como proceder para conseguir esse benefício. Schlichthorst nos relata a corrupção que havia para obter uma sesmaria e estranhamente elogia Monsenhor Miranda, considerado como um homem venal e “mulherengo”. Vamos conhecer então o relato que esse oficial alemão nos legou em suas memórias:




“A sorte dos colonos, em geral, não é melhor do que a dos soldados. Embora não se possa negar que o Governo lhes fornece muita coisa, pouco proveito auferem disso, porque as quantias destinadas a auxiliá-los são, na maior parte, furtadas pelos funcionários encarregados de sua distribuição. Deve-se, no entanto, proclamar, para glória do chefe do serviço de colonização estrangeira, que ele é, além de homem honesto, dono de excelente coração, fazendo o possível para melhorar a situação dos colonos e até grandes sacrifícios para ajudar a alguns soldados. Falta-lhe, porém, a energia precisa para coibir os abusos que penetraram pouco a pouco, desde o começo, num sistema, cujo fim principal era arranjar soldados para o Imperador. Como já fiz notar, todas as pessoas que vão para o Brasil à custa do Governo são feitas soldados logo que chegam, salvo se de todas inaptas para o serviço. Tiram-se, assim, às famílias seus braços mais capazes, mandando-se para as colônias apenas velhos e crianças. Os que pagaram as passagens do próprio bolso são livres. Fora disso não gozam de preferência alguma. O Governo paga a um colono 8 vinténs por dia, durante o primeiro ano após sua chegada. Às crianças, metade. Como por nova disposição de lei, esse dinheiro não é pago à vista, mas em gêneros alimentícios, a maior parte fica nos bolsos dos funcionários e de seus fornecedores. Se nas vizinhanças da cidade os colonos são miseravelmente alimentados, imagine-se o que não será essa alimentação a centenas de milhas de distância. Para o segundo ano, dá-se metade do auxílio do primeiro. Depois, tem de cuidar de si próprios. A colônia de Nova Friburgo fica a poucos dias de viagem da capital, mas os caminhos são tão ruins que os colonos não podem vir à mesma vender seus produtos.[refere-se a vender seus produtos no Rio de Janeiro] Reina ali tão grande pobreza que muitos assentaram praça voluntariamente ao se criar o Corpo de Estrangeiros e outros andam mendingando para poderem viver como párias.(...) Rastrilho e arado são desconhecidos no Brasil. A terra tem que ser trabalhada a enxada.(...)Tudo o que o Major von Schäffer, na sua obra sobre o Brasil, diz a respeito do gado e dos instrumentos agrícolas fornecidos aos colonos é inverídico. Quando muito, recebem uma enxada, um machado e um serrote para derrubar a impenetrável mata virgem que cobre geralmente a terra que lhes foi distribuída....”.




No Centro de Documentação de Nova Friburgo há uma representação do alemão “Gadermenn” junto ao diretor da Colônia que corrobora com essa última assertiva. Declara que sua terra era “cheia de mata” e que com sua mulher e 4 filhos pequenos não a poderia derrubar. Pediu para ser transferido para a Colônia de São Leopoldo, no sul. As memórias de Schlichthorst finaliza com conselhos aos alemães que desejam emigrar para o Brasil: “...Aconselho, todavia, a qualquer trabalhador hábil e diligente que queira fazer fortuna, que vá para o Brasil, pagando a passagem do próprio bolso, para não ser feito soldado ao chegar lá(...)Quem trouxer algum dinheiro para o Brasil também pode empregá-lo vantajosamente em bens de raiz. No caso de possuir uns 10 ou 20 táleres[dinheiro alemão], poderá arranjar com o governo uma sesmaria, que é como denominam as posses de terras doadas pelo Estado. Geralmente são do tamanho de uma légua quadrada. Os emolumentos do título de doação ascendem a uns 1.500 táleres. Com algum conhecimento da região onde a gente se quer estabelecer, empregam-se mais uns 1.000 táleres, para dar mais força ao pedido, e conseguem-se assim umas 5.000 geiras de terras excelentes.[note aqui o tráfico de influência dos funcionários públicos, através do recebimento de propinas, na concessão de sesmarias]. Parte do capital servirá para comprar escravos e levantar edificações muito singelas com abundante material tirado ao próprio terreno.(...) A lei determina que no prazo de 5 anos, a sesmaria deverá estar demarcada e ocupada, reservando-se ao Governo o direito de retomá-la se, dentro de 20 anos, não for cultivada[Na realidade, esse prazo era de 5 anos]. Estas duas condições obrigam ao emprego de todos os esforços para roçar a mata virgem, a fim de dar à posse de terra pelo menos aparência de cultivo....” É interessante que, em outras recomendações dadas por Schlichthorst aos que desejam emigrar para o Brasil, a aquisição de escravos está sempre presente como meio de fazer fortuna. Na próxima matéria, “A Rebelião dos Mercenários”.





















Todas as fotos acima são de colonos alemães que imigraram para o sul do país.

No Response to "OS COLONOS ALEMÃES POR SCHLICHTHORST:A Imigração Alemã – Parte 9"

Postar um comentário

AVISO:
É proibido usar palavras de baixo calão neste espaço.
Seja cordial com os outros comentaristas.
Ao fazer críticas, favor fundamentá-las.
Caso esses tópicos não sejam seguidos, os comentários serão deletados sem consulta prévia ao autor.

Related Posts with Thumbnails
powered by Blogger | WordPress by Newwpthemes | Converted by BloggerTheme