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OS TAMANCOS DOS OPERÁRIOS DAS RENDAS ARP


“Quando o apito da fábrica de tecidos vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você. Você que atende ao apito de uma chaminé de barro, porque não atende ao grito tão aflito da buzina do meu carro?...Mas você não sabe que enquanto você faz pano, faço junto do piano, estes versos pra você. Nos meus olhos você vê, que sofro cruelmente, com ciúmes do gerente impertinente, que dá ordenas a você.” Noel Rosa escreveu esses versos para a sua namorada que bem poderiam ter sido escritos, na segunda década do século XX, por um boêmio friburguense. A indústria mudou Nova Friburgo. Todos os dias, às seis horas da manhã, os moradores do centro da cidade eram despertados por um som estridor a que não estavam até então habituados: eram os tamancos dos operários que se deslocavam em várias direções da cidade rumo às fábricas. No apito do último trem do dia, hora de se recolher. No barulho do tamanco dos operários, hora de despertar. Associados ao sino do campanário da igreja Matriz ao meio-dia e às seis horas da tarde, eram sons que regiam o ciclo do dia dos friburguenses: do trem, do sino e do tamanco dos operários.
A nota lacônica da direção da Rendas Arp, anunciando o fechamento das atividades da fábrica, contrasta com as matérias dos jornais, no primeiro decênio do século XX, tecendo loas à vinda de Julius Arp e outros industriais alemães. A nossa cidade experimentará a sensação do estremecimento do seu solo para a força propulsora da indústria moderna; é o início de uma nova Era para Nova Friburgo, assim escreveu o articulista do jornal A Paz, em janeiro de 1911. “Colméias de trabalho”, foi essa a metáfora atribuída a Nova Friburgo a partir da vinda de empresários alemães. Nova Friburgo entra na Era industrial.


O alemão Peter Julius Ferdinand Arp(1858-1945) imigrou para o Brasil em 1882. E por que teve interesse em instalar uma indústria em Nova Friburgo? Possivelmente pelo fato de Nova Friburgo abrigar uma significativa população de descendentes europeus, mais disciplinados ao trabalho, provavelmente conjeturara. O estigma de que o caboclo brasileiro era um trabalhador “desqualificado”, “indolente”, fazia parte do imaginário da época. Amparado pelos vereadores da Câmara Municipal, o coronel Antônio Fernandes não dava impulso ao contrato de concessão de fornecimento de energia elétrica, atravancando o progresso local. Julius Arp conseguiu retirar do coronel Antônio Fernandes essa concessão. A energia elétrica era essencial para implementação de um parque industrial em Nova Friburgo. Ruía antecipadamente a República Velha dos coronéis em Nova Friburgo, não aguardando a Revolução de 30. Julius Arp fundou, em junho de 1911, a Rendas Arp. Igualmente cooptou outros industriais: Maximilian Wilhelm Bogislav Falck(Fábrica Ypu), Carl Ernst Otto Siems(Fábrica de Filó) e Hans Gaiser(Ferragens Haga).


Depois dos tamancos, vieram as bicicletas que cruzavam os bairros, com cada trabalhador dirigindo-se para a sua colméia. Honrando o patriarcalismo nacional, os alemães construíram casas, escola e áreas de lazer para seus funcionários. Mas vieram as tensões sociais. Os primeiros operários, ainda desmobilizados em nível de categoria profissional, eram insuflados pelos ferroviários da Companhia Leopoldina. Mas havia o Sanatório Naval, garantidor da ordem pública. Não havia polícia militar à época e a polícia civil, com poucos praças, era incapaz de conter um conflito na cidade. Disciplina, esse era o projeto da Trindade Teutônica para Nova Friburgo. E assim, capitaneados por Julius Arp, os alemães foram hegemônicos em Nova Friburgo durante décadas. O poder público não os importunava. Quem não recorda-se que o velho Rio São João das Bengalas mudava de cor a cada semana, com as indústrias têxteis despejando soberbamente seus produtos químicos nas águas tranquilas do rio? Mas o que nos importava naquele momento eram tão somente os empregos que as indústrias geravam. Quem precisava do turismo numa cidade que abrigava um dos maiores pólos industriais do país e notadamente, duas multinacionais? Éramos o “paraíso capitalista”, jactava-se Heródoto Bento de Melo.


Já estamos habituados a presenciar a agonia das grandes indústrias, a exemplo da Fábrica Ypu. No entanto, quando uma fábrica fecha definitivamente, não deixa de ser impactante. Imediatamente vêm as memórias. Meu avô, meu pai, meu tio, meu irmão, quem não tem um familiar que trabalhou na Rendas Arp? Tempos difíceis, os alemães eram chefes rigorosos, mas trouxeram empregos. Alguém recorda-se: “meu pai trabalhou a vida inteira lá, criou onze filhos”. Um antigo alfaiate lembrou que os alemães eram os melhores fregueses de ternos. E os times de futebol das fábricas? Para atrair um bom jogador e tirá-lo de um time, bastava arranjar um emprego na fábrica e daí ele mudava de clube, sem pestanejar. Fechada a Rendas Arp, ficam as perguntas: Como e onde ficarão registradas essas memórias? E as primeiras máquinas, o que fazer com elas? E os registros dos primeiros operários? Que órgão será depositário desse acervo? Ainda bem que João Raimundo escreveu “Nova Friburgo: o Processo de urbanização da Suíça Brasileira – 1890-1930”, Rico escreveu “Cem anos de lutas operárias em Nova Friburgo” e Carlos Rodolfo Fisher “Uma história em quatro tempos”, deixando registros desse período. Mas o que não me sai da cabeça é o livro que Richard Ihns, executivo durante décadas da Rendas Arp, disse que escreveria sobre o período de sua gestão. Mas esclareceu que escreveria algo do tipo “diga a verdade e saia correndo”. Mas Santo Deus, por que Richard Ihns sairia correndo?


O PASSADO MANDA LEMBRANÇAS:UMA VIAGEM DE TREM A NOVA FRIBURGO




Conforme ata da Câmara de janeiro de 1870, a estrada de ferro foi logo percebida como o grande fomento de que precisava a então pacata vila de Nova Friburgo para trazer mais touristes à cidade.“...Além disso, a estrada de ferro facilitará aos ricos que quiserem se distrair e aos doentes que se quiserem curar ou convalescer sob este clima doce, suave e ameno, cuja reputação é tradicional, um rápido e cômodo transporte. A serra da Boa Vista deixará de ser o espantalho dos habitantes de aquém e de além Nova Friburgo.....”
O trem para Nova Friburgo partia diariamente às 7:00 horas da manhã da Estação de Maruhy, em Niterói. A barca que ficava em correspondência com esse expresso saía às 6:10 da manhã da Praça 15 de Novembro.




O trem passava pelas estações do Porto da Madama, São Gonçalo, Alcântara, Guaxindiba e Itamby, sem fazer nenhuma parada. Chegava à estação de Porto das Caixas às 8:00 horas da manhã. Essa estação, que ficava a 34 km de Maruhy, era uma parada providencial para se adquirir, dos vendedores de frutas, cambucás, laranja, tangerina, lima, limão doce, jabuticaba, fruta do conde, abacaxi, melancia, sapoti, abacate, etc. Mas para a viagem levava-se ainda um farnel com cestas de frango assado e uma lata repleta de pastéis. Os homens usavam guarda-pó. Na cabeça, um lenço com nós nas quatro pontas para proteger os cabelos do pó do carvão expelido pelo trem e da poeira da estrada. Vendedores das apreciadas orquídeas(parasitas), a Catléia Harrisonia, enchiam os olhos principalmente dos estrangeiros, como os ingleses, apreciadores dessa planta nativa. No botequim da estação, um café acompanhado de bolo de arroz ou de milho.





A Vila de Porto das Caixas fora outrora lugar de grande comércio e parada dos tropeiros que transportavam café de Cantagalo. Nessa estação, a linha bifurca-se, seguindo a de Cantagalo para a esquerda e a de Campos para a direita. Passa-se por pontes, pontilhões e avistam-se as ruínas da Igreja do Convento dos Jesuítas. De Porto das Caixas chega-se a Sant´Anna de Japuhyba às 08:35 da manhã, com pequenas paradas em Sambaetiba e Papucaia. Segue o trem então rumo a Cachoeiras sempre guiado pelo Rio Macacu. Próximo às 9:00 horas da manhã, depois de um percurso de 73 km, chega-se a Cachoeiras de Macacu. Mais uma parada para o lanche onde se encontram no botequim, café, pão de loth, beijus e bananas. Nessa estação, faz-se a mudança da locomotiva por outra mais apropriada à subida da serra. Segue o trem, passando logo depois da saída da estação por uma ponte sobre o Rio Macacu e chega-se a estação da Boca do Mato onde o trem fica por pouco tempo. Dessa estação é que realmente começa a subida da serra longa e majestosa de Nova Friburgo onde o trem serpenteava, animado pelo vapor de suas máquinas possantes, e sob uma chuva de fogo a cair sobre o comboio.




Na serra, a viagem de trem transportava o espírito do viajante para um abismo na confusa expressão de suas brumas. Quando a paisagem então se descortina, “tem-se a ideia de que o trem se encaminha para o céu, para um reinado de nuvens, em meio a árvores em flor e na fresca e suave aragem que sai de suas florestas. Desde o alto da serra que tudo é cantante: a mata, o riacho que se atira pelo declive, o agricultor montanhês que traz o produto de sua roça ao mercado, os seus sítios, suas granjas trabalhadas à margem da estrada que corre ao lado da de rodagem, até que afinal o silvo da locomotiva anuncia Friburgo com o seu vôo de pombos à entrada!”, assim descreveu um viajante na matéria “Pérola Esquecida”, em O Nova Friburgo, de 09 de maio de 1937.




Passados vinte e cinco minutos de subida por entre altas montanhas, matas virgens e tendo sempre à direita o Rio Macacu, repleto de cachoeiras, chega-se ao Posto do Penna, no meio da serra, no quilômetro 86, já numa altura de 586 metros acima do nível do mar. Já no quilômetro 90 alcança-se o Posto do Registro encontrando-se o trem já numa altitude de 732 metros. Uma pequena parada para a máquina do trem “tomar água” e os passageiros aproveitam igualmente para se refrescarem bebendo água que corre em uma pequena fonte artificial. Do Posto do Registro até a Estação de Theodoro de Oliveira(km 93), conhecido como o Vale do Santo Antonio, leva-se doze minutos. Chega-se a essa estação por volta da dez horas e depois de uma pequena parada, para mudar de novo a locomotiva, parte-se para a tranquila cidade serrana de Nova Friburgo, já agora o trem acompanhado pelo Rio Santo Antônio. Avista-se então a represa de abastecimento d´água de Nova Friburgo onde o rio precipita-se formando uma bela cachoeira, denominada de Hans. Descendo o trem, alcança-se a Ponte da Saudade. Esse pitoresco lugar foi assim denominado porque essa ponte era a última parada das pessoas que acompanhavam os que partiam em viagem a cavalo ao Rio de Janeiro.


Faltando um quilômetro para chegar à estação da cidade(hoje a Prefeitura Municipal) a maria fumaça, ou cavalo de ferro apita, anunciando estrepitosamente a sua chegada. Depois de ter feito um percurso de 108 km partindo de Niterói, chega a Nova Friburgo.




Quando de sua entrada na cidade, os meninos tinham por hábito brincar na linha do trem, exibindo-se para as meninas. Costumavam ficar sobre os trilhos aguardando o trem e quando esse se aproximava permaneciam até o último instante. O maquinista apavorado, sem poder frear o trem rapidamente, apitava, apitava e os “capetas” rodopiavam cada vez mais sobre os trilhos. Só saltavam fora dos trilhos no último instante....Na viagem de trem a Nova Friburgo, o passado manda lembranças.



Vídeo do trem em Nova Friburgo:





UMA VIAGEM DE TREM PELO CENTRO DE NOVA FRIBURGO

Exposição do trem na Praça Getúlio Vargas em Nova Friburgo:




Percurso de um trem muito próximo do que teria sido em Nova Friburgo:

O BARÃO DE NOVA FRIBURGO:UM ILUSTRE TRAFICANTE DE ESCRAVOS

Antonio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo



Bernardo Clemente Pinto trouxe a linha ferroviária até Nova Friburgo

As gerações futuras dos Clemente Pinto na intimidade da família



Acima, os fundos do solar do Barão de Nova Friburgo. As propriedades do centro de Nova Friburgo,
no século XIX, se estendiam até os limites do Rio Bengalas
Quando se reconhece na história do Brasil um indivíduo de grande fortuna, pode-se praticamente supor que fosse um traficante de escravos, em virtude dos imensos lucros que tais transações alcançavam. Quando foi oficialmente extinto em 1850 o tráfico de escravos no Brasil, o volume de capitais empregados no tráfico era de tal monta que imediatamente surgiu o Código Comercial para regulamentar a febre de negócios provocada pela liberação de capitais até então aplicados exclusivamente na compra e venda de escravos. Antônio Clemente Pinto(1795-1869), o Barão de Nova Friburgo, era um indivíduo apenas remediado quando veio de Portugal para Brasil em 1807, com 12 anos de idade. A origem de sua fortuna é mencionada por um cronista da época. Quando o barão suíço Von Tschudi visitou a região de Cantagalo no século XIX, ao se referir ao Barão de Nova Friburgo, assim escreveu: "...é o mais rico fazendeiro, não só do Distrito de Cantagalo, como de todo o Brasil (…). É português de nascimento (…) veio para o Brasil sem vintém (…) circulam muitas versões quanto à natureza de seus negócios e do modo por que chegou a ser possuidor de tão avultada riqueza (…). O novo-rico é em toda a parte do mundo objeto de inveja e maledicência (…). O que acontece em muitos casos, no Brasil, onde existe mesmo um provérbio bastante malicioso que diz, quem furtou pouco fica ladrão, quem furtou muito, fica barão”, o que bem ilustra o pensamento do povo...”

Acima a Fazenda Gavião em Cantagalo
Há comprovação de que o Barão de Nova Friburgo tornou-se um homem próspero graças ao tráfico de escravos. Dedicou-se ao tráfico entre a África e o Rio de Janeiro no período de 1811 a 1830, fornecendo escravos para as lavouras emergentes de café. Obteve igualmente do governo imperial sesmarias nos Sertões do Macacu onde explorou minas de ouro, porém, sem muito sucesso, e foi um dos primeiros a cultivar o café na região fluminense. Possuía em meados do século XIX quase duas dezenas de latifúndios em Cantagalo, considerada a região em que se aplicava o pior tratamento aos escravos no Brasil. Cantagalo ganhou fama entre as províncias brasileiras não só pela riqueza gerada por seus cafezais em meados do século XIX, como pela crueldade com que tratavam os escravos, os fazendeiros da região. Não faltam relatos de viajantes descrevendo as sevícias dos fazendeiros daquela localidade em relação aos seus escravos. Entre eles se encontrava o Barão de Nova Friburgo.

O Palácio do Catete, que foi sede da presidência da República quando o Rio de Janeiro foi capital federal,
foi de propriedade do Barão de Nova Friburgo, sendo por ele edificado

Em Nova Friburgo até hoje tem-se o hábito de tecer preito ao Barão de Nova Friburgo, o “ilustre” traficante de escravos. As atas da Câmara de Nova Friburgo no século XIX não se cansam de louvar e fazer deferência aos Clemente Pinto pelos benefícios trazidos ao município. Mas pergunta-se, os Clemente Pinto procuravam beneficiar o município ou às suas propriedades? Ora, todas as doações que realizaram para o “aformoseamento” da atual Praça Getúlio Vargas, visavam tão somente beneficiar o seu rico solar que ficava em frente a esse logradouro público. E quanto ao desenvolvimento que a malha ferroviária trouxe a Nova Friburgo graças ao barão e seu filho Bernardo? Certamente o trem trouxe um grande impulso econômico a Nova Friburgo, mas objetivava-se precipuamente o escoamento da produção de café do barão de suas inúmeras fazendas em Cantagalo, barateando o seu custo. Mas o barão não foi o único a auxiliar o município. Cumpre destacar que no século XIX, a receita da Câmara era tão exígua que muitas obras em estradas, pontes e estivas eram realizadas na base da subscrição, ou seja, doação dos fazendeiros locais para as respectivas melhorias na infra-estrutura viária da então vila.
Finalmente, os áulicos do barão gostavam de tecer loas aos seus herdeiros por terem libertado seus escravos antes mesmo da abolição da escravidão. Em 1888, os herdeiros do Barão de Nova Friburgo, às vésperas da abolição, libertaram de forma oportunista, 1.300 escravos. Certamente deveriam ter informações privilegiadas na Corte de que a escravidão seria extinta brevemente. Os Clemente Pinto eram próximos da família imperial que por mais de uma vez se hospedaram em suas propriedades. Sobre esse episódio relata-se que os ex-escravos teriam ficado tão gratos com sua libertação que se recusaram a receber os salários da próxima colheita do café. Os herdeiros do barão receberam honras e títulos do imperador D. Pedro II por esse gesto.
Na verdade, trata-se de uma estratégia que muitos fazendeiros utilizaram libertando seus escravos antecipadamente já que o fim da escravidão era iminente. Com isso, angariavam a simpatia dos libertos que se mantinham nas fazendas ao invés de abandonarem-nas. Stanley Stein em “Grandeza e Decadência do Café”, coloca essa discussão sobre a libertação antecipada entre os fazendeiros de Vassouras no sentido de evitar a evasão dos escravos quando fosse decretado o fim da escravidão. Por fim, gostaria de colocar que a figura do Barão de Nova Friburgo deve ser sempre destacada na história do município, mas na qualidade de um membro da elite de singular importância no progresso da região, já que ele foi o nosso “Mauá”. No entanto, cabe destacar que a origem de sua fortuna foi construída à custa do marchandise humaine, como diziam os suíços. É sempre bom lembrar que por trás daquela figura “benemérita”, cercada de títulos e honras, se encontra um "ilustre" traficante de escravos.
Abaixo, as principais propriedades dos Clemente Pinto em Nova Friburgo, pela ordem: O antigo pavilhão de caça da família(hoje o Sanatório Naval), o solar (tombado pelo patrimônio histórico municipal) e o chalet no Parque São Clemente(hoje pertencente ao Nova Friburgo Country Club)




Visita ao Palácio do Catete do Rio de Janeiro, antiga residência do Barão de Nova Friburgo. Atualmente Museu da República.

MURY QUER PERTENCER A FRIBURGO


Armazém da famíla Mury (1916)


No início do século 19, foi criada a Vila de Nova Friburgo para abrigar uma das primeiras experiências encetadas pela Coroa Portuguesa de estimular a vinda de colonos estrangeiros ao país em substituição a mão de obra escrava. A região, que até então pertencia a Cantagalo era povoada por fazendeiros luso-brasileiros, e foi escolhida por suas condições climáticas e salubres para abrigar núcleos coloniais de suíços e alemães. Essas duas nacionalidades eram preferidas pela Coroa Portuguesa, principalmente os alemães, pela sua tradição na agricultura. Aos colonos foram distribuídas datas de terras no perímetro denominado de “Colônia dos Suíços”. A região de Mury estava compreendida na colônia. Plantava-se banana, batata, milho, inhame e hortaliças e os colonos possuíam alguma criação. A família Murith recebeu, por sorteio, um desses lotes. No entanto, a localidade só ficou conhecida pelo nome de Mury no século seguinte em razão de Luiz Mury, um comerciante de secos e molhados que conseguiu trazer uma estação de trem à localidade que passou a ser denominada de “Parada do Mury”.


No século 20, os agricultores de Lumiar e região produziam verduras e legumes como nabo, cenoura, couve, alface e batata inglesa, comercializando boa parte de sua produção em Niterói e São Gonçalo. No entanto, tinham que levar seus produtos até a estação de trem no centro da cidade, importando em enorme sacrifício e despesa aos agricultores. Luiz Mury, comerciante local, possivelmente descendente dos colonos suíços Murith, vendo a dificuldade dos agricultores da região, solicitou a Leopoldina Railway que construísse uma estação na localidade, doando inclusive o terreno para tal fim. Foi atendido criando-se a estação “Plataforma Luiz Mury” em frente ao seu comércio, mas que ficou conhecida pela população como “Parada do Mury”, localizada na atual Av. Hamburgo. Mury foi ainda um bairro onde boa parte dos executivos alemães das indústrias que se estabeleceram em Nova Friburgo, a partir de 1910, escolheu para seus domicílios. Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos alemães que imigraram para o Brasil igualmente passaram a residir em Mury que quase teve seu nome alterado para Germânia, tantos eram os alemães que residiam no bairro. No passado, o bairro chegou ainda a abrigar algumas indústrias de alemães. Hans Garlipp, do Hotel Galipp, um dos mais antigos de Mury, veio para Friburgo como prisioneiro da primeira guerra mundial. Era comandante de um dos navios alemães atracados no Recife preso pela marinha do Brasil. Ficou no “Campo de Internação do Sanatório Naval”. Terminada a guerra, Hans Garlipp volta a Alemanha, mas devido a uma crise financeira em 1926, retornou no ano seguinte a Friburgo se estabelecendo definitivamente na cidade.


Até alguns anos atrás, Mury ainda era visto pela população friburguense como um bairro insular, isolado do cotidiano da cidade, até porque os moradores de Mury diziam que “iam a Friburgo”, como se não fizessem parte do município. Historicamente é um bairro negligenciado do ponto de vista administrativo por sucessivos governos municipais pelo fato de abrigar a maior parte de veranistas, não eleitores no município. No entanto, seus moradores pagam um dos mais altos IPTU. Atualmente, apesar de Mury ser considerado um bairro de veranistas, a maioria é de friburguenses que já residem no local. A sociabilidade de seus moradores é o futebol no final de semana no campo de futebol do bairro, a cerveja gelada nos botequins, as compras no mercado e as camaradagens fáceis e ligeiras da rua, nas conversas nos bares e padarias, como o Pão da Terra, já que o bairro não possui até hoje uma praça pública. Porta de entrada do município abriga a melhor rede hoteleira e notadamente os melhores restaurantes de Nova Friburgo. Mury não quer ser mais o bairro “dos alemães” e dos veranistas, como outrora. Quer ser um bairro que congregue toda a população local e adventícia. Mury é um bairro que oferece a hospitalidade ao turista, mas no seu dia a dia os seus moradores fomentam a atividade comercial dando dinamismo ao bairro. Por todas essas razões é que Mury não quer ser mais um bairro insular, gregário, uma República de Weimar, e quer merecer a atenção da administração municipal. Mury quer pertencer a Nova Friburgo.








Todas as fotos são do acervo particular de moradores de Mury mostrando o cotidiano do bairro.




Observem que charme essa propaganda de amanteigados suíços que resiste até hoje na fachada de um prédio em Mury. Possivelmente foi colocado entre a década de 50 e 60, do século 20.

Memória do Trem em Nova Friburgo

Acima, primeira estação de trem inaugurada por D. Pedro II. Século XIX.

O trem foi uma das grandes revoluções técnicas do século XIX com impacto muito grande na economia mundial. Em 21 de outubro de 1857, foi celebrado um contrato entre o primeiro barão de Nova Friburgo, Antônio Clemente Pinto, juntamente com Candido José Rodrigues Torres e Joaquim José Santos Júnior, e o governo da província do Rio de Janeiro para a construção da Estrada de Ferro Cantagalo. O trecho inicial foi de Porto das Caixas à Raiz da Serra de Nova Friburgo(Cachoeiras de Macacu), inaugurado em 22 de abril de 1860. A ferrovia foi criada objetivando o escoamento da produção de café da região de Cantagalo, no qual o Barão de Nova Friburgo era o maior produtor, até o porto do Rio de Janeiro.



Já em 12 de março de 1870, foi celebrado o contrato entre a presidência da província do Rio de Janeiro e Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, o segundo barão de Nova Friburgo, para o prolongamento da Estrada de Ferro Cantagalo de Cachoeiras de Macacu até Friburgo. Esse trecho foi inaugurado em 18 de dezembro de 1873 contando com a presença do Imperador D. Pedro II. Um terreno reservado na Rua do Senado(Alberto Braune) para a Praça da Alegria foi desapropriado para servir de estação.
Já a segunda estação foi inaugurada em 1935, em estilo colonial, sendo atualmente sede a prefeitura municipal de Nova Friburgo. Abaixo a nova estação e o jornal O NOVA FRIBURGO contendo a cobertura da inauguração.





Infelizmente, o trem que havia sido doado a cidade de Nova Friburgo, e que ficou exposto na Praça Getúlio Vargas, como na foto abaixo, foi simplesmente "retalhado" pelo então prefeito Amâncio Mário de Azevedo.



Memória do Trem










A Estação do Rio Grande, inaugurada em primeiro de maio de 1876, é um patrimônio histórico remanescente do século XIX. Localiza-se atualmente no bairro de Riograndina.

O Rio Grande foi uma região muito importante em Friburgo no século retrasado, permeada por imensas propriedades agrícolas, daí uma das razões para haver uma estação para escoar os produtos da região.












AS MEMÓRIAS DE BRIGITTE SCHLUPP: a guerra, as fábricas e o trem no cotidiano da cidade

Nascida na Alemanha em 23 de janeiro de 1918, Brigitte Schlupp veio para Brasil no início da década de vinte. Sua família se instalou inicialmente na Bahia, mas logo se mudaram para o Rio de Janeiro. Da Bahia se recorda de uma história que a mãe lhe contara. Certa feita, sua mãe a mandou ir à rua para comprar pão. Tinha aproximadamente cinco anos de idade. Uma mulher negra lhe pegou pela mão e a conduziu à sua casa, advertindo sua mãe: “Não se pode deixar uma menina branca ir sozinha na rua. Isso não é costume”.

Viveu sua adolescência no Rio de Janeiro, casando-se em 1937 com um pastor luterano, o pastor Schlupp, como era conhecido, e foi morar em Nova Friburgo. Nos seus dezenove anos, Brigitte Schlupp se encantou com a cidade e se sentia muito familiarizada devido a presença de muitos alemães no município. A língua era um fator de unidade entre os alemães. Nas memórias de Brigitte os brasileiros foram muito pacientes. Ouviam os alemães falarem entre si na sua língua pátria em sua presença e não se importavam. Não se sentiam ofendidos por não entenderam o que falavam, recorda-se. Hoje isso seria um gesto de falta de educação, destaca Brigitte. Como os alemães falavam em seu próprio idioma com freqüência, açougueiros e quitandeiros se adaptaram e já falavam alguma coisa em alemão com seus fregueses. Brigitte praticava muito esporte como natação, tênis e ciclismo e chegou a escalar o Pico das Agulhas Negras com seu pai. Os alemães praticavam muitos esportes, se recorda. No dia-a-dia os alemães da primeira geração comiam apenas pratos de seu torrão natal. Brigitte somente comia arroz, feijão e angu na casa dos vizinhos. Mas quando criou seus filhos, já os alimentava nos moldes da típica cozinha brasileira. Só para recordar, os principais industriais e executivos das indústrias em Nova Friburgo àquela época eram alemães, logo, Brigitte convivia com a elite econômica local. Seu marido, o pastor Schlupp, adquiriu em 1949 o Colégio Cêfel, que pertencera anteriormente à Cooperativa Educacional Friburguense Evangélica Ltda., fundada pelo pastor presbiteriano, rev. Trasilbo Filgueiras e posteriormente administrada por professores metodistas ligados à Associação Cristã de Moços (ACM). Este mesmo colégio se tornou um dos maiores estabelecimentos educacionais da cidade, reconhecido pela qualidade de seu ensino.

Mas nem tudo são flores. Veio a Segunda Guerra Mundial(1939-45) e pode-se afirmar que os alemães foram muito hostilizados em Nova Friburgo. Muitos alemães foram presos, inclusive seu marido, entre os anos de 1942 e 1943 e conduzidos a uma penitenciária em Niterói, onde ficaram detidos por três meses. Alguns foram enviados para a Ilha Grande. A Igreja Luterana foi fechada e até mesmo o cemitério dos alemães. Todo alemão para se deslocar de um município a outro deveria apresentar um salvo-conduto expedido pelo delegado de polícia. Há um fato pitoresco ocorrido nessa ocasião. Uma alemã foi presa em Araruama por um motivo bizarro. Faltou luz em sua residência, que ficava próxima à costa do mar e como não havia luz ela acendeu uma vela. Foi presa por suspeita de estar dando sinal a um submarino alemão.

Brigitte se recorda do Teatro D. Eugênia e dos passeios nas alamedas da Praça Getúlio Vargas. Segundo ela, de um lado da alameda circulavam os ricos e na outra as classes populares. Recorda-se que antes das seis horas da manhã, despertava com o som de toc-toc-toc-toc-toc e lá vinham os operários com seus tamancos dirigindo-se às inúmeras fábricas da cidade: “As fábricas apitavam e os tamancos iam para a fábrica.” Depois vieram as bicicletas. Os industriais financiaram esse veículo para os operários. Quando perguntada sobre a tuberculose, lembra-se que haviam muitos tuberculosos e, por isso, não se podia tomar um cafezinho nos bares da cidade. A senhora tinha medo dos tuberculosos, pergunto? “Eu não, todo mundo tinha medo. E muitas vezes houve brigas porque o pessoal lá do Sanatório (Naval) fugia à noite para fazer farra aqui na cidade. Isso era conhecido.....”

Finalmente, o festejado trem que está sempre na memória dos mais antigos. Brigitte ia para a estação de trem ver os veranistas chegarem, uma mania entre os friburguenses. Você conhece a piada do trem, me pergunta? Fiquei na dúvida se era a do “trem atual” ou não. Mas a piada era a do século passado. “O pessoal de fora perguntava. Porque nascem tantas crianças em Friburgo? Ah, isso é claro. O trem passa às dez horas [da noite] batendo o sino, pim pim pim, o pessoal acorda, não consegue mais dormir e então...”. O que mais surpreende é que Brigitte, aos 92 anos de idade, nos fala dos acontecimentos do passado de Nova Friburgo com tanta desenvoltura, incluindo até os sons da cidade, como se fosse notícia de “ontem”. Conversando com Brigitte Schlupp mal nos damos conta que ocorreram há setenta anos atrás.

D.PEDRO II EM NOVA FRIBURGO




Foto tirada por D. Pedro II quando em visita a Friburgo em 1876. Ao fundo Hotel Leuenroth.


Foto constando no acervo fotográfico da Imperatriz Tereza Cristina.
Estação de trem de Nova Friburgo no final do Século XIX


O que tanto fazia D. Pedro II em Nova Friburgo? Há o registro de diversas passagens do Imperador à cidade. De acordo com a ata da Câmara de 1868, Nova Friburgo recebeu a visita de Sua Augusta Majestade Imperial nesse ano. Essa notícia é confirmada pelo jornal O Nova Friburgo, de 1935, onde a Princesa Izabel escolheu a Cascata Pinel para oferecer à embaixada chilena uma “festa campesina”, contando com a presença do ilustre Imperador, D. Pedro II, e do marido da princesa, o Conde d’Eu.

Em 18 de dezembro de 1873, D. Pedro II retornaria a Friburgo a convite de Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, o segundo Barão de Nova Friburgo, para inauguração do prolongamento da Estrada de Ferro Cantagalo, no trecho de Cachoeiras a Friburgo. Já em 1874, a vinda do imperador a Nova Friburgo foi para acompanhar a Princesa Izabel em um tratamento à base de hidroterapia em razão de sua suposta infertilidade. Nessa ocasião, veio acompanhado de sua amante, a Condessa de Barral, dama de companhia da princesa. Casado com D.Teresa Cristina, o Imperador teve um delicado e misterioso romance com a baiana, a Condessa de Barral. Numa época de casamentos arranjados, D.Pedro II encontrou a sua “alma gêmea”, como ele relata em seu diário, numa mulher inteligente, despojada, culta e que vivera boa parte de sua vida em Paris. Ficaram todos hospedados no Hotel Leuenroth.

D.Pedro II retornaria a Friburgo dois anos depois, em 1876. De acordo com o livro de Alcindo Sodré, “Abrindo um cofre”, D. Pedro II passou um vasto período em Friburgo, já que em sua correspondência com a Condessa de Barral, cita o nome da cidade em diversas ocasiões. Veio a Friburgo possivelmente para tomar as duchas do Instituto Hidroterápico, conforme se depreende do conteúdo de sua carta: “Condessa, onde se achará fresco? Valha-me a água dos banhos.(...)Confirmo meu juízo: Teresópolis majestoso; Petrópolis lindo e Friburgo bom lugar de tomar fresco, quando o há. Espero ler bastante aqui e recorrer a quanto esguicho puder refrescar-me....”(Friburgo, 13 de janeiro de 1876).

Nessa ocasião veio acompanhado da Imperatriz, deixando-a em Friburgo e retornando ao Rio antes dela: “Condessa, parece que de lá[refere-se a Friburgo] custam muito a chegar notícias. Os de lá[Friburgo] vão bem assim como a Imperatriz em Friburgo d´onde tive telegrama esta tarde....”(Rio, 16 de janeiro de 1876).

D. Pedro II retornaria ainda Friburgo naquele mesmo mês: “...Condessa(...)Eu volto a Petrópolis no domingo às 8 ½ da manhã, e não paro senão a Friburgo...”(Rio, 18 de janeiro de 1876).

De acordo com a sua correspondência com a Condessa de Barral, fora para Cantagalo, mas em 17 de fevereiro de 1876, lá estava o Imperador novamente em Friburgo, pois escreve de lá para sua amante. Refere-se sempre as duchas que tomava no Instituto Hidroterápico, pois D. Pedro II era diabético: “...A Imperatriz tem se dado bem com as duchas, e eu também gosto das refrigerantes...”

Em sua correspondência dizia ter intenção de retornar definitivamente para o Rio no dia 03 de março. De fato, o Imperador já está no Rio de Janeiro no dia 04 de março, mas imaginem o que disse quando lá estava: “...Amanhã volto para Friburgo. Que calor aqui! A febre amarela tem aumentado por este estado do Rio...”. (Rio, 04 de março de 1876).

Friburgo deixou boas recordações em D. Pedro II. Quando esteve aqui com sua amante, a Condessa de Barral, se recorda com carinho do Hotel Leuenroth, e o Imperador, no melhor estilo do romantismo, assim escreveu para a sua amada:
“Condessa(...)Porém creia que olho sempre com imensas saudades para os quartinhos do anexo do Hotel Leuenroth...”(Rio, 04 de março de 1876).

Abaixo: Foto tirada por D. Pedro II, em 1876, quando de sua visita a Friburgo. Praça Dermeval Barbosa Moreira. Acervo da Fundação D. João VI.





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