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AGUAS QUE CURAM


Na segunda metade do século XIX, a elite brasileira passou a procurar as estâncias hidrominerais e termais de Vichy, na França, e Baden-Baden na Alemanha. Descobertas no Brasil a partir do século XVIII, as “caldas”, ou seja, águas quentes, termais, e igualmente as águas minerais, passaram a ser utilizadas por doentes desenganados e enfermos de todas as doenças, buscando-se sítios onde existiam águas tidas não só como milagrosas, mas principalmente, como possuidoras de virtudes medicinais. Em Minas Gerais, “Lagoa Santa”, no Vale do Rio das Velhas, atraía centenas de enfermos que tanto tomavam suas águas como nela se banhavam, devido aos relatos de qualidades terapêuticas e curas milagrosas da lagoa. Na serra do Cubatão, ilha de Santa Catarina, Caldas do Cubatão ganhou notoriedade por sua água termomineral radioativa, com temperatura oscilando em torno de 40 graus centígrados. Caldas do Cubatão passou a denominar-se posteriormente Caldas da Imperatriz, devido a uma visita do casal real, D.Pedro II e D. Teresa Cristina. Igualmente em Itapicuru, na Bahia, as qualidades de suas águas termais ganharam fama no século XVIII.


Os naturalistas Spix e Martius anotaram que as águas quentes de Itapicuru poderiam curar doenças do fígado, gota e reumatismo crônico. As Caldas de Goiás, com águas termais e sulfurosas, com temperatura em torno de 45 graus centígrados, também eram indicadas para o reumatismo e certas paralisias. Um povoado se formou nas cercanias, embrião da atual cidade de Caldas Novas. Poços de Caldas, em Minas Gerais, também se tornou estância hidromineral pela descoberta de suas águas termais, sulfurosas e alcalinas. Esses são apenas alguns exemplos de águas termais, mas existiram muitas outras estâncias como “Monte Alegre”, no Pará, “Olho d´água do milho”, no Rio Grande do Norte, “Salgadinho”, em Pernambuco, “Ibirá”, em São Paulo, “Bandeirante”, no Paraná, “Iraí”, no Rio Grande do Sul e “Touro”, no Mato Grosso.


No século da descoberta das águas com poderes curativos, as águas minerais não ficaram de fora. Os naturalistas, em princípios do século XIX, aludiram às numerosas e excelentes águas minerais encontradas em diferentes partes do país. Um mineralogista chamou a atenção para as águas do Araxá, de propriedades químicas excelentes, capazes de curar inúmeras doenças como a lepra, a sarna e o dartro. Águas “salinas”, “ferruginosas”, “acídulo-gasosas”, “sulfurosas” e “acídulo-ferruginosas” ganharam apoio de médicos hidrologistas e consenso entre os usuários pelas suas qualidades terapêuticas. No século XIX, naturalistas e boticários fizeram a análise da composição físico-química de águas minerais brasileiras. Diversas teses de doutoramento em medicina foram elaboradas sobre as virtudes curativas das águas minerais brasileiras, sobre sua composição e propriedades medicinais. Igualmente, inúmeros artigos e memórias saíram publicados na imprensa médica e leiga do país sobre esse assunto, a exemplo do “Relatório sobre as águas minerais de Baependi (Caxambu), da Campanha (Lambari) e de Caldas, na província de Minas Gerais (1874-75)”.

A crenoterapia ou o tratamento pelas águas minerais começou a se desenvolver no Brasil nas últimas décadas do século XIX. Mas foi no século XX, que passou a ser indicada com frequência e praticada nas estâncias hidrominerais já referidas e notadamente nas de Caxambu, Lambari, Cambuquira, São Lourenço, Pocinhos do Rio Verde e a famosa Araxá, terra de Dona Beja, por suas águas “carbogasosas”, “ferruginosas “alcalino-sulfurosas”, “radioativas” e “magnesianas”. Incentivou trabalhos acadêmicos a exemplo de “Memória sobre as águas hidrossulfuradas, quentes ou não, e sobre a água virtuosa ou acidula da província de Minas Gerais, incluídos seus usos médicos externos e internos (1833)”.


Sem a pretensão de colocar Nova Friburgo no circuito das estâncias hidrominerais do país, o certo é que a vila possuía uma fonte, a Fonte do Suspiro, à qual, até meados do século XX, teciam-se loas sobre a qualidade de suas águas. A Fonte do Suspiro era muito frequentada por doentes. De acordo com a tradição oral, era notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Faziam lenir as dores dos que sofriam e dizia-se que até mesmo “ressuscitava os quase-mortos”.

Fonte do Suspiro


A Fonte do Suspiro era um lugar para os que vinham buscar na salubridade do bom clima, o reconforto para o espírito e o retempero para sua saúde, encontrando ali a estesia miraculosa que ergue o ser abatido. A fonte era tão famosa que ganhou uma praça em seu entorno, a atual Praça do Suspiro, que se transformou no mais importante espaço de sociabilidade dos friburguenses no século XIX. O dia 02 de dezembro de 1865, data do aniversário de D. Pedro II, foi escolhida para a inauguração da Praça do Suspiro e de sua afamada fonte. A Praça do Suspiro, no seu projeto de embelezamento, era ornada com coqueiros que a circundavam e com figueiras plantadas ao longo da fonte para assombreá-la. Na realidade, Nova Friburgo foi muito mais reconhecida pela salubridade de seu clima do que pela qualidade terapêutica de suas águas. Mas, na tradição popular brasileira, onde há uma fonte, há sempre a construção de lendas.



Todas as fotos acima são do Parque das Águas de Caxambu, em Minas Gerais.

TEATRO D. EUGÊNIA: O ÓPERA DE NOVA FRIBURGO


Teatro D. Eugênia. Era localizado onde hoje é exatamente o Ed. Gustavo Lira,

na Rua Augusto Spinelli.

A história do Teatro D. Eugênia se inicia, no último quartel do século XIX. Sua origem partiu de uma deliberação dos membros da Sociedade Musical Campesina dispondo que, além da música, deveria essa sociedade também desenvolver e estimular as artes dramáticas, cuidando de edificar um teatro para tal fim. A Campesina abriu subscrição e realizou uma série de espetáculos e leilões na cidade e os friburguenses solidarizaram-se com a campanha promovida para a construção do teatro. O primeiro passo para o tão sonhado projeto foi a aquisição de um terreno que pertencia a Pedro Eduardo Salusse localizado na Rua Gal. Câmara, atual Augusto Spinelli, exatamente onde hoje se encontra o edifício Gustavo Lira.


No dia 30 de maio de 1886, foi lançada a pedra fundamental, concorrendo boa parte da população. Nessa data foi escolhido um nome para o teatro: Theatro Victor Hugo, um autor muito lido em Nova Friburgo. Dando-se início às obras foi o teatro edificado, tendo sido nele empregados os materiais doados e os valores recebidos pelos associados em leilões e espetáculos. Acontecimentos sucessivos, porém, interrompeu a execução do teatro que se encontrava até “certo ponto de adiantamento”, segundo um jornal da época. Primeiro, foi o falecimento, na Itália, de seu presidente, Fioravanti André Martinoya, seguido da elevação excessiva dos preços dos materiais de construção e do salário dos operários. Os débitos contraídos impediram a continuidade da obra, que acabou sendo suspensa. Não podendo dar continuidade à edificação do teatro, em sessão extraordinária os associados deliberaram colocar à venda o prédio na situação em que se encontrava. No entanto, por exigência da diretoria da Campesina, ficaria consignada na escritura uma cláusula de não poder ser a propriedade voltada a outro fim, senão àquele a que fora destinado, ou seja, servir às artes dramáticas. Os fazendeiros da região já diversificavam seus investimentos e foi o que aconteceu com Manoel Amancio de Souza Jordão, um dos mais importantes usineiros do município de Sumidouro, que resolveu adquirir o teatro em fase de execução. A consolidação de Friburgo como cidade de veraneio ao final do século 19 e a melhoria do sistema de transporte com a Capital Federal(Rio de Janeiro), facilitado pelo trem, despertou o interesse desse fazendeiro. Sob o comando de Souza Jordão, tomou a obra um grande incremento que levaria dois anos até que o teatro pudesse finalmente ser inaugurado. Contudo, o nome Victor Hugo foi substituído por Dona Eugênia, em homenagem à esposa do proprietário, Eugênia dos Santos Jordão. Em 7 de junho de 1894, por uma fatalidade, Souza Jordão veio a falecer vitimado por febre amarela, na Capital Federal. Como as obras do teatro se encontravam praticamente concluídas, Eugênia dos Santos Jordão tomou a frente do negócio.


No início do ano de 1895 foi inaugurado o Theatro D. Eugênia, com uma ópera de Verdi, Um Baile de Máscaras, pela companhia italiana Verdini & Rotoli. O prédio tinha um estilo eclético e era dividido em dois pavimentos. No primeiro andar ficava a platéia. Já no segundo ficavam as galerias, com alguns camarotes fechados. Havia ainda as “torrinhas”, onde ficavam os populares e os rapazes que gostavam de bagunça. Não era luxuoso, era simples, mas “muito bonitinho”, segundo entrevistas com quem o conheceu. Internamente possuía acabamento de madeira toda trabalhada e uma acústica maravilhosa. O teatro possuía lotação para 600 pessoas, com 212 cadeiras de primeira classe e 17 camarotes, sendo um de honra.


O Teatro D. Eugênia foi palco de famosas óperas italianas, muito em moda desde a época imperial e igualmente de peças do teatro português, cujos espetáculos faziam parte do calendário cultural da cidade. Além da primeira representação da ópera de Verdi, Um Baile de Máscaras, a Companhia Lírica Italiana Verdini & Rotoli promoveu as seguintes óperas na cidade: Lucrecia Borgia e A Favorita, de Donizetti; Carmen, de Bizet; Aida, La Traviata e O Trovador, de Verdi; e ainda Fausto, de Goethe. Além de Verdini & Rotoli, a companhia dramática do teatro português representou dramas e comédias, com as seguintes peças, entre muitas outras: A Morgadinha de Val-Flor, Gaspar Cacete, O Fidalgo Ladrão ou Os Pupilos do Escravo, Fidalgos e Operários ou A Tomada da Bastilha, Mosquitos por Cordas, Os Estranguladores de Paris, Os Dois Proscritos ou A Restauração de Portugal em 1640, Veneno dos Bórgias e O Homem da Máscara Negra. Peças mais picantes como A Estátua de Carne, exibia as “horisontaes”(prostitutas) e “Can-Can”, dançadas por mascarados. O teatro recebeu ainda companhias de zarzuelas, obra dramática e musical de origem espanhola, uma espécie de ópera-cômica na qual alternadamente se declama e se canta. A Companhia Dramática Empresa Mayor & Cia levou para Nova Friburgo zarzuelas como A Galinha Cega, Lucero del Alba, Torear por lo Fino. Foi ainda sede provisória da Sociedade Musical Euterpe e no século XX, cine-teatro.


Demolido em julho de 1975 com a complacência das autoridades municipais que não atenderam as rogativas da população em preservar aquele espaço público histórico, o Theatro D. Eugênia foi depositário de exatos oitenta anos de entretenimentos culturais. Entre muitos descasos contra o patrimônio histórico impetrados pelos outrora gestores públicos do município, a demolição do Teatro D. Eugênia é um dos que mais pesa na consciência desses administradores.

S.O.S CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA



EXMO. SR. DERMEVAL BARBOZA MOREIRA NETO.
M.D. PREFEITO MUNICIPAL DE NOVA FRIBURGO.

Nova Friburgo, 13 de abril de 2011.

Vimos por meio desta inicialmente prestar solidariedade a V.Exa. em razão da tragédia ocorrida em Nova Friburgo, colocando-nos à disposição para participar de eventuais discussões envolvendo a questão. Acreditamos que o conhecimento do passado, através de experiências anteriores em muito nos auxilia a ampliar o debate.


Sr. Prefeito, preocupa-nos imensamente o processo por que vem passando o Centro de Documentação de Nova Friburgo, outrora Pró-Memória, atual Fundação D. João VI de Nova Friburgo. Esse setor, outrora vinculado à Secretaria de Cultura, tornou-se uma fundação através da Lei 3.836 de 29/12/2009, como é do conhecimento de V.Exa. No entanto, causa-nos estranheza, que essa fundação que tem como objetivo promover e incentivar a pesquisa da História de Nova Friburgo tenha em sua formação muito mais burocratas do que historiadores propriamente ditos.


Porém, o que mais nos preocupa no momento é o fechamento, por tempo indeterminado, do referido Centro de Documentação, tendo como justificativa a vulnerabilidade de seu acervo em razão de sua localização geográfica, no centro da cidade. Se tomarmos esse argumento, podemos refutá-lo de imediato, já que outras instituições também padecem desse problema, a exemplo do fórum que se localiza às margens do Rio Bengalas e nem por isso cessou suas atividades. Mas fica uma pergunta, fechado ou aberto o acervo não corre o mesmo risco? Logo, não procede o fechamento de um setor nos quais os historiadores de Nova Friburgo e região bebem de suas fontes para formular seus trabalhos acadêmicos, muitos em andamento e com prazo para sua conclusão.


Desde o ano passado que os pesquisadores têm tido dificuldades quando utilizam esse setor. O horário de pesquisa que outrora era de 9:00 horas às 17:00 horas, passou a ser de 13:00 às 16:00 horas. Não bastasse isso, apenas uma única mesa foi disponibilizada aos pesquisadores sob o pretexto de que as restantes eram utilizadas pelos funcionários do setor. Outro inconveniente é que a maior parte dos jornais não está à disposição dos pesquisadores até que sejam digitalizados in totum. No entanto, para os que acompanham o processo de digitalização desse acervo, percebe que se levarão muitos anos para que seja concluído. Há dois anos, desde que iniciado esse processo, uma mínima parcela de jornais foi digitalizada, o que nos leva a fazer uma projeção pessimista quanto ao término desse trabalho. Não bastasse isso, teme-se pelo acervo que é digitalizado fora das instalações da Fundação, comprometendo a sua segurança.
Com isso, teses de mestrado, monografias, livros e demais projetos em andamento ficam estacionadas, acarretando grave prejuízo aos pesquisadores e acreditamos à História de Nova Friburgo.


Para tanto, solicitamos a V. Exa. se digne tomar as seguintes providências:
1°: Abertura imediata do Centro de Documentação Fundação D. João VI de Nova Friburgo a todos os interessados.
2°: Ampliação do horário para a realização das pesquisas, incluindo, se possível, os sábados.
3°: Ampliação do espaço do pesquisador dando-lhe melhores condições de trabalho.
4°: Apresentação de um cronograma de trabalho de digitalização dos jornais e demais documentos, sendo indisponibilizados tão somente os que estejam passando por esse processo, de acordo com a capacidade material e humana do setor, ficando os demais à disposição dos pesquisadores.
Colocamo-nos à disposição para maiores esclarecimentos e aproveitamos a oportunidade para manifestar nossa estima e apreço a V. Exa.

Maria Janaína Botelho Corrêa
e outros historiadores que assinaram esse documento.






SOS MEMÓRIA


Como historiadores e cidadãos manifestamos nossa apreensão em relação à política de documentação levada pelo antigo Pró-memória de Nova Friburgo, hoje incorporado à Fundação Dom João VI de Nova Friburgo.
Integramos um grupo de historiadores que tem atuado em diversas frentes da produção historiográfica no município. Em nossa experiência tivemos sempre o apoio do Pró-memória às pesquisas que realizamos e orientamos. Artigos, teses, livros, aulas e palestras foram tributárias do Pró-memória. Aplaudimos sempre os serviços prestados pelo Pró-memória às pesquisas escolares.
Procuramos sempre oferecer prismas interpretativos de nossa história certos de que ela é fundamental na construção de nosso futuro. E para isto, fontes são absolutamente necessárias. O Pró-memória, seja como instrumento de resgate de documentos do passado, seja como produtor de documentos contemporâneos tornou-se uma instituição de grande importância na atualidade. E aplaudimos a sua inserção na virtualidade informática. Consideramos que ela permite ampliar e aprofundar a produção de conhecimentos assim como as consultas e interação com outras regiões do país e do mundo.
Assim sendo, lastimamos que, justamente no momento em que Nova Friburgo mais precisa de pesquisa e de reflexão, o Pró-memória tenha estado fechado à consulta pública desde a tragédia de janeiro. Precisamos não só do Pró-memória aberto, como também com condições plenas de pesquisa. Estamos inclusive apreensivos com a justificativa do fechamento em função da alegada mudança de sede. O que pode ser uma operação rápida e eficiente está sob o risco de durar um tempo indefinido.
Reafirmamos que o futuro digital do órgão não pode substituir a consulta presencial. Não fazemos parte do Conselho Administrativo e ignoramos inclusive que Fundação é esta, sob cuja guarda foi colocado o Pró-memória. Reafirmamos que o Pró-memória é sustentado pelos cofres públicos desde a sua origem e deve ser visto como órgão da Prefeitura, ou dito de outro modo, como um patrimônio público.
Consideramos urgente a abertura do Pró-memória ao público.
Consideramos que, tanto a nível presencial quanto virtual, é fundamental que saibamos o que tem o Pró-memória. Em qualquer política de arquivo, documento que não é classificado não existe para consulta. É, portanto essencial construir um catálogo. E para fazê-lo, é necessária uma presença constante de historiadores ao lado de arquivistas.
Estamos convictos de que a informação histórica bem como sua elaboração é essencial na nova etapa de desenvolvimento de Nova Friburgo, em sua projeção regional e em seu papel como integrante de nova área de conhecimentos essenciais na modernidade. Escondido, o órgão está sujeito à manipulação de uns poucos, tanto a nível físico como virtual.
João Raimundo Araújo
Jorge Miguel Mayer

Publicada no jornal A Voz da Serra, na sessão de leitores em 27/04/2011.

Patrimônio Histórico de Nova Friburgo


Diagnóstico dos Patrimônios Históricos e Culturais de Nova Friburgo afetados pelo sinistro ocorrido na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011:
Patrimônios tombados pelo Patrimônio Nacional (IPHAN):
1. Praça Getúlio Vargas - Projeto do renomado paisagista e botânico francês Glaziou, executado pelo engenheiro Carlos Engert, em 1880 e financiado pelo Barão de Nova Friburgo: parcialmente destruído.
2. Conjunto arquitetônico do Parque São Clemente - Constituído pelo Chalet do Barão de Nova Friburgo e parque botânico, projetado pelo paisagista Glaziou, em 1861: ambos destruídos.
3. Conjunto arquitetônico, em estilo moderno, do Parque Hotel, projeto de Lucio Costa, em 1950, conhecido como "jóia da arquitetura moderna": destruído pelas chuvas.

Tombados pelo INEPAC - Patrimônio do Estado:
1. Igreja Matriz de São João Batista - Construção iniciada em 1851 com recursos do Barão de Nova Friburgo: parcialmente afetado.
2. Prédio do IENF - Colégio Estadual Ribeiro de Almeida. Não afetado.
3. Residência do Barão de Nova Friburgo, erguido em 1842, primeira construção em pedra e cal, marco da arquitetura de Nova Friburgo. Parcialmente afetado.
4. Capela de Santo Antônio, erguida em 1885 pelo músico Samuel Antônio dos Santos. Seu Campanário é projetado e construído pelo arquiteto Lucio Costa, em 1948: destruído pelas chuvas.
5. Cúria Metropolitana de Nova Friburgo, erguido em 1870, para residência da família Campbell, atual residência do Bispo da Diocese de Nova Friburgo: parcialmente afetado pelas chuvas
6. Colégio Nossa Senhora das Dores. No local se estabeleceu, em 1841, o Colégio Freeze, do inglês John Freeze, que formou boa parte da elite política do Império. O prédio atual foi edificado para ser o Hotel Central, anexo ao Estabelecimento Hidroterápico do médico Carlos Éboli: parcialmente afetado pelas chuvas.
7. Conjunto da Estação Ferroviária de Rio Grandina - Composta de: Casa do Administrador, Plataforma de embarque, depósitos e ponte treliçada, construída em 1875: destruído pelas chuvas.
8. Conjunto da Estação Ferroviária de Nova Friburgo, hoje denominado Palácio Barão de Nova Friburgo, sede da Prefeitura Municipal, construído a partir de 1873, para ser sede do ramal ferroviário da Estrada de Ferro Cantagalo: parcialmente afetado pelas chuvas.
9. Colégio Anchieta, pertencente a ordem jesuíta, erguido em 1901, para sediar o primeiro colégio católico do interior da Província do Rio de Janeiro: seriamente afetado.
10. Complexo arquitetônico do Sanatório Naval, erguido a partir de 1890 para ser residência de caça do Barão de Nova Friburgo: preservado.
11. Residência do Barão de Sumidouro, erguido em 1890, depois sede da antiga LBA e hoje sede da Secretaria de Assistência Social: afetado pelas chuvas .
12. Antiga residência do Barão de Duas Barras, erguido em 1890, atual sede da Faculdade de Odontologia, da Universidade Federal Fluminense: afetado pelas chuvas.
Tombados pelo INEPAC - Patrimônio Municipal:
1. Residência do Deputado Federal Galdino do Valle Filho, erguida em 1917: pouco afetada pelas chuvas.

Patrimônio Imaterial de Nova Friburgo (Não Tombados)*
1. Memorial da Colonização Suíça, situado no Distrito de Conquista, no complexo da Queijaria Escola e Casa Suíça: afetado pelas chuvas.
2. Arquivo Pró-Memória de Nova Friburgo, patrimônio da Fundação D. João VI de Nova Friburgo, instituída nos termos de Lei Municipal, sob a forma e personalidade jurídica de Fundação Pública de Direito Público, é uma entidade sem fins lucrativos, com objetivo de preservar a História de Nova Friburgo, suas memórias. O arquivo guarda, aproximadamente, 1,5 milhão de itens, entre documentos impressos, manuscritos, datados a partir de 1817, consta ainda de um imenso acervo iconográfico da cidade, datado a partir de 1825: Não afetado diretamente pela tragédia.
*Não tombados, existem inúmeros outros patrimônios, assim como monumentos de valor histórico agregado, seriamente danificados em virtude da tragédia que se abateu sobre a cidade. Exemplos: Praça do Suspiro e a sua fonte de água.

CARCERAGEM E PATRIMÔNIO HISTÓRICO


O prédio acima atualmente é a delegacia e a carceragem de Nova Friburgo. Ironicamente, segundo relatos, uma parede do prédio ruiu em razão dos deslizamentos de terra dos morros. Refiro-me a tragédia ocorrida em Nova Friburgo a partir do dia 12 de janeiro desse ano. Todos os presos saíram traquilamente. Trata-se de um prédio histórico. No passado longínquo, o casarão era rodeado de um lindo pomar de peras “ferro”, como se pode ver na foto.


Entristece-nos constatar que onde está a atual casa de custódia, além de destruir um prédio histórico, não atende às condições físicas e de segurança que tal estabelecimento deveria ter. Vamos ver se as autoridades municipais depois desse incidente, desloca a delegacia para um local mais apropriado, liberando o prédio histórico para preservação da memória da cidade.




NOVA FRIBURGO: a História, a Enchente e a Redenção. NOSSO 11 DE SETEMBRO!!!!

Praça do Suspiro. 1930.

Praça do Suspiro. 1905.

Praça do Suspiro, 1930.

Praça do Suspiro. 1920.

Praça do Suspiro. 1990.

Praça do Suspiro. As fotos podem parecer ser de lugares distintos, mas foi a praça que mais sofreu intervenção do poder público, alterando-lhe a paisagem.



A História:
Dois alemães, Leithold e Rango, por ocasião da instalação da colônia dos suíços
em Nova Friburgo, no início do século 19, escreveram: “Só poderá ser um
desastre!”

Quando foi expedido o decreto de 6 de maio de 1818 destinando a Fazenda do Morro Queimado para o assentamento de colonos suíços, era seu proprietário Monsenhor Antonio José da Cunha e Almeida, titular de Mesa de Consciência e Ordens, do Desembargo do Paço e Chanceler das três Ordens Militares. Um tipo de altos coturnos. Monsenhor Almeida havia comprado a Fazenda do Morro Queimado de Lourenço Correa Dias pela modesta quantia de 500$000 e vendeu a propriedade ao governo por 11.932$000, isso sem haver nada que justificasse a valorização do imóvel. A transação foi intermediada pelo Inspetor da Colonização, o eclesiástico Monsenhor Miranda. Não obstante haver terras férteis e devolutas nas proximidades da Corte, o perdulário Monsenhor Miranda escolheu as terras inferiores da Fazenda do Morro Queimado do confrade da Mesa de Consciência e Ordens.


A Fazenda do Morro Queimado tinha esse nome devido a cor tisnada, acinzentada de suas montanhas. Essa antiga fazenda, composta de quatro sesmarias, hoje é Nova Friburgo. A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820 para abrigar uma colônia de suíços, a primeira do Brasil. Era um pitoresco vale, entre cinco grandiosas montanhas. O núcleo urbano foi formado próximo ao Rio São João das Bengalas. As enchentes, desde então, sempre fizeram parte do cotidiano da cidade. Para compreender melhor, ler a matéria “As Enchentes do Velho São João Das Bengalas: Um Déjà Vu na história de Friburgo”, nesse blog.


No entanto, as terras do “Núcleo dos Colonos” não eram úberes o suficiente para a agricultura, sendo localizadas em lugares montanhosos ou repletas de brejos. As datas de terras distribuídas aos colonos suíços foram abandonadas por boa parte deles. Em 1824, colonos alemães foram encaminhados para a vila de Nova Friburgo. As terras sáfaras abandonadas pelos suíços foram as mesmas distribuídas aos colonos alemães. Por conseguinte, metade dos alemães se deslocaram para outras regiões, em busca de terras mais férteis, a exemplo de Cantagalo.


Ao final do século 19, Nova Friburgo recebeu significativa imigração de italianos, onde algumas famílias, a exemplo dos Spinelli, se transformaram na maior fortuna do município. Imigraram ainda para Nova Friburgo, portugueses, e em menor proporção, espanhóis, alemães, libaneses e japoneses. A Praça das Colônias, que possuía o panteão representando todas essas imigrações, inclusive a africana, foi destruída. Cumpre destacar que a partir de 1910, empresários alemães estabeleceram indústrias de grande porte na cidade, alterando significativamente a estrutura social e econômica do município. Pode-se afirmar que Nova Friburgo passou a ser uma cidade industrial. Com a diminuição da atividade dessas grandes indústrias, a partir da década de oitenta do século 20, a economia de Nova Friburgo passou a girar em torno de pequenas e médias empresas metalúrgicas e de um grande pólo de moda íntima, essas últimas estabelecidas por antigos funcionários das indústrias têxteis.

A Tragédia:
Com a tragédia da enchente e deslizamentos dos morros, que é notória, ocorrida na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, dois monumentos históricos se perderam nessa enchente: a Igreja de Santo Antônio e a Fonte do Suspiro. Era na praça em frente a igreja que se realizavam as festas de Santo Antônio, a mais tradicional da cidade. Superava a do orago da cidade, São João Batista. A igreja se localiza na Praça do Suspiro e remonta ao século 19.

A Praça do Suspiro foi completamente destruída pela enchente do rio São João das Bengalas e da queda de barreira. Era o mais importante espaço de sociabilidade de Nova Friburgo no século 19. A praça foi construída no entorno da Fonte do Suspiro, fonte essa que abastecia de água toda a vila, onde os escravos buscavam água para abastecer as residências.

A Fonte do Suspiro era considerada desde tempos antigos, até mais da metade do século 20, uma das “maravilhas” de Friburgo. Jorrava água fresca e cristalina, cantando andeixas sentidas e amarguradas. Não havia quem tendo amado, não tenha procurado aquele recanto florido e bucólico, lugar onde a natureza concentrara sua magia, revestindo-se de galas e pomas. Era o recanto mais formoso da cidade, “onde cada friburguense tem uma parte de sua alma e um pedacinho do seu coração”, de acordo com relatos.

A Fonte do Suspiro possuía três bicas: a do AMOR, da SAUDADE e do CIÚME. Asseguravam os antigos habitantes de Friburgo que a água dessas fontes era misteriosa e atraente, e quem a bebesse, ficava condenado a sofrer no coração os desastrados efeitos do amor, do ciúme e da saudade, formando esses três sentimentos um grosso e inquebrantável elo. Acreditava-se que o viajante que bebia um pouco de sua água pura, que jorrava cantante das três fontes, certamente voltaria a Friburgo, porque a saudade lhe encheria o coração. Era uma fonte impregnada de feitiços e lendas. Para os que viveram grandes paixões nos seus jardins, a Fonte do Suspiro representava o tabernáculo de sonhos do passado. Já para os que vinham buscar a mansuetude bucólica de Nova Friburgo, a salubridade do bom clima, a Fonte do Suspiro promovia um reconforto ao espírito e um retempero para sua saúde, encontrando ali ainda o encantamento doce e a estesia miraculosa que erguem o ser abatido. No imaginário da população, além do romantismo que ela evocava, era também notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Fazia lenir as dores dos que sofriam e dizia-se até mesmo que “ressuscitava os quase-mortos”.

Abaixo, uma sequência de fotos da Fonte do Suspiro.


A Redenção:
Na realidade, parte do desenvolvimento de Nova Friburgo se deu devido ao seu clima salubre, com característica muito próxima a de países europeus. Pode-se afirmar que a partir de 1830, Nova Friburgo encontra a sua verdadeira vocação, vingando como uma aprazível estação de verão, já que a agricultura era economicamente pífia por conta das terras sáfaras. Foi desde então, refúgio dos cariocas que fugiam do calor do Rio de Janeiro e dos que procuravam a saúde do corpo, como a cura da tuberculose, quando se acreditava que o clima era um fator determinante na cura da doença. Por isso, o Sanatório Naval se estabeleceu no município. A partir da segunda metade do século 19, quando começam a grassar as epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro, Nova Friburgo ganha mais visibilidade atraindo uma chusma de cariocas em todo o verão, ponto alto das epidemias.


Passada toda essa tragédia, nós, friburguenses, estamos aguardando os cariocas e fluminenses de Niterói, que sempre procuraram o refúgio de Nova Friburgo, desde os tempos de antanho, para fugir do forte calor do verão e igualmente das epidemias e doenças. Não possuímos o rico patrimônio histórico de Petrópolis, mas temos a oferecer A NATUREZA, já que preservamos setenta por cento da mata atlântica. O espaço urbano de Nova Friburgo se restringe a 30% de seu território.


Dizia a lenda que quem beber da Fonte do Suspiro a ela se prenderá por toda a vida! Mesmo sem poder beber mais a água da fonte encantada, destruída pelo deslizamento das encostas, garantimos aos cariocas e fluminenses que visitarem a bucólica Nova Friburgo que certamente retornarão, porque a saudade lhe encherá o coração!

TEATRO D. EUGÊNIA: O ÓPERA DE NOVA FRIBURGO


A história do Teatro D. Eugênia se inicia, no último quartel do século XIX. Sua origem partiu de uma deliberação dos membros da Sociedade Musical Campesina dispondo que, além da música, deveria essa sociedade também desenvolver e estimular as artes dramáticas, cuidando de edificar um teatro para tal fim. A Campesina abriu subscrição e realizou uma série de espetáculos e leilões na cidade e os friburguenses solidarizaram-se com a campanha promovida para a construção do teatro. O primeiro passo para o tão sonhado projeto foi a aquisição de um terreno que pertencia a Pedro Eduardo Salusse localizado na Rua Gal. Câmara, atual Augusto Spinelli, exatamente onde hoje se localiza o edifício Gustavo Lira.
No dia 30 de maio de 1886, foi lançada a pedra fundamental, concorrendo boa parte da população e sendo nessa data escolhido um nome para o teatro: Theatro Victor Hugo, um autor muito lido em Nova Friburgo. Dando-se início às obras foi o teatro edificado, tendo sido nele empregados os materiais doados e os valores recebidos pelos associados em leilões e espetáculos. Acontecimentos sucessivos, porém, interrompeu a execução do teatro que se encontrava até “certo ponto de adiantamento”, segundo um jornal da época. Primeiro, foi o falecimento, na Itália, de seu presidente, Fioravanti André Martinoya, seguido da elevação excessiva dos preços dos materiais de construção e do salário dos operários. Os débitos contraídos impediram a continuidade da obra, que acabou sendo suspensa. Não podendo dar continuidade à edificação do teatro, em sessão extraordinária os associados deliberaram colocar à venda o prédio na situação em que se encontrava. No entanto, por exigência da diretoria da Campesina, ficaria consignado na escritura uma cláusula de não poder ser a propriedade voltada a outro fim, senão àquele a que fora destinado, ou seja, servir às artes dramáticas. Os fazendeiros da região já diversificavam seus investimentos e foi o que aconteceu com Manoel Amancio de Souza Jordão, um dos mais importantes usineiros do município de Sumidouro, que resolveu adquirir o teatro em fase de execução. A consolidação de Friburgo como cidade de veraneio ao final do século XIX e a melhoria do sistema de transporte com a Capital Federal facilitado pelo trem, despertou o interesse desse fazendeiro que adquiriu o teatro.
Sob o comando de Souza Jordão, tomou a obra um grande incremento que levaria dois anos até que o teatro pudesse finalmente ser inaugurado. Contudo, o nome Victor Hugo foi substituído por Dona Eugênia, em homenagem à esposa do proprietário, Eugênia dos Santos Jordão. Em 7 de junho de 1894, por uma fatalidade, Souza Jordão veio a falecer vitimado por febre amarela, na Capital Federal. Como nesse ano as obras do teatro se encontravam praticamente concluídas foi inaugurado no início de 1895 o Theatro D. Eugênia, com a ópera de Verdi, Um Baile de Máscaras, pela companhia italiana Verdini & Rotoli. O prédio tinha um estilo eclético e era dividido em dois pavimentos. No primeiro andar ficava a platéia. Já no segundo ficavam as galerias, com alguns camarotes fechados. Havia ainda as “torrinhas”, onde ficavam os populares e os rapazes que gostavam de bagunça. Não era luxuoso, era simples, mas “muito bonitinho”, segundo entrevistas com quem o conheceu. Internamente possuía acabamento de madeira toda trabalhada e uma acústica maravilhosa. O teatro possuía lotação para 600 pessoas, com 212 cadeiras de primeira classe e 17 camarotes, sendo um de honra.

O Teatro D. Eugênia foi palco de famosas óperas italianas, muito em moda desde a época imperial e igualmente de peças do teatro português, cujos espetáculos faziam parte do calendário cultural da cidade. Além da primeira representação da ópera de Verdi, Um Baile de Máscaras, a Companhia Lírica Italiana Verdini & Rotoli promoveu as seguintes óperas na cidade: Lucrecia Borgia e A Favorita, de Donizetti; Carmen, de Bizet; Aida, La Traviata e O Trovador, de Verdi; e ainda Fausto, de Goethe. Além de Verdini & Rotoli, a companhia dramática do teatro português representou dramas e comédias, com as seguintes peças, entre muitas outras: A Morgadinha de Val-Flor, Gaspar Cacete, O Fidalgo Ladrão ou Os Pupilos do Escravo, Fidalgos e Operários ou A Tomada da Bastilha, Mosquitos por Cordas, Os Estranguladores de Paris, Os Dois Proscritos ou A Restauração de Portugal em 1640, Veneno dos Bórgias e O Homem da Máscara Negra. Peças mais picantes como A Estátua de Carne, que exibia as “horisontaes”(prostitutas) e “Can-Can”, dançadas por mascarados. A cidade recebeu ainda companhias de zarzuelas, obra dramática e musical de origem espanhola, uma espécie de ópera-cômica na qual alternadamente se declama e se canta. A Companhia Dramática Empresa Mayor & Cia levou para Nova Friburgo zarzuelas como A Galinha Cega, Lucero del Alba, Torear por lo Fino. Demolido em julho de 1975 para dar lugar ao atual edifício Gustavo Lira, o Teatro D. Eugênia foi depositário de exatos oitenta anos de entretenimentos culturais, do teatro ao cinema, tendo sido inclusive sede provisória da Sociedade Musical Euterpe e no século XX, cine-teatro. Entre muitos descasos contra o patrimônio histórico impetrados pelos outrora gestores públicos do município, a demolição do Teatro D. Eugênia é um dos que mais pesa na consciência desses administradores.

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