PRA QUEM É BACALHAU BASTA

O bacalhau, todos nós sabemos, é um produto consumido somente nos períodos de festa e celebrações, a exemplo da semana santa e do natal. Considerado um dos pratos mais caros no cardápio dos restaurantes, é consumido por pequena parcela da população brasileira. Mas nem sempre foi assim. No final do século XIX, o bacalhau era um produto bem popular, muito próximo da carne seca e exposto nas portas dos armazéns e quitandas como uma mercadoria qualquer. Quem nunca ficou com cara de “bacalhau de porta de venda”?

Em Nova Friburgo, por influência dos imigrantes portugueses, o bacalhau era considerado gênero de primeira necessidade como a manteiga, banha, café, toucinho, arroz, feijão preto, milho, cebola, alho, leite, ovos, galinha, entre outros. Nas estações de trem de Friburgo e região, vendia-se bolinhos de bacalhau, enchendo-se os bolsos destes salgadinhos nas paradas.

No edital de licitação de víveres para o “rancho” dos praças(policiais) do Regimento Policial estacionado em Friburgo, além de gêneros básicos incluía-se bacalhau, bem como vinho tinto ou branco de Lisboa. Até mesmo no fornecimento de “comedorias” aos presos da cadeia era servido bacalhau às sextas-feiras. Bacalhau aos presos? Dizia o edital: De ordem do Dr. Chefe de Polícia... Dieta: Leite, caldo de galinha, canja, ovos, chá, bifes; Almoço: um pão de 200 réis com uma caneca de café; Jantar: feijão, carne seca, arroz, toucinho, carne fresca, de domingo a quinta-feira, e bacalhau às sextas-feiras. Bons tempos não? Mas nem sempre os presos foram tão agraciados assim. Em Friburgo, na primeira metade do século XIX, a Câmara somente se incumbia da alimentação de presos pobres, sendo os mais abastados providos por seus familiares.

Os horários das refeições em Friburgo se diferenciavam muito dos hábitos atuais. O almoço ocorria às 10:00 horas da manhã e jantava-se por volta das 16:30 horas. O jantar era a refeição com o horário mais variado, entre quatro e seis da tarde. Para os que dormiam tarde havia ainda uma ceia, sempre frugal. Uma das coisas mais apreciadas pelos friburguenses do fin-de-siècle era uma boa petisqueira nas tardes de domingo, fosse em um dos hotéis ou nos Cafés da cidade, como o Café Central, Café Alexandre ou o Café Flor de Friburgo. Consumia-se presunto, comidas frias, pastéis de nata, empadinhas de palmitos e camarões, lunch , mingau, café, chá, chocolate, vinhos franceses, italianos e portugueses, incluindo o vinho verde, chopp e a nativa cerveja Friburgo-Brau.

Retornando ao pequeno histórico de nosso precioso bacalhau, podemos aduzir do por que a expressão do tipo “pra quem é bacalhau basta”. Naquela época o bacalhau era um produto tão ordinário, que para um sujeitinho qualquer, um probetão ou para arraia miúda, bacalhau bastava. É curioso como determinados produtos ou pratos migram no decorrer dos tempos do popular ao sofisticado, integrando o cardápio de requintados restaurantes. Falamos da feijoada e do feijão tropeiro. A feijoada foi um prato que surgiu em decorrência dos senhores das casas-grande descartarem partes dos suínos consideradas não nobres como o rabo, as orelhas, os pés, sendo aproveitados pelos escravos que os misturavam ao feijão, surgindo daí um saboroso prato que faria parte da cultura nacional. Bem assim ocorreu com o feijão tropeiro, surgido da alimentação dos tropeiros que transportavam mercadorias pelas estradas do Brasil desde o período colonial. Toucinho, feijão e couve era o farnel destes viajantes, caindo também esta refeição no gosto nacional. Já o arroz à carreteira, dos tempos mais modernos, surgiu de sobras de churrascos que caminhoneiros misturavam ao arroz, na refeição do dia seguinte.

Poderia citar ainda a aguardente de cana. Produto associado às classes populares, barato e feito nos engenhos, caiu atualmente no gosto de requintados bares das grandes cidades, com direito inclusive à degustação. A propósito, cachaça em Friburgo era “copo d´água” e quem quisesse se refrescar no final do século XIX, que usasse de outra denominação, pois se alguém pedisse um copo d´água, servir-se-ia cachaça.
Fonte: Jornal O Friburguense. Fundação Pró-Memória de Nova Friburgo.

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