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A HOSPITALEIRA VILA DE AMPARO


Amparo é uma aprazível vila modorrenta que até hoje preserva seu casario do tipo colonial, alheia à passagem do tempo, cuja tradição é a sua simplicidade e a hospitalidade de seus moradores. Pode-se afirmar que o tempo parou em Amparo. Atualmente, o cinturão verde das regiões do Campo do Coelho, Conquista e Salinas abastecem com hortaliças e legumes o Rio de Janeiro. Mas no passado, Amparo foi o distrito-celeiro que abastecia esses grandes centros urbanos. No século XIX, quando fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão, foi um dos maiores produtores de café de Nova Friburgo. As terras de Amparo foram escolhidas pela aristocracia rural friburguense oitocentista, onde os Galiano das Neves possuíam a Fazenda Cachoeira, ainda hoje na propriedade da família.




Nos tempos de antanho, utilizava-se a estrada do Alto das Braunes para se deslocar de Amparo ao centro de Nova Friburgo. Na primeira metade do século XX, Amparo produzia café, milho, feijão e cana de açúcar. Gradativamente, foram sendo introduzidas a horticultura, a fruticultura e floricultura. Amparo abastecia o Rio de Janeiro e Niterói com produtos de sua lavoura, a exemplo da batata inglesa(“batatinha”), tomate, cenoura, arroz, ervilha, repolho, nabo, aipo, batata doce, feijão e mandioca. Na floricultura existiam extensas plantações de cravo, rosa, margarida, palma, lírio, saudade, entre outras. No tocante a fruticultura, Amparo produzia caqui, lima, tangerina, laranja, banana, pêra, uva, maçã, pêssego e ameixa. Analisando alguns discursos no livro de Heber Alves da Costa, “Amparo Redivivo”, percebe-se que Amparo foi um importante distrito agrícola de Nova Friburgo até aproximadamente a década de 50, do século XX, com predomínio da lavoura branca, hortaliças e legumes. Mas na década de 60 desse século, muitos se reportaram a decadência da lavoura na região, o marasmo, a estagnação, um distrito atolado na inércia qual caramujo segregado numa concha. Um dos maiores problemas da lavoura era a via que ligava os produtores rurais de Amparo ao mercado, com estradas sem pavimentação, dificultando e encarecendo o transporte da produção.


Mas o que possivelmente corroborou com o declínio da lavoura no distrito, foi a migração de muitas famílias para o centro de Nova Friburgo, devido ao emprego atrativo nas grandes indústrias recém estabelecidas na cidade. Nova Friburgo entra na Era industrial. Com a instalação das primeiras indústrias em Nova Friburgo, a partir de 1911, acredita-se que houve uma evasão significativa do campo rumo às fábricas. Segundo o memorialista Heber Alves da Costa, “até o início da Era industrial em Nova Friburgo, a lavoura era explorada em amplas proporções, no distrito de Amparo.”

Outro fator a se considerar foi que os filhos dos prósperos agricultores, distanciando-se por “plagas longínquas”, abraçaram profissões liberais como médicos, veterinários, advogados, professores, dentistas, engenheiros, etc., abandonando a tradição do amanho da terra. Na década de 60 do século XX, Amparo ficou silente e parado, sem evoluir, onde não se via mais as serras onduladas, coberta pelos verdes mantos dos cafezais, dos milharais e das capoeiras. O articulista Nelson Kemp relembra a farta produção agrícola de Amparo, os mais velhos recordando o tempo da fazenda do Coronel Chonchon(Galiano Emílio das Neves Junior), o café enchendo o paiol, os carros de boi repletos de cereais. Amparo, terra fértil e de clima ameno e saudável, atestando a sua salubridade no verde vivo da vegetação, no ouro dos frutos, nas faces rosadas das crianças e na longevidade dos anciãos. A longevidade de seus habitantes é atestada por Eugênio Gripp, o “patricarca de Amparo”.



Nascido em 15 de maio de 1859, filho de uma família de nove filhos, seu pai, Jorge Gripp, diz a tradição oral, foi o introdutor do café java em Cantagalo. Eugênio Gripp fundou em Amparo a Associação Promotora de Instrução à Infância Anália Franco e o Centro Espírita São João Batista, em 02 agosto de 1888. Falecido aos 95 anos de idade, nos últimos anos de vida, levantava cedo para cuidar de seu pomar. Caminhava o ancião pela vila com o costumeiro chapéu de Chile e longa capa cinzenta, cabelos brancos, faces rosadas e brilhantes olhos azuis da herança germânica. Amparo possuíra a Sociedade Musical Recreio Amparense, de fardamento azul com botões dourados, fundada em 13 de janeiro de 1913 e extinta em 1940, com algumas tentativas posteriores de reabilitação; o Amparo Futebol Clube, fundado em 1927; o Grupo Dramático Amparense, o clube de Malha, o animado carnaval e micareme e os bailes no Cine-Teatro Almeida, cujo prédio ainda se mantém, testemunha de um passado glorioso. Ainda que localidade onde boa parte da população era espírita e protestante, a capelinha de Nossa Senhora do Amparo foi inaugurada, em 1950, contando com o auxílio dos não católicos. Junto ao coreto da ajardinada pracinha da vila, é o busto de um medium, Manoel Antonio Monteiro, que foi erigido numa homenagem dos amparenses. Amparo, terra dos Gripp, Alves da Costa, Frossard, Folly, Sanglard, Schuenck, Toledo, Lugon, Monteiro, Lamblet, Mury, Hermsdorff, Heckert, Pereira, Schuabb, Bussinger, Emerick, Heckert, Schumacker, Heller, Thurler e muitas outras famílias. Se há um local que nos remete a um passado longínquo é a vila de Amparo. Toda a sua vila deveria ser tombada pelo patrimônio histórico. Que bom que voltou a pertencer a Nova Friburgo!


DEPOIS DE FORASTEIRO, AMPARO VOLTA ALTANEIRO



No último quartel do século XVIII, muitos bandoleiros e garimpeiros de Minas Gerais migraram para os Sertões do Macacu em busca de novas lavras de ouro. Os garimpeiros tinham como liderança Manoel Henriques, conhecido pela alcunha de Mão de Luva. Quando Jerônimo de Castro de Souza chegou a essa região, denominava-se Sertões do Macacu, que depois viria a ser Cantagalo. Muitas datas de terras estavam sendo distribuídas e Jerônimo, como vimos em matéria anterior, foi beneficiário de uma delas, como prêmio pela delação feita contra Tiradentes. Em 1820, houve um desmembramento de parte de Cantagalo para a formação da Vila de Nova Friburgo, para abrigar um Núcleo Colonial de Suíços. A sesmaria(terras) de Jerônimo, localizada nessa região, passou a pertencer a Freguesia de São João Batista, no termo de Nova Friburgo. Como a região, onde hoje parte é Amparo, desenvolvesse sobremaneira em razão das plantações de café, em 13 de outubro de 1857, o decreto 969, erigiu aquela região ao status de freguesia, aumentando-lhe a importância, sob a denominação de Freguesia de São José do Ribeirão. As terras de Amparo encontravam-se incluídas nessa freguesia.



Com a proclamação da República, futricas políticas do governo Francisco Portela culminaram com a perda de Nova Friburgo do 3° distrito de São José do Ribeirão, que se tornou, em julho de 1891, por decreto, município de São José do Ribeirão, tendo a sede na povoação do mesmo nome. Em 1891, Bom Jardim passou a ser distrito do recém criado município de Cordeiro. Porém, já em maio de 1892, uma nova reforma administrativa extinguiu o município de Cordeiro e devolveu as terras de Bom Jardim para Cantagalo, no qual sempre pertencera. Igualmente, devolveu São José do Ribeirão para Nova Friburgo por faltar a essa localidade requisitos essenciais para tornar-se um município. Devido a instabilidade política, a Lei nº 37 de 17 de dezembro de 1892, novamente altera a região: São José do Ribeirão volta a ser município. Em 5 de março de 1893, o distrito de Bom Jardim deixa de pertencer a Cantagalo e é erigido a município com o mesmo. São José do Ribeirão passa igualmente a pertencer-lhe. Logo, definitivamente Amparo passaria a pertencer a Bom Jardim. A população de Amparo ficou desesperada culminando com uma intensa mobilização para o retorno a Nova Friburgo.


Diante de todo esse imbróglio, que sempre tem interesses político e econômico das elites por detrás dessas disputas territoriais, fica a pergunta: por que o pacato distrito de Bom Jardim ganharia tanta força política, desmembrando-se de Cantagalo e anexando a Freguesia de São José do Ribeirão? Provavelmente, o responsável por esse up grade de Bom Jardim teria sido Luiz Corrêa da Rocha, o maior latifundiário da região, ao qual o território onde hoje é Bom Jardim, praticamente lhe pertencia. O coronel Luiz Corrêa da Rocha foi quem arrematou, em leilão, em 1896, o Engenho Central do Rio Negro, localizado em Laranjais, hoje distrito de Itaocara. Luiz Corrêa da Rocha, curiosamente, será um dos defensores da desanexação de Amparo do município de Bom Jardim e tem nome gravado em uma estela, entre o nome de outros, na praça principal de Amparo, tecendo-lhe gratidão.


O articulista Nelson Kemp, em matéria publicada em A Voz da Serra(20.8.1961), informa-nos que na ocasião do desmembramento, Eugênio e Pedro Gripp, adversários na política de Amparo, uniram-se para eleger Pedro Gripp a vereador na Câmara de Bom Jardim. Empossado, Pedro Gripp requereu o desmembramento de Amparo do município de Bom Jardim. Já em Nova Friburgo, Galdino do Valle Filho, deputado estadual, atendendo aos clamores da comunidade, igualmente apresentou projeto de lei, em 1911, solicitando a transferência do distrito de Amparo de Bom Jardim para Nova Friburgo. Esse projeto, certamente, atendia aos interesses políticos de Galdino do Valle Filho. Cabe ressaltar ainda que os Galiano das Neves não ficaram nada satisfeitos com a anexação da Fazenda Cachoeira a Bom Jardim.




No entanto, acreditamos que quem deu a palavra final foi o Coronel Luiz Corrêa da Rocha, vereador na ocasião juntamente com Manoel Corrêa da Rocha. Em 10 de outubro de 1911, Amparo volta a fazer parte de Nova Friburgo, incorporado ao 1° distrito, e em 1924, passa a ser distrito, o quarto do município. Com o retorno ao berço natural, os amparenses deixaram consignado em seu hino: “depois da quatro lustros, forasteiros, sem poder aclamar a nossa terra, a Friburgo voltamos altaneiros....sempre fomos friburguenses e seremos!...a Friburgo aportamos destemidos, a Bom Jardim, porém, nunca olvidando...”


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MEDICINA E CLIENTELISMO:OS PAIS DOS POBRES




A administração colonial e o governo imperial nunca deram ao povo brasileiro uma assistência médica-hospitalar condigna. Desde o período colonial a assistência hospitalar era realizada pelas Santas Casas, hospitais fundados e mantidos pelas Irmandades da Misericórdia. Eram associações independentes do poder público, compostas por indivíduos das classes abastadas, católicos, que contribuíam com mensalidades, anuidades, donativos, esmolas e legados para o custeio das despesas hospitalares das classes pobres e miseráveis. Em Nova Friburgo, no primeiro quartel do século XX, foi criada a Santa Casa de Misericórdia para dar assistência médico-hospitalar às classes populares. Mas como se fazia a assistência hospitalar antes das Santas Casas de Misericórdia? Desde a sua fundação em 1820, a Câmara Municipal fornecia gratuitamente remédios aos “indigentes”, assim se referindo a população pobre da então vila da Nova Friburgo e igualmente o “médico de partido”, pago pelos cofres públicos, que atendia aos enfermos. Em caso de uma doença mais grave e principalmente as infecto-contagiosas, alugava-se um imóvel e remuneravam alguém para que assistisse ao doente até a sua convalescença. Nos jornais do fim do século 19, os médicos anunciavam o horário em que atenderiam aos clientes pagantes e o horário que dariam assistência gratuita aos pobres. Logo, os médicos espontaneamente supriam a deficiência do governo em fornecer profissionais de saúde às classes populares. Por isso, muitos deles receberam a alcunha de “pais dos pobres” devido a essa prática assistencialista.
No regime republicano, o bacharelismo(advogados) fica em baixa e valoriza-se mais os médicos e engenheiros como gestores públicos. Afinal, as futuras urbs necessitavam de engenheiros para melhor planejar ruas e praças e médicos para combater as epidemias de cólera, varíola e febre amarela que grassavam nas cidades. Foi no início do governo republicano que Nova Friburgo teve como primeiro gestor público o médico Ernesto Brazílio. Não havia à época a figura do prefeito e o presidente da Intendência e depois da Câmara é quem tinha a função do executivo municipal. Ernesto Brazílio foi presidente da Câmara por longos onze anos, no período de 1897 a 1908. Fazendo uma passagem pela história de Nova Friburgo no século XX, encontraremos muitos médicos na liderança política local no cargo de prefeitos, a saber: Galdino do Vale Filho, Feliciano Costa, Amâncio Mário de Azevedo e Vanor Tassara Moreira. É surpreendente que entre os anos de 1955 a 1977, esses profissionais da saúde se revezaram continuamente como prefeitos do município, apenas interrompida por uma curta gestão de Heródoto Bento de Melo, que assumiu como interventor no golpe militar de 1964. Feliciano Costa foi prefeito em dois mandatos (1955-1959 e 1971-1973) e Amâncio Mário de Azevedo em três mandatos (1959-1963; 1967-1971; 1973-1977). Ambos foram igualmente eleitos para o legislativo estadual e Amâncio Azevedo também para federal. Se nos estendermos nessa análise, constataremos que o farmacêutico Alberto Braune e o médico Dermeval Barbosa Moreira(pai de Vanor Moreira) foram figuras extremamente expressivas e carismáticas em Nova Friburgo, provocando verdadeira comoção na cidade por ocasião de seu falecimento. Cumpre assinalar que nos últimos anos tivemos duas gestões municipais da médica Saudade Braga. Finalmente, a Câmara Municipal deu o nome de sua nova sala de sessões a um médico, o Dr. Jean Bazet, o primeiro médico da vila.
Qual seria a origem dessa simbiose medicina e política em Nova Friburgo? Inicialmente havia um sacerdócio entre a classe médica. Com o fim da República Velha e consequentemente o fim do coronelismo abriu-se uma brecha, um vácuo de poder. É possível que alguns médicos desde então se empenharam em ocupar esse vácuo de poder e vislumbraram no assistencialismo, até então desinteressado, como uma oportunidade de captar as simpatias das classes populares. Logo, o assistencialismo foi o ovo da serpente e a moeda de troca nas eleições. Desenvolveu-se, por conseguinte, a prática do clientelismo gerando uma rede relações que é sempre acionada por ocasião de suas candidaturas a cargos públicos. No cotidiano dos hospitais e centros de saúde, uma cirurgia ou um exame passando a frente de outros, um remédio aqui, uma ambulância acolá, enfim, uma engrenagem de favores e mercês sobre a miséria humana transforma esses profissionais da saúde como grandes benfeitores. Depois do favor, que deveria ser obrigação, já que utilizam a máquina pública, a eterna gratidão de todos familiares do paciente e a certeza do voto nas eleições.
Talvez seja essa a explicação para a formação de uma casta de políticos médicos. Não fosse deficiente a assistência pública médico-hospitalar é possível que esses profissionais não encontrassem o espaço que tiveram ao longo de nossa história no cenário político. Mas isso não é prerrogativa apenas de Nova Friburgo. Esse fenômeno ocorre em quase todo o território nacional. Historicamente, até o século XIX, a figura social do médico era relativamente desprestigiada. Sob o juramento a Hipócrates ou talvez a Asclépio, deus da medicina, os médicos reverteram seu papel na sociedade brasileira. Como observou Gilberto Freyre, “o confessor e o filho padre foram sendo substituídos por essa figura carinhosa e firme, doce e tirânica, o médico de família”. E dos lares das famílias brasileiras foi um salto para a tribuna política.


A PRISÃO SEM CULPA NA DITADURA MILITAR:CARTA DE HUMBERTO EL-JAICK



O ano era o de 1964. César Lívio(06/01/1943) era estudante secundarista do Colégio Municipal Rui Barbosa do turno noturno. Saindo do trabalho na fábrica Filó se dirigiu ao Colégio Rui Barbosa e como fazia sempre, tomou o mingau que era oferecido aos alunos enquanto esperava no pátio do colégio o início da aula. Mais um dia na rotina de César Lívio entre o trabalho e o colégio. No entanto, aquele não foi um dia de aula qualquer. Foi um dia atípico. Antes mesmo do início das aulas um jeep do exército estacionou em frente ao colégio dele saindo seis soldados. Os militares entraram no colégio e efetuaram a prisão de Humberto El-Jaick, professor da história da instituição. César Lívio nunca esqueceu esse dia. O adorado professor de história trajava um terno branco quando foi preso. Saiu aparentando tranqüilidade e ainda acenou com um adeus aos seus alunos. Nesse dia não houve aula e nem no dia seguinte. Os alunos quiseram incendiar o colégio, que fora uma antiga fábrica de carretéis e ainda guardava muito material no depósito na escola. Porém, o Prof. Coutinho contemporizou com a turba. César Lívio, que fazia parte do Centro Estudantil Rui Barbosa, chegou a ser perseguido pela polícia do exército durante algum tempo. Rondavam sua casa. Teve medo. Eram tempos difíceis.

Humberto El-Jaick, da prisão, escreveu a seguinte carta que foi publicada em A VOZ DA SERRA de 25/26 de abril de 1964. A censura do governo militar ainda não atingira a imprensa: “Polícia Militar. Niterói, 18 de abril de 1964. Minha querida esposa. Lamento o sofrimento que meus inimigos gratuitos estão causando a você e a nossos idolatrados filhos com a injustiça da minha prisão. Se o pensamento revolucionário está consubstanciado nesta frase do atual presidente, sou também um revolucionário, estou no caminho certo, não tenho por que temer nem me penitenciar. Sabe você, sabem nossos filhos e nossos amigos, sabem nossos leais adversários que o meu procedimento político outro não tem sido senão o de lutar democraticamente pela Humanização do homem e pelo desenvolvimento de nossa estremecida Pátria. Sabem todos, e mais que todos Deus é testemunha, que sempre repeli com a mesma veemência todas as formas de extremismo. E se repilo os extremismos é porque sempre coloquei acima de todos os bens humanos o que me parece supremo e inviolável: a LIBERDADE. Não sei ainda porque estou preso. Minha consciência está tranqüila. Minha vida, meu passado e meu presente responderão por mim. O povo de Friburgo que me julgue. Quem tiver alguma prova capaz de me condenar na presente conjuntura, que a apresente às autoridades antes do meu julgamento. É um repto de honra que lanço desta prisão ao povo da minha terra. A despeito das calúnias, das infâmias, das intrigas, de tudo, ainda creio na justiça dos homens. O sofrimento purifica os nossos sentimentos. A injustiça nos torna mais justos e chego mesmo a pensar que todos os homens deveriam sofrer injustiças para aprenderem a ser justos. Aos que me acusam levianamente, as despeitados, aos covardes e aos corruptos que não trepidaram em me afastar de você, dos nossos filhos, dos meus amigos e dos meus alunos, respondo com a minha comiseração pois hão de sentir indignos deles mesmos. Não lhes guardo nenhum ódio nem desejo de vingança.(...)Minha querida esposa ainda não me refis de todo do impacto da injustiça sofrida. Posso, no entanto concatenar minhas idéias e fazer um retrospecto de todas as minhas atividades políticas. Confesso a você que se for condenado pelos crimes de que posso ser acusado, prefiro a condenação porque ainda entendo que é melhor morrer com honra do que viver sem dignidade. Minha vida, toda Friburgo é testemunha, tem sido em favor da educação da infância e das juventudes pobres. Por elas, e aí é que imploro seu perdão e dos nossos filhos, tenho sacrificado o bem estar material de vocês. Nunca lhes pude dar o conforto que merecem mas jamais um de vocês reclamou o meu procedimento em favor dos mais necessitados. Antes, pelo contrário, Você Minha Querida Esposa tem sido o dínamo que me impulsiona nas horas de abatimento e de decepção. Contrária à minha participação na política, mesmo assim, você nunca me deixou sozinho em todos os momentos da minha vida. Beije duas vezes os nossos filhos, por mim e por você. Diga-lhes que qualquer que seja o meu sacrifício em favor deles é pouco pelo muito que os adoro. Lamento ainda uma vez o sofrimento que lhes estou causando. Lamento mas não peço perdão. Perdão é para os que erram. Estou convencido de plena consciência que todas as minhas atitudes têm sido em benefício da Família Brasileira e de nossa inigualável Pátria.(...) estarei mais firme do que nunca para prosseguir na luta pela consolidação de um regime democrático autêntico que possibilite a todos, ricos e pobres, uma vida digna e humana alicerçada nos insuperáveis e imperecíveis ensinamentos de Cristo no Sermão da Montanha. Abraços e beijos. Humberto.”


Humberto El-Jaick

Humberto El-Jaick(1922-1990) foi um dos fundadores e Presidente do Partido Socialista Brasileiro e Deputado Federal pelo PTB de 1963-1967. Durante o golpe militar de 1964 foi preso e cassado, tendo seus direitos políticos suspensos durante dez anos. Fundou o novo PTB juntamente com Leonel Brizola. Essa carta de demonstra o clima tenso pelo qual passava Nova Friburgo, numa onda de denuncismos que derrubou até o prefeito Vanor Moreira, acusado de comunista, e a prisão de todos aqueles que se manifestavam contra o regime militar, que se perguntavam, como Humberto El-Jaick: “Não sei ainda porque estou preso."








Interessante vídeo sobre a Ditadura Militar dividida em 3 partes:







Exaltação e Propaganda da Ditadura Militar feita pela Rede Globo(1975):

O IMPACTO DA REVOLUÇÃO DE 30 EM NOVA FRIBURGO



Acima, José Galeano das Neves, líder do movimento revolucionário em Nova Friburgo

Em 03 de outubro, a Revolução de 30 completa oitenta anos. Nova Friburgo tem algo a contar desse importante acontecimento histórico que provocou uma ruptura política das mais impactantes na história nacional. A proclamação da República em 1889, trouxe ao cenário político apenas uma novidade: a centralização do Império deu lugar ao pleno domínio dos fazendeiros no quadro político nacional, fragmentando o poder, que ficou nas mãos das oligarquias locais. A denominada política dos governadores enfraqueceu o Estado e dominou a República Velha até a Revolução de 30. Entre essas oligarquias predominavam os paulistas e os mineiros: o primeiro, pelo fator econômico, a supremacia do café e o segundo por tratar-se do mais populoso Estado da federação, o que mais poderia influenciar nas votações presidenciais.

Os problemas sociais e políticos no país, a insatisfação do exército com as oligarquias rurais, tudo isso gerava fortes tensões na sociedade. Mas quem forneceu a pólvora para eclodir a revolução foi Washington Luis. Ao contrário do que era esperado nas eleições presidenciais, o então presidente não indicou um mineiro para sucedê-lo, como vinham fazendo São Paulo e Minas Gerais se revezando no governo presidencial na denominada política do Café com Leite. Indicou o paulista Júlio Prestes. Getúlio Vargas apoiado por setores descontentes do exército e pelas oligarquias dissidentes fundou o partido da Aliança Liberal, lançando-se candidato. Júlio Prestes foi eleito presidente da república em um quadro de fraude eleitoral, bem característico da República Velha. Em 03 de outubro de 1930, civis e militares(exército) iniciaram a revolução que teria efeito fulminante, terminando no dia 24 daquele mesmo mês. Tomava posse em novembro o novo chefe do governo provisório: Getúlio Vargas. Mas qual foi o impacto da Revolução de 30 em Nova Friburgo?


Galdino do Vale Filho, outrora deputado federal, apoiava o governo de Washington Luis e conseqüentemente o seu indicado Júlio Prestes. No Centro de Documentação D. João VI há dois jornais, A PAZ, do próprio Galdino do Valle e O NOVA FRIBURGO que nos mostra a temperatura política da época. Em A PAZ nos editoriais “O dever dos Fluminenses” (28 de julho); “A candidatura Julio Prestes” (01 de setembro); “Panorama Político” (12 de setembro); “A sucessão presidencial” (13 de outubro); “Que resta, pois a Aliança” (10 de novembro); todos de 1929, Galdino do Valle Filho apóia abertamente Washington Luis. Infelizmente, os jornais do ano da revolução não possuímos.

No entanto, O Jornal, dos diários associados, de 26 de novembro de 1930, nos dá a dimensão de como transcorreu a revolução em Nova Friburgo. Os municípios do Estado do Rio não estavam pela sua situação geográfica e pela desagregação política do partido dominante nos cálculos militares dos revolucionários, nos informa o jornal. Mas em Nova Friburgo uma voz se levantou: a de José Galeano das Neves. Originário de uma das primeiras e mais tradicionais famílias de Nova Friburgo, seu pai e avô participaram da vida política do município desde meados do século XIX. Família oriunda de São João Del Rei, do tronco familiar de Tancredo Neves, o fato de Galeano possuir ligação política com Minas Gerais, pois toda sua parentela mineira era de políticos, colocava os Neves como aliados naturais desse Estado e consequentemente contra a indicação do paulista Júlio Prestes. Afinal, era a vez de Minas Gerais dar um presidente ao país e os Neves eram importantes atores políticos nesse Estado, como são até hoje, a exemplo de Aécio Neves.




De acordo com Galeano “somente com um movimento armado poderíamos sair do descalabro em que vivíamos (...) pensava e disto tenho agora a prova, que o Brasil só se salvaria com uma revolução que sacudisse todo o seu aparelho político administrativo”. Conforme O Jornal, os civis fluminenses surpreenderam os revolucionários, aliando-se aos militares nas ações armadas e articulações políticas. O Partido Democrático Fluminense convidou José Galeano das Neves a organizar em Friburgo “elementos que pegassem em armas quando fosse necessário”. Galeano fora escolhido porque reunia todas as condições para liderar o movimento em Nova Friburgo: Era ligado a Minas Gerais por laços familiares e político; era inimigo ferrenho do legalista Galdino do Vale Filho; homem de posses e líder no município por vir de uma família tradicional de políticos. Mas Galeano era civil e necessitava do apoio de um estrategista militar para coordenar as primeiras ações que denominou de “conspiração friburguense”.

Para tanto, convidou seu amigo de infância Brasiliano Americano Freire, oficial da Escola Militar e afastado de suas funções por ter tomado parte no Levante de 1922, e que oportunamente residia escondido em Friburgo, adotando identidade falsa e dando aula nos colégios locais. Foi o capitão Americano Freire quem auxiliou Galeano e cuidou da logística militar no município. Depois de cooptar um chefe militar procurou um aliado político na figura do advogado Comte Bittencourt.

Na primeira reunião na residência de Galeano ficou decidido que os conspiradores ocupariam Friburgo, contando com seiscentos homens fornecidos pelo coronel Christiano Ribeiro e que deveriam acantonar em Porto Novo. Nesse município iriam se apossar das armas da linha de tiro e danificar, se fosse preciso, as obras da estrada da serra. O capitão Americano Freire marcharia para Porto Novo onde reuniria o contingente de voluntários fluminenses às forças mineiras. Mas essas ações apenas ocorreriam se a revolução tivesse irrompido em 06 de setembro, o que não ocorreu. Galeano das Neves, decepcionado pela revolução ainda não ter eclodido, ficou aguardando ordens em Friburgo para reiniciar as “atividades revolucionárias”. Quando a Revolução irrompeu em 03 de outubro achava-se em sua Fazenda de São Bento e soube do acontecimento apenas dois dias depois devido ao seu isolamento. Os irmãos Sylvio, Carlos e Alberto Braune Filho, o Betinho, que haviam se encarregado do transporte de armamento a Porto Novo, estavam com ordem de prisão decretada pelas autoridades legalistas de Friburgo. Galeano das Neves os escondeu em sua fazenda e dali partiram todos para Porto Novo para engrossarem a coluna de seu amigo o capitão Americano Freire, que já ocupava aquela cidade mineira.

Abaixo, batalhão friburguense revolucionário que lutou em Porto Novo



As cidades de Mar de Espanha, Angustura, Volta Grande e Aventureiro foram, além de Porto Novo, ocupadas pelas tropas friburguenses. Nas proximidades da cidade de Carmo, na Fazenda Boa Esperança, achavam-se algumas centenas de pessoas sob a chefia de Galdino do Valle Filho. Galdino organizara um batalhão de friburguenses e partira para enfrentar os revolucionários na divisa do município de Carmo. O capitão Mury, aliado de Galeano, percebendo que uma força legalista procurava ocupar um ponto em lugar estratégico de Porto Novo, atravessou o rio com a sua coluna e desalojou o adversário após um “áspero combate”, apreendendo metralhadoras, fuzis e fazendo 13 prisioneiros na frente legalista. Galeano das Neves foi incumbido de ocupar em território fluminense a fazenda do Barão do Paraná, assim o fazendo sem que houvesse resistência. Em Friburgo já se encontrava a polícia federal com canhões e com um efetivo de mais de mil homens que pretendiam atacar Porto Novo no dia 26 de outubro.




Acima, batalhão legalista, liderados por Galdino do Valle Filho.
Foto tirada na estação de trem, atual P.M.N.F.

A Revolução de 30 triunfou e se iniciou a caça às bruxas. Galdino do Valle foi preso em outubro do ano seguinte. Foi recolhido inicialmente no Sanatório Naval e depois conduzido a Casa de Detenção do Rio de Janeiro. Nessa ocasião, ficou detido apenas quatro dias. No tocante aos demais partidários de Washington Luis, a exemplo dos Spinelli, ficaram detidos na cadeia da cidade, onde hoje é o Porão do Centro de Arte. Quando as tropas revolucionárias friburguenses chegaram de trem a Nova Friburgo, boa parte da população foi recebê-los na Praça 15 de Novembro(atual Getúlio Vargas). Relembra esse dia a memorialista Yolanda Cavalieri d´Oro: “Quando a revolução triunfou, fomos para a Praça (refere-se a Getúlio Vargas) ver a chegada dos vencedores trazidos no trem. Estava todo mundo na rua, se acotovelando para ver melhor.(...) Lá pelas tantas o povo resolveu destruir a estátua do líder político de Nova Friburgo, o Sr. Galdino do Valle. Ele, que fora sempre venerado por todos, era agora, na fúria da paixão política, vítima do vandalismo desenfreado, comum nessas ocasiões. Quando a estátua rolou do pedestal, apareceu meu tio Dante, mancando e carregando uma bandeira vermelha(símbolo do galdinismo) que colocou triunfalmente no monumento decepado. Palmas delirantes da multidão....” Dante Lívio, revolucionário e conhecido comerciante local, simbolicamente enterrava Galdino do Vale Filho. Galdino foi rotulado de “carcomido”, como ficaram igualmente conhecidos todos aqueles que defenderam Washington Luis. Era o fim de uma era política. Abaixo a chegada vitoriosa dos revolucionários, vindos de Porto Novo, ao centro de Nova Friburgo.




A Revolução de 30 teve forte repercussão em Nova Friburgo por três fatores: primeiro pela sua posição geográfica, próxima da Capital da República, sede do governo federal e palco dos acontecimentos. Segundo pela sua forte relação com o Estado de Minas Gerais, que remonta desde a fundação do município, pois muitos mineiros migraram para Nova Friburgo com quem tinha estreitas relações comerciais. A terceira e principal razão foi o fato de em Nova Friburgo residir um membro aparentado da elite política mineira: Galeano das Neves. Possuindo forte liderança local era o instrumento perfeito para os mineiros revolucionários. Além disso, tradicionalmente sua família sempre fora oposição política ao legalista Galdino do Vale Filho. Galeano das Neves foi o articulador político da insurreição friburguense e ganhou as páginas do jornal carioca. Com isso, colocou Nova Friburgo a cavaleiro na Revolução de 30.


Abaixo, charges da época criticando a política do Café com Leite.




Agradeço a Walther Seng das Neves pelas fontes fornecidas para realização dessa matéria.


Entenda o contexto político da época:














PARA OS AMIGOS, PÃO, PARA OS INIMIGOS, PAU

Em 1910, a campanha eleitoral de Rui Barbosa, embora apoiada pela máquina eleitoral da oligarquia paulista, denunciou, em praças e comícios públicos, a constante fraude e corrupção do sistema eleitoral. Quando se lê as notícias das eleições municipais para o cargo de vereador da Câmara Municipal(não havia ainda a figura do prefeito) e juízes de paz, percebe-se que as eleições em Nova Friburgo fin-de-siècle XIX eram bem mais movimentadas e aguerridas. Para citar um exemplo, tomemos Lumiar, onde violentos tumultos ocorreram naquela época. Em 09 de junho de 1892, quando vários republicanos autonomistas vindos do Sana resolveram parar em Lumiar para participar de uma festa que ocorria na localidade, foram ameaçados por um oponente político, Pedro Spitz, que os rechaçou, expulsando-os do lugar. Porém, antes mesmo que se retirassem, por ordem do subdelegado Lamas, que aos gritos mandou matar “a canalha”, partiram diversos indivíduos em direção à eles, perseguindo-os. Atirando contra eles, mataram um dos homens e feriram os demais, além de serem encontrados sinais de tortura no que falecera. Esse episódio ilustra o termômetro político daquela época em Nova Friburgo e é narrado na edição de 21 de setembro de 1893 em O Friburguense. Dizia-se à época: “Para os amigos pão, para os inimigos pau”.
Segundo ainda o jornal, a fraude grassava nas eleições do município. Havia denúncias de indeferimentos na qualificação eleitoral de pessoas aptas a serem eleitoras, perante a Junta Municipal, com a exclusão de centenas de cidadãos sem motivo justificado. Nas urnas, roubo de votos, muitas vezes “concertado à custa de bico de pena na apuração das freguesias rurais”. Havia rasuras nas cédulas, votava-se sem exibir o título de qualificação e eleitores da situação ameaçavam eleitores da oposição. As provocações acirravam a animosidade entre os correligionários. Em algumas seções, os fiscais legalmente nomeados foram impedidos de entrar e, por conseqüência, os republicanos autonomistas não tiveram um voto sequer nessa seção. Os emissários e oficiais de justiça cruzavam o município com recomendações expressas aos eleitores para votarem na situação ou “ficarem em casa”. De acordo com O Friburguense, o delegado de polícia cabalava abertamente e com toda desfaçatez entrava nas residências dos eleitores, intimando-os a votar no Partido Republicano Moderado.
No dia da eleição, com os bolsos pejados de cédulas, “insistia arreganhadamente” nas seções com os eleitores para acompanhá-lo no voto. Prometiam-se empregos rendosos e fatura de obras municipais com lucros fabulosos. Enfim, lançavam mão de todos os recursos fraudulentos e segundo o articulista de O Friburguense era preciso vencer, “custasse o que custasse, já que tinham em mente que o poder é o poder”. Conforme A Sentinella de 01 de janeiro de 1899, o judiciário convertera-se no “balandrau dos farricocos políticos”, com a vara da Justiça transformada no cacete do partidarismo, praticando favores aos amigos, vingando-se e perseguindo os desafetos. O problema das fraudes nas eleições envolvendo o judiciário somente seria resolvido com a instituição da Justiça Eleitoral no governo Vargas, criada justamente para coibir tais práticas. Depois de decorridos quase dois séculos de nossa independência ainda vivemos em estágio primário na hora de votar. Atualmente, boa parte da população ainda vive sem saneamento básico, sujeita às doenças, mas contenta-se com os aparelhos domésticos e o assistencialismo do bolsa família. Nessa eleição, estão na iminência de se elegerem cantores de pagode, jogadores de futebol que penduraram a chuteira, comediantes e pode-se imaginar o que produzirá o Senado e a Câmara de Deputados nos próximos anos. A classe política já não se contenta em se eleger: elege os filhos, a mulher e toda a parentela que puder, numa verdadeira “venda casada”.
Nos dias de hoje, a violência política foi substituída pelo poder econômico. Está claro que quem possui os cobres em suas algibeiras, vence as eleições. Mas tudo isso decorre de um processo histórico em que o voto no passado era censitário, ou seja, dependia de uma renda mínima do eleitor, exigia-se alfabetização em um país com a quase totalidade da população de analfabetos, excluía-se o voto feminino, sem contar ainda com os anos ditadura que coibiu a participação política. Recordando a história do Brasil, constataremos que a participação das classes populares no processo político é muito pífia, pois ficou durante muitos anos excluída do voto. Por isso, Senhor, perdoemos o nosso povo que não sabe o faz com o seu voto.

Memória do Trem em Nova Friburgo

Acima, primeira estação de trem inaugurada por D. Pedro II. Século XIX.

O trem foi uma das grandes revoluções técnicas do século XIX com impacto muito grande na economia mundial. Em 21 de outubro de 1857, foi celebrado um contrato entre o primeiro barão de Nova Friburgo, Antônio Clemente Pinto, juntamente com Candido José Rodrigues Torres e Joaquim José Santos Júnior, e o governo da província do Rio de Janeiro para a construção da Estrada de Ferro Cantagalo. O trecho inicial foi de Porto das Caixas à Raiz da Serra de Nova Friburgo(Cachoeiras de Macacu), inaugurado em 22 de abril de 1860. A ferrovia foi criada objetivando o escoamento da produção de café da região de Cantagalo, no qual o Barão de Nova Friburgo era o maior produtor, até o porto do Rio de Janeiro.



Já em 12 de março de 1870, foi celebrado o contrato entre a presidência da província do Rio de Janeiro e Bernardo Clemente Pinto Sobrinho, o segundo barão de Nova Friburgo, para o prolongamento da Estrada de Ferro Cantagalo de Cachoeiras de Macacu até Friburgo. Esse trecho foi inaugurado em 18 de dezembro de 1873 contando com a presença do Imperador D. Pedro II. Um terreno reservado na Rua do Senado(Alberto Braune) para a Praça da Alegria foi desapropriado para servir de estação.
Já a segunda estação foi inaugurada em 1935, em estilo colonial, sendo atualmente sede a prefeitura municipal de Nova Friburgo. Abaixo a nova estação e o jornal O NOVA FRIBURGO contendo a cobertura da inauguração.





Infelizmente, o trem que havia sido doado a cidade de Nova Friburgo, e que ficou exposto na Praça Getúlio Vargas, como na foto abaixo, foi simplesmente "retalhado" pelo então prefeito Amâncio Mário de Azevedo.



UM BRINDE A ADOLF HITLER! NAZISTAS EM FRIBURGO

Em 1824, colonos alemães migraram para o recém criado termo de Nova Friburgo. Sessenta e oito anos depois ocorreria uma segunda onda migratória de alemães, ainda estimulada pelo governo. Já no primeiro decênio do século XX, um grupo de empresários alemães investiu em indústrias de grande porte, transformando Nova Friburgo em uma cidade industrial. Havia no município a Sociedade Alemã de Nova Friburgo e igualmente a Sociedade Alemã de Escola e Culto, essa última com estatuto próprio, cuja sede ficava na Estrada do Reservatório. No dia 20 de abril de 1935, o jornal O Friburguense noticiava a celebração em Friburgo do 46º aniversário do führer Adolf Hitler promovida pela Sociedade Alemã de Escola e Culto que “comemorou este acontecimento com muito brilho e solenidade”. A celebração contou com “grande número de pessoas de destaque” da sociedade friburguense e de muitos alemães domiciliados em Friburgo. A solenidade foi dividida em duas partes: na primeira, foram cantados os hinos nacionais brasileiro, alemão e nacional-socialista, seguidos por saudações e discursos em alemão e português. Um belo solo de violino acompanhado ao piano entremeava os discursos e alguns números de música foram apresentados. Vivas foram erguidos às duas grandes nações: Brasil e Alemanha. Na segunda parte do evento houve um baile, e danças e cantos se seguiram e se prolongaram até alta madrugada “com extraordinária animação e satisfação de todos que compareceram à festa”, noticiou o jornal. A colônia alemã e igualmente membros da colônia italiana e da elite friburguense participaram do evento.

Foi assim que se comemorou em Friburgo naquele ano a data natalícia de Adolf Hitler. Hitler é colocado nos discursos da dita sociedade como um líder que “conseguiu conduzir o povo alemão para uma vida melhor, dando bem estar a milhões de almas e implantando nelas a inabalável confiança em um futuro melhor.....”, assim transcreveu o jornal. Nos discursos proferidos, a idéia de que o nacional-socialismo fez desaparecer as diferenças sociais, onde se cultivava a verdadeira “camaradagem” entre o povo alemão. À luz dos acontecimentos internacionais, Hitler ainda não mostrara ao mundo a sua verdadeira face. A segunda guerra mundial(1939-45) ocorreria somente quatro anos depois dessa comemoração na cidade. Em Nova Friburgo havia muitos representantes da Ação Integralista Brasileira. No aniversário de Plínio Salgado, chefe nacional do partido, os integralistas friburguenses faziam uma passeata à noite pela cidade, “em exercícios”, fazendo uma parada militar na Praça dos Eucaliptos, ou seja, na Praça Getúlio Vargas.

Em entrevistas realizadas com algumas pessoas cujos familiares participavam do movimento nazista em Nova Friburgo, obtivemos duas afirmações: A primeira, a de que realmente houve um movimento nazista em Nova Friburgo. A segunda, a de que tantos os alemães no tocante a Hitler como os italianos no tocante a Mussolini, possuíam um único sentimento em relação a esses líderes políticos: a de que ambos melhoraram as condições econômicas de seus respectivos países. Destaquemos que esses imigrantes somente deixaram o seu torrão natal em razão da crise econômica que lhes afetava, daí a torcida por esses líderes que tiraram os seus países do horror econômico. Finalmente, não se conhecia ainda os campos de concentração que dizimaram ciganos, comunistas, homossexuais e judeus que só se tornaram notórios ao final da guerra.
No entanto, depois da segunda guerra mundial, muitos alemães foram hostilizados em Friburgo e todos os documentos da colônia italiana foram destruídos, temendo-se deportações. Era natural que em Friburgo, com uma forte presença de imigrantes alemães e de italianos tivessem simpatizantes do nazi-facismo, já que Hitler e Mussolini eram líderes carismáticos. Em uma outra ocasião, falaremos de um movimento eugenista existente em Friburgo, liderado pelo Prof. Júlio Caboclo, que pregava a superioridade de uma raça sobre a outra. Movimento nazista e eugenia. Está aí uma interessante passagem da história de Friburgo que merece ser pesquisada.

Movimento nazista em Petrópolis na década de 30, onde também havia forte presença de imigrantes alemães.


































Laura Milheiro: Uma personalidade cambiante entre a doce Tia Laura e aguerrida Dama de Ferro




Brevemente, a Câmara Municipal de Nova Friburgo irá homenagear Laura Milheiro de Freitas, dando-lhe o nome de sua tribuna. Muitos desconhecem sua história em Friburgo e vale a pena recordar sua trajetória na vida pública. Nascida em 13 de abril de 1913 e filha de uma numerosa família de imigrantes portugueses, Laura Milheiro é carioca de nascimento. Veio para Friburgo em 1942, quando tinha 29 anos acompanhando seu marido, Augusto Souza Freitas, oficial da Marinha, transferido para o Sanatório Naval. Como seu marido padecia de uma doença crônica dos pulmões, o clima de Friburgo lhe foi recomendado por médicos à época, ocasionando sua transferência para aquele estabelecimento. O fato de ter apenas uma filha, Lídia Milheiro de Freitas Chaves, deu a Laura Milheiro tempo suficiente para se dedicar às ações sociais, atividade que já realizava desde o Rio de Janeiro, quando auxiliava sua mãe. Nos últimos anos de sua vida, as definições sobre a militante política Laura Milheiro são um verdadeiro paradoxo: de doce e terna “Tia Laura”, como era conhecida pelas classes populares, a “dama de ferro”, assim descrita por correligionários e adversários políticos. Mas como iniciou sua trajetória política?

Tudo começou quando o médico da Marinha, Dr. Silva Araújo, amigo da família, atendia às pessoas pobres a seu pedido, gratuitamente, quando Laura já se dedicava às ações sociais em Friburgo. Dr. Silva Araújo se candidatou ao cargo de vereador e como sempre atendia “aos seus doentinhos pobres”, Laura se sentiu na obrigação de trabalhar para ele em sua campanha. Foi eleito e quando terminou seu mandato incentivou-a a se candidatar, pois como vereadora teria mais instrumento para suas ações sociais. Como por trás de uma grande mulher existe um grande companheiro, foi incentivada por seu marido e assim entrou para a política, tendo uma carreira meteórica. Foi vereadora por quatro mandatos, presidente da Câmara, sendo a primeira mulher a exercer o cargo de vereador no Estado do Rio. Assumiu ainda a função de prefeita durante 40 dias, em substituição a Amâncio Mário Azevedo, que viajara para a Alemanha.

De acordo com as memórias de sua neta, Ana Luiza Milheiro, Laura Milheiro via na função pública uma atividade em que não poderia haver ganhos pessoais. Recusou do então governador Roberto Silveira um cartório e deixou de se candidatar ao cargo de vereador quando a função passou a ser remunerada. Discordava que um vereador tivesse vencimentos. Desde que a Câmara Municipal foi instituída em Friburgo, em 1820, os vereadores não recebiam salários. Davam a sua contribuição pessoal a administração da cidade, sem possuir ordenados, sendo eleitos em razão da notória capacidade em suas atividades privadas.

Laura Milheiro foi uma daquelas mulheres que estava além de seu tempo. Enquanto na sua geração, as mulheres de classe média, eram “do Lar”, cuidando da casa, dos filhos e servindo ao marido, Laura foi uma militante política. Mas não havia preconceito àquela época? Certamente que sim, mas Laura superou esta questão. Segundo as memórias de sua neta, como sua avó era uma mulher muito bonita, as esposas dos correligionários sentiam muito ciúme dela. Astuta, Laura visitava as casas destes políticos, fazia amizade com suas esposas e assim angariou a simpatias das ciumentas, revertendo o quadro. Quando os maridos diziam que iam a reunião política, perguntavam se Dona Laura estaria presente, pois se ela estivesse, é sinal de que havia de fato reunião e não uma desculpa para suas “saidinhas”.
No campo das ações sociais fundou o Serviço de Assistência Social Evangélica(SASE), o núcleo da Legião da Boa vontade (LBV) em Friburgo, o Abrigo Betel para idosos e menores desamparados, o Instituto de Assistência de Proteção aos Cegos e a Casa das Meninas do Abrigo Amor a Jesus. Foi ainda presidente do Serviço de Proteção, Educação e Ajustamento da Criança(SPEAC) e presidente da Comissão Municipal da Legião Brasileira de Assistência(LBA), fora os postos de saúde que trazia para as comunidades carentes. É exaustivo enumerar as diversas funções que Laura Milheiro exerceu na vida pública. Mesmo contando com o apoio de diversas pessoas na criação destas instituições, Laura Milheiro era de fato a timoneira destes projetos, já que assistência social sempre fora a sua missão.
Já no executivo municipal, exerceu funções públicas no governo de Amâncio de Azevedo, Alencar Barroso, Paulo Azevedo e Nelci da Silva. Pertencia aos quadros da comissão executiva do PTB, depois do MDB, futuramente PMDB, sendo que até o final de sua vida, mesmo afastada das funções públicas, foi sempre procurada por políticos que lhe pediam aconselhamento. Não havia candidato que não passasse pelo “beija mão” de Laura Milheiro. No plano estadual participou do Movimento Popular de Alfabetização (MPA) no governo Roberto Silveira(PTB), onde tinha bastante trânsito e simpatias do governador, pois fizera aguerrida campanha em 1958, pela sua eleição. Laura Milheiro passou a ter a partir de então grande poder político e liderança na região, pedindo nada menos ao governador Roberto Silveira que transformasse Friburgo em capital do Estado do Rio. Ao que parece, o governo chegou sinalizar esta possibilidade: “...Senhor Governador, o povo vê hoje a concretização de um sonho que acalentava há anos, Friburgo tornar-se a capital do Estado...”. De fato, no final do século XIX, Friburgo disputou com Petrópolis e Campos o lugar de capital do Estado, mas Petrópolis acabou ganhando, se tornando capital, ainda que por um período efêmero.


Laura, como membro do PTB, sempre tecia preito a figura de Getúlio Vargas, que segundo ela, era um missionário. Pessoa muito religiosa, misturava sempre em seus discursos política com religião, como foi o caso de colocar os ideais da Revolução Francesa nas palavras de Jesus: “...Fazia-se mister o desmoronamento das castas nobres opressoras, para que a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade pregadas por Jesus pudessem entrar no mundo”. Militante, iniciava sua correspondência com a frase: “Saudações Trabalhistas!”.
Em sua correspondência com o governado Badger da Silveira, em agosto de 1963, Laura Milheiro se mostra como uma mulher ousada desafiando um delegado de polícia, onde fez campanha pela sua exoneração. Naquela época os delegados eram nomeados pelo governador. Acusou-o de conivência com marginais e de explorar a jogatina e o lenocínio na cidade. Em todos os ofícios, a assinatura de Laura era sempre a primeira.

Laura Milheiro se envolvia em tudo. Capacitação de mulheres operárias, tornando-as assim “ajudadora no lar”, amparo a maternidade, a infância, aos desvalidos e enfermos. Percebe-se sua preocupação sempre com a periferia da cidade e a zona rural. Somente mais de meio século depois que Laura Milheiro ingressou na vida pública é que vão surgir em Friburgo as primeiras mulheres candidatas aos cargos de vereador e prefeito, o que demonstra o seu vanguardismo à época. Chegou a ser candidata a prefeita, porém não logrou êxito, e seu santinho dizia: “um coração a serviço do povo, eficiência comprovada, realizações indiscutíveis”. Sua neta Ana Luiza se recorda que ela se sentia decepcionada com a política nos últimos anos de sua vida, tendo falecido em 22 de fevereiro de 2007. Não era para menos. A política mudou muito, os partidos se tornaram legendas de aluguel e como Laura Milheiro sempre manteve uma coerência política, uma ideologia linear, não poderia mesmo se adaptar aos novos ventos e práticas políticas.

Laura tinha como sua grande referência na política a figura de Getúlio Vargas e se sentia legatária e responsável em cumprir à risca o que Getúlio deixara em sua carta testamento quando de seu suicídio. A Câmara foi muito feliz em indicar o nome de Laura Milheiro para sua tribuna. A oratória sempre foi a sua característica mais marcante. Por isso, deixo o leitor com a íntegra do seu discurso quando da inauguração da estátua de Getúlio Vargas, outrora Praça 15 de Novembro, para conhecermos melhor o pensamento político de uma mulher cuja personalidade é cambiante da doce “Tia Laura” a aguerrida “dama de ferro”.


Exmo.Sr. Almirante Amaral Peixoto; Exmo. Sr. deputado Salo Branol, representante do Exmo. Sr. governador; Sr. deputado Dante Laginestra; Exmo. Sr. Prefeito e Vice-prefeito e demais autoridades presentes; meus senhores e minhas senhoras:

Com os olhos marejados de lágrimas pela saudade, venho de público trazer a minha singela cooperação a esta tocante cerimônia, onde estamos prestando o nosso preito de gratidão, pelo muito que recebemos do grande e inesquecível vulto do insigne brasileiro que foi o ex-presidente Getúlio Vargas.

Não me era possível silenciar, pois como vereadora do Partido Trabalhista Brasileiro(...) é com lágrimas nos olhos e o coração ferido pelo desaparecimento prematuro do defensor do direito do pobre e do desprotegido da sorte, para quem reservou os últimos pensamentos e a quem tanto ainda desejava ajudar, que hoje prestamos esta homenagem póstuma, pois de vindo fora, receberia as mais vivas demonstrações de reconhecimento e gratidão dos verdadeiros getulistas deste grande Brasil, estivesse ele onde estivesse.

Só quem sem paixão, com o coração sereno, contempla a obra deste grande estadista, pode ver o quanto fez pela nossa querida pátria, dando-lhe a melhor da lei trabalhista.

Ao ver a situação aflitiva do trabalhador, debatendo-se este com a miséria no lar, quando a enfermidade batia à sua porta, vivam os trabalhadores na mais completa desorganização, sem um objetivo, sem um ideal. Faltava-lhes a necessária compensação e com ela o desejo de progredir.
Quantas vezes o operário cumpria o seu dever sob as agruras da fome, sentindo no trabalho, a ressoar aos ouvidos as lamentações dos filhos famintos que ficaram no lar sem conforto, e da esposa a solicitar-lhe o necessário para a sobrevivência dos seus. Os seus filhos eram criados como seres irracionais, sentindo desde os primeiros instantes de vida as privações do lar proletário.

Nos dias de hoje, as reivindicações dos trabalhadores encontram acolhida e são estudadas pelos órgãos competentes do Ministério do Trabalho.
O sempre lembrado presidente Vargas é hoje o ídolo do operário nacional, porque organizou o trabalho, criou a justiça, deu valor ao trabalhador e sobretudo disciplinou as classes, dando-lhes participação na ordem política e administrativa do país, conferindo-lhes assim o gozo de viver com ideal.

Muito poderia falar enumerando todos os empreendimentos do grande presidente, em prol dos operários e trabalhadores em geral.
As gerações futuras, provindas dos trabalhadores do Brasil, hão de ser gratas ao destino que em boa hora fez surgir na vida pública a personalidade de Getúlio Vargas. E o Brasil lhe será credor de tão sublimes empreendimentos.
Há dez anos passados, já escrevia o escritor patrício, Mozart da Gama: “O Brasil, grande entre os maiores, há de ter perpetuada em bronze, para conhecimento das gerações futuras, o vulto de um filho que o conduziu a glória e ao esplendor.” A profecia cumpriu-se em nossa cidade, ao ser inaugurado hoje este belo monumento.

Getúlio Vargas, os brasileiros que comungam dos mesmos ideais pelos quais sempre lutastes, continuarão a obra que iniciaste, e aqui, junto a tua pessoa, perpetuada neste bronze, renovarão os propósitos de continuar a obra que não te deixaram realizar, de tornar a nossa querida Pátria amada e respeitada por todos nós.
(Discurso proferido em 19 de abril de 1955, por ocasião da inauguração da estátua de Getúlio Vargas, na praça que lhe deu o nome, por Laura Milheiro Freitas)

Fonte: Acervo particular de Ana Luiza Milheiro de Freitas.



Sobre o Vídeo: Carta-Testamento de Getúlio Vargas.
Segunda-feira, dia 24 de agosto, dia dramático. em que Getúlio Vargas, com um tiro no próprio coração, deteve o golpe de direita que estava em marcha e que, afinal, viria dez anos depois. A conspiração golpista, liderada pela UDN, sem poder atacar Getúlio, construiu sobre seus auxiliares e familiares a história de um mar de lama.

O atentado que matou o major Rubens Vaz, segurança de Carlos Lacerda, desencadeou uma ação arbitrária de setor militares ligados à direita que subverteram a investigação legal do incidente e a transformaram num atrabiliário inquérito que ficou conhecido como a República do Galeão.

Getúlio jamais obstaculizou qualquer investigação. Aos 72 anos, cercado de auxiliares vacilantes e com fraco apoio militar, sabia que já não teria como resistir aos golpistas pela via política.

Usou, então, uma arma mutio mais potente que o pequeno revólver Smith &Wesson, calibre 32, do qual partiu a bala que feriu de mortalmente seu coração. Usou a própria morte como arma da democracia e saiu da vida para entrar na história.

Sua Carta-Testamento, talvez o mais marcante documento da História do Brasil, é famosa, mas pouco conhecida. Fui achar o áudio de uma leitura dela não aqui, no Brasil, mas nas fonotecas de duas universidades, uma de Caracas, na Venezuela, e outra de Santo Domingo, na república Dominicana.



CORONEL GALIANO DAS NEVES: UM ATÍPICO CORONEL DA REPÚBLICA VELHA


Rua Cel. Galiano Emílio das Neves. Passamos por esta rua, uma das transversais da Praça Getúlio Vargas ou nos referimos à ela como “a rua do shopping”. E foi exatamente onde se localiza o shopping que Galiano Emílio das Neves viveu os últimos dias de sua vida. Nascido em São João del-Rei em 1 de maio de 1826, assim que terminou os estudos preparatórios foi para o Rio de Janeiro, ingressando no Curso de Medicina. No entanto, vítima da tuberculose, foi obrigado a interromper a Faculdade e aconselhado, pelos mais notáveis médicos da época, a residir na então Vila do Morro Queimado, em Nova Friburgo, cujo clima saudável e salubre favorecia a convalescência desta doença. Em Friburgo casou-se com Josephina, filha de família tradicional de franco-suíços que possuíam um dos mais importantes hotéis na cidade, o Hotel Salusse. Na sua vida pública foi um republicano histórico, se envolvendo nos primeiros movimentos revolucionários de Minas Gerais contra a monarquia.
Os irmãos de Galiano, Galdino Emiliano das Neves e Joviano Firmino das Neves, também vieram para Friburgo participando da política local. Homens esbeltos e de bela cepa, são ligados ao tronco familiar do ex-presidente Tancredo Neves. O coronel Galiano possuía uma fazenda de café na localidade de Amparo, denominada Cachoeira do Amparo e outra de criação, a Fazenda São Bento, até hoje conservada pela família Seng das Neves. Mas essas propriedades nos iludem imaginando que o coronel Galiano das Neves era o típico coronel durão e matuto da República Velha, agricultor, plantador de café e com plantel de escravos. O título de coronel era uma patente em que todos os civis que compunham a Guarda Nacional a possuíam. Era mais um título honorífico do que em decorrência de uma formação militar. A aquisição de propriedades rurais denotava mais uma questão de distinção e prestígio social do que propriamente tornar-se um grande agricultor, já que o coronel Galiano das Neves trocou o amanho da terra pela educação.
Galiano das Neves adquiriu o Instituto Colegial Freese, do inglês John Freese e lecionava no colégio. Este colégio foi responsável pela formação da elite política fluminense, a exemplo de Casimiro de Abreu. Apreciador da boa música, chegou a fundar na capital federal, antes de vir residir em Friburgo, uma filarmônica denominada Campesina, onde tocava o general Deodoro da Fonseca. Igualmente, teria trazido o maestro Samuel Antonio dos Santos, fundador da Euterpe Friburguense, para Nova Friburgo, contratado como professor de música do Colégio Freese. Quando o colégio fechou, a Campesina, fundada por seu enteado Major Augusto Marques Braga, teria recebido doações de instrumentos Colégio Freese. Mesmo tendo exercido o papel de vereador, presidente da Câmara e integrar o Partido Autonomista Republicano em Friburgo, a política foi secundária na vida dele. Na realidade, seu filho, Galiano Júnior, conhecido na cidade por “Chon-Chon” quem foi aguerrido na política, tornando-se um ferrenho adversário de Galdino do Vale Filho. Apesar de republicano, D. Pedro II o distinguia com especial carinho, tendo-o convidado para um chá no Paço Imperial.
O coronel Galiano nunca foi combativo politicamente, já que eram a educação e a música a sua verdadeira missão. Homem erudito, exímio tocador de rabeca, ou seja, o violino, seu feitio nobre e moderado nunca se compatibilizou com a “tricas de campanário” da política friburguense. Falecido em 05 de maio de 1916, aos 90 anos, foi um personagem lendário em Nova Friburgo, onde todos tiravam o chapéu em respeito e simpatia ao velho coronel. Seu pai lhe deu o nome de um imperador romano para ser um conquistador, mas seu espírito tendia mais para a civilização grega, já que sua grande paixão foi a sabedoria e as artes musicais. Foi um atípico coronel da República Velha.
Crédito: Foto e documento escrito cedido pela família Seng das Neves.



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