UMA HISTÓRIA PESSOAL, UMA HISTÓRIA LOCAL: AS MEMÓRIAS DE ELVIRITA



Maria Elvira Veloso Serafim - Elvirita



Maria Elvira Veloso Serafim nasceu em Duas Barras em 04 de maio de 1915. Aos 96 anos de idade possui 18 netos, 26 bisnetos e 3 tataranetos. Elvirita, como é conhecida, viveu um cotidiano bem diferente de seus bisnetos e passou por diversos períodos de transformações sociais e econômicas em seus quase um século de existência. Seu avô, o português Joaquim Gonçalves Corguinha, veio de Portugal no final do século 19 para Duas Barras e juntamente com o irmão adquiriu uma fazenda na região, dedicando-se à cultura do café. A terra era muito barata naquela época. Casou-se com Augusta Ricardo Corguinha, natural da Ilha da Madeira e tiveram dez filhos. Na fazenda de seu avô Elvirita se recorda dos vestígios da escravidão, um paredão enorme que serviu de senzala. A fazenda foi herdada pelos pais de Elvirita e com o fim da escravidão prevalecia o sistema de colonato. No entanto, os colonos não eram estrangeiros, eram nacionais e da região. Os colonos recebiam uma casa, um “trato de terra”(terreno) e davam a “meia” de sua produção ao proprietário da fazenda. Além de café plantava-se milho, feijão e marmelo, daí o nome de Fazenda do Marmelo. O marmelo era uma fruta muito comercializada pelos portugueses onde se fazia o doce e a marmelada. Já a vara de marmelo servia como instrumento de correção das crianças desobedientes e rebeldes. Não há criança de sua geração que não tomasse vez por outra uma surra com vara de marmelo nas pernas. Porém, essas punições disciplinares não afetaram a relação de amor e respeito entre pais e filhos. Pela manhã e à noite os filhos pediam a benção aos pais. Beijava-se a mão e não o rosto. À noite se faziam as orações. Os casados que moravam perto dos pais, todas as manhãs iam tomar a benção. Às vezes nem entravam. Chegava-se na cozinha, tomava um cafezinho, pediam a benção e iam para sua labuta diária, relembra Elvirita.



Era uma rotina diferença da atual. Levantava-se às 6:00 horas da manhã e se tomava apenas um cafezinho. Às 8:00 horas se almoçava. Jantava-se entre duas e três horas da tarde e às oito horas da noite já estava todo mundo dormindo. Comia-se carne de porco, ovo, galinha, canjiquinha, arroz, feijão, verdura e naquele tempo se usava muito o bacalhau, que era barato. Comia-se bacalhau com chuchu, com quiabo, puro ou com batata. A qualidade do bacalhau era melhor do que de hoje, do tipo 8/10, recorda-se Elvirita. Andava-se 3 km a pé para chegar ao colégio e tinham que carregar ainda os livros de geografia, gramática, aritmética, história do Brasil, ciências e catecismo. Nas horas de lazer se pescava no córrego da fazenda lambari, bagre e moréia. Na adolescência, Elvirita se divertia nos bailes nas casas dos amigos onde a sanfona e violão acompanhava as danças. A festa das folias, no dia de reis, era como o carnaval de hoje. A festa de São João era igualmente muito aguardada onde famílias faziam broa, bolo, doce de mamão, etc. Pulavam-se as fogueiras e dançavam-se quadrilhas. Armavam-se as barracas, cada um levava “um prato” de doces e comiam-se as guloseimas das barracas sem pagar nada. Tomava-se vinho de garrafão e cachaça. Nada era vendido. Havia muita fartura, recorda-se Elvirita. A família de Elvirita mudou-se para Sumidouro e foi em Murinelly que conheceu o seu marido, José Ribeiro Serafim, um lindo rapaz descendente de italianos, e tiveram seis filhos. Havia muitos italianos em Murinelly. José Serafim, além de tropeiro, tinha como atividade comprar matas da região, extrair a madeira e vender a lenha para Cia. Leopoldina. Para o proprietário da mata era um bom negócio, pois além de vender a madeira ficava com a terra livre para a agricultura. José Serafim comprava ainda das “terras quentes” cereais como milho, feijão, café, arroz e açúcar. Colocava as mercadorias em bolsas de couro, as bruacas, e seguia com dois ajudantes e sua tropa de doze animais de Sumidouro para Bonsucesso, Frade, Vieira onde vendia no comércio local. Como a linha do trem não existia nesse caminho, muitos tropeiros permaneceram com suas atividades mesmo depois do “cavalo de ferro”. José Serafim passou também a comprar boi de corte na região e em Minas Gerais e conduzia o gado para o matadouro do Cantelmo, no Campo do Coelho. Com suas economias adquiriu a Fazenda Boavista e deixou a atividade de tropeiro, se sedentarizando. Passou a plantar cana-de-açúcar onde possuía um engenho e a produzir açúcar mascavo. Plantou ainda arroz adquirindo uma máquina de beneficiamento. Até 1950, de acordo com Elvirita, a terra ainda era barata na região e ainda se adotava o sistema de colonato e meação. Quando José Serafim faleceu, Elvirita continuou a administrar as propriedades da família, mas os tempos já estavam mudando. Os antigos colonos, denominados campeiros, foram morrendo, uns se entregavam à bebida e a mão de obra ficava cada vez mais difícil. Elvirita optou, em razão da falta de mão de obra, pela pecuária com a comercialização de leite, pois não se necessitava de muitos campeiros nesse ramo de negócio.



Considerando as memórias de Elvirita desde os tempos de avô, temos mais de cem anos de história, que remontam ao final do século 19. A vida de Elvirita, que aparentemente pode nos parecer banal, revela um interessante ciclo econômico pelo qual passou a região fluminense: o tipo de cultivo da região, a adoção do sistema de colonato e da meação na organização do trabalho, o valor da propriedade fundiária, a persistência do sistema de tropas mesmo depois do advento do trem, e as mudanças da atividade econômica relacionadas com a questão da mão de obra. Pela história pessoal de Elvirita, conhecemos a história local, e daí a importância de suas memórias.

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