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O IMPACTO DA REVOLUÇÃO DE 30 EM NOVA FRIBURGO



Acima, José Galeano das Neves, líder do movimento revolucionário em Nova Friburgo

Em 03 de outubro, a Revolução de 30 completa oitenta anos. Nova Friburgo tem algo a contar desse importante acontecimento histórico que provocou uma ruptura política das mais impactantes na história nacional. A proclamação da República em 1889, trouxe ao cenário político apenas uma novidade: a centralização do Império deu lugar ao pleno domínio dos fazendeiros no quadro político nacional, fragmentando o poder, que ficou nas mãos das oligarquias locais. A denominada política dos governadores enfraqueceu o Estado e dominou a República Velha até a Revolução de 30. Entre essas oligarquias predominavam os paulistas e os mineiros: o primeiro, pelo fator econômico, a supremacia do café e o segundo por tratar-se do mais populoso Estado da federação, o que mais poderia influenciar nas votações presidenciais.

Os problemas sociais e políticos no país, a insatisfação do exército com as oligarquias rurais, tudo isso gerava fortes tensões na sociedade. Mas quem forneceu a pólvora para eclodir a revolução foi Washington Luis. Ao contrário do que era esperado nas eleições presidenciais, o então presidente não indicou um mineiro para sucedê-lo, como vinham fazendo São Paulo e Minas Gerais se revezando no governo presidencial na denominada política do Café com Leite. Indicou o paulista Júlio Prestes. Getúlio Vargas apoiado por setores descontentes do exército e pelas oligarquias dissidentes fundou o partido da Aliança Liberal, lançando-se candidato. Júlio Prestes foi eleito presidente da república em um quadro de fraude eleitoral, bem característico da República Velha. Em 03 de outubro de 1930, civis e militares(exército) iniciaram a revolução que teria efeito fulminante, terminando no dia 24 daquele mesmo mês. Tomava posse em novembro o novo chefe do governo provisório: Getúlio Vargas. Mas qual foi o impacto da Revolução de 30 em Nova Friburgo?


Galdino do Vale Filho, outrora deputado federal, apoiava o governo de Washington Luis e conseqüentemente o seu indicado Júlio Prestes. No Centro de Documentação D. João VI há dois jornais, A PAZ, do próprio Galdino do Valle e O NOVA FRIBURGO que nos mostra a temperatura política da época. Em A PAZ nos editoriais “O dever dos Fluminenses” (28 de julho); “A candidatura Julio Prestes” (01 de setembro); “Panorama Político” (12 de setembro); “A sucessão presidencial” (13 de outubro); “Que resta, pois a Aliança” (10 de novembro); todos de 1929, Galdino do Valle Filho apóia abertamente Washington Luis. Infelizmente, os jornais do ano da revolução não possuímos.

No entanto, O Jornal, dos diários associados, de 26 de novembro de 1930, nos dá a dimensão de como transcorreu a revolução em Nova Friburgo. Os municípios do Estado do Rio não estavam pela sua situação geográfica e pela desagregação política do partido dominante nos cálculos militares dos revolucionários, nos informa o jornal. Mas em Nova Friburgo uma voz se levantou: a de José Galeano das Neves. Originário de uma das primeiras e mais tradicionais famílias de Nova Friburgo, seu pai e avô participaram da vida política do município desde meados do século XIX. Família oriunda de São João Del Rei, do tronco familiar de Tancredo Neves, o fato de Galeano possuir ligação política com Minas Gerais, pois toda sua parentela mineira era de políticos, colocava os Neves como aliados naturais desse Estado e consequentemente contra a indicação do paulista Júlio Prestes. Afinal, era a vez de Minas Gerais dar um presidente ao país e os Neves eram importantes atores políticos nesse Estado, como são até hoje, a exemplo de Aécio Neves.




De acordo com Galeano “somente com um movimento armado poderíamos sair do descalabro em que vivíamos (...) pensava e disto tenho agora a prova, que o Brasil só se salvaria com uma revolução que sacudisse todo o seu aparelho político administrativo”. Conforme O Jornal, os civis fluminenses surpreenderam os revolucionários, aliando-se aos militares nas ações armadas e articulações políticas. O Partido Democrático Fluminense convidou José Galeano das Neves a organizar em Friburgo “elementos que pegassem em armas quando fosse necessário”. Galeano fora escolhido porque reunia todas as condições para liderar o movimento em Nova Friburgo: Era ligado a Minas Gerais por laços familiares e político; era inimigo ferrenho do legalista Galdino do Vale Filho; homem de posses e líder no município por vir de uma família tradicional de políticos. Mas Galeano era civil e necessitava do apoio de um estrategista militar para coordenar as primeiras ações que denominou de “conspiração friburguense”.

Para tanto, convidou seu amigo de infância Brasiliano Americano Freire, oficial da Escola Militar e afastado de suas funções por ter tomado parte no Levante de 1922, e que oportunamente residia escondido em Friburgo, adotando identidade falsa e dando aula nos colégios locais. Foi o capitão Americano Freire quem auxiliou Galeano e cuidou da logística militar no município. Depois de cooptar um chefe militar procurou um aliado político na figura do advogado Comte Bittencourt.

Na primeira reunião na residência de Galeano ficou decidido que os conspiradores ocupariam Friburgo, contando com seiscentos homens fornecidos pelo coronel Christiano Ribeiro e que deveriam acantonar em Porto Novo. Nesse município iriam se apossar das armas da linha de tiro e danificar, se fosse preciso, as obras da estrada da serra. O capitão Americano Freire marcharia para Porto Novo onde reuniria o contingente de voluntários fluminenses às forças mineiras. Mas essas ações apenas ocorreriam se a revolução tivesse irrompido em 06 de setembro, o que não ocorreu. Galeano das Neves, decepcionado pela revolução ainda não ter eclodido, ficou aguardando ordens em Friburgo para reiniciar as “atividades revolucionárias”. Quando a Revolução irrompeu em 03 de outubro achava-se em sua Fazenda de São Bento e soube do acontecimento apenas dois dias depois devido ao seu isolamento. Os irmãos Sylvio, Carlos e Alberto Braune Filho, o Betinho, que haviam se encarregado do transporte de armamento a Porto Novo, estavam com ordem de prisão decretada pelas autoridades legalistas de Friburgo. Galeano das Neves os escondeu em sua fazenda e dali partiram todos para Porto Novo para engrossarem a coluna de seu amigo o capitão Americano Freire, que já ocupava aquela cidade mineira.

Abaixo, batalhão friburguense revolucionário que lutou em Porto Novo



As cidades de Mar de Espanha, Angustura, Volta Grande e Aventureiro foram, além de Porto Novo, ocupadas pelas tropas friburguenses. Nas proximidades da cidade de Carmo, na Fazenda Boa Esperança, achavam-se algumas centenas de pessoas sob a chefia de Galdino do Valle Filho. Galdino organizara um batalhão de friburguenses e partira para enfrentar os revolucionários na divisa do município de Carmo. O capitão Mury, aliado de Galeano, percebendo que uma força legalista procurava ocupar um ponto em lugar estratégico de Porto Novo, atravessou o rio com a sua coluna e desalojou o adversário após um “áspero combate”, apreendendo metralhadoras, fuzis e fazendo 13 prisioneiros na frente legalista. Galeano das Neves foi incumbido de ocupar em território fluminense a fazenda do Barão do Paraná, assim o fazendo sem que houvesse resistência. Em Friburgo já se encontrava a polícia federal com canhões e com um efetivo de mais de mil homens que pretendiam atacar Porto Novo no dia 26 de outubro.




Acima, batalhão legalista, liderados por Galdino do Valle Filho.
Foto tirada na estação de trem, atual P.M.N.F.

A Revolução de 30 triunfou e se iniciou a caça às bruxas. Galdino do Valle foi preso em outubro do ano seguinte. Foi recolhido inicialmente no Sanatório Naval e depois conduzido a Casa de Detenção do Rio de Janeiro. Nessa ocasião, ficou detido apenas quatro dias. No tocante aos demais partidários de Washington Luis, a exemplo dos Spinelli, ficaram detidos na cadeia da cidade, onde hoje é o Porão do Centro de Arte. Quando as tropas revolucionárias friburguenses chegaram de trem a Nova Friburgo, boa parte da população foi recebê-los na Praça 15 de Novembro(atual Getúlio Vargas). Relembra esse dia a memorialista Yolanda Cavalieri d´Oro: “Quando a revolução triunfou, fomos para a Praça (refere-se a Getúlio Vargas) ver a chegada dos vencedores trazidos no trem. Estava todo mundo na rua, se acotovelando para ver melhor.(...) Lá pelas tantas o povo resolveu destruir a estátua do líder político de Nova Friburgo, o Sr. Galdino do Valle. Ele, que fora sempre venerado por todos, era agora, na fúria da paixão política, vítima do vandalismo desenfreado, comum nessas ocasiões. Quando a estátua rolou do pedestal, apareceu meu tio Dante, mancando e carregando uma bandeira vermelha(símbolo do galdinismo) que colocou triunfalmente no monumento decepado. Palmas delirantes da multidão....” Dante Lívio, revolucionário e conhecido comerciante local, simbolicamente enterrava Galdino do Vale Filho. Galdino foi rotulado de “carcomido”, como ficaram igualmente conhecidos todos aqueles que defenderam Washington Luis. Era o fim de uma era política. Abaixo a chegada vitoriosa dos revolucionários, vindos de Porto Novo, ao centro de Nova Friburgo.




A Revolução de 30 teve forte repercussão em Nova Friburgo por três fatores: primeiro pela sua posição geográfica, próxima da Capital da República, sede do governo federal e palco dos acontecimentos. Segundo pela sua forte relação com o Estado de Minas Gerais, que remonta desde a fundação do município, pois muitos mineiros migraram para Nova Friburgo com quem tinha estreitas relações comerciais. A terceira e principal razão foi o fato de em Nova Friburgo residir um membro aparentado da elite política mineira: Galeano das Neves. Possuindo forte liderança local era o instrumento perfeito para os mineiros revolucionários. Além disso, tradicionalmente sua família sempre fora oposição política ao legalista Galdino do Vale Filho. Galeano das Neves foi o articulador político da insurreição friburguense e ganhou as páginas do jornal carioca. Com isso, colocou Nova Friburgo a cavaleiro na Revolução de 30.


Abaixo, charges da época criticando a política do Café com Leite.




Agradeço a Walther Seng das Neves pelas fontes fornecidas para realização dessa matéria.


Entenda o contexto político da época:














O BAR DO SEU MÁRIO


Quem nunca tomou uma bronca do seu Mário Babo? Um namoro indecente no bar, um pé na cadeira, leituras impróprias, o sujeito logo tomava uma bronca e retirava-se aborrecido. Porém, tempos depois, voltava ao bar. Ninguém resistia deixar de freqüentar o Bar do Seu Mário. Era oficialmente o Bar Central, mas que o vulgo tornou-o Bar do Seu Mário, já que o proprietário, podemos afirmar, estava acima do estabelecimento. Localizava-se na esquina da Rua São João, hoje no local uma loja de bijuterias.
Seu Mário, imigrante português, veio para Friburgo em 1951, de porte da denominada “Carta de Chamada”, condição exigida pelo governo para o imigrante trabalhar no Brasil. Trabalhou inicialmente no Bar América, o mesmo bar que hoje funciona na Rua Monte Líbano, de propriedade de seu irmão. O Seu Mário, em suas memórias, lembra que naquela época os imigrantes mais importantes em Friburgo eram os alemães, que na saída de suas ocupações nas fábricas, iam ao Bar América para tomar cerveja. Recordemos, os capitalistas alemães eram proprietários das maiores indústrias como a Rendas Arp, Filó, Ypú e Haga, que empregavam boa parte da população.

Seu Mário, no entanto, voltou para Portugal, morou em Angola, mas retornou para Friburgo, onde abriu o Bar Central. Bebia-se cerveja e comia-se pastel. Mas foi ele quem trouxe o chopp para a cidade e consequentemente o delicioso bolinho de bacalhau, pelas mãos de sua eterna companheira, a também portuguesa, Dona Alcina. Mas quem não se lembra dos sorvetes de abacaxi, pistache, ameixa, creme holandês, de fabricação caseira, que concorria com a Sorveteria Única, da família Ruiz.
O bar foi inicialmente freqüentado por operários. Saíam das fábricas, iam para suas casas, tomavam banho, colocavam um terno e sem seguida dirigiam-se para o Bar do Seu Mário num ritual do tipo trabalho, lar e botequim. À tarde, as senhoras da sociedade, como os Braune, freqüentavam o bar para um cafezinho e uma boa conversa, um espaço de sociabilidade. À noite era a vez dos maridos. Médicos, advogados, magistrados, enfim, profissionais liberais que iam tomar o seu chopp e comer bolinhos de bacalhau. Nesta fase, os operários das fábricas já não iam mais ao bar e podemos dizer que foi a elite da cidade que passou a freqüentá-lo. Sr. Laércio Ventura, diretor de A Voz da Serra, acompanhado de seu amigo DeCache freqüentavam o bar. Passaram por lá políticos como Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Brizola e diversos artistas como Dina Sfatti, Cláudio Marzo, Reginaldo Farias, o comentarista de futebol Gerson, todos veranistas da aprazível Nova Friburgo.
Mas o que marcou o Sr. Mário em suas memórias foram os alunos da Fundação, um colégio do tipo internato, considerado um dos melhores do país. A maior parte destes alunos vinha de diversos estados e eram considerados pela sociedade friburguense como bad boys. Também pudera. Nas olimpíadas internas dos colégios, que ocorriam no Celso Peçanha, arrumavam briga com os alunos do Colégio Anchieta, cuja rixa estendia-se por toda a cidade, onde pedras, correntes e garrafas rolavam entre os desafetos apavorando os comerciantes próximos ao estádio. Era no bar do Seu Mário onde os alunos da Fundação se refugiavam, fugindo da polícia. Seu Mário lhes dava guarita não porque desafiasse as instituições, mas os tratava como seus filhos, dando-lhes abrigo. Afinal, os meninos da Fundação, que guardavam suas malas em seu bar e bebiam milk shake e toddy, não eram bandidos para serem presos pela polícia. Eram apenas escaramuças de rapazes.
Em suas memórias, o Seu Mário tem muito a nos contar. Afinal, foram vinte e seis anos no ponto central da cidade, passando por ele todas as classes sociais, vivendo os ciclos de progresso da cidade em um tempo em que o comércio tinha a personalidade de seu proprietário. E no bar do Seu Mário ninguém tirava casquinha não. Tomava uma tremenda bronca, pois era um bar de família. Quem em Friburgo também não tem em suas memórias uma história para contar do Bar do Seu Mário?

Entrevista realizada em outubro de 2009 com o Sr. Mário Babo.

VESTIDO DE NOIVA: UM RITO DE PASSAGEM

O casamento religioso sempre foi incentivado pela Igreja. No entanto, no Brasil Colonial, prevalecia o concubinato. Motivo? Era uma cerimônia no qual somente a elite poderia pagar. Este quadro não se alterou muito no Império e início da República. Porém, o regime republicano excluiu a hegemonia do casamento religioso, instituindo a obrigatoriedade do casamento civil. A cerimônia religiosa passou desde então a ser facultativa, não mais criando precedentes legais, como outrora. Não obstante a Igreja ter perdido a égide legal sobre o matrimônio, na prática, a cerimônia religiosa não foi abandonada e até hoje está inserida na cultura nacional. Quem imagina que a pós-modernidade tenha minimizado a importância do casamento religioso no imaginário feminino, mesmo entre aquelas mais “moderninhas”, engana-se. As mulheres não deixaram de casar-se na igreja, ainda que já dividissem há tempos o leito conjugal com o seu parceiro.
Nesta entrevista realizada com Marilda Lima Berbert, que faz ornamentos de noivas a 47 anos em Friburgo, conheceremos este universo ainda cercado de romantismo, apesar da mudança comportamental. Mudanças houve muitas, mas a permanência das tradições ainda é a tônica, com movimentos cíclicos que ora incluem, ora excluem alguns elementos simbólicos, a exemplo das daminhas e dos bonecos representando os noivos no último andar do bolo, que entram e saem de moda frequentemente. Estes elementos simbólicos são excluídos e retornam ao longo do tempo, atendendo sempre aos modismos.

Marilda já está na terceira geração de noivas. Faz chapéus, tiaras - outrora denominadas de grinalda -, apliques, véus, mantilhas e bouquets para as netas de suas clientes no passado. Como era uma noiva na década de 60? Segundo ela, o fato das noivas se casarem virgens interferia nos elementos simbólicos do casamento. Tinha que ser um vestido muito coberto, sem decote e transparência. A cor traduzia o símbolo da virgindade. Tudo deveria ser branco e nada de tons coloridos. O branco simbolizava a pureza da noiva. As cabeças eram floridas com miosótis, margaridinhas, gipse, miguês, rosinhas, mas todas flores artificiais. Os véus eram imensos, muitas vezes com oito metros de comprimento. Na Catedral São João Batista, os véus arrastavam-se desde o altar até a porta da igreja. Mas aos poucos foram ficando mais leves, porém, sua evolução foi lenta. Veio a década das pérolas. Todas as noivas usavam colar, ornamento de cabeça e bouquets de pérolas. Era muito comum ainda o uso de uma jóia de família pela noiva. Mas qual foi o momento de maior ruptura nas tradições do casamento? De acordo com Marilda foi a década de oitenta. Desaparece o delicado, o romantismo. Os acessórios mudam completamente. As noivas já querem ornamentos coloridos, em tons como lilás, amarelo, rosa e azul. Ocorreu ainda a introdução de flores naturais junto às artificiais, misturando-se hortênsia, angélica, lírio, livianto, agapanto, orquídea, a flor de laranjeira e a rosa. Esta última, nunca poderia faltar em uma noiva tradicional. A flor de laranjeira era usada na cabeça, no bouquet e na lapela do noivo. Mas qual é a diferença entre uma noiva do passado e do presente? Marilda responde que é a atitude. Perderam um pouco romantismo e tornaram-se mais práticas e objetivas. Não querem mais um adorno exclusivo. Preferem alugar. Não porque não pudessem pagar, mas porque acham mais prático. Véus, chapéus e tiaras são alugados e Marilda assim o fez para adaptar-se a esta praticidade das noivas. Mas os ornamentos não perderam a sua qualidade, já que utiliza cristais swarowiski, flores naturais de Holambra, renda francesa e voalette. Marilda nos informa outra mudança significativa: o casamento no mês de maio é mito. As noivas preferem casar-se no início da primavera. Motivo? A estação é melhor para os modelos das roupas da família e dos padrinhos.
E o que não mudou? O próprio casamento em si. Não deixaram de casar. Mesmo viúvas ou divorciadas voltam a casar-se com todos os ritos do tradicional casamento de “véu e grinalda”. Histórias não faltam. Uma noiva enviuvou duas vezes e casou-se pela terceira vez na igreja, com pompa e circunstância. Uma antiga cliente do tipo despojada, quando casou a filha, quis esta adornos mais tradicionais, diferentemente da mãe, que fazia o tipo hippie. No território do casamento, tudo é muito cíclico. Em determinado momento, na década de 80, as daminhas de companhia e pajens desaparecem e o véu fica ultrapassado. No entanto, voltaram com força nos últimos anos. De acordo com Marilda, o vestido de noiva nunca esteve tão em voga.


Então pergunto: em meio a tanta modernidade e liberalidade no comportamento atual das mulheres, até quando necessitarão elas do vestido de noiva, deste rito de passagem, para viverem felizes para sempre?
Fonte: Entrevista com Marilda Lima Berbert, realizada em 05\01\2010. Há 47 anos faz adornos de noivas.

O BECO DA SOFIA - A CASA DAS MOÇAS DAMAS


Dona Sofia

Uma menina curiosa, nos seus doze anos de idade, sob um olhar perscrutador, observava atenta as atividades de sua avó. Não era para menos. O local em que sua avó trabalhava chamava a atenção. Estava sempre repleto de pessoas, havia muito movimento, gente de todo tipo, de marinheiros a estudantes, de homens distintos a outsiders e uma vitrola sempre a ecoar enchendo o ambiente de música e alegria. Quando se aproximava da “casa” durante o dia, as moças-damas a evitavam. Ordens de Dona Sofia, ninguém poderia se aproximar e falar com sua neta. Mas a curiosa menina transgredia as fronteiras e penetrava neste espaço proibido, nos legando em suas memórias a atmosfera e o ambiente do que ficou conhecido em Friburgo como: “O Beco da Sofia” ou “O Beco das Oficinas”, porque na rua ficavam também as oficinas da companhia de trem. São as memórias de Wilma Villaça.

Sofia de Carvalho Villaça, ou Dona Sofia, como era conhecida, nasceu em Riograndina, em 17 de setembro de 1899, falecendo em 31 de maio de 1976. Uma negra muito bonita, elegante, que tinha paixão pelos bons perfumes e pelo jogo “dos bichos”. Foi casada com Galdino Neves Villaça, originário de Minas Gerais, com quem teve vários filhos. Viveram muitos anos em Riograndina numa fazenda onde plantavam café, até que uma dificuldade financeira os levou a vender a fazenda e se mudarem para Friburgo para recomeçar a vida. Na cidade, Sofia fazia salgados e doces “para fora” e Galdino biscates como jardineiro, mas veio uma crise no casamento e o casal se separou. Sofia era reconhecida como uma mulher de personalidade forte, autoritária, mas extremamente humana e sociável, e foi valendo-se destas características e de uma rede de relações, que no início da década de quarenta abriu em Friburgo uma “casa de moças-damas” que ficou também conhecida como a Casa da Sofia. A “casa” localizava-se na subida do cemitério, na Rua Gonçalves Dias, atrás do atual Cadima Shopping. Sofia não escolheu um local para montar tal estabelecimento nos arrabaldes da cidade, escondido, marginal e dissimulado. Ficava exatamente em frente à residência em que vivia com os seus filhos, todos bem criados e bem educados. Era uma extensão de seu lar, e daí talvez a atmosfera familiar que seu estabelecimento possuiu durante os mais de vinte anos em que existiu.





Mas a “Casa da Sofia” incomodava à vizinhança? Wilma afirma que não e justifica-se. Sofia ajudava a todos, fazia partos, comprava remédios, era conselheira, encaminhava em um emprego, já que era bem relacionada na cidade. Seu estabelecimento era freqüentado pela elite local, mas também pela arraia miúda que para lá se dirigia. Quanto a estes últimos, antes de ir para a Sofia, um gole de cachaça no bar do Justino, na Alberto Braune, na “esquina do pecado” ou bar “Grito de Mocidade”, mas neste local só entravam negros. Brancos não eram admitidos.
Sofia não fazia qualquer distinção social. O que apenas ocorria, e que os distinguia financeiramente, era que os mais abastados “reservavam” suas favoritas e somente com eles passavam a se relacionar. Tudo acertado previamente com Dona Sofia e contabilizado. Foi Jorginho Abicalil, quem descreveu em suas crônicas, como freqüentador habitué do local, um interessante relato da Casa da Sofia:

“.....Ah, Dona Sofia da gargalhada rouca! Da tosse, do Liberty Ovaes/ Da sua janela, fotografa a Leopoldina Railway, para receber seus reis/ que desejam gozar e viver./ São viajantes, caminhoneiros, H.T’s, marinheiros, fuzileiros navais/ todos reis, cada qual com uma menininha no colo/ e uma brahma casco escuro na mão,/ todos reis por uma noite de prazer./ E até os garotões metidos a sociais/ tudo gente de fino trato,/ lá estão no beco: escondidinhos em seu recato./ Estão todos vivendo o hoje das emoções,/ da mais antiga das profissões/ Todos enlevados pelos encantos das meninas/que ensinam prazeres do sexo./ Sexo bom, bem iniciado,/para nos deixar galantemente aliviados...”


A Casa da Sofia não recebia qualquer moça-dama. Verificava sua origem e antecedentes, sendo que todas elas vinham na maior parte de cidades do norte fluminense, a exemplo de Itaperuna. A Casa da Sofia era um casarão onde havia aproximadamente quinze quartos e um extenso salão, espaço comum para se ouvir vitrola, beber e dançar com as moças-damas. Cada uma delas tinha o seu quarto, alimentação garantida feita por uma cozinheira e serviço médico, onde pagavam, por isso, uma espécie de pensão. Nos programas feitos pelas moças-damas, Sofia recebia um percentual através de um sistema de fichas. Mulher de tino comercial tinha um médico fazia exames periódicos nas moças-damas, uma gerente e uma “caixinha” para a polícia não incomodar e ainda dar segurança, quando havia desordem provocada por baderneiros. O movimento iniciava por volta das 17:00 horas e terminava madrugada adentro. Somente os “rapazes da fundação” freqüentavam à tarde a “Casa da Sofia”, já que tinham que pegar o ônibus para a “subida da Fundação”. Frequentavam ainda os rapazes do H.T., como eram conhecidos na cidade. A sigla H.T., significava hospital dos tuberculosos. Eram marinheiros e fuzileiros tuberculosos que ficavam internados no Sanatório Naval. Certamente Dona Sofia só deixava que freqüentassem aqueles já convalescidos, pois sempre foi muito cuidadosa com a salubridade de seu estabelecimento. Dr. Feliciano Costa, médico do Sanatório Naval, era quem dava assistência à Casa da Sofia cuidando das meninas e autorizando os H.T´s que poderiam freqüentar o estabelecimento.




Possivelmente para atender a representação que fazia à época das cortesãs, Sofia recebia na maioria apenas moças brancas e “bem claras”, do tipo europeu. Não que houvesse preconceito por parte dela, mas o estereótipo da cortesã ainda vinha do imaginário masculino do final do século XIX, onde eram cortesãs as francesas, as polacas e as judias. As moças-damas trajavam vestidos longos, como os de baile, relembra Wilma, com uma maquiagem bem destacada e cabelos bem penteados, no estilo pin-up. Mas para sair à rua durante o dia, Dona Sofia exigia recato. Tinham que usar indumentária simples, sem maquiagem e terem um comportamento discreto.



Alar: A Gerente


Dona Sofia administrava e recebia os clientes, juntamente com sua gerente Alair. Altiva e de olhos agudos, mulher de porte, corpo de sereia, o salto alto de Sofia erguia-lhe ainda mais a fronte empinada. Impunha e ordenava com energia como no “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Ao som de Vicente Celestino e Gilda de Abreu, dançava-se à noite inteira. Seu estabelecimento estava sempre lotado e isto porque a Casa de Sofia, mais do que um espaço de prazer, era um lugar de sociabilidade. O rendez-vous da cidade. Muitos iam até lá somente para se divertir, “just for fun”, como dizem os americanos. Não buscavam somente o prazer carnal, mas os amigos que lá também freqüentavam ou quem sabe, em busca de um conselho e uma boa prosa com Dona Sofia. Foi da Casa de Sofia que muitos casamentos saíram. Muitos homens tiraram as moças-damas “da vida” e se casaram com elas. Sofia batizou muitas crianças destes enlaces. Os já casados “botavam casa”, vivendo amancebados com suas favoritas, tirando-lhes “da vida”.

Por fim, e o que mais impressiona nas memórias de Wilma Villaça, foi a tolerância da sociedade friburguense em relação à Casa da Sofia. Percebe-se que seu estabelecimento tinha uma função social. Afinal, vivíamos em uma época em que as moças casavam-se virgens e seus noivos “aliviavam-se” nestes locais. Quanto aos casados, aquela famosa desculpa de que as mulheres da vida, bruaca, bucho, bagaxa, cróia, cocote, fubana, frega, fuampa, jereba, quenga, marafona, murixaba, michê, marafaia, rongó, rameira, tronga, vulgívaga, zabaneira, zoina, andorinha, égua, gança, mariposa, loba, mulher errada, perdida, transviada, do mundo, pública, da rua, da rótula, da zona, do amor, de má nota, de ponta de rua, do fado e do fandango, serviam para práticas sexuais aos quais não se podia fazer com a esposa. Mulher tolerada, daí a tolerância?


O certo é que por onde Dona Sofia passasse além de ser respeitada, dava-se à ela uma deferência especial. O gerente de banco puxava a cadeira para ela sentar-se, recorda-se Wilma. A propósito, Wilma foi a única menina negra, à época, a matricular-se no tradicional e elitista Colégio Nossa Senhora das Dores. E o mais intrigante, é que já houve estabelecimentos deste tipo antes e depois da Casa da Sofia em Friburgo. Mas nenhum deles se perpetuou tanto na memória da cidade como a Casa de Sofia, que fechou em 1962. Talvez a resposta esteja em um dos seus habitués, Jorginho Abicalil: um local de “sacerdócio do prazer e da virtude”.



Fonte: Entrevista realizada com Wilma Villaça, neta de Dona Sofia e Crônicas de Jorginho Abicalil. Acervo de fotos pertencentes a Wilma Villaça.


Vídeo sobre as prostitutas polacas:



Segue abaixo um interessante Blog de prostitutas que demonstra o nível de mobilização e organização dessa categoria profissional.
http://www.beijodarua.com.br/main.asp

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