O BAR DO SEU MÁRIO


Quem nunca tomou uma bronca do seu Mário Babo? Um namoro indecente no bar, um pé na cadeira, leituras impróprias, o sujeito logo tomava uma bronca e retirava-se aborrecido. Porém, tempos depois, voltava ao bar. Ninguém resistia deixar de freqüentar o Bar do Seu Mário. Era oficialmente o Bar Central, mas que o vulgo tornou-o Bar do Seu Mário, já que o proprietário, podemos afirmar, estava acima do estabelecimento. Localizava-se na esquina da Rua São João, hoje no local uma loja de bijuterias.
Seu Mário, imigrante português, veio para Friburgo em 1951, de porte da denominada “Carta de Chamada”, condição exigida pelo governo para o imigrante trabalhar no Brasil. Trabalhou inicialmente no Bar América, o mesmo bar que hoje funciona na Rua Monte Líbano, de propriedade de seu irmão. O Seu Mário, em suas memórias, lembra que naquela época os imigrantes mais importantes em Friburgo eram os alemães, que na saída de suas ocupações nas fábricas, iam ao Bar América para tomar cerveja. Recordemos, os capitalistas alemães eram proprietários das maiores indústrias como a Rendas Arp, Filó, Ypú e Haga, que empregavam boa parte da população.

Seu Mário, no entanto, voltou para Portugal, morou em Angola, mas retornou para Friburgo, onde abriu o Bar Central. Bebia-se cerveja e comia-se pastel. Mas foi ele quem trouxe o chopp para a cidade e consequentemente o delicioso bolinho de bacalhau, pelas mãos de sua eterna companheira, a também portuguesa, Dona Alcina. Mas quem não se lembra dos sorvetes de abacaxi, pistache, ameixa, creme holandês, de fabricação caseira, que concorria com a Sorveteria Única, da família Ruiz.
O bar foi inicialmente freqüentado por operários. Saíam das fábricas, iam para suas casas, tomavam banho, colocavam um terno e sem seguida dirigiam-se para o Bar do Seu Mário num ritual do tipo trabalho, lar e botequim. À tarde, as senhoras da sociedade, como os Braune, freqüentavam o bar para um cafezinho e uma boa conversa, um espaço de sociabilidade. À noite era a vez dos maridos. Médicos, advogados, magistrados, enfim, profissionais liberais que iam tomar o seu chopp e comer bolinhos de bacalhau. Nesta fase, os operários das fábricas já não iam mais ao bar e podemos dizer que foi a elite da cidade que passou a freqüentá-lo. Sr. Laércio Ventura, diretor de A Voz da Serra, acompanhado de seu amigo DeCache freqüentavam o bar. Passaram por lá políticos como Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Brizola e diversos artistas como Dina Sfatti, Cláudio Marzo, Reginaldo Farias, o comentarista de futebol Gerson, todos veranistas da aprazível Nova Friburgo.
Mas o que marcou o Sr. Mário em suas memórias foram os alunos da Fundação, um colégio do tipo internato, considerado um dos melhores do país. A maior parte destes alunos vinha de diversos estados e eram considerados pela sociedade friburguense como bad boys. Também pudera. Nas olimpíadas internas dos colégios, que ocorriam no Celso Peçanha, arrumavam briga com os alunos do Colégio Anchieta, cuja rixa estendia-se por toda a cidade, onde pedras, correntes e garrafas rolavam entre os desafetos apavorando os comerciantes próximos ao estádio. Era no bar do Seu Mário onde os alunos da Fundação se refugiavam, fugindo da polícia. Seu Mário lhes dava guarita não porque desafiasse as instituições, mas os tratava como seus filhos, dando-lhes abrigo. Afinal, os meninos da Fundação, que guardavam suas malas em seu bar e bebiam milk shake e toddy, não eram bandidos para serem presos pela polícia. Eram apenas escaramuças de rapazes.
Em suas memórias, o Seu Mário tem muito a nos contar. Afinal, foram vinte e seis anos no ponto central da cidade, passando por ele todas as classes sociais, vivendo os ciclos de progresso da cidade em um tempo em que o comércio tinha a personalidade de seu proprietário. E no bar do Seu Mário ninguém tirava casquinha não. Tomava uma tremenda bronca, pois era um bar de família. Quem em Friburgo também não tem em suas memórias uma história para contar do Bar do Seu Mário?

Entrevista realizada em outubro de 2009 com o Sr. Mário Babo.

O fin-de-siècle em Nova Friburgo: Figa, figa, figa, porque não foram ao baile!

Como foi o final do século XIX, o fin-de-siècle, como se dizia à época, e a chegada do século XX? Se o século XIX fora tão promissor, imagine o que não aconteceria no seguinte? O século XIX foi um período histórico de grandes transformações tecnológicas e científicas. A urbanização e a vida social ganha impulso nas principais capitais da Europa, como em Paris e Viena, o que lhe valeu o título, ao final do século, de a belle époque. Quer conhecer bem o século XIX? Leia a trilogia do historiador inglês Eric Hobsbawm. No século XIX, inventou-se o estetoscópio(1816); o navio a vapor(1819); o revólver(1835); o fogão a gás(1837); o código Morse(1838); a fotografia, a borracha e bicicleta(1839); telégrafo(1844); a anestesia e a máquina de costura(1846); o elevador(1852); a refrigeração para produção industrial de gelo, daí os sorvetes(1860); identificou-se os germes como causadores de doenças(1862); o efeito estufa(1863); a pasteurização de alimentos e a cirurgia anti-séptica(1865); o chiclete(1872); o telefone(1876); o fonógrafo(1877); a vacina(1879); a causa da tuberculose(1882); o automóvel e vacina contra a raiva(1885); a coca-cola(1886); o cinema(1889); a psicanálise(1893); o raio x e aparelho cinematográfico(1895) e a causa da febre amarela (1900). Foi ainda o século da IMPRENSA!

Mas falemos de Friburgo. A cidade conheceu muitas novidades no fin-de-siècle. Além do trem, que teve o maior impacto no seu cotidiano, conheceu o raio-x, o telefone, a fotografia, a bicicleta, a eletricidade no Hotel Central e até o “papel medicinal”, nosso vulgo papel higiênico, “artigo perfeitamente puro para uso do water-closet”. Friburgo ainda no final do século XIX, conheceu o fonógrafo. Cobrava-se entrada para se ouvir árias, monólogos, bandas, solos de pistão, flauta, piano e discursos. Segundo o reclame, “era a mais maravilhosa descoberta deste século....prodigiosa máquina que fala, que canta e que ri...”. A população friburguense se vislumbrou com o cinema, denominado à época de animatógrafo. No Cassino Friburguense e no Animatógrafo Joly havia sessões de cinema, constituindo “uma novidade do mais vivo atrativo e uma das maravilhas destes tempos de progresso”, dizia o jornal. No plano nacional, alguns automóveis já desfilavam nas principais capitais. Em Friburgo, a população somente veria o primeiro com a família Spinelli, no início do século XX.

Na virada do ano, Friburgo já estava repleta de veranistas e transformava-se em prestimosa cortesã. Na comemoração da virada de ano, os friburguenses brindavam desejando entre si, saúde, fraternidade, alegria e felicidade. Os hotéis como o Central, Salusse e Engert, bem como o Teatro D. Eugênia, promoviam animadas soirées onde predominavam os veranistas. Numa comemoração de final de ano de 1895 para 1896, foi concorrido o baile à fantasia do Teatro D. Eugênia, com premiação da mais bela indumentária. Às 21:00 horas, à inglesa, a dança no salão foi executada por duas bandas que se revezavam na execução das peças musicais. Quando uma delas finalizava o seu terno a outra iniciava sua apresentação com intervalo que não excedia há cinco minutos. Após os brindes da virada de ano, um orador tomou a palavra e discursou para o público licencioso. Não era de bom tom perorar por mais de meia hora, sob pena de apupos. Depois, seguia o baile dançando-se quadrilha até o romper da aurora. Às quatro horas da manhã, cavalheiros e damas saíam do teatro, seguidos pelas duas bandas. Percorrendo a cidade, despertavam as pessoas, cumprimentando-as, desejando-lhes “bons anos” e num divertimento inocente, fazia-lhes figa aos gritos de:
Figa, figa, figa, porque não foram ao baile”.
Fonte: Jornal O Friburguense. Fundação D.João VI de Nova Friburgo.

CRIANÇAS POBRES. ANIMAIS SEM DONO



No primeiro plano: Crianças pobres

Havia em Friburgo, no final do século XIX, um enorme contingente de menores vagando pelas ruas da cidade, vivendo na ociosidade e na vadiice desenfreada. Vagueavam pelas ruas e praças “como fazem os animais sem dono”, dizia o jornal, em estado de miséria, apesar de a maioria possuir família. Não freqüentavam a escola e nem a igreja, sendo vistos ainda pelas estradas, nas “tavernas da roça”, proferindo obscenidades, já dando mostras dos maus costumes e inclinações perversas. Profissionais do “jogo do pau” sabiam engatilhar uma arma de fogo trazendo ainda à cintura a indispensável faquinha. As autoridades normalmente encaminhavam esses menores para as atividades agrícolas. “De pequenino é que se torce o pepino”, dizia-se à época.

Era uma cena freqüente no cotidiano da cidade a briga de gangues de menores. Quase sempre nas tardes de domingo, um numeroso grupo de meninos do lado sul da cidade concentrava-se na Praça 15 de Novembro, atual Getúlio Vargas, dirigindo-se em seguida para a Praça do Suspiro onde já eram aguardados pelo grupo rival, que residia no lado norte da cidade. Começavam então entre eles as escaramuças, desafiando-se entre si, rolando sopapos e bofetadas a junco. Quando o desafeto não chegava às vias de fato a vozearia era atroadora, apupando-se mutuamente e proferindo palavrões que amedrontava os transeuntes. Muitos desses meninos de gangues andavam armados com bengalas, varas de marmeleiro, canivetes, espingarda, revólver ou garrucha. Aos que se recusavam a pertencer a algum destes grupos e que casualmente eram por estes encontrados na rua, apanhavam com bofetões, varadas e empurrões.

Há o registro de um enorme grupo de menores armados de canivete provocando sarrilho na Rua Gal. Argolo, atual Alberto Braune. O delegado, que conseguiu “pilhar na rede” quinze destes menores, constatou que somente dois deles não tinham família. Todavia, não há registro de furtos praticados por estes menores, referindo-se o periódico somente à algazarra, às brigas entre si e às provocações que encetavam aos transeuntes. Há finalmente o registro de uma malta de meninos tributus, alguns já bem taludos e moradores de um mesmo local, que se reuniam todas as noites na Rua Gal Osório, batucando em latas de querosene e fazendo um barulho “de mil diabos”, num infernal “Zé Pereira”. A matinada vinha acompanhada de gritos e assobios e quando alguém reclamava do barulho, os meninos em algazarra soltavam pachouchadas que estremeciam as senhoras.
Circulavam ainda em grande número pela estação aguardando a chegada dos trens. Empurrando uns aos outros na disputa desenfreada pelo serviço, viviam aos sopapos nas estações pelo privilégio de levar as bagagens dos veranistas, constrangendo os passageiros recém-chegados e aos friburguenses pela falta de civilidade. Alguns mais audaciosos subiam nos carros ainda em movimento um pouco antes da estação para garantir o compromisso do passageiro, correndo o risco de serem esmagados ou mutilados. Muitas vezes, a violência entre eles era tão acirrada que os passageiros ficavam atordoados e amedrontados, permanecendo nos carros até que o sarrilho passasse. Tendo em vista estes incidentes, a direção da Companhia Leopoldina chegou a proibir a presença destes menores nas estações, em virtude do constrangimento que causava aos veranistas. O guarda da estação os dispersava fazendo uso da vara de marmelo. No entanto, lá estavam eles, no dia seguinte, disputando o seu espaço naquela sociedade que os alijava.

As crianças de hoje não vivem situação diferente. São objeto da ação de pedófilos, escravidão infantil e ainda povoam as ruas das grandes cidades em situação muito próxima a de séculos atrás. E então a pergunta que não se quer calar: até quando vão existir estes “animais sem dono” em nossa sociedade?

ESCRAVOS OU COLONOS?


O clima de Nova Friburgo, com característica semelhante à de vários países da Europa, sempre atraiu imigrantes do velho mundo. Da primeira imigração de suíços encetada em 1818, seguida por alemães em 1824, todos nós, friburguenses, conhecemos bem, sendo devidamente explorada por professores por ocasião do aniversário da cidade. Porém, Friburgo, no decorrer do século XIX, teve outras experiências na recepção de imigrantes.

Em 1858, a Câmara Municipal de Nova Friburgo recebeu um Aviso do Ministério do Império informando que chegariam da Europa colonos contratados pela Associação Central de Colonização. O aviso solicitava que informasse se havia em Friburgo fazendeiros que desejassem receber colonos. As despesas que os fazendeiros arcariam seriam com as passagens dos referidos colonos, da Europa à Corte, que importavam de 80 a 90$000 réis, aproximadamente, somadas às despesas de hospedagem e comissão. Os fazendeiros obrigar-se-iam, ainda, a fazer às suas custas, a condução dos colonos desde a Corte até o lugar em que se estabeleceriam. Era a denominada “colonização particular”.
Em resposta à Câmara, alguns fazendeiros de Friburgo declararam que já haviam engajado colonos para o seu serviço, porém, em pequena quantidade, devido à escassez deles no “depósito” da Associação. Logo, Friburgo mesmo depois de fracassadas as colonizações iniciais de suíços e alemães, não deixou de dar continuidade ao regime de colonato, tornando-se núcleo de imigração de colonos europeus, ininterruptamente. Afinal, a falta de braços na lavoura sempre foi uma reclamação dos agricultores friburguenses. Mas como se desenvolveu esta terceira onda de imigração?

A princípio, nada satisfatória. Percebe-se que os colonos que vieram para Friburgo não cumpriam os contratos de colonato e “não serviam de boa vontade”, segundo relatos. Isto significa que estes colonos se evadiram das fazendas, deixando os fazendeiros friburguenses, que investiram seus réis, a ver navios. Para contratar mais colonos, os fazendeiros sugeriram que o Governo Imperial desse garantias contratuais de que os colonos serviriam entre quatro e seis anos, tempo mínimo para o retorno dos investimentos realizados, incluindo o tempo de aprendizagem no trabalho que, segundo eles, era inteiramente diferente da Europa. Sugeriu-se ainda, a reserva de um “fundo” para quando o colono terminasse o seu contrato “ter um princípio de vida, tendo segura a sua subsistência e de sua família, tornando-se, no fim daquele tempo, um lavrador em terrenos que o Governo Imperial lhes concedesse pelo preço da medição, dando-lhe um prazo razoável para pagarem”. Com a garantia de acesso à terra dada aos colonos, seria mais fácil obrigá-los a cumprir o contrato de colonato.

Adquirir escravos ou contratar colonos? Qual era o investimento mais vantajoso? Adquirir colonos é claro. Fiz as contas. Para se ter uma idéia de como era mais vantajoso ter colonos, em 1858, um escravo custava 1:840$000(um conto, oitocentos e quarenta mil réis). Considerando que cada colono sairia, incluídas todas as despesas, por aproximadamente 150$000, se contrataria doze colonos ao mesmo preço de um único escravo.

Logo, a história do colonato em Friburgo não se encerra na primeira metade do século XIX. Suas experiências de imigração permeiam a formação social da cidade até o século XX, cuja similaridade com o clima da Europa, a fez tornar-se um ponto de convergência dos imigrantes europeus por mais de um século de sua história.
Fonte: Atas da Câmara de Nova Friburgo.

SISTEMA CARCERÁRIO: PASSADO, AINDA PRESENTE

O jornal A VOZ DA SERRA publicou uma matéria, no dia 27 de novembro, sobre a carceragem da Vila Amélia. A reportagem trata das péssimas condições deste setor de custódia, com celas mofadas, presos dormindo amontoados e os banhos feitos pelos detentos com garrafa pet. O conhecido “boi”, um buraco que fica no meio da cela onde os presos fazem suas necessidades fisiológicas, entupidos, causando um odor insuportável. “Masmorras medievais” e “campos de concentração” foi assim representada a carceragem pelo chefe da Polinter. A notícia foi ainda muito bem retratada na charge do Silvério simbolizando a carceragem como um barril de pólvora. A Câmara Municipal promoveu audiência pública, contando com a presença de delegados, cuja situação foi discutida, com algumas ações concretas já encetadas com o auxílio de uma comissão que se denominou de “carceragem cidadã”.
Quando li a matéria me veio uma espécie de déjà vu, ou seja, aquilo que dá a impressão de já ter sido visto antes, e assim o foi. A casa de custódia atual de Friburgo, encontra-se na mesma situação desde o século retrasado. No século XIX, a precariedade da cadeia em nosso município sempre foi objeto de preocupação da Câmara Municipal, que tinha inclusive uma comissão permanente para tratar do assunto. Mas a preocupação àquela época não era tanto em função da dignidade dos presos, mas sim “a bem da salubridade pública”, podendo as cadeias, devido às suas péssimas condições de higiene, transformarem-se em um foco de doenças e serem transmitidas ao restante da população. Mas o problema das prisões não ocorre somente em Friburgo. O problema é nacional. A primeira prisão no Brasil foi, imaginem, o nosso próprio país. O Brasil era visto no século XVI como um lugar de desterro onde eram enviados homicidas, prostitutas, ladrões, enfim toda a canalha que Portugal desejava livrar-se, e foi com esses indivíduos que iniciamos o povoamento do Brasil. Martin Nicoulin também nos informa que alguns suíços, tidos como criminosos, tiveram suas penas comutadas em degredo e incluídos entre as famílias suíças que migraram para Friburgo. Da transição de lugares de desterro até o condicionamento de pessoas em celas, o Brasil até hoje não resolveu o problema das péssimas condições da carceragem.

Na Colônia e no Império as cadeias eram, em todo o país, praticamente depósitos de escravos fugitivos. Em Friburgo, os “pretos do libambo”, escravos fujões detidos até que seus senhores os reclamassem, se confundiam com os presos da cadeia. A cadeia em Friburgo foi instalada numa das antigas casas dos colonos suíços, mas cuja construção, devido à má qualidade do material empregado, estava quase ruindo. Era comum os friburguenses oitocentistas darem garrafas de cachaça aos presos, passando-a por um pequeno gradil da cadeia. Na primeira metade do século XIX, a Câmara só alimentava os presos considerados pobres. Aos que não fossem indigentes, cabia à família alimentá-los. O Hospital da Santa Casa no Rio de Janeiro, alimentava os presos do Tribunal da Relação para que não morressem de fome. Mas é interessante que, já no final deste século, nas “comedorias” dos presos da cadeia de Friburgo, servia-se bacalhau às sextas-feiras:
“....Dieta: Leite, caldo de galinha, canja, ovos, chá, bifes; Almoço: um pão de 200 réis com uma caneca de café; Jantar: feijão, carne seca, arroz, toucinho, carne fresca, de domingo a quinta-feira e bacalhau, às sextas-feiras.”

Finalizando, gostaria de sugerir à comissão da “carceragem cidadã” que, além do altruísmo de se preocupar com a dignidade humana, serem os seus membros também os timoneiros de um projeto de desocupação do prédio histórico em que a carceragem está localizada. No passado longínquo, vemos fotos do casarão onde se encontra a atual carceragem, rodeada de um pomar de peras “ferro”. Entristece-nos constatar que onde está a atual casa de custódia, além de destruir um prédio histórico, não atende às condições físicas e de segurança que tal estabelecimento deveria ter. Em nome do patrimônio histórico, fica aí a sugestão.

VESTIDO DE NOIVA: UM RITO DE PASSAGEM

O casamento religioso sempre foi incentivado pela Igreja. No entanto, no Brasil Colonial, prevalecia o concubinato. Motivo? Era uma cerimônia no qual somente a elite poderia pagar. Este quadro não se alterou muito no Império e início da República. Porém, o regime republicano excluiu a hegemonia do casamento religioso, instituindo a obrigatoriedade do casamento civil. A cerimônia religiosa passou desde então a ser facultativa, não mais criando precedentes legais, como outrora. Não obstante a Igreja ter perdido a égide legal sobre o matrimônio, na prática, a cerimônia religiosa não foi abandonada e até hoje está inserida na cultura nacional. Quem imagina que a pós-modernidade tenha minimizado a importância do casamento religioso no imaginário feminino, mesmo entre aquelas mais “moderninhas”, engana-se. As mulheres não deixaram de casar-se na igreja, ainda que já dividissem há tempos o leito conjugal com o seu parceiro.
Nesta entrevista realizada com Marilda Lima Berbert, que faz ornamentos de noivas a 47 anos em Friburgo, conheceremos este universo ainda cercado de romantismo, apesar da mudança comportamental. Mudanças houve muitas, mas a permanência das tradições ainda é a tônica, com movimentos cíclicos que ora incluem, ora excluem alguns elementos simbólicos, a exemplo das daminhas e dos bonecos representando os noivos no último andar do bolo, que entram e saem de moda frequentemente. Estes elementos simbólicos são excluídos e retornam ao longo do tempo, atendendo sempre aos modismos.

Marilda já está na terceira geração de noivas. Faz chapéus, tiaras - outrora denominadas de grinalda -, apliques, véus, mantilhas e bouquets para as netas de suas clientes no passado. Como era uma noiva na década de 60? Segundo ela, o fato das noivas se casarem virgens interferia nos elementos simbólicos do casamento. Tinha que ser um vestido muito coberto, sem decote e transparência. A cor traduzia o símbolo da virgindade. Tudo deveria ser branco e nada de tons coloridos. O branco simbolizava a pureza da noiva. As cabeças eram floridas com miosótis, margaridinhas, gipse, miguês, rosinhas, mas todas flores artificiais. Os véus eram imensos, muitas vezes com oito metros de comprimento. Na Catedral São João Batista, os véus arrastavam-se desde o altar até a porta da igreja. Mas aos poucos foram ficando mais leves, porém, sua evolução foi lenta. Veio a década das pérolas. Todas as noivas usavam colar, ornamento de cabeça e bouquets de pérolas. Era muito comum ainda o uso de uma jóia de família pela noiva. Mas qual foi o momento de maior ruptura nas tradições do casamento? De acordo com Marilda foi a década de oitenta. Desaparece o delicado, o romantismo. Os acessórios mudam completamente. As noivas já querem ornamentos coloridos, em tons como lilás, amarelo, rosa e azul. Ocorreu ainda a introdução de flores naturais junto às artificiais, misturando-se hortênsia, angélica, lírio, livianto, agapanto, orquídea, a flor de laranjeira e a rosa. Esta última, nunca poderia faltar em uma noiva tradicional. A flor de laranjeira era usada na cabeça, no bouquet e na lapela do noivo. Mas qual é a diferença entre uma noiva do passado e do presente? Marilda responde que é a atitude. Perderam um pouco romantismo e tornaram-se mais práticas e objetivas. Não querem mais um adorno exclusivo. Preferem alugar. Não porque não pudessem pagar, mas porque acham mais prático. Véus, chapéus e tiaras são alugados e Marilda assim o fez para adaptar-se a esta praticidade das noivas. Mas os ornamentos não perderam a sua qualidade, já que utiliza cristais swarowiski, flores naturais de Holambra, renda francesa e voalette. Marilda nos informa outra mudança significativa: o casamento no mês de maio é mito. As noivas preferem casar-se no início da primavera. Motivo? A estação é melhor para os modelos das roupas da família e dos padrinhos.
E o que não mudou? O próprio casamento em si. Não deixaram de casar. Mesmo viúvas ou divorciadas voltam a casar-se com todos os ritos do tradicional casamento de “véu e grinalda”. Histórias não faltam. Uma noiva enviuvou duas vezes e casou-se pela terceira vez na igreja, com pompa e circunstância. Uma antiga cliente do tipo despojada, quando casou a filha, quis esta adornos mais tradicionais, diferentemente da mãe, que fazia o tipo hippie. No território do casamento, tudo é muito cíclico. Em determinado momento, na década de 80, as daminhas de companhia e pajens desaparecem e o véu fica ultrapassado. No entanto, voltaram com força nos últimos anos. De acordo com Marilda, o vestido de noiva nunca esteve tão em voga.


Então pergunto: em meio a tanta modernidade e liberalidade no comportamento atual das mulheres, até quando necessitarão elas do vestido de noiva, deste rito de passagem, para viverem felizes para sempre?
Fonte: Entrevista com Marilda Lima Berbert, realizada em 05\01\2010. Há 47 anos faz adornos de noivas.

RÁDIO CIPÓ, SEMPRE AMIGA


Rodolfo Abud reúne um baú de histórias em suas memórias: vivenciou a formação da Rádio Friburgo, dos clubes de futebol e dos jogos florais em Nova Friburgo. Por mais estaques que possam parecer estes três assuntos, tanto os esportes quanto os jogos florais devem o seu desenvolvimento a um primeiro acontecimento: a criação da Rádio Friburgo, que o vulgo chamava de Rádio Cipó. A Rádio Cipó surgiu em 1946, e foi uma verdadeira revolução na cidade, nos relata Rodolfo Abud em suas memórias. Mas ouvir rádio naquela época não era uma atitude individual como hoje, era coletivizada. Isto ocorria porque quando surgiu o rádio, nem todos poderiam possuir o aparelho. As pessoas que possuíssem o aparelho em casa ainda tinham que pagar uma licença. Caso o fiscal fosse à residência dos possuidores do aparelho de rádio e o indivíduo não apresentasse a licença paga, sofria pesada multa.

Como nem todos o possuíam, a Rádio Cipó colocava alto-falantes em frente à rádio e o povo, sentado nos bancos da praça, parava para ouvir sua programação. Bares e restaurantes investiam nestes aparelhos, pois era um atrativo para clientes. Comércio sem rádio perdia a freguesia. Quem vendeu os primeiros aparelhos de rádio na cidade foi Dante Lívio, na loja A Sinfonia, situada na atual Praça Getúlio Vargas. Ele igualmente também colocava alto-falantes pendurados nas árvores da praça tocando sucessos musicais da época. Mas por que Rádio Cipó? Tinha este nome porque o povo de Friburgo dizia que bastava estender um cipó que a rádio pegava. O Dr. Aloísio gostou da brincadeira e criou o bordão: “Rádio Cipó, sempre amiga.” A rádio funcionava em um sobrado na Praça Getúlio Vargas e formou grandes nomes do rádio, que depois trabalharam na Rádio Nacional e Rádio Globo, como Hugo Rodolfo, que criou “o globo no ar”, Jorginho Abicalil, Edmo Zarif, Moisés, Carlos Rosemberg, Mário Thurler, entre outros. A rádio tinha os programas de auditório onde um grupo regional composto de violão, pandeiro e sanfona acompanhavam os candidatos. Quem era desafinado o cachorro latia. O auditório da rádio lotava. O Sr. Abud nos informa que alguns chegaram a cantar na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

E havia ainda as novelas. Os textos eram do Sr. Aloísio e outros colaboradores. As novelas poderiam durar uma semana ou mesmo um mês. Rodolfo Abud tem histórias divertidas sobre estas novelas. Certa feita, uma das atrizes pediu ao Sr. Aloísio para sair do elenco, pois seu namorado estava muito enciumado, ao que o Sr. Aloísio retrucou: “Minha filha, faça ao menos a novela hoje que a mataremos e ficará tudo bem.” Em certa ocasião, um ator da novela devendo matar um outro personagem, bradou: “Eu vou matá-lo com um tiro”. No entanto, o contra-regra não conseguia acionar a bombinha para simular o tiro do revólver. O ator improvisou: “Não, eu vou é te matar a facada.” Neste instante, a bombinha funcionou e o tiro disparou. Eram situações que programas ao vivo ocasionavam.
A Rádio Cipó ajudou a difundir o futebol na cidade, na voz de Rodolfo Abud, narrando as partidas entre os quase dez times que Friburgo possuía no auge do seu futebol, entre as décadas de 40 e 70. Não havia interferência política, pois era um espaço aberto a todos. A rádio transmitia os comícios e até mesmo as reuniões dos partidos. Foi ainda graças à Rádio Cipó que as trovas se implantaram em Nova Friburgo. A Rádio Cipó, com 64 anos idade, é hoje, a nossa Friburgo AM, que tanto vem servindo à região serrana. Sempre presente no cotidiano da cidade, não foi por acaso que a Rádio Cipó tinha o seguinte bordão: “Rádio Cipó, sempre amiga”.


Fonte: Entrevista com RODOLFO ABUD, nascido em 21 de outubro de 1926.

EDUARDO DAS NEVES: O PALHAÇO NEGRO EM FRIBURGO



Nova Friburgo, no final do século XIX, vivia a sua belle époque. As epidemias freqüentes de febre amarela que a todo verão assolavam o Rio de Janeiro, fazia com que os cariocas migrassem para Friburgo e aí permanecessem até que cessasse a epidemia. Mas o que tem a ver a belle époque com epidemias de febre amarela? Ora, naturalmente migravam para Nova Friburgo os cidadãos cariocas mais abastados, que chegavam a permanecer seis meses na cidade, incrementando a sua vida social. Este público atraía, igualmente, inúmeras companhias teatrais e os melhores circos da época. A importância de Nova Friburgo no circuito dos grandes espetáculos pode ser abalizada pela presença do afamado Circo Brasileiro, que além de artistas nacionais e estrangeiros contava, à época, com um dos maiores artistas: Eduardo das Neves, o palhaço negro, célebre compositor e cantor de modinhas brasileiras. Eduardo Sebastião das Neves, palhaço, poeta, cantor, compositor e violonista, nasceu em 1874 no Rio de Janeiro e morreu na mesma cidade em 11 de novembro de 1919. Trabalhou na Estrada de Ferro Central do Brasil e como soldado do Corpo de Bombeiros, de onde foi expulso por freqüentar fardado rodas boêmias. Em 1895, tornou-se palhaço e cantor, apresentando-se em circos. Era conhecido como Palhaço Negro, Diamante Negro, Dudu das Neves e Crioulo Dudu.

Sua importância foi tamanha para Nova Friburgo que em certa ocasião gerou polêmica. A Câmara Municipal não autorizou que o Circo Brasileiro fosse armado na Praça 15 de Novembro(atual Getúlio Vargas), local onde normalmente se armavam os circos. Foi autorizado somente na Praça do Suspiro. A imprensa denunciou: A Câmara foi pressionada pelo proprietário do teatro, temendo que o circo tirasse o público do Teatro D. Eugênia. Os jornais da época davam grande destaque a cada vez que Eduardo das Neves se apresentava em Friburgo, e curiosamente ressaltavam o fato de ser ele um “palhaço negro". Eduardo das Neves, o palhaço negro, era célebre compositor e cantor de modinhas brasileiras sendo exclusivo da Casa Edison, contratado a partir de 1906. Era considerado o mais popular e influente de todos os primeiros cantores profissionais, compondo modinhas, lundus, recitativos, monólogos, cançonetas, tremeliques, choros e chulas. No prefácio do disco intitulado Trovador da Malandragem, que escreveu em 1902, queixara-se de que muitos duvidavam ser ele o autor das modinhas que cantava, devido à sua condição de negro e origem humilde. Segundo José Ramos Tinhorão uma das razões do sucesso de Eduardo das Neves era a de ter lançado a novidade de compor modinhas e lundus sobre acontecimentos da atualidade, a exemplo de O aumento das passagens, O 5 de novembro, A conquista do ar, essa última canção numa alusão a Santos Dumont. São ainda autorias suas Pegas na chaleira e Pelo buraco.

Ainda segundo Tinhorão, a importância de Eduardo das Neves estava no fato de que, dirigindo-se às camadas heterogêneas, como o povo humilde freqüentador de circo, e o público médio dos teatros, ele ainda estendia sua ação em vários estados brasileiros, viajando com circos e companhias teatrais e espalhando seus discos por todo país. O filho de Eduardo das Neves, o “negro Cândido das Neves”, o Índio, continuou a obra do pai. Juntamente com outros compositores chegariam à fase de expansão do rádio, a partir da década de 30, dando continuidade ao gênero das modinhas que contavam com cantores de veleidades operísticas como Vicente Celestino, Francisco Alves, Orlando Silva e Sílvio Caldas.

Eduardo das Neves, que se apresentava freqüentemente em Friburgo, é provavelmente o autor de um teatro-revista sobre o seu cotidiano intitulado Costumes de Friburgo, ganhando a cidade inclusive uma cançoneta denominada Friburgo na Ponta. O teatro-revista consiste em uma peça com quadros de música, dança, anedotas, alegorias, esquetes, na qual se criticam os fatos mais em evidência da época. Friburgo na Ponta teria hoje como expressão correspondente “Friburgo no auge”. A presença constante de Eduardo das Neves no município e igualmente o título de sua canção, Friburgo na Ponta, são uma prova evidente de que a cidade vivia a sua belle époque ao final do século XIX.

O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte II - Rui Barbosa evita a extinção de Friburgo

Como disse no artigo anterior, a Marinha desejava estabelecer em Friburgo uma enfermaria para cura de seus oficiais e praças acometidos por beribéri. Para tanto, iniciou negociações para aquisição do Instituto Hidroterápico que havia em Friburgo. No entanto, Rui Barbosa, veranista habituè em Friburgo, fez uma brilhante defesa contra a instalação de um hospital do coração da cidade salubre. No jornal Diário de Notícias, de setembro de 1889, escrevia Rui Barbosa dirigindo-se diretamente ao Ministro Ouro Preto, homem forte do governo imperial, protestando contra a aquisição do Instituto Hidroterápico pela Marinha, pois contrariava a população permanente e flutuante de Friburgo, “ameaçando-a na sua salubridade”. Em 1891, a viúva de Carlos Éboli, médico fundador do Instituto Hidroterápico, terminou por vender as ações da sociedade para os médicos Ernesto Brazílio, Galdino do Valle, entre outros acionistas. Em dezembro de 1891, foi reinaugurado o Instituto Hidroterápico em grande estilo na cidade. Porém, em 1895, dez anos depois do falecimento de Éboli, o instituto entrou em processo de falência e todo o complexo incluindo o hotel e a Casa de Duchas foi arrematado pelo Banco Comercial.

Como dito acima, foi devido a brilhante argumentação retórica de Rui Barbosa que foi extinta em Friburgo a enfermaria de beribéricos em 1890, tendo os doentes sido transferidos de volta para a de Copacabana, no Rio de Janeiro. No entanto, quase dez anos depois, o pesadelo volta a assombrar Friburgo. A Marinha inicia negociações com Carlos Engert, proprietário do Hotel Leuenroth, para ali instalar seu hospital. Entra em cena novamente a “pena” de Rui Barbosa em outra eloquentíssima e erudita defesa da salubridade do clima de Friburgo, que poderia ser afetado com a vinda de um “centro de peste” no coração da galante vila. O beribéri era considerado à época uma doença infecto-contagiosa e, portanto, transmissível. Hoje sabemos que não é contagiosa. Este projeto é a “extinção de Friburgo”, argumentava Rui Barbosa, e mais uma vez o brilhante advogado impede a vinda do Sanatório Naval para Friburgo.

Já havia na cidade um lazareto, um prédio construído para abrigar doentes na hipótese de uma epidemia. Este prédio existe até hoje em Friburgo, em Duas Pedras, esquecido em meio a um conjunto habitacional de classe popular denominado de “Lazareto”. O lazareto encontra-se localizado no alto de um morro, bem distante do núcleo urbano. A Marinha provavelmente percebendo que o que incomodava a população era a localização da enfermaria de beribéricos e não, o estabelecimento em si, optou por um local distante do centro da cidade, a exemplo do lazareto. Fiquemos atentos que o Sanatório Naval hoje nos parece perto, mas naquela época o sentido de distância era outro. Para tanto, a Marinha vislumbrou o “barracão” do Conde de Nova Friburgo que consistia em um pitoresco chalé, que servia de pavilhão de caça da família do conde. Desta feita, a Marinha ampliara seus projetos. De acordo com o regulamento do Serviço Hospitalar, não se instalaria apenas uma enfermaria, mas sim um sanatório que serviria para o tratamento não somente do beribéri, mas igualmente de tuberculosos e de portadores de moléstias infecciosas.

O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte I - Um centro de peste na cidade salubre



Cidade privilegiada do estado do Rio em decorrência de suas excepcionais condições climáticas, uma das mais aprazíveis e lindas estâncias brasileiras, era assim considerada, desde o início do século XIX, a vila de Nova Friburgo. No centenário da independência do Brasil, em setembro de 1922, assim se descreveu Friburgo no álbum do estado do Rio de Janeiro: “a pureza do ar, a temperatura amena, a superioridade da água, fazem de todo o município um inigualável sanatório”. Virgílio Corrêa Filho, assim escreveu sobre Friburgo, no início do século XX: “Por isso espalhou-se, célere, a fama de cidade salubre, para a qual convergem os doentes esperançosos de uma cura ou alívio aos seus achaques, naquele ambiente de ar leve e puro, em que a vida desabrocha em manifestações sugestivas de pujança”.


Foi em razão destes cantos de louvor ao clima de Nova Friburgo que no último quartel do século XIX, a Marinha de Guerra Imperial elegeu Nova Friburgo para estabelecer uma enfermaria de beribéricos. A enfermaria proveria à cura e convalescença de seus marujos acometidos de beribéri, doença que atacava aos indivíduos que permaneciam muito tempo no mar, provocando-lhes a deficiência de vitamina B1. Até então a marujada ficava internada na “Enfermaria de Beribéricos de Copacabana”, no Rio de Janeiro. Em abril de 1889, entra em cena o Almirante Carlos Balthazar da Silveira, Ministro da Marinha, que expressou seu descontentamento em relação à enfermaria de Copacabana. Declarava que a mortalidade era avultada naquela enfermaria devido à sua instalação ser quente e úmida. De acordo com ele: “...Torna-se urgente sua remoção para uma localidade de clima mais ameno, que possua água potável boa e abundante...”


Em decorrência deste manifesto, em 25 de julho de 1889, foi inaugurada em Nova Friburgo uma enfermaria provisória para tratamento das oficiais e praças da Armada acometidos de beribéri. A enfermaria funcionava na rua Gal. Osório, próximo ao Colégio Anchieta. Mais de um mês depois de instalada, um diretor do Hospital de Marinha da Corte enviava o seguinte ofício ao Ministro da Marinha: “Tenho a honra de enviar a Exa. os mapas dos doentes de beribéri tratados em Nova Friburgo (...)as duchas aplicadas com método e cuidado constituem um meio terapêutico de grande alcance(...)aqueles que foram paralíticos e com atrofias musculares ainda se acham muito enfraquecidos e que só agora e depois de trinta e tantas duchas é que deixaram as muletas....”. Estas duchas foram aplicadas no Instituto Hidroterápico que já havia em Friburgo.


Foi provavelmente neste momento que a Marinha abre os olhos para aquisição de tal estabelecimento. O Instituto Hidroterápico ou Casa de Duchas foi construído em 1870, pelos médicos Carlos Éboli e o Dr. Fortunato. No entanto, com o falecimento de Éboli, em 1885, o estabelecimento fica acéfalo, pois perde seu timoneiro no tratamento à base da hidroterapia. Desde então, o instituto parece enfrentar dificuldades financeiras. O Ministério da Marinha entabulou então negociações para aquisição do Instituto Hidroterápico, do qual já se servia. Os friburguenses e as instituições, a exemplo da Câmara, se pronunciaram contra tal aquisição, pois iria comprometer a salubridade de Friburgo já que o instituto se localizava no centro da cidade. Anexo ao Instituto Hidroterápico havia o Hotel Central, que fazia parte do instituto, que é hoje o Colégio N.S. das Dores.


O interesse no Instituto Hidroterápico adequava-se perfeitamente os propósitos da Marinha, pois o tratamento à base da hidroterapia era preconizado como medida terapêutica para a cura do beribéri. Possuindo a Casa de Duchas todas as instalações e aparelhos para tal fim, os problemas financeiros do instituto encaixavam-se como uma luva junto aos projetos da Marinha para adquirir tal estabelecimento. Porém, a Marinha não contava com a presença de um ilustre veranista e assíduo freqüentador de Friburgo: Rui Barbosa. Foi este advogado e político o responsável pela obstrução deste projeto, adiando por alguns anos a vinda do Sanatório para Friburgo.

Polícia carnavalesca – soldados rolistas e maxixeiros


Na matéria de hoje relato uma situação que ocorreu no carnaval de Nova Friburgo, no início do século XX. Apesar da violência do fato, não deixa também de ser jocoso. Trata-se de um carnaval de rua, onde participava o “Zé-Povinho”, palavras da época, que se divertia a fartar na Rua do Arco, à época denominada Beco do Arco. Até hoje temos a rua com este nome. No passado, era onde moravam as classes populares, com casas do tipo meia-água, estreitas e geminadas. Era onde funcionavam as casas de tavolagem ou alcouces de prostituição e ainda, pequenas oficinas de falsificação de bebidas alcoólicas.
No carnaval, as classes populares se divertiam na Rua do Arco, onde se praticava o entrudo, jogando limões uns nos outros. Mas havia ainda os bailes populares promovidos pelas sociedades musicais da época. Neste último caso, o público era o que corresponderia hoje a uma classe média. Mas vejamos o que ocorreu naquele malfadado carnaval de fevereiro de 1901, em que a população friburguense sofreu a macaca. Segundo o jornal, a polícia, que era paga para garantir a ordem e a tranqüilidade pública, transformou-se durante os três dias de carnaval em verdadeiro “pomo” de discórdia e em ameaça perene ao pacato cidadão que procurava divertir-se durante os folguedos carnavalescos. No primeiro dia de carnaval, enquanto populares se divertiam no Beco do Arco, soldados que se achavam em ronda naquela rua causaram grande distúrbio, pondo em completa debandada os “mansos transeuntes e os inocentes assistentes”. “Transformando sabre em sardinha”, ainda segundo o jornal, a “bambolear” o corpo, com gestos de capoeiragem e atitude agressiva, ameaçavam a tudo e todos, retirando-se “os valentes homens” somente quando o beco ficou deserto pela fuga precipitada do povo indefeso.
Mas o pior ainda estava por vir. Além de diversos conflitos com população durante o carnaval, no terceiro e último dia provocaram novo sarrilho na sede da Sociedade Musical Estrela, na Rua Gal. Osório, onde ocorria um baile de carnaval. Os “heróicos” homens trocaram o Campo de Marte pelo do Momo. Invadiram a sede da Sociedade Musical Estrela, apesar do protesto dos sócios, avançaram com ganância sobre a mesa de um botequim comendo todos os pastéis, beberam quanto quiseram e se retiraram para a sala do baile, recusando-se a efetuar o pagamento do que haviam consumido. Na sala do baile, “tomaram a pulso” parte nas danças e ao som de um tango “choroso e mole” dançaram os policiais num “maxixe quebrado e dengoso”, a folgar carnavalescamente. O subdelegado, esquecendo-se também da posição de seu cargo, atirou-se num “choro gostoso”, gritando: “Não sou autoridade, não sou nada! Sou um homem como os demais!” Depois de quebrarem uma talha d´água transformando a sala em um vasto lago, o subdelegado e os soldados em promíscua confusão, ao som de uma habanera, deixaram a sede em roxo fandanguassú. Chegando à rua, com a voz esganiçada, falavam aos assustados transeuntes: “vocês nos conhecem? Nós somos os encarregados de velar pela segurança e tranqüilidade pública!”.
Apesar do delegado haver prometido descontar dos soldos dos soldados as despesas das bebidas, pastéis e doces que haviam se refestelado, além da talha que quebraram quando estiveram “bamboleando com o corpo”, o encarregado do baile ficou a ver navios, “pois do cobre, nem sombra”. Concluía o jornal na matéria “Polícia Carnavalesca – soldados rolistas e maxixeiros”: “Durma-se com um barulho deste!”
Fonte: Jornal O Friburguense. Fundação D.João VI de Nova Friburgo.

ARLEQUINS, PIERRÔS E COLOMBINAS: O CARNAVAL EM ESTILO COMMEDIA DELL ARTE EM FRIBURGO

O carnaval de Nova Friburgo demarcava posições sociais e estabelecia territórios, fazendo emergir no mesmo tempo e espaço, realidades distintas e comportamentos bem diversos. Enquanto a elite friburguense buscava o estilo europeizado, inspirada na commedia dell´arte, o Zé-Povinho ainda trazia resquícios da festa colonial com seu retumbante Zé-Pereira e os entrudos moleques que chocavam aos arautos da civilidade. Mas por que carnaval no estilo commedia dell´arte? O casamento de D.Pedro II com d.Tereza Cristina, irmã do rei das Duas Sicílias, traz de Nápolis e outras cidades ao Brasil, músicos e cantores italianos. As óperas italianas eram uma verdadeira coqueluche na Corte. Mas em que momento o carnaval se mistura com a ópera? Tudo começou em meados de 1840, quando uma trupe italiana, falida, resolveu se virar e organizou no Teatro São Januário um carnaval no estilo veneziano de máscaras. A partir de então, figuras carnavalescas da commedia dell´arte italiana como o pierrô, o arlequim e a colombina incorporam-se ao carnaval brasileiro. Nos salões de carnaval da Nova Friburgo fin-de-siècle, os bailes à fantasia causavam verdadeiro frisson entre os veranistas e os cortesãos friburguenses, incansáveis por representarem, nas montanhas, o clima e a atmosfera dos bailes venezianos, tão em moda naquela época. Porém, nos restritos bailes de carnaval da elite friburguense, como os do Hotel Central, Salusse e D. Eugênia, a vigilância nos salões era sistemática. Nestas soirèes carnavalescas, os organizadores temendo que a canalha da cidade se infiltrasse entre “pessoas gradas da sociedade friburguense”, nomeavam uma comissão especial de cavalheiros para incumbir-se de identificar, na porta da entrada, os convidados que se apresentavam mascarados, já que a graça do carnaval da época era o anonimato.

Nos carnavais de Nova Friburgo eram freqüentadores habituès o Conde e a Condessa de Nova Friburgo, o Barão e a Baronesa de São Clemente, o Barão e a Baronesa de Duas Barras, a família do notório político Rui Barbosa, entre outros. Nos salões a iluminação era feita com acuidade para destacar as ricas ornamentações feitas com folhagens, flores, bandeirolas, lanternas, escudos com máscaras, tudo feito para dar ao local uma atmosfera do carnaval veneziano. O baile carnavalesco era dividido em duas partes: antes e depois da meia-noite. Na primeira parte, brincadeiras de dominós que circulavam anônimos e silenciosos e cavalheiros fantasiados sob máscaras de cetim, que com voz em falsete, teciam ditos espirituosos e proferiam intrigas carnavalescamente inofensivas. E a pergunta que não cessavam de fazer: “Você me conhece?” O grande frisson era descobrir quem se encontrava por detrás das fantasias. Em todos os bailes da cidade, mesmo nos populares, era norma que até a meia-noite os convidados conservassem a fantasia e a máscara, mantendo o anonimato. Na segunda parte, depois da meia-noite, dançavam com o espocar das garrafas de champanhe quadrilhas, valsas, tangos, mazurcas, polcas e o schottisch, este último abrasileirado e conhecido como “xote”. A partir de 1870, aparece o maxixe, que Ernesto Nazareth chamará de “tango brasileiro”.

Entre os cavalheiros predominava o dominó e fantasias como chevalier fin-de-siècle, egípcio, astrônomo, pescador napolitano, jockey, folie, turco e clown. Já senhoras e senhoritas vestiam-se de coquellicot, paysanne coquette, cordon bleu, arlequine, charlotte corday, mercière, vendeuse de fleurs, bebé, napolitana, moyen âge, bonquetière, papoula rubra, trovadora, dominó, santuzza da ópera de Mascagni, miosótis, jardim, camponesa suíça, arlequim e cigana.

Em Nova Friburgo, muitas famílias da elite promoviam durante o carnaval soirées privadas em suas residências, ocorrendo geralmente na segunda-feira, isto porque os bailes nos salões dos hotéis se realizavam no domingo e na terça-feira. Os nobres foliões apesar dos ardores na noite anterior não deixavam de atender a estes convites. Havia entre eles o seguinte jargão: “enquanto descança-se...folga-se”. Enquanto “descansavam” dos bailes do domingo gordo e da terça-feira, “folgava-se” nas residências dos anfitriões com baile à fantasia, verdadeiro pendant dos hotéis. Conforme um cronista da época, “parecia que se vivia em um mundo à parte, aonde não chegavam os ecos e clamores do mundo contingente: longe da carestia dos gêneros, longe dos maus criados e longe do piano da vizinha”.

Fonte: Jornal O Friburguense. Fundação D.João VI de Nova Friburgo.

A ÁFRICA BRASILEIRA


Em 1835, a Câmara Municipal de Nova Friburgo informou ao governo provincial que a sua população branca era de pouco mais ou menos 2.800 habitantes e a escrava de 2.000. Em um levantamento realizado pelo império em 1840, a população livre, compreendendo brancos, pardos e negros era de 2.888 pessoas, aproximadamente. Neste mesmo ano a população escrava era de 2.155, correspondendo a quase 43% da população total de 5.043 pessoas, conforme levantamento feito na Freguesia de São João Batista. Logo, o último levantamento não destoa dos dados fornecidos pela Câmara. Dez anos depois, em 1850, a população livre do município de Friburgo era de 4.187 pessoas e o número de escravos neste mesmo ano era de 2.927, correspondendo a 41% da população de 7.114 habitantes. Neste período, o censo abrangia as freguesias de São João Batista e N.S. da Conceição do Paquequer. Quando adiante foram anexadas outras freguesias ao município de Nova Friburgo, como foi o caso de São José do Ribeirão, a escravaria deve ter aumentado ainda mais em virtude das plantações de café.


Como vimos acima, população escrava de Friburgo correspondia à quase metade da população. Logo, Friburgo não foi somente um pedacinho da Europa, mas da África, também. Isto nos faz considerar que na formação social de Friburgo, a contribuição africana foi importante, além de quebrar o mito como o de que, em Friburgo, a escravidão não foi significativa. Antes mesmo dos suíços chegarem a outrora fazenda do Morro Queimado havia muitas sesmarias na região, ou seja, vastas extensões de terras concedidas a determinados indivíduos pelo governo imperial. Recordemos, para obter sesmarias, os sesmeiros deveriam possuir um plantel de escravos.


A escravidão fazia parte do cotidiano de Friburgo. Alguns escravos vendiam mercadorias na vila, como esteiras e produtos de suas roças, com autorização de seus senhores, mas deveriam apresentar licença, pois do contrário, seriam proibidos de comerciar. A maioria que circulava pelas ruas trabalhavam ao ganho, ou seja, vendiam mercadorias por seus senhores e tiravam uma pequena parcela destas vendas. Muitos trabalhavam em obras públicas também por seus senhores, mas há registro de escravos que trabalhavam por conta própria, fenômeno que nas cidades se denominava de “brecha urbana”. A brecha urbana consistia na autorização que alguns escravos obtinham de seus senhores para ganhar o seu próprio dinheiro e com isto, juntavam seus parcos vinténs para um pecúlio objetivando a compra de sua liberdade.


Havia quilombos em Nova Friburgo. Em 1822, há o registro da prisão de quatro escravos fugitivos que confessaram estarem aquilombados nas “partes de Macaé” e que no mesmo quilombo havia outros quatorze escravos. Em 1823, o filho do colono suíço Jean Antoine Mury, morador da fazenda de São Pedro, próximo do Alto Macaé, declarou que quatro portugueses passaram por sua propriedade de posse de objetos pertencentes a negros fugitivos de um quilombo naquele local. Já em 1886, outro registro de quilombo no Córrego Dantas.


Em 1885, três anos antes do fim da escravidão, Friburgo tinha 1.915 escravos, 1.273 em serviço rural e 234 deles em serviço urbano. O mais significativo foi que a partir de setembro de 1873, foram matriculados mais 2.810 escravos no município. A aquisição de escravos ainda continuava intensa, já que os barões do café fluminense custavam a aceitar o fim do trabalho compulsório. A explanação de números é sempre entediante numa leitura, mas foi preciso para responder a alguns friburguenses que ora e meia me perguntam: “Mas existiu escravidão em Friburgo...?”


Fonte: Arquivos do IBGE.








PRA QUEM É BACALHAU BASTA

O bacalhau, todos nós sabemos, é um produto consumido somente nos períodos de festa e celebrações, a exemplo da semana santa e do natal. Considerado um dos pratos mais caros no cardápio dos restaurantes, é consumido por pequena parcela da população brasileira. Mas nem sempre foi assim. No final do século XIX, o bacalhau era um produto bem popular, muito próximo da carne seca e exposto nas portas dos armazéns e quitandas como uma mercadoria qualquer. Quem nunca ficou com cara de “bacalhau de porta de venda”?

Em Nova Friburgo, por influência dos imigrantes portugueses, o bacalhau era considerado gênero de primeira necessidade como a manteiga, banha, café, toucinho, arroz, feijão preto, milho, cebola, alho, leite, ovos, galinha, entre outros. Nas estações de trem de Friburgo e região, vendia-se bolinhos de bacalhau, enchendo-se os bolsos destes salgadinhos nas paradas.

No edital de licitação de víveres para o “rancho” dos praças(policiais) do Regimento Policial estacionado em Friburgo, além de gêneros básicos incluía-se bacalhau, bem como vinho tinto ou branco de Lisboa. Até mesmo no fornecimento de “comedorias” aos presos da cadeia era servido bacalhau às sextas-feiras. Bacalhau aos presos? Dizia o edital: De ordem do Dr. Chefe de Polícia... Dieta: Leite, caldo de galinha, canja, ovos, chá, bifes; Almoço: um pão de 200 réis com uma caneca de café; Jantar: feijão, carne seca, arroz, toucinho, carne fresca, de domingo a quinta-feira, e bacalhau às sextas-feiras. Bons tempos não? Mas nem sempre os presos foram tão agraciados assim. Em Friburgo, na primeira metade do século XIX, a Câmara somente se incumbia da alimentação de presos pobres, sendo os mais abastados providos por seus familiares.

Os horários das refeições em Friburgo se diferenciavam muito dos hábitos atuais. O almoço ocorria às 10:00 horas da manhã e jantava-se por volta das 16:30 horas. O jantar era a refeição com o horário mais variado, entre quatro e seis da tarde. Para os que dormiam tarde havia ainda uma ceia, sempre frugal. Uma das coisas mais apreciadas pelos friburguenses do fin-de-siècle era uma boa petisqueira nas tardes de domingo, fosse em um dos hotéis ou nos Cafés da cidade, como o Café Central, Café Alexandre ou o Café Flor de Friburgo. Consumia-se presunto, comidas frias, pastéis de nata, empadinhas de palmitos e camarões, lunch , mingau, café, chá, chocolate, vinhos franceses, italianos e portugueses, incluindo o vinho verde, chopp e a nativa cerveja Friburgo-Brau.

Retornando ao pequeno histórico de nosso precioso bacalhau, podemos aduzir do por que a expressão do tipo “pra quem é bacalhau basta”. Naquela época o bacalhau era um produto tão ordinário, que para um sujeitinho qualquer, um probetão ou para arraia miúda, bacalhau bastava. É curioso como determinados produtos ou pratos migram no decorrer dos tempos do popular ao sofisticado, integrando o cardápio de requintados restaurantes. Falamos da feijoada e do feijão tropeiro. A feijoada foi um prato que surgiu em decorrência dos senhores das casas-grande descartarem partes dos suínos consideradas não nobres como o rabo, as orelhas, os pés, sendo aproveitados pelos escravos que os misturavam ao feijão, surgindo daí um saboroso prato que faria parte da cultura nacional. Bem assim ocorreu com o feijão tropeiro, surgido da alimentação dos tropeiros que transportavam mercadorias pelas estradas do Brasil desde o período colonial. Toucinho, feijão e couve era o farnel destes viajantes, caindo também esta refeição no gosto nacional. Já o arroz à carreteira, dos tempos mais modernos, surgiu de sobras de churrascos que caminhoneiros misturavam ao arroz, na refeição do dia seguinte.

Poderia citar ainda a aguardente de cana. Produto associado às classes populares, barato e feito nos engenhos, caiu atualmente no gosto de requintados bares das grandes cidades, com direito inclusive à degustação. A propósito, cachaça em Friburgo era “copo d´água” e quem quisesse se refrescar no final do século XIX, que usasse de outra denominação, pois se alguém pedisse um copo d´água, servir-se-ia cachaça.
Fonte: Jornal O Friburguense. Fundação Pró-Memória de Nova Friburgo.

ENQUANTO O PAU VAI E VEM, FOLGAM-ME AS COSTAS

O dia 20 de novembro foi consagrado como o dia nacional da consciência negra. Muito justo. Mais de três séculos e meio de nossa história sob a égide do trabalho compulsório, a escravidão deixou conseqüências em nossa sociedade que até hoje são sentidas. A escravidão em Friburgo tinha seus arranjos nas instituições da cidade, como na Câmara Municipal, e fazia parte do cotidiano da vila. “Enquanto o pau vai e vem, folgam-me as costas”. Esta expressão surge na Friburgo do século XIX. Em que sentido foi empregada? Poder-se-ia afirmar que foi utilizada no sentido de que durante pouco tempo dava-se um pausa, um refresco, numa determinada situação crítica. Mas o que mais importa e chama a atenção nesta expressão é de como o imaginário das pessoas estava impregnado de situações que remetiam ao cancro da escravidão.

O poder público, através da Câmara Municipal, tinha toda uma estrutura voltada para a questão da escravidão. Havia na Câmara a função de capitão de assalto ou capitão do mato para cada distrito do Termo, em virtude da vasta extensão do território. Ao que parece era uma atividade lucrativa. Há diversos registros de solicitação de provimento para servir-se como capitão do mato. A Câmara adquiria correntes, colares, algemas, anjinhos, cadeados, toda uma parafernália de objetos para apresar os escravos, tudo previsto em orçamento.

Particulares também recebiam pagamento pela prisão de negros fugitivos. Todos buscavam tirar proveito da escravidão. Em Friburgo, até os bagrinhos queriam auferir proventos da situação. Em certa ocasião o fiscal da Câmara acoitou em sua casa, para seu serviço particular, um escravo do libambo, lugar de custódia dos cativos capturados. Indagado pela Câmara, o fiscal declarou que o tinha tirado do libambo para o curar de suas boubas. Alguém acreditaria nesta história? Era uma prática comum na vila acoitar escravos fugitivos para utilizarem os seus serviços.

O clero também fazia uso de escravos. Monsenhor Miranda quando em visita a Friburgo em 1821, trouxe consigo dois soldados de cavalaria, um guia e quatro escravos. Institucionalizada nacionalmente, o reverendo Jacob Joye, padre suíço da Vila, possuía escravos bem assim o reverendo João José Viviand. A guerra justa foi um argumento que a Igreja encontrou para justificar a escravidão no Brasil.
Os escravos faziam parte do cotidiano da vila, mas era proibida sua circulação pelas ruas depois das dez horas da noite. Seus ajuntamentos ocorriam na fonte do suspiro, onde iam buscar água para seus senhores e acabou se transformando em um espaço de sociabilidade dos mesmos. Há uma reclamação na Câmara destes ajuntamentos que incomodava a população, pois segundo eles, os pretos urinavam no local. Portanto, tinham sua circulação e comportamento patrulhados pela elite local, monitoramento este refletido nas posturas municipais. Há referência de maus tratos. A violência contra escravos era tamanha que a Câmara passou a recriminá-las em dado momento, já que gritarias e pancadas nos cativos incomodavam a vizinhança. Continuo na próxima semana.
Fonte: Fundação Pró-Memória de Nova Friburgo.

A FLANERIE DA PRETA MARGARIDA

Graciliano Ramos escreveu no livro “Alexandre e outros heróis” que a alegria dos negros pelo fim da escravidão foi logo substituída por uma vaga inquietação. Ainda segundo ele, pelo menos enquanto escravos, tinham a certeza de que não lhes faltaria um pedaço de bacalhau, uma esteira na senzala e a roupa de baeta com que se vestiam. Já livres, necessitavam prover-se dessas coisas e não se achavam aptos para obtê-las. Recordemos, bacalhau no fim do século XIX, era alimento das classes populares.
Em Friburgo, com o fim da escravidão, a Praça do Suspiro tornou-se Praça Treze de Maio, tecendo preito à lei de abolição do trabalho compulsório. Mas Friburgo, a exemplo de todo país, não cuidou da integração dos ex-escravos na vida social, marginalizando-os. Nos noticiários dos jornais da época, podia-se ouvir as “vozes” destes negros libertos pelas ruas de Friburgo, alcoolizados e senis. Costumava-se despachar os negros alcoólatras para o hospital de alienados, em Niterói, e os velhos indigentes para o asilo de mendicidade na Capital Federal. Apesar de muitos terem sido “despachados”, alguns resistiram e faziam parte do cotidiano da cidade.

Freqüentemente, os negros eram objeto das brincadeiras e escárnio por parte da população. Havia em Friburgo o “tenente maluco”, que do meio-dia em diante ameaçava quebrar a cuia de quem passasse por ele. Já o negro “Roão” quando estava “na chuva”, ou seja, embriagado, despejava um turbilhão de palavrões. O articulista do jornal queixava-se: “ou ele ensaboe a língua ou raspe-se do lugar.” Já a preta Leopoldina, que atacava geralmente crianças na estrada, era a mais temida e levava bons sopapos e cachações do delegado quando detida. Uma outra mulher negra que dizia chamar-se Margarida e que o vulgo mudou-lhe o nome para “coruja”, servia sempre de joguete da molecada. Por ela não concordar com a alcunha que lhe era atribuída, uma torrente de palavras, que segundo o jornal, a moral repugnava reproduzir, era proferida pela “coruja”, aumentando ainda mais a gaiatice da rapaziada.

Mas a que melhor simboliza a marginalidade dos libertos é a preta Margarida ou “Perua”, nome dado pela molecada, sendo o tipo mais popular da cidade. Perua já não se irritava mais com a alcunha que lhe dera e passava requebrando o corpo, envolto em um xale e arrastando os chinelos. De luneta acavalada sobre o nariz adunco, lápis e papel nas mãos rascunhando caracteres ininteligíveis e bramindo alto, pintava a saracura, numa fúria de histeria inofensiva com terríveis predições apocalípticas. Na estação, na porta da igreja, a molecada gritava: “Perua! Perua!” Este era o grito constante, e por onde ela aparecesse formava-se logo uma roda.
Havia os que a admiravam e ainda os que a provocavam para rir dos seus arremessos à garotada. Já os mais curiosos, paravam para ouvir suas previsões e imprecações de desgraças para o futuro. Perua era vista arrastando-se, beijando e chorando sobre lajedo dos adros da igreja Matriz. Neste momento, comovia os transeuntes mais piedosos, na sublime e dolorosa austeridade da sua religião de histérica. Após a penitência, Perua seguia sob um coro de gestos e apupos, já fazendo parte do cotidiano da cidade, a flanerie, isto é, os passeios da jovem preta Margarida. No rosto, sempre a expressão alucinante ouvindo revelações da outra vida, tão inofensiva na sua demência, tão desgraçada na sua vesânia. Herança da escravidão em Friburgo!
Fonte: Crônicas do jornal O Friburguense. Fundação Pró-Memória de Nova Friburgo.


Diante dessas imagens realizadas em Nova Friburgo, o que mudou em relação à rdicularização das pessoas simples no município?

ONDA NEGRA, MEDO BRANCO



Típica família friburguense oitocentista.


Nunca uma frase resumiu de forma tão perfeita o imaginário da população branca no século XIX, como o livro de Célia de Azevedo: Onda negra, medo branco. Mas em que consistia esta onda negra? No cenário mundial, ocorrera a revolução em São Domingos, onde os negros se rebelaram contra a escravidão e proclamaram a independência do Haiti. No Brasil, nas três primeiras décadas do século XIX, ocorreu uma onda de insurreições de escravos na Bahia, organizadas pelas nações haussás, nagôs e maleses: “Marinheiros e caiados/todos devem se acabar/porque só pardos e pretos/ o país hão de habitar.” Canções e acontecimentos como estes devem ter ecoado por Nova Friburgo e não se sabe se foi por conta da onda negra que o medo branco se estabeleceu entre os friburguenses, registrando-se em ata da Câmara uma terrível insurreição.

Em 1835, espalhou-se a notícia da possibilidade de uma insurreição de escravos em Friburgo e nos municípios vizinhos. Havia a denúncia de que um grupo de escravos do 3° distrito do Rio Preto vagavam armados pelas fazendas e estradas, transmitindo aos cativos da região que haveria uma sublevação no dia 25 de dezembro. O fiscal relatou naquela época:
“...os sustos em que se acham os moradores deste distrito pelos estados de insubordinação dos escravos que diariamente vagam pelas estradas e fazendas da vizinhança, armados e proferindo palavras tendentes a uma sublevação no dia 25 do corrente, com a notícia de que pretendem assenhorear-se do armamento da Companhia das Guardas...” .
Segundo relatos, o problema da rebelião se originava do fato de haver um excessivo número de escravos administrados por poucos feitores. Além do mais, alguns administradores das fazendas eram também escravos, o que os fazia temer ainda mais pela facilidade de apoderar-se do armamento. A população estava tão apavorada com a possibilidade de uma insurreição que alguns estavam até determinados a desocuparem suas casas temendo serem achacados pelos revoltosos.

Nestes momentos de tensão, as “novidades” corriam soltas como o de haver 800 escravos evadidos, reunidos nos matos para entrar em ação. A Câmara mencionou o “perigo a que todos estaríamos expostos ao desastre que resultaria uma tentativa de insurreição”. A partir de então, criou-se posturas recrudescendo as normas em relação aos escravos posto que achavam-se “ameaçados já a perecer a cada momento nas garras de tão ferozes inimigos.”

O problema das tensões era em função de um significativo aumento do plantel de escravos em algumas fazendas. Por conseguinte, passou-se a exigir que fazendeiros com poucos administradores limitassem o número de escravos, já que não tinham condições de dar segurança aos seus próprios estabelecimentos. Para o caso de fazendas que necessitassem de grande número de escravos, a Câmara propôs uma tributação proporcional ao número deles. Com este imposto, os municípios com forte concentração de cativos investiriam na segurança com o emprego “de tropa paga”, com número de guardas proporcional ao de escravos.

Os escravos detidos, considerados os “cabeças” da sublevação ou “sociedade secreta”, portariam um peso sob seu corpo de 9 libras de ferro por período determinado, com um registro contendo seus nomes, gravidade do delito, prazo em que deveriam conservar o peso, o nome do seu senhor e a denominação da fazenda. Os senhores que antes do prazo determinado retirassem dos seus escravos os respectivos pesos, sofreriam penas por desobediência, que variavam entre multa e prisão. A insurreição era um crime de ação pública e caberia à Câmara a punição dos infratores.

Pode-se afirmar que Nova Friburgo teve suas tensões sociais em relação à escravidão. Há referência de vítimas do grupo “13 de Maio”, possivelmente formado por ex-escravos que teriam provocado distúrbios logo após a abolição da escravidão, o que denota que Friburgo era um verdadeiro barril de pólvora, povoando no imaginário da época o medo branco diante da onda negra.

Fonte: Atas de Câmara Municipal de Nova Friburgo.

OS PRETOS DO LIBAMBO


Em Nova Friburgo, no início do século XIX, chamavam de pretos do libambo, os escravos fujões capturados que ficavam à disposição da Câmara Municipal. Eram aprisionados unidos a correntes de ferro para dificultar-lhes nova fuga.


Em Nova Friburgo, os escravos fugitivos capturados por capitães do mato eram mantidos no lugar denominado libambo. Ao arrepio da propriedade alheia, o libambo tinha sido regulamentado no art.22 das primeiras posturas com a finalidade de se utilizar os escravos fujões em obras públicas, enquanto não fossem resgatados por seus senhores. No desespero pela falta de receita, onde as obras públicas só ocorriam na base das subscrições, ou seja, doação dos moradores, tudo era válido. Os “pretos do libambo”, como eram conhecidos pelos friburguenses, eram mantidos unidos por uma corrente de ferro. Em algumas imagens vemos os escravos com argolas de ferro presas ao pescoço, unidas por correntes de ferro. Estas fileiras de escravos unidos eram utilizadas para difiultar-lhes a fuga.


Localizava-se o libambo no centro da vila, mas não comportava qualquer segurança na manutenção dos cativos, havendo fugas constantes. Não era difícil fugir do libambo, pois há registro de inúmeras fugas de escravos. Sedentos de liberdade, os cativos fugiam ainda do rigor da punição aos que evadiam das fazendas. Aos fujões, os juízes de paz decretavam sentenças de açoites que variavam entre 50 e 1.200 chibatadas.

A Câmara era responsável pelos escravos fugitivos, sendo ressarcida das despesas feitas pela sua captura e manutenção pelos donos dos escravos, quando estes os reclamassem. Quanto mais tempo no libambo, maior seria a despesa quando do pagamento do resgate. Na década de 1830, quando o preço do cativo estava barato, poucos em Friburgo reclamavam seus escravos junto à Câmara, já que em muitos casos o valor pago pelo resgate superava ou equiparava o preço dos mesmos. Além do mais, os escravos fujões não eram bem recebidos nas fazendas, pois era um elemento pernicioso para a escravaria. Os escravos fujões eram marcados a ferro pela própria Câmara com a letra F, de fujão, antes de serem entregues aos seus respectivos donos. Passado um período sem que houvesse a reclamação de seus proprietários, eram colocados em praça para arrematação e o valor revertido à Câmara para indenizar-se das despesas de captura e manutenção do mesmo.

Muitas obras públicas e melhoramentos da vila de Nova Friburgo foram realizadas por estes homens apresados enquanto aguardavam o retorno ao cativeiro nas fazendas. Consertavam estradas, cuidavam da manutenção de pontes, limpavam as praças da vila, valas, enfim, todo tipo de serviço para “elegância” da pacata vila de Nova Friburgo. A Câmara também utilizava para serem empregados em serviços públicos, os escravos criminosos presos na cadeia. Presos em troncos de campanha também colaboravam com obras pela vila, já que pelas posturas podia-se aproveitar o trabalho dos escravos detidos, estivessem eles no libambo ou na cadeia. Ainda que sob calcetas e a vigilância dos pedestres – uma espécie de guarda - que os fiscalizava e lhes dirigia o serviço, o trabalho nas obras era sempre uma oportunidade de fuga.


Um “Preto e um “burro”, como se dizia à época em Friburgo, eram de vital importância para a infra-estrutura da vila, principalmente nos primeiros momentos de sua formação onde a receita era exígua e o governo provincial não auxiliava em quase nada. Falarei mais adiante sobre outros aspectos da escravidão em Nova Friburgo, uma cidade escravocrata, longe daquela representação de "Suíça Brasileira" que nos querem impor.
Fonte: Atas da Câmara Municial de Nova Friburgo.

CERVEJAS DE FRIBURGO


Na primeira metade do século XIX, a cerveja consumida no Brasil era importada da Inglaterra. Com a chegada de imigrantes alemães ao Brasil nesse período, o país passa a ganhar suas primeiras fábricas de cerveja. Na colônia alemã de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, fundada em 1826, os alemães importaram o lúpulo e abriram uma fábrica de cerveja, sendo talvez uma das primeiras do Brasil. Em abril de 1861, Pedro Gerhart abre em Friburgo uma fábrica de cerveja e mais adiante Eduardo Salusse com igual estabelecimento. A cerveja torna-se novidade e hábito de consumo do brasileiro a partir do início do século XIX, influência dos ingleses assim como o pão de trigo e o chá. Além dos primeiros colonos alemães que migraram para Nova Friburgo em 1824, o município recebeu em 1892, 703 imigrantes alemães do total de 1.421 que imigraram para a região serrana. É possível que Albano Beauclair tenha vindo neste grupo.

E é a partir de então que se inicia a história da cerveja Friburgo Brau. O Sr. Albano Beauclair abre em 1893, uma fábrica e cervejaria em Friburgo, a Cervejaria Beauclair, possivelmente em razão da excelente e notória qualidade da água de Friburgo, conhecida até mesmo por suas características medicinais. Situada à margem do Rio Santo Antonio, atual Rua Mac-Nivem, era um importante espaço de sociabilidade na cidade. A fábrica de cerveja Beauclair importara todos os aparelhos da Alemanha, onde produzia em média vinte e duas mil garrafas mensalmente. Possuía ainda uma sofisticada máquina de lavar garrafas e outra que experimentava a resistência das mesmas, à base de gás de ácido carbônico. Para o verão, utilizava um resfriador Patent de Neubecker, um engenhoso aparelho para manter a cerveja sempre geladinha. A cervejaria Beauclair adotava o sistema de Munich não só quanto ao maquinário, como no processo de fabricação. O Sr. Albano de Beauclair tinha o diploma de mestre fabricante de cerveja, conferido pela Escola de Cervejaria de Worms, localizado na Alemanha. A fábrica produzia a famosa e saborosa cerveja Friburgo Brau, um produto especial da casa exportada para outras regiões, sendo considerada uma das melhores cervejas nacionais. A Friburgo Brau era muito exaltada nos jornais e um dos orgulhos da cidade. O jornal descreve a Cervejaria Beauclair como “um sítio aprazível, onde a natureza traja sempre galas”, o que seria, na verdade, um Biergarten. O conceito de cervejaria que se difundira no século XIX, as denominadas biergarten, eram locais situados em áreas arborizadas, com jardins, normalmente próximos a um rio, onde se espalhavam mesas e bancos de madeira. Nestes locais, cada um levava seu próprio farnel ou refeição e consumia a cerveja vendida no local. Atualmente, na Baviera, a exemplo de Munique, as biergarten conservam a mesma tradição de outrora. No entanto, já fornecem refeição aos freqüentadores. Logo, a Cervejaria Beauclair aproximava-se desse conceito de biergarten.

Em 1907, Albano Beauclair arrendou a fábrica a Bernardo Dias e companhia, mas continuou a prestar seus serviços. Ao que parece o Sr. Beauclair falecera neste mesmo ano. O novo proprietário mudou o nome para Fábrica de Cerveja Germânia. Neste período, a Cervejaria Germânia já possuía diversas máquinas de pasteurização, lavagem das garrafas, arrolhamento, etc. A cerveja germânia era descrita como de cor topázio, de espuma argêntea e “aurivibrante”. As garrafas tinham rótulos litografados em letras art noveau com o nome de Germânia, impresso em tinta vermelha. Já se providenciava a substituição das rolhas de cortiça, presas a arame, por outras do sistema teutonia. Temos o registro de que a Fábrica Beauclair funcionava ainda em 1930, tendo como proprietários Lima Jaccoud & Companhia. Outra cerveja produzida em Friburgo no final do século XIX foi a Cerveja Suspiro, de propriedade de Gonçalves & Bastos que exportava igualmente para vários pontos do estado. Ainda uma vez foi a natureza que privilegiou Friburgo, pois foi a qualidade de suas águas que gerou a indústria da cerveja local. Como se dizia à época sobre as águas de Friburgo: “Fazia lenir as dores dos que sofriam e até mesmo ressuscitava os quase-mortos.” Mas também rendeu aos nossos antepassados uma boa cervejinha gelada.

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