ENTREVISTA: HISTÓRIAS E MEMÓRIA DE NOVA FRIBURGO

Quando surgiu a ideia de tornar os seus artigos em uma compilação como essa?

A ideia do livro surgiu quando percebi que, depois de escrever durante dois anos para o jornal A Voz da Serra, a compilação das matérias, atendendo a uma cronologia, conseguia dar conta de narrar a história local, passando pelos séculos XIX e XX. Curiosamente, esse mosaico de histórias, de situações cambiantes, se organiza na linha do tempo, adquire organicidade e dá sentido a uma história sobre Nova Friburgo.



Como se deu o processo de coleta de informações?
As fontes são a correspondência oficial, jornais, crônicas, fotografias, além de fontes secundárias. Utilizo, igualmente, a memória dos habitantes locais, que nasceram entre 1915 e 1940, entrevistas essas que vão desde o executivo de uma grande indústria até o cidadão comum, mostrando suas visões de mundo, experiências e de que forma perceberam e vivenciaram os acontecimentos do passado.
O livro foca a história a partir da percepção de pessoas comuns. Você acredita que esse seja o diferencial da publicação?
A valorização de cidadãos comuns como atores históricos não apresenta nenhuma novidade. Foi iniciada pelos franceses a partir do segundo quartel do século XX, através da Escola de Anales. Adoro esse exemplo de um dos historiadores que segue essa corrente. Ele diz mais ou menos isso: Não estou interessado apenas na vida de Júlio César. Mas me interesso, também, pelo que pensa e como se comporta um simples soldado da legião de Júlio César.




Quando nasceu a sua paixão pela história?
Infelizmente, não posso atribuir aos meus professores a minha paixão pela história. O ensino de história não era nada atraente até uns 40 anos atrás. Acho que gostar de história é algo nato e tem que ter paixão, pois a pesquisa é árdua, laboriosa, cara, repleta de obstáculos e não há resultado financeiro.
Já que falou obstáculos, qual é a maior dificuldade que um pesquisador encontra?
Inicialmente a relação com o Pró-Memória. Além de encontrar-se fechado desde novembro do ano passado, o espaço e o tempo de pesquisa do historiador foi restringido. Tem-se a impressão de que somos indesejáveis. O acesso a certas fontes somente se dá depois de muitas rogativas. O acervo está sendo digitalizado de forma muito lenta e com isso indisponibilizaram grande parte dele por conta desse trabalho, atrapalhando nossas pesquisas. O acervo está blindado. Uma fundação para tratar da pesquisa sobre a história local foi criada pelo Sr. Heródoto Bento de Melo e a maioria dos historiadores não foi convidada a participar dela. É um paradoxo. É desmotivante? Obviamente. Mas foram os leitores de A Voz da Serra que me deram força e me motivaram para prosseguir nessa que se transformou em uma verdadeira cruzada, fazer pesquisa em Nova Friburgo. Oxalá essa situação se reverta no novo governo.



O que é mais difícil, ouvir as histórias que as pessoas têm para contar ou "traduzir" este material bruto em texto?
Certamente traduzir, ou melhor, reapresentar, o material bruto em texto. A narrativa histórica é um aspecto essencial, pois tem que ter clareza, objetividade, isenção na análise dos fatos, além da problematização dos acontecimentos históricos. Considero a história como algo vivo, sempre mutante, pois volta e meia surgem novas fontes que são capazes de invalidar grandes teses. Mas entendo essa circunstância como parte de nosso ofício.
O livro segue uma linha cronológica dos acontecimentos e assuntos ou segue a linha das publicações das colunas?
Como disse acima, procurei colocá-las atendendo a uma cronologia que vai desde o final do século XVIII, com a ocupação dos Sertões do Macacu, passando pela fundação da vila de Nova Friburgo, em 1820, e acontecimentos ao longo do século XIX. Já no século XX, vou aproximadamente até a década de 60. As formas de sociabilidade, no passado, são sempre o meu foco.
O que Nova Friburgo tem de especial para você?
O que mais me apaixona em Nova Friburgo é o fato de seu clima, a sua geografia, ter sido um fator determinante em sua história. Foi o seu clima salubre que atraiu os tuberculosos, empresas e instituições, como o Instituto Hidroterápico, o Sanatório Naval, diversos estabelecimentos de ensino de qualidade, imigrantes europeus, e até os prisioneiros alemães foram para Nova Friburgo enviados, na Primeira Guerra Mundial, por conta de seu clima.







Percebe-se que é um trabalho cuidadoso efeito com carinho, quanto tempo levou para produzir esta obra?
Essa obra é fruto de um trabalho de pesquisa desde 2005. Mas as pesquisas têm um tempo muito em função da disponibilidade e dos recursos financeiros do pesquisador.
Há uma passagem do livro que queira compartilhar conosco?
Na tragédia ocorrida em Nova Friburgo, entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, passei a escrever diversas matérias sobre como o friburguense lidava com esse sinistro no passado, consultando o código de posturas. Lembrei-me de uma passagem do livro de Martin Nicoulin, “A Gênese de Nova Friburgo”, sobre uma enchente nos primeiros anos de assentamento dos suíços. Surpreendi-me relendo essa passagem, de como a enchente desestruturou a colônia dos suíços, já que perderam toda a sua colheita naquele ano. Isso provocou tensões à época como homicídios, estupros, agressões físicas, etc. o que denota que as enchentes são um problema na região desde os tempos de antanho.
Qual foi o fato mais importante contado no livro?
Não vou dizer que seja a mais importante, mas surpreendeu-me que a matéria que fiz por ocasião do dia de finados, intitulada “A história dos cemitérios em Nova Friburgo”, teve uma repercussão notável. Nunca imaginaria que contar a história sobre cemitérios, um tema tão funesto, provocaria tanto interesse entre os leitores do jornal.



A Europa tem uma forte ligação com a cidade. Você fala a respeito disso?
Certamente, ao final do século XIX, ocorre o fenômeno da “europeização” das elites brasileiras. Em Nova Friburgo não foi diferente. Até porque estávamos próximos do Rio de Janeiro e os cariocas passavam seis meses em Nova Friburgo, permanecendo enquanto a epidemia de febre amarela não cessasse no verão. Temos ainda que considerar que tivemos colonos suíços, alemães, além de imigrantes italianos e portugueses, que auxiliaram a compor esse cenário. Mas apesar das elites serem de ascendência europeia, será a cultura africana que irá prevalecer sobre as demais na história do Brasil e Nova Friburgo, a meu ver, não escaparia desse fenômeno.
Qual é a sua avaliação do livro?
O maior mérito desse meu livro foi destacar a história regional e a valorização das memórias de antigos moradores da cidade. Passei parte de minha infância, nas férias, em diversas cidades do centro-norte fluminense. Isso foi fundamental para que eu me sensibilizasse de que a história de Nova Friburgo passa pela história regional. Através de entrevistas com Nelson Spinelli, Richard Ihns, Mário Babo, Rodolfo Abud e com cidadãos comuns que nasceram no início do século XX, consegui apresentar um quadro do cotidiano do município. No mais, contribuo com a história local em que, felizmente, Nova Friburgo já possui uma historiografia razoável e de muita qualidade, graças à iniciativa de diversos historiadores a exemplo de João Raimundo de Araújo, Jorge Miguel Mayer, Ricardo Costa, José Carlos Pedro e é claro o suíço, Martin Nicoulin.
Há ideias para uma próxima publicação ou teremos que esperar?
Na realidade, já estou trabalhando no terceiro livro. Estou inicialmente analisando as atas da Câmara. Aliás, gostaria de aproveitar a oportunidade de destacar a contribuição de Jayme Jaccoud, que teve a pachorra de transcrever e digitar as atas da Câmara, o que facilita em muito o trabalho dos pesquisadores. O livro é sobre o século XIX, em que procuro suprir uma lacuna na história de Nova Friburgo, ainda não preenchida. Muitos historiadores se limitam à primeira metade do século XIX e depois as pesquisas dão um salto de décadas e iniciam no período republicano. Logo, fica a seguinte pergunta: o que aconteceu com Nova Friburgo depois do fracasso do Núcleo Colonial, atividade-fim para o qual o município tinha se constituído? É essa resposta que pretendo dar a Nova Friburgo, no seu aniversário de 200 anos.






Entrevista publicada em A Voz da Serra em 10 de setembro de 2011.

1 Response to "ENTREVISTA: HISTÓRIAS E MEMÓRIA DE NOVA FRIBURGO"

Moacyr Lisboa disse...

Recebi esse conteúdo hoje, q me foi enviado por meu neto Moacyr, q nasceu na Flórida, mas q foi criado em Fri. e ama essa cidade muito mais q outros q nela nasceram.Enquanto ele morou em F., depois de adulto, correu atrás daquele livro sobrea cidade e como não o encontrou,a ele foi parar na BIbliotéca Municipal do Rio para ver se conseguia lê-lo lá. Mas foi em vão.
Fiqui feliz com esse presente q ele me enviou e vou guardá-lo com carinho. E confesso q chorei de saudade. Amo a Janaina, mesmo sem conhecê-la.Amo-a na mesma medida q ela ama Friburgo.

Postar um comentário

AVISO:
É proibido usar palavras de baixo calão neste espaço.
Seja cordial com os outros comentaristas.
Ao fazer críticas, favor fundamentá-las.
Caso esses tópicos não sejam seguidos, os comentários serão deletados sem consulta prévia ao autor.

Related Posts with Thumbnails
powered by Blogger | WordPress by Newwpthemes | Converted by BloggerTheme