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A Fisiologia da Cidade: Tipos Friburguenses no Século 19

A “fisiologia” foi um gênero literário que surgiu na França na primeira metade do século XIX, sendo denominada “literatura panorâmica”. Nesse tipo de texto, singelos cadernos em tamanho de bolso – que eram chamados de physiologies – assumiram um lugar de destaque. Buscavam tipos como aqueles que são encontrados por alguém que dá uma volta pelo mercado. Desde o camelô até os elegantões do foyer da ópera, não havia nenhuma figura da vida parisiense que o physiologue não tivesse desenhado. Após ter-se dedicado aos tipos humanos, a série chegou à fisiologia da cidade. Aparecem Paris la nuit, Paris à table, Paris dans l’eau, Paris à cheval, Paris pittoresque, Paris marié. O objetivo das fisiologias era dar uma imagem alegre e cordial das pessoas entre si (Benjamin, 1985, p. 65).

Certamente, os jornalistas em Friburgo conheciam esse tipo de literatura. Foi editado por algum physiologue friburguense Typos de Friburgo, um elegante livrinho no qual eram descritas as pessoas mais conhecidas da sociedade, no registro de O Friburguense de 22 de setembro de 1898. Numa sociedade que era uma verdadeira “torre de Babel”, compreendendo portugueses, italianos, espanhóis, franceses, turcos, descendentes de suíços e os nativos, desfilavam por Friburgo variados tipos sociais, personagens ilustres e alegóricos do cotidiano da cidade. A coluna denominada “Typos de Friburgo”, assinada por um certo “Língua de Palmo”, inventariou interessantes descrições de figuras ilustres, entre políticos, médicos, negociantes e capitalistas. Essa coluna nos legou, através do encômio de alguns desses tipos, uma noção do que eram as qualidades do homem oitocentista. Ao se analisar esses “tipos”, observa-se que havia elementos que se repetiam na definição de cada um dos descritos. Uma característica que era vista como uma qualidade e que se manifestava em quase todos eles era a eloqüência, a palestra atraente, o aticismo, a verve, a aptidão para a oratória, a qualidade de um causeur, atributos muito apreciados em um homem naquela época. A modéstia, sem dela fazer gala, vinha também a reboque como uma qualidade do homem oitocentista. Se fosse bom palestrante e ainda por cima modesto, diversos louvores eram tecidos sobre o indivíduo, comungando essas duas qualidades numa simbiose perfeita. Além da oratória, a escrita também era valorizada, principalmente dos que se aventuravam na literatura, como era comum em Friburgo, em particular os advogados.

A erudição e as sentenças clássicas eram ainda muito apreciadas. Logo, a estirpe intelectual era destacada, fosse ela decorrente do conhecimento literário ou filosófico, das artes dramáticas, da ópera, do lírico ou da música. A elegância e o porte eram características também muito destacadas, sendo o tipo dândi o mais reverenciado, cuja indumentária era descrita com detalhes, de forma quase pedagógica, para dar mostras aos pupilos do que era ser um homem elegante e seguir-lhe o modelo. O fumo de charutos era um hábito apreciado por quase todos. O fato de ser um indivíduo trabalhador também era destacado, principalmente quando eram homens de sucesso, numa analogia entre labor e fortuna. Quanto ao aspecto sedutor, alguns eram reverenciados não somente por sua beleza, considerados enfant gaté, como ainda por sua qualidade natural de conquistador que gozava das simpatias das damas da cidade. Eram esportistas, amantes de caminhadas, cavalgadas ou equitação, caça e pesca. A voga dos esportes e dos exercícios físicos combinava com os modelos higienistas da época. Souza Cardoso foi um dos tipos descritos pelos fisiologistas:

(…) É poeta e redactor d’O Friburguense (…) seo jornal é bem feito,
noticioso, litterario, symphatico e no gênero representa um verdadeiro tour de force, de perseverança e abnegação (…) sua política é a da prosperidade desta terra a que muito presa. O typo phisico é atrahente, sente-lhe nas longas barbas brancas a bondade e a paz de patriarcha feliz. O Friburguense é seu filho mais novo, o seu querido Benjamim a quem elle prodigalisa thesouros de ternuras e prosa que não parece velho pelo geito e pela graça (…).

Alguns desses tipos foi possível identificar, mas a seleção a seguir, extraída de diversos números de O Friburguense de 1896, serve para exemplificar o que era objeto de gabo da sociedade friburguense:

1) É popularíssimo em Friburgo. Passo lento e bambo de philosofo nostálgico(…). É um repositório inesgotavel de erudição, de sentenças clássicas, de ironia acerada e brilhante. Tem a nobreza de uma illustre estirpe intellectual. É advogado(…).

2) É barão. Estatura fina e delgada de canário belga.
Madrugador, jovial, percorre Friburgo n’um abrir e fechar d’olhos, passo rápido, nervoso, vestes largas e simples. Tem um repertorio vasto de pilherias conhecidas e inéditas, applica-as com um jeito fidalgo e ferino, roda sobre os calcanhares acuvo, afreimado(…). É amador da musica, assobia Arias, canta duettos, faz variações por flauta, discute a Paixão, enthusiasma-se como um rapaz, deita dircurso (…).

3) Traja irreprehensivelmente. Maneiras fidalgas de uma distincção notável, linguagem fácil, luxuosa, incisiva. Discute tudo, psychologia, briga de gallos, com o mesmo primor de forma, com a mesma belleza e elevação (…). É um prazer delicioso ouvil-o em momentos de humorismo hilariante ou de pessimismo paradoxal(…).

4) É engenheiro e já foi vice-presidente deste Estado. Sympathico, despreoccupado, sua palestra é uma bella orchestração de ditos corroscantes, de conceitos originaes e justos, envolvidos na púrpura de uma imaginação, opulenta, meridional (…). (Getúlio das Neves.)

5)Advogado e philosofo. Contemplativo, absorto, passa horas e horas a scismar em doenças, a construir castelos de pílulas (…).

6) É tabelião(…). Veio para Friburgo como um palito, com o pulmão fraco, versos lipicos e prosa romântica; hoje é um bom burguez, meticuloso e exacto no cumprimento dos seus deveres.

7) Entre os typos sumpathicos de Friburgo cabe-lhe lugar no primeiro plano. É medico e deputado. Medico distincto, caritativo, dispensa com maior desinteresse á todos os cuidados da profissão que converteu em verdadeiro sacerdócio, a confiança e sympathia que inspira aos doentes faz com que cure muitas vezes sem receituário; deputado, a sua política é tolerante e melíflua, seus conselhos são vincados de alto prestigio moral, pela respeitabilidade do seu caracter, pelo bello cultivo de seu espírito. Os adversários, os mais intransigentes prestam-lhe os devidos respeitos e amisades pelo trato gentil e cavalheiroso, pela nobreza e franqueza do seu modo de agir determinado e seguro, mas sempre digno e correcto. Nessa cidade que elle estremece todos lhe são affeiçoados e muitos conhecem os thesouros da sua alma amantíssima e caridosa (…). (Ernesto Brazílio.)

8) É major reformado da velha-guarda tem condecorações que muito o distinguem (…). É monarchista convencido e acredita estar com a verdade(…).

9) Em sua pátria, a bella pátria de Garibaldi, foi militar valoroso e digno (…). A sua vocação porém, é a pharmacopéa (…). Seus extractos fluidos são incomparáveis, seus preparados chimicos fasem milagres, reconstituem organismos gastos, ressuscitam defuntos (…).(Raspatini.)

10) É coronel honorário, propagandista da guarda nacional (…). Vigia com cuidado que ninguém lhe tome o posto (…). Em eleição é mestre, somma bem, em sua arithmethica eleitoral 4 e 4 fazem dose o que o não
impede, entretanto, de ser cavalheiro gentil e estimável.(Coronel Zamith.)

11) É poeta e bacharel em sciencias jurídicas. Que tenha algum dia um
escriptorio com laca á porta e que seja capaz de ler e arrasoar (…). Entre a teoria de Lombroso ou de Tarde, elle se inclinará de preferência para um soneto de Baudellaire, para uma estrophe de Verlaine, se a rabulice forense perder com esta preterição exultará a sublime arte que elle amorosamente trata e cultiva.
Phisico elancé, toilette a Broummel, palestra adorável, fazem delle um typo de selecção a quem a diplomacia offerece as suas graças e o scenario brilhante de seus triunphos. Tem sido infeliz em certas partidas, as mulheres não entendem a extesia caprichosa do seu temperamento mas sentem a volubidade dos seus (…) cantares.

12) (…) na redação do jornal faz tudo; o artigo de fundo, a chronica humorística, a noticia, com a mesma correcção e com o mesmo critério
(…). A critica theatral do Friburguense é um primor. Sente-se que são escriptas por quem conhece as “chevilles” do palco, os segredos da “mise-en-scène”, por quem em outros tempos foi amador dramático (…). Hoje é guarda-livros (…). Tem um gesto favorito: cofia a barba, uma barba digna à Duque de Guise (…). (Francisco Pinto de Almeida.)


13) (…) é o agente consular da colonia italiana desta cidade (…). Quando não exerce dos difíceis misteres de sua missão patriótica no terreno da diplomacia e da política, vende vinhos italianos (…).
Quando não vende vinhos fecha a porta, põe a espingarda ao hombro, enche o cachimbo de tabaco, um cachimbo do tamanho do Diabo, uma botelha de chiante, abala para o mato à caça e quase sempre mata o bicho-chiante. Quando não vai à caça toma os caniços, a tarrafa, põe mais tabaco no cachimbo e vae pescar lambarys nos afluentes do rio Bengala onde pesca infalivelmente uma garrafa de Falerno. Quando não vai à pesca fica em casa engarrafando vinho, enchendo a cada momento o cachimbo e discorrendo sobre as caçadas, grandes caçadas em que há
sempre salsichas, paios, mortadellas e frascos de chiante. (Maggiorino Massa.)

14) É advogado e lavrador. Convenceu-se de que nesta terra a melhor
cousa que um homem intelligente póde fazer é plantar café, cana, batatas, etc. (…). Foi deputado do Estado (…). Entretanto outr’ora, “ça va sans dire”, foi amador de operetas, horisontaes e de ceias “a lá diable”. Hoje mudou completamente, fez-se bom burguez (…) é um excellente rapaz, jovial (…), de maneiras insinuantes, de palestra agradabilíssima pela cultura litteraria, pela espontaneidade da verve, uma verve faiscante e rubra. De quando em vez, transparece n’elle o antigo bohemio, mas bohemio a Murger, de espírito faceto e coração generoso.

15) É uma das figuras obrigadas do Friburguense. Faz a revisão, a noticia, a paginação do jornal, o seu querido jornal (…). É um bonito moço, elegante, correcto e sympathico, d’ahi o prestigio que gosa entre o eterno feminino que elle presa e se orgulha de possuir as sympathias (…). (Augusto Cardoso.)


16) É italiano (…) filho da cidade de Salermo (…). Começou a mascatear, mas só em roupas, artigo que entende bem (…). Hoje é importante negociante de seccos e molhados, trabalhando sempre, mas sabe viver bem, mora em uma das melhores casas dessa cidade (…). (Giovanni Giffoni.)


17) É de Nictheroy onde foi liberal extremado e é proprietário de um bom estabelecimento de seccos e molhados (…). Proporciona todos os dias agradáveis reuniões nas portas de seu estabelecimento onde concorre o “high life” masculino, impondo-lhes a obrigação de tomarem assento em duras cadeiras. Assiste a essas reuniões onde é proihibido tratar da vida alheia, cedendo sempre a presidência a algum dos concurrentes (…).


18) (…) é distincto engenheiro; na câmara dá sentenças. Traja bem, calça bem talhada, colete elegante e palitó de gola de veludo. Mòra em casa pequena, mas mobiliada com arte e gosto; os moveis representam antiguidade de fidalgo. É bem jovial e tem espírito, conta anedoctas que faz lembrar o primo Bazílio. Propagandista da luz electrica (…). Vae sempre a capital assistir as primeiras representaçõese quando volta faz descripções que muito deleitam os ouvintes (…). (Joseph Lynch.)


O periódico O Beija-Flor também retratava os tipos da cidade numa coluna intitulada “Typos e Typões”, mas com um formato diferenciado que objetivava elaborar uma espécie de charada sobre o perfil de quem se descrevia:

TYPOS E TYPÕES
I
Profissão: Desde o fumo,
passando pela polícia até a Câmara.
Particularidade: Cultiva verde para
colher maduro.
Endereço Postal: No quartinho secreto, dos fundos.
Divisa: Ser chefe dos tribudos “guaranys”.
II
Profissão: Não disputa
o boticão, orador popular e membro de commissões
de bailes e manifestações.
Particularidade: Tudo pela classe.
Endereço Postal: Centro.
Divisa:
O operário é o baluarte das grandes nações.
(O Beija-Flor, de 6-10-1895.)

TYPOS E TYPÕES
Profissão: Accusar por dever.
Particularidade: Fallar pouco, quando deve ser ao contrario.
Endereço Postal: órgão (…).
Divisa: Para olhos que ferem há attenuantes.
(O Beija-Flor, de 13-10-1895.)

TYPOS E TYPÕES
Profissão: Administrador
effectivo e coronel honorário.
Particularidade: Repórter por natureza.
Endereço Postal: Mona (…).
Divisa: Quem não quiser ser lobo não lhe
vista a pelle.
(O Beija-Flor, de 27-10-1895.)

Quanto ao perfil feminino, foi retratado usando-se a personagem de um artista que com a sua palheta pintava os perfis das elegantes senhoras e damas da cidade. “Silhouettes” era uma pequena coluna publicada em francês, em O Friburguense, no período de 26 de abril a 31 de maio de 1896. Segundo o periódico, quando se retratavam tão nobres e elegantes friburguenses, somente o idioma de Racine poderia retratar a donaire, a elegância da elite citadina. O porte, as boas maneiras, o garbo, o bom gosto, todas essas qualidades foram pintadas pela palheta e assinadas por C. Fróes e J. Cardoso, esse último provavelmente o articulista Sousa Cardoso:
Blonde.
Elle a um joli visage de deésse de l’ancienne Mythologie.
Elle posséde une élégance exquise, un physique alancé et vaporeux, une grace de parisienne commen faut. Ses toilettes sont toujours chics, toujours à soi même.

Elle a des yeux bleus profonds, des yeux oú les petits symboles de
l’amour dansent comme dans une pagode indienne.
Elle a une beauté pleine de séduction, de genre de beauté qui tourmente les hommes et fait naitre en eux l’amour. Elle est brune.

Elle a les cheveux noirs, les yeur noirs, un noir
illuminé et doux. Materiellement, elle n’est pas belle.
Elle a dans le visage une expression de doucer delicieuse.
Lá reside le secret de son charme.
Elle este pâle.
Quand elle reprend les couleurs de la santé, il
me semble que ce n’est plus elle.
Quando elle rit, de son rire éternel, je ne puis me
defendre d’une vague mouvement d’hostilité et presque de colére contre son rire. Elle est l’image monote du rire.
(O Friburguense, vários números,
de 1896.).

As mulheres também não foram esquecidas pelo periódico O Beija-Flor:

PERFIS
Eu cá no número próximo
Começarei publicando
O perfil airoso
e brando
Das bellas moças de cá;
Darei o perfil das pallidas,
E das
morenas tão cheias
De bellesa, só as feias
Não terão perfil, olá!
Myosotis.
(O Beija-Flor, de 6-10-1895.)

Apesar de não descritos pelo fisiologista, também compunham o elenco de figuras conhecidas alguns personagens das classes populares. Entre elas os “tipos de rua”, que faziam parte do cotidiano da cidade, sendo geralmente indivíduos negros, loucos, alcoólatras e provavelmente
egressos da escravidão: "(…) É a consagração indispensavel que prepara o trimpho immortal dos typos de rua, que os faz tão intimamente ligados a uma phase da vida colletiva, a existência de uma sociedade num determinado período histórico". (O Friburguense, “A Perua”, de 12-7-1896.)

O poder constituído, em Nova Friburgo, costumava despachar os negros e crioulos alcoólatras para o hospital de alienados em Niterói e os velhos indigentes para o asilo de mendicidade na capital federal. O delegado de polícia detinha, inicialmente, esses indivíduos na cadeia e aguardava a autorização do chefe de polícia do estado para realizar o traslado. Apesar de muitos terem sido despachados da cidade, alguns resistiram e passaram a fazer parte da paisagem e do cotidiano de Friburgo. Pequenos furtos ou ainda agressões cometidos por essas personagens eram tolerados pelas autoridades locais. Segundo Magali Gouveia Engel (2003, p. 63), no começo do século XX, personagens cujas trajetórias de vida se desenrolavam nas fronteiras entre a loucura, a embriaguez, a mendicância e a vadiagem conseguiram preservar as vivências e convivências proporcionadas pela liberdade das ruas.

Freqüentemente, os negros eram objetos das brincadeiras e escárnio por parte da população. Havia em Friburgo o “tenente maluco”, que, do meio-dia em diante, ameaçava quebrar a “cuia” de quem passasse por ele. Já o negro “Roão”, quando estava “na chuva”, ou seja, bêbado, despejava um turbilhão de palavrões.147 O articulista queixava-se: “Ou elle ensaboie a lingua ou raspe-se do logar.” “Tiny” era a alcunha de uma célebre crioula de nome Joaquina de Jesus, que costumava roubar roupas e frutos dos quintais, levando sempre uma advertência do delegado de polícia. Já a preta Leopoldina, que atacava geralmente crianças na estrada, ferindo-as, era mais temida e levava bons sopapos e cachações do delegado, quando detida. Uma outra mulher preta que dizia chamar-se Margarida, e que o vulgo mudoulhe o nome para “Coruja”, servia de joguete da molecagem. Por ela não concordar com essa mudança de nome, uma torrente de palavras que, segundo O Friburguense, “a moral repugna reproduzir” era proferida, aumentando ainda mais a gaiatice da rapaziada. “Não haverá quem ponha cobro a isso?”, cobravam os mais moralistas no editorial de O Friburguense de 25 outubro de 1891.
Como disse, os tipos populares eram quase sempre mulheres e homens negros, provavelmente loucos em razão das sevícias da escravidão, cuja extinção era ainda recente.
É significativo que os negros sempre tivessem alcunha, como o preto Vicente da Silva Barros, vulgo “Roão”, e que, por mais que lutassem para adquirir uma identidade, com nome e sobrenome, acabavam sempre sendo reconhecidos por seus apelidos (O Friburguense,
de 31-5-1891.)

A preta Margarida, ou “Perua”, como era conhecida, nome dado pela molecada, era o tipo mais popular da cidade. “Perua” já não se irritava mais com a alcunha que lhe haviam dado e passava requebrando o corpo, envolto em um xale, e arrastando os chinelos. De luneta acavalada sobre o nariz adunco, lápis e papel nas mãos rascunhando caracteres ininteligíveis e bramindo alto, pintava a saracura, numa[ fúria de histeria inofensiva, com terríveis predições apocalípticas. Na estação ou na porta da igreja, a molecada gritava: “Perua! Perua!” Era o grito constante e, por onde ela aparecesse, formava-se logo uma roda. Havia os que a admiravam, os que a provocavam para rir de seus arremessos à garotada e aqueles curiosos em ouvir suas previsões e imprecações de desgraças para o futuro. “Perua” era vista arrastando-se, beijando e chorando o lajedo dos adros da Igreja-Matriz. Nesse momento, comovia os transeuntes mais piedosos, na sublime e dolorosa austeridade da sua religião de histérica. Após a penitência, seguia sob um coro de gestos e apupos, já fazendo parte do cotidiano da cidade a flânerie da jovem preta Margarida. No rosto, sempre a expressão alucinante, ouvindo revelações da outra vida, tão inofensiva na sua demência, tão desgraçada na sua vesânia. Heranças da escravidão.


Fonte: Extraído do livro "O Cotidiano de Nova Friburgo no final do século 19> Práticas e Representação Social".

O COTIDIANO DO RIO DE JANEIRO NO SÉCULO 19: TIPOS CARIOCAS.






O IMPOSTO DE SANGUE: A Imigração Alemã – Parte 2



"Família do Fuzileiro Naval" (ca.1938).
Pintura de Alberto da Veiga Guinard(1896-1962)
nascido em Nova Friburgo.

A independência do Brasil, em 1822, criou um foco de tensão entre o Brasil e Portugal. O Brasil sofreu algumas investidas militares por parte de Portugal e só não sucumbiu porque as finanças de Portugal e a crise política interna não permitiam uma guerra contra a independente nação. O temor da recolonização dominava o espírito público da época. Portugal somente viria a reconhecer a independência do Brasil em 1825. A Guerra da Independência nem havia começado e os alarmantes boatos de que Portugal estava mobilizando uma colossal expedição punitiva, para neutralizar as veleidades separatistas dos brasileiros, não deixavam o Imperador D. Pedro I dormir sossegado. D. Pedro I procurou se preparar para a iminência de uma guerra entre o Brasil e Portugal. As províncias do nordeste apoiavam a Metrópole e o movimento separatista ameaçava desmembrar essas províncias do país. O movimento republicano em Pernambuco recrudescia. Não bastasse isso, havia a iminência de um conflito armado contra as Províncias Unidas do Rio da Prata(Argentina) pela conquista do Uruguai. A solução para a Questão Cisplatina projetava-se como eminentemente militar e a guerra acabou ocorrendo no período de 1825 a 1828. Com todas essas tensões envolvendo questões externas e internas, D. Pedro I voltou sua atenção para as Forças Armadas legadas de seu pai, D. João VI. Foi uma decepção. As tropas brasileiras não passavam de milícias mal armadas e indisciplinadas e os oficiais, todos portugueses, não gozavam da confiança de D. Pedro I.

A história do recrutamento no Brasil e a obrigação de servir nas Forças Armadas, o imposto de sangue, não fosse trágica, seria cômica. A maior parte era de recrutas da Armada forçados na base do “pau e da corda”. Vagabundos e delinqüentes sempre foram alvo predileto das autoridades encarregadas do recrutamento militar. Quando o governo necessitava recrutar, esperava pelas festas religiosas e pegava na rede uma enorme quantidade de rapazes que inocentemente se divertiam nos folguedos. Muitas vezes, promoviam maviosas retretas nas praças para atrair o povo e tão logo a rapaziada chegava para saber o motivo da festa, uma patrulha, até então escondida, caía-lhes em cima, e na base do pau e da corda, despachavam os rapazes para os quartéis do Rio de Janeiro. Em Nova Friburgo, por ocasião da Revolução de 30, foi dissimulada uma partida de futebol, no Campo do Friburgo, onde se objetivava, tão somente, arregimentar recrutas. Nessa ocasião, ao invés da lembrança de um divertido jogo de futebol, o que alguns rapazes levaram para casa foi um uniforme para lutar junto as forças legalistas lideradas em Friburgo por Galdino do Vale Filho.
Retornando ao século 19, há registros de que os recrutas eram conduzidos acorrentados, manietados em grupo, como se fazia com os escravos, até o Rio de Janeiro, e isso sem receber qualquer alimentação. Os mais rebeldes eram conduzidos com gargalheiras, uma coleira de ferro com uma pua, a mesma utilizada em escravos fujões. Uma escolta os seguia armada até os dentes, e vez por outra baixavam o cacete nos mais desaforados. Chegando ao Rio de Janeiro, os escravos saudavam com ensurdecedoras zombarias os desgraçados recrutas. Muitos eram provedores de família, o que gerou reclamação junto ao governo. Para tanto, passaram a ficar isentos, ao menos teoricamente, agricultores, carpinteiros, tropeiros, etc. Escravos libertos eram o alvo predileto dos recrutadores para formar o Batalhão de Pretos Libertos. Com o Exército e a Marinha competindo nessa surrealista busca de homens para seus quadros, não era de admirar que em determinados momentos não houvesse mais vagabundos, delinqüentes ou negros forros nas vilas e cidades brasileiras. As Forças Armadas eram temidas devido aos castigos corporais, extremamente cruéis, onde o chicote corria solto a qualquer desvio de conduta de um soldado. A punição aplicada era de centenas de chicotadas diante da tropa formada.

João Cândido Felisberto, o "Almirante Negro", na Revolta da Chibata ocorrida em 1910. Trata-se de uma revolta contra os açoites instituídos pela Marinha Brasileira em caso de falta disciplinar dos marinheiros.

O ethos militar tem na hierarquia e na disciplina os seus pilares, mas no Exército brasileiro de antanho a disciplina era algo ainda incipiente. Não havia qualquer tipo de instrução, exercícios militares ou manobras. A tropa passava anos sem disparar um só tiro. A cachaça era consumida o dia inteiro nos quartéis. Um mercenário alemão descreveu um batalhão composto por soldados brasileiros como verdadeiros mondrongos:

“O aspecto de um destes batalhões brasileiros de linha, com seus grotescos fardamentos de gala(...)com as suas bandas de música mascaradas de hussares e ulanos, ricamente agaloadas, era na realidade, tão peculiarmente cômico, que nos relembra os teatros de títeres e as estampas coloridas do tempo de nossa infância. Aqui perfila-se um negro, com a sua chata e inexpressiva fisionomia africana, entre um feio mulato amarelo e um índio acobreado(...) De quando em quando observa-se na fileira um brasileiro pálido e franzino. A todos, porém, falece igualmente o garbo marcial, a atitude e o desenvolvimento físico que caracterizam o soldado europeu. Homens altos e baixos, velhos e moços, indivíduos esbeltos e outros curvados pelo antigo labor de escravo, formam ali uns ao lado dos outros, na mesma fila. E entretanto, estes chamados soldados são admiráveis em suportar privações, quer em marcha, quer acampados. Possuem uma rijeza de corpo, uma taciturna e indolente docilidade, e uma sobriedade em comer e em beber, que os habilitam a transpor, como carregadores, as vastas paragens desertas da América Meridional, sem que jamais lhes ocorra indagar para onde são conduzidos, ou porque motivo real têm de marchar.” Diante dessa conjuntura, o Imperador D. Pedro I voltou sua atenção para a contratação de mercenários para a garantia de seu vacilante trono. Na próxima matéria “A Busca por Mercenários Alemães."



Segue uma entrevista dividida em três partes sobre a Revolta da Chibata.








O MITO DA IGUALDADE RACIAL

Pessoas detidas pela Polícia Militar em uma comunidade no Rio de Janeiro. Governo Leonel Brizola. Na ocasião, o policial alegou ter utilizado corda nos detidos por falta de algemas na instituição.

Os pretos do libambo. Escravos fugitivos conduzidos pelos capitães do mato.


Gilberto Freyre, não obstante a genialidade de sua obra sobre a história do Brasil, adocicou com o açúcar colonial as relações raciais em nosso país, descrevendo um idílico cenário de democracia racial brasileira. Freyre argumentava que a distância social, no Brasil, fora resultado muito mais de diferenças de classe do que de preconceitos de cor ou raça. No entanto, cientistas sociais dos anos 60, a exemplo de Florestan Fernandes, o principal estudioso das relações raciais no Brasil, comprovaram exatamente o contrário, ou seja, que havia em nossa sociedade a exclusão social de pessoas em decorrência de sua cor. Não houvesse o preconceito das elites brancas no Brasil contra a raça negra, Machado de Assis não seria perseguido em toda a sua vida por três pesadelos: seus ataques epiléticos, sua origem modesta e sua cor mulata, três fontes de medo, ansiedade e vergonha. Mas, nos reportemos à Nova Friburgo.

Na virada para o século XX, Nova Friburgo possuía 67% de sua população constituída por brancos e 32% entre negros, mestiços e caboclos. Como resultado da prevalência da raça branca sobre a negra e mestiça, percebe-se nas memórias de alguns friburguenses que nasceram nos primeiros decênios do século XX, um preconceito de raça, provocadas possivelmente pelas idéias eugenistas que tiveram boa recepção no município, a exemplo do que professava o Prof. Júlio Caboclo, que ironicamente tinha um sobrenome que não condizia com suas idéias de superioridade de uma raça sobre a outra. Mas passemos às memórias. Nondas da Cunha Ferreira, agricultor de Mury, nascido em 1929, nos traz um interessante relato: “Eu ouviu falar, mas não posso provar, que a escravidão em Friburgo acabou mais cedo. Os alemães e suíços eram muito racistas e então eles alforriaram os escravos mais cedo para sair da cidade e que fossem para os outros municípios. Eu me lembro de uma época que eu tinha lá os meus 10 anos, eu guardo muito coisa modéstia à parte, e então a fábrica[refere-se às indústrias que se instalaram em Friburgo a partir de 1910] tinha lá os seus mil e poucos operários e tinha uma colourede só. Querendo ou não querendo a maior parte do mundo é racista(...) e ninguém pode tirar essa idéia de ninguém.(...)Sem dúvida nenhuma, hoje as pessoas escondem as coisas, era[no passado] um racismo sem transparência”.
Curiosamente, a Praça do Suspiro, que tinha recebido o nome de Praça 13 de Maio pela Câmara Municipal, em ata da sessão extraordinária de 21 de maio de 1888, em homenagem a extinção da escravidão no Brasil, perdeu esse nome no decorrer dos anos, um fato que merece ser investigado. Uma situação envolvendo a intolerância racial ocorreu com o Esperança Futebol Clube. Esse clube escolhera as cores pretas e brancas. Mas essas cores logo despertaram a ironia e o sarcasmo, pois havia muitos mulatos no time, associando a cor preta e branca à mulatice dos jogadores. A diretoria do clube, incomodada com a gaiatice da população, mudou as cores do time para verde e branca. Ainda com relação às memórias, segundo relatos, havia em Nova Friburgo, na Praça Getúlio Vargas, duas alamedas: em uma alameda passava os ricos e brancos e na outra passava a classe popular e as “pessoas de cor”. Por Outro lado, no “Grito da Mocidade”, um bar próximo a “Casa de Moças Damas”, na subida do cemitério, homens brancos eram proibidos de freqüentar, salvo raras exceções.


No entanto, transcorridos três séculos e meio de escravidão de africanos na história do Brasil, cada um procurou fazer a sua parte e Nova Friburgo assim o fez. O Decreto municipal n°47 de novembro de 1983, institucionalizou o movimento negro e igualmente a sua bandeira. Nesse documento, se reconhece que na história do município, quando os colonos aqui chegaram, já encontraram negros a mourejar na construção dos alicerces sobre os quais se construiria Nova Friburgo. O decreto é afirmativo, declarando que o povo friburguense deseja redimir-se das injustiças praticadas contra os seus irmãos negros no decorrer de sua história. A bandeira do movimento negro é composta de três faixas horizontais, de igual largura, com as seguintes cores e respectivas representações: vermelho, representando o sangue e a vida dos povos negros; o negro, representando a raça negra e finalmente o verde, a esperança de dias melhores e igualmente a natureza, com quem a raça negra sempre soube conviver harmonicamente.
Essa bandeira encontra-se no panteão juntamente com as outras bandeiras dos povos que colonizaram o município. Nova Friburgo redimiu-se, ao menos a nível institucional, de uma injustiça social. Apesar da crítica inicial que fiz a Gilberto Freyre, finalizemos com uma frase sua sobre a cultura nacional: “O Brasil parece que nunca será, como a Argentina, um país quase europeu; nem como o México, ou o Paraguai, quase ameríndio. A substância da cultura africana permanecerá em nós através de toda a nossa formação e consolidação em nação.”






A FLANERIE DA PRETA MARGARIDA

Graciliano Ramos escreveu no livro “Alexandre e outros heróis” que a alegria dos negros pelo fim da escravidão foi logo substituída por uma vaga inquietação. Ainda segundo ele, pelo menos enquanto escravos, tinham a certeza de que não lhes faltaria um pedaço de bacalhau, uma esteira na senzala e a roupa de baeta com que se vestiam. Já livres, necessitavam prover-se dessas coisas e não se achavam aptos para obtê-las. Recordemos, bacalhau no fim do século XIX, era alimento das classes populares.
Em Friburgo, com o fim da escravidão, a Praça do Suspiro tornou-se Praça Treze de Maio, tecendo preito à lei de abolição do trabalho compulsório. Mas Friburgo, a exemplo de todo país, não cuidou da integração dos ex-escravos na vida social, marginalizando-os. Nos noticiários dos jornais da época, podia-se ouvir as “vozes” destes negros libertos pelas ruas de Friburgo, alcoolizados e senis. Costumava-se despachar os negros alcoólatras para o hospital de alienados, em Niterói, e os velhos indigentes para o asilo de mendicidade na Capital Federal. Apesar de muitos terem sido “despachados”, alguns resistiram e faziam parte do cotidiano da cidade.

Freqüentemente, os negros eram objeto das brincadeiras e escárnio por parte da população. Havia em Friburgo o “tenente maluco”, que do meio-dia em diante ameaçava quebrar a cuia de quem passasse por ele. Já o negro “Roão” quando estava “na chuva”, ou seja, embriagado, despejava um turbilhão de palavrões. O articulista do jornal queixava-se: “ou ele ensaboe a língua ou raspe-se do lugar.” Já a preta Leopoldina, que atacava geralmente crianças na estrada, era a mais temida e levava bons sopapos e cachações do delegado quando detida. Uma outra mulher negra que dizia chamar-se Margarida e que o vulgo mudou-lhe o nome para “coruja”, servia sempre de joguete da molecada. Por ela não concordar com a alcunha que lhe era atribuída, uma torrente de palavras, que segundo o jornal, a moral repugnava reproduzir, era proferida pela “coruja”, aumentando ainda mais a gaiatice da rapaziada.

Mas a que melhor simboliza a marginalidade dos libertos é a preta Margarida ou “Perua”, nome dado pela molecada, sendo o tipo mais popular da cidade. Perua já não se irritava mais com a alcunha que lhe dera e passava requebrando o corpo, envolto em um xale e arrastando os chinelos. De luneta acavalada sobre o nariz adunco, lápis e papel nas mãos rascunhando caracteres ininteligíveis e bramindo alto, pintava a saracura, numa fúria de histeria inofensiva com terríveis predições apocalípticas. Na estação, na porta da igreja, a molecada gritava: “Perua! Perua!” Este era o grito constante, e por onde ela aparecesse formava-se logo uma roda.
Havia os que a admiravam e ainda os que a provocavam para rir dos seus arremessos à garotada. Já os mais curiosos, paravam para ouvir suas previsões e imprecações de desgraças para o futuro. Perua era vista arrastando-se, beijando e chorando sobre lajedo dos adros da igreja Matriz. Neste momento, comovia os transeuntes mais piedosos, na sublime e dolorosa austeridade da sua religião de histérica. Após a penitência, Perua seguia sob um coro de gestos e apupos, já fazendo parte do cotidiano da cidade, a flanerie, isto é, os passeios da jovem preta Margarida. No rosto, sempre a expressão alucinante ouvindo revelações da outra vida, tão inofensiva na sua demência, tão desgraçada na sua vesânia. Herança da escravidão em Friburgo!
Fonte: Crônicas do jornal O Friburguense. Fundação Pró-Memória de Nova Friburgo.


Diante dessas imagens realizadas em Nova Friburgo, o que mudou em relação à rdicularização das pessoas simples no município?

ASCENSÃO E QUEDA DO FUTEBOL EM FRIBURGO

“À Câmara Municipal foi dirigida, merecendo largo despacho favorável, um requerimento dessa novel sociedade que moços de nossas melhores famílias acabam de constituir. Com verdadeiro prazer noticiamos essa criação que, francamente, era a muito esperada, pois não se compreendia bem como tendo o football empolgado os rapazes no Brasil, não se influíssem com eles os friburguenses aqui, que esse sport tem toda a sua razão de ser. Parabéns aos seus iniciadores!”

Foi assim que o jornal A Paz, de 07 de dezembro de 1913, noticiou o primeiro clube de futebol em Nova Friburgo. Mas quem seriam estes rapazes das “melhores famílias” friburguenses? Em 26 de abril de 1914, Ralim Abud juntamente com os Spinelli, Sertã, Van Erven, Braune, Mastrângelo, entre outros, fundaram o Friburgo Football Club, formado por rapazes da elite da cidade, adotando as cores vermelho e branco em seu time. Já no ano seguinte, em 05 de dezembro de 1915, é criado o Esperança Futebol Clube, formado por operários da cidade. Surgem divergências dentro Friburgo Futebol Clube e um grupo se insurgem, formando em 14 de março de 1921, o Fluminense Atlético Clube. Curiosamente, usava as cores azuis e brancas e não tricolor como seu homônimo carioca. O Fluminense foi um clube que até 1942, conquistou a hegemonia do futebol friburguense, porém, foi o Friburgo Futebol Clube que arrebanhou o maior número de títulos nos campeonatos. O Fri-Fru era a partida mais disputada. Em 1925, surge o Clube Sírio-Libanês, patrocinado pela colônia de libaneses, cujo uniforme era idêntico ao do C.R. Flamengo do Rio. Serão estas quatro equipes que irão formar, neste mesmo ano, a Liga Friburguense de Desportos, outrora Associação Serrana de Esportes Atléticos(ASEA), fomentando os campeonatos na cidade.


Eis a grande largada e triunfo do futebol friburguense: os campeonatos interclubes que depois resultarão na participação nos jogos intermunicipais, dando os times de Friburgo um show de bola. O primeiro campeonato interclube foi em 1925 e quem venceu foi o Fluminense. A rivalidade foi tamanha que no ano seguinte não houve campeonato. Em 1927, voltaram os jogos interclubes e o Fluminense ganhou. Novamente dois anos sem campeonato, devido a dissensões e somente a partir de 1930, voltam os jogos interclubes a ocorrer na cidade. Devido aos campeonatos, o futebol se dissemina em Friburgo e começam a surgir os times de bairro, da segunda divisão. Com características bairristas surgem o Esporte Clube de Santa Luiza, do Cônego; o Esporte Clube São Pedro, de Duas Pedras; o Amparo Futebol Clube(1922); o Futebol Clube Conselheiro Paulino; o Serrano Futebol Clube, de Olaria; o Esporte Clube Vilage(1948); o Esporte Clube Saudade; o Esporte Clube Filó(1940); o Flamenguinho; o América Futebol Clube, alguns com existência efêmera, a exemplo do Esporte Clube Brasil(1918), que durou apenas nove meses.


Como os clubes se mantinham? Estes clubes viviam praticamente de campanhas, a exemplo da venda de rifas. Alguns tinham o denominado sócio- contribuinte, que pagava uma mensalidade. A partir de década de 60, por exemplo, o Friburgo Futebol Clube passou a ter sócios-proprietários, que adquiriam títulos dos clubes. Mas percebe-se mesmo que o que mantinha estes clubes era o mecenato, ou seja, particulares que doavam dinheiro espontaneamente. Foram importantes mecenas do futebol de Friburgo as famílias Guinle, Sertã e Spinelli. César Guinle doou a área onde é hoje o campo do Friburguense Atlético Clube, homenageando seu pai, Eduardo Guinle com o nome do estádio. O então prefeito César Guinle doou tanto propriedades particulares como áreas pertencentes à municipalidade para diversos clubes. A família Sertã doou o terreno do atual estádio do Nova Friburgo Futebol Clube. Álvaro de Almeida, que foi deputado e vice-prefeito, foi um empresário do ramo de madeiras que se tornou outro mecenas do futebol. Trouxe muitos jogadores do interior do estado empregando-os em sua empresa e igualmente assim fizeram os Spinelli. Alguns ex-jogadores que se tornaram bem sucedidos, a exemplo da Amâncio Mário de Azevedo, que foi prefeito na cidade, também ajudou o futebol. O voluntariado e o amor a este esporte tinham exemplos surpreendentes. João Caputo, de família de comerciantes italianos tradicionais da cidade, todos os dias, às 6:00 horas da manhã, ia ao campo do Fluminense molhar a grama para que ela pegasse.


Era também um tempo em que os jogadores não tinham qualquer remuneração, recebendo no máximo o “bicho”, ou seja, um prêmio, obtido pelos clubes com a renda dos jogos. Havia rotatividade de jogadores entre os clubes? Havia sim. Quando um jogador ia se casar ele pedia os móveis de quarto, um fogão ou uma bicicleta para passar de um time a outro. Mas a moeda mesmo era um emprego. Quando se queria contratar um bom jogador, oferecia-lhe um bom emprego e trazia-o para o time. Valia tudo para se ter um “cobra” no clube. Para um jogador que precisou passar no exame escolar, conseguiu-se a prova na escola e ele “treinou” antes em casa. E não é que foi reprovado? O período de 1940 a 1970 foi o auge do futebol em Friburgo, nos informa Rodolfo Abud. Domingo era um dia consagrado ao futebol para todas as classes sociais, transformando-se as “belas praças de sports” em espaço de sociabilidade de homens, mulheres e crianças. Os jogos iniciavam às 8:00 horas da manhã, aos domingos, jogando as categorias infanto-juvenis. As famílias assistiam aos jogos pela manhã e ao meio-dia iam almoçar em casa. Retornavam e assistiam aos jogos até as cinco horas da tarde. Cada um destes clubes possuía quatro categorias: infantil, juvenil, segundo e primeiro quadro. Era um tempo em Friburgo de vidraças quebradas e desespero das donas-de-casa, pois em cada terreno baldio surgia um campo de futebol. No burburinho da cidade circulavam nomes como Juca, Rudilardo, Negrinhão, Bichinha, Alemão, Chico Pau de Fumo, Banana, Cabrita, Totó, Futrica, entre outros. As bandas Euterpe e Campesina participavam de todos os acontecimentos festivos envolvendo o futebol. Ângelo Ruiz, que possui uma detalhada pesquisa sobre a história do futebol em Friburgo, nos informa que “os rapazes da cidade logo abraçaram o futebol, pois já estavam fartos de pic-nics, bailes, namoros melosos e outros passatempos da época. Mas as mocinhas casadoiras seguiram-lhes o rastro e passaram a assistir às partidas de futebol”. O “belo sexo” se fez presente, tornando-se madrinhas ou rainhas dos clubes e foi lembrado no hino do primeiro clube da cidade, o Friburgo Futebol Clube, em versos de trova: “As moças todas de improviso, formosas vêm nos ofertar, a flor gentil do seu sorriso, a doce luz do seu olhar”.


Mas o futebol era somente glaumour? Como todo esporte, o futebol iniciou sua prática entre rapazes de classes abastadas, excluindo os remediados, ou seja, as classes populares. Porém, a classe operária de Friburgo, que não poderia participar do Friburgo Futebol Clube, seleto club da high society friburguense, quando este se fundara, logo reagiu e formou o Esperança Futebol Clube. O fato de ter surgido um time de operários surpreende, pois o futebol nesta época era um esporte exclusivamente praticado pela elite. Ulteriormente, quando o Friburgo Futebol Clube passou a aceitar membros das classes populares e negros, um determinado grupo se desligou do clube e fundou o Fluminense Futebol Clube. Outra situação envolvendo a intolerância racial ocorreu com o Esperança. Este clube escolhera inicialmente o nome de União e suas cores pretas e brancas. Mas o preto logo despertou a ironia e o sarcasmo por parte de um árbitro. Como havia muitos mulatos no time, ele associou a disposição das cores preta e branca à mulatice dos jogadores, dizendo: “Preto que quer ser branco, não é nem uma coisa nem outra.” A expressão do árbitro passou a ser motivo de galhofa dos adversários e daí o clube mudou o nome para “esperança” e adotou as cores verdes e brancas.

Somente a partir de 1950, foi que o futebol se democratizou, não havendo mais tensões entre classes sociais e igualmente entre etnias. Foi a Rádio Cipó que incrementou o futebol na cidade na voz de locutores como Rodolfo Abud, com os programas “Resenha Esportiva” e “Esportes no Ar”. Premiavam-se os melhores jogadores do ano. O futebol faz surgir um jornal esportivo na cidade, de propriedade de Dante Lívio, que circulou por pouco tempo. Nas resenhas esportivas dos jornais a terminologia era inglesa: sport, team, match, corner, scratchman, placard, club e é óbvio football. Afinal, são os ingleses os pais do futebol e que o trouxe ao Brasil.
Em 1979, o futebol em Friburgo se profissionaliza. Promove a fusão do Fluminense com o Serrano e torna-se o Friburguense Atlético Clube, atualmente na primeira divisão do Campeonato Carioca. No entanto, a profissionalização lamentavelmente extingue os demais clubes de futebol, pois os campeonatos da cidade ficaram desarticulados. Desaparece a cultura do futebol da cidade, ou como definiu Ângelo Ruiz os “clubes da terra”, onde os jogadores saíam das fábricas, do comércio, dos bancos e se transformavam em celebridades na cidade, tendo alguns inclusive “fãs”. O futebol local desapareceu e as cores dos outrora clubes, um verdadeiro arco-íris, se esmaecem. As vozes das famílias, os “hurras” e os fogos de artifício das torcidas nos campos de futebol se calam. O Friburgo Futebol Clube, o “primo rico do futebol friburguense”, se fundiu com o Esperança dando origem ao Nova Friburgo Futebol Clube, em 16 de setembro de 1979, completando 30 anos. Este clube conta atualmente com um expressivo patrimônio, possuindo além do campo e sede com 10.000m² no centro da cidade, uma vasta área social de 50.000m² em Conselheiro Paulino, com parque aquático. No entanto, o campo de sua sede esportiva no centro da cidade transformou-se em estacionamento e o seu maior patrimônio, o seu time de futebol, não existe mais.

Mas a história do futebol em Friburgo nos deixa uma lição. Muitas vezes, divertimentos inocentes, como a formação de clubes de futebol, reproduzem as relações sociais de uma cidade. É possível que “cidade partida” entre ricos e pobres, negros e brancos, depois se desdobrando em bairrismo, fosse um reflexo da sociedade friburguense à época. Levavam para os clubes de futebol os conflitos de classe e preconceitos, sem qualquer fairplay. Em 1914, quando surgiu o primeiro time, explodia a primeira guerra mundial e em Friburgo, concomitantemente, se travava nos campos de futebol, um verdadeiro Campo de Marte, uma batalha contra o preconceito e a intolerância. Mas não foi possível levar adiante este aparthaid social. Três décadas depois de formados os primeiros clubes, o futebol aproximou a todos, misturando-se raças, derrubando barreiras sociais, reunindo as famílias, atraindo as mulheres e implodindo a arquitetura daquilo que Zuenir Ventura chamou de “cidade partida.”

Fontes: Rodolfo Abud, Carlos Arnaldo Berbert e Cadernos de Cultura de Ângelo Ruiz.

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