A HOSPITALEIRA VILA DE AMPARO


Amparo é uma aprazível vila modorrenta que até hoje preserva seu casario do tipo colonial, alheia à passagem do tempo, cuja tradição é a sua simplicidade e a hospitalidade de seus moradores. Pode-se afirmar que o tempo parou em Amparo. Atualmente, o cinturão verde das regiões do Campo do Coelho, Conquista e Salinas abastecem com hortaliças e legumes o Rio de Janeiro. Mas no passado, Amparo foi o distrito-celeiro que abastecia esses grandes centros urbanos. No século XIX, quando fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão, foi um dos maiores produtores de café de Nova Friburgo. As terras de Amparo foram escolhidas pela aristocracia rural friburguense oitocentista, onde os Galiano das Neves possuíam a Fazenda Cachoeira, ainda hoje na propriedade da família.




Nos tempos de antanho, utilizava-se a estrada do Alto das Braunes para se deslocar de Amparo ao centro de Nova Friburgo. Na primeira metade do século XX, Amparo produzia café, milho, feijão e cana de açúcar. Gradativamente, foram sendo introduzidas a horticultura, a fruticultura e floricultura. Amparo abastecia o Rio de Janeiro e Niterói com produtos de sua lavoura, a exemplo da batata inglesa(“batatinha”), tomate, cenoura, arroz, ervilha, repolho, nabo, aipo, batata doce, feijão e mandioca. Na floricultura existiam extensas plantações de cravo, rosa, margarida, palma, lírio, saudade, entre outras. No tocante a fruticultura, Amparo produzia caqui, lima, tangerina, laranja, banana, pêra, uva, maçã, pêssego e ameixa. Analisando alguns discursos no livro de Heber Alves da Costa, “Amparo Redivivo”, percebe-se que Amparo foi um importante distrito agrícola de Nova Friburgo até aproximadamente a década de 50, do século XX, com predomínio da lavoura branca, hortaliças e legumes. Mas na década de 60 desse século, muitos se reportaram a decadência da lavoura na região, o marasmo, a estagnação, um distrito atolado na inércia qual caramujo segregado numa concha. Um dos maiores problemas da lavoura era a via que ligava os produtores rurais de Amparo ao mercado, com estradas sem pavimentação, dificultando e encarecendo o transporte da produção.


Mas o que possivelmente corroborou com o declínio da lavoura no distrito, foi a migração de muitas famílias para o centro de Nova Friburgo, devido ao emprego atrativo nas grandes indústrias recém estabelecidas na cidade. Nova Friburgo entra na Era industrial. Com a instalação das primeiras indústrias em Nova Friburgo, a partir de 1911, acredita-se que houve uma evasão significativa do campo rumo às fábricas. Segundo o memorialista Heber Alves da Costa, “até o início da Era industrial em Nova Friburgo, a lavoura era explorada em amplas proporções, no distrito de Amparo.”

Outro fator a se considerar foi que os filhos dos prósperos agricultores, distanciando-se por “plagas longínquas”, abraçaram profissões liberais como médicos, veterinários, advogados, professores, dentistas, engenheiros, etc., abandonando a tradição do amanho da terra. Na década de 60 do século XX, Amparo ficou silente e parado, sem evoluir, onde não se via mais as serras onduladas, coberta pelos verdes mantos dos cafezais, dos milharais e das capoeiras. O articulista Nelson Kemp relembra a farta produção agrícola de Amparo, os mais velhos recordando o tempo da fazenda do Coronel Chonchon(Galiano Emílio das Neves Junior), o café enchendo o paiol, os carros de boi repletos de cereais. Amparo, terra fértil e de clima ameno e saudável, atestando a sua salubridade no verde vivo da vegetação, no ouro dos frutos, nas faces rosadas das crianças e na longevidade dos anciãos. A longevidade de seus habitantes é atestada por Eugênio Gripp, o “patricarca de Amparo”.



Nascido em 15 de maio de 1859, filho de uma família de nove filhos, seu pai, Jorge Gripp, diz a tradição oral, foi o introdutor do café java em Cantagalo. Eugênio Gripp fundou em Amparo a Associação Promotora de Instrução à Infância Anália Franco e o Centro Espírita São João Batista, em 02 agosto de 1888. Falecido aos 95 anos de idade, nos últimos anos de vida, levantava cedo para cuidar de seu pomar. Caminhava o ancião pela vila com o costumeiro chapéu de Chile e longa capa cinzenta, cabelos brancos, faces rosadas e brilhantes olhos azuis da herança germânica. Amparo possuíra a Sociedade Musical Recreio Amparense, de fardamento azul com botões dourados, fundada em 13 de janeiro de 1913 e extinta em 1940, com algumas tentativas posteriores de reabilitação; o Amparo Futebol Clube, fundado em 1927; o Grupo Dramático Amparense, o clube de Malha, o animado carnaval e micareme e os bailes no Cine-Teatro Almeida, cujo prédio ainda se mantém, testemunha de um passado glorioso. Ainda que localidade onde boa parte da população era espírita e protestante, a capelinha de Nossa Senhora do Amparo foi inaugurada, em 1950, contando com o auxílio dos não católicos. Junto ao coreto da ajardinada pracinha da vila, é o busto de um medium, Manoel Antonio Monteiro, que foi erigido numa homenagem dos amparenses. Amparo, terra dos Gripp, Alves da Costa, Frossard, Folly, Sanglard, Schuenck, Toledo, Lugon, Monteiro, Lamblet, Mury, Hermsdorff, Heckert, Pereira, Schuabb, Bussinger, Emerick, Heckert, Schumacker, Heller, Thurler e muitas outras famílias. Se há um local que nos remete a um passado longínquo é a vila de Amparo. Toda a sua vila deveria ser tombada pelo patrimônio histórico. Que bom que voltou a pertencer a Nova Friburgo!


2 Response to "A HOSPITALEIRA VILA DE AMPARO"

ACURANATURAL disse...

Gostaria de salientar que o busto do médium Manoel Antonio Monteiro, é de meu bisovô, pai de Higina Monteiro Lugon (minha avó, que era rezadeira) esposa de Orlando Lugon.

Anônimo disse...

Minha mãe sempre fala do Sr. Monteiro e do Sr. Lugon com muita veneração e respeito. Parabéns!

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