A ÁFRICA BRASILEIRA


Em 1835, a Câmara Municipal de Nova Friburgo informou ao governo provincial que a sua população branca era de pouco mais ou menos 2.800 habitantes e a escrava de 2.000. Em um levantamento realizado pelo império em 1840, a população livre, compreendendo brancos, pardos e negros era de 2.888 pessoas, aproximadamente. Neste mesmo ano a população escrava era de 2.155, correspondendo a quase 43% da população total de 5.043 pessoas, conforme levantamento feito na Freguesia de São João Batista. Logo, o último levantamento não destoa dos dados fornecidos pela Câmara. Dez anos depois, em 1850, a população livre do município de Friburgo era de 4.187 pessoas e o número de escravos neste mesmo ano era de 2.927, correspondendo a 41% da população de 7.114 habitantes. Neste período, o censo abrangia as freguesias de São João Batista e N.S. da Conceição do Paquequer. Quando adiante foram anexadas outras freguesias ao município de Nova Friburgo, como foi o caso de São José do Ribeirão, a escravaria deve ter aumentado ainda mais em virtude das plantações de café.


Como vimos acima, população escrava de Friburgo correspondia à quase metade da população. Logo, Friburgo não foi somente um pedacinho da Europa, mas da África, também. Isto nos faz considerar que na formação social de Friburgo, a contribuição africana foi importante, além de quebrar o mito como o de que, em Friburgo, a escravidão não foi significativa. Antes mesmo dos suíços chegarem a outrora fazenda do Morro Queimado havia muitas sesmarias na região, ou seja, vastas extensões de terras concedidas a determinados indivíduos pelo governo imperial. Recordemos, para obter sesmarias, os sesmeiros deveriam possuir um plantel de escravos.


A escravidão fazia parte do cotidiano de Friburgo. Alguns escravos vendiam mercadorias na vila, como esteiras e produtos de suas roças, com autorização de seus senhores, mas deveriam apresentar licença, pois do contrário, seriam proibidos de comerciar. A maioria que circulava pelas ruas trabalhavam ao ganho, ou seja, vendiam mercadorias por seus senhores e tiravam uma pequena parcela destas vendas. Muitos trabalhavam em obras públicas também por seus senhores, mas há registro de escravos que trabalhavam por conta própria, fenômeno que nas cidades se denominava de “brecha urbana”. A brecha urbana consistia na autorização que alguns escravos obtinham de seus senhores para ganhar o seu próprio dinheiro e com isto, juntavam seus parcos vinténs para um pecúlio objetivando a compra de sua liberdade.


Havia quilombos em Nova Friburgo. Em 1822, há o registro da prisão de quatro escravos fugitivos que confessaram estarem aquilombados nas “partes de Macaé” e que no mesmo quilombo havia outros quatorze escravos. Em 1823, o filho do colono suíço Jean Antoine Mury, morador da fazenda de São Pedro, próximo do Alto Macaé, declarou que quatro portugueses passaram por sua propriedade de posse de objetos pertencentes a negros fugitivos de um quilombo naquele local. Já em 1886, outro registro de quilombo no Córrego Dantas.


Em 1885, três anos antes do fim da escravidão, Friburgo tinha 1.915 escravos, 1.273 em serviço rural e 234 deles em serviço urbano. O mais significativo foi que a partir de setembro de 1873, foram matriculados mais 2.810 escravos no município. A aquisição de escravos ainda continuava intensa, já que os barões do café fluminense custavam a aceitar o fim do trabalho compulsório. A explanação de números é sempre entediante numa leitura, mas foi preciso para responder a alguns friburguenses que ora e meia me perguntam: “Mas existiu escravidão em Friburgo...?”


Fonte: Arquivos do IBGE.








1 Response to "A ÁFRICA BRASILEIRA"

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Olá! Primeiramente quero dar meus parabéns pela brilhante iniciativa deste texto quanto aos dados que foram levantados a respeito da população escrava em Nova Friburgo. Mas eu gostaria de colocar que os suíços e seus descendentes, na grande maioria, foram pequenos proprietários rurais. Em Nova Friburgo, os colonos suíços e alemães também conviveram com os barões do café, dentre os quais estava o Sr. Antônio Clemente Pinto, o qual estima-se que possa ter sido o quarto homem mais rico do país. Embora fosse palco de uma das mais interessantes reformas agrárias da história, Nova Friburgo não deixava de ser um local de passagem entre uma região escravocrata do Vale do Paraíba e a capital do Império. Possivelmente alguns suíços que enriqueceram devem ter se utilizado da mão-de-obra escrava.

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