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Do Jockey Club à cavalgada de São Jorge: Da sociabilidade mundana ao rito religioso












Friburgo Jochey Club - 1911

Ao longo da história, o fato de se possuir um cavalo e de se transformar em um cavaleiro, sempre deu status aos homens. Na Antiguidade, o imperador romano Calígula elegeu seu cavalo senador. Mas muito antes dele, Alexandre, O Grande, tinha no seu cavalo, Bucéfalo, o seu maior aliado nas batalhas. O cavalo sempre foi um companheiro de reis e nobres, tornando-se um esporte da aristocracia em várias nações europeias. No Brasil, no século XIX, com a europeização da sociedade brasileira, o turfe, ou seja, as corridas de cavalo, passaram a ser um esporte e uma forma de sociabilidade das elites. O turfe foi introduzido no Brasil pelos ingleses, influenciando as modas e os modos da aristocracia brasileira. Em 1877, já há o registro de corridas de cavalo promovidas nas ruas da vila de Nova Friburgo.






















Em 1883, surge, em Nova Friburgo, o clube atlético denominado General Osório que promovia corridas de cavalo na rua do mesmo nome. Há o registro ainda do Clube Atlético Bargossi, que pediu permissão à Câmara para colocar postes de raia na Praça do Suspiro, para que se realizassem corridas aos domingos e dias santificados. Por iniciativa da família do Barão de Nova Friburgo, os Clemente Pinto, foi fundado em 22 de abril de 1881, o Jockey Club de Nova Friburgo. A família inauguraria igualmente, em 12 de julho de 1885, o prado do Jockey Club Cantagalense, no Palacete do Gavião. O primeiro presidente do Jockey Club de Nova Friburgo foi o Barão de São Clemente, fazendo parte do seleto club Augusto Marques Braga, Pedro Eduardo Salusse, o médico e presidente Câmara Municipal Ernesto Brazílio, entre outros. Do conselho fiscal participavam Elias Antonio de Moraes, o 2° Barão de Duas Barras, e o empresário do ramo hoteleiro, Carlos Engert. Não se pode precisar, mas em dado momento o Jockey Club de Nova Friburgo se extinguiu.










Anos depois, foi fundado em 30 de abril de 1911, o Friburgo Jockey Club, também formado pela elite local, por iniciativa de Octávio Veiga, Galdino do Valle Filho e do Cel. Galiano Emilio das Neves Junior, os dois últimos grandes inimigos políticos. Já no século XX, havia em Nova Friburgo dois prados: o prado Entre Rios, em Lumiar, e o Prado de Corridas de Conselheiro Paulino. O prado de Conselheiro Paulino tinha sua sede social no Hotel Salusse. Competições de equitação eram igualmente realizadas no Friburgo Futebol Clube.






Nos dias de competição, era um alvoroço na cidade. Ainda cedo, todas as garagens de bicicletas eram procuradas por visitantes das localidades próximas, que, em trajes esportivos, cortavam alegres as extensas alamedas da Praça 15 de Novembro (atual Getúlio Vargas). Às 11:00 horas, todos se dirigiam à Estação da Leopoldina para recepcionar as “embaixadas” de Niterói, Petrópolis e da “Força Pública”. Eram recebidos com “hurras vibrantes” por todos os esportistas presentes na estação. As torcidas, os sportmen, vinham a Nova Friburgo animar os seus atletas. Os cariocas que vinham assistir ao turf friburguense, ficavam geralmente hospedados no Hotel Central (hoje edifício Folly), Floresta e Suspiro. Como é comum nesses espaços de sociabilidade, as corridas de cavalo atraíram a alta sociedade, sendo ocasião para o exibicionismo de indumentárias e, segundo o jornal A Paz, “as arquibancadas apresentavam o que de mais elegante possui a nossa sociedade”.





Em julho de 1986, foi fundado o Clube do Cavalo de Nova Friburgo, funcionando provisoriamente em Amparo. Objetivava-se incentivar a criação de cavalos de raça no município, com a participação dos criadores locais em exposições e em organizar provas entre os associados. O Clube do Cavalo contava com a participação da classe média friburguense, e não mais da classe alta, como outrora. Curiosamente, o associado não precisava ter cavalo, não se cobrava taxa de seus associados, diferentemente do passado quando se cobrava uma “joia”. No mesmo ano de sua fundação, foi realizada a I Prova de Hipismo Rural de Nova Friburgo, em Conselheiro Paulino. Nas modalidades, marcha, cross, baliza, rodeio, laço e tambor. Leilão de animais e igualmente um espetáculo artístico estavam previstos na programação. Mas o Clube do Cavalo foi extinto. Atualmente, acontece a cada ano, em Nova Friburgo, a Cavalgada de São Jorge, já na sua décima quinta edição. Seus integrantes são cavaleiros pertencentes às classes populares. A cavalgada se inicia no curral do sol, provavelmente por influência do antigo prado de Conselheiro Paulino. O evento conta com a participação de cavalheiros e amazonas provenientes de vários bairros e de outros municípios. Os integrantes percorrem várias localidades de Nova Friburgo, passando inclusive pelo centro da cidade. Nessa ocasião, a imagem de São Jorge, padroeiro dos cavaleiros, abre o préstito, que faz uma procissão de aproximadamente sete quilômetros. Júlio do Cavalo, promotor do evento, prometia churrasco de confraternização com um animado forró aos que quisessem participar da cavalgada.



















A história da cavalaria em Nova Friburgo passa por um processo interessante: como vimos, o turfe era um esporte inicialmente das classes sociais mais abastadas e progressivamente ganhou popularidade. No Clube do Cavalo a montaria ganhou elementos de religiosidade, com a figura São Jorge, orago e padroeiro dos cavaleiros. Isso demonstra o profundo sentimento religioso do povo brasileiro, que acrescentou à festa mundana ritos religiosos, diferentemente das elites que nunca associaram a cavalgada ao santo que lhe é padroeiro.

Observação: Todas as fotos acima são da Cavalgada de São Jorge em Nova Friburgo.





































O JOGO DE MALHA E DE BOCHA



Os italianos começaram a imigrar para Nova Friburgo na década de 80 do século 19, e desde então, tiveram uma participação significativa na cidade, notadamente como construtores, prestadores de serviço e em atividades culturais. Ficando no ostracismo na sociedade friburguense a partir de meados do século 20, pode-se atribuir esse fato a Segunda Guerra Mundial(1939-45), que colocou italianos e alemães em Nova Friburgo em uma verdadeira saia justa, devido ao fascismo e ao nazismo, respectivamente. Através de leituras dos jornais do final do século 19, pode-se afirmar que a presença italiana em Nova Friburgo foi muito mais pungente. Eram uma verdadeira “falange”, como definiu certo jornal, e pode ter sido ofuscada, assim como a colônia portuguesa, pela construção do mito da Suíça Brasileira que privilegiava a imigração suíça. A matéria de hoje é para tratar da sociabilidade de homens simples, originária de uma prática esportiva própria de imigrantes italianos: o jogo de malha e de bocha. Ouvimos Antonio Senna, nascido em 1932, filho de um italiano cujo nome é homônimo ao seu. Carabineiro, natural de Veneza, o pai de Senna veio para o Brasil em 1917, juntamente com outros italianos, fugindo da guerra(1914-18). Em Nova Friburgo foi carroceiro, profissão abraçada pela maioria dos imigrantes italianos sem recursos. Fazia frete levando a carga de farinha de trigo da estação de trem (hoje Polícia Militar) e distribuía entre as padarias da cidade.





Em entrevista, Antonio Senna nos fala de uma forma de sociabilidade introduzida pelos imigrantes italianos em Nova Friburgo: o jogo de malha. Segundo ele, o jogo de malha é um esporte genuinamente friburguense, criado por imigrantes italianos. O primeiro clube de malha surgiu em 1940, por iniciativa Júlio Thurler, Júlio Nideck, e de outros desportistas. Os clubes possuíam sócios proprietários e sócios contribuintes. O jogo de malha era praticado em uma quadra de 32 metros de comprimento, de largura estreita, com dois círculos de 40x40cm nas duas extremidades da quadra. A pista era de chão, levando apenas uma fina camada de areia. A Praça Dermeval já serviu de pista de malha em certa ocasião. Jogava-se em dupla e cada uma ficava nas extremidades da quadra. O objetivo do jogo era acertar um toco de madeira, o “vinte”, de forma que a malha não saísse do círculo. Eram 30 minutos de jogo e fazia-se a contagem dos pontos no decorrer desse tempo. Havia dois juízes que ficavam do lado de fora, no meio da quadra, sentados à mesa e fazendo a marcação dos pontos. A malha, adquirida de Cia. Ferroviária Leopoldina, pesava de 1,200 Kg, aproximadamente, sendo feita de “aço rápido” que batiam, “faziam fundição” e passavam vela para dar mais efeito, adaptando-a. Cada jogador confeccionava sua própria malha. Era um jogo que envolvia muito mais a habilidade do que a força, não obstante o peso da malha.





Na primeira metade do século 20, havia os seguintes clubes de malha em Nova Friburgo: Conselheiro, Friburgo(próximo a Ferragens Haga), Paissandu(no Recanto da Beira Rio, no final da Rua Baronesa), Rendas, Olaria, Ypu, Catarcione, Floriano Peixoto (Perissê) e Amparo. Os clubes apesar de ter nomes dos bairros, não eram bairristas. Uma pessoa de um bairro poderia pertencer a um clube de outro bairro. Cada clube tinha um time com seis duplas. Os campeonatos eram extensos, durando oito meses, e se iniciavam no verão. As competições ocorriam em todas as quadras dos clubes de malha, realizadas nos fins de semana onde havia muita torcida. O campeonato envolvia ainda times de outros municípios, a exemplo de Cordeiro. Foram grandes nomes entre os jogadores de malha: Orestes, Mussi, Senna, Renne, Pecci, Machado, etc. Havia em Nova Friburgo além do jogo de malha a prática do jogo de bocha, ou melhor, “cancha de bocha”, segundo César Lívio, igualmente descendente de imigrantes italianos. Bocha é um esporte jogado entre duas pessoas ou duas equipes, sendo quatro bochas (bolas) para cada equipe, ou seja, duas para cada jogador. O esporte consiste em lançar bochas e situá-las o mais perto possível de um bolim (bola pequena), previamente lançado. O adversário por sua vez, tentará situar as suas bolas mais perto ainda do bolim, ou remover as bolas dos seus oponentes. Aparentemente complexo, quando nos ocupamos em descrever as suas regras por escrito, na realidade, é um jogo simples. Atribuiu-se o seu surgimento ao tempo do Império Romano e foi trazido pelos italianos para a América.
Mas essas práticas desportivas desapareceram em Nova Friburgo. Na década de 90 do século 20, o jogo de malha e bocha já não eram praticados em Nova Friburgo. E por que acabou? Foram perdendo o interesse, declara Antonio Senna. Mas buscar explicações sobre o desaparecimento dessas práticas mereceria uma outra matéria. O importante é registrar aqui a influência dos imigrantes italianos na sociabilidade do friburguense. Igualmente podemos atribuir ao “bolão” como uma prática desportiva introduzida pelos imigrantes alemães em Nova Friburgo. O cotidiano não é algo meramente residual, e é através de sua análise que podemos encontrar elementos que edificam construções históricas. No caso em epígrafe, a influência dos imigrantes italianos na sociabilidade de homens simples em Nova Friburgo.


FAMÍLIA SERTÃ:A DISCRIÇÃO AO DISTRIBUIR MERCÊ





Elisa Sertã

Diz-se que Getúlio Vargas experimentou certa feita, em Petrópolis, algumas frutas e ficou maravilhado. Os pêssegos eram doces e suculentos, de sabor inigualável. O presidente quis saber a sua origem. Eram de Nova Friburgo, produzido por Raul Sertã que cultivava no Sítio Santa Elisa, de sua propriedade, além de pêssego, uva, figo e castanha portuguesa. Desde então, o presidente encomendava sempre os frutos de Friburgo. Mas quem eram os Sertã em Nova Friburgo? A história dessa família se inicia em Nova Friburgo no Século XIX. Antonio Lopes Sertã(1851-1894) português originário da vila Sertã, era mascate, e vinha periodicamente a então Vila de Nova Friburgo carregado de mercadorias em lombo de burro, antes da vinda do trem em 1873. Comercializava seus produtos no Empório do rico português Joaquim Tomé Ferreira, que ocupava quase toda a Rua Gal. Argolo(Alberto Braune). Foi quando se apaixonou pela filha de Ferreira, Elisa(1858-1933), que logo correspondeu ao seu amor e vieram a casar-se constituindo uma família que se tornaria uma das mais tradicionais da cidade. Tiveram seis filhos: Licínio, Mário, Raul, Alfredo, Aníbal, Antonio e Hilda, sendo que os dois últimos morreram precocemente aos 21 e 22 anos, respectivamente. Elisa ficou viúva aos 46 anos, e continuou administrando as atividades da família. Vendeu o Empório, construiu várias casas para transformar em renda os aluguéis, prática tipicamente portuguesa, e segundo a família quadruplicou o patrimônio dos Sertã. Foi fundadora juntamente com Acácio Borges, Castro Nunes, Samuel de Paulo Castro e Henrique Éboli, da Caixa Rural, o primeiro banco de Nova Friburgo. No governo de Gustavo Lira da Silva, prefeito da cidade, emprestou dinheiro para as obras públicas cuja dívida era amortizada no imposto predial.

O solar dos Sertã, localizado na Alberto Braune e construído em 1900, foi edificado com pedras de cantaria mandados vir de Portugal por Antonio Lopes Sertã. Foi construído sobre um terreno que ocupava toda a extensão do lado direito da atual Duque de Caxias, até o Rio Bengalas. Atualmente no local do antigo solar encontra-se o supermercado ABC. Herança do período colonial, os altares eram comuns nas casas-grandes de fazenda porque era lá que se realizavam as missas. Posteriormente, a Igreja proibiu a realização de missas em casas particulares, mas a tradição dos altares nas residências foi mantida. Havia no solar dos Sertã três altares: um no salão principal, trono do Sagrado Coração, e dois no “quarto dos Santos”. Aí se faziam orações diárias pelos antepassados e amigos da família falecidos. Era um tempo em que os mortos eram lembrados e cultuados. Rezavam todas as noites em frente ao oratório. Quando se solicitava aos santos um pedido mais importante, como a cura de uma doença, ajoelhavam sobre o milho, de braços abertos, em sinal penitência. Mas o solar dos Sertã passava do religioso ao profano. Bailes de carnaval, “arrastas” e recepções enchiam de alegria o casarão da Alberto Braune. Anselmo Duarte, o galã do estúdio de cinema Atlântida, quando vinha a Friburgo freqüentava as festas do casarão da família Sertã.

Raul Sertã: Na ponta, a direita.

Os filhos de Antônio e Elisa Sertã que ficaram em Friburgo logo se destacaram. Mário Sertã, médico, inaugurou a primeira Casa de Saúde particular em Friburgo, localizada onde hoje é o Hotel Montanhês. Raul Sertã, além de seus premiadíssimos frutos em exposições agrícolas, trouxe a primeira Companhia Telefônica para a cidade sendo o maior acionista. Mas o que caracterizou a família Sertã foi a caridade e a discrição. O casarão da Madre Roseli de propriedade de Josephina Marques Braga Sertã, casada com Mário Sertã, foi doado para abrigar meninas órfãs e Raul Sertã se ocupou em financiar as obras para adaptar o lindo sobrado residencial para sua nova função. O Nova Friburgo Futebol Clube deve aos Sertã o seu estádio. Fizeram a doação do terreno visando promover o esporte que nascia na cidade no início do século XX: o futebol. Desde o Império passando pela República, o governo limitava a assistência de saúde aos pobres somente com a doação de remédios. Não construíram hospitais públicos até metade do século XX. As Santas Casas de Misericórdia foram criadas para suprir essa deficiência do Estado e acolher os doentes pobres em suas instituições de caridade. Raul Sertã foi quem doou o terreno para a construção da Santa Casa de Misericórdia em Nova Friburgo, cuja manutenção e administração era feita por homens abastados da cidade e a população em geral. A Santa Casa de Misericórdia foi desapropriada no governo de Paulo Azevedo, transformada em hospital municipal e constitui o atual Hospital Raul Sertã. O terreno onde hoje é instalada o Fábrica Ypu foi doado por Elisa a Maximiliam Falk para a construção da fábrica. O pai de Elisa deixou-lhe como herança uma extensa propriedade que ia do atual Bairro Ypu até Theodoro de Oliveira. Elisa soube dividir com a cidade e doou parte do terreno para a instalação da referida fábrica no intuito de promover o progresso em Friburgo. Os Sertã auxiliaram ainda nas obras sociais da Instituição Santa Dorotéia, entre outras.
Elisa Sertã faleceu em 1933, aos 76 anos de idade. Quando da passagem de seu cortejo fúnebre pela rua principal até o jazigo da família, as casas comerciais e residências cerraram as portas e janelas, em sinal de respeito a grande benemérita que auxiliara no progresso e fizera caridade em Nova Friburgo. Dr. Feliciano Costa, quando prefeito, teceu-lhe preito dando-lhe um nome de rua. O que chama a atenção é como as famílias supriam, pelo menos até a primeira metade do século XX, funções e deficiências do Estado, no caso em epígrafe, o município de Nova Friburgo.

O primeiro time de futebol em Friburgo, onde os sertã participavam

O auxílio assistencial a indigentes e órfãos, o fomento da atividade industrial, o financiamento de obras públicas, a promoção de atividades de lazer foram espaços que tiveram que ser preenchidas por particulares. Os Sertã tiveram a generosidade de dividir seu vasto patrimônio com os desvalidos e com o desenvolvimento da cidade. E o que é mais edificante, foi a sua discrição ao distribuir mercê.

Entrevista realizada com Maria do Carmo Sertã Passos, Margarida Sertã Meressi e Lúcia Sertã em julho de 2010.

ASCENSÃO E QUEDA DO FUTEBOL EM FRIBURGO

“À Câmara Municipal foi dirigida, merecendo largo despacho favorável, um requerimento dessa novel sociedade que moços de nossas melhores famílias acabam de constituir. Com verdadeiro prazer noticiamos essa criação que, francamente, era a muito esperada, pois não se compreendia bem como tendo o football empolgado os rapazes no Brasil, não se influíssem com eles os friburguenses aqui, que esse sport tem toda a sua razão de ser. Parabéns aos seus iniciadores!”

Foi assim que o jornal A Paz, de 07 de dezembro de 1913, noticiou o primeiro clube de futebol em Nova Friburgo. Mas quem seriam estes rapazes das “melhores famílias” friburguenses? Em 26 de abril de 1914, Ralim Abud juntamente com os Spinelli, Sertã, Van Erven, Braune, Mastrângelo, entre outros, fundaram o Friburgo Football Club, formado por rapazes da elite da cidade, adotando as cores vermelho e branco em seu time. Já no ano seguinte, em 05 de dezembro de 1915, é criado o Esperança Futebol Clube, formado por operários da cidade. Surgem divergências dentro Friburgo Futebol Clube e um grupo se insurgem, formando em 14 de março de 1921, o Fluminense Atlético Clube. Curiosamente, usava as cores azuis e brancas e não tricolor como seu homônimo carioca. O Fluminense foi um clube que até 1942, conquistou a hegemonia do futebol friburguense, porém, foi o Friburgo Futebol Clube que arrebanhou o maior número de títulos nos campeonatos. O Fri-Fru era a partida mais disputada. Em 1925, surge o Clube Sírio-Libanês, patrocinado pela colônia de libaneses, cujo uniforme era idêntico ao do C.R. Flamengo do Rio. Serão estas quatro equipes que irão formar, neste mesmo ano, a Liga Friburguense de Desportos, outrora Associação Serrana de Esportes Atléticos(ASEA), fomentando os campeonatos na cidade.


Eis a grande largada e triunfo do futebol friburguense: os campeonatos interclubes que depois resultarão na participação nos jogos intermunicipais, dando os times de Friburgo um show de bola. O primeiro campeonato interclube foi em 1925 e quem venceu foi o Fluminense. A rivalidade foi tamanha que no ano seguinte não houve campeonato. Em 1927, voltaram os jogos interclubes e o Fluminense ganhou. Novamente dois anos sem campeonato, devido a dissensões e somente a partir de 1930, voltam os jogos interclubes a ocorrer na cidade. Devido aos campeonatos, o futebol se dissemina em Friburgo e começam a surgir os times de bairro, da segunda divisão. Com características bairristas surgem o Esporte Clube de Santa Luiza, do Cônego; o Esporte Clube São Pedro, de Duas Pedras; o Amparo Futebol Clube(1922); o Futebol Clube Conselheiro Paulino; o Serrano Futebol Clube, de Olaria; o Esporte Clube Vilage(1948); o Esporte Clube Saudade; o Esporte Clube Filó(1940); o Flamenguinho; o América Futebol Clube, alguns com existência efêmera, a exemplo do Esporte Clube Brasil(1918), que durou apenas nove meses.


Como os clubes se mantinham? Estes clubes viviam praticamente de campanhas, a exemplo da venda de rifas. Alguns tinham o denominado sócio- contribuinte, que pagava uma mensalidade. A partir de década de 60, por exemplo, o Friburgo Futebol Clube passou a ter sócios-proprietários, que adquiriam títulos dos clubes. Mas percebe-se mesmo que o que mantinha estes clubes era o mecenato, ou seja, particulares que doavam dinheiro espontaneamente. Foram importantes mecenas do futebol de Friburgo as famílias Guinle, Sertã e Spinelli. César Guinle doou a área onde é hoje o campo do Friburguense Atlético Clube, homenageando seu pai, Eduardo Guinle com o nome do estádio. O então prefeito César Guinle doou tanto propriedades particulares como áreas pertencentes à municipalidade para diversos clubes. A família Sertã doou o terreno do atual estádio do Nova Friburgo Futebol Clube. Álvaro de Almeida, que foi deputado e vice-prefeito, foi um empresário do ramo de madeiras que se tornou outro mecenas do futebol. Trouxe muitos jogadores do interior do estado empregando-os em sua empresa e igualmente assim fizeram os Spinelli. Alguns ex-jogadores que se tornaram bem sucedidos, a exemplo da Amâncio Mário de Azevedo, que foi prefeito na cidade, também ajudou o futebol. O voluntariado e o amor a este esporte tinham exemplos surpreendentes. João Caputo, de família de comerciantes italianos tradicionais da cidade, todos os dias, às 6:00 horas da manhã, ia ao campo do Fluminense molhar a grama para que ela pegasse.


Era também um tempo em que os jogadores não tinham qualquer remuneração, recebendo no máximo o “bicho”, ou seja, um prêmio, obtido pelos clubes com a renda dos jogos. Havia rotatividade de jogadores entre os clubes? Havia sim. Quando um jogador ia se casar ele pedia os móveis de quarto, um fogão ou uma bicicleta para passar de um time a outro. Mas a moeda mesmo era um emprego. Quando se queria contratar um bom jogador, oferecia-lhe um bom emprego e trazia-o para o time. Valia tudo para se ter um “cobra” no clube. Para um jogador que precisou passar no exame escolar, conseguiu-se a prova na escola e ele “treinou” antes em casa. E não é que foi reprovado? O período de 1940 a 1970 foi o auge do futebol em Friburgo, nos informa Rodolfo Abud. Domingo era um dia consagrado ao futebol para todas as classes sociais, transformando-se as “belas praças de sports” em espaço de sociabilidade de homens, mulheres e crianças. Os jogos iniciavam às 8:00 horas da manhã, aos domingos, jogando as categorias infanto-juvenis. As famílias assistiam aos jogos pela manhã e ao meio-dia iam almoçar em casa. Retornavam e assistiam aos jogos até as cinco horas da tarde. Cada um destes clubes possuía quatro categorias: infantil, juvenil, segundo e primeiro quadro. Era um tempo em Friburgo de vidraças quebradas e desespero das donas-de-casa, pois em cada terreno baldio surgia um campo de futebol. No burburinho da cidade circulavam nomes como Juca, Rudilardo, Negrinhão, Bichinha, Alemão, Chico Pau de Fumo, Banana, Cabrita, Totó, Futrica, entre outros. As bandas Euterpe e Campesina participavam de todos os acontecimentos festivos envolvendo o futebol. Ângelo Ruiz, que possui uma detalhada pesquisa sobre a história do futebol em Friburgo, nos informa que “os rapazes da cidade logo abraçaram o futebol, pois já estavam fartos de pic-nics, bailes, namoros melosos e outros passatempos da época. Mas as mocinhas casadoiras seguiram-lhes o rastro e passaram a assistir às partidas de futebol”. O “belo sexo” se fez presente, tornando-se madrinhas ou rainhas dos clubes e foi lembrado no hino do primeiro clube da cidade, o Friburgo Futebol Clube, em versos de trova: “As moças todas de improviso, formosas vêm nos ofertar, a flor gentil do seu sorriso, a doce luz do seu olhar”.


Mas o futebol era somente glaumour? Como todo esporte, o futebol iniciou sua prática entre rapazes de classes abastadas, excluindo os remediados, ou seja, as classes populares. Porém, a classe operária de Friburgo, que não poderia participar do Friburgo Futebol Clube, seleto club da high society friburguense, quando este se fundara, logo reagiu e formou o Esperança Futebol Clube. O fato de ter surgido um time de operários surpreende, pois o futebol nesta época era um esporte exclusivamente praticado pela elite. Ulteriormente, quando o Friburgo Futebol Clube passou a aceitar membros das classes populares e negros, um determinado grupo se desligou do clube e fundou o Fluminense Futebol Clube. Outra situação envolvendo a intolerância racial ocorreu com o Esperança. Este clube escolhera inicialmente o nome de União e suas cores pretas e brancas. Mas o preto logo despertou a ironia e o sarcasmo por parte de um árbitro. Como havia muitos mulatos no time, ele associou a disposição das cores preta e branca à mulatice dos jogadores, dizendo: “Preto que quer ser branco, não é nem uma coisa nem outra.” A expressão do árbitro passou a ser motivo de galhofa dos adversários e daí o clube mudou o nome para “esperança” e adotou as cores verdes e brancas.

Somente a partir de 1950, foi que o futebol se democratizou, não havendo mais tensões entre classes sociais e igualmente entre etnias. Foi a Rádio Cipó que incrementou o futebol na cidade na voz de locutores como Rodolfo Abud, com os programas “Resenha Esportiva” e “Esportes no Ar”. Premiavam-se os melhores jogadores do ano. O futebol faz surgir um jornal esportivo na cidade, de propriedade de Dante Lívio, que circulou por pouco tempo. Nas resenhas esportivas dos jornais a terminologia era inglesa: sport, team, match, corner, scratchman, placard, club e é óbvio football. Afinal, são os ingleses os pais do futebol e que o trouxe ao Brasil.
Em 1979, o futebol em Friburgo se profissionaliza. Promove a fusão do Fluminense com o Serrano e torna-se o Friburguense Atlético Clube, atualmente na primeira divisão do Campeonato Carioca. No entanto, a profissionalização lamentavelmente extingue os demais clubes de futebol, pois os campeonatos da cidade ficaram desarticulados. Desaparece a cultura do futebol da cidade, ou como definiu Ângelo Ruiz os “clubes da terra”, onde os jogadores saíam das fábricas, do comércio, dos bancos e se transformavam em celebridades na cidade, tendo alguns inclusive “fãs”. O futebol local desapareceu e as cores dos outrora clubes, um verdadeiro arco-íris, se esmaecem. As vozes das famílias, os “hurras” e os fogos de artifício das torcidas nos campos de futebol se calam. O Friburgo Futebol Clube, o “primo rico do futebol friburguense”, se fundiu com o Esperança dando origem ao Nova Friburgo Futebol Clube, em 16 de setembro de 1979, completando 30 anos. Este clube conta atualmente com um expressivo patrimônio, possuindo além do campo e sede com 10.000m² no centro da cidade, uma vasta área social de 50.000m² em Conselheiro Paulino, com parque aquático. No entanto, o campo de sua sede esportiva no centro da cidade transformou-se em estacionamento e o seu maior patrimônio, o seu time de futebol, não existe mais.

Mas a história do futebol em Friburgo nos deixa uma lição. Muitas vezes, divertimentos inocentes, como a formação de clubes de futebol, reproduzem as relações sociais de uma cidade. É possível que “cidade partida” entre ricos e pobres, negros e brancos, depois se desdobrando em bairrismo, fosse um reflexo da sociedade friburguense à época. Levavam para os clubes de futebol os conflitos de classe e preconceitos, sem qualquer fairplay. Em 1914, quando surgiu o primeiro time, explodia a primeira guerra mundial e em Friburgo, concomitantemente, se travava nos campos de futebol, um verdadeiro Campo de Marte, uma batalha contra o preconceito e a intolerância. Mas não foi possível levar adiante este aparthaid social. Três décadas depois de formados os primeiros clubes, o futebol aproximou a todos, misturando-se raças, derrubando barreiras sociais, reunindo as famílias, atraindo as mulheres e implodindo a arquitetura daquilo que Zuenir Ventura chamou de “cidade partida.”

Fontes: Rodolfo Abud, Carlos Arnaldo Berbert e Cadernos de Cultura de Ângelo Ruiz.

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