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HARTWIG E ANNELISE: OS ANJOS DE SELMA GAISER







Hartwig e Annelise: Os anjos de Selma Gaiser


No passado, em decorrência do alto índice de mortalidade entre as crianças, as mães não estabeleciam relações de afetividade com seus filhos nos primeiros anos de vida, mas somente, quando encontravam-se em idade mais avançada e mais resistentes às doenças. A mortalidade infantil era muito natural já que a medicina não possuía os recursos de hoje. De acordo com Gilberto Freyre, na sociedade patriarcal brasileira, as crianças mortas tornavam-se anjos para suas mães. As mães regozijavam-se com a morte do anjo, como a que Luccock, viajante inglês no século XIX, observou no Rio de Janeiro: mães chorando de alegria porque o Senhor lhe tinha levado o quinto filho pequeno. Eram já cinco anjos a sua espera no céu! Du Petit-Thouars viu em Santa Catarina, em 1825, em volta do altar com um meninozinho morto, mulheres em trajes de festa, ajoelhadas sobre esteiras, cantando. Em Nova Friburgo, no início do século XX, havia no cemitério do da cidade a quadra dos anjos, espaço reservado às crianças. Mas por que falar em morte de crianças em um dia tão festivo, como é o do “dia das crianças”, agora em 12 de outubro?


No primeiro decênio do século XX, várias indústrias instalaram-se em Nova Friburgo. Hans Gaiser(28.02.1897-29.09.1952), engenheiro, alemão, imigra para o Brasil em razão da crise econômica na Alemanha, intensificada depois da Primeira Guerra Mundial(1914-18). Chegando ao Rio de Janeiro, devido à sua experiência na construção de hidrelétricas na Alemanha, foi contratado por uma empresa de pavimentação de estradas. Uma das obras em andamento era a estrada entre o Rio de Janeiro e a região serrana. Essa estrada o conduziu a Nova Friburgo. Gaiser possivelmente se familiarizara com Nova Friburgo, que recebera significativo afluxo de colonos e imigrantes alemães desde o século XIX. Encontrando muitos conterrâneos, optou por estabelecer-se em Nova Friburgo, abrindo uma empresa de construção civil. Casado com Selma Gaiser(05.07.1890-15.05.1967), alemã judia, Hans Gaiser foi um bem sucedido engenheiro em Nova Friburgo, realizando muitas obras nas indústrias recém-instaladas, construindo pontes e residências. Hans e Selma tinham domicílio em uma residência que existe até hoje, em estilo art deco, ao final da Rua Augusto Spinelli, ao lado do edifício que teve sua lateral destruída no sinistro de janeiro de 2011. Foi nessa residência que nasceu o primogênito dos Gaiser, Hartwig, em 31 de março de 1926. Posteriormente, quatro anos depois, nascia a flor da família, Annelise, em 25 de junho de 1930.



Selma Gaiser e Hartwig






Hans Gaiser e seu primogênito


Como o empreendedor Hans Gaiser iniciara a construção da Fábrica de Ferragens Haga, possivelmente optou por um domicílio mais próximo do trabalho. Passou a residir no local que ficou conhecido como Sítio São João, um dos locais mais afetados pela tragédia de janeiro de 2011. Em sua nova residência, o casal Gaiser tinha tudo para ser feliz. Gaiser além de ter sido bem sucedido no ramo da construção civil, prosperava em sua nova indústria, contando com o auxílio de Julius Arp, proprietário da Rendas Arp. Hans Gaiser entrava para o seleto clube da trindade teutônica, de grandes industriais alemães em Nova Friburgo. Sua residência, em um aprazível vale onde a natureza traja sempre galas, era um paraíso onde poderia criar seus dois filhos. No entanto, a felicidade do casal foi interrompida por duas sucessivas mortes. Annelise, a florzinha da família, falece em 18 de fevereiro de 1931, antes de completar um ano de nascimento. Annelise se transformou no anjo para proteger a família. A morte de crianças prematuras ainda era algo aceitável, mesmo advindo das classes sociais economicamente abastadas. Porém, o anjo Annelise não conseguiu proteger a família e mais um infortúnio abateu-se sobre os Gaiser. Misteriosamente, o primogênito da família, Hartwig, falece em 22 de março de 1934 de uma febre intermitente, três anos depois da irmã, nove dias antes de completar oito anos de idade. Foi grande a comoção na família e em toda comunidade alemã luterana de Nova Friburgo. O casal não teve mais filhos.





Hartwig, o 5° da esquerda para a direita, morreria antes de completar oito anos.


Falecida em 1967, Selma Gaiser deixa em testamento a sua residência e todas as terras do seu entorno para a Congregação das Irmãs Franciscanas de Dillingen. Essa Congregação, originária da Baviera, foi fundada em 1241, na Alemanha, e estabelecida no Brasil em 1937, realizando obras assistenciais com crianças órfãs. Hans Gaiser tinha uma sobrinha que fazia parte dessa congregação e já haviam doado uma residência de férias, na Vilage, para as irmãs, que freqüentavam amiúde a residência dos Gaiser. Selma transformou a dor da perda de seus filhos em felicidade para centenas de crianças órfãs e de lares desestruturados. O local passou a denominar-se de Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser. Selma estipulou em seu testamento que as irmãs mantivessem o orfanato para meninas órfãs e carentes por 25 anos, com no máximo vinte meninas, em regime de internato. Mas as meninas internas sempre excederam a esse número. Selma autorizou ainda a venda de terrenos no entorno da propriedade quando houvesse necessidade financeira. Com o passar dos anos, a Congregação alienou vários deles, transformando-se em um belo bairro residencial. Igualmente uma extensa propriedade no Campo do Coelho foi doada por Selma, onde funciona até hoje a Humedica, entidade filantrópica protestante alemã, mantida por alemães, que desenvolve oficinas de artes, música, atividades recreativas e educacionais, com crianças carentes da região.


Entrevistando Márcia Cristina de Souza, com 45 anos de idade, uma das primeiras meninas a habitar o Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser, conhecemos um pouco do cotidiano do internato de meninas. Márcia e sua irmã vieram muito novas para o Lar de Crianças, pois seu pai era alcoólatra e sua mãe não tinha condições de criar as filhas. No internato, uma vida pautada na disciplina: horário para acordar, para as refeições, para o lazer na piscina e para dormir. Os estudos regulares eram feitos nas escolas públicas. Sempre falava-se dos benfeitores Hans e Selma entre as crianças que rezavam para agradecer a grandeza do gesto do casal. Estavam sempre nas orações das meninas. Pelos corredores do Lar de Crianças, os retratos dos filhos, a memória do drama familiar dos Gaiser. Hartwig e Annelise faziam parte do imaginário das meninas: qualquer barulho no quarto à noite, amedrontadas, achavam que as crianças saíam de seus túmulos e retornavam para brincar em seus aposentos. Márcia recorda-se dos dois quartos de Hartwig e Annelise, o papel de parede azul floral do primeiro e rosa da segunda. Ulteriormente um dormitório maior foi construído, pois os dois quartos das crianças eram insuficientes para abrigar as meninas. Márcia lembra-se das cantigas infantis alemãs que cantavam em alemão tosco, como a do “papagaio loiro”: “Papagaio loiro de bico dourado/ leva-me esta carta ao meu namorado./ Ela não é frade, nem homem casado/ é rapaz solteiro, lindo como um cravo./ Para o outro lado, para a outra margem,/ papagaio loiro de linda plumagem./ De linda plumagem, linda como oiro,/ leva-me esta carta, papagaio loiro.” Muitos alemães participavam de atividades festivas no Lar de Crianças. Mas o que Márcia recorda-se com emoção era dos festejos de Natal, em estilo alemão, com encenações teatrais em que cada criança representava um elemento do presépio. Outrossim, a espera do papai Noel descendo a lareira da casa e a expectativa dos presentes.





Maria Cristina de Souza, uma das primeiras meninas internas do Lar de Crianças.


Foram mais de vinte anos recebendo crianças carentes que residiam no orfanato, em regime de internato. Posteriormente, o Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser extinguiu o internato, pois as irmãs desejavam que as crianças não se afastassem do lar paterno. Passou a ser somente creche, depois Jardim de Infância e atualmente a irmãs oferecem outro tipo de serviço às crianças carentes. Pela manhã pegam as crianças nos bairros, a exemplo do Loteamento Floresta, levam para o sítio e lá chegando tomam café da manhã, tem aulas de reforço e de música, recreiam, comem frutas, almoçam e depois são deixadas no colégio para as aulas regulares. Devido à tragédia de janeiro de 2011, cujo sítio foi muito afetado, essas atividades estão interrompidas. A Congregação perdeu parte da verba para esse tipo de assistência. Atualmente, sob a direção das irmãs Maria Helena de Souza e Maria Rodrigues Feitosa, necessitam que a prefeitura arque, ao menos, com as despesas transporte, mas até o momento, esse benefício não lhes foi deferido.


O sofrimento da perda dos filhos, precocemente, levou Selma Gaiser a fazer um gesto altruísta. Beneficiou gerações de meninas que passaram pelo Lar de Crianças. Foi igualmente graças ao trabalho das Irmãs Franciscanas que meninas como Márcia, que provinham de lares desestruturados, tiveram uma boa educação e formação. Abusando da retórica, pode-se afirmar que Hartwig e Annelise, os dois anjos de Selma Gaiser, fizeram jus à representação que se fazia, no passado, de crianças mortas: foram anjos que protegeram as meninas e sua presença podia até ser percebida por elas, à noite, nos dormitórios do Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser.



Abaixo fotos do Lar das Crianças Hans e Selma Gaiser





























MEMÓRIA SOBRE O NAZISMO EM NOVA FRIBURGO





Nascido na Alemanha em 19 de abril de 1911, Johannes Edward Schlupp fez sua formação inicial e cursou Teologia em sua terra natal. Ainda muito jovem foi solicitado a assumir o trabalho evangélico no Brasil. Aprendendo o português, chegou ao país em 1933, trabalhando inicialmente como pastor auxiliar de uma comunidade evangélica em Petrópolis. Nessa ocasião, pouco antes da Segunda Guerra Mundial(1939-45), havia uma comunidade luterana em crise e dividida em razão de divergências quanto ao nazismo: a de Nova Friburgo. E foi para lá que Johannes Schlupp foi encaminhado para apaziguar os ânimos entre os luteranos. O proselitismo em relação ao nazismo gerava tensões em Nova Friburgo entre a comunidade evangélica luterana. O nacionalismo alemão, através do partido nazista, conseguira tirar a Alemanha da crise em se encontrava. Em 1933, mais de um terço da mão de obra ativa encontrava-se desempregada gerando uma miséria no país a níveis nunca anteriormente alcançados. Um regime que propusesse o bem estar geral e tirasse a Alemanha da crise, somente poderia lograr êxito. Daí o prestígio de Adolf Hitler. Segundo o Pastor Schlupp, foi a infiltração de pessoas com idéias absurdas, a exemplo do racismo, que levou a Igreja Luterana a entrar em conflito com o partido nazista. Essa celeuma se refletiu em toda a comunidade internacional luterana e se estendeu a Nova Friburgo, provocando um cisma entre os evangélicos. Existia no município a “Deutscher Schul und Kirchenverein”, ou seja, a Sociedade Alemã da Escola e Culto. Em razão das divergências em relação ao nazismo, houve uma cisão dessa sociedade que originou outra pró nazismo, denominada Sociedade Alemã. Com a separação, a Deutscher Schul und Kirchenverein abandonou o nome alemão e adotou a designação de Sociedade Esportiva. As duas sociedades separaram inclusive as duas escolas alemãs. Uma funcionava na Av. Rui Barbosa e a outra antes da Ponte da Saudade. Essa animosidade atingiu a comunidade evangélica ao ponto de não se cumprimentarem e igualmente os poderosos industriais alemães estabelecidos em Nova Friburgo. De um lado, estavam os proprietários das Fábricas Arp e Filó, o Conselheiro Julius Arp e Otto Siems, além de Hans Gaiser, contrários ao movimento nazista. De outro estava Maximilian Falck, apoiando a dissidente Sociedade Alemã, recém-formada e que defendia de forma incondicional o Partido Nazista. A Sociedade Alemã se estabeleceu na Rua Gal. Câmara(atual Augusto Spinelli), onde atualmente funciona a Secretaria de Promoção Social da P.M.N.F. Esse prédio, no decorrer da Segunda Guerra, seria desapropriado dos alemães pelo governo. Foi essa a situação encontrada em Nova Friburgo pelo jovem Pastor Schlupp, que conseguiu apaziguar os ânimos e minimizar as tensões entre os luteranos. Sua orientação para a união dos evangélicos luteranos foi a de que deveriam ficar afastados da política interna da Alemanha e manter-se unidos em razão de possuírem a mesma cultura, tradição e professarem o mesmo credo. Foi graças ao seu êxito, contemporizando os dois lados, que Julius Arp solicitou para que ficasse e garantisse a paz obtida. E de oito semanas, tempo previsto para sua permanência, o jovem pastor Johannes Schlupp permaneceu 44 anos em Nova Friburgo, onde se casou e constituiu família.





O estabelecimento dos industriais alemães em Nova Friburgo, a partir de 1910, auxiliou em muito a desassistida comunidade alemã. Nova Friburgo era uma cidade pacata de veraneio quando o Conselheiro Julius Arp obteve a concessão do fornecimento de energia elétrica para garantir a energia necessária para as indústrias que seriam instaladas. Os primeiros colonos alemães que vieram para a então vila de Nova Friburgo, em 1824, não tiveram como os suíços, o auxílio de uma assistência filantrópica. Na Praça do Pelourinho, atual Marcílio Dias, os luteranos construíram um templo modesto, que foi demolido posteriormente pelas autoridades locais. Em 1856, foi construído outro templo de pau a pique, mas era proibido dar o aspecto de igreja aos templos protestantes. Não poderia haver torres, sinos ou qualquer símbolo de seu credo e a fachada deveria ser idêntica a de uma casa residencial. Foi essa construção tosca que o jovem Pastor Schlupp encontrou quando chegou a Nova Friburgo. Mas os industriais alemães deram mais dignidade aos luteranos estabelecidos no município, até porque professavam a mesma crença e freqüentavam os mesmos templos. Todos os técnicos trazidos da Alemanha e suas famílias eram igualmente luteranos. Em junho de 1952, foi inaugurado um novo templo na Av. Galdino do Vale Filho à altura dos novos ilustres freqüentadores. O antigo templo foi vendido aos metodistas.


A trindade teutônica formada por Julius Arp, Maximilian Falck e Otto Siems, bem como Hans Gaiser auxiliaram, além da construção do templo, na melhoria do cemitério e em várias obras assistenciais. Quando faleceu o filho do Pastor Sauerbronn em 1824, o infante foi impedido pelo vigário Jacob Joye de ser enterrado no cemitério da vila, e foi-lhe reservado um local no morro, onde hoje se localiza o cemitério dos luteranos. Era um local ermo na ocasião e desde então nunca mereceu a atenção das autoridades municipais. Com o auxílio desses industriais o cemitério luterano teve uma grande reforma, com a duplicação de sua área e pavimentação de seu acesso. Mas quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu e o Brasil entrou na guerra, muitos alemães em Nova Friburgo foram presos e levados para Niterói. O Pastor Schlupp os acompanhou. Os cultos e as reuniões dos luteranos foram proibidos. Casamentos e batizados deveriam ter autorização expressa. Foi uma época difícil para os alemães, apesar de grande parte deles ser de nacionalidade brasileira. Como vimos, o jovem Pastor Schlupp tinha muitos motivos para permanecer em Nova Friburgo por mais de quatro décadas para proteger a suas ovelhas.



FAMÍLIA SERTÃ:A DISCRIÇÃO AO DISTRIBUIR MERCÊ





Elisa Sertã

Diz-se que Getúlio Vargas experimentou certa feita, em Petrópolis, algumas frutas e ficou maravilhado. Os pêssegos eram doces e suculentos, de sabor inigualável. O presidente quis saber a sua origem. Eram de Nova Friburgo, produzido por Raul Sertã que cultivava no Sítio Santa Elisa, de sua propriedade, além de pêssego, uva, figo e castanha portuguesa. Desde então, o presidente encomendava sempre os frutos de Friburgo. Mas quem eram os Sertã em Nova Friburgo? A história dessa família se inicia em Nova Friburgo no Século XIX. Antonio Lopes Sertã(1851-1894) português originário da vila Sertã, era mascate, e vinha periodicamente a então Vila de Nova Friburgo carregado de mercadorias em lombo de burro, antes da vinda do trem em 1873. Comercializava seus produtos no Empório do rico português Joaquim Tomé Ferreira, que ocupava quase toda a Rua Gal. Argolo(Alberto Braune). Foi quando se apaixonou pela filha de Ferreira, Elisa(1858-1933), que logo correspondeu ao seu amor e vieram a casar-se constituindo uma família que se tornaria uma das mais tradicionais da cidade. Tiveram seis filhos: Licínio, Mário, Raul, Alfredo, Aníbal, Antonio e Hilda, sendo que os dois últimos morreram precocemente aos 21 e 22 anos, respectivamente. Elisa ficou viúva aos 46 anos, e continuou administrando as atividades da família. Vendeu o Empório, construiu várias casas para transformar em renda os aluguéis, prática tipicamente portuguesa, e segundo a família quadruplicou o patrimônio dos Sertã. Foi fundadora juntamente com Acácio Borges, Castro Nunes, Samuel de Paulo Castro e Henrique Éboli, da Caixa Rural, o primeiro banco de Nova Friburgo. No governo de Gustavo Lira da Silva, prefeito da cidade, emprestou dinheiro para as obras públicas cuja dívida era amortizada no imposto predial.

O solar dos Sertã, localizado na Alberto Braune e construído em 1900, foi edificado com pedras de cantaria mandados vir de Portugal por Antonio Lopes Sertã. Foi construído sobre um terreno que ocupava toda a extensão do lado direito da atual Duque de Caxias, até o Rio Bengalas. Atualmente no local do antigo solar encontra-se o supermercado ABC. Herança do período colonial, os altares eram comuns nas casas-grandes de fazenda porque era lá que se realizavam as missas. Posteriormente, a Igreja proibiu a realização de missas em casas particulares, mas a tradição dos altares nas residências foi mantida. Havia no solar dos Sertã três altares: um no salão principal, trono do Sagrado Coração, e dois no “quarto dos Santos”. Aí se faziam orações diárias pelos antepassados e amigos da família falecidos. Era um tempo em que os mortos eram lembrados e cultuados. Rezavam todas as noites em frente ao oratório. Quando se solicitava aos santos um pedido mais importante, como a cura de uma doença, ajoelhavam sobre o milho, de braços abertos, em sinal penitência. Mas o solar dos Sertã passava do religioso ao profano. Bailes de carnaval, “arrastas” e recepções enchiam de alegria o casarão da Alberto Braune. Anselmo Duarte, o galã do estúdio de cinema Atlântida, quando vinha a Friburgo freqüentava as festas do casarão da família Sertã.

Raul Sertã: Na ponta, a direita.

Os filhos de Antônio e Elisa Sertã que ficaram em Friburgo logo se destacaram. Mário Sertã, médico, inaugurou a primeira Casa de Saúde particular em Friburgo, localizada onde hoje é o Hotel Montanhês. Raul Sertã, além de seus premiadíssimos frutos em exposições agrícolas, trouxe a primeira Companhia Telefônica para a cidade sendo o maior acionista. Mas o que caracterizou a família Sertã foi a caridade e a discrição. O casarão da Madre Roseli de propriedade de Josephina Marques Braga Sertã, casada com Mário Sertã, foi doado para abrigar meninas órfãs e Raul Sertã se ocupou em financiar as obras para adaptar o lindo sobrado residencial para sua nova função. O Nova Friburgo Futebol Clube deve aos Sertã o seu estádio. Fizeram a doação do terreno visando promover o esporte que nascia na cidade no início do século XX: o futebol. Desde o Império passando pela República, o governo limitava a assistência de saúde aos pobres somente com a doação de remédios. Não construíram hospitais públicos até metade do século XX. As Santas Casas de Misericórdia foram criadas para suprir essa deficiência do Estado e acolher os doentes pobres em suas instituições de caridade. Raul Sertã foi quem doou o terreno para a construção da Santa Casa de Misericórdia em Nova Friburgo, cuja manutenção e administração era feita por homens abastados da cidade e a população em geral. A Santa Casa de Misericórdia foi desapropriada no governo de Paulo Azevedo, transformada em hospital municipal e constitui o atual Hospital Raul Sertã. O terreno onde hoje é instalada o Fábrica Ypu foi doado por Elisa a Maximiliam Falk para a construção da fábrica. O pai de Elisa deixou-lhe como herança uma extensa propriedade que ia do atual Bairro Ypu até Theodoro de Oliveira. Elisa soube dividir com a cidade e doou parte do terreno para a instalação da referida fábrica no intuito de promover o progresso em Friburgo. Os Sertã auxiliaram ainda nas obras sociais da Instituição Santa Dorotéia, entre outras.
Elisa Sertã faleceu em 1933, aos 76 anos de idade. Quando da passagem de seu cortejo fúnebre pela rua principal até o jazigo da família, as casas comerciais e residências cerraram as portas e janelas, em sinal de respeito a grande benemérita que auxiliara no progresso e fizera caridade em Nova Friburgo. Dr. Feliciano Costa, quando prefeito, teceu-lhe preito dando-lhe um nome de rua. O que chama a atenção é como as famílias supriam, pelo menos até a primeira metade do século XX, funções e deficiências do Estado, no caso em epígrafe, o município de Nova Friburgo.

O primeiro time de futebol em Friburgo, onde os sertã participavam

O auxílio assistencial a indigentes e órfãos, o fomento da atividade industrial, o financiamento de obras públicas, a promoção de atividades de lazer foram espaços que tiveram que ser preenchidas por particulares. Os Sertã tiveram a generosidade de dividir seu vasto patrimônio com os desvalidos e com o desenvolvimento da cidade. E o que é mais edificante, foi a sua discrição ao distribuir mercê.

Entrevista realizada com Maria do Carmo Sertã Passos, Margarida Sertã Meressi e Lúcia Sertã em julho de 2010.

SANTO ANTONIO: glória de Portugal que lhe foi o berço, honra da Itália que lhe guarda o túmulo


Em junho, no final do século XIX, Nova Friburgo se preparava para os folguedos das festas de Santo Antonio, São João, São Pedro e da mãe da Virgem Maria, Sant´Anna. Era a estação das festas populares, dos mastros, das fogueiras, das canas, do cará com melado e da batata-doce. Divertimentos profanos como barracas de comidas, música, dança e leilões davam um colorido às práticas religiosas como as missas, ladainhas e procissões em homenagem aos santos taumaturgos.
A festa de Santo Antonio tinha grande concorrência de fiéis e de romeiros que iam pagar suas promessas. Oito dias antes da festa, ao troar de bombas, foguetes e ao som de repiques, era levantado em frente à capelinha na Praça do Suspiro o tradicional mastro azul e branco, tendo no topo um quadro com a efígie do santo de um lado e do outro a dedicatória que dizia “gloria a Santo Antonio”. Na véspera, havia a ladainha e na alvorada do dia 13, dia de Santo Antonio, a sociedade musical Euterpe percorria a cidade despertando os devotos do santo com harmoniosas peças de seu repertório. Às onze horas era celebrada missa, cantada pelos Levitas do Senhor, subindo à tribuna um pregador que eloqüentemente fazia o panegírico do glorioso taumaturgo. Às cinco horas da tarde, as famílias participavam da procissão, repleta de crianças vestidas de anjos e virgens. Juncava-se de folhagens e flores a frente das casas por onde passava o préstito, em tributo ao santo. À noite, era cantada novamente a ladainha.



O inverno nesta época era muito rigoroso em Friburgo, chegando a temperaturas abaixo de zero graus. A população tirava do armário capas, casacos, mantéos, os clássicos cachenets, luvas e ainda assim “forravam por dentro” com Maria Brizard ou outra bebida qualquer que esquentasse. A Câmara Municipal se esmerava em tornar a praça iluminada por luz de acetileno com um holofote soberbo que dardejava raios possantes. Flores e folhagens ornavam um arraial de barraquinhas na Praça do Suspiro, todas iluminadas a giornos, com paredes de lonas brancas, tetos cinzentos de zinco, realçados pelo verde esmeraldino da vegetação. Por toda a extensão das barraquinhas, havia bandeiras e galhardetes de várias cores e nacionalidades. A festa ensejava a comilança e também o consumo de bebidas quentes. No festim de Santo Antonio, os romeiros tiravam a sorte e se esbaldavam com doces, café, refrescos, patos, perus, leitoas, carneiros, vitelas, carás e melado. Ardiam fogueiras assando-se canas e batatas doces. Armava-se um coreto e ao som de uma banda de música apregoava-se um leilão de prendas oferecidas pelos fiéis. Tocavam todas as sociedades musicais, Euterpe, Campesina, Estrela e Recreio dos Artistas. Tanto a colônia portuguesa como a italiana auxiliava na organização da festa deste santo, glória de Portugal que lhe foi o berço e honra da Itália que lhe guardava o túmulo.


Durante a festividade a população afluía à capelinha, levando promessas e donativos ao santo. Alguns levavam pencas de laranja ou frangos que trocavam por medalhinhas e registros com laços de fitas. Atroavam nos ares girândolas de foguetes e ascendiam balões de todas as cores e tamanhos com dísticos e figuras alegóricas. Durante a festividade, as moças solteiras acendiam velas de cera ao santo casamenteiro pedindo por um bom casamento. As meninas vestidas galantemente saíam como bando de andorinhas travessas, à cata de flores para enfeitarem o oratório. Já os meninos corriam pela multidão jogando bichas(sanguessugas) sobre os transeuntes e ainda busca-pés que atiravam para o ar em direção às moças que corriam esbaforidas, com medo de queimarem os vestidos novos.

No último dia da festa, às dez horas da noite, findo o leilão, encerrava-se com a queima de lindíssimos fogos de artifício ao som de repiques dos sinos da igrejinha de Santo Antonio. Numa época em que não havia luz elétrica, estes fogos de artifício tinham uma dimensão muito maior do que hoje e daí a vozearia alegre da gárrula meninada diante deste espetáculo ao fim da festa de Santo Antônio.

Fonte: Baseada em crônicas publicadas no jornal O Friburguense, no século XIX.









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