ENCHENTES, COTIDIANO E HISTÓRIA


Para quem conhece a história de Nova Friburgo, as enchentes do rio São João das Bengalas não surpreende. O que de fato, surpreende, é ausência do poder público durante décadas em lidar com uma situação cotidiana do município. É notório que desde a fundação da vila as enchentes desse rio, mormente no verão, sempre causaram danos materiais, e às vezes humano, à população. Logo, já que as chuvas torrenciais de verão são um déjà Vu em Nova Friburgo, já não deveríamos ter um plano de prevenção que minimizasse o infortúnio da população? Muitas vezes tem-se a impressão do quanto pior, melhor. Melhor para os políticos oportunistas que aproveitam a situação para oferecer um favor, naquilo que deveria ser uma obrigação. O município ainda tem que lidar com a interferência de políticos a serviço do Estado, que colocam prontamente empresas de fachada para prestar serviços pós tragédia e locupletam o ganho pessoal. As redes sociais como o facebook, mostram em tempo real, através dos grupos, a exemplo do grupo “Alerta Chuva em Nova Friburgo”, o que está ocorrendo em cada bairro. A tragédia das chuvas não é mais aquilo do ouvi dizer, mas o que se registra nessas redes sociais pelos moradores dos bairros que “postam” fotografias e até mesmo vídeos do que ocorre em suas localidades. Mas como o objeto dessa coluna é fazer um paralelo entre o passado e o presente, vamos à ele.


A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820, para servir de base administrativa para a primeira experiência de núcleos coloniais no Brasil, utilizando a mão de obra livre, em um país que tinha até então o seu modo de produção e sua economia baseada no trabalho escravo. Essa primeira experiência com colonos foi feita com suíços originários de vários cantões da Confederação Helvética, prevalecendo entre os colonos os do Cantão de Fribourg, daí a origem do nome do município. Como as cidades se originam ao redor dos rios, em Nova Friburgo não foi diferente, desenvolvendo-se às margens do rio São João das Bengalas, formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antonio que lança-se no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul. As enchentes desse rio começam a fazer parte da história de Nova Friburgo desde a sua fundação. Em 1820, devido às incessantes chuvas de verão, a primeira colheita dos colonos suíços recém instalados foi um fracasso. Os suíços abandonaram suas terras e retornaram para a vila. Com as chuvas incessantes, Nova Friburgo apresentava aos colonos um aspecto desolador, acarretando um clima de tensão. O Rio Bengalas transbordara, as pontes que não foram arrastadas ficaram danificadas e as árvores plantadas nas calçadas foram arrancadas. A enchente atingiu igualmente as casas da vila e os riachos tornaram-se torrentes que devastavam os jardins, derrubadando as cercas. Tudo estava inundado. Durante alguns dias, as precárias vias públicas ficaram fechadas para o trânsito. Sob as chuvas intermitentes, Nova Friburgo não parecia uma vila, mas um alagado. Os colonos ociosos reuniam-se nas tabernas e bebiam para matar o tempo, procurando no copo de cachaça um consolo para suas miseráveis vidas. Monsenhor Miranda, Inspetor responsável pela Colônia, lastimava as bebedeiras e a ociosidade entre os colonos que se desentendiam e trocavam insultos. Os colonos chegaram às vias de fato e à noite, ecoava na vila, tiros de fuzil, sendo registrados tumultos e até mesmo casos de estupros.


Já em 1849, o Código de Postura previa que em caso de inundação, a Câmara Municipal poderia solicitar a colaboração da população para debelar tal sinistro. Caso não houvesse colaboração, punia-se o cidadão com pena de multa e até mesmo prisão. Quando havia inundação do Rio Bengalas na vila, fazia-se o “sinal de rebate e chamada”, e cada vizinho do quarteirão era obrigado a acudir ao lugar que sofria danos com todas as “pessoas úteis” de sua família. Ainda no caso de inundação, estando as ruas às escuras, deveriam todas as casas vizinhas iluminarem-se desde o ponto destinado a socorrer. Igualmente, toda pessoa que possuísse máquinas e instrumentos úteis para os socorros de inundação, tais como bombas d´água, barris, tinas, baldes, barcos, carroças, escadas, machados, serras, calabrês, moirões, cordas, correntes e couros ou outros quaisquer objetos de préstimo, seria obrigado a concorrer com os mesmos, colocando-os na ocasião da inundação, à disposição das autoridades presentes, com direito a indenização por qualquer dano ou prejuízo que neles viesse a sofrer. Atualmente, o voluntariado substitui essas práticas. Já no decorrer do século XX, as fontes iconográficas demonstram, notadamente, que as enchentes faziam parte do cotidiano da cidade.
Logo, passando uma vista d´olhos no passado, fica claro que o problema das enchentes não tem como marco inicial as tragédias naturais dos últimos anos, provocadas por mudanças climáticas, como vaticinam algumas pessoas. No entanto, a ocorrida em 2011, vai ficar na memória da população em virtude dos desmoronamentos dos morros, considerada como uma das maiores cem tragédias, nessa categoria, na história da humanidade. Nova Friburgo ocupou espaço na mídia internacional em razão desse sinistro. Não bastasse isso, a história de Nova Friburgo ainda é matizada pela passagem de três prefeitos num só mandato acarretando a descontinuidade de políticas públicas. As eleições municipais ocorrem nesse ano, tendo o efeito simbólico de se saber se os friburguenses desejam mudança ou continuidade, quer em relação ao executivo(prefeito), quer em relação à Câmara Municipal. Somos todos cidadãos ativos para responder, nas urnas, aqueles que serão os timoneiros de Nova Friburgo nos próximos anos.

1 Response to "ENCHENTES, COTIDIANO E HISTÓRIA"

Cacau Rezende disse...

Uma região com características geográficas como a nossa, jamais poderia ter sido ocupada como foi, e continua sendo. A história confirma isso.
E até quando vamos continuar com esse “fazer” sem um mínimo de planejamento técnico aliado às participações populares?
O que somos? Para onde vamos? O que queremos?
Enquanto não iniciarmos o Planejamento Urbano, conforme instituído no nosso Plano Diretor Participativo, de forma democrática não clientelista, jamais conseguiremos tirar nossa cidade dessa situação caótica em que vive.
Cacau Rezende

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