DEPOIS DE FORASTEIRO, AMPARO VOLTA ALTANEIRO



No último quartel do século XVIII, muitos bandoleiros e garimpeiros de Minas Gerais migraram para os Sertões do Macacu em busca de novas lavras de ouro. Os garimpeiros tinham como liderança Manoel Henriques, conhecido pela alcunha de Mão de Luva. Quando Jerônimo de Castro de Souza chegou a essa região, denominava-se Sertões do Macacu, que depois viria a ser Cantagalo. Muitas datas de terras estavam sendo distribuídas e Jerônimo, como vimos em matéria anterior, foi beneficiário de uma delas, como prêmio pela delação feita contra Tiradentes. Em 1820, houve um desmembramento de parte de Cantagalo para a formação da Vila de Nova Friburgo, para abrigar um Núcleo Colonial de Suíços. A sesmaria(terras) de Jerônimo, localizada nessa região, passou a pertencer a Freguesia de São João Batista, no termo de Nova Friburgo. Como a região, onde hoje parte é Amparo, desenvolvesse sobremaneira em razão das plantações de café, em 13 de outubro de 1857, o decreto 969, erigiu aquela região ao status de freguesia, aumentando-lhe a importância, sob a denominação de Freguesia de São José do Ribeirão. As terras de Amparo encontravam-se incluídas nessa freguesia.



Com a proclamação da República, futricas políticas do governo Francisco Portela culminaram com a perda de Nova Friburgo do 3° distrito de São José do Ribeirão, que se tornou, em julho de 1891, por decreto, município de São José do Ribeirão, tendo a sede na povoação do mesmo nome. Em 1891, Bom Jardim passou a ser distrito do recém criado município de Cordeiro. Porém, já em maio de 1892, uma nova reforma administrativa extinguiu o município de Cordeiro e devolveu as terras de Bom Jardim para Cantagalo, no qual sempre pertencera. Igualmente, devolveu São José do Ribeirão para Nova Friburgo por faltar a essa localidade requisitos essenciais para tornar-se um município. Devido a instabilidade política, a Lei nº 37 de 17 de dezembro de 1892, novamente altera a região: São José do Ribeirão volta a ser município. Em 5 de março de 1893, o distrito de Bom Jardim deixa de pertencer a Cantagalo e é erigido a município com o mesmo. São José do Ribeirão passa igualmente a pertencer-lhe. Logo, definitivamente Amparo passaria a pertencer a Bom Jardim. A população de Amparo ficou desesperada culminando com uma intensa mobilização para o retorno a Nova Friburgo.


Diante de todo esse imbróglio, que sempre tem interesses político e econômico das elites por detrás dessas disputas territoriais, fica a pergunta: por que o pacato distrito de Bom Jardim ganharia tanta força política, desmembrando-se de Cantagalo e anexando a Freguesia de São José do Ribeirão? Provavelmente, o responsável por esse up grade de Bom Jardim teria sido Luiz Corrêa da Rocha, o maior latifundiário da região, ao qual o território onde hoje é Bom Jardim, praticamente lhe pertencia. O coronel Luiz Corrêa da Rocha foi quem arrematou, em leilão, em 1896, o Engenho Central do Rio Negro, localizado em Laranjais, hoje distrito de Itaocara. Luiz Corrêa da Rocha, curiosamente, será um dos defensores da desanexação de Amparo do município de Bom Jardim e tem nome gravado em uma estela, entre o nome de outros, na praça principal de Amparo, tecendo-lhe gratidão.


O articulista Nelson Kemp, em matéria publicada em A Voz da Serra(20.8.1961), informa-nos que na ocasião do desmembramento, Eugênio e Pedro Gripp, adversários na política de Amparo, uniram-se para eleger Pedro Gripp a vereador na Câmara de Bom Jardim. Empossado, Pedro Gripp requereu o desmembramento de Amparo do município de Bom Jardim. Já em Nova Friburgo, Galdino do Valle Filho, deputado estadual, atendendo aos clamores da comunidade, igualmente apresentou projeto de lei, em 1911, solicitando a transferência do distrito de Amparo de Bom Jardim para Nova Friburgo. Esse projeto, certamente, atendia aos interesses políticos de Galdino do Valle Filho. Cabe ressaltar ainda que os Galiano das Neves não ficaram nada satisfeitos com a anexação da Fazenda Cachoeira a Bom Jardim.




No entanto, acreditamos que quem deu a palavra final foi o Coronel Luiz Corrêa da Rocha, vereador na ocasião juntamente com Manoel Corrêa da Rocha. Em 10 de outubro de 1911, Amparo volta a fazer parte de Nova Friburgo, incorporado ao 1° distrito, e em 1924, passa a ser distrito, o quarto do município. Com o retorno ao berço natural, os amparenses deixaram consignado em seu hino: “depois da quatro lustros, forasteiros, sem poder aclamar a nossa terra, a Friburgo voltamos altaneiros....sempre fomos friburguenses e seremos!...a Friburgo aportamos destemidos, a Bom Jardim, porém, nunca olvidando...”


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HARTWIG E ANNELISE: OS ANJOS DE SELMA GAISER







Hartwig e Annelise: Os anjos de Selma Gaiser


No passado, em decorrência do alto índice de mortalidade entre as crianças, as mães não estabeleciam relações de afetividade com seus filhos nos primeiros anos de vida, mas somente, quando encontravam-se em idade mais avançada e mais resistentes às doenças. A mortalidade infantil era muito natural já que a medicina não possuía os recursos de hoje. De acordo com Gilberto Freyre, na sociedade patriarcal brasileira, as crianças mortas tornavam-se anjos para suas mães. As mães regozijavam-se com a morte do anjo, como a que Luccock, viajante inglês no século XIX, observou no Rio de Janeiro: mães chorando de alegria porque o Senhor lhe tinha levado o quinto filho pequeno. Eram já cinco anjos a sua espera no céu! Du Petit-Thouars viu em Santa Catarina, em 1825, em volta do altar com um meninozinho morto, mulheres em trajes de festa, ajoelhadas sobre esteiras, cantando. Em Nova Friburgo, no início do século XX, havia no cemitério do da cidade a quadra dos anjos, espaço reservado às crianças. Mas por que falar em morte de crianças em um dia tão festivo, como é o do “dia das crianças”, agora em 12 de outubro?


No primeiro decênio do século XX, várias indústrias instalaram-se em Nova Friburgo. Hans Gaiser(28.02.1897-29.09.1952), engenheiro, alemão, imigra para o Brasil em razão da crise econômica na Alemanha, intensificada depois da Primeira Guerra Mundial(1914-18). Chegando ao Rio de Janeiro, devido à sua experiência na construção de hidrelétricas na Alemanha, foi contratado por uma empresa de pavimentação de estradas. Uma das obras em andamento era a estrada entre o Rio de Janeiro e a região serrana. Essa estrada o conduziu a Nova Friburgo. Gaiser possivelmente se familiarizara com Nova Friburgo, que recebera significativo afluxo de colonos e imigrantes alemães desde o século XIX. Encontrando muitos conterrâneos, optou por estabelecer-se em Nova Friburgo, abrindo uma empresa de construção civil. Casado com Selma Gaiser(05.07.1890-15.05.1967), alemã judia, Hans Gaiser foi um bem sucedido engenheiro em Nova Friburgo, realizando muitas obras nas indústrias recém-instaladas, construindo pontes e residências. Hans e Selma tinham domicílio em uma residência que existe até hoje, em estilo art deco, ao final da Rua Augusto Spinelli, ao lado do edifício que teve sua lateral destruída no sinistro de janeiro de 2011. Foi nessa residência que nasceu o primogênito dos Gaiser, Hartwig, em 31 de março de 1926. Posteriormente, quatro anos depois, nascia a flor da família, Annelise, em 25 de junho de 1930.



Selma Gaiser e Hartwig






Hans Gaiser e seu primogênito


Como o empreendedor Hans Gaiser iniciara a construção da Fábrica de Ferragens Haga, possivelmente optou por um domicílio mais próximo do trabalho. Passou a residir no local que ficou conhecido como Sítio São João, um dos locais mais afetados pela tragédia de janeiro de 2011. Em sua nova residência, o casal Gaiser tinha tudo para ser feliz. Gaiser além de ter sido bem sucedido no ramo da construção civil, prosperava em sua nova indústria, contando com o auxílio de Julius Arp, proprietário da Rendas Arp. Hans Gaiser entrava para o seleto clube da trindade teutônica, de grandes industriais alemães em Nova Friburgo. Sua residência, em um aprazível vale onde a natureza traja sempre galas, era um paraíso onde poderia criar seus dois filhos. No entanto, a felicidade do casal foi interrompida por duas sucessivas mortes. Annelise, a florzinha da família, falece em 18 de fevereiro de 1931, antes de completar um ano de nascimento. Annelise se transformou no anjo para proteger a família. A morte de crianças prematuras ainda era algo aceitável, mesmo advindo das classes sociais economicamente abastadas. Porém, o anjo Annelise não conseguiu proteger a família e mais um infortúnio abateu-se sobre os Gaiser. Misteriosamente, o primogênito da família, Hartwig, falece em 22 de março de 1934 de uma febre intermitente, três anos depois da irmã, nove dias antes de completar oito anos de idade. Foi grande a comoção na família e em toda comunidade alemã luterana de Nova Friburgo. O casal não teve mais filhos.





Hartwig, o 5° da esquerda para a direita, morreria antes de completar oito anos.


Falecida em 1967, Selma Gaiser deixa em testamento a sua residência e todas as terras do seu entorno para a Congregação das Irmãs Franciscanas de Dillingen. Essa Congregação, originária da Baviera, foi fundada em 1241, na Alemanha, e estabelecida no Brasil em 1937, realizando obras assistenciais com crianças órfãs. Hans Gaiser tinha uma sobrinha que fazia parte dessa congregação e já haviam doado uma residência de férias, na Vilage, para as irmãs, que freqüentavam amiúde a residência dos Gaiser. Selma transformou a dor da perda de seus filhos em felicidade para centenas de crianças órfãs e de lares desestruturados. O local passou a denominar-se de Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser. Selma estipulou em seu testamento que as irmãs mantivessem o orfanato para meninas órfãs e carentes por 25 anos, com no máximo vinte meninas, em regime de internato. Mas as meninas internas sempre excederam a esse número. Selma autorizou ainda a venda de terrenos no entorno da propriedade quando houvesse necessidade financeira. Com o passar dos anos, a Congregação alienou vários deles, transformando-se em um belo bairro residencial. Igualmente uma extensa propriedade no Campo do Coelho foi doada por Selma, onde funciona até hoje a Humedica, entidade filantrópica protestante alemã, mantida por alemães, que desenvolve oficinas de artes, música, atividades recreativas e educacionais, com crianças carentes da região.


Entrevistando Márcia Cristina de Souza, com 45 anos de idade, uma das primeiras meninas a habitar o Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser, conhecemos um pouco do cotidiano do internato de meninas. Márcia e sua irmã vieram muito novas para o Lar de Crianças, pois seu pai era alcoólatra e sua mãe não tinha condições de criar as filhas. No internato, uma vida pautada na disciplina: horário para acordar, para as refeições, para o lazer na piscina e para dormir. Os estudos regulares eram feitos nas escolas públicas. Sempre falava-se dos benfeitores Hans e Selma entre as crianças que rezavam para agradecer a grandeza do gesto do casal. Estavam sempre nas orações das meninas. Pelos corredores do Lar de Crianças, os retratos dos filhos, a memória do drama familiar dos Gaiser. Hartwig e Annelise faziam parte do imaginário das meninas: qualquer barulho no quarto à noite, amedrontadas, achavam que as crianças saíam de seus túmulos e retornavam para brincar em seus aposentos. Márcia recorda-se dos dois quartos de Hartwig e Annelise, o papel de parede azul floral do primeiro e rosa da segunda. Ulteriormente um dormitório maior foi construído, pois os dois quartos das crianças eram insuficientes para abrigar as meninas. Márcia lembra-se das cantigas infantis alemãs que cantavam em alemão tosco, como a do “papagaio loiro”: “Papagaio loiro de bico dourado/ leva-me esta carta ao meu namorado./ Ela não é frade, nem homem casado/ é rapaz solteiro, lindo como um cravo./ Para o outro lado, para a outra margem,/ papagaio loiro de linda plumagem./ De linda plumagem, linda como oiro,/ leva-me esta carta, papagaio loiro.” Muitos alemães participavam de atividades festivas no Lar de Crianças. Mas o que Márcia recorda-se com emoção era dos festejos de Natal, em estilo alemão, com encenações teatrais em que cada criança representava um elemento do presépio. Outrossim, a espera do papai Noel descendo a lareira da casa e a expectativa dos presentes.





Maria Cristina de Souza, uma das primeiras meninas internas do Lar de Crianças.


Foram mais de vinte anos recebendo crianças carentes que residiam no orfanato, em regime de internato. Posteriormente, o Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser extinguiu o internato, pois as irmãs desejavam que as crianças não se afastassem do lar paterno. Passou a ser somente creche, depois Jardim de Infância e atualmente a irmãs oferecem outro tipo de serviço às crianças carentes. Pela manhã pegam as crianças nos bairros, a exemplo do Loteamento Floresta, levam para o sítio e lá chegando tomam café da manhã, tem aulas de reforço e de música, recreiam, comem frutas, almoçam e depois são deixadas no colégio para as aulas regulares. Devido à tragédia de janeiro de 2011, cujo sítio foi muito afetado, essas atividades estão interrompidas. A Congregação perdeu parte da verba para esse tipo de assistência. Atualmente, sob a direção das irmãs Maria Helena de Souza e Maria Rodrigues Feitosa, necessitam que a prefeitura arque, ao menos, com as despesas transporte, mas até o momento, esse benefício não lhes foi deferido.


O sofrimento da perda dos filhos, precocemente, levou Selma Gaiser a fazer um gesto altruísta. Beneficiou gerações de meninas que passaram pelo Lar de Crianças. Foi igualmente graças ao trabalho das Irmãs Franciscanas que meninas como Márcia, que provinham de lares desestruturados, tiveram uma boa educação e formação. Abusando da retórica, pode-se afirmar que Hartwig e Annelise, os dois anjos de Selma Gaiser, fizeram jus à representação que se fazia, no passado, de crianças mortas: foram anjos que protegeram as meninas e sua presença podia até ser percebida por elas, à noite, nos dormitórios do Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser.



Abaixo fotos do Lar das Crianças Hans e Selma Gaiser





























A HISTÓRIA DO CAFÉ JAVA: MAIS UMA LENDA EM AMPARO?


O provecto patriarca Eugênio Gripp


O coronel Galiano das Neves(1826-1916), um vulto na história política de Nova Friburgo, no século XIX, escolheu as terras férteis de Amparo para o plantio do café, adquirindo a fazenda Cachoeira do Amparo. Essa fazenda encontra-se até hoje na propriedade da família. Terra fértil para o café, a região de Amparo, que fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão, era coberta por cafezais no século XIX e até início do século seguinte, destoando da paisagem atual. Além do mito do “Amparo dos inconfidentes”, como vimos em matéria anterior, surge ainda a história de que teria partido de Amparo a difusão de um tipo de café, o café java, por toda a província fluminense, gerando os barões do café.


Segundo a tradição oral dos habitantes mais antigos de Amparo, Luiz Sardemberg, alemão, estabelecido em Sana de Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, em viagem por Java, na Oceania, adquiriu duas mudas de café, plantando em sua propriedade, quando de seu retorno ao Brasil. No entanto, Sardemberg faleceu sem ver os dois pés de café maduros que trouxera com tanto sacrifício ao Brasil. Deixando dois filhos como herdeiros, um ficava cuidando da propriedade da família e o outro, o mais velho, viajava a negócios. Certa feita, o mais jovem resolveu construir um viveiro de aves, arrancando os dois pés de café que o pai cultivara e jogou-os em um entulho, para dar lugar ao viveiro. Por um ato da divina Providência, um dos arbustos sobreviveu e continuou brotando, ainda que raquiticamente, sobre o entulho. Quando o primogênito retornou de viagem e procurou pelos pés de café, ralhou com o irmão pelo seu procedimento e correu ao entulho para ver se salvava os pés de café. Como um dos pés brotara, replantou-o, que produziu alguns grãos e fez novas mudas de pés de café. Porém, como fizesse em local impróprio na fazenda, não produziu o resultado desejado e assim não deu muita importância a rubiácea. Certa ocasião, o capitão Augusto José Carlos de Toledo, pernoitando na fazenda dos irmãos Sardemberg, adquiriu uma muda do cafeeiro, plantando-o em seu pomar, em sua propriedade em Amparo.



Começa a entrar nessa história um colono alemão. Os alemães migraram para Nova Friburgo, em 1824, para ocupar as datas de terras abandonados pelos suíços e dar um novo incremento e fomento ao Núcleo dos Colonos. Jorge Gripp, filho de Gaspar Gripp(na realidade, o sobrenome original é Grieb), um dos primeiros colonos alemães, ficou atraído pelo arbusto que viu no pomar de Toledo e inteirou-se de onde o adquirira. Curiosamente, Jorge Gripp comprara a fazenda de uma das filhas de Jerônimo Castro Souza, o pseudo inconfidente que fundara Amparo. Jorge Gripp dirigiu-se a fazenda dos conterrâneos irmãos Sardemberg e encomendou sementes da próxima safra. Em data aprazada, Jorge Gripp enviou seu filho Pedro Alberto Gripp, com 8 anos de idade, acompanhado de um escravo, para buscar as desejadas sementes de café na fazenda dos Sardemberg. Jorge Gripp plantou as sementes, fez diversas mudas e os cafeeiros desenvolveram admiravelmente nas encostas de Amparo, em sua fazenda.



Bernardo Clemente Pinto, o Conde de Nova Friburgo, soube da proficiência de Jorge Gripp com seus cafeeiros e manifestou desejo de possuir algumas mudas. Gripp logo lhe enviou duas de suas melhores mudas. Bernardo Clemente Pinto foi pessoalmente a Cantagalo quando soube da entrega do mimo, intermediado pelo Conselheiro João Lins Cansanção de Sinimbu, que residia na vila de Nova Friburgo. Ficou tão maravilhado com as mudas de café, que contratou bandas de música que desfilaram conduzindo os pés de café festivamente, em procissão, em estilo barroco, até o palacete do Gavião e diante de convidados, plantou-os ali. O conde imediatamente ordenou ao seu administrador em Nova Friburgo que agradecesse a Jorge Gripp, oferecendo-lhes seus préstimos e consignando que compraria toda a colheita de café de Gripp.


O café java foi plantado nas fazendas, em Cantagalo, dos Clemente Pinto(família do barão de Nova Friburgo) e o restante dessa história já conhecemos. Cantagalo tornou-se um dos maiores produtores de café, em meados do século XIX, expandindo o “ouro verde” por todo o vale do Paraíba. Não há comprovação da veracidade desse fato que é relatado por Honorário Lamblet, neto de Jorge Gripp, transmitido pela tradição oral. No centenário da reintegração de Amparo a Nova Friburgo, que se comemora em outubro, essa é mais interessante passagem desse distrito cercado de lenda e mito em sua história.


Bernardo Clemente Pinto

AMPARO DE UM INCONFIDENTE OU REFÚGIO DE UM DELATOR?




Higina Rozena de Castro Toledo. Neta do delator de Tiradentes, Jerônimo de Castro e Souza.




A população do 4° distrito de Nova Friburgo, sempre desejou ser reconhecida como a “Amparo dos Inconfidentes”, região que teve sua formação iniciada por um inconfidente, que lutara pela liberdade do Brasil juntamente com Tiradentes. Mas essa assertiva incomodou a muita gente que tinha a história provando o contrário, ou seja, de que Amparo foi, na realidade, refúgio de um traidor, delator de Tiradentes. Em 30 de novembro de 1938, no salão da escola estadual de Amparo, sob a presidência de Dante Laginestra, diversos moradores da localidade reuniram-se para definir a justificativa do nome “Amparo” ao respectivo distrito. O depoimento mais esperado era o do patriarca da localidade, Eugênio Gripp, na ocasião com 78 anos de idade e residente na região desde 1860, ano em que nascera. O provecto Eugênio Gripp declarou que o nome “Amparo” já era dado à localidade desde a sua infância, e por ouvir dizer, essa denominação vinha desde a Inconfidência Mineira. Segundo ele, o sargento Jerônimo de Castro e Souza era compadre e companheiro de Tiradentes na conspiração. Jerônimo, com receio de ser preso, fugiu para Cantagalo e posteriormente obteve uma sesmaria(terras), onde hoje é Amparo, construindo uma moradia e uma olaria, no qual ainda haviam vestígios. A denominação “amparo” foi dada pelo próprio Jerônimo que se julgava livre, “amparado” das perseguições contra os inconfidentes. Reza a tradição que ele disse à família: “estamos amparados” e crismou o seu novo domicílio de Amparo. Conforme Eugênio Gripp, esses fatos lhe foram narrados por Higgina de Castro Toledo, filha de José de Castro e neta de Jerônimo de Castro e Souza. Estava criado o mito de origem.



Vila de Amparo




Ainda de acordo com a tradição oral, Jerônimo de Castro e Souza era oficial do exército colonial, exercendo a função de cartógrafo em Minas Gerais ao tempo da insurreição. Abraçara a causa dos inconfidentes e participara da trama revolucionária. Durante a devassa(processo), ficou detido na prisão da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Como não havia provas para uma condenação, foi libertado, e desde então, embrenhou-se pelo interior da província fluminense indo parar onde hoje é Amparo, nome dado por ele por ter sido o “amparo” das vicissitudes e perseguições. No entanto, há quem afirme que Jerônimo foi um delator de Tiradentes, beneficiado com sesmarias pela Coroa Portuguesa em razão de sua delação. Mirtarístides de Toledo Piza, membro da Academia Fluminense de Letras, classifica Jerônimo de Castro e Souza como um “falso inconfidente”, um ignominioso traidor da pátria brasileira. Piza vê os românticos rasgos de heroicidade de Jerônimo como uma lenda. Pesquisando os “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, Piza desconstrói o herói de Amparo provando que ele foi um traidor. Segundo Piza, Jerônimo de Castro e Souza era português, casado e alferes do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Capitania do Rio de Janeiro, onde nascera e tinha domicílio. De acordo com os autos, Jerônimo foi delator de Tiradentes e diante do desembargador nomeado para a devassa, denunciou Tiradentes, e como prêmio pela delação, foi nomeado 1° tabelião da Vila de Cantagalo, tomando posse em 08 de outubro de 1815. Anos depois, mudou-se para o Morro Queimado e de acordo com Piza, “não foi para livrar-se das perseguições governamentais da época, mas, talvez, para esquecer o seu gesto ignominioso”. O depoimento de Jerônimo de Castro e Souza consta nos "Autos de Devassa da Inconfidência Mineira" - publicação autorizada pelo doc. nº 756-A, de 21 de abril de 1936 - Vol. IV, Rio de Janeiro, 1936, Ministério da Educação, Biblioteca Nacional, pp. 29 a 101). De acordo com os defensores dessa tese, Amparo foi o “Refúgio” de um traidor e como tal deveria ser denominada a localidade, e não, o “Amparo” de um inconfidente perseguido pela justiça portuguesa. De acordo com Clélio Erthal, em “Cantagalo, da miragem do ouro ao esplendor do café”, Jerônimo de Castro e Souza teria recebido o cargo de tabelião na vila de Cantagalo, como recompensa pela delação que prestou à Coroa Portuguesa. Em razão disso, fora sempre hostilizado pelos habitantes locais, vindo a refugiar-se no recanto por ele mesmo denominado de “amparo”, nas cabeceiras do Ribeirão de São José. A matéria “Um falso inconfidente”, de Mirtaristides de Toledo Piza, não deixa dúvidas de que Jerônimo foi um delator. Mas Jerônimo conseguiu que os moradores da Vila de Nova Friburgo acreditassem em sua versão de inconfidente perseguido e, segundo relatos, um de seus filhos foi vereador e outro juiz de paz, o que denota que tinham prestígio no município.


Em função das provas contra Jerônimo nos “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, uma lei estadual de 641, de 15 de dezembro de 1938, modificou a denominação de Amparo para Refúgio. O povo de Amparo protestou veementemente! Diante da pressão dos moradores de Amparo, uma Resolução de n°220, de 06 de abril de 1953, do prefeito municipal José Eugênio Muller, restabeleceu o nome de Amparo, em lugar de “Refúgio”. Igualmente a Assembléia Legislativa do Estado, em 22 de julho de 1957, ratificou o nome de Amparo como denominação do quarto distrito de Nova Friburgo. “Amparo” de um inconfidente ou “Refúgio” de um traidor? O triângulo, símbolo dos inconfidentes, faz parte do brasão de armas do distrito de Amparo, o que prova que será sempre difícil destruir a força criadora do mito de origem. Na próxima semana “A História do café de java: mais uma lenda em Amparo?”








Capelinha de Nossa Senhora do Amparo






Vila de Amparo

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