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DECÁLOGO DE RESPEITO À NATUREZA

Acima: O Prof. Menezes Wanderley




Antonio Francisco de Menezes Wanderley foi o maior intelectual do final do século 19 e início do 20 em Nova Friburgo. Natural do Estado da Paraíba do Norte, residiu na capital federal onde trabalhou em diversos jornais. Do Rio de Janeiro veio para Nova Friburgo contratado para dirigir o periódico O Friburguense. Foi então convidado para ser professor do Lyceo Nacional, do Instituto Sul-Brazil e do Externato América. Abriu uma escola noturna gratuita na cidade para alfabetizar aqueles que labutavam durante o dia. Além de colaborar com diversos periódicos da cidade, como os jornais O Friburguense e A Paz, fundou o Correio Popular, O Rebate, a Escola e dirigiu o Democrata. Muito jovem ainda, com 25 anos de idade, tinha um vasto currículo acadêmico, sendo considerado um excelente orador e latinista, autor de peças teatrais, poeta, literato, tendo lançado os livros “Hosannas” e “Flores Agrestes”, um prodígio à época já que a produção de um livro era muito cara.
Esse ilustre professor era maçom e devido a sua bagagem intelectual, em 1933, recebeu do então prefeito da cidade uma incumbência: elaborar um decálogo, conjunto de dez princípios morais, para educar as crianças friburguenses na sua relação com a natureza. Pelo teor do decálogo, as belas e floridas praças da cidade que povoavam as narrativas e crônicas dos que visitavam o bucólico centro de Nova Friburgo, viviam depredadas por ações de vandalismo, principalmente por parte das crianças. Esse decálogo foi impresso em um livreto e distribuído em todas as escolas municipais de Nova Friburgo.
Vejamos as normas que o Prof. Menezes Wanderley elaborou dando o interessante título de “Voz da Natureza”: “CRIANÇA! OUVE O QUE TE DIGO: SER DE BONS COSTUMES É SER UM MENINO BEM CRIADO E EDUCADO PARA UTILIDADE DA VIDA, DA PÁTRIA E DA FAMÍLIA! 1°: Não derrubes as árvores, não as maltrate, não as desfolhe, seja qual for o lugar em que as encontre; 2°: Não depredes os jardins públicos. São lugares próprios para descanso e recreio dos habitantes do lugar, cujo número tu estás; 3°: não pises no gramado de seus canteiros. É um tapete verde-esmeralda, o qual alegra os olhos em harmonia com o azulado das montanhas e com o anil do céu; 4°: Não arranques as flores que adornam os canteiros. Elas seduzem os olhares dos passeantes e perfumam o ambiente. São como estrelas na terra; 5°: Não tires mudas, pelo fato de achares lindas as flores ou raras as suas qualidades; 6°: Não firas os troncos das árvores, abrindo neles nomes, teu ou de pessoas de tua amizade, só pelo gosto de vê-los aí estampados, quando passares por lá, talvez, um dia na vida; 7°: Não consintas que meninos desocupados e de maus instintos procurem maltratar as plantas que tanto bem fazem abrigando os cansados, atraindo as aves que cantam e as borboletas multicores que adejam; 8°: Não te esqueças que o governo, para ali as colocar, gastou muito dinheiro com o fim de preparar aquele logradouro público e ainda despende anualmente grande soma com a sua conservação. Esse dinheiro é fornecido pelo suor do povo. 9°: Não olvides esses conselhos, que são do maior proveito para a formação do teu caráter, eles dão mostra fiel da tua educação atual, e garantem que hás de ser um homem de bem no futuro. 10°: Não queiras ser um menino que mereça a censura dos homens de bem, mas um amiguinho de tudo o que é bom, merecedor dos aplausos dos homens sensatos e digno das lições que hás recebido na escola.”

Esse decálogo não teria muita razão de ser atualmente. Não que o seu teor esteja ultrapassado, ao contrário. No entanto, perdeu o seu sentido, pois há muito tempo não vemos uma natureza pujante na Praça Getúlio Vargas e nas demais praças da cidade, considerado outrora como o município dos cravos vermelhos e das camélias brancas. É difícil compreender o abandono da praça principal da cidade, que tanto encantava os visitantes do século passado, por sucessivos governos municipais. Foi uma progressiva gestão de administradores que desprezaram o maior e mais simbólico espaço de sociabilidade de uma cidade: as praças públicas. Como no início do século 19 se acreditava que as doenças vinham do ar, pois se desconhecia a existência de microorganismos, só descoberto em 1862, preconizava-se o plantio de árvores e boulevards nas vilas e cidades para higienizar o ar “corrompido” pelos miasmas. Logo, as praças públicas tinham muito mais uma função de atender a uma política pública higienista do que ser um espaço de sociabilidade. Posteriormente essa segunda função superou a primeira.
Porém, atualmente, com a poluição do ar nas cidades, as praças voltam a ter essa função “higiênica” e não somente ser um espaço de recreio da população. A Praça Getúlio Vargas, cujos eucaliptos abrigaram sob suas sombras sucessivas gerações de friburguenses, ainda constitui um espaço de sociabilidade aos mais renitentes, que insistem em sentar-se em seus bancos ruídos, vislumbrar o mato em sua volta e arriscar-se a mordida de roedores. O coreto, com o seu aspecto fúnebre, simboliza o descaso dos prefeitos que justificam a sua inércia sob o manto de que aquele pardieiro é tombado pelo patrimônio histórico. Vamos ver se com as campanhas pela renovação de Nova Friburgo essa praça, e igualmente as demais da cidade, voltem a ser o cartão postal como foi no passado.

O BARÃO DE NOVA FRIBURGO:UM ILUSTRE TRAFICANTE DE ESCRAVOS

Antonio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo



Bernardo Clemente Pinto trouxe a linha ferroviária até Nova Friburgo

As gerações futuras dos Clemente Pinto na intimidade da família



Acima, os fundos do solar do Barão de Nova Friburgo. As propriedades do centro de Nova Friburgo,
no século XIX, se estendiam até os limites do Rio Bengalas
Quando se reconhece na história do Brasil um indivíduo de grande fortuna, pode-se praticamente supor que fosse um traficante de escravos, em virtude dos imensos lucros que tais transações alcançavam. Quando foi oficialmente extinto em 1850 o tráfico de escravos no Brasil, o volume de capitais empregados no tráfico era de tal monta que imediatamente surgiu o Código Comercial para regulamentar a febre de negócios provocada pela liberação de capitais até então aplicados exclusivamente na compra e venda de escravos. Antônio Clemente Pinto(1795-1869), o Barão de Nova Friburgo, era um indivíduo apenas remediado quando veio de Portugal para Brasil em 1807, com 12 anos de idade. A origem de sua fortuna é mencionada por um cronista da época. Quando o barão suíço Von Tschudi visitou a região de Cantagalo no século XIX, ao se referir ao Barão de Nova Friburgo, assim escreveu: "...é o mais rico fazendeiro, não só do Distrito de Cantagalo, como de todo o Brasil (…). É português de nascimento (…) veio para o Brasil sem vintém (…) circulam muitas versões quanto à natureza de seus negócios e do modo por que chegou a ser possuidor de tão avultada riqueza (…). O novo-rico é em toda a parte do mundo objeto de inveja e maledicência (…). O que acontece em muitos casos, no Brasil, onde existe mesmo um provérbio bastante malicioso que diz, quem furtou pouco fica ladrão, quem furtou muito, fica barão”, o que bem ilustra o pensamento do povo...”

Acima a Fazenda Gavião em Cantagalo
Há comprovação de que o Barão de Nova Friburgo tornou-se um homem próspero graças ao tráfico de escravos. Dedicou-se ao tráfico entre a África e o Rio de Janeiro no período de 1811 a 1830, fornecendo escravos para as lavouras emergentes de café. Obteve igualmente do governo imperial sesmarias nos Sertões do Macacu onde explorou minas de ouro, porém, sem muito sucesso, e foi um dos primeiros a cultivar o café na região fluminense. Possuía em meados do século XIX quase duas dezenas de latifúndios em Cantagalo, considerada a região em que se aplicava o pior tratamento aos escravos no Brasil. Cantagalo ganhou fama entre as províncias brasileiras não só pela riqueza gerada por seus cafezais em meados do século XIX, como pela crueldade com que tratavam os escravos, os fazendeiros da região. Não faltam relatos de viajantes descrevendo as sevícias dos fazendeiros daquela localidade em relação aos seus escravos. Entre eles se encontrava o Barão de Nova Friburgo.

O Palácio do Catete, que foi sede da presidência da República quando o Rio de Janeiro foi capital federal,
foi de propriedade do Barão de Nova Friburgo, sendo por ele edificado

Em Nova Friburgo até hoje tem-se o hábito de tecer preito ao Barão de Nova Friburgo, o “ilustre” traficante de escravos. As atas da Câmara de Nova Friburgo no século XIX não se cansam de louvar e fazer deferência aos Clemente Pinto pelos benefícios trazidos ao município. Mas pergunta-se, os Clemente Pinto procuravam beneficiar o município ou às suas propriedades? Ora, todas as doações que realizaram para o “aformoseamento” da atual Praça Getúlio Vargas, visavam tão somente beneficiar o seu rico solar que ficava em frente a esse logradouro público. E quanto ao desenvolvimento que a malha ferroviária trouxe a Nova Friburgo graças ao barão e seu filho Bernardo? Certamente o trem trouxe um grande impulso econômico a Nova Friburgo, mas objetivava-se precipuamente o escoamento da produção de café do barão de suas inúmeras fazendas em Cantagalo, barateando o seu custo. Mas o barão não foi o único a auxiliar o município. Cumpre destacar que no século XIX, a receita da Câmara era tão exígua que muitas obras em estradas, pontes e estivas eram realizadas na base da subscrição, ou seja, doação dos fazendeiros locais para as respectivas melhorias na infra-estrutura viária da então vila.
Finalmente, os áulicos do barão gostavam de tecer loas aos seus herdeiros por terem libertado seus escravos antes mesmo da abolição da escravidão. Em 1888, os herdeiros do Barão de Nova Friburgo, às vésperas da abolição, libertaram de forma oportunista, 1.300 escravos. Certamente deveriam ter informações privilegiadas na Corte de que a escravidão seria extinta brevemente. Os Clemente Pinto eram próximos da família imperial que por mais de uma vez se hospedaram em suas propriedades. Sobre esse episódio relata-se que os ex-escravos teriam ficado tão gratos com sua libertação que se recusaram a receber os salários da próxima colheita do café. Os herdeiros do barão receberam honras e títulos do imperador D. Pedro II por esse gesto.
Na verdade, trata-se de uma estratégia que muitos fazendeiros utilizaram libertando seus escravos antecipadamente já que o fim da escravidão era iminente. Com isso, angariavam a simpatia dos libertos que se mantinham nas fazendas ao invés de abandonarem-nas. Stanley Stein em “Grandeza e Decadência do Café”, coloca essa discussão sobre a libertação antecipada entre os fazendeiros de Vassouras no sentido de evitar a evasão dos escravos quando fosse decretado o fim da escravidão. Por fim, gostaria de colocar que a figura do Barão de Nova Friburgo deve ser sempre destacada na história do município, mas na qualidade de um membro da elite de singular importância no progresso da região, já que ele foi o nosso “Mauá”. No entanto, cabe destacar que a origem de sua fortuna foi construída à custa do marchandise humaine, como diziam os suíços. É sempre bom lembrar que por trás daquela figura “benemérita”, cercada de títulos e honras, se encontra um "ilustre" traficante de escravos.
Abaixo, as principais propriedades dos Clemente Pinto em Nova Friburgo, pela ordem: O antigo pavilhão de caça da família(hoje o Sanatório Naval), o solar (tombado pelo patrimônio histórico municipal) e o chalet no Parque São Clemente(hoje pertencente ao Nova Friburgo Country Club)




Visita ao Palácio do Catete do Rio de Janeiro, antiga residência do Barão de Nova Friburgo. Atualmente Museu da República.

GERAÇÃO BENDITA, GERAÇÃO MALDITA: A TURMA DO GALERIA-BAR

Carlos Bini é o segundo, em pé, da direita para a esquerda.
A turma do “Galeria-Bar” tinha mesa cativa no bar da Galeria União. Suas estripulias foram lembradas pelo memorialista Carlos Bini, que era uma espécie de líder do grupo, no livro “A Turma do Galeria-Bar”. Era um grupo de rapazes de classe média, que se reunia quase todas as noites no bar da Galeria União. Depois de se inflarem de bebida alcoólica, pois nenhum deles usava drogas, faziam planos para infernizar a vida dos moradores da cidade nas madrugadas frias de Nova Friburgo. Não faziam o estilo da geração beat, a exemplo de Jack Kerouac. Eram brincadeiras inocentes como bater os sinos da igreja para assustar a população ou ainda roubar lingüiça do açougue com uma vara, aguardando a primeira fornada de pão de uma padaria para comerem pão com liguiça. Sua vida sexual era sádico-burlesca. Promoviam “curras”, ou seja, arrumavam uma mulher que servia sexualmente a todo o grupo num mesmo programa. Após o terceiro, vira “baba de quiabo”, mas para “afogar o ganso” e tirar o “atraso” somente dessa maneira, devido “a falta de mulher naquela época, não tinha jeito”, segundo Bini. Eram geralmente “empregadinhas domésticas”, a exemplo da “Nega Rosa”. Sem perceberem, repetiam as mesmas práticas dos senhores de outrora, que subjugavam as escravas, delas servindo-se sexualmente, valendo-se de sua condição de classe. Mas desde que o mundo é mundo sempre haverá os “bad boys”. Na civilização romana, os filhos de senadores saíam noite adentro pelas ruas de Roma, espancando os transeuntes e embriagando-se.

De tropelia a tropelia, os rapazes da turma do Galeria-Bar eram os donos da noite friburguense, pois na segurança pública havia somente a polícia civil, que possuía apenas um jeep wyllis para ronda e poucos soldados, velhos conhecidos da galera. Segundo Bini, “o entrosamento com a comunidade era calmo, pois havia poucos casos de delitos”. As brincadeiras dos rapazes eram vistas como “coisas de juventude”. A turma participava do “Parlamento Estudantil”, que congregava estudantes de segundo grau do município, e de atividades artísticas como teatro, festivais de música e palestras. Nova Friburgo, uma cidade celeiro no campo da educação, com colégios referência no país, a exemplo do Anchieta e do Colégio Nova Friburgo, irradiava eventos culturais entre os estudantes secundaristas. Havia festivais de teatro, cinema, artesanato, shows de poesia e música no Centro de Artes, com a participação dos friburguenses Egberto Gismonti e Benito Paula. Era o tempo da contracultura provocada pela guerra do Vietnã. Nova Friburgo abrigou a primeira comunidade hipppie do país, localizada em Vargem Alta, e ganhou as páginas da imprensa nacional, um interessante episódio que merece uma matéria à parte. Essa experiência gerou o filme “Geração Bendita” sobre a comunidade hippie em Nova Friburgo, que apesar de ser de qualidade duvidosa, colocou Bini em evidência pela originalidade do tema. Bini produziu ainda com seus amigos dois jornais: “Força Jovem” e o “Jornal de Friburgo”, ambos de vida efêmera, devido a falta de condições econômicas. Mas a geração bendita logo se transformou em geração maldita. Geração maldita porque foi uma geração que vivenciou o golpe militar de 1964, onde a repressão e o patrulhamento ideológico interferia em suas atividades cotidianas. A turma do Galeria-Bar trocou as brincadeiras juvenis pela militância política, promovendo pichações nos muros da cidade com a seguinte frase: “ABAIXO A DITADURA MILITAR”.
Em Nova Friburgo cai o prefeito Vanor Tassara Moreira, considerado comunista e entra o seu vice Heródoto Bento de Melo, que segundo Bini era “considerado homem de direita”. Ainda segundo ele, “O Sanatório Naval em Friburgo era aonde iam os suspeitos de serem contra a ditadura. Várias pessoas foram chamadas a depor e explicar a participação nos movimentos políticos na cidade. Nós, nunca fomos chamados, pois eram tomadas como coisas de estudantes sem grande importância”. Bini passou a ter seus filmes censurados e a poesia de um membro do grupo proibida e ele se perguntava: “Por que os comunistas eram tão perigosos em um país?”

De geração bendita, a geração maldita, dos doces anos verdes da juventude aos duros tempos da repressão e da prisão sem culpa. Consequentemente, a turma do Galeria-Bar amadureceu e trocou a tropelias da juventude pela militância política através de jornais, cinema, poesias, etc. Atualmente, alguns membros já faleceram, mas até hoje a galeria do edifício União continua a ser um espaço de sociabilidade masculina da geração antiga. Podemos mensurar a diferença entre a turma do Galeria-Bar e a geração atual, considerada essa última como individualista, através de suas referências. Para a geração de hoje, o ícone pop é o personagem fictício capitão Nascimento, do filme “Tropa da Elite”. A de outrora, o revolucionário Che Guevara. A diferença é significativa.

Matéria baseada no livro “A Turma do Galeria-Bar”, de Carlos Bini. 2001.





MÚSICAS DE PROTESTO CONTRA A DITADURA MILITAR:




O PAI, A POLÍTICA E A VIDA SOCIAL

Praça que levou o nome do médico Dermebal Barbosa Moreira


Derly Moreira Chaloub nasceu em 1921 e tinha doze anos quando veio residir em Nova Friburgo. Sua família é originária de Conceição de Macabu. Seu pai foi um dos médicos mais cultuados na história de Nova Friburgo: Dr. Dermeval Barbosa Moreira. Falecido em 06 de maio de 1974, aos 74 anos, seu funeral ilustra bem a consideração que gozava junto às classes populares onde concorreram milhares de pessoas. Quando se encontrava na agonia de seus últimos momentos de vida, o povo se aglomerou na Praça Paissandu, em frente ao hospital onde ele se encontrava internado. Sob pressão da população, Derly autorizou, mesmo sofrendo com a agonia de seu pai, que cada popular passasse, um a um, em frente à porta do quarto do Dr. Dermeval para a derradeira despedida. No préstito fúnebre, as enfermeiras foram todas de branco com uma rosa vermelha à mão. Moças jogavam pétalas de rosa sobre o caixão. Muitos até imaginam que Dr. Dermeval exerceu um cargo de vereador ou prefeito no município, mas ele nunca se imiscuiu na política local. Foi o último daquela cepa de médicos que misturava a profissão com o sacerdócio, pois tinha um local e horário para atender gratuitamente aos pobres, uma prática muito comum entre os médicos até o primeiro quartel do século XX. Daí a sua popularidade e ser considerado o “pai dos pobres”.

Poucos sabem, mas quem construiu o prédio que abriga a UERJ foi o Dr. Dermeval juntamente com o seu cunhado, edificando no local, conhecido por Cascata, o Hotel Cassino. No entanto, como o jogo foi proibido no governo Dutra, o prédio virou um elefante branco. Dr. Dermeval então negociou com médicos tisiologistas do Rio de Janeiro para abrigar no Hotel Cassino mais um sanatório para tuberculosos na cidade. Augusto Spinelli, que era vereador, mobilizou a população contra essa venda, posto que Nova Friburgo iria se transformar em uma “cidade sanatório”. Encetou-se então negociações com a Fundação Getúlio Vargas e o prédio acabou virando um estabelecimento de ensino.

Derly Chaloub não tem boas recordações da política. Seu irmão Vanor foi deposto no regime militar acusado de ser comunista. Recorda-se de uma noite em que a diretora da telefônica, que gostava muito do Dr. Dermeval, foi a sua residência e relatou que ouvira uma ligação de uma pessoa importante do gabinete do Dr. Vanor ligar para a Marinha, no Rio de Janeiro, acusando o seu irmão de comunista. Foi ela quem recebeu a denúncia. Era tarde da noite, e não quis incomodar seu pai, mas no dia seguinte, narrou-lhe o fato. Dr. Dermeval foi juntamente com o seu filho, o então prefeito Vanor, ao Sanatório Naval para esclarecerem os fatos e aquela denúncia. Mas as denúncias continuaram e seu irmão perdeu o mandato de prefeito manu militaris.

Quando perguntada sobre a vida social no passado, Derly respondeu que a população de Friburgo era fria como o clima, e que antigamente não acontecia quase nada. Mas quando nos fala de seus anos dourados, percebemos que não era bem assim. Além dos bailes que freqüentava amiúde no Hotel Cassino(já esse hotel era localizado onde é hoje o Edifício União) e do Xadrezinho, Derly participava de uma orquestra de acordeão da cidade. As sessões de cinema e os passeios na praça eram inesquecíveis. Havia um trem que vinha de Porto Novo e passava às nove horas da noite pela praça. Era chamado de “vassourinha”, isso porque quando ele passava, todas as moças “decentes” tinham que ir para casa. Derly ri quando se recorda dos tipos de rua engraçados da cidade: o “Olímpio Errado”, que colocava a frente da calça para trás e o povo gritava: “Olímpio Errado”; ou ainda do “Chandoca” que tocava banjo, muitas vezes, à noite, debaixo de sua janela.
No cinema Leal, antigo Teatro D. Eugênia, com a chegada do verão e das férias escolares, Derly e as Zamith, Braunes, Dutra, Carneiro e Carrapatoso promoviam apresentações teatrais. Ensaiavam umas quatro peças por temporada sob a direção Moacir Peixoto, que era de Friburgo. Os turistas gostavam muito dessas apresentações, “era muito caprichado”, recorda-se. Peixoto trazia do Rio de Janeiro o cenário e o figurino. O grupo participava do concurso de teatro amador no Ginástico Português, no Rio de Janeiro e se apresentava ainda no Teatro Municipal de Niterói. É interessante como desde o final do século XIX, a elite carioca e friburguense tinham no teatro amador, uma de suas formas de sociabilidade. Não se denominavam atrizes, mas “amadoras”. Havia ainda uma orquestra na cidade, orientada por Sérvio Lago, de uma família de músicos, e Derly também tocava na orquestra como pianista. Os músicos também participavam das apresentações teatrais. Em suas memórias, Derly Moreira Chaloub relembra a dor pela perda de muitos familiares queridos. Mas em contrapartida, o sorriso e a alegria no semblante quando se recordou da sua juventude e dos tipos mais ordinários e divertidos do cotidiano da cidade: o Olímpio Errado e o Chandoca.
Texto baseado nas memórias de Derly Moreira Chaloub, entrevistada em 2010.

O VOTO FEMININO: O DESMANTELO DO LAR


Com a proximidade das eleições, os programas de televisão exploram o assunto sob diversas formas. Na semana passada, assistindo a um deles, me surpreendi com a informação de que na Suíça, as mulheres passaram a ter direito ao voto somente em 1971. Vasculhando os meus alfarrábios, encontrei um interessante artigo sobre esse tema. Trata-se de uma crônica de Henrique Zamith, cronista e poeta, que é nome de rua em Nova Friburgo. Apesar de todo o seu liberalismo, pois era a favor do divórcio, quando se trata do voto feminino, demonstra-se contra essa conquista da mulher. No entanto, suas argumentações não sensibilizariam em nada a mulher de hoje. Zamith vivenciou a virada do século XIX para o século XX, e sua opinião talvez reflita a visão de mundo do homem médio dos primeiros decênios do século passado. Quando possuímos duas mulheres candidatas a presidência da república, é curiosa a opinião desse articulista sobre o voto feminino, que estava sendo discutido por ocasião da nova constituição, depois da Revolução de 30. Vejamos a sua crônica que foi publicada no jornal O Nova Friburgo, de 23 de julho de 1931, intitulada “Voto à Mulher”. Assim escreveu Zamith:
“Todas as probabilidades, pelo menos é o que se conclui das entrevistas publicadas ultimamente pelos maiorais da Revolução(refere-se a Revolução de 30), são que na futura constituição, a mulher terá o direito a voto. Os arautos desse direito proclamam alto, em bom som que agora, irá o sexo fraco ter os mesmos direitos que o dito forte, como se as mulheres já não gozassem de todas as prerrogativas concedidas ao homem. De fato temo-las em todas as repartições, temo-las médicas, temo-las advogadas, temo-las comerciantes, farmacêuticas, dentistas, professoras, vendeuses, garçonettes, chaufeuses, etc. Na realidade, só falta a mulher o direito do voto, mas não vejo em que isto lhes venha beneficiar; que proveito e que vantagem possa ela tirar em ser eleitora. Nos arraiais femininos, o assunto é debatido e as opiniões se dividem. Poucas são pelo voto. E não é negócio para a mulher se imiscuir na política, essa megera sem entranhas, que tudo ataca até o que há de mais melindroso e cristalino: a honra. A política é uma choldra; é um verdadeiro labirinto onde se tisnam as reputações mais ilibadas, onde se maculam os caracteres mais formosos e, longe de ser a arte de governar, vem sendo a arte de dividir, a arte de mentir, de iludir, a arte de tapear. Ora, a mulher não tem necessidade de se chafurdar nesse lodaçal, perdendo aquela serenidade, aquela beleza moral que deve presidir todos os atos e todas as suas atitudes. Ela deve se contentar com os direito que tem, porque essa ilusão que a atormenta, da sua apregoada inferioridade é uma balela, é uma tolice inominável. Principalmente na nossa terra ela não existe. Poderá existir em outros países menos civilizados, menos cultos, mas no Brasil não! Na sociedade moderna um não é superior ao outro: São ambos iguais, mas o direito de fazer política, esse deve pertencer ao homem, não havendo por isso desdouro, nem diminuição para a mulher, que se deve colocar muito a cavaleiro das competições, das intrigas e dos ódios que, geralmente, as lutas políticas geram e fomentam. A mulher brasileira é por índole e por educação, a mulher do coração, a mulher do afeto, feita para o carinho, para a nobreza e para a elevação moral. Transformá-la em chefe político ou fazê-la em cabo eleitoral, é tirar-lhe toda a beleza, toda a serenidade, enervá-las, exasperá-la e exaltá-la de tal modo que o lar não mais será o remanso onde deveria estar asilada a felicidade. Esse direito será a morte da felicidade conjugal, para os esposos que a tem. A mulher irá trabalhar contra o marido, em um partido contrário e daí, hão de forçosamente surgir as lutas, as discussões, o indiferentismo, a frialdade, o aborrecimento, o ódio e afinal, para cumulo de todas as desgraças a separação, o desmantelo do lar. Diante disso, que vantagem tirará a mulher com o direito do voto? É uma tola balela, uma ingenuidade santa essa de se pensar que esse direito eleva a mulher, a engrandece e a torna maior! Puro engano! Conceda-lhe essa prerrogativa e lhe tirarão essa auréola dela de respeito, de majestade, de consideração, de dignidade que lhe nimba a fronte e ela perderá essa beleza moral, ante a qual o homem se curva reverente, e que a faz inexcedivelmente bela, grande, majestosa e sublime....”
Com a constituição de 1934, a mulher conquista o direito ao voto, não obstante a objeção de nosso articulista. O que torna interessante essa matéria são as visões de mundo dos nossos antepassados, os quais sempre vale a pena recordar, para compreendermos a história do pensamento humano.

O direito do voto feminino foi aprovado pelo Código Eleitoral Provisório, de 24 de fevereiro de 1932. No entanto, o código permitia apenas que mulheres casadas com autorização do marido, viúvas e solteiras com renda pudessem votar. Tais restrições só foram eliminadas no Código Eleitoral de 1934. Esse código tornou apenas o voto masculino obrigatório mas o feminino só passou a ser obrigatório em 1946.

O IMPACTO DA REVOLUÇÃO DE 30 EM NOVA FRIBURGO



Acima, José Galeano das Neves, líder do movimento revolucionário em Nova Friburgo

Em 03 de outubro, a Revolução de 30 completa oitenta anos. Nova Friburgo tem algo a contar desse importante acontecimento histórico que provocou uma ruptura política das mais impactantes na história nacional. A proclamação da República em 1889, trouxe ao cenário político apenas uma novidade: a centralização do Império deu lugar ao pleno domínio dos fazendeiros no quadro político nacional, fragmentando o poder, que ficou nas mãos das oligarquias locais. A denominada política dos governadores enfraqueceu o Estado e dominou a República Velha até a Revolução de 30. Entre essas oligarquias predominavam os paulistas e os mineiros: o primeiro, pelo fator econômico, a supremacia do café e o segundo por tratar-se do mais populoso Estado da federação, o que mais poderia influenciar nas votações presidenciais.

Os problemas sociais e políticos no país, a insatisfação do exército com as oligarquias rurais, tudo isso gerava fortes tensões na sociedade. Mas quem forneceu a pólvora para eclodir a revolução foi Washington Luis. Ao contrário do que era esperado nas eleições presidenciais, o então presidente não indicou um mineiro para sucedê-lo, como vinham fazendo São Paulo e Minas Gerais se revezando no governo presidencial na denominada política do Café com Leite. Indicou o paulista Júlio Prestes. Getúlio Vargas apoiado por setores descontentes do exército e pelas oligarquias dissidentes fundou o partido da Aliança Liberal, lançando-se candidato. Júlio Prestes foi eleito presidente da república em um quadro de fraude eleitoral, bem característico da República Velha. Em 03 de outubro de 1930, civis e militares(exército) iniciaram a revolução que teria efeito fulminante, terminando no dia 24 daquele mesmo mês. Tomava posse em novembro o novo chefe do governo provisório: Getúlio Vargas. Mas qual foi o impacto da Revolução de 30 em Nova Friburgo?


Galdino do Vale Filho, outrora deputado federal, apoiava o governo de Washington Luis e conseqüentemente o seu indicado Júlio Prestes. No Centro de Documentação D. João VI há dois jornais, A PAZ, do próprio Galdino do Valle e O NOVA FRIBURGO que nos mostra a temperatura política da época. Em A PAZ nos editoriais “O dever dos Fluminenses” (28 de julho); “A candidatura Julio Prestes” (01 de setembro); “Panorama Político” (12 de setembro); “A sucessão presidencial” (13 de outubro); “Que resta, pois a Aliança” (10 de novembro); todos de 1929, Galdino do Valle Filho apóia abertamente Washington Luis. Infelizmente, os jornais do ano da revolução não possuímos.

No entanto, O Jornal, dos diários associados, de 26 de novembro de 1930, nos dá a dimensão de como transcorreu a revolução em Nova Friburgo. Os municípios do Estado do Rio não estavam pela sua situação geográfica e pela desagregação política do partido dominante nos cálculos militares dos revolucionários, nos informa o jornal. Mas em Nova Friburgo uma voz se levantou: a de José Galeano das Neves. Originário de uma das primeiras e mais tradicionais famílias de Nova Friburgo, seu pai e avô participaram da vida política do município desde meados do século XIX. Família oriunda de São João Del Rei, do tronco familiar de Tancredo Neves, o fato de Galeano possuir ligação política com Minas Gerais, pois toda sua parentela mineira era de políticos, colocava os Neves como aliados naturais desse Estado e consequentemente contra a indicação do paulista Júlio Prestes. Afinal, era a vez de Minas Gerais dar um presidente ao país e os Neves eram importantes atores políticos nesse Estado, como são até hoje, a exemplo de Aécio Neves.




De acordo com Galeano “somente com um movimento armado poderíamos sair do descalabro em que vivíamos (...) pensava e disto tenho agora a prova, que o Brasil só se salvaria com uma revolução que sacudisse todo o seu aparelho político administrativo”. Conforme O Jornal, os civis fluminenses surpreenderam os revolucionários, aliando-se aos militares nas ações armadas e articulações políticas. O Partido Democrático Fluminense convidou José Galeano das Neves a organizar em Friburgo “elementos que pegassem em armas quando fosse necessário”. Galeano fora escolhido porque reunia todas as condições para liderar o movimento em Nova Friburgo: Era ligado a Minas Gerais por laços familiares e político; era inimigo ferrenho do legalista Galdino do Vale Filho; homem de posses e líder no município por vir de uma família tradicional de políticos. Mas Galeano era civil e necessitava do apoio de um estrategista militar para coordenar as primeiras ações que denominou de “conspiração friburguense”.

Para tanto, convidou seu amigo de infância Brasiliano Americano Freire, oficial da Escola Militar e afastado de suas funções por ter tomado parte no Levante de 1922, e que oportunamente residia escondido em Friburgo, adotando identidade falsa e dando aula nos colégios locais. Foi o capitão Americano Freire quem auxiliou Galeano e cuidou da logística militar no município. Depois de cooptar um chefe militar procurou um aliado político na figura do advogado Comte Bittencourt.

Na primeira reunião na residência de Galeano ficou decidido que os conspiradores ocupariam Friburgo, contando com seiscentos homens fornecidos pelo coronel Christiano Ribeiro e que deveriam acantonar em Porto Novo. Nesse município iriam se apossar das armas da linha de tiro e danificar, se fosse preciso, as obras da estrada da serra. O capitão Americano Freire marcharia para Porto Novo onde reuniria o contingente de voluntários fluminenses às forças mineiras. Mas essas ações apenas ocorreriam se a revolução tivesse irrompido em 06 de setembro, o que não ocorreu. Galeano das Neves, decepcionado pela revolução ainda não ter eclodido, ficou aguardando ordens em Friburgo para reiniciar as “atividades revolucionárias”. Quando a Revolução irrompeu em 03 de outubro achava-se em sua Fazenda de São Bento e soube do acontecimento apenas dois dias depois devido ao seu isolamento. Os irmãos Sylvio, Carlos e Alberto Braune Filho, o Betinho, que haviam se encarregado do transporte de armamento a Porto Novo, estavam com ordem de prisão decretada pelas autoridades legalistas de Friburgo. Galeano das Neves os escondeu em sua fazenda e dali partiram todos para Porto Novo para engrossarem a coluna de seu amigo o capitão Americano Freire, que já ocupava aquela cidade mineira.

Abaixo, batalhão friburguense revolucionário que lutou em Porto Novo



As cidades de Mar de Espanha, Angustura, Volta Grande e Aventureiro foram, além de Porto Novo, ocupadas pelas tropas friburguenses. Nas proximidades da cidade de Carmo, na Fazenda Boa Esperança, achavam-se algumas centenas de pessoas sob a chefia de Galdino do Valle Filho. Galdino organizara um batalhão de friburguenses e partira para enfrentar os revolucionários na divisa do município de Carmo. O capitão Mury, aliado de Galeano, percebendo que uma força legalista procurava ocupar um ponto em lugar estratégico de Porto Novo, atravessou o rio com a sua coluna e desalojou o adversário após um “áspero combate”, apreendendo metralhadoras, fuzis e fazendo 13 prisioneiros na frente legalista. Galeano das Neves foi incumbido de ocupar em território fluminense a fazenda do Barão do Paraná, assim o fazendo sem que houvesse resistência. Em Friburgo já se encontrava a polícia federal com canhões e com um efetivo de mais de mil homens que pretendiam atacar Porto Novo no dia 26 de outubro.




Acima, batalhão legalista, liderados por Galdino do Valle Filho.
Foto tirada na estação de trem, atual P.M.N.F.

A Revolução de 30 triunfou e se iniciou a caça às bruxas. Galdino do Valle foi preso em outubro do ano seguinte. Foi recolhido inicialmente no Sanatório Naval e depois conduzido a Casa de Detenção do Rio de Janeiro. Nessa ocasião, ficou detido apenas quatro dias. No tocante aos demais partidários de Washington Luis, a exemplo dos Spinelli, ficaram detidos na cadeia da cidade, onde hoje é o Porão do Centro de Arte. Quando as tropas revolucionárias friburguenses chegaram de trem a Nova Friburgo, boa parte da população foi recebê-los na Praça 15 de Novembro(atual Getúlio Vargas). Relembra esse dia a memorialista Yolanda Cavalieri d´Oro: “Quando a revolução triunfou, fomos para a Praça (refere-se a Getúlio Vargas) ver a chegada dos vencedores trazidos no trem. Estava todo mundo na rua, se acotovelando para ver melhor.(...) Lá pelas tantas o povo resolveu destruir a estátua do líder político de Nova Friburgo, o Sr. Galdino do Valle. Ele, que fora sempre venerado por todos, era agora, na fúria da paixão política, vítima do vandalismo desenfreado, comum nessas ocasiões. Quando a estátua rolou do pedestal, apareceu meu tio Dante, mancando e carregando uma bandeira vermelha(símbolo do galdinismo) que colocou triunfalmente no monumento decepado. Palmas delirantes da multidão....” Dante Lívio, revolucionário e conhecido comerciante local, simbolicamente enterrava Galdino do Vale Filho. Galdino foi rotulado de “carcomido”, como ficaram igualmente conhecidos todos aqueles que defenderam Washington Luis. Era o fim de uma era política. Abaixo a chegada vitoriosa dos revolucionários, vindos de Porto Novo, ao centro de Nova Friburgo.




A Revolução de 30 teve forte repercussão em Nova Friburgo por três fatores: primeiro pela sua posição geográfica, próxima da Capital da República, sede do governo federal e palco dos acontecimentos. Segundo pela sua forte relação com o Estado de Minas Gerais, que remonta desde a fundação do município, pois muitos mineiros migraram para Nova Friburgo com quem tinha estreitas relações comerciais. A terceira e principal razão foi o fato de em Nova Friburgo residir um membro aparentado da elite política mineira: Galeano das Neves. Possuindo forte liderança local era o instrumento perfeito para os mineiros revolucionários. Além disso, tradicionalmente sua família sempre fora oposição política ao legalista Galdino do Vale Filho. Galeano das Neves foi o articulador político da insurreição friburguense e ganhou as páginas do jornal carioca. Com isso, colocou Nova Friburgo a cavaleiro na Revolução de 30.


Abaixo, charges da época criticando a política do Café com Leite.




Agradeço a Walther Seng das Neves pelas fontes fornecidas para realização dessa matéria.


Entenda o contexto político da época:














O ABANDONO DA PRAÇA GETÚLIO VARGAS





A Praça Getúlio Vargas foi inicialmente Praça D. João VI, depois Praça Princesa Izabel, por ocasião da visita da princesa a então Vila de Nova Friburgo, no século XIX. Foi ainda Praça 15 de Novembro quando a monarquia foi derrubada e implantou-se o regime republicano. Logo, a monarquia perdeu o trono e a Princesa Izabel deixou de dar nome a praça principal da cidade. Depois da Revolução de 30, o povo friburguense derrubou a estátua de Galdino do Valle Filho, político local, e colocou a de Getúlio Vargas. Consequentemente, Getúlio Vargas passou a dar nome a praça.





Essa praça, cujo projeto inicial foi do famoso arquiteto Glaziou, que servia ao Imperador Pedro II, era local onde se armavam os circos, já abrigou o cinema Leal, já foi velódromo de corridas de bicicleta, enfim é um dos mais importantes espaços de sociabilidade de Nova Friburgo. Em razão de uma infeliz gestão municipal, implantou-se uma rodoviária urbana dentro da praça, prédio esse de aspecto sombrio, sem qualquer valor estético, substituindo-se o verde pelo concreto.





Por sucessivos governos municipais, que remontam há mais de uma década, ela tem sido abandonada e o poder público mal faz a sua manutenção. É comum a população se deparar com ratos a correr entre azaléias ressequidas, os bancos quebrados, enfim, um descaso total em uma praça que originariamente havia sido criada para ter uma função higiênica no coração da cidade.
Daí a minha solidariedade com o chargista Silvério, de A VOZ DA SERRA, em lembrar que a primavera vem aí e a Praça Getúlio Vargas sequer pode nos remeter a tal estação, devido ao seu total estado de abandono.

FAMÍLIA SERTÃ:A DISCRIÇÃO AO DISTRIBUIR MERCÊ





Elisa Sertã

Diz-se que Getúlio Vargas experimentou certa feita, em Petrópolis, algumas frutas e ficou maravilhado. Os pêssegos eram doces e suculentos, de sabor inigualável. O presidente quis saber a sua origem. Eram de Nova Friburgo, produzido por Raul Sertã que cultivava no Sítio Santa Elisa, de sua propriedade, além de pêssego, uva, figo e castanha portuguesa. Desde então, o presidente encomendava sempre os frutos de Friburgo. Mas quem eram os Sertã em Nova Friburgo? A história dessa família se inicia em Nova Friburgo no Século XIX. Antonio Lopes Sertã(1851-1894) português originário da vila Sertã, era mascate, e vinha periodicamente a então Vila de Nova Friburgo carregado de mercadorias em lombo de burro, antes da vinda do trem em 1873. Comercializava seus produtos no Empório do rico português Joaquim Tomé Ferreira, que ocupava quase toda a Rua Gal. Argolo(Alberto Braune). Foi quando se apaixonou pela filha de Ferreira, Elisa(1858-1933), que logo correspondeu ao seu amor e vieram a casar-se constituindo uma família que se tornaria uma das mais tradicionais da cidade. Tiveram seis filhos: Licínio, Mário, Raul, Alfredo, Aníbal, Antonio e Hilda, sendo que os dois últimos morreram precocemente aos 21 e 22 anos, respectivamente. Elisa ficou viúva aos 46 anos, e continuou administrando as atividades da família. Vendeu o Empório, construiu várias casas para transformar em renda os aluguéis, prática tipicamente portuguesa, e segundo a família quadruplicou o patrimônio dos Sertã. Foi fundadora juntamente com Acácio Borges, Castro Nunes, Samuel de Paulo Castro e Henrique Éboli, da Caixa Rural, o primeiro banco de Nova Friburgo. No governo de Gustavo Lira da Silva, prefeito da cidade, emprestou dinheiro para as obras públicas cuja dívida era amortizada no imposto predial.

O solar dos Sertã, localizado na Alberto Braune e construído em 1900, foi edificado com pedras de cantaria mandados vir de Portugal por Antonio Lopes Sertã. Foi construído sobre um terreno que ocupava toda a extensão do lado direito da atual Duque de Caxias, até o Rio Bengalas. Atualmente no local do antigo solar encontra-se o supermercado ABC. Herança do período colonial, os altares eram comuns nas casas-grandes de fazenda porque era lá que se realizavam as missas. Posteriormente, a Igreja proibiu a realização de missas em casas particulares, mas a tradição dos altares nas residências foi mantida. Havia no solar dos Sertã três altares: um no salão principal, trono do Sagrado Coração, e dois no “quarto dos Santos”. Aí se faziam orações diárias pelos antepassados e amigos da família falecidos. Era um tempo em que os mortos eram lembrados e cultuados. Rezavam todas as noites em frente ao oratório. Quando se solicitava aos santos um pedido mais importante, como a cura de uma doença, ajoelhavam sobre o milho, de braços abertos, em sinal penitência. Mas o solar dos Sertã passava do religioso ao profano. Bailes de carnaval, “arrastas” e recepções enchiam de alegria o casarão da Alberto Braune. Anselmo Duarte, o galã do estúdio de cinema Atlântida, quando vinha a Friburgo freqüentava as festas do casarão da família Sertã.

Raul Sertã: Na ponta, a direita.

Os filhos de Antônio e Elisa Sertã que ficaram em Friburgo logo se destacaram. Mário Sertã, médico, inaugurou a primeira Casa de Saúde particular em Friburgo, localizada onde hoje é o Hotel Montanhês. Raul Sertã, além de seus premiadíssimos frutos em exposições agrícolas, trouxe a primeira Companhia Telefônica para a cidade sendo o maior acionista. Mas o que caracterizou a família Sertã foi a caridade e a discrição. O casarão da Madre Roseli de propriedade de Josephina Marques Braga Sertã, casada com Mário Sertã, foi doado para abrigar meninas órfãs e Raul Sertã se ocupou em financiar as obras para adaptar o lindo sobrado residencial para sua nova função. O Nova Friburgo Futebol Clube deve aos Sertã o seu estádio. Fizeram a doação do terreno visando promover o esporte que nascia na cidade no início do século XX: o futebol. Desde o Império passando pela República, o governo limitava a assistência de saúde aos pobres somente com a doação de remédios. Não construíram hospitais públicos até metade do século XX. As Santas Casas de Misericórdia foram criadas para suprir essa deficiência do Estado e acolher os doentes pobres em suas instituições de caridade. Raul Sertã foi quem doou o terreno para a construção da Santa Casa de Misericórdia em Nova Friburgo, cuja manutenção e administração era feita por homens abastados da cidade e a população em geral. A Santa Casa de Misericórdia foi desapropriada no governo de Paulo Azevedo, transformada em hospital municipal e constitui o atual Hospital Raul Sertã. O terreno onde hoje é instalada o Fábrica Ypu foi doado por Elisa a Maximiliam Falk para a construção da fábrica. O pai de Elisa deixou-lhe como herança uma extensa propriedade que ia do atual Bairro Ypu até Theodoro de Oliveira. Elisa soube dividir com a cidade e doou parte do terreno para a instalação da referida fábrica no intuito de promover o progresso em Friburgo. Os Sertã auxiliaram ainda nas obras sociais da Instituição Santa Dorotéia, entre outras.
Elisa Sertã faleceu em 1933, aos 76 anos de idade. Quando da passagem de seu cortejo fúnebre pela rua principal até o jazigo da família, as casas comerciais e residências cerraram as portas e janelas, em sinal de respeito a grande benemérita que auxiliara no progresso e fizera caridade em Nova Friburgo. Dr. Feliciano Costa, quando prefeito, teceu-lhe preito dando-lhe um nome de rua. O que chama a atenção é como as famílias supriam, pelo menos até a primeira metade do século XX, funções e deficiências do Estado, no caso em epígrafe, o município de Nova Friburgo.

O primeiro time de futebol em Friburgo, onde os sertã participavam

O auxílio assistencial a indigentes e órfãos, o fomento da atividade industrial, o financiamento de obras públicas, a promoção de atividades de lazer foram espaços que tiveram que ser preenchidas por particulares. Os Sertã tiveram a generosidade de dividir seu vasto patrimônio com os desvalidos e com o desenvolvimento da cidade. E o que é mais edificante, foi a sua discrição ao distribuir mercê.

Entrevista realizada com Maria do Carmo Sertã Passos, Margarida Sertã Meressi e Lúcia Sertã em julho de 2010.

INDUSTRIALIZAÇÃO E TENSÕES SOCIAIS


Nova Friburgo foi em sua história, um município matizado por diversas cores com imigrantes suíços, alemães, italianos, portugueses, espanhóis e libaneses. No entanto, a partir de 1910, ganhou tons mais fortes da cultura alemã que conduziu Nova Friburgo para uma nova etapa de sua história: a industrialização. Pode-se afirmar que a implantação das indústrias com capital exclusivamente alemão, acarretou a hegemonia dos germanos sobre uma população de perfil ainda indefinido, pois era um município que possuía a tradição de receber colonos e imigrantes, além de uma significativa população flutuante, constituída de veranistas e doentes de tuberculose. Os industriais alemães para garantir o bom funcionamento de suas fábricas, imprimiram a “disciplina” entre a população, visto que a necessidade era a de formar operários industriosos. Julius Arp, Maximiliam Falck e Otto Siems, proprietários das três maiores indústrias como a Rendas Arp, Ypú e Filó, respectivamente, introduziram a cultura da “ordem e disciplina” entre os friburguenses, no estilo ordem e progresso, um precedente no qual esses empresários não abririam mão, já que investiram suas fortunas em Nova Friburgo. Para tanto, criaram o Colégio Rendas Arp, utilizando a mesma pedagogia dos jesuítas no Brasil Colonial, ou seja, formulando a educação dos pais operários por intermédio dos filhos, implementando a disciplina no seu cotidiano. Logo, houve de fato um projeto de cunho ideológico para Nova Friburgo por parte dos industriais alemães.


Acima: populares acompanham as obras da Fábrica Ypú


Richard Ihns foi o mais importante executivo da Fábrica de Rendas Arp, administrando-a no período 1947 a 1997. Enfrentou aquela velha tensão entre capital e trabalho nos anos que antecederam o golpe militar de 1964, onde ocorreram alguns distúrbios na cidade, culminando inclusive com a morte de um operário na Praça Paissandú. Nessa ocasião, os industriais contavam apenas com o Sanatório Naval que enviava fuzileiros navais para manter a ordem pública na cidade. Feliciano Costa, que foi prefeito, que foi prefeito, m morte inclusive de um operario provocou -sr uma imensa tinha uma tendência política de esquerda não esposada pelos industriais da época. O ovo da serpente do comunismo em Friburgo estava entre os funcionários da estrada de ferro.


Transcorridos alguns anos, essas mesmas indústrias estão longe de gerar atualmente os cinco mil empregos diretos de outrora. Richard Ihns vê, no entanto, que deixaram um legado ao município, notadamente a Fábrica Filó, refletida na moda íntima. Entende que se deve desenvolver o turismo, criar eventos permanentes a exemplo de exposições de flores, produtos agrícolas, competições como a de motociclistas e construir um centro de convenções. Para Richard Ihns, Friburgo hoje não é mais uma cidade para abrigar grandes complexos industriais. As indústrias de Friburgo deveriam ser do tipo especializadas, de alta tecnologia e que exija mão de obra técnica e de pequena monta, a exemplo da fábrica de ampola de raio x, que já estivera em Friburgo, ou de aparelhos eletrônicos, mas em pequena escala. Depois dessa mudança de paradigmas pergunto quem mudou, o executivo que administrou uma grande indústria por meio século, ou foi Nova Friburgo? Richard Ihns responde: “Novos tempos”. Enfatiza que a vocação de Friburgo atualmente é para pequenas empresas com alta tecnologia.

Em 2011, a Rendas Arp completará o seu centenário e nos anos seguintes, igualmente, as outras indústrias. Julius Arp, primus inter pares, Maximiliam Falck e Otto Siems foram comparados, no passado, à Santíssima Trindade, a Trindade Teutônica, por terem gerado milhares de empregos em Nova Friburgo. Recordemos, foi Julius Arp quem trouxe a energia elétrica ao município. Quem não se recorda do barulho dos tamancos dos operários, no passado, cruzando a cidade desde às 5:00 horas da manhã? A dialética do capital e do trabalho, do burguês e do operário é um período conturbado da história do município, até porque o golpe militar de 1964 agravou ainda mais as tensões entre as classes sociais. Quem quiser se aventurar em pesquisar esse período da história de Friburgo, deve fazer como nos recomenda Richard Ihns: “Diga a verdade e saia correndo.”
Fonte: Entrevista realizada com Richard Ihns em 2010.

Laura Milheiro: Uma personalidade cambiante entre a doce Tia Laura e aguerrida Dama de Ferro




Brevemente, a Câmara Municipal de Nova Friburgo irá homenagear Laura Milheiro de Freitas, dando-lhe o nome de sua tribuna. Muitos desconhecem sua história em Friburgo e vale a pena recordar sua trajetória na vida pública. Nascida em 13 de abril de 1913 e filha de uma numerosa família de imigrantes portugueses, Laura Milheiro é carioca de nascimento. Veio para Friburgo em 1942, quando tinha 29 anos acompanhando seu marido, Augusto Souza Freitas, oficial da Marinha, transferido para o Sanatório Naval. Como seu marido padecia de uma doença crônica dos pulmões, o clima de Friburgo lhe foi recomendado por médicos à época, ocasionando sua transferência para aquele estabelecimento. O fato de ter apenas uma filha, Lídia Milheiro de Freitas Chaves, deu a Laura Milheiro tempo suficiente para se dedicar às ações sociais, atividade que já realizava desde o Rio de Janeiro, quando auxiliava sua mãe. Nos últimos anos de sua vida, as definições sobre a militante política Laura Milheiro são um verdadeiro paradoxo: de doce e terna “Tia Laura”, como era conhecida pelas classes populares, a “dama de ferro”, assim descrita por correligionários e adversários políticos. Mas como iniciou sua trajetória política?

Tudo começou quando o médico da Marinha, Dr. Silva Araújo, amigo da família, atendia às pessoas pobres a seu pedido, gratuitamente, quando Laura já se dedicava às ações sociais em Friburgo. Dr. Silva Araújo se candidatou ao cargo de vereador e como sempre atendia “aos seus doentinhos pobres”, Laura se sentiu na obrigação de trabalhar para ele em sua campanha. Foi eleito e quando terminou seu mandato incentivou-a a se candidatar, pois como vereadora teria mais instrumento para suas ações sociais. Como por trás de uma grande mulher existe um grande companheiro, foi incentivada por seu marido e assim entrou para a política, tendo uma carreira meteórica. Foi vereadora por quatro mandatos, presidente da Câmara, sendo a primeira mulher a exercer o cargo de vereador no Estado do Rio. Assumiu ainda a função de prefeita durante 40 dias, em substituição a Amâncio Mário Azevedo, que viajara para a Alemanha.

De acordo com as memórias de sua neta, Ana Luiza Milheiro, Laura Milheiro via na função pública uma atividade em que não poderia haver ganhos pessoais. Recusou do então governador Roberto Silveira um cartório e deixou de se candidatar ao cargo de vereador quando a função passou a ser remunerada. Discordava que um vereador tivesse vencimentos. Desde que a Câmara Municipal foi instituída em Friburgo, em 1820, os vereadores não recebiam salários. Davam a sua contribuição pessoal a administração da cidade, sem possuir ordenados, sendo eleitos em razão da notória capacidade em suas atividades privadas.

Laura Milheiro foi uma daquelas mulheres que estava além de seu tempo. Enquanto na sua geração, as mulheres de classe média, eram “do Lar”, cuidando da casa, dos filhos e servindo ao marido, Laura foi uma militante política. Mas não havia preconceito àquela época? Certamente que sim, mas Laura superou esta questão. Segundo as memórias de sua neta, como sua avó era uma mulher muito bonita, as esposas dos correligionários sentiam muito ciúme dela. Astuta, Laura visitava as casas destes políticos, fazia amizade com suas esposas e assim angariou a simpatias das ciumentas, revertendo o quadro. Quando os maridos diziam que iam a reunião política, perguntavam se Dona Laura estaria presente, pois se ela estivesse, é sinal de que havia de fato reunião e não uma desculpa para suas “saidinhas”.
No campo das ações sociais fundou o Serviço de Assistência Social Evangélica(SASE), o núcleo da Legião da Boa vontade (LBV) em Friburgo, o Abrigo Betel para idosos e menores desamparados, o Instituto de Assistência de Proteção aos Cegos e a Casa das Meninas do Abrigo Amor a Jesus. Foi ainda presidente do Serviço de Proteção, Educação e Ajustamento da Criança(SPEAC) e presidente da Comissão Municipal da Legião Brasileira de Assistência(LBA), fora os postos de saúde que trazia para as comunidades carentes. É exaustivo enumerar as diversas funções que Laura Milheiro exerceu na vida pública. Mesmo contando com o apoio de diversas pessoas na criação destas instituições, Laura Milheiro era de fato a timoneira destes projetos, já que assistência social sempre fora a sua missão.
Já no executivo municipal, exerceu funções públicas no governo de Amâncio de Azevedo, Alencar Barroso, Paulo Azevedo e Nelci da Silva. Pertencia aos quadros da comissão executiva do PTB, depois do MDB, futuramente PMDB, sendo que até o final de sua vida, mesmo afastada das funções públicas, foi sempre procurada por políticos que lhe pediam aconselhamento. Não havia candidato que não passasse pelo “beija mão” de Laura Milheiro. No plano estadual participou do Movimento Popular de Alfabetização (MPA) no governo Roberto Silveira(PTB), onde tinha bastante trânsito e simpatias do governador, pois fizera aguerrida campanha em 1958, pela sua eleição. Laura Milheiro passou a ter a partir de então grande poder político e liderança na região, pedindo nada menos ao governador Roberto Silveira que transformasse Friburgo em capital do Estado do Rio. Ao que parece, o governo chegou sinalizar esta possibilidade: “...Senhor Governador, o povo vê hoje a concretização de um sonho que acalentava há anos, Friburgo tornar-se a capital do Estado...”. De fato, no final do século XIX, Friburgo disputou com Petrópolis e Campos o lugar de capital do Estado, mas Petrópolis acabou ganhando, se tornando capital, ainda que por um período efêmero.


Laura, como membro do PTB, sempre tecia preito a figura de Getúlio Vargas, que segundo ela, era um missionário. Pessoa muito religiosa, misturava sempre em seus discursos política com religião, como foi o caso de colocar os ideais da Revolução Francesa nas palavras de Jesus: “...Fazia-se mister o desmoronamento das castas nobres opressoras, para que a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade pregadas por Jesus pudessem entrar no mundo”. Militante, iniciava sua correspondência com a frase: “Saudações Trabalhistas!”.
Em sua correspondência com o governado Badger da Silveira, em agosto de 1963, Laura Milheiro se mostra como uma mulher ousada desafiando um delegado de polícia, onde fez campanha pela sua exoneração. Naquela época os delegados eram nomeados pelo governador. Acusou-o de conivência com marginais e de explorar a jogatina e o lenocínio na cidade. Em todos os ofícios, a assinatura de Laura era sempre a primeira.

Laura Milheiro se envolvia em tudo. Capacitação de mulheres operárias, tornando-as assim “ajudadora no lar”, amparo a maternidade, a infância, aos desvalidos e enfermos. Percebe-se sua preocupação sempre com a periferia da cidade e a zona rural. Somente mais de meio século depois que Laura Milheiro ingressou na vida pública é que vão surgir em Friburgo as primeiras mulheres candidatas aos cargos de vereador e prefeito, o que demonstra o seu vanguardismo à época. Chegou a ser candidata a prefeita, porém não logrou êxito, e seu santinho dizia: “um coração a serviço do povo, eficiência comprovada, realizações indiscutíveis”. Sua neta Ana Luiza se recorda que ela se sentia decepcionada com a política nos últimos anos de sua vida, tendo falecido em 22 de fevereiro de 2007. Não era para menos. A política mudou muito, os partidos se tornaram legendas de aluguel e como Laura Milheiro sempre manteve uma coerência política, uma ideologia linear, não poderia mesmo se adaptar aos novos ventos e práticas políticas.

Laura tinha como sua grande referência na política a figura de Getúlio Vargas e se sentia legatária e responsável em cumprir à risca o que Getúlio deixara em sua carta testamento quando de seu suicídio. A Câmara foi muito feliz em indicar o nome de Laura Milheiro para sua tribuna. A oratória sempre foi a sua característica mais marcante. Por isso, deixo o leitor com a íntegra do seu discurso quando da inauguração da estátua de Getúlio Vargas, outrora Praça 15 de Novembro, para conhecermos melhor o pensamento político de uma mulher cuja personalidade é cambiante da doce “Tia Laura” a aguerrida “dama de ferro”.


Exmo.Sr. Almirante Amaral Peixoto; Exmo. Sr. deputado Salo Branol, representante do Exmo. Sr. governador; Sr. deputado Dante Laginestra; Exmo. Sr. Prefeito e Vice-prefeito e demais autoridades presentes; meus senhores e minhas senhoras:

Com os olhos marejados de lágrimas pela saudade, venho de público trazer a minha singela cooperação a esta tocante cerimônia, onde estamos prestando o nosso preito de gratidão, pelo muito que recebemos do grande e inesquecível vulto do insigne brasileiro que foi o ex-presidente Getúlio Vargas.

Não me era possível silenciar, pois como vereadora do Partido Trabalhista Brasileiro(...) é com lágrimas nos olhos e o coração ferido pelo desaparecimento prematuro do defensor do direito do pobre e do desprotegido da sorte, para quem reservou os últimos pensamentos e a quem tanto ainda desejava ajudar, que hoje prestamos esta homenagem póstuma, pois de vindo fora, receberia as mais vivas demonstrações de reconhecimento e gratidão dos verdadeiros getulistas deste grande Brasil, estivesse ele onde estivesse.

Só quem sem paixão, com o coração sereno, contempla a obra deste grande estadista, pode ver o quanto fez pela nossa querida pátria, dando-lhe a melhor da lei trabalhista.

Ao ver a situação aflitiva do trabalhador, debatendo-se este com a miséria no lar, quando a enfermidade batia à sua porta, vivam os trabalhadores na mais completa desorganização, sem um objetivo, sem um ideal. Faltava-lhes a necessária compensação e com ela o desejo de progredir.
Quantas vezes o operário cumpria o seu dever sob as agruras da fome, sentindo no trabalho, a ressoar aos ouvidos as lamentações dos filhos famintos que ficaram no lar sem conforto, e da esposa a solicitar-lhe o necessário para a sobrevivência dos seus. Os seus filhos eram criados como seres irracionais, sentindo desde os primeiros instantes de vida as privações do lar proletário.

Nos dias de hoje, as reivindicações dos trabalhadores encontram acolhida e são estudadas pelos órgãos competentes do Ministério do Trabalho.
O sempre lembrado presidente Vargas é hoje o ídolo do operário nacional, porque organizou o trabalho, criou a justiça, deu valor ao trabalhador e sobretudo disciplinou as classes, dando-lhes participação na ordem política e administrativa do país, conferindo-lhes assim o gozo de viver com ideal.

Muito poderia falar enumerando todos os empreendimentos do grande presidente, em prol dos operários e trabalhadores em geral.
As gerações futuras, provindas dos trabalhadores do Brasil, hão de ser gratas ao destino que em boa hora fez surgir na vida pública a personalidade de Getúlio Vargas. E o Brasil lhe será credor de tão sublimes empreendimentos.
Há dez anos passados, já escrevia o escritor patrício, Mozart da Gama: “O Brasil, grande entre os maiores, há de ter perpetuada em bronze, para conhecimento das gerações futuras, o vulto de um filho que o conduziu a glória e ao esplendor.” A profecia cumpriu-se em nossa cidade, ao ser inaugurado hoje este belo monumento.

Getúlio Vargas, os brasileiros que comungam dos mesmos ideais pelos quais sempre lutastes, continuarão a obra que iniciaste, e aqui, junto a tua pessoa, perpetuada neste bronze, renovarão os propósitos de continuar a obra que não te deixaram realizar, de tornar a nossa querida Pátria amada e respeitada por todos nós.
(Discurso proferido em 19 de abril de 1955, por ocasião da inauguração da estátua de Getúlio Vargas, na praça que lhe deu o nome, por Laura Milheiro Freitas)

Fonte: Acervo particular de Ana Luiza Milheiro de Freitas.



Sobre o Vídeo: Carta-Testamento de Getúlio Vargas.
Segunda-feira, dia 24 de agosto, dia dramático. em que Getúlio Vargas, com um tiro no próprio coração, deteve o golpe de direita que estava em marcha e que, afinal, viria dez anos depois. A conspiração golpista, liderada pela UDN, sem poder atacar Getúlio, construiu sobre seus auxiliares e familiares a história de um mar de lama.

O atentado que matou o major Rubens Vaz, segurança de Carlos Lacerda, desencadeou uma ação arbitrária de setor militares ligados à direita que subverteram a investigação legal do incidente e a transformaram num atrabiliário inquérito que ficou conhecido como a República do Galeão.

Getúlio jamais obstaculizou qualquer investigação. Aos 72 anos, cercado de auxiliares vacilantes e com fraco apoio militar, sabia que já não teria como resistir aos golpistas pela via política.

Usou, então, uma arma mutio mais potente que o pequeno revólver Smith &Wesson, calibre 32, do qual partiu a bala que feriu de mortalmente seu coração. Usou a própria morte como arma da democracia e saiu da vida para entrar na história.

Sua Carta-Testamento, talvez o mais marcante documento da História do Brasil, é famosa, mas pouco conhecida. Fui achar o áudio de uma leitura dela não aqui, no Brasil, mas nas fonotecas de duas universidades, uma de Caracas, na Venezuela, e outra de Santo Domingo, na república Dominicana.



INSTITUTO COLEGIAL FREESE- A FORMAÇÃO DA ELITE POLÍTICA DO IMPÉRIO


Vista dos fundos do Instituto Colegial Freese. 01/07/1843.

Quando o naturalista alemão Hermann Burmeister visitou Nova Friburgo, em 1851, se impressionou que uma vila tão pacata tivesse um estabelecimento educacional de alto nível, “à altura dos melhores existentes no país”. Tratava-se do Instituto Colegial Freese, do inglês John Henry Freese, fundado em 01 de julho 1841, outrora Instituto de Nova Friburgo, que formou a elite política e profissionais liberais do Império. Depois de terminada a educação lá encetada, muitos ex-alunos do Instituto Colegial Freese ocuparam eminente posição na política, tornando-se deputados e senadores do Império e outros se destacaram “nas letras” e na carreira militar. Casimiro de Abreu estudou no Instituto Freese, dos 11 aos 13 anos(1849-1852), onde recebeu instrução primária. Tschudi referiu-se também ao Instituto Colegial Freese, ao seu ensino musical e a outro estabelecimento que lhe seguiu, o Colégio São Vicente de Paula, cujo fundador era o pedagogo alemão Barão Tautphaeus.

O colégio situava-se na Rua do Colégio, atual Rua Monsenhor Miranda, onde hoje funciona a Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia. Foi posteriormente vendido ao Coronel Galiano Emílo das Neves e a Cristovão Vieira de Freitas, mas o Prof. John Freese continuou como professor do colégio. O estabelecimento de ensino foi fundado pelo Prof. Freese com o nome original de Instituto Collegial de Nova Friburgo. Após a compra por Galiano das Neves e Christovam de Freitas, como preito de admiração ao fundador e antigo proprietário, mudaram o nome para Instituto Colegial Freese. Muitos educadores do afamado Colégio Pedro II foram cooptados para dar aula no Instituto Colegial Freese. Curiosamente, foi vendido ao Dr. Carlos Éboli, para se transformar em um estabelecimento hidroterápico, que recebia pacientes de todo o país para tratamento medicinal à base de hidroterapia. Digo curiosamente, pois saúde e educação sempre foi uma simbiose perfeita na economia da cidade. O Instituto Colegial Freese era amplo, arejado, dispondo de grande pátio para recreio dos alunos, grandes alojamentos para dormitórios, salas de aulas, salas de estudo, sala para exames, refeitório, oratório e uma “rica biblioteca” que impressionou o visitante. Hermann Burmeister relatara que o Instituto Colegial Freese não ficava a dever nada, quanto às instalações, às suas congêneres européias. Durante sua estada em Friburgo, o colégio, que já tivera outrora 80 alunos, contava então com 60, pois a instalação de outro instituto semelhante em Petrópolis fizera com que sua freqüência diminuísse.

As matérias ministradas eram português, grego, latim, inglês, francês, alemão, religião, aritmética, álgebra, filosofia, retórica, geografia, história geral, história natural, física, astronomia geral, desenho, contabilidade, cálculo e música. Abaixo a logomarca do Colégio Freese. Observar nas bordas os símbolos representando cada uma das matérias ministradas nesse estabelecimento de ensino.

Um dos seus diretores, o Coronel Galiano, era um erudito e apreciador de música, formando uma banda no colégio. A Campesina, cujo fundador foi o Major Augusto Marques Braga, enteado de Galiano, tinha os instrumentos gravados com as iniciais C.F., de Colégio Freese, provavelmente uma doação do Coronel Galiano.
Além de ser um estabelecimento de ensino considerado semelhante aos melhores colégios europeus, o clima sadio de Friburgo motivava também os pais a matricularem seus filhos neste colégio. Funcionando em regime de internato, as mães observavam que seus filhos quando retornavam ao lar durante as férias de final de ano, encontravam-se saudáveis e vigorosos. Uma mãe que residia na Corte, e teve três filhos matriculados no Instituto Colegial Freese, observou o bom resultado obtido pelos meninos quanto à saúde. Segundo um relato, “todos gozavam saúde, e José, o mais velho, por ser um pouco fraco e adoentado, foi o que mais lucrou com o magnífico clima do lugar.” Em razão disso, fez toda a formação de seus filhos no Instituto Colegial Freese. Mas como era a viagem destes estudantes a Friburgo? Partindo do Rio de Janeiro, tomavam eles, na Prainha, a barca que atravessava a baía, conduzindo-os até Villa Nova. Daí tomavam “carros” até a estação da estrada de ferro seguindo, pela via férrea até a raiz da serra do Morro Queimado. Neste ponto, deveriam galgar, a cavalo, serra acima até chegar a Friburgo. Ainda não havia o trem entre Cachoeiras e Friburgo, cujo trecho só seria inaugurado em 18 de dezembro de 1873. No mês de novembro, época das férias, quando os alunos regressavam aos seus lares, faziam a viagem de retorno em companhia do Coronel Galiano, que pessoalmente acompanhava os seus discípulos para a Corte, a fim de prestar exames na “Instrução Pública” e entregá-los aos seus pais. Finalizando, a lembrança do Instituto Colegial Freese, serve apenas para destacar um estabelecimento que foi um dos precursores de uma futura geração de colégios que iriam colocar Friburgo como uma referência em ensino, tanto no período imperial quanto republicano, na história da educação do Brasil.

Crédito das Fotos: Acervo pessoal da família Seng das Neves.

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