AS CIDADES MORTAS

Acima: Imigrante italiana, da família Zagnner, natural de Nápolis(Itália), que foi trabalhar nas lavouras de café de Valão do Barro.


Monteiro Lobato publicou um conto em 1906 intitulado “Cidades Mortas”, descrevendo a decadência das cidades outrora opulentas do Vale do Paraíba Fluminense. Lobato escreveu: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. Muitos habitantes dessas cidades mortas migraram para municípios mais prósperos, como o caso de Nova Friburgo que se tornou um ponto de convergência e referência educacional e cultural de inúmeras cidades do norte-fluminense. Vamos nos limitar a um único exemplo que serve de parâmetro para outros municípios. Valão do Barro, distrito de São Sebastião do Alto foi uma cidade próspera no século XIX. A revista Singra, encartada no jornal Correio da Manhã, descreve sobre essa cidade com um passado áureo e que depois perdeu toda a sua importância. E por falar em áureo, o ouro foi uma das razões da existência de Valão do Barro.


São Sebastião do Alto foi desbravada em 1770, com a chegada de diversos aventureiros às margens dos rios Grande, Negro, Macuco e afluentes, atraídos pela febre do ouro. Nos primeiros tempos, além de lutarem contra a natureza hostil, esses aventureiros ainda tiveram que enfrentar os índios coroados e goitacazes, senhores da região. O vice-rei Dom Luis de Vasconcelos e Sousa, ao ter notícia da existência desses garimpeiros em terras altenses, por volta de 1787, tomou providências para resguardar os interesses da Fazenda Real, enviando uma tropa militar à região. Entretanto, seus enviados verificaram que os aventureiros haviam esgotado os principais filões auríferos, não compensando mais a sua exploração. Muitos garimpeiros, já diante da incerteza da garimpagem, passaram a dedicar-se à lavoura do café e a criação. Surgiram inúmeras e prósperas fazendas de café na região devido a transferência do capital proveniente da lavra de ouro, a exemplo da Fazenda Monte Verde.


No planalto da serra “Deus-me-livre”, ponto obrigatório de passagem das tropas que se dirigiam a Macaé, procedentes de Cantagalo e até de Minas Gerais, surgia em 1840, o arraial de São Sebastião do Alto. Seu progresso foi rápido, sendo elevado à categoria de curato em 1852, e três anos depois já se tornava freguesia. Vivia sua época de esplendor, com latifúndios baseados na mão de obra escrava e na monocultura do café. A região é fértil com diversos rios e ribeirões lhes banhando as terras. Luiz Fernando Folly nos informa que Francisco Clemente Pinto, irmão do Primeiro Barão de Nova Friburgo, Comendador da Imperial Ordem de N.S.Jesus Cristo e Oficial da Imperial Ordem da Rosa possuía fazendas em Itaocara, Ibipeba, Pedra Lisa, Valão de Barro, entre outras.


Naturais de Valão do Barro

O fim da escravidão deixou, no entanto, as fazendas desertas e é nesse momento que alguns imigrantes italianos foram cooptados para substituir a mão-de-obra escrava. Mas São Sebastião do Alto não se reergueu, pois a estrada de ferro passava longe das fazendas e o sistema de tropas de mulas para transporte do café tornava sua produção não competitiva. Tivessem os trilhos de Macuco se estendido até Valão do Barro sua história seria outra. Assim, muitos fazendeiros trocaram suas atividades e passaram então para outro ramo: a pecuária. Em razão de sua decadência, somente muito tarde São Sebastião do Alto foi erguido à categoria de cidade, em 27 de dezembro de 1929. Transcorridos muitos anos, em 1953, Valão do Barro ainda apresentava aspecto colonial. Quando viajamos pelo interior fluminense, devemos ficar atentos para o fato de que atualmente muitas cidades pequenas, decadentes, “cidades mortas” como quer Monteiro Lobato, viveram fase de esplendor no passado. Valão do Barro, hoje um remoto lugarejo, é um exemplo de cidade sobre o qual passamos e sequer nos damos conta de sua importância no passado, visto que guarda muito pouca permanência de seu passado glorioso.



Acima: Segunda geração dos descendentes dos Zagnner

2 Response to "AS CIDADES MORTAS"

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

As "cidades mortas" nos levam a refletir acerca da finitude dos projetos humanos. Será que em algum futuro não tão distante as cidades serranas também não deixarão de existir para que a natureza se recomponha nas áreas mais acidentadas onde há nascentes d'água e os seus territórios tornem-se parte de alguma unidade de conservação de preservação integral? Curioso que já no ano de 1906, antes da queda do ciclo do café que coincidiu com a quebra da bolsa de NY (1929), Monteiro Lobato já tenha falado em "cidades mortas". Tal como Valão do Barro, li certa vez numa revista que o Sana também viveu seus tempos de glória na época do café quando a população do arraial chegou a ter mais de 10 mil habitantes, enfrentando décadas de esquecimento até passar pela época do cultivo da banana (por volta dos anos 70) e, nos anos recentes, ser conhecida pelo turismo ecológico. Quando desço para o Rio de Janeiro passando pela RJ-116 e vejo algumas embaúbas prateadas no meio da floresta (sinais de que se trata de mata em recomposição), ainda assim fica difícil imaginar que, há 80 anos atrás, grande parte daquele cenário encontrava-se desmatado com lavouras de café ocupando o espaço e deixando intactas apenas as florestas nos altos dos morros ou locais de difícil acesso.

ALEXIA LOPES disse...

MINHA MÃE NASCEU EM VALÃO DO BARRO VEIO DE UMA FAMILIA DE 15 FILHOS FILHA DE PAUMIRA GONÇALVEIS DE OLIVEIRA ROSA E DERMEVAL DE OLIVEIRA ROSA , MINHA MÃE FALECEU AGORA EM AGOSTO E ALGUNS TIOS E TIAS TAMBÉM JÁ SE FORAM E EU SINTO MUITO A FALTA DELA ENTÃO GOSTARIA DE SABER MAIS DA ORIGEM DE MINHA MÃEZINHA E VC PUDER ME MANDAR ALGUMAS FOTOS OU DOCUMENTARIOS DA CIDADE DE VALÃO DO BARRO OU SEBASTIAÕ DO ALTO OU SE VC TIVER COMO PESQUIZAR A FAMILIA DE MINHA MÃE LÁ NA CIDADE , PARECE QUE MEU AVÔ ERA IRMÃO DE DONA BRASILINA UMA SENHORA MUITO INFLUENTE
BOM SEM MAIS MUITO OBRIGADO

MEU EMAIL É
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OU MEU TEL 021 95036476

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