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UMA CIDADE COSMOPOLITA - Um Inquérito sobre Nova Friburgo – Parte I

Cidade de Nova Friburgo - 1940






Hotel Engert e abaixo o salão do hotel.




No século XIX, surgiu a imprensa. Além do noticiário e da literatura, nasce a crônica e consequentemente, a figura do cronista. Muitos deles, ao invés de comentar os assuntos políticos, voltaram-se para a descrição de situações do cotidiano. Flanavam pela cidade, observavam os acontecimentos do dia, retornavam à redação e narravam o que presenciavam. Muitos descreviam suas impressões de viagem. E nesse último caso, foi graças a Arthur Guimarães, que publicou suas crônicas no livro “Um Inquérito Social em Nova Friburgo”, nos idos de 1916, que podemos conhecer um pouco sobre o município nessa época. Foi um período importante na história de Nova Friburgo.






Há cinco anos haviam se instalado as primeiras indústrias no município, e se por um lado parecia ter trazido desenvolvimento, por outro, problemas sociais. O deslocamento do campo para a cidade e a migração para Nova Friburgo, de acordo com o relato do cronista, originara um significativo contingente de população miserável, atraídos, possivelmente, pelo grande afluxo de turistas e notadamente devido à instalação das indústrias. Esta série compreenderá cinco capítulos em que conheceremos o perfil da população, o comércio, a indústria, a agricultura, sua vida material, enfim, o cotidiano do friburguense no início do século XX, pela lente desse cronista. Arthur Guimarães assim escreveu:


“Tem toda a razão o Sr. Alberto de Torres quando em seus notáveis escritos, assina que nenhum outro país pode, talvez, como no nosso, realizar o tipo de sociedade política cosmopolita. Nova Friburgo, a formosa cidade serrana situada na Serra dos Órgãos, a 880 metros acima do nível do mar, confirma o acerto. Nela existem e votam cidadãos de origens e raças diferentes[aqui ele quer ser referir mais às nacionalidades], perfeita e legalmente incorporados ao meio e à nossa pátria. Na vereança tiveram e têm assento alemães, suíços, franceses, portugueses, italianos e espanhóis. O alistamento eleitoral é composto de turcos [libaneses], dinamarqueses, ingleses e holandeses. Nos cargos públicos figuram, igualmente, portugueses, espanhóis e italianos. Em todos os ramos da atividade humana, ei-los representados, senão em troncos [os primeiros imigrantes], ao menos nas descendências.(...) É ordeira, não há dúvida, a população friburguense e, na sua generalidade, honesta. Não há roubos, senão esporádicos, cometidos por adventícios. Os crimes são espaçadíssimos. Poucas rixas, de taponas e ponta-pés, de raivas e de dores passageiras. Mas em compensação há bate bocas tremendos nos bancos da Praça Quinze [atual Praça Getúlio Vargas], por questões partidárias, prenhes de ameaças, descomposturas e esconjuros. A política empolga, agita, absorve, quer a elite da terra, quer os seus satélites.(...)No auge da luta, quase todos perdem a compostura, salvo honrosas exceções, pondo máscaras, como os carnavalescos, para dançar a tarantela costumeira na folia partidária. (...) Numa cidade de seis a oito mil almas [aqui refere-se à população do centro da cidade], como Friburgo, há três folhas hebdomadárias [jornais], retintamente partidárias, quando poderiam existir só duas, uma diária e noticiosa. As fraudes eleitorais são cometidas à luz meridiana. Só encontram esfarrapada desculpa no serem miniatura das feitas nos grandes centros. Exemplo do alto. E fraco consolo é saber-se que, em todos os tempos, mais ou menos, o mal lavrou os nossos arraiais políticos.(...)
Florescem criações admiráveis. A nossa falta de persistência deixou-as morrer. Assim, a criação desse estabelecimento hidroterápico, fundado e dirigido por ilustre médico, o Dr. Eboli[refere-se ao Instituto Hidroterápico que faliu em 1895, dez depois do falecimento de Eboli]. A tradição só recolheu duas coisas: um grande edifício, com pequena parte dos aparelhos hidroterápicos, hoje servindo de colégio das Irmãs Doroteias, para meninas (internato) e uma inscrição, em pedra mármore, na face externa da parede, correspondente ao local das duchas, assim concebida: ‘Ao benemérito italiano Dr. Carlos Eboli, fundador deste estabelecimento hidroterápico, 1881-1884. Obra de seu saber, fonte de vida, renome e glória de Nova Friburgo. Homenagem de seus admiradores. 25 de junho de 1909.’ (...) Na seção hidroterápica do formulário de Chenoviz (17° edição), há uma descrição completa do estabelecimento, do Hotel Central, com 180 cômodos, e todos os elementos de bem estar e conforto, além de dados climatérios e atmosféricos, abonadores da privilegiada montanha. Na fachada lateral figuram ainda, em pintura desbotada, estas palavras melancólicas: Hotel Central – Duchas. Nada mais recorda o criador e sua inteligente iniciativa. (...) E onde se tratavam saúdes
de adultos, onde estivera a vida, a instrução trata almas de crianças.




Instituto Sanitário Hidroterápico e Hotel Central em Nova Friburgo




Outros estabelecimentos seletos desse período áureo merecem menção. O Colégio Freese, o Liceu de Humanidades e o Chateau, este fundado pelo barão de S. Valentim, naturalmente no edifício municipal em que, outrora, se hospedara o Imperador, desapareceram. (...) Ressurgiu no local do Chateau, o Colégio Anchieta, hoje monumento grandioso. Onde fora plantado pequeno arbusto, surgiu frondosa árvore. Onde se curou do corpo enfermo, trata-se hoje do corpo são e juvenil. (...) Qual o viver do povo? Simples, calmo descansado. Algumas vezes, os veranistas perturbam-lhe o doce viver. Perturbação compensada pelos lucros espalhados pela terra. Os hotéis, em número de cinco, Friburguense, Leuenroth, Engert, Salusse e Pensão Central, regurgitam no verão, de novembro a maio.


As barbearias, as cocheiras, as casas de alugar bicicleta, os cinemas, o rink, o teatro, acusam dobrada e tripla frequência nesse tempo do ano. Também os proprietários lucram, alugando casas por preços mais elevados e os caros e as bicicletas circulam, de manhã à noite...”


Segunda parte: “Os Bas-Fonds friburguenses”.
















ENCHENTES, COTIDIANO E HISTÓRIA


Para quem conhece a história de Nova Friburgo, as enchentes do rio São João das Bengalas não surpreende. O que de fato, surpreende, é ausência do poder público durante décadas em lidar com uma situação cotidiana do município. É notório que desde a fundação da vila as enchentes desse rio, mormente no verão, sempre causaram danos materiais, e às vezes humano, à população. Logo, já que as chuvas torrenciais de verão são um déjà Vu em Nova Friburgo, já não deveríamos ter um plano de prevenção que minimizasse o infortúnio da população? Muitas vezes tem-se a impressão do quanto pior, melhor. Melhor para os políticos oportunistas que aproveitam a situação para oferecer um favor, naquilo que deveria ser uma obrigação. O município ainda tem que lidar com a interferência de políticos a serviço do Estado, que colocam prontamente empresas de fachada para prestar serviços pós tragédia e locupletam o ganho pessoal. As redes sociais como o facebook, mostram em tempo real, através dos grupos, a exemplo do grupo “Alerta Chuva em Nova Friburgo”, o que está ocorrendo em cada bairro. A tragédia das chuvas não é mais aquilo do ouvi dizer, mas o que se registra nessas redes sociais pelos moradores dos bairros que “postam” fotografias e até mesmo vídeos do que ocorre em suas localidades. Mas como o objeto dessa coluna é fazer um paralelo entre o passado e o presente, vamos à ele.


A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820, para servir de base administrativa para a primeira experiência de núcleos coloniais no Brasil, utilizando a mão de obra livre, em um país que tinha até então o seu modo de produção e sua economia baseada no trabalho escravo. Essa primeira experiência com colonos foi feita com suíços originários de vários cantões da Confederação Helvética, prevalecendo entre os colonos os do Cantão de Fribourg, daí a origem do nome do município. Como as cidades se originam ao redor dos rios, em Nova Friburgo não foi diferente, desenvolvendo-se às margens do rio São João das Bengalas, formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antonio que lança-se no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul. As enchentes desse rio começam a fazer parte da história de Nova Friburgo desde a sua fundação. Em 1820, devido às incessantes chuvas de verão, a primeira colheita dos colonos suíços recém instalados foi um fracasso. Os suíços abandonaram suas terras e retornaram para a vila. Com as chuvas incessantes, Nova Friburgo apresentava aos colonos um aspecto desolador, acarretando um clima de tensão. O Rio Bengalas transbordara, as pontes que não foram arrastadas ficaram danificadas e as árvores plantadas nas calçadas foram arrancadas. A enchente atingiu igualmente as casas da vila e os riachos tornaram-se torrentes que devastavam os jardins, derrubadando as cercas. Tudo estava inundado. Durante alguns dias, as precárias vias públicas ficaram fechadas para o trânsito. Sob as chuvas intermitentes, Nova Friburgo não parecia uma vila, mas um alagado. Os colonos ociosos reuniam-se nas tabernas e bebiam para matar o tempo, procurando no copo de cachaça um consolo para suas miseráveis vidas. Monsenhor Miranda, Inspetor responsável pela Colônia, lastimava as bebedeiras e a ociosidade entre os colonos que se desentendiam e trocavam insultos. Os colonos chegaram às vias de fato e à noite, ecoava na vila, tiros de fuzil, sendo registrados tumultos e até mesmo casos de estupros.


Já em 1849, o Código de Postura previa que em caso de inundação, a Câmara Municipal poderia solicitar a colaboração da população para debelar tal sinistro. Caso não houvesse colaboração, punia-se o cidadão com pena de multa e até mesmo prisão. Quando havia inundação do Rio Bengalas na vila, fazia-se o “sinal de rebate e chamada”, e cada vizinho do quarteirão era obrigado a acudir ao lugar que sofria danos com todas as “pessoas úteis” de sua família. Ainda no caso de inundação, estando as ruas às escuras, deveriam todas as casas vizinhas iluminarem-se desde o ponto destinado a socorrer. Igualmente, toda pessoa que possuísse máquinas e instrumentos úteis para os socorros de inundação, tais como bombas d´água, barris, tinas, baldes, barcos, carroças, escadas, machados, serras, calabrês, moirões, cordas, correntes e couros ou outros quaisquer objetos de préstimo, seria obrigado a concorrer com os mesmos, colocando-os na ocasião da inundação, à disposição das autoridades presentes, com direito a indenização por qualquer dano ou prejuízo que neles viesse a sofrer. Atualmente, o voluntariado substitui essas práticas. Já no decorrer do século XX, as fontes iconográficas demonstram, notadamente, que as enchentes faziam parte do cotidiano da cidade.
Logo, passando uma vista d´olhos no passado, fica claro que o problema das enchentes não tem como marco inicial as tragédias naturais dos últimos anos, provocadas por mudanças climáticas, como vaticinam algumas pessoas. No entanto, a ocorrida em 2011, vai ficar na memória da população em virtude dos desmoronamentos dos morros, considerada como uma das maiores cem tragédias, nessa categoria, na história da humanidade. Nova Friburgo ocupou espaço na mídia internacional em razão desse sinistro. Não bastasse isso, a história de Nova Friburgo ainda é matizada pela passagem de três prefeitos num só mandato acarretando a descontinuidade de políticas públicas. As eleições municipais ocorrem nesse ano, tendo o efeito simbólico de se saber se os friburguenses desejam mudança ou continuidade, quer em relação ao executivo(prefeito), quer em relação à Câmara Municipal. Somos todos cidadãos ativos para responder, nas urnas, aqueles que serão os timoneiros de Nova Friburgo nos próximos anos.

SANGUE DE DRAGÃO, ESPÍRITO DE SEIS ONÇASE RESINA DE PAU SANTO





Nos primórdios da colonização, ainda pouco numerosas, lojas e boticas venderam remédios e “mezinhas”, aplicaram, alugaram ou venderam “bichas” (sanguessugas) e manipularam “récipes”. Nos séculos XVII e XVIII, as boticas no Brasil já se assemelhavam às congêneres européias. Geralmente ocupavam dois compartimentos de uma casa. O boticário residia nos fundos, só ou com a família. Na sala da frente, ficavam as drogas expostas à venda. Enfileirados sobre prateleiras de madeira, viam-se boiões e potes etiquetados, contendo ungüento e pomadas; frascos e jarros de vidro ou de estanho, igualmente etiquetados, com xaropes e soluções de variadas cores; caixinhas de madeira com pílulas e o mobiliário consistia em balcões, mesinha e bancos. Os boiões e frascos, de boa louça, ostentavam artísticas decorações.







Nos fundos, uma sala de manipulação ou laboratório, vedada ao público, apresentava uma verdadeira babel de móveis e utensílios como potes e fracos cheios dos “simples” ou símplices medicinais, copos graduados, cálices, botijas, cântaros, funis, facas, bastões de louça, almofarizes ou grais, alambique, destiladores, cadinho, retortas, panelas, tenazes e balanças. As medidas de peso utilizadas pelo boticário eram o quartilho, o arrátel ou libra, a canada, a onça, a oitava, o escrópulo e o grão. Nesse laboratório se preparavam as fórmulas farmacêuticas. Ao lado dos remédios, as boticas ofereciam ao cliente as sanguessugas, apisteiros, semicúpios, comadres e até mesmo os frangos para o caldo das dietas.



Os medicamentos eram prescritos sob variadas formas, para uso interno e externo. Enquanto que alguns desapareceram, outras existem até hoje. A “poção”, composição líquida ou xaroposa, tomada às colheradas; o “pó”, no qual as substâncias são reduzidas a partículas finas; o “xarope”, cuja base é a água com açúcar; a “infusão”, na qual a água quente extrai o princípio ativo do simples; o “elixir”, tendo o álcool como veículo; o “decocto” ou a “decocção” ou o “cozimento”, quando o princípio ativo é obtido cozendo-se a substância líquido em ebulição; a “apózema”, cozimento de vegetais, adoçado; o “eletuário”, composto de pós, extratos, veiculados em xarope de açúcar ou de mel, contendo em certas preparações, o ópio; a “pílula”, sólida e de formato esférico; a “pomada”, apresentando como veículo a banha de porco ou de outro animal; o “ceroto”, com o óleo e a cera por base; o “bálsamo”, composto de vegetais narcóticos, com o azeite ou outro óleo por veículo; a “confeição”, uma mistura de várias substâncias; o “opodeldoque”, uma mistura para uso externo; o “unguento”, gorduroso e à base de resinas; o “sinapismo”, um tópico de ação revulsiva, como o “cataplasma” de mostarda; o “emplastro”, outro tópico de ação emoliente; o “vesicatório”, um irritante destinado a produzir vesículas na pele; o “cáustico” e o “cautério”, onde se utilizava o ferro e pedra incandescentes, e com esses expedientes dolorosos tentava-se a exteriorização da doença, com o escoamento dos maus humores; e finalmente o “revulsivo”, outro irritante destinado a expelir humores.



Em 1824, apenas quatro anos depois da fundação da vila de Nova Friburgo, faleceu o boticário Léopold Boelle, nomeado pelo rei D.João VI. Em razão disso, foi realizado o “seqüestro” dos bens da botica contendo utensílios, drogas e “trastes”. Graças a esse inventário, podemos penetrar e conhecer uma botica de Nova Friburgo do início do século XIX, e nos aventurar a procurar entender que função tinha cada uma daquelas drogas.



Encontravam-se na botica: bálsamo católico,copaíba, vinagre de chumbo, óleo de amêndoa doce, espírito de seis onças, azeite doce, espírito de casca de laranja, resina de pau santo, aguarrás, óleo de linhaça, óleo de lavanda, potassa crua, éter, óleo de canela, almíscar, óleo de rícino, óleo de hortelã, óleo de cravo, tártaro emético, sal amoníaco, ceromel(sic), sangue de dragão, sulfato de zinco, pó de Joana, azougue, cremor tártaro, sal de globo, sal amargo, oximel, pomada oxigenada, pomada mercurial, tintura de bogari composta, ácido sulfúrico, goma guta, estoraque líquido, ácido muriático, água forte, óleo de linho, pedra pomes, manganês, semente de mostarda, almíscar do Brasil, arsênico, jalapa, serpentárias, pedra lipes(sic), açafrão, quentárias(sic), ácido cavalinho, coluquentes(sic), carbonato de potássio, carbonato de amoníaco, cural, pimenta do reino, água rosada, espermacete, elevo negro, enxofre em canudo, fezes de ouro, semente de Alexandria, sulfato de magnésia, raízes de genciana, poara, extrato de alcaçuz, goma de alcatifa, emplastro mercurial, almíscar de Judá, alvaide, emplastro de molioto, zarcão, sal de chumbo, calomelanos, ópio, azebre, resina de jalapa, raiz de terebintina, goma de alvão, raiz de labaça, raiz ranger, canela, manjericão e raiz de salsa da terra. A botica continha ainda 58 livros de farmacêutico “de grandes qualidades”, em língua estrangeira. E assim, conhecemos um pouco do que os nossos antepassados utilizavam, em Nova Friburgo, no início do século XIX, para se curar de suas enfermidades.







A PRIMEIRA ENCHENTE DA VILA DE NOVA FRIBURGO





















Desde a fundação da vila de Nova Friburgo que as enchentes do Rio São João das Bengalas sempre fizeram parte do cotidiano de seus habitantes. O cemitério, outrora localizado onde é o prédio da Maçonaria, na Rua Sete de Setembro, foi alterado devido aos inconvenientes das enchentes periódicas. Passada a enchente, os cadáveres ficavam expostos após o rebaixamento das águas provocando constrangimento entre a população e por isso, foi transferido para a parte alta da cidade, onde atualmente se localiza. As enchentes provocavam extensas formações de pântanos e acreditava-se à época que doenças como a “febre dos pântanos” ou “febres palúdicas” e a febre amarela eram provocadas pelos miasmas deletérios e palúdicos que se desprendiam de águas estagnadas. É intrigante que mesmo com as enchentes periódicas na estação das chuvas, provocando danos materiais, a vila se desenvolveu no entorno do Rio Bengalas onde foi estabelecido o comércio, as melhores residências, as praças, enfim toda a atividade urbana se fixou nas proximidades do rio. Se os vereadores sabiam do inconveniente das enchentes periódicas do Bengalas, porque o núcleo urbano não se estabeleceu mais distante dele? A Câmara Municipal concedia terrenos que lhe pertencia a particulares, estimulando a construção na vila. A maior parte desses terrenos estavam localizados onde hoje é o centro da cidade. Os beneficiários que recebiam esses terrenos eram obrigados a construir em determinado prazo, pagando em contrapartida anualmente um foro aos cofres públicos. O aforamento era uma forma encontrada para gerar receita, pois os beneficiários pagavam o foro, e no caso de venda o laudêmio, e se constituiu numa das principais receitas da Câmara. É provável que o desenvolvimento da vila de Nova Friburgo se deve a esse estímulo na edificação em terrenos pertencentes à Câmara, denominados de próprios nacionais. O objetivo dessa matéria é demonstrar o impacto das enchentes em alguns momentos da história de Nova Friburgo. Apresento adiante um relato de uma enchente ocorrida na ocasião do estabelecimento dos colonos suíços, no início do século 19, e como desestruturou o núcleo colonial. Já na primeira metade do século 20, a vasta quantidade de imagens fotográficas sobre as enchentes em Nova Friburgo falam por si. Conforme verificamos nas imagens abaixo as enchentes causavam transtornos à população não muito diferente dos tempos atuais.



O problema de Nova Friburgo nos dias de hoje reside muito mais nos desmoronamentos de barrancos e morros em razão da ocupação irregular das encostas. Essa prática foi respaldada pelo poder público ao longo de anos, já que essas residências pagavam IPTU. Dois fatores provavelmente contribuíram para o aumento vertiginoso da população de Nova Friburgo entre o segundo e terceiro quartel do século 20. De um lado, o empobrecimento de municípios do noroeste fluminense, as “cidades mortas”, como disse Monteiro Lobato, onde parte da população emigrou para Nova Friburgo em busca de melhores oportunidades. O segundo fator foi o processo de industrialização sobre a qual passou Nova Friburgo, atraindo boa parte dos habitantes desses mesmos municípios para trabalhar em suas indústrias. A falta de planejamento urbano não é novidade em todas as cidades do país e as favelas do Rio de Janeiro são o que melhor exemplificam a ausência de políticas públicas nesse aspecto. Diante da tragédia de janeiro último me lembrei de uma passagem interessante do livro de Martin Nicoulin, “A Gênese de Nova Friburgo”, que discorre sobre o inconveniente das chuvas de novembro de 1820 a início de 1821. A primeira colheita dos colonos suíços foi um fracasso devido às constantes chuvas e inundações. O desânimo foi geral. Conforme Nicoulin, “durante o primeiro trimestre de 1821, Nova Friburgo vegeta.” Os suíços abandonaram suas datas de terras no Núcleo dos Colonos e retornaram para a vila. Um clima de tensão aumentou entre os colonos suíços culminando com a violência para desespero dos administradores responsáveis pela recém criada colônia de imigrantes estrangeiros. Essa passagem nos faz refletir sobre a relação desse triste episódio de destruição da vila há quase dois séculos atrás e o que ocorreu no dia 12 de janeiro último. Uma sensação de déjà vu. Segue a narrativa do que ocorreu em Nova Friburgo quando da formação do núcleo colonial.

“O início da estação das chuvas será determinante. Em novembro chove. O mau tempo impedirá os colonos de continuarem os trabalhos. As obras da estrada central também ficam paralisadas. Em dezembro, as mesmas condições atmosféricas. Durante esse tempo, observador Porcelet anota: ‘Chegou a notícia inesperada e mais desoladora ainda de que, em várias fazendas dos colonos cuja primeira vegetação tinha oferecido brilhantes esperanças, viam-se a cada dia definhar e morrer as colheitas’. E as chuvas contínuas provocam a catástrofe. As sementes brotaram, mas não haverá colheita. É o fim das esperanças de outubro. A primeira safra será um fracasso.(...) Agora, vêem fracassar sua primeira experiência como agricultores. Desanimados, abandonam as fazendas e voltam para a vila. Mas, com as chuvas, Nova Friburgo apresenta aos colonos um aspecto desolador. A construção do quartel de polícia e do mercado está parada. O Rio Bengala transbordou, as pontes que não foram arrastadas ficaram danificadas. A enchente atingiu as casas. Uma delas, de pedra, que os colonos estavam construindo, desmoronou. As árvores plantadas nas calçadas foram arrancadas. Os riachos tornaram-se torrentes que devastam os jardins. Derrubadas, as cercas são pisoteadas pelos bois, vacas ou porcos. Tudo está inundado. Durante alguns dias, as vias públicas ficam fechadas. Sob as chuvas incessantes e pesadas do verão brasileiro, Nova Friburgo não parece mais uma vila, mas um alagado. Um ano após a chegada[refere-se a chegada dos suíços], apresenta de novo uma paisagem desoladora. O progresso estancou. Parece que tudo tem de recomeçar.
Decepcionados, os pioneiros voltam a morar em suas casas apertadas[as antigas casas construídas na vila para os colonos].(...)Para a maioria é o desânimo. Alguns documentos encontrados demonstram muito bem esse estado de espírito. Os colonos ociosos reúnem-se. A miséria brasileira faz surgirem inúmeras tabernas. O vício nacional característico dos moradores de Fribourg[Suíça] em 1817, no dizer do Conselheiro de Estado Schaller, manifesta-se em Nova Friburgo. Os colonos bebem para matar o tempo e esquecer. Abatidos com o resultado de seu eldorado, procuram no copo de cachaça um paraíso artificial. Em 5 de novembro, Miranda[Inspetor responsável pela Colônia] lastima todas essas bebedeiras; dá ordens enérgicas a seu diretor a fim de que se trabalhe ‘com eficácia por estancar esta fonte perene de desordem na colônia’. O inspetor compreende que a ociosidade pode tornar-se perigosa. A situação social vai-se deteriorando em Nova Friburgo à medida que as fazendas decaem. Em dado momento, os colonos se desentendem, trocam insultos. Chegam às vias de fato; à noite, ecoam tiros de fuzil, há tumultos, estupros; cabeças ensangüentadas por facadas apresentam-se ao médico. Nova Friburgo passa por sua primeira onda de criminalidade. Convém notar que esta se segue ao fracasso da primeira colheita[devido às incessantes chuvas]. É de acreditar que em dezembro a situação fosse alarmante, pois o diretor, receando que ‘sobrevenham catástrofes’, pede demissão. O sonho de Miranda acaba de modo brutal.”
(Nicoulin, Martin, “A Gênese de Nova Friburgo”, 1996, pp.200-201) (grifos meus)




A Fisiologia da Cidade: Tipos Friburguenses no Século 19

A “fisiologia” foi um gênero literário que surgiu na França na primeira metade do século XIX, sendo denominada “literatura panorâmica”. Nesse tipo de texto, singelos cadernos em tamanho de bolso – que eram chamados de physiologies – assumiram um lugar de destaque. Buscavam tipos como aqueles que são encontrados por alguém que dá uma volta pelo mercado. Desde o camelô até os elegantões do foyer da ópera, não havia nenhuma figura da vida parisiense que o physiologue não tivesse desenhado. Após ter-se dedicado aos tipos humanos, a série chegou à fisiologia da cidade. Aparecem Paris la nuit, Paris à table, Paris dans l’eau, Paris à cheval, Paris pittoresque, Paris marié. O objetivo das fisiologias era dar uma imagem alegre e cordial das pessoas entre si (Benjamin, 1985, p. 65).

Certamente, os jornalistas em Friburgo conheciam esse tipo de literatura. Foi editado por algum physiologue friburguense Typos de Friburgo, um elegante livrinho no qual eram descritas as pessoas mais conhecidas da sociedade, no registro de O Friburguense de 22 de setembro de 1898. Numa sociedade que era uma verdadeira “torre de Babel”, compreendendo portugueses, italianos, espanhóis, franceses, turcos, descendentes de suíços e os nativos, desfilavam por Friburgo variados tipos sociais, personagens ilustres e alegóricos do cotidiano da cidade. A coluna denominada “Typos de Friburgo”, assinada por um certo “Língua de Palmo”, inventariou interessantes descrições de figuras ilustres, entre políticos, médicos, negociantes e capitalistas. Essa coluna nos legou, através do encômio de alguns desses tipos, uma noção do que eram as qualidades do homem oitocentista. Ao se analisar esses “tipos”, observa-se que havia elementos que se repetiam na definição de cada um dos descritos. Uma característica que era vista como uma qualidade e que se manifestava em quase todos eles era a eloqüência, a palestra atraente, o aticismo, a verve, a aptidão para a oratória, a qualidade de um causeur, atributos muito apreciados em um homem naquela época. A modéstia, sem dela fazer gala, vinha também a reboque como uma qualidade do homem oitocentista. Se fosse bom palestrante e ainda por cima modesto, diversos louvores eram tecidos sobre o indivíduo, comungando essas duas qualidades numa simbiose perfeita. Além da oratória, a escrita também era valorizada, principalmente dos que se aventuravam na literatura, como era comum em Friburgo, em particular os advogados.

A erudição e as sentenças clássicas eram ainda muito apreciadas. Logo, a estirpe intelectual era destacada, fosse ela decorrente do conhecimento literário ou filosófico, das artes dramáticas, da ópera, do lírico ou da música. A elegância e o porte eram características também muito destacadas, sendo o tipo dândi o mais reverenciado, cuja indumentária era descrita com detalhes, de forma quase pedagógica, para dar mostras aos pupilos do que era ser um homem elegante e seguir-lhe o modelo. O fumo de charutos era um hábito apreciado por quase todos. O fato de ser um indivíduo trabalhador também era destacado, principalmente quando eram homens de sucesso, numa analogia entre labor e fortuna. Quanto ao aspecto sedutor, alguns eram reverenciados não somente por sua beleza, considerados enfant gaté, como ainda por sua qualidade natural de conquistador que gozava das simpatias das damas da cidade. Eram esportistas, amantes de caminhadas, cavalgadas ou equitação, caça e pesca. A voga dos esportes e dos exercícios físicos combinava com os modelos higienistas da época. Souza Cardoso foi um dos tipos descritos pelos fisiologistas:

(…) É poeta e redactor d’O Friburguense (…) seo jornal é bem feito,
noticioso, litterario, symphatico e no gênero representa um verdadeiro tour de force, de perseverança e abnegação (…) sua política é a da prosperidade desta terra a que muito presa. O typo phisico é atrahente, sente-lhe nas longas barbas brancas a bondade e a paz de patriarcha feliz. O Friburguense é seu filho mais novo, o seu querido Benjamim a quem elle prodigalisa thesouros de ternuras e prosa que não parece velho pelo geito e pela graça (…).

Alguns desses tipos foi possível identificar, mas a seleção a seguir, extraída de diversos números de O Friburguense de 1896, serve para exemplificar o que era objeto de gabo da sociedade friburguense:

1) É popularíssimo em Friburgo. Passo lento e bambo de philosofo nostálgico(…). É um repositório inesgotavel de erudição, de sentenças clássicas, de ironia acerada e brilhante. Tem a nobreza de uma illustre estirpe intellectual. É advogado(…).

2) É barão. Estatura fina e delgada de canário belga.
Madrugador, jovial, percorre Friburgo n’um abrir e fechar d’olhos, passo rápido, nervoso, vestes largas e simples. Tem um repertorio vasto de pilherias conhecidas e inéditas, applica-as com um jeito fidalgo e ferino, roda sobre os calcanhares acuvo, afreimado(…). É amador da musica, assobia Arias, canta duettos, faz variações por flauta, discute a Paixão, enthusiasma-se como um rapaz, deita dircurso (…).

3) Traja irreprehensivelmente. Maneiras fidalgas de uma distincção notável, linguagem fácil, luxuosa, incisiva. Discute tudo, psychologia, briga de gallos, com o mesmo primor de forma, com a mesma belleza e elevação (…). É um prazer delicioso ouvil-o em momentos de humorismo hilariante ou de pessimismo paradoxal(…).

4) É engenheiro e já foi vice-presidente deste Estado. Sympathico, despreoccupado, sua palestra é uma bella orchestração de ditos corroscantes, de conceitos originaes e justos, envolvidos na púrpura de uma imaginação, opulenta, meridional (…). (Getúlio das Neves.)

5)Advogado e philosofo. Contemplativo, absorto, passa horas e horas a scismar em doenças, a construir castelos de pílulas (…).

6) É tabelião(…). Veio para Friburgo como um palito, com o pulmão fraco, versos lipicos e prosa romântica; hoje é um bom burguez, meticuloso e exacto no cumprimento dos seus deveres.

7) Entre os typos sumpathicos de Friburgo cabe-lhe lugar no primeiro plano. É medico e deputado. Medico distincto, caritativo, dispensa com maior desinteresse á todos os cuidados da profissão que converteu em verdadeiro sacerdócio, a confiança e sympathia que inspira aos doentes faz com que cure muitas vezes sem receituário; deputado, a sua política é tolerante e melíflua, seus conselhos são vincados de alto prestigio moral, pela respeitabilidade do seu caracter, pelo bello cultivo de seu espírito. Os adversários, os mais intransigentes prestam-lhe os devidos respeitos e amisades pelo trato gentil e cavalheiroso, pela nobreza e franqueza do seu modo de agir determinado e seguro, mas sempre digno e correcto. Nessa cidade que elle estremece todos lhe são affeiçoados e muitos conhecem os thesouros da sua alma amantíssima e caridosa (…). (Ernesto Brazílio.)

8) É major reformado da velha-guarda tem condecorações que muito o distinguem (…). É monarchista convencido e acredita estar com a verdade(…).

9) Em sua pátria, a bella pátria de Garibaldi, foi militar valoroso e digno (…). A sua vocação porém, é a pharmacopéa (…). Seus extractos fluidos são incomparáveis, seus preparados chimicos fasem milagres, reconstituem organismos gastos, ressuscitam defuntos (…).(Raspatini.)

10) É coronel honorário, propagandista da guarda nacional (…). Vigia com cuidado que ninguém lhe tome o posto (…). Em eleição é mestre, somma bem, em sua arithmethica eleitoral 4 e 4 fazem dose o que o não
impede, entretanto, de ser cavalheiro gentil e estimável.(Coronel Zamith.)

11) É poeta e bacharel em sciencias jurídicas. Que tenha algum dia um
escriptorio com laca á porta e que seja capaz de ler e arrasoar (…). Entre a teoria de Lombroso ou de Tarde, elle se inclinará de preferência para um soneto de Baudellaire, para uma estrophe de Verlaine, se a rabulice forense perder com esta preterição exultará a sublime arte que elle amorosamente trata e cultiva.
Phisico elancé, toilette a Broummel, palestra adorável, fazem delle um typo de selecção a quem a diplomacia offerece as suas graças e o scenario brilhante de seus triunphos. Tem sido infeliz em certas partidas, as mulheres não entendem a extesia caprichosa do seu temperamento mas sentem a volubidade dos seus (…) cantares.

12) (…) na redação do jornal faz tudo; o artigo de fundo, a chronica humorística, a noticia, com a mesma correcção e com o mesmo critério
(…). A critica theatral do Friburguense é um primor. Sente-se que são escriptas por quem conhece as “chevilles” do palco, os segredos da “mise-en-scène”, por quem em outros tempos foi amador dramático (…). Hoje é guarda-livros (…). Tem um gesto favorito: cofia a barba, uma barba digna à Duque de Guise (…). (Francisco Pinto de Almeida.)


13) (…) é o agente consular da colonia italiana desta cidade (…). Quando não exerce dos difíceis misteres de sua missão patriótica no terreno da diplomacia e da política, vende vinhos italianos (…).
Quando não vende vinhos fecha a porta, põe a espingarda ao hombro, enche o cachimbo de tabaco, um cachimbo do tamanho do Diabo, uma botelha de chiante, abala para o mato à caça e quase sempre mata o bicho-chiante. Quando não vai à caça toma os caniços, a tarrafa, põe mais tabaco no cachimbo e vae pescar lambarys nos afluentes do rio Bengala onde pesca infalivelmente uma garrafa de Falerno. Quando não vai à pesca fica em casa engarrafando vinho, enchendo a cada momento o cachimbo e discorrendo sobre as caçadas, grandes caçadas em que há
sempre salsichas, paios, mortadellas e frascos de chiante. (Maggiorino Massa.)

14) É advogado e lavrador. Convenceu-se de que nesta terra a melhor
cousa que um homem intelligente póde fazer é plantar café, cana, batatas, etc. (…). Foi deputado do Estado (…). Entretanto outr’ora, “ça va sans dire”, foi amador de operetas, horisontaes e de ceias “a lá diable”. Hoje mudou completamente, fez-se bom burguez (…) é um excellente rapaz, jovial (…), de maneiras insinuantes, de palestra agradabilíssima pela cultura litteraria, pela espontaneidade da verve, uma verve faiscante e rubra. De quando em vez, transparece n’elle o antigo bohemio, mas bohemio a Murger, de espírito faceto e coração generoso.

15) É uma das figuras obrigadas do Friburguense. Faz a revisão, a noticia, a paginação do jornal, o seu querido jornal (…). É um bonito moço, elegante, correcto e sympathico, d’ahi o prestigio que gosa entre o eterno feminino que elle presa e se orgulha de possuir as sympathias (…). (Augusto Cardoso.)


16) É italiano (…) filho da cidade de Salermo (…). Começou a mascatear, mas só em roupas, artigo que entende bem (…). Hoje é importante negociante de seccos e molhados, trabalhando sempre, mas sabe viver bem, mora em uma das melhores casas dessa cidade (…). (Giovanni Giffoni.)


17) É de Nictheroy onde foi liberal extremado e é proprietário de um bom estabelecimento de seccos e molhados (…). Proporciona todos os dias agradáveis reuniões nas portas de seu estabelecimento onde concorre o “high life” masculino, impondo-lhes a obrigação de tomarem assento em duras cadeiras. Assiste a essas reuniões onde é proihibido tratar da vida alheia, cedendo sempre a presidência a algum dos concurrentes (…).


18) (…) é distincto engenheiro; na câmara dá sentenças. Traja bem, calça bem talhada, colete elegante e palitó de gola de veludo. Mòra em casa pequena, mas mobiliada com arte e gosto; os moveis representam antiguidade de fidalgo. É bem jovial e tem espírito, conta anedoctas que faz lembrar o primo Bazílio. Propagandista da luz electrica (…). Vae sempre a capital assistir as primeiras representaçõese quando volta faz descripções que muito deleitam os ouvintes (…). (Joseph Lynch.)


O periódico O Beija-Flor também retratava os tipos da cidade numa coluna intitulada “Typos e Typões”, mas com um formato diferenciado que objetivava elaborar uma espécie de charada sobre o perfil de quem se descrevia:

TYPOS E TYPÕES
I
Profissão: Desde o fumo,
passando pela polícia até a Câmara.
Particularidade: Cultiva verde para
colher maduro.
Endereço Postal: No quartinho secreto, dos fundos.
Divisa: Ser chefe dos tribudos “guaranys”.
II
Profissão: Não disputa
o boticão, orador popular e membro de commissões
de bailes e manifestações.
Particularidade: Tudo pela classe.
Endereço Postal: Centro.
Divisa:
O operário é o baluarte das grandes nações.
(O Beija-Flor, de 6-10-1895.)

TYPOS E TYPÕES
Profissão: Accusar por dever.
Particularidade: Fallar pouco, quando deve ser ao contrario.
Endereço Postal: órgão (…).
Divisa: Para olhos que ferem há attenuantes.
(O Beija-Flor, de 13-10-1895.)

TYPOS E TYPÕES
Profissão: Administrador
effectivo e coronel honorário.
Particularidade: Repórter por natureza.
Endereço Postal: Mona (…).
Divisa: Quem não quiser ser lobo não lhe
vista a pelle.
(O Beija-Flor, de 27-10-1895.)

Quanto ao perfil feminino, foi retratado usando-se a personagem de um artista que com a sua palheta pintava os perfis das elegantes senhoras e damas da cidade. “Silhouettes” era uma pequena coluna publicada em francês, em O Friburguense, no período de 26 de abril a 31 de maio de 1896. Segundo o periódico, quando se retratavam tão nobres e elegantes friburguenses, somente o idioma de Racine poderia retratar a donaire, a elegância da elite citadina. O porte, as boas maneiras, o garbo, o bom gosto, todas essas qualidades foram pintadas pela palheta e assinadas por C. Fróes e J. Cardoso, esse último provavelmente o articulista Sousa Cardoso:
Blonde.
Elle a um joli visage de deésse de l’ancienne Mythologie.
Elle posséde une élégance exquise, un physique alancé et vaporeux, une grace de parisienne commen faut. Ses toilettes sont toujours chics, toujours à soi même.

Elle a des yeux bleus profonds, des yeux oú les petits symboles de
l’amour dansent comme dans une pagode indienne.
Elle a une beauté pleine de séduction, de genre de beauté qui tourmente les hommes et fait naitre en eux l’amour. Elle est brune.

Elle a les cheveux noirs, les yeur noirs, un noir
illuminé et doux. Materiellement, elle n’est pas belle.
Elle a dans le visage une expression de doucer delicieuse.
Lá reside le secret de son charme.
Elle este pâle.
Quand elle reprend les couleurs de la santé, il
me semble que ce n’est plus elle.
Quando elle rit, de son rire éternel, je ne puis me
defendre d’une vague mouvement d’hostilité et presque de colére contre son rire. Elle est l’image monote du rire.
(O Friburguense, vários números,
de 1896.).

As mulheres também não foram esquecidas pelo periódico O Beija-Flor:

PERFIS
Eu cá no número próximo
Começarei publicando
O perfil airoso
e brando
Das bellas moças de cá;
Darei o perfil das pallidas,
E das
morenas tão cheias
De bellesa, só as feias
Não terão perfil, olá!
Myosotis.
(O Beija-Flor, de 6-10-1895.)

Apesar de não descritos pelo fisiologista, também compunham o elenco de figuras conhecidas alguns personagens das classes populares. Entre elas os “tipos de rua”, que faziam parte do cotidiano da cidade, sendo geralmente indivíduos negros, loucos, alcoólatras e provavelmente
egressos da escravidão: "(…) É a consagração indispensavel que prepara o trimpho immortal dos typos de rua, que os faz tão intimamente ligados a uma phase da vida colletiva, a existência de uma sociedade num determinado período histórico". (O Friburguense, “A Perua”, de 12-7-1896.)

O poder constituído, em Nova Friburgo, costumava despachar os negros e crioulos alcoólatras para o hospital de alienados em Niterói e os velhos indigentes para o asilo de mendicidade na capital federal. O delegado de polícia detinha, inicialmente, esses indivíduos na cadeia e aguardava a autorização do chefe de polícia do estado para realizar o traslado. Apesar de muitos terem sido despachados da cidade, alguns resistiram e passaram a fazer parte da paisagem e do cotidiano de Friburgo. Pequenos furtos ou ainda agressões cometidos por essas personagens eram tolerados pelas autoridades locais. Segundo Magali Gouveia Engel (2003, p. 63), no começo do século XX, personagens cujas trajetórias de vida se desenrolavam nas fronteiras entre a loucura, a embriaguez, a mendicância e a vadiagem conseguiram preservar as vivências e convivências proporcionadas pela liberdade das ruas.

Freqüentemente, os negros eram objetos das brincadeiras e escárnio por parte da população. Havia em Friburgo o “tenente maluco”, que, do meio-dia em diante, ameaçava quebrar a “cuia” de quem passasse por ele. Já o negro “Roão”, quando estava “na chuva”, ou seja, bêbado, despejava um turbilhão de palavrões.147 O articulista queixava-se: “Ou elle ensaboie a lingua ou raspe-se do logar.” “Tiny” era a alcunha de uma célebre crioula de nome Joaquina de Jesus, que costumava roubar roupas e frutos dos quintais, levando sempre uma advertência do delegado de polícia. Já a preta Leopoldina, que atacava geralmente crianças na estrada, ferindo-as, era mais temida e levava bons sopapos e cachações do delegado, quando detida. Uma outra mulher preta que dizia chamar-se Margarida, e que o vulgo mudoulhe o nome para “Coruja”, servia de joguete da molecagem. Por ela não concordar com essa mudança de nome, uma torrente de palavras que, segundo O Friburguense, “a moral repugna reproduzir” era proferida, aumentando ainda mais a gaiatice da rapaziada. “Não haverá quem ponha cobro a isso?”, cobravam os mais moralistas no editorial de O Friburguense de 25 outubro de 1891.
Como disse, os tipos populares eram quase sempre mulheres e homens negros, provavelmente loucos em razão das sevícias da escravidão, cuja extinção era ainda recente.
É significativo que os negros sempre tivessem alcunha, como o preto Vicente da Silva Barros, vulgo “Roão”, e que, por mais que lutassem para adquirir uma identidade, com nome e sobrenome, acabavam sempre sendo reconhecidos por seus apelidos (O Friburguense,
de 31-5-1891.)

A preta Margarida, ou “Perua”, como era conhecida, nome dado pela molecada, era o tipo mais popular da cidade. “Perua” já não se irritava mais com a alcunha que lhe haviam dado e passava requebrando o corpo, envolto em um xale, e arrastando os chinelos. De luneta acavalada sobre o nariz adunco, lápis e papel nas mãos rascunhando caracteres ininteligíveis e bramindo alto, pintava a saracura, numa[ fúria de histeria inofensiva, com terríveis predições apocalípticas. Na estação ou na porta da igreja, a molecada gritava: “Perua! Perua!” Era o grito constante e, por onde ela aparecesse, formava-se logo uma roda. Havia os que a admiravam, os que a provocavam para rir de seus arremessos à garotada e aqueles curiosos em ouvir suas previsões e imprecações de desgraças para o futuro. “Perua” era vista arrastando-se, beijando e chorando o lajedo dos adros da Igreja-Matriz. Nesse momento, comovia os transeuntes mais piedosos, na sublime e dolorosa austeridade da sua religião de histérica. Após a penitência, seguia sob um coro de gestos e apupos, já fazendo parte do cotidiano da cidade a flânerie da jovem preta Margarida. No rosto, sempre a expressão alucinante, ouvindo revelações da outra vida, tão inofensiva na sua demência, tão desgraçada na sua vesânia. Heranças da escravidão.


Fonte: Extraído do livro "O Cotidiano de Nova Friburgo no final do século 19> Práticas e Representação Social".

O COTIDIANO DO RIO DE JANEIRO NO SÉCULO 19: TIPOS CARIOCAS.






NO SUSPIRO TRÊS ALMAS GEMEM DE DOR: AMOR, SAUDADE E CIÚME

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A Fonte do Suspiro era a principal fonte da vila de Nova Friburgo desde a sua fundação em 1820, onde os habitantes abasteciam de água as suas residências. Com o passar do tempo, a fonte provocou a urbanização local surgindo a Praça do Suspiro e a igrejinha de Santo Antônio. O mais interessante é que as águas de suas fontes acabaram cercadas de lendas criadas pela população de Nova Friburgo. Na Fonte do Suspiro foram canalizadas três bicas: do Amor, da Saudade e do Ciúme. Jorrava água fresca e cristalina, cantando andeixas sentidas e amarguradas. Daí o hino de Nova Friburgo que lhe tece louvores: “...Do suspiro na fonte saudosa/ Há três almas que gemem de dor/Repetindo esta prece maviosa/Da saudade, do ciúme e do amor...”. A Fonte do Suspiro era considerada desde tempos antigos, até mais da metade do século 20 como uma das “maravilhas” de Friburgo, o recanto mais formoso da cidade, “onde cada friburguense tem uma parte de sua alma e um pedacinho do seu coração”. Não havia quem tendo amado não tenha procurado aquele recanto florido e bucólico, lugar onde a natureza concentrara sua magia, revestindo-se de galas e pomas. Dizia a lenda que quem beber da “Fonte Encantada do Suspiro” a ela se prenderá por toda a vida! Acreditava-se que o viajante que bebia um pouco de sua água pura, que jorrava cantante das três fontes, certamente voltaria a Friburgo, porque a saudade lhe encheria o coração. Era uma fonte impregnada de feitiço e lendas. Para os que viveram grandes paixões em seus jardins, o suspiro representava o tabernáculo de sonhos do passado. Era uma referência para os que já amaram e para os que ainda amavam. Não há álbum de fotos de mocinhas e touristes do século 19 que não tivesse como locação a Fonte do Suspiro.

Um vereador queixou-se certa feita dos namoros fogosos na Praça do Suspiro, onde se praticava ali “atos que devem ser vedados”. O jornal O Friburguense do final do século 19, nos legou uma deliciosa crônica que traduz um pouco do cotidiano dessa praça. Numa quinta-feira, quando as horas do labor diurno cediam o passo às de descanso, um voyeur, discreto no andar, de paletó-saco, pincenê e guarda-chuva à mão, observando um casal de namorados na Praça do Suspiro, assim escreveu: “...Ali, sentados em um dos bancos, ele, o Romeu de jaqueta de brim e sem escada de seda enlaçou aquela Julieta (…) e ei-los n’um doce colóquio, n’um devaneio amoroso que a brisa suave da tarde acalentava. Discreto caçador que por lá passava, quedou-se, protegido pelo largo tronco de uma árvore, a contemplar o arrulho dos dois pombinhos, que começavam a cantar os seus idílios antes que as sombras da noite caíssem sobre aquele sítio tão propício a tais situações. O quadro vivo era digno de ser visto, enquanto que a fonte cantava sonoramente ao lançar os seus jactos de cristal sobre a bacia de granito, eles, embalados pela cadencia de uma melodia que os seus instintos entoavam, falavam as coisas ternas, de cousas sensíveis e osculavam-se[beijavam-se] impudicamente. Depois ergueram-se, olharam-se naturalmente e tomaram ansiosos o caminho do bosque. O caçador, única testemunha desta cena erótica, farto de presidi-la qual cupido desvendado, seguiu sua trilha; o bosque, que não fala, que guarda tantos segredos, recolheu as últimas horas dessa canção de amor. E o Suspiro, o poético Suspiro, o passeio predileto dos touristes, o logradouro publico onde de preferência as famílias fazem os seus passeios, nem ao menos respeitado durante o dia.” (O Friburguense, “Quadro Vivo”, de 28-6-1896.)

Mas o Suspiro era também um lugar para os que vinham buscar na mansuetude bucólica de Nova Friburgo e na salubridade do bom clima, o reconforto para o espírito e o retempero para sua saúde, encontrando ali o encantamento doce e a estesia miraculosa que erguem o ser abatido. No imaginário da população, além do romantismo que ela evocava, era também notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Faziam lenir as dores dos que sofriam e dizia-se que até mesmo “ressuscitava os quase-mortos”. No século 19, a Praça do Suspiro era o mais importante espaço de sociabilidade. O único passeio público das famílias friburguenses para ali “recrear-se” aos domingos. O Clube Atlético Bargossi solicitou em 1886 à Câmara Municipal permissão para colocar “postes da raia” na Praça do Suspiro para que o clube realizasse corridas de cavalo aos domingos e dias santificados. A batalha das flores, por ocasião do carnaval, era igualmente realizada nessa praça por onde desfilava o préstito de carruagens floridas. Por abrigar a igrejinha de Santo Antônio, as festas do orago eram realizadas em sua praça, para onde acorria toda a população.

Passando ao século 20, José Mastrângelo nos informa que as águas da Fonte do Suspiro eram ferruginosas, auxiliando a “soltar o intestino”. Quando a torcida adversária comparecia ao Campo do Fluminense(atual Friburguense), que era localizado onde hoje é o Teatro Municipal, a gaiata galera de Friburgo oferecia a “famigerada água” da Fonte do Suspiro aos torcedores, provocando-lhes diarréia e terríveis flatulências. Se utilizarmos a fonte iconográfica podemos observar que foi a praça que mais sofreu intervenções dos poderes públicos em Nova Friburgo, diferençando-se imensamente a sua paisagem ao longo dos anos. Nunca imaginaríamos que a pracinha do Suspiro entraria na história simbolizando a catástrofe da enchente e desmoronamentos dos morros ocorridos em Nova Friburgo na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011. O futuro da Fonte do Suspiro ainda não sabemos. Considerando que o hino de Nova Friburgo se refere a essa fonte, as três almas que gemem de dor, Amor, Saudade e Ciúmes, fica o registro da história da Fonte do Suspiro para as futuras gerações.

AS ENCHENTES DO VELHO SÃO JOÃO DAS BENGALAS: UM DÉJÀ VU NA HISTÓRIA DE FRIBURGO

Acima: Enchente na Rua Francisco Miele em 02 de janeiro de 1938.


Acima: Praça Getúlio Vargas. Enchente de 1940.




Acima: Praça do Suspiro. Enchente de 1940.

Acima: Rua Sete de Setembro. Enchente de 1920.




Acima: Praça Getúlio Vargas. Enchente de 1920.



Acima: Avenida Galdino do Vale. Enchente de 1920.



Acima: Rua General Osório. Enchente de 1940.




Acima: Não há referência da foto. Provavelmente a enchente de 1940.


Acima: Avenida Galdino do Vale. 1940.




Acima: Avenida Galdino do Vale. 1940.


Acima: Rua Oliveira Botelho. Enchente de 1940.

A Fazenda do Morro Queimado, onde Nova Friburgo se estabeleceu, pertencia a Cantagalo. Era um belo vale situado entre cinco elevadas montanhas e apelidaram-na de morro queimado por causa da cor tisnada, acinzentada das montanhas. Destaca-se na paisagem o Rio São João das Bengalas, formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antonio que lança-se no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul. Nova Friburgo sempre padeceu com as enchentes do velho Rio Bengalas, desde a instalação da vila em 1820, até os dias de hoje. Mas as civilizações sempre se formaram ao redor dos rios, devido atividade agrícola. A Mesopotâmia, na Antiguidade, formou-se entre os Rios Tigre e Eufrates. A própria etimologia da palavra mesopotâmia significa “entre rios”. O Egito depende das enchentes do Rio Nilo para a sua economia.


Quando instalou a vila de Nova Friburgo não se considerou que a sua proximidade com o rio acarretaria problemas de alagamento nas residências e logradouros com prejuízo material e à salubridade pública? A escolha do local do assentamento da vila, as “vilagens do norte e do sul”, pode ter sido em função da existência do chateau(hoje Colégio Anchieta), sede da administração da Fazenda do Morro Queimado. Mas note que a sede da fazenda ficava no alto do morro, provavelmente em função das enchentes do velho Bengalas.


O “tempo das grandes enchentes”, diziam os friburguenses oitocentistas, era como hoje, iniciando na primavera. Há registro de que choveu em Nova Friburgo ininterruptamente durante três meses consecutivos nessa época. Nova Friburgo possui extensa mata atlântica e daí o grande nível pluvial. Sempre foi uma constante na estação das chuvas as enchentes do Bengalas inundarem suas imediações, entrando nas casas, destruindo pontes e os precários caminhos. Dificultava o trabalho dos tropeiros causando-lhes perda de cargas e até de animais. Além das perdas materiais o maior problema das enchentes era o comprometimento da salubridade. Com as chuvas intensas formavam-se pântanos e acreditava-se que as febres eram atribuídas aos focos de miasmas produzidos pelos pântanos. Os miasmas eram a obsessão dos médicos higienistas oitocentistas. Acreditava-se que dos pântanos e manguezais emanavam seres não visíveis a olho nu, os miasmas venenosos, que aspirados pela boca ou nariz, causavam as febres palustres. Segundo a ciência médica da época, as “febres dos pântanos” ou “febres palúdicas” eram provocadas pelos miasmas deletérios que se desprendiam das águas estagnadas. Logo, o assoreamento de águas estagnadas era uma preocupação constante da Câmara Municipal que se ocupava em aterrar os pântanos. Em conseqüência das chuvas, as ruas da vila foram niveladas e aterradas para evitar a formação de pântanos, brejos e alagadiços. Como disse, a estagnação das águas poderia resultar no aparecimento de epidemias. Foram as enchentes que provocaram a mudança do cemitério da vila para a parte mais alta da cidade. O cemitério era exatamente onde hoje se encontra o prédio da maçonaria, na Rua Sete de Setembro, e foi deslocado para onde se localiza atualmente. No antigo cemitério, depois que as águas baixavam, os corpos ficavam insepultos devido à força das águas e provocavam constrangimento entre a população. E o pior, poderia provocar doenças.


Ao final do século 19, de caniço à mão, comerciantes, caixeiros, aprendizes e oficiais iam aos domingos ao Rio Bengalas pescar pião e piabanha. Os jornais de Friburgo do final do século 19 reclamavam dos moleques e rapazolas que se despiam de seus molambos, de seus trapos de estopa e iam tomar banho completamente nus, em plena luz do dia. O moleque brasileiro tornou-se célebre pelo seu gosto de banho de rio. Influência moura, através do português. Gilberto Freyre nos informa em “Sobrados e Mucambos” que viajantes sempre estranharam homens e mulheres, velhos e meninos regalando-se de banho de rio à vista de toda a cidade. O budum, a catinga, a inhaça e o “cheiro de bode” atribuído aos negros, exagero do “cheiro de raça” tão forte nos sovacos, em torno do qual cresceu o folclore, não foi pela falta de banho, mas pelo rigor do trabalho, nos informa Freyre. Isso porque do banho, o negro, o mulato, o mameluco e o caboclo nunca se mostraram inimigos como os brancos europeus. Era na beira do rio, espaço de sociabilidade feminina, que as lavadeiras lavavam e quaravam as roupas, ganhavam seu pão, trocavam confidências, saberes de curas e remédios, e queixavam-se das pancadas que tomavam dos companheiros. Não obstante a nossa imensa extensão de costa marítima, foi em torno dos rios que a civilização brasileira se desenvolveu.


Aproximadamente entre 1910-1990, período em que as indústrias têxteis e metalúrgicas se instalaram e alcançaram seu apogeu em Nova Friburgo, víamos o velho Bengalas matizado por diversas cores. Quem não se recorda que um dia o Bengalas estava verde, outro vermelho ou furta-cor em razão dos despejos sem tratamento dos produtos químicos das indústrias? Ainda não tínhamos a consciência ecológica de hoje. Mas quem ousaria protestar contra os “capitães” das indústrias alemãs que tantos empregos diretos e indiretos geravam na cidade? Atualmente o Bengalas corta a cidade ressequido, esquecido, poluído, servindo de depósito de lixo de indivíduos irracionais. Mas na época das chuvas, o velho São João das Bengalas ressurge e as enchentes são um déjà Vu, ou seja, algo já visto e já vivenciado em nossa história.

Na semana seguinte em que postei essa matéria, na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, o velho São João das Bengalas inundou a cidade de Nova Friburgo, provocando uma das maiores enchentes e tragédias da história da cidade. Muito mais grave do que a enchente de 1979. Não bastasse isso, muita terra e pedras desceram dos morros, soterrando prédios, no centro e na periferia da cidade. Mais de cem pessoas faleceram. Até mesmo quatro bombeiros da equipe de resgate morreram. A cidade ficou sem luz, sem água e sem comunicação. Principiou-se alguns saques, típico de uma sociedade que retorna ao seu estado de natureza. Sem lei, sem ordem e sem rei.
Note na sequência de charges do cartunista SILVÉRIO, de A Voz da Serra, publicadas antes da tragédia do dia 12 de janeiro, que ele já vinha ilustrando o cotidiano de enchentes no município.


Depois de enterrarmos os nossos mortos, passaremos a contabilizar as perdas materiais. A igreja de Santo Antônio e a Fonte do Suspiro, um dos raros monumentos históricos que nos resta do século 19, foram destruídos pela terra que desceu da encosta. A igreja de Santo Antônio mal é sustida em pé. Até quando essas tragédias serão um dè já vu em nossa história?










Todas as fotos acima são de enchentes em Nova Friburgo, no século XX. Fonte: Centro de Documentação D. João VI.




O PAI, A POLÍTICA E A VIDA SOCIAL

Praça que levou o nome do médico Dermebal Barbosa Moreira


Derly Moreira Chaloub nasceu em 1921 e tinha doze anos quando veio residir em Nova Friburgo. Sua família é originária de Conceição de Macabu. Seu pai foi um dos médicos mais cultuados na história de Nova Friburgo: Dr. Dermeval Barbosa Moreira. Falecido em 06 de maio de 1974, aos 74 anos, seu funeral ilustra bem a consideração que gozava junto às classes populares onde concorreram milhares de pessoas. Quando se encontrava na agonia de seus últimos momentos de vida, o povo se aglomerou na Praça Paissandu, em frente ao hospital onde ele se encontrava internado. Sob pressão da população, Derly autorizou, mesmo sofrendo com a agonia de seu pai, que cada popular passasse, um a um, em frente à porta do quarto do Dr. Dermeval para a derradeira despedida. No préstito fúnebre, as enfermeiras foram todas de branco com uma rosa vermelha à mão. Moças jogavam pétalas de rosa sobre o caixão. Muitos até imaginam que Dr. Dermeval exerceu um cargo de vereador ou prefeito no município, mas ele nunca se imiscuiu na política local. Foi o último daquela cepa de médicos que misturava a profissão com o sacerdócio, pois tinha um local e horário para atender gratuitamente aos pobres, uma prática muito comum entre os médicos até o primeiro quartel do século XX. Daí a sua popularidade e ser considerado o “pai dos pobres”.

Poucos sabem, mas quem construiu o prédio que abriga a UERJ foi o Dr. Dermeval juntamente com o seu cunhado, edificando no local, conhecido por Cascata, o Hotel Cassino. No entanto, como o jogo foi proibido no governo Dutra, o prédio virou um elefante branco. Dr. Dermeval então negociou com médicos tisiologistas do Rio de Janeiro para abrigar no Hotel Cassino mais um sanatório para tuberculosos na cidade. Augusto Spinelli, que era vereador, mobilizou a população contra essa venda, posto que Nova Friburgo iria se transformar em uma “cidade sanatório”. Encetou-se então negociações com a Fundação Getúlio Vargas e o prédio acabou virando um estabelecimento de ensino.

Derly Chaloub não tem boas recordações da política. Seu irmão Vanor foi deposto no regime militar acusado de ser comunista. Recorda-se de uma noite em que a diretora da telefônica, que gostava muito do Dr. Dermeval, foi a sua residência e relatou que ouvira uma ligação de uma pessoa importante do gabinete do Dr. Vanor ligar para a Marinha, no Rio de Janeiro, acusando o seu irmão de comunista. Foi ela quem recebeu a denúncia. Era tarde da noite, e não quis incomodar seu pai, mas no dia seguinte, narrou-lhe o fato. Dr. Dermeval foi juntamente com o seu filho, o então prefeito Vanor, ao Sanatório Naval para esclarecerem os fatos e aquela denúncia. Mas as denúncias continuaram e seu irmão perdeu o mandato de prefeito manu militaris.

Quando perguntada sobre a vida social no passado, Derly respondeu que a população de Friburgo era fria como o clima, e que antigamente não acontecia quase nada. Mas quando nos fala de seus anos dourados, percebemos que não era bem assim. Além dos bailes que freqüentava amiúde no Hotel Cassino(já esse hotel era localizado onde é hoje o Edifício União) e do Xadrezinho, Derly participava de uma orquestra de acordeão da cidade. As sessões de cinema e os passeios na praça eram inesquecíveis. Havia um trem que vinha de Porto Novo e passava às nove horas da noite pela praça. Era chamado de “vassourinha”, isso porque quando ele passava, todas as moças “decentes” tinham que ir para casa. Derly ri quando se recorda dos tipos de rua engraçados da cidade: o “Olímpio Errado”, que colocava a frente da calça para trás e o povo gritava: “Olímpio Errado”; ou ainda do “Chandoca” que tocava banjo, muitas vezes, à noite, debaixo de sua janela.
No cinema Leal, antigo Teatro D. Eugênia, com a chegada do verão e das férias escolares, Derly e as Zamith, Braunes, Dutra, Carneiro e Carrapatoso promoviam apresentações teatrais. Ensaiavam umas quatro peças por temporada sob a direção Moacir Peixoto, que era de Friburgo. Os turistas gostavam muito dessas apresentações, “era muito caprichado”, recorda-se. Peixoto trazia do Rio de Janeiro o cenário e o figurino. O grupo participava do concurso de teatro amador no Ginástico Português, no Rio de Janeiro e se apresentava ainda no Teatro Municipal de Niterói. É interessante como desde o final do século XIX, a elite carioca e friburguense tinham no teatro amador, uma de suas formas de sociabilidade. Não se denominavam atrizes, mas “amadoras”. Havia ainda uma orquestra na cidade, orientada por Sérvio Lago, de uma família de músicos, e Derly também tocava na orquestra como pianista. Os músicos também participavam das apresentações teatrais. Em suas memórias, Derly Moreira Chaloub relembra a dor pela perda de muitos familiares queridos. Mas em contrapartida, o sorriso e a alegria no semblante quando se recordou da sua juventude e dos tipos mais ordinários e divertidos do cotidiano da cidade: o Olímpio Errado e o Chandoca.
Texto baseado nas memórias de Derly Moreira Chaloub, entrevistada em 2010.

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