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UMA CIDADE COSMOPOLITA - Um Inquérito sobre Nova Friburgo – Parte I

Cidade de Nova Friburgo - 1940






Hotel Engert e abaixo o salão do hotel.




No século XIX, surgiu a imprensa. Além do noticiário e da literatura, nasce a crônica e consequentemente, a figura do cronista. Muitos deles, ao invés de comentar os assuntos políticos, voltaram-se para a descrição de situações do cotidiano. Flanavam pela cidade, observavam os acontecimentos do dia, retornavam à redação e narravam o que presenciavam. Muitos descreviam suas impressões de viagem. E nesse último caso, foi graças a Arthur Guimarães, que publicou suas crônicas no livro “Um Inquérito Social em Nova Friburgo”, nos idos de 1916, que podemos conhecer um pouco sobre o município nessa época. Foi um período importante na história de Nova Friburgo.






Há cinco anos haviam se instalado as primeiras indústrias no município, e se por um lado parecia ter trazido desenvolvimento, por outro, problemas sociais. O deslocamento do campo para a cidade e a migração para Nova Friburgo, de acordo com o relato do cronista, originara um significativo contingente de população miserável, atraídos, possivelmente, pelo grande afluxo de turistas e notadamente devido à instalação das indústrias. Esta série compreenderá cinco capítulos em que conheceremos o perfil da população, o comércio, a indústria, a agricultura, sua vida material, enfim, o cotidiano do friburguense no início do século XX, pela lente desse cronista. Arthur Guimarães assim escreveu:


“Tem toda a razão o Sr. Alberto de Torres quando em seus notáveis escritos, assina que nenhum outro país pode, talvez, como no nosso, realizar o tipo de sociedade política cosmopolita. Nova Friburgo, a formosa cidade serrana situada na Serra dos Órgãos, a 880 metros acima do nível do mar, confirma o acerto. Nela existem e votam cidadãos de origens e raças diferentes[aqui ele quer ser referir mais às nacionalidades], perfeita e legalmente incorporados ao meio e à nossa pátria. Na vereança tiveram e têm assento alemães, suíços, franceses, portugueses, italianos e espanhóis. O alistamento eleitoral é composto de turcos [libaneses], dinamarqueses, ingleses e holandeses. Nos cargos públicos figuram, igualmente, portugueses, espanhóis e italianos. Em todos os ramos da atividade humana, ei-los representados, senão em troncos [os primeiros imigrantes], ao menos nas descendências.(...) É ordeira, não há dúvida, a população friburguense e, na sua generalidade, honesta. Não há roubos, senão esporádicos, cometidos por adventícios. Os crimes são espaçadíssimos. Poucas rixas, de taponas e ponta-pés, de raivas e de dores passageiras. Mas em compensação há bate bocas tremendos nos bancos da Praça Quinze [atual Praça Getúlio Vargas], por questões partidárias, prenhes de ameaças, descomposturas e esconjuros. A política empolga, agita, absorve, quer a elite da terra, quer os seus satélites.(...)No auge da luta, quase todos perdem a compostura, salvo honrosas exceções, pondo máscaras, como os carnavalescos, para dançar a tarantela costumeira na folia partidária. (...) Numa cidade de seis a oito mil almas [aqui refere-se à população do centro da cidade], como Friburgo, há três folhas hebdomadárias [jornais], retintamente partidárias, quando poderiam existir só duas, uma diária e noticiosa. As fraudes eleitorais são cometidas à luz meridiana. Só encontram esfarrapada desculpa no serem miniatura das feitas nos grandes centros. Exemplo do alto. E fraco consolo é saber-se que, em todos os tempos, mais ou menos, o mal lavrou os nossos arraiais políticos.(...)
Florescem criações admiráveis. A nossa falta de persistência deixou-as morrer. Assim, a criação desse estabelecimento hidroterápico, fundado e dirigido por ilustre médico, o Dr. Eboli[refere-se ao Instituto Hidroterápico que faliu em 1895, dez depois do falecimento de Eboli]. A tradição só recolheu duas coisas: um grande edifício, com pequena parte dos aparelhos hidroterápicos, hoje servindo de colégio das Irmãs Doroteias, para meninas (internato) e uma inscrição, em pedra mármore, na face externa da parede, correspondente ao local das duchas, assim concebida: ‘Ao benemérito italiano Dr. Carlos Eboli, fundador deste estabelecimento hidroterápico, 1881-1884. Obra de seu saber, fonte de vida, renome e glória de Nova Friburgo. Homenagem de seus admiradores. 25 de junho de 1909.’ (...) Na seção hidroterápica do formulário de Chenoviz (17° edição), há uma descrição completa do estabelecimento, do Hotel Central, com 180 cômodos, e todos os elementos de bem estar e conforto, além de dados climatérios e atmosféricos, abonadores da privilegiada montanha. Na fachada lateral figuram ainda, em pintura desbotada, estas palavras melancólicas: Hotel Central – Duchas. Nada mais recorda o criador e sua inteligente iniciativa. (...) E onde se tratavam saúdes
de adultos, onde estivera a vida, a instrução trata almas de crianças.




Instituto Sanitário Hidroterápico e Hotel Central em Nova Friburgo




Outros estabelecimentos seletos desse período áureo merecem menção. O Colégio Freese, o Liceu de Humanidades e o Chateau, este fundado pelo barão de S. Valentim, naturalmente no edifício municipal em que, outrora, se hospedara o Imperador, desapareceram. (...) Ressurgiu no local do Chateau, o Colégio Anchieta, hoje monumento grandioso. Onde fora plantado pequeno arbusto, surgiu frondosa árvore. Onde se curou do corpo enfermo, trata-se hoje do corpo são e juvenil. (...) Qual o viver do povo? Simples, calmo descansado. Algumas vezes, os veranistas perturbam-lhe o doce viver. Perturbação compensada pelos lucros espalhados pela terra. Os hotéis, em número de cinco, Friburguense, Leuenroth, Engert, Salusse e Pensão Central, regurgitam no verão, de novembro a maio.


As barbearias, as cocheiras, as casas de alugar bicicleta, os cinemas, o rink, o teatro, acusam dobrada e tripla frequência nesse tempo do ano. Também os proprietários lucram, alugando casas por preços mais elevados e os caros e as bicicletas circulam, de manhã à noite...”


Segunda parte: “Os Bas-Fonds friburguenses”.
















A Hidroterapia: A cura pela água

Abaixo, imagens do antigo Estabelecimento de Hidroterapia e do Hotel Central. Atualmente, Colégio N. S. das Dores.










Vincenzi Priessnitzovi(1799-1851)



Abaixo: fotos da estação de águas de Caxambu - MG


















Abaixo, estação das águas de São Lourenço - MG




A hidroterapia, terapêutica pela água fria, já era conhecida e empregada nos séculos passados. Deve-se a Eduard Hallmann (1813-1855), de Hanover, Alemanha, o estudo científico da hidroterapia. No entanto, como método baseado em princípios racionais e científicos foi adotada pela primeira vez no século XIX, na Europa, por Vincenzi Priessnitzovi(1799-1851). Priessnitzovi nasceu em Gräfenberg, que atualmente faz parte da República Checa. Em 1827, fundou um estabelecimento hospitalar destinado ao tratamento de doenças crônicas onde a água fria era a única terapêutica adotada. Priessnitzovi encontrou adeptos em várias partes do mundo e o método terapêutico da hidroterapia ficou conhecido e praticado em toda a Europa e fora dela. No livro Meine Wasserkur “Meu Tratamento pela Água”, publicado em 1887, pelo clérigo Sebastian Kneipp, o sacerdote alemão ensinou que a água fornecia à força vital humana elementos de combate a diversas enfermidades, tais como bronquites, reumatismo, neurastenia, etc. A terapêutica hídrica encontrou adeptos principalmente entre os pacientes das classes abastadas. No Brasil, um dos primeiros e principais prosélitos foi o dr. Antônio Ildefonso Gomes(1794-1859), cirurgião, estudioso de botânica e tão devotado ao sistema que até ganhou, no Rio de Janeiro, o cognome de “Doutor da água fria”. Publicou em 1848, o seguinte trabalho: “Manual de hidro-sudo-terapia ou diretório para qualquer pessoa em sua casa curar-se de uma grande parte das enfermidades que afligem o corpo humano, não empregando outros meios que suar, água fria, regime e exercício.”


Em Nova Friburgo, podemos atribuir a Gustavo Leuenroth, ex-mercenário alemão, a primeira “Casa de Banhos” em meados do século XIX. Com a hidroterapia preconizada por conceituados médicos nacionais e estrangeiros, possuindo uma base científica, apoiado por políticos e tendo como clientela as classes abastadas, era natural que se expandisse. Em Petrópolis, o francês Antonie Court instalou, em 1877, o Imperial Estabelecimento Hidroterápico, que o Imperador Pedro II frequentava amiúde. Já em Nova Friburgo, foi um italiano, natural de Nápolis, quem trouxe as qualidades terapêuticas da hidroterapia para a então vila. Tratava-se de Carlos Eboli(1832-1885), médico formado em 1856, pela Faculdade de Paris, sócio correspondente da Imperial Academia de Medicina. Eboli edificou, em Nova Friburgo, o que seria considerado o maior estabelecimento de hidroterapia da América Latina: o Estabelecimento Sanitário Hidroterápico.


Em 1872, inaugurou esse estabelecimento em sociedade com o médico Fortunato Correia de Azevedo. Utilizava as denominações de Casa de Saúde, Casa de Duchas, Casa de Banhos e como vimos, Estabelecimento Sanitário Hidroterápico. Não bastasse a ousadia de seu projeto, Eboli nos legou o lindo prédio em estilo neoclássico que é o Colégio N.S. das Dores. Nesse exato local, funcionava o Hotel Central, que na realidade, era o prédio principal, tendo como anexo o Estabelecimento Hidroterápico. O hotel possuía acomodações para 180 hóspedes. O Estabelecimento Hidroterápico tinha um escritório na Rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, onde os clientes poderiam ter uma consulta com o Dr. Ribeiro de Almeida e obter igualmente informações sobre a hidroterapia. Foi o primeiro prédio na cidade a utilizar luz elétrica, isso quando a eletricidade só chegaria a Nova Friburgo mais de 30 anos depois. Um investimento de tal monta na então pacata vila de Nova Friburgo devia-se ao fato de o município já possuir notoriedade em relação às suas qualidades climáticas, salubridade e possivelmente fartos e notáveis mananciais de água, pois, do contrário, não se justificaria um estabelecimento de hidroterapia. Clima e saúde, eis um paradigma no inconsciente coletivo oitocentista. A hidroterapia era preconizada para a cura dos que sofriam de enfraquecimentos, dispepsias, moléstias nervosas, tuberculose, beribéri, reumatismo, bronquite e outras moléstias. O tratamento à base de hidroterapia, associada às qualidades do clima de Nova Friburgo, atraiu uma chusma de enfermos e turistas à cidade, sendo o mais ilustre de todos, o imperador D. Pedro II e a Princesa Isabel, que procurou a hidroterapia para se curar de sua suposta infertilidade.


Carlos Eboli faleceu em 1885, aos 53 anos de idade e, desde então, o estabelecimento passa a enfrentar dificuldades financeiras mesmo com a administração de novos sócios. A Marinha do Brasil pretendeu adquirir esse prédio, pois já fazia uso da hidroterapia para a cura de seus marujos vítimas do beribéri. No entanto, Rui Barbosa, que era frequentador habituè em Nova Friburgo, solidarizou-se aos friburguenses que não desejavam um “centro de peste” na cidade salubre e advogou contra tal aquisição. No entanto, em 1895, dez anos após a morte de seu timoneiro, Carlos Eboli, o Estabelecimento Hidroterápico e o Hotel Central entram em processo de falência e são penhorados pelo Banco Comercial do Rio de Janeiro, através de uma Ação Hipotecária. Como sabemos, hoje pertence à Irmandade de N. S. das Dores, que manteve apenas o prédio do hotel. A hidroterapia faz parte de uma importante fase da história da medicina no mundo, em que se atribuía a cura de diversas doenças à utilização desse método, numa época em que a ciência médica dava os seus primeiros passos. E Nova Friburgo pode se orgulhar de ter escrito um capítulo dessa importante parte da história da medicina.

AGUAS QUE CURAM


Na segunda metade do século XIX, a elite brasileira passou a procurar as estâncias hidrominerais e termais de Vichy, na França, e Baden-Baden na Alemanha. Descobertas no Brasil a partir do século XVIII, as “caldas”, ou seja, águas quentes, termais, e igualmente as águas minerais, passaram a ser utilizadas por doentes desenganados e enfermos de todas as doenças, buscando-se sítios onde existiam águas tidas não só como milagrosas, mas principalmente, como possuidoras de virtudes medicinais. Em Minas Gerais, “Lagoa Santa”, no Vale do Rio das Velhas, atraía centenas de enfermos que tanto tomavam suas águas como nela se banhavam, devido aos relatos de qualidades terapêuticas e curas milagrosas da lagoa. Na serra do Cubatão, ilha de Santa Catarina, Caldas do Cubatão ganhou notoriedade por sua água termomineral radioativa, com temperatura oscilando em torno de 40 graus centígrados. Caldas do Cubatão passou a denominar-se posteriormente Caldas da Imperatriz, devido a uma visita do casal real, D.Pedro II e D. Teresa Cristina. Igualmente em Itapicuru, na Bahia, as qualidades de suas águas termais ganharam fama no século XVIII.


Os naturalistas Spix e Martius anotaram que as águas quentes de Itapicuru poderiam curar doenças do fígado, gota e reumatismo crônico. As Caldas de Goiás, com águas termais e sulfurosas, com temperatura em torno de 45 graus centígrados, também eram indicadas para o reumatismo e certas paralisias. Um povoado se formou nas cercanias, embrião da atual cidade de Caldas Novas. Poços de Caldas, em Minas Gerais, também se tornou estância hidromineral pela descoberta de suas águas termais, sulfurosas e alcalinas. Esses são apenas alguns exemplos de águas termais, mas existiram muitas outras estâncias como “Monte Alegre”, no Pará, “Olho d´água do milho”, no Rio Grande do Norte, “Salgadinho”, em Pernambuco, “Ibirá”, em São Paulo, “Bandeirante”, no Paraná, “Iraí”, no Rio Grande do Sul e “Touro”, no Mato Grosso.


No século da descoberta das águas com poderes curativos, as águas minerais não ficaram de fora. Os naturalistas, em princípios do século XIX, aludiram às numerosas e excelentes águas minerais encontradas em diferentes partes do país. Um mineralogista chamou a atenção para as águas do Araxá, de propriedades químicas excelentes, capazes de curar inúmeras doenças como a lepra, a sarna e o dartro. Águas “salinas”, “ferruginosas”, “acídulo-gasosas”, “sulfurosas” e “acídulo-ferruginosas” ganharam apoio de médicos hidrologistas e consenso entre os usuários pelas suas qualidades terapêuticas. No século XIX, naturalistas e boticários fizeram a análise da composição físico-química de águas minerais brasileiras. Diversas teses de doutoramento em medicina foram elaboradas sobre as virtudes curativas das águas minerais brasileiras, sobre sua composição e propriedades medicinais. Igualmente, inúmeros artigos e memórias saíram publicados na imprensa médica e leiga do país sobre esse assunto, a exemplo do “Relatório sobre as águas minerais de Baependi (Caxambu), da Campanha (Lambari) e de Caldas, na província de Minas Gerais (1874-75)”.

A crenoterapia ou o tratamento pelas águas minerais começou a se desenvolver no Brasil nas últimas décadas do século XIX. Mas foi no século XX, que passou a ser indicada com frequência e praticada nas estâncias hidrominerais já referidas e notadamente nas de Caxambu, Lambari, Cambuquira, São Lourenço, Pocinhos do Rio Verde e a famosa Araxá, terra de Dona Beja, por suas águas “carbogasosas”, “ferruginosas “alcalino-sulfurosas”, “radioativas” e “magnesianas”. Incentivou trabalhos acadêmicos a exemplo de “Memória sobre as águas hidrossulfuradas, quentes ou não, e sobre a água virtuosa ou acidula da província de Minas Gerais, incluídos seus usos médicos externos e internos (1833)”.


Sem a pretensão de colocar Nova Friburgo no circuito das estâncias hidrominerais do país, o certo é que a vila possuía uma fonte, a Fonte do Suspiro, à qual, até meados do século XX, teciam-se loas sobre a qualidade de suas águas. A Fonte do Suspiro era muito frequentada por doentes. De acordo com a tradição oral, era notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Faziam lenir as dores dos que sofriam e dizia-se que até mesmo “ressuscitava os quase-mortos”.

Fonte do Suspiro


A Fonte do Suspiro era um lugar para os que vinham buscar na salubridade do bom clima, o reconforto para o espírito e o retempero para sua saúde, encontrando ali a estesia miraculosa que ergue o ser abatido. A fonte era tão famosa que ganhou uma praça em seu entorno, a atual Praça do Suspiro, que se transformou no mais importante espaço de sociabilidade dos friburguenses no século XIX. O dia 02 de dezembro de 1865, data do aniversário de D. Pedro II, foi escolhida para a inauguração da Praça do Suspiro e de sua afamada fonte. A Praça do Suspiro, no seu projeto de embelezamento, era ornada com coqueiros que a circundavam e com figueiras plantadas ao longo da fonte para assombreá-la. Na realidade, Nova Friburgo foi muito mais reconhecida pela salubridade de seu clima do que pela qualidade terapêutica de suas águas. Mas, na tradição popular brasileira, onde há uma fonte, há sempre a construção de lendas.



Todas as fotos acima são do Parque das Águas de Caxambu, em Minas Gerais.

D.PEDRO II EM NOVA FRIBURGO




Foto tirada por D. Pedro II quando em visita a Friburgo em 1876. Ao fundo Hotel Leuenroth.


Foto constando no acervo fotográfico da Imperatriz Tereza Cristina.
Estação de trem de Nova Friburgo no final do Século XIX


O que tanto fazia D. Pedro II em Nova Friburgo? Há o registro de diversas passagens do Imperador à cidade. De acordo com a ata da Câmara de 1868, Nova Friburgo recebeu a visita de Sua Augusta Majestade Imperial nesse ano. Essa notícia é confirmada pelo jornal O Nova Friburgo, de 1935, onde a Princesa Izabel escolheu a Cascata Pinel para oferecer à embaixada chilena uma “festa campesina”, contando com a presença do ilustre Imperador, D. Pedro II, e do marido da princesa, o Conde d’Eu.

Em 18 de dezembro de 1873, D. Pedro II retornaria a Friburgo a convite de Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, o segundo Barão de Nova Friburgo, para inauguração do prolongamento da Estrada de Ferro Cantagalo, no trecho de Cachoeiras a Friburgo. Já em 1874, a vinda do imperador a Nova Friburgo foi para acompanhar a Princesa Izabel em um tratamento à base de hidroterapia em razão de sua suposta infertilidade. Nessa ocasião, veio acompanhado de sua amante, a Condessa de Barral, dama de companhia da princesa. Casado com D.Teresa Cristina, o Imperador teve um delicado e misterioso romance com a baiana, a Condessa de Barral. Numa época de casamentos arranjados, D.Pedro II encontrou a sua “alma gêmea”, como ele relata em seu diário, numa mulher inteligente, despojada, culta e que vivera boa parte de sua vida em Paris. Ficaram todos hospedados no Hotel Leuenroth.

D.Pedro II retornaria a Friburgo dois anos depois, em 1876. De acordo com o livro de Alcindo Sodré, “Abrindo um cofre”, D. Pedro II passou um vasto período em Friburgo, já que em sua correspondência com a Condessa de Barral, cita o nome da cidade em diversas ocasiões. Veio a Friburgo possivelmente para tomar as duchas do Instituto Hidroterápico, conforme se depreende do conteúdo de sua carta: “Condessa, onde se achará fresco? Valha-me a água dos banhos.(...)Confirmo meu juízo: Teresópolis majestoso; Petrópolis lindo e Friburgo bom lugar de tomar fresco, quando o há. Espero ler bastante aqui e recorrer a quanto esguicho puder refrescar-me....”(Friburgo, 13 de janeiro de 1876).

Nessa ocasião veio acompanhado da Imperatriz, deixando-a em Friburgo e retornando ao Rio antes dela: “Condessa, parece que de lá[refere-se a Friburgo] custam muito a chegar notícias. Os de lá[Friburgo] vão bem assim como a Imperatriz em Friburgo d´onde tive telegrama esta tarde....”(Rio, 16 de janeiro de 1876).

D. Pedro II retornaria ainda Friburgo naquele mesmo mês: “...Condessa(...)Eu volto a Petrópolis no domingo às 8 ½ da manhã, e não paro senão a Friburgo...”(Rio, 18 de janeiro de 1876).

De acordo com a sua correspondência com a Condessa de Barral, fora para Cantagalo, mas em 17 de fevereiro de 1876, lá estava o Imperador novamente em Friburgo, pois escreve de lá para sua amante. Refere-se sempre as duchas que tomava no Instituto Hidroterápico, pois D. Pedro II era diabético: “...A Imperatriz tem se dado bem com as duchas, e eu também gosto das refrigerantes...”

Em sua correspondência dizia ter intenção de retornar definitivamente para o Rio no dia 03 de março. De fato, o Imperador já está no Rio de Janeiro no dia 04 de março, mas imaginem o que disse quando lá estava: “...Amanhã volto para Friburgo. Que calor aqui! A febre amarela tem aumentado por este estado do Rio...”. (Rio, 04 de março de 1876).

Friburgo deixou boas recordações em D. Pedro II. Quando esteve aqui com sua amante, a Condessa de Barral, se recorda com carinho do Hotel Leuenroth, e o Imperador, no melhor estilo do romantismo, assim escreveu para a sua amada:
“Condessa(...)Porém creia que olho sempre com imensas saudades para os quartinhos do anexo do Hotel Leuenroth...”(Rio, 04 de março de 1876).

Abaixo: Foto tirada por D. Pedro II, em 1876, quando de sua visita a Friburgo. Praça Dermeval Barbosa Moreira. Acervo da Fundação D. João VI.





CONHEÇA O CONTEXTO DA ÉPOCA:
















O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte I - Um centro de peste na cidade salubre



Cidade privilegiada do estado do Rio em decorrência de suas excepcionais condições climáticas, uma das mais aprazíveis e lindas estâncias brasileiras, era assim considerada, desde o início do século XIX, a vila de Nova Friburgo. No centenário da independência do Brasil, em setembro de 1922, assim se descreveu Friburgo no álbum do estado do Rio de Janeiro: “a pureza do ar, a temperatura amena, a superioridade da água, fazem de todo o município um inigualável sanatório”. Virgílio Corrêa Filho, assim escreveu sobre Friburgo, no início do século XX: “Por isso espalhou-se, célere, a fama de cidade salubre, para a qual convergem os doentes esperançosos de uma cura ou alívio aos seus achaques, naquele ambiente de ar leve e puro, em que a vida desabrocha em manifestações sugestivas de pujança”.


Foi em razão destes cantos de louvor ao clima de Nova Friburgo que no último quartel do século XIX, a Marinha de Guerra Imperial elegeu Nova Friburgo para estabelecer uma enfermaria de beribéricos. A enfermaria proveria à cura e convalescença de seus marujos acometidos de beribéri, doença que atacava aos indivíduos que permaneciam muito tempo no mar, provocando-lhes a deficiência de vitamina B1. Até então a marujada ficava internada na “Enfermaria de Beribéricos de Copacabana”, no Rio de Janeiro. Em abril de 1889, entra em cena o Almirante Carlos Balthazar da Silveira, Ministro da Marinha, que expressou seu descontentamento em relação à enfermaria de Copacabana. Declarava que a mortalidade era avultada naquela enfermaria devido à sua instalação ser quente e úmida. De acordo com ele: “...Torna-se urgente sua remoção para uma localidade de clima mais ameno, que possua água potável boa e abundante...”


Em decorrência deste manifesto, em 25 de julho de 1889, foi inaugurada em Nova Friburgo uma enfermaria provisória para tratamento das oficiais e praças da Armada acometidos de beribéri. A enfermaria funcionava na rua Gal. Osório, próximo ao Colégio Anchieta. Mais de um mês depois de instalada, um diretor do Hospital de Marinha da Corte enviava o seguinte ofício ao Ministro da Marinha: “Tenho a honra de enviar a Exa. os mapas dos doentes de beribéri tratados em Nova Friburgo (...)as duchas aplicadas com método e cuidado constituem um meio terapêutico de grande alcance(...)aqueles que foram paralíticos e com atrofias musculares ainda se acham muito enfraquecidos e que só agora e depois de trinta e tantas duchas é que deixaram as muletas....”. Estas duchas foram aplicadas no Instituto Hidroterápico que já havia em Friburgo.


Foi provavelmente neste momento que a Marinha abre os olhos para aquisição de tal estabelecimento. O Instituto Hidroterápico ou Casa de Duchas foi construído em 1870, pelos médicos Carlos Éboli e o Dr. Fortunato. No entanto, com o falecimento de Éboli, em 1885, o estabelecimento fica acéfalo, pois perde seu timoneiro no tratamento à base da hidroterapia. Desde então, o instituto parece enfrentar dificuldades financeiras. O Ministério da Marinha entabulou então negociações para aquisição do Instituto Hidroterápico, do qual já se servia. Os friburguenses e as instituições, a exemplo da Câmara, se pronunciaram contra tal aquisição, pois iria comprometer a salubridade de Friburgo já que o instituto se localizava no centro da cidade. Anexo ao Instituto Hidroterápico havia o Hotel Central, que fazia parte do instituto, que é hoje o Colégio N.S. das Dores.


O interesse no Instituto Hidroterápico adequava-se perfeitamente os propósitos da Marinha, pois o tratamento à base da hidroterapia era preconizado como medida terapêutica para a cura do beribéri. Possuindo a Casa de Duchas todas as instalações e aparelhos para tal fim, os problemas financeiros do instituto encaixavam-se como uma luva junto aos projetos da Marinha para adquirir tal estabelecimento. Porém, a Marinha não contava com a presença de um ilustre veranista e assíduo freqüentador de Friburgo: Rui Barbosa. Foi este advogado e político o responsável pela obstrução deste projeto, adiando por alguns anos a vinda do Sanatório para Friburgo.

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