FAMÍLIA SERTÃ:A DISCRIÇÃO AO DISTRIBUIR MERCÊ





Elisa Sertã

Diz-se que Getúlio Vargas experimentou certa feita, em Petrópolis, algumas frutas e ficou maravilhado. Os pêssegos eram doces e suculentos, de sabor inigualável. O presidente quis saber a sua origem. Eram de Nova Friburgo, produzido por Raul Sertã que cultivava no Sítio Santa Elisa, de sua propriedade, além de pêssego, uva, figo e castanha portuguesa. Desde então, o presidente encomendava sempre os frutos de Friburgo. Mas quem eram os Sertã em Nova Friburgo? A história dessa família se inicia em Nova Friburgo no Século XIX. Antonio Lopes Sertã(1851-1894) português originário da vila Sertã, era mascate, e vinha periodicamente a então Vila de Nova Friburgo carregado de mercadorias em lombo de burro, antes da vinda do trem em 1873. Comercializava seus produtos no Empório do rico português Joaquim Tomé Ferreira, que ocupava quase toda a Rua Gal. Argolo(Alberto Braune). Foi quando se apaixonou pela filha de Ferreira, Elisa(1858-1933), que logo correspondeu ao seu amor e vieram a casar-se constituindo uma família que se tornaria uma das mais tradicionais da cidade. Tiveram seis filhos: Licínio, Mário, Raul, Alfredo, Aníbal, Antonio e Hilda, sendo que os dois últimos morreram precocemente aos 21 e 22 anos, respectivamente. Elisa ficou viúva aos 46 anos, e continuou administrando as atividades da família. Vendeu o Empório, construiu várias casas para transformar em renda os aluguéis, prática tipicamente portuguesa, e segundo a família quadruplicou o patrimônio dos Sertã. Foi fundadora juntamente com Acácio Borges, Castro Nunes, Samuel de Paulo Castro e Henrique Éboli, da Caixa Rural, o primeiro banco de Nova Friburgo. No governo de Gustavo Lira da Silva, prefeito da cidade, emprestou dinheiro para as obras públicas cuja dívida era amortizada no imposto predial.

O solar dos Sertã, localizado na Alberto Braune e construído em 1900, foi edificado com pedras de cantaria mandados vir de Portugal por Antonio Lopes Sertã. Foi construído sobre um terreno que ocupava toda a extensão do lado direito da atual Duque de Caxias, até o Rio Bengalas. Atualmente no local do antigo solar encontra-se o supermercado ABC. Herança do período colonial, os altares eram comuns nas casas-grandes de fazenda porque era lá que se realizavam as missas. Posteriormente, a Igreja proibiu a realização de missas em casas particulares, mas a tradição dos altares nas residências foi mantida. Havia no solar dos Sertã três altares: um no salão principal, trono do Sagrado Coração, e dois no “quarto dos Santos”. Aí se faziam orações diárias pelos antepassados e amigos da família falecidos. Era um tempo em que os mortos eram lembrados e cultuados. Rezavam todas as noites em frente ao oratório. Quando se solicitava aos santos um pedido mais importante, como a cura de uma doença, ajoelhavam sobre o milho, de braços abertos, em sinal penitência. Mas o solar dos Sertã passava do religioso ao profano. Bailes de carnaval, “arrastas” e recepções enchiam de alegria o casarão da Alberto Braune. Anselmo Duarte, o galã do estúdio de cinema Atlântida, quando vinha a Friburgo freqüentava as festas do casarão da família Sertã.

Raul Sertã: Na ponta, a direita.

Os filhos de Antônio e Elisa Sertã que ficaram em Friburgo logo se destacaram. Mário Sertã, médico, inaugurou a primeira Casa de Saúde particular em Friburgo, localizada onde hoje é o Hotel Montanhês. Raul Sertã, além de seus premiadíssimos frutos em exposições agrícolas, trouxe a primeira Companhia Telefônica para a cidade sendo o maior acionista. Mas o que caracterizou a família Sertã foi a caridade e a discrição. O casarão da Madre Roseli de propriedade de Josephina Marques Braga Sertã, casada com Mário Sertã, foi doado para abrigar meninas órfãs e Raul Sertã se ocupou em financiar as obras para adaptar o lindo sobrado residencial para sua nova função. O Nova Friburgo Futebol Clube deve aos Sertã o seu estádio. Fizeram a doação do terreno visando promover o esporte que nascia na cidade no início do século XX: o futebol. Desde o Império passando pela República, o governo limitava a assistência de saúde aos pobres somente com a doação de remédios. Não construíram hospitais públicos até metade do século XX. As Santas Casas de Misericórdia foram criadas para suprir essa deficiência do Estado e acolher os doentes pobres em suas instituições de caridade. Raul Sertã foi quem doou o terreno para a construção da Santa Casa de Misericórdia em Nova Friburgo, cuja manutenção e administração era feita por homens abastados da cidade e a população em geral. A Santa Casa de Misericórdia foi desapropriada no governo de Paulo Azevedo, transformada em hospital municipal e constitui o atual Hospital Raul Sertã. O terreno onde hoje é instalada o Fábrica Ypu foi doado por Elisa a Maximiliam Falk para a construção da fábrica. O pai de Elisa deixou-lhe como herança uma extensa propriedade que ia do atual Bairro Ypu até Theodoro de Oliveira. Elisa soube dividir com a cidade e doou parte do terreno para a instalação da referida fábrica no intuito de promover o progresso em Friburgo. Os Sertã auxiliaram ainda nas obras sociais da Instituição Santa Dorotéia, entre outras.
Elisa Sertã faleceu em 1933, aos 76 anos de idade. Quando da passagem de seu cortejo fúnebre pela rua principal até o jazigo da família, as casas comerciais e residências cerraram as portas e janelas, em sinal de respeito a grande benemérita que auxiliara no progresso e fizera caridade em Nova Friburgo. Dr. Feliciano Costa, quando prefeito, teceu-lhe preito dando-lhe um nome de rua. O que chama a atenção é como as famílias supriam, pelo menos até a primeira metade do século XX, funções e deficiências do Estado, no caso em epígrafe, o município de Nova Friburgo.

O primeiro time de futebol em Friburgo, onde os sertã participavam

O auxílio assistencial a indigentes e órfãos, o fomento da atividade industrial, o financiamento de obras públicas, a promoção de atividades de lazer foram espaços que tiveram que ser preenchidas por particulares. Os Sertã tiveram a generosidade de dividir seu vasto patrimônio com os desvalidos e com o desenvolvimento da cidade. E o que é mais edificante, foi a sua discrição ao distribuir mercê.

Entrevista realizada com Maria do Carmo Sertã Passos, Margarida Sertã Meressi e Lúcia Sertã em julho de 2010.

1 Response to "FAMÍLIA SERTÃ:A DISCRIÇÃO AO DISTRIBUIR MERCÊ"

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Diferente dos tempos de hoje em que parte das riquezas se encontra nas mãos do Estado e que as decisões nas grandes empresas são tomadas por administradores que buscam satisfazer a rentabilidade dos acionistas, o século XIX ainda permitia que o bem estar social fosse promovido pela generosidade de pessoas. Era uma época em que famílias ricas tinham a oportunidade de contribuir decisivamente para o desenvolvimento de uma cidade e até mesmo de um país.

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