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A Hidroterapia: A cura pela água

Abaixo, imagens do antigo Estabelecimento de Hidroterapia e do Hotel Central. Atualmente, Colégio N. S. das Dores.










Vincenzi Priessnitzovi(1799-1851)



Abaixo: fotos da estação de águas de Caxambu - MG


















Abaixo, estação das águas de São Lourenço - MG




A hidroterapia, terapêutica pela água fria, já era conhecida e empregada nos séculos passados. Deve-se a Eduard Hallmann (1813-1855), de Hanover, Alemanha, o estudo científico da hidroterapia. No entanto, como método baseado em princípios racionais e científicos foi adotada pela primeira vez no século XIX, na Europa, por Vincenzi Priessnitzovi(1799-1851). Priessnitzovi nasceu em Gräfenberg, que atualmente faz parte da República Checa. Em 1827, fundou um estabelecimento hospitalar destinado ao tratamento de doenças crônicas onde a água fria era a única terapêutica adotada. Priessnitzovi encontrou adeptos em várias partes do mundo e o método terapêutico da hidroterapia ficou conhecido e praticado em toda a Europa e fora dela. No livro Meine Wasserkur “Meu Tratamento pela Água”, publicado em 1887, pelo clérigo Sebastian Kneipp, o sacerdote alemão ensinou que a água fornecia à força vital humana elementos de combate a diversas enfermidades, tais como bronquites, reumatismo, neurastenia, etc. A terapêutica hídrica encontrou adeptos principalmente entre os pacientes das classes abastadas. No Brasil, um dos primeiros e principais prosélitos foi o dr. Antônio Ildefonso Gomes(1794-1859), cirurgião, estudioso de botânica e tão devotado ao sistema que até ganhou, no Rio de Janeiro, o cognome de “Doutor da água fria”. Publicou em 1848, o seguinte trabalho: “Manual de hidro-sudo-terapia ou diretório para qualquer pessoa em sua casa curar-se de uma grande parte das enfermidades que afligem o corpo humano, não empregando outros meios que suar, água fria, regime e exercício.”


Em Nova Friburgo, podemos atribuir a Gustavo Leuenroth, ex-mercenário alemão, a primeira “Casa de Banhos” em meados do século XIX. Com a hidroterapia preconizada por conceituados médicos nacionais e estrangeiros, possuindo uma base científica, apoiado por políticos e tendo como clientela as classes abastadas, era natural que se expandisse. Em Petrópolis, o francês Antonie Court instalou, em 1877, o Imperial Estabelecimento Hidroterápico, que o Imperador Pedro II frequentava amiúde. Já em Nova Friburgo, foi um italiano, natural de Nápolis, quem trouxe as qualidades terapêuticas da hidroterapia para a então vila. Tratava-se de Carlos Eboli(1832-1885), médico formado em 1856, pela Faculdade de Paris, sócio correspondente da Imperial Academia de Medicina. Eboli edificou, em Nova Friburgo, o que seria considerado o maior estabelecimento de hidroterapia da América Latina: o Estabelecimento Sanitário Hidroterápico.


Em 1872, inaugurou esse estabelecimento em sociedade com o médico Fortunato Correia de Azevedo. Utilizava as denominações de Casa de Saúde, Casa de Duchas, Casa de Banhos e como vimos, Estabelecimento Sanitário Hidroterápico. Não bastasse a ousadia de seu projeto, Eboli nos legou o lindo prédio em estilo neoclássico que é o Colégio N.S. das Dores. Nesse exato local, funcionava o Hotel Central, que na realidade, era o prédio principal, tendo como anexo o Estabelecimento Hidroterápico. O hotel possuía acomodações para 180 hóspedes. O Estabelecimento Hidroterápico tinha um escritório na Rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, onde os clientes poderiam ter uma consulta com o Dr. Ribeiro de Almeida e obter igualmente informações sobre a hidroterapia. Foi o primeiro prédio na cidade a utilizar luz elétrica, isso quando a eletricidade só chegaria a Nova Friburgo mais de 30 anos depois. Um investimento de tal monta na então pacata vila de Nova Friburgo devia-se ao fato de o município já possuir notoriedade em relação às suas qualidades climáticas, salubridade e possivelmente fartos e notáveis mananciais de água, pois, do contrário, não se justificaria um estabelecimento de hidroterapia. Clima e saúde, eis um paradigma no inconsciente coletivo oitocentista. A hidroterapia era preconizada para a cura dos que sofriam de enfraquecimentos, dispepsias, moléstias nervosas, tuberculose, beribéri, reumatismo, bronquite e outras moléstias. O tratamento à base de hidroterapia, associada às qualidades do clima de Nova Friburgo, atraiu uma chusma de enfermos e turistas à cidade, sendo o mais ilustre de todos, o imperador D. Pedro II e a Princesa Isabel, que procurou a hidroterapia para se curar de sua suposta infertilidade.


Carlos Eboli faleceu em 1885, aos 53 anos de idade e, desde então, o estabelecimento passa a enfrentar dificuldades financeiras mesmo com a administração de novos sócios. A Marinha do Brasil pretendeu adquirir esse prédio, pois já fazia uso da hidroterapia para a cura de seus marujos vítimas do beribéri. No entanto, Rui Barbosa, que era frequentador habituè em Nova Friburgo, solidarizou-se aos friburguenses que não desejavam um “centro de peste” na cidade salubre e advogou contra tal aquisição. No entanto, em 1895, dez anos após a morte de seu timoneiro, Carlos Eboli, o Estabelecimento Hidroterápico e o Hotel Central entram em processo de falência e são penhorados pelo Banco Comercial do Rio de Janeiro, através de uma Ação Hipotecária. Como sabemos, hoje pertence à Irmandade de N. S. das Dores, que manteve apenas o prédio do hotel. A hidroterapia faz parte de uma importante fase da história da medicina no mundo, em que se atribuía a cura de diversas doenças à utilização desse método, numa época em que a ciência médica dava os seus primeiros passos. E Nova Friburgo pode se orgulhar de ter escrito um capítulo dessa importante parte da história da medicina.

MEDICINA E CLIENTELISMO:OS PAIS DOS POBRES




A administração colonial e o governo imperial nunca deram ao povo brasileiro uma assistência médica-hospitalar condigna. Desde o período colonial a assistência hospitalar era realizada pelas Santas Casas, hospitais fundados e mantidos pelas Irmandades da Misericórdia. Eram associações independentes do poder público, compostas por indivíduos das classes abastadas, católicos, que contribuíam com mensalidades, anuidades, donativos, esmolas e legados para o custeio das despesas hospitalares das classes pobres e miseráveis. Em Nova Friburgo, no primeiro quartel do século XX, foi criada a Santa Casa de Misericórdia para dar assistência médico-hospitalar às classes populares. Mas como se fazia a assistência hospitalar antes das Santas Casas de Misericórdia? Desde a sua fundação em 1820, a Câmara Municipal fornecia gratuitamente remédios aos “indigentes”, assim se referindo a população pobre da então vila da Nova Friburgo e igualmente o “médico de partido”, pago pelos cofres públicos, que atendia aos enfermos. Em caso de uma doença mais grave e principalmente as infecto-contagiosas, alugava-se um imóvel e remuneravam alguém para que assistisse ao doente até a sua convalescença. Nos jornais do fim do século 19, os médicos anunciavam o horário em que atenderiam aos clientes pagantes e o horário que dariam assistência gratuita aos pobres. Logo, os médicos espontaneamente supriam a deficiência do governo em fornecer profissionais de saúde às classes populares. Por isso, muitos deles receberam a alcunha de “pais dos pobres” devido a essa prática assistencialista.
No regime republicano, o bacharelismo(advogados) fica em baixa e valoriza-se mais os médicos e engenheiros como gestores públicos. Afinal, as futuras urbs necessitavam de engenheiros para melhor planejar ruas e praças e médicos para combater as epidemias de cólera, varíola e febre amarela que grassavam nas cidades. Foi no início do governo republicano que Nova Friburgo teve como primeiro gestor público o médico Ernesto Brazílio. Não havia à época a figura do prefeito e o presidente da Intendência e depois da Câmara é quem tinha a função do executivo municipal. Ernesto Brazílio foi presidente da Câmara por longos onze anos, no período de 1897 a 1908. Fazendo uma passagem pela história de Nova Friburgo no século XX, encontraremos muitos médicos na liderança política local no cargo de prefeitos, a saber: Galdino do Vale Filho, Feliciano Costa, Amâncio Mário de Azevedo e Vanor Tassara Moreira. É surpreendente que entre os anos de 1955 a 1977, esses profissionais da saúde se revezaram continuamente como prefeitos do município, apenas interrompida por uma curta gestão de Heródoto Bento de Melo, que assumiu como interventor no golpe militar de 1964. Feliciano Costa foi prefeito em dois mandatos (1955-1959 e 1971-1973) e Amâncio Mário de Azevedo em três mandatos (1959-1963; 1967-1971; 1973-1977). Ambos foram igualmente eleitos para o legislativo estadual e Amâncio Azevedo também para federal. Se nos estendermos nessa análise, constataremos que o farmacêutico Alberto Braune e o médico Dermeval Barbosa Moreira(pai de Vanor Moreira) foram figuras extremamente expressivas e carismáticas em Nova Friburgo, provocando verdadeira comoção na cidade por ocasião de seu falecimento. Cumpre assinalar que nos últimos anos tivemos duas gestões municipais da médica Saudade Braga. Finalmente, a Câmara Municipal deu o nome de sua nova sala de sessões a um médico, o Dr. Jean Bazet, o primeiro médico da vila.
Qual seria a origem dessa simbiose medicina e política em Nova Friburgo? Inicialmente havia um sacerdócio entre a classe médica. Com o fim da República Velha e consequentemente o fim do coronelismo abriu-se uma brecha, um vácuo de poder. É possível que alguns médicos desde então se empenharam em ocupar esse vácuo de poder e vislumbraram no assistencialismo, até então desinteressado, como uma oportunidade de captar as simpatias das classes populares. Logo, o assistencialismo foi o ovo da serpente e a moeda de troca nas eleições. Desenvolveu-se, por conseguinte, a prática do clientelismo gerando uma rede relações que é sempre acionada por ocasião de suas candidaturas a cargos públicos. No cotidiano dos hospitais e centros de saúde, uma cirurgia ou um exame passando a frente de outros, um remédio aqui, uma ambulância acolá, enfim, uma engrenagem de favores e mercês sobre a miséria humana transforma esses profissionais da saúde como grandes benfeitores. Depois do favor, que deveria ser obrigação, já que utilizam a máquina pública, a eterna gratidão de todos familiares do paciente e a certeza do voto nas eleições.
Talvez seja essa a explicação para a formação de uma casta de políticos médicos. Não fosse deficiente a assistência pública médico-hospitalar é possível que esses profissionais não encontrassem o espaço que tiveram ao longo de nossa história no cenário político. Mas isso não é prerrogativa apenas de Nova Friburgo. Esse fenômeno ocorre em quase todo o território nacional. Historicamente, até o século XIX, a figura social do médico era relativamente desprestigiada. Sob o juramento a Hipócrates ou talvez a Asclépio, deus da medicina, os médicos reverteram seu papel na sociedade brasileira. Como observou Gilberto Freyre, “o confessor e o filho padre foram sendo substituídos por essa figura carinhosa e firme, doce e tirânica, o médico de família”. E dos lares das famílias brasileiras foi um salto para a tribuna política.


SANGUE DE DRAGÃO, ESPÍRITO DE SEIS ONÇASE RESINA DE PAU SANTO





Nos primórdios da colonização, ainda pouco numerosas, lojas e boticas venderam remédios e “mezinhas”, aplicaram, alugaram ou venderam “bichas” (sanguessugas) e manipularam “récipes”. Nos séculos XVII e XVIII, as boticas no Brasil já se assemelhavam às congêneres européias. Geralmente ocupavam dois compartimentos de uma casa. O boticário residia nos fundos, só ou com a família. Na sala da frente, ficavam as drogas expostas à venda. Enfileirados sobre prateleiras de madeira, viam-se boiões e potes etiquetados, contendo ungüento e pomadas; frascos e jarros de vidro ou de estanho, igualmente etiquetados, com xaropes e soluções de variadas cores; caixinhas de madeira com pílulas e o mobiliário consistia em balcões, mesinha e bancos. Os boiões e frascos, de boa louça, ostentavam artísticas decorações.







Nos fundos, uma sala de manipulação ou laboratório, vedada ao público, apresentava uma verdadeira babel de móveis e utensílios como potes e fracos cheios dos “simples” ou símplices medicinais, copos graduados, cálices, botijas, cântaros, funis, facas, bastões de louça, almofarizes ou grais, alambique, destiladores, cadinho, retortas, panelas, tenazes e balanças. As medidas de peso utilizadas pelo boticário eram o quartilho, o arrátel ou libra, a canada, a onça, a oitava, o escrópulo e o grão. Nesse laboratório se preparavam as fórmulas farmacêuticas. Ao lado dos remédios, as boticas ofereciam ao cliente as sanguessugas, apisteiros, semicúpios, comadres e até mesmo os frangos para o caldo das dietas.



Os medicamentos eram prescritos sob variadas formas, para uso interno e externo. Enquanto que alguns desapareceram, outras existem até hoje. A “poção”, composição líquida ou xaroposa, tomada às colheradas; o “pó”, no qual as substâncias são reduzidas a partículas finas; o “xarope”, cuja base é a água com açúcar; a “infusão”, na qual a água quente extrai o princípio ativo do simples; o “elixir”, tendo o álcool como veículo; o “decocto” ou a “decocção” ou o “cozimento”, quando o princípio ativo é obtido cozendo-se a substância líquido em ebulição; a “apózema”, cozimento de vegetais, adoçado; o “eletuário”, composto de pós, extratos, veiculados em xarope de açúcar ou de mel, contendo em certas preparações, o ópio; a “pílula”, sólida e de formato esférico; a “pomada”, apresentando como veículo a banha de porco ou de outro animal; o “ceroto”, com o óleo e a cera por base; o “bálsamo”, composto de vegetais narcóticos, com o azeite ou outro óleo por veículo; a “confeição”, uma mistura de várias substâncias; o “opodeldoque”, uma mistura para uso externo; o “unguento”, gorduroso e à base de resinas; o “sinapismo”, um tópico de ação revulsiva, como o “cataplasma” de mostarda; o “emplastro”, outro tópico de ação emoliente; o “vesicatório”, um irritante destinado a produzir vesículas na pele; o “cáustico” e o “cautério”, onde se utilizava o ferro e pedra incandescentes, e com esses expedientes dolorosos tentava-se a exteriorização da doença, com o escoamento dos maus humores; e finalmente o “revulsivo”, outro irritante destinado a expelir humores.



Em 1824, apenas quatro anos depois da fundação da vila de Nova Friburgo, faleceu o boticário Léopold Boelle, nomeado pelo rei D.João VI. Em razão disso, foi realizado o “seqüestro” dos bens da botica contendo utensílios, drogas e “trastes”. Graças a esse inventário, podemos penetrar e conhecer uma botica de Nova Friburgo do início do século XIX, e nos aventurar a procurar entender que função tinha cada uma daquelas drogas.



Encontravam-se na botica: bálsamo católico,copaíba, vinagre de chumbo, óleo de amêndoa doce, espírito de seis onças, azeite doce, espírito de casca de laranja, resina de pau santo, aguarrás, óleo de linhaça, óleo de lavanda, potassa crua, éter, óleo de canela, almíscar, óleo de rícino, óleo de hortelã, óleo de cravo, tártaro emético, sal amoníaco, ceromel(sic), sangue de dragão, sulfato de zinco, pó de Joana, azougue, cremor tártaro, sal de globo, sal amargo, oximel, pomada oxigenada, pomada mercurial, tintura de bogari composta, ácido sulfúrico, goma guta, estoraque líquido, ácido muriático, água forte, óleo de linho, pedra pomes, manganês, semente de mostarda, almíscar do Brasil, arsênico, jalapa, serpentárias, pedra lipes(sic), açafrão, quentárias(sic), ácido cavalinho, coluquentes(sic), carbonato de potássio, carbonato de amoníaco, cural, pimenta do reino, água rosada, espermacete, elevo negro, enxofre em canudo, fezes de ouro, semente de Alexandria, sulfato de magnésia, raízes de genciana, poara, extrato de alcaçuz, goma de alcatifa, emplastro mercurial, almíscar de Judá, alvaide, emplastro de molioto, zarcão, sal de chumbo, calomelanos, ópio, azebre, resina de jalapa, raiz de terebintina, goma de alvão, raiz de labaça, raiz ranger, canela, manjericão e raiz de salsa da terra. A botica continha ainda 58 livros de farmacêutico “de grandes qualidades”, em língua estrangeira. E assim, conhecemos um pouco do que os nossos antepassados utilizavam, em Nova Friburgo, no início do século XIX, para se curar de suas enfermidades.







O PAI, A POLÍTICA E A VIDA SOCIAL

Praça que levou o nome do médico Dermebal Barbosa Moreira


Derly Moreira Chaloub nasceu em 1921 e tinha doze anos quando veio residir em Nova Friburgo. Sua família é originária de Conceição de Macabu. Seu pai foi um dos médicos mais cultuados na história de Nova Friburgo: Dr. Dermeval Barbosa Moreira. Falecido em 06 de maio de 1974, aos 74 anos, seu funeral ilustra bem a consideração que gozava junto às classes populares onde concorreram milhares de pessoas. Quando se encontrava na agonia de seus últimos momentos de vida, o povo se aglomerou na Praça Paissandu, em frente ao hospital onde ele se encontrava internado. Sob pressão da população, Derly autorizou, mesmo sofrendo com a agonia de seu pai, que cada popular passasse, um a um, em frente à porta do quarto do Dr. Dermeval para a derradeira despedida. No préstito fúnebre, as enfermeiras foram todas de branco com uma rosa vermelha à mão. Moças jogavam pétalas de rosa sobre o caixão. Muitos até imaginam que Dr. Dermeval exerceu um cargo de vereador ou prefeito no município, mas ele nunca se imiscuiu na política local. Foi o último daquela cepa de médicos que misturava a profissão com o sacerdócio, pois tinha um local e horário para atender gratuitamente aos pobres, uma prática muito comum entre os médicos até o primeiro quartel do século XX. Daí a sua popularidade e ser considerado o “pai dos pobres”.

Poucos sabem, mas quem construiu o prédio que abriga a UERJ foi o Dr. Dermeval juntamente com o seu cunhado, edificando no local, conhecido por Cascata, o Hotel Cassino. No entanto, como o jogo foi proibido no governo Dutra, o prédio virou um elefante branco. Dr. Dermeval então negociou com médicos tisiologistas do Rio de Janeiro para abrigar no Hotel Cassino mais um sanatório para tuberculosos na cidade. Augusto Spinelli, que era vereador, mobilizou a população contra essa venda, posto que Nova Friburgo iria se transformar em uma “cidade sanatório”. Encetou-se então negociações com a Fundação Getúlio Vargas e o prédio acabou virando um estabelecimento de ensino.

Derly Chaloub não tem boas recordações da política. Seu irmão Vanor foi deposto no regime militar acusado de ser comunista. Recorda-se de uma noite em que a diretora da telefônica, que gostava muito do Dr. Dermeval, foi a sua residência e relatou que ouvira uma ligação de uma pessoa importante do gabinete do Dr. Vanor ligar para a Marinha, no Rio de Janeiro, acusando o seu irmão de comunista. Foi ela quem recebeu a denúncia. Era tarde da noite, e não quis incomodar seu pai, mas no dia seguinte, narrou-lhe o fato. Dr. Dermeval foi juntamente com o seu filho, o então prefeito Vanor, ao Sanatório Naval para esclarecerem os fatos e aquela denúncia. Mas as denúncias continuaram e seu irmão perdeu o mandato de prefeito manu militaris.

Quando perguntada sobre a vida social no passado, Derly respondeu que a população de Friburgo era fria como o clima, e que antigamente não acontecia quase nada. Mas quando nos fala de seus anos dourados, percebemos que não era bem assim. Além dos bailes que freqüentava amiúde no Hotel Cassino(já esse hotel era localizado onde é hoje o Edifício União) e do Xadrezinho, Derly participava de uma orquestra de acordeão da cidade. As sessões de cinema e os passeios na praça eram inesquecíveis. Havia um trem que vinha de Porto Novo e passava às nove horas da noite pela praça. Era chamado de “vassourinha”, isso porque quando ele passava, todas as moças “decentes” tinham que ir para casa. Derly ri quando se recorda dos tipos de rua engraçados da cidade: o “Olímpio Errado”, que colocava a frente da calça para trás e o povo gritava: “Olímpio Errado”; ou ainda do “Chandoca” que tocava banjo, muitas vezes, à noite, debaixo de sua janela.
No cinema Leal, antigo Teatro D. Eugênia, com a chegada do verão e das férias escolares, Derly e as Zamith, Braunes, Dutra, Carneiro e Carrapatoso promoviam apresentações teatrais. Ensaiavam umas quatro peças por temporada sob a direção Moacir Peixoto, que era de Friburgo. Os turistas gostavam muito dessas apresentações, “era muito caprichado”, recorda-se. Peixoto trazia do Rio de Janeiro o cenário e o figurino. O grupo participava do concurso de teatro amador no Ginástico Português, no Rio de Janeiro e se apresentava ainda no Teatro Municipal de Niterói. É interessante como desde o final do século XIX, a elite carioca e friburguense tinham no teatro amador, uma de suas formas de sociabilidade. Não se denominavam atrizes, mas “amadoras”. Havia ainda uma orquestra na cidade, orientada por Sérvio Lago, de uma família de músicos, e Derly também tocava na orquestra como pianista. Os músicos também participavam das apresentações teatrais. Em suas memórias, Derly Moreira Chaloub relembra a dor pela perda de muitos familiares queridos. Mas em contrapartida, o sorriso e a alegria no semblante quando se recordou da sua juventude e dos tipos mais ordinários e divertidos do cotidiano da cidade: o Olímpio Errado e o Chandoca.
Texto baseado nas memórias de Derly Moreira Chaloub, entrevistada em 2010.

VENDEM-SE BICHAS


Em ambas as fotos acima, aplicação de sanguessugas, prática até hoje cultivada por determinados médicos.


“As bichas grandes do Dr. E. Bouchard, único depósito das verdadeiras bichas Hamburguesas” é um anúncio que pode ser encontrado no jornal O Nova Friburgo de 12 de junho de 1904. Para o leitor que queira se divertir passando uma vista d´olhos nos anúncios dos jornais do início do século XX, disponíveis no site D. João VI, talvez esse anúncio cause estranheza. Mas afinal o que eram bichas naquela época? Bichas ou sanguessugas é um verme anelídeo e hematófago provido de duas ventosas, muito utilizada como terapêutica médica do Brasil oitocentista, quando a medicina ainda dava os seus primeiros passos. As bichas ou sanguessugas eram conservadas em um grande vaso de vidro, com água, e não eram alimentadas senão de vez em quando, com açúcar ou leite, a fim de que permanecessem sempre esfomeadas, prontas para sugarem o sangue quando fossem aplicadas sobre a pele do paciente previamente besuntada com açúcar. As sanguessugas eram aplicadas para extrair o “excesso” de sangue ou o sangue “envenenado”, indicada para a cura de diversas doenças, assim como a sangria. Eram importadas da Europa, procedendo de Portugal, França, Itália e Hamburgo. No Brasil não havia criação em grande escala do verme.


A maior parte dos aplicadores de sanguessuga eram os barbeiros, categoria médica que acabou sendo exercida por escravos. Os barbeiros eram geralmente indivíduos da baixa condição social, mulato ou negro, escravo ou livre. Debret(1818) retratou a atividade de escravos barbeiros, no Rio de Janeiro, que normalmente trabalhavam “ao ganho” em pequenas lojas no centro da cidade. Na gravura uma tabuleta continha o seguinte letreiro: “Barbeiro, cabeleireiro, sangrador, dentista e deitam bichas”. O barbeiro sangrava, aplicava ventosas e “bichas”, extraía dentes, cortava o cabelo, fazia barba, prescrevia ungüentos e pomadas e vendia em sua loja drogas como água de colônia e pós de dentes. Um escravo barbeiro que trabalhava “ao ganho” para o seu senhor tinha grande valor no mercado de escravos. Os barbeiros vendiam ou alugavam sanguessugas, variando o preço conforme o tamanho, tendo maior valor as maiores, as bichas-monstros e as mais novas, chegadas recentemente ao país. Trocavam-se as “que não pegavam”, o que acontecia com freqüência.

Cirugiões-barbeiros aplicando ventosas, outra prática da medicina da época ainda hoje
utilizada por alguns médicos.
Em 1862, a Câmara Municipal de Nova Friburgo mandou pagar uma quantia a um prestador de serviços, proveniente de bichas que aplicou em um preso pobre da cadeia da Vila. Bichas eram igualmente fornecidas aos indigentes em 1888, conforme registro daquela mesma instituição. Ainda no século XIX, em Friburgo, nas festas juninas, os meninos marotos corriam pela multidão jogando bichas nas pernas das meninas. Atualmente está em moda como padrão de beleza o tipo anorexo, onde as adolescentes buscam um tipo físico bem magro, chegando algumas a excessos que terminam por provocar-lhes até a morte. As mocinhos do século XIX chegaram em determinado momento a ter um comportamento similar. Gilberto Freyre nos informa que se tornara tão bonito ter aparência de doente que as meninas elegantes da primeira metade do século XIX, viviam pondo bichas e sustendo-se de caldo de pintainho e papinhas de sagu.


Já na segunda metade do século XX, vemos a palavra bicha, sendo empregada em outro sentido, como sinônimo de lombrigas. O Dr. Miranda Forte, que dava conselhos médicos na coluna “Conselhos as mães”, no jornal O Nova Friburgo, de 02 de novembro de 1957, assim escreveu: “Vários sintomas, com efeito, são lançados à conta das lombrigas(...)o mais notável entre eles é a convulsão(...)todos dizem que são as bichas...”. A palavra bicha, todos sabemos, atualmente tem o sentido depreciativo de homossexual. Mas o que é interessante é como uma palavra passa por transmutações ao longo dos séculos e acaba provocando risos e estranheza quando nos deparamos com escritos antigos. No entanto, pode-se dizer que é essa diferença que faz da História, algumas vezes, algo muito divertido.

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