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Do Jockey Club à cavalgada de São Jorge: Da sociabilidade mundana ao rito religioso












Friburgo Jochey Club - 1911

Ao longo da história, o fato de se possuir um cavalo e de se transformar em um cavaleiro, sempre deu status aos homens. Na Antiguidade, o imperador romano Calígula elegeu seu cavalo senador. Mas muito antes dele, Alexandre, O Grande, tinha no seu cavalo, Bucéfalo, o seu maior aliado nas batalhas. O cavalo sempre foi um companheiro de reis e nobres, tornando-se um esporte da aristocracia em várias nações europeias. No Brasil, no século XIX, com a europeização da sociedade brasileira, o turfe, ou seja, as corridas de cavalo, passaram a ser um esporte e uma forma de sociabilidade das elites. O turfe foi introduzido no Brasil pelos ingleses, influenciando as modas e os modos da aristocracia brasileira. Em 1877, já há o registro de corridas de cavalo promovidas nas ruas da vila de Nova Friburgo.






















Em 1883, surge, em Nova Friburgo, o clube atlético denominado General Osório que promovia corridas de cavalo na rua do mesmo nome. Há o registro ainda do Clube Atlético Bargossi, que pediu permissão à Câmara para colocar postes de raia na Praça do Suspiro, para que se realizassem corridas aos domingos e dias santificados. Por iniciativa da família do Barão de Nova Friburgo, os Clemente Pinto, foi fundado em 22 de abril de 1881, o Jockey Club de Nova Friburgo. A família inauguraria igualmente, em 12 de julho de 1885, o prado do Jockey Club Cantagalense, no Palacete do Gavião. O primeiro presidente do Jockey Club de Nova Friburgo foi o Barão de São Clemente, fazendo parte do seleto club Augusto Marques Braga, Pedro Eduardo Salusse, o médico e presidente Câmara Municipal Ernesto Brazílio, entre outros. Do conselho fiscal participavam Elias Antonio de Moraes, o 2° Barão de Duas Barras, e o empresário do ramo hoteleiro, Carlos Engert. Não se pode precisar, mas em dado momento o Jockey Club de Nova Friburgo se extinguiu.










Anos depois, foi fundado em 30 de abril de 1911, o Friburgo Jockey Club, também formado pela elite local, por iniciativa de Octávio Veiga, Galdino do Valle Filho e do Cel. Galiano Emilio das Neves Junior, os dois últimos grandes inimigos políticos. Já no século XX, havia em Nova Friburgo dois prados: o prado Entre Rios, em Lumiar, e o Prado de Corridas de Conselheiro Paulino. O prado de Conselheiro Paulino tinha sua sede social no Hotel Salusse. Competições de equitação eram igualmente realizadas no Friburgo Futebol Clube.






Nos dias de competição, era um alvoroço na cidade. Ainda cedo, todas as garagens de bicicletas eram procuradas por visitantes das localidades próximas, que, em trajes esportivos, cortavam alegres as extensas alamedas da Praça 15 de Novembro (atual Getúlio Vargas). Às 11:00 horas, todos se dirigiam à Estação da Leopoldina para recepcionar as “embaixadas” de Niterói, Petrópolis e da “Força Pública”. Eram recebidos com “hurras vibrantes” por todos os esportistas presentes na estação. As torcidas, os sportmen, vinham a Nova Friburgo animar os seus atletas. Os cariocas que vinham assistir ao turf friburguense, ficavam geralmente hospedados no Hotel Central (hoje edifício Folly), Floresta e Suspiro. Como é comum nesses espaços de sociabilidade, as corridas de cavalo atraíram a alta sociedade, sendo ocasião para o exibicionismo de indumentárias e, segundo o jornal A Paz, “as arquibancadas apresentavam o que de mais elegante possui a nossa sociedade”.





Em julho de 1986, foi fundado o Clube do Cavalo de Nova Friburgo, funcionando provisoriamente em Amparo. Objetivava-se incentivar a criação de cavalos de raça no município, com a participação dos criadores locais em exposições e em organizar provas entre os associados. O Clube do Cavalo contava com a participação da classe média friburguense, e não mais da classe alta, como outrora. Curiosamente, o associado não precisava ter cavalo, não se cobrava taxa de seus associados, diferentemente do passado quando se cobrava uma “joia”. No mesmo ano de sua fundação, foi realizada a I Prova de Hipismo Rural de Nova Friburgo, em Conselheiro Paulino. Nas modalidades, marcha, cross, baliza, rodeio, laço e tambor. Leilão de animais e igualmente um espetáculo artístico estavam previstos na programação. Mas o Clube do Cavalo foi extinto. Atualmente, acontece a cada ano, em Nova Friburgo, a Cavalgada de São Jorge, já na sua décima quinta edição. Seus integrantes são cavaleiros pertencentes às classes populares. A cavalgada se inicia no curral do sol, provavelmente por influência do antigo prado de Conselheiro Paulino. O evento conta com a participação de cavalheiros e amazonas provenientes de vários bairros e de outros municípios. Os integrantes percorrem várias localidades de Nova Friburgo, passando inclusive pelo centro da cidade. Nessa ocasião, a imagem de São Jorge, padroeiro dos cavaleiros, abre o préstito, que faz uma procissão de aproximadamente sete quilômetros. Júlio do Cavalo, promotor do evento, prometia churrasco de confraternização com um animado forró aos que quisessem participar da cavalgada.



















A história da cavalaria em Nova Friburgo passa por um processo interessante: como vimos, o turfe era um esporte inicialmente das classes sociais mais abastadas e progressivamente ganhou popularidade. No Clube do Cavalo a montaria ganhou elementos de religiosidade, com a figura São Jorge, orago e padroeiro dos cavaleiros. Isso demonstra o profundo sentimento religioso do povo brasileiro, que acrescentou à festa mundana ritos religiosos, diferentemente das elites que nunca associaram a cavalgada ao santo que lhe é padroeiro.

Observação: Todas as fotos acima são da Cavalgada de São Jorge em Nova Friburgo.





































As Folias de Reis em Nova Friburgo





Conforme escreveu Melo Moraes Filho, “essa bem aventurança popular, esse esquecimento momentâneo das lutas pela vida, só a religião largamente proporciona...” As Folias de Reis ainda estão presentes na cultura popular de Nova Friburgo. Composta por homens das classes populares, elas mantêm a tradição dos tempos de antanho. O objetivo desta matéria é demonstrar como essa prática cultural se manifesta em Nova Friburgo, já que em cada região do Brasil ela varia sobremaneira. São componentes da folia o mestre, os contramestres e os foliões, ocorrendo uma hierarquia nessas posições. As folias iniciam a sua apresentação no dia 08 de dezembro. Porém, há folias em Nova Friburgo que “cantam” durante todo o ano. São muito solicitadas nessa ocasião por particulares ou mesmo por uma comunidade para fazerem uma apresentação. A folia Estrela da Guia, em 2009, deixou de atender a 19 convites por falta de agenda.




Quando chegam a uma residência, o dono da casa abre a porta e recebe a bandeira, guia da folia de reis, que leva estampada a imagem da Sagrada Família e outras representações da passagem bíblica como o nascimento, a fuga o Egito, etc. A bandeira geralmente recebe uma oferta em dinheiro e a espórtula é voluntária. Há um lugar na bandeira para se colocar a oferenda e há muitos versos para agradecê-la quando os foliões entoam o seguinte canto: “Meu senhor dono da casa, eu já lhe devo obrigação, recebeu nossa bandeira e está com ela na mão. Com a bandeira na mão, eu peço o seu consentimento, pra entrar em sua casa, vou parar meus instrumentos.” Ou então: “Recebeu nossa bandeira e está com ela na mão, pra entrar em sua casa, quero a sua permissão”. São infindáveis os versos de cantoria das folias e só a Estrela da Guia possui mais ou menos dois mil versos, fruto da composição de muitas gerações. Os versos não são uma coisa fechada. Cada localidade têm os seus versos, não sendo o mesmo em Nova Friburgo, Minas Gerais ou no Maranhão. César Eduardo Tarden, da folia Estrela da Guia, é da terceira geração de uma família que “cantou reis”. Começou a cantar desde os oito anos, respondendo a “requinta”. Mas o que é a requinta na folia de reis? Segundo Tarden, “quando se arremata um verso a requinta responde. É um grito lá naquelas alturas, tudo trovado”. Exige uma voz muito fina e geralmente são as crianças que fazem a requinta.

A maioria das folias têm como instrumentos uma sanfona, um pandeiro e a bateria. As mais ricas são mais bem aparelhadas, como é o caso da Estrela da Guia, que possui um acordeão, uma caixa, cinco violões, duas violas caipiras, uma rabeca(violino), um bandolim, quatro cavaquinhos e uma caixa de bumbo para marcar a requinta. Mas os instrumentos básicos são a sanfona, o bandolim e a caixa. No entanto, para Tarden, o violão, a viola e o violino fazem a diferença. E a figura do palhaço? O palhaço não está presente em todas as folias. As folias de Minas Gerais, segundo Tarden, não tem palhaço. No entanto, há folias em Nova Friburgo que tem até três palhaços. O palhaço na folia representa os soldados de Herodes, isso porque ele mandou seus soldados se disfarçarem de palhaço.


“Herodes recebe os magos com grande perturbação, e onde nasceu o menino, ele indagou com precisão. Os três reis do Oriente já voltaram de Belém, adoraram o Deus menino, o filho que a virgem tem. Voltaram por outro caminho, pra livrar o Deus menino, das garras do rei Herodes, que têm um gênio Maligno.” Tradicionalmente, a folia está ligada ao nascimento de Jesus Cristo. Há todo um rito na apresentação das folias. Inicia com a Anunciação, entre os dias 08 a 24 de dezembro. Depois da Anunciação vem o Nascimento, em 25 de dezembro. A Anunciação e o Nascimento fazem parte de uma mesma fase. As etapas seguintes são a Visita dos Pastores, a Adoração, a Fuga do Egito, a Perseguição de Herodes, o Martírio e a Crucificação. Todas essas etapas têm cantorias próprias que se estendem em apresentações pelo mês de janeiro e estão relacionadas às passagens bíblicas.


“Eu de todas as mulheres, dali eu fui a escolhida, pelo Divino Espírito Santo, a serva de Deus preferida. No ventre da Virgem Maria, um menino foi gerado, e antes do nascimento, ele foi anunciado.” O versos da folia são rimados, como as trovas, mas alguns cantam sem rimas. “Os três reis foram chegando, cada passo mais além, afinal que até chegaram, no presépio de Belém.” Curiosamente as mulheres não participam das folias, e a sua aceitação é um fato raro. Nas apresentações diante do presépio, que duram entre meia hora e quarenta minutos, há uma ordem, sendo que uma folia tem que aguardar o término do trabalho da outra. Cada folia tem a sua cor, são bicolores, mas não são como as escolas de samba e os times de futebol em que cada qual tem a sua cor. Podem até repetir a mesma cor. Cada folia tem o seu canto, puxado pelo mestre.



Antigamente, quando duas folias se encontravam uma cantava para a outra. Mas como algumas cantavam o calongo, ou seja, bobagens, e não as passagens bíblicas, começou a haver conflitos entre as folias chegando-se, muitas vezes, às vias de fato. Segundo Tarden, “tinham muitos que cantavam provocando um ao outro e o que era necessário cantar não cantava.” Quando o Papa João Paulo II assumiu, proibiu o “desafio” entre as folias de reis em decorrência dessas confusões. Em 2009, vinte e duas folias foram cadastradas na Secretaria de Cultura de Nova Friburgo e nos encontros chegam a participar mais de oitenta, muitas delas provenientes de outros municípios. Finalmente, existe o “arremate” que é o encerramento da folia, com uma grande festa de congraçamento, com a presença de um padre, e toda a comunidade de onde provêm as folias se confraterniza.


TEATRO D. EUGÊNIA: O ÓPERA DE NOVA FRIBURGO


Teatro D. Eugênia. Era localizado onde hoje é exatamente o Ed. Gustavo Lira,

na Rua Augusto Spinelli.

A história do Teatro D. Eugênia se inicia, no último quartel do século XIX. Sua origem partiu de uma deliberação dos membros da Sociedade Musical Campesina dispondo que, além da música, deveria essa sociedade também desenvolver e estimular as artes dramáticas, cuidando de edificar um teatro para tal fim. A Campesina abriu subscrição e realizou uma série de espetáculos e leilões na cidade e os friburguenses solidarizaram-se com a campanha promovida para a construção do teatro. O primeiro passo para o tão sonhado projeto foi a aquisição de um terreno que pertencia a Pedro Eduardo Salusse localizado na Rua Gal. Câmara, atual Augusto Spinelli, exatamente onde hoje se encontra o edifício Gustavo Lira.


No dia 30 de maio de 1886, foi lançada a pedra fundamental, concorrendo boa parte da população. Nessa data foi escolhido um nome para o teatro: Theatro Victor Hugo, um autor muito lido em Nova Friburgo. Dando-se início às obras foi o teatro edificado, tendo sido nele empregados os materiais doados e os valores recebidos pelos associados em leilões e espetáculos. Acontecimentos sucessivos, porém, interrompeu a execução do teatro que se encontrava até “certo ponto de adiantamento”, segundo um jornal da época. Primeiro, foi o falecimento, na Itália, de seu presidente, Fioravanti André Martinoya, seguido da elevação excessiva dos preços dos materiais de construção e do salário dos operários. Os débitos contraídos impediram a continuidade da obra, que acabou sendo suspensa. Não podendo dar continuidade à edificação do teatro, em sessão extraordinária os associados deliberaram colocar à venda o prédio na situação em que se encontrava. No entanto, por exigência da diretoria da Campesina, ficaria consignada na escritura uma cláusula de não poder ser a propriedade voltada a outro fim, senão àquele a que fora destinado, ou seja, servir às artes dramáticas. Os fazendeiros da região já diversificavam seus investimentos e foi o que aconteceu com Manoel Amancio de Souza Jordão, um dos mais importantes usineiros do município de Sumidouro, que resolveu adquirir o teatro em fase de execução. A consolidação de Friburgo como cidade de veraneio ao final do século 19 e a melhoria do sistema de transporte com a Capital Federal(Rio de Janeiro), facilitado pelo trem, despertou o interesse desse fazendeiro. Sob o comando de Souza Jordão, tomou a obra um grande incremento que levaria dois anos até que o teatro pudesse finalmente ser inaugurado. Contudo, o nome Victor Hugo foi substituído por Dona Eugênia, em homenagem à esposa do proprietário, Eugênia dos Santos Jordão. Em 7 de junho de 1894, por uma fatalidade, Souza Jordão veio a falecer vitimado por febre amarela, na Capital Federal. Como as obras do teatro se encontravam praticamente concluídas, Eugênia dos Santos Jordão tomou a frente do negócio.


No início do ano de 1895 foi inaugurado o Theatro D. Eugênia, com uma ópera de Verdi, Um Baile de Máscaras, pela companhia italiana Verdini & Rotoli. O prédio tinha um estilo eclético e era dividido em dois pavimentos. No primeiro andar ficava a platéia. Já no segundo ficavam as galerias, com alguns camarotes fechados. Havia ainda as “torrinhas”, onde ficavam os populares e os rapazes que gostavam de bagunça. Não era luxuoso, era simples, mas “muito bonitinho”, segundo entrevistas com quem o conheceu. Internamente possuía acabamento de madeira toda trabalhada e uma acústica maravilhosa. O teatro possuía lotação para 600 pessoas, com 212 cadeiras de primeira classe e 17 camarotes, sendo um de honra.


O Teatro D. Eugênia foi palco de famosas óperas italianas, muito em moda desde a época imperial e igualmente de peças do teatro português, cujos espetáculos faziam parte do calendário cultural da cidade. Além da primeira representação da ópera de Verdi, Um Baile de Máscaras, a Companhia Lírica Italiana Verdini & Rotoli promoveu as seguintes óperas na cidade: Lucrecia Borgia e A Favorita, de Donizetti; Carmen, de Bizet; Aida, La Traviata e O Trovador, de Verdi; e ainda Fausto, de Goethe. Além de Verdini & Rotoli, a companhia dramática do teatro português representou dramas e comédias, com as seguintes peças, entre muitas outras: A Morgadinha de Val-Flor, Gaspar Cacete, O Fidalgo Ladrão ou Os Pupilos do Escravo, Fidalgos e Operários ou A Tomada da Bastilha, Mosquitos por Cordas, Os Estranguladores de Paris, Os Dois Proscritos ou A Restauração de Portugal em 1640, Veneno dos Bórgias e O Homem da Máscara Negra. Peças mais picantes como A Estátua de Carne, exibia as “horisontaes”(prostitutas) e “Can-Can”, dançadas por mascarados. O teatro recebeu ainda companhias de zarzuelas, obra dramática e musical de origem espanhola, uma espécie de ópera-cômica na qual alternadamente se declama e se canta. A Companhia Dramática Empresa Mayor & Cia levou para Nova Friburgo zarzuelas como A Galinha Cega, Lucero del Alba, Torear por lo Fino. Foi ainda sede provisória da Sociedade Musical Euterpe e no século XX, cine-teatro.


Demolido em julho de 1975 com a complacência das autoridades municipais que não atenderam as rogativas da população em preservar aquele espaço público histórico, o Theatro D. Eugênia foi depositário de exatos oitenta anos de entretenimentos culturais. Entre muitos descasos contra o patrimônio histórico impetrados pelos outrora gestores públicos do município, a demolição do Teatro D. Eugênia é um dos que mais pesa na consciência desses administradores.

O JOGO DE MALHA E DE BOCHA



Os italianos começaram a imigrar para Nova Friburgo na década de 80 do século 19, e desde então, tiveram uma participação significativa na cidade, notadamente como construtores, prestadores de serviço e em atividades culturais. Ficando no ostracismo na sociedade friburguense a partir de meados do século 20, pode-se atribuir esse fato a Segunda Guerra Mundial(1939-45), que colocou italianos e alemães em Nova Friburgo em uma verdadeira saia justa, devido ao fascismo e ao nazismo, respectivamente. Através de leituras dos jornais do final do século 19, pode-se afirmar que a presença italiana em Nova Friburgo foi muito mais pungente. Eram uma verdadeira “falange”, como definiu certo jornal, e pode ter sido ofuscada, assim como a colônia portuguesa, pela construção do mito da Suíça Brasileira que privilegiava a imigração suíça. A matéria de hoje é para tratar da sociabilidade de homens simples, originária de uma prática esportiva própria de imigrantes italianos: o jogo de malha e de bocha. Ouvimos Antonio Senna, nascido em 1932, filho de um italiano cujo nome é homônimo ao seu. Carabineiro, natural de Veneza, o pai de Senna veio para o Brasil em 1917, juntamente com outros italianos, fugindo da guerra(1914-18). Em Nova Friburgo foi carroceiro, profissão abraçada pela maioria dos imigrantes italianos sem recursos. Fazia frete levando a carga de farinha de trigo da estação de trem (hoje Polícia Militar) e distribuía entre as padarias da cidade.





Em entrevista, Antonio Senna nos fala de uma forma de sociabilidade introduzida pelos imigrantes italianos em Nova Friburgo: o jogo de malha. Segundo ele, o jogo de malha é um esporte genuinamente friburguense, criado por imigrantes italianos. O primeiro clube de malha surgiu em 1940, por iniciativa Júlio Thurler, Júlio Nideck, e de outros desportistas. Os clubes possuíam sócios proprietários e sócios contribuintes. O jogo de malha era praticado em uma quadra de 32 metros de comprimento, de largura estreita, com dois círculos de 40x40cm nas duas extremidades da quadra. A pista era de chão, levando apenas uma fina camada de areia. A Praça Dermeval já serviu de pista de malha em certa ocasião. Jogava-se em dupla e cada uma ficava nas extremidades da quadra. O objetivo do jogo era acertar um toco de madeira, o “vinte”, de forma que a malha não saísse do círculo. Eram 30 minutos de jogo e fazia-se a contagem dos pontos no decorrer desse tempo. Havia dois juízes que ficavam do lado de fora, no meio da quadra, sentados à mesa e fazendo a marcação dos pontos. A malha, adquirida de Cia. Ferroviária Leopoldina, pesava de 1,200 Kg, aproximadamente, sendo feita de “aço rápido” que batiam, “faziam fundição” e passavam vela para dar mais efeito, adaptando-a. Cada jogador confeccionava sua própria malha. Era um jogo que envolvia muito mais a habilidade do que a força, não obstante o peso da malha.





Na primeira metade do século 20, havia os seguintes clubes de malha em Nova Friburgo: Conselheiro, Friburgo(próximo a Ferragens Haga), Paissandu(no Recanto da Beira Rio, no final da Rua Baronesa), Rendas, Olaria, Ypu, Catarcione, Floriano Peixoto (Perissê) e Amparo. Os clubes apesar de ter nomes dos bairros, não eram bairristas. Uma pessoa de um bairro poderia pertencer a um clube de outro bairro. Cada clube tinha um time com seis duplas. Os campeonatos eram extensos, durando oito meses, e se iniciavam no verão. As competições ocorriam em todas as quadras dos clubes de malha, realizadas nos fins de semana onde havia muita torcida. O campeonato envolvia ainda times de outros municípios, a exemplo de Cordeiro. Foram grandes nomes entre os jogadores de malha: Orestes, Mussi, Senna, Renne, Pecci, Machado, etc. Havia em Nova Friburgo além do jogo de malha a prática do jogo de bocha, ou melhor, “cancha de bocha”, segundo César Lívio, igualmente descendente de imigrantes italianos. Bocha é um esporte jogado entre duas pessoas ou duas equipes, sendo quatro bochas (bolas) para cada equipe, ou seja, duas para cada jogador. O esporte consiste em lançar bochas e situá-las o mais perto possível de um bolim (bola pequena), previamente lançado. O adversário por sua vez, tentará situar as suas bolas mais perto ainda do bolim, ou remover as bolas dos seus oponentes. Aparentemente complexo, quando nos ocupamos em descrever as suas regras por escrito, na realidade, é um jogo simples. Atribuiu-se o seu surgimento ao tempo do Império Romano e foi trazido pelos italianos para a América.
Mas essas práticas desportivas desapareceram em Nova Friburgo. Na década de 90 do século 20, o jogo de malha e bocha já não eram praticados em Nova Friburgo. E por que acabou? Foram perdendo o interesse, declara Antonio Senna. Mas buscar explicações sobre o desaparecimento dessas práticas mereceria uma outra matéria. O importante é registrar aqui a influência dos imigrantes italianos na sociabilidade do friburguense. Igualmente podemos atribuir ao “bolão” como uma prática desportiva introduzida pelos imigrantes alemães em Nova Friburgo. O cotidiano não é algo meramente residual, e é através de sua análise que podemos encontrar elementos que edificam construções históricas. No caso em epígrafe, a influência dos imigrantes italianos na sociabilidade de homens simples em Nova Friburgo.


O PÉ DE BICHO NO MUNDO DO FAZ DE CONTA:AS MEMÓRIAS DE LEÔNIDAS DA VILAGE DO SAMBA

Normalmente se reconhece um apaixonado por sua escola de samba quando se chega, sem marcar hora, para fazer uma entrevista, como foi o meu caso, e encontra o sujeito com a camisa do “Grêmio Recreativo da Vilage”, a verde e branca. Foi assim que encontrei, com a camisa de sua escola, recostado na janela, Luiz Leônidas do Nascimento. Nascido em 1932, morou a vida inteira na Vilage. No passado, recorda-se que próximo à sua casa ficava a chácara do Manoel Rodrigues onde havia plantação de uvas e fabricação de vinho branco. A molecada ajudava na colheita da uva, que dava direito a generosos copos do vinho do Patatinha, como era conhecido o português Manoel. Leônidas tornou-se uma liderança na Vilage, numa época em que havia rixa entre os bairros da cidade. Havia a turma do Centro, da Vila Amélia, do Paissandu e “o pessoal da General Osório era um perigo”, diz Leônidas. Segundo ele, “rolava o sopapo” quando um membro de um bairro entrava no “território” do outro. Mas a turma da Vilage era considerada a melhor de briga. Leônidas transgrediu duas vezes essa fronteira dos bairros: A primeira, quando se apaixonou por Tereza, que morava nas Braunes, casando-se com ela e levando-a para a Vilage. A segunda, foi quando ele juntamente com Estrangeiro, Eliude, Tião e Nelson resolveram participar da “Alunos do Samba”, escola pertencente ao centro da cidade (hoje a escola pertence a Conselheiro Paulino). Ensaiavam na Rua Monsenhor Miranda, freqüentada pelos “filhos do Sr. Doutor”, relata Leônidas. Chegando lá foram expulsos, pois eram considerados “pé de bicho”, ou seja, andavam descalços. Leônidas e seus amigos não tinham dinheiro para comprar sapatos: “Éramos pé de bicho porque dava bicho[de pé] mesmo, não tinha jeito, de vez em quando tinha que tirar um bichinho do pé...”, recorda-se Leônidas.


Inconformados com a expulsão, fundaram a própria escola e foi nesse momento que surgiu o “Grêmio Recreativo Vilage do Samba”, fundado em 23 de setembro de 1948. Para tanto, foram na fábrica de Carbureto(onde hoje é a Frivel) e roubaram latões de carbureto para fazer os surdos. Cortando os latões ao meio fizeram o tarol. O couro de cabrito e de novilho, ideal para os instrumentos, era doado pelo alemão Edmundo Weidlich, do Curtume de Duas Pedras. Confeccionaram os tamborins, os triângulos e somente o agogô foi comprado. O símbolo da águia foi Leônidas quem escolheu, pois gostou da imagem que um amigo trouxe dos Estados Unidos e a cor verde e branca, também partiu dele. Foram campeões no primeiro ano que a Vilage do Samba desfilou, em 1949. Perderam em 1950, mas ganharam em 1951, 1952 e 1953. E a Vilage do Samba desde então sempre se destacou no carnaval da cidade. Vocês marcaram território quando fundaram a Vilage, pergunto? “Não, na Vilage do Samba qualquer um poderia participar”, responde Leônidas. Não fizeram com os outros o que “Alunos do Samba” fez com ele e o seu grupo, excluindo-os. Além dos “Alunos do Samba” havia outras escolas como a “Saudade”, criada seis meses antes da Vilage, e a “Chacrinha”, ambas do Bairro Ypu. Havia ainda a “Unidos do Terreirão”, de Olaria. O Clube de Futebol Esperança era o único clube esportivo que tinha escola de samba, denominada “Unidos Verdejante”.


Com o passar dos anos a estrutura das escolas de samba não alterou muito, afirma Leônidas. Mas no passado, havia a ala das “Pastorinhas”, ala das moças bonitas, com vestidos longos. A escola tinha pouco mais de cem componentes. Nessa época não havia samba-enredo feito pelas escolas. “Não tinha esse negócio da escola fazer o seu samba”, relata Leônidas. Escolhia-se um samba conhecido e se desfilava cantando esse samba. O compositor da escola de samba surgiu apenas em 1955. Eram bons tempos para o carnaval da cidade. As fábricas disputavam quem auxiliava mais as escolas de samba assinando o “Livro de Ouro”. As fábricas “assinavam” mais que o comércio. O governo federal também auxiliava com dinheiro, através da prefeitura, para as escolas de samba. O folião não pagava pela fantasia. Comprava-se as fantasias com o que se arrecadava no “Livro de Ouro”.

Em novembro se começava os preparativos para o desfile das escolas. Hoje é feito com mais antecedência, em julho. Uma diferença do carnaval antigo eram os passistas, que sambavam mesmo. Tinham que dançar conforme o ritmo da música. Leônidas se ressente que hoje em dia o folião somente pula e não se preocupa em dançar com o ritmo do samba. Fazem coreografia apenas. Tereza, sua esposa, interfere e diz que havia preconceito no passado quanto às passistas: “escola de samba não era para filha de família, era para moça que não prestava”. A casa de Leônidas e Tereza transpira hospitalidade. Quando conversei com ambos parece que já os conhecia há muitos anos. Tereza disse orgulhosa que na véspera, quem tomou café em sua casa foi Rogério Faria, dono da STAM. Rogério, como seu pai Francisco Faria, é um mecenas da Vilage do Samba. A diretoria da escola fizera uma homenagem a Leônidas tocando em frente à sua casa. Leônidas sorriu quando pedi para ouvir o samba, pois a maneira com que se refere à sua escola é contagiante. Ouvi o samba e ele me presenteou com o CD autografado. Quando escrevi a matéria revi o enredo da Vilage do Samba que fala dos “Filhos Do Faz De Conta”. Lembrei-me da trajetória de Leônidas. O “pé de bicho”, como foi chamado, entrou no mundo do faz de conta, criou uma escola de samba com bateria de latões de carbureto e hoje, recostado em sua janela, pode tranquilamente dizer da escola que criou: “Hoje o sonho é real/ ganhei a vida, virei carnaval/ boneca sapeca a sambar/ na vila que me faz cantar.”

Crédito: Fotos extraídas do Blog "Vilage do Samba".

Em virtude da catástrofe natural ocorrida em Nova Friburgo
na madrugada do dia 12 de fevereiro de 2011, não houve carnaval no município em
respeito às vítimas do sinistro.

DECÁLOGO DE RESPEITO À NATUREZA

Acima: O Prof. Menezes Wanderley




Antonio Francisco de Menezes Wanderley foi o maior intelectual do final do século 19 e início do 20 em Nova Friburgo. Natural do Estado da Paraíba do Norte, residiu na capital federal onde trabalhou em diversos jornais. Do Rio de Janeiro veio para Nova Friburgo contratado para dirigir o periódico O Friburguense. Foi então convidado para ser professor do Lyceo Nacional, do Instituto Sul-Brazil e do Externato América. Abriu uma escola noturna gratuita na cidade para alfabetizar aqueles que labutavam durante o dia. Além de colaborar com diversos periódicos da cidade, como os jornais O Friburguense e A Paz, fundou o Correio Popular, O Rebate, a Escola e dirigiu o Democrata. Muito jovem ainda, com 25 anos de idade, tinha um vasto currículo acadêmico, sendo considerado um excelente orador e latinista, autor de peças teatrais, poeta, literato, tendo lançado os livros “Hosannas” e “Flores Agrestes”, um prodígio à época já que a produção de um livro era muito cara.
Esse ilustre professor era maçom e devido a sua bagagem intelectual, em 1933, recebeu do então prefeito da cidade uma incumbência: elaborar um decálogo, conjunto de dez princípios morais, para educar as crianças friburguenses na sua relação com a natureza. Pelo teor do decálogo, as belas e floridas praças da cidade que povoavam as narrativas e crônicas dos que visitavam o bucólico centro de Nova Friburgo, viviam depredadas por ações de vandalismo, principalmente por parte das crianças. Esse decálogo foi impresso em um livreto e distribuído em todas as escolas municipais de Nova Friburgo.
Vejamos as normas que o Prof. Menezes Wanderley elaborou dando o interessante título de “Voz da Natureza”: “CRIANÇA! OUVE O QUE TE DIGO: SER DE BONS COSTUMES É SER UM MENINO BEM CRIADO E EDUCADO PARA UTILIDADE DA VIDA, DA PÁTRIA E DA FAMÍLIA! 1°: Não derrubes as árvores, não as maltrate, não as desfolhe, seja qual for o lugar em que as encontre; 2°: Não depredes os jardins públicos. São lugares próprios para descanso e recreio dos habitantes do lugar, cujo número tu estás; 3°: não pises no gramado de seus canteiros. É um tapete verde-esmeralda, o qual alegra os olhos em harmonia com o azulado das montanhas e com o anil do céu; 4°: Não arranques as flores que adornam os canteiros. Elas seduzem os olhares dos passeantes e perfumam o ambiente. São como estrelas na terra; 5°: Não tires mudas, pelo fato de achares lindas as flores ou raras as suas qualidades; 6°: Não firas os troncos das árvores, abrindo neles nomes, teu ou de pessoas de tua amizade, só pelo gosto de vê-los aí estampados, quando passares por lá, talvez, um dia na vida; 7°: Não consintas que meninos desocupados e de maus instintos procurem maltratar as plantas que tanto bem fazem abrigando os cansados, atraindo as aves que cantam e as borboletas multicores que adejam; 8°: Não te esqueças que o governo, para ali as colocar, gastou muito dinheiro com o fim de preparar aquele logradouro público e ainda despende anualmente grande soma com a sua conservação. Esse dinheiro é fornecido pelo suor do povo. 9°: Não olvides esses conselhos, que são do maior proveito para a formação do teu caráter, eles dão mostra fiel da tua educação atual, e garantem que hás de ser um homem de bem no futuro. 10°: Não queiras ser um menino que mereça a censura dos homens de bem, mas um amiguinho de tudo o que é bom, merecedor dos aplausos dos homens sensatos e digno das lições que hás recebido na escola.”

Esse decálogo não teria muita razão de ser atualmente. Não que o seu teor esteja ultrapassado, ao contrário. No entanto, perdeu o seu sentido, pois há muito tempo não vemos uma natureza pujante na Praça Getúlio Vargas e nas demais praças da cidade, considerado outrora como o município dos cravos vermelhos e das camélias brancas. É difícil compreender o abandono da praça principal da cidade, que tanto encantava os visitantes do século passado, por sucessivos governos municipais. Foi uma progressiva gestão de administradores que desprezaram o maior e mais simbólico espaço de sociabilidade de uma cidade: as praças públicas. Como no início do século 19 se acreditava que as doenças vinham do ar, pois se desconhecia a existência de microorganismos, só descoberto em 1862, preconizava-se o plantio de árvores e boulevards nas vilas e cidades para higienizar o ar “corrompido” pelos miasmas. Logo, as praças públicas tinham muito mais uma função de atender a uma política pública higienista do que ser um espaço de sociabilidade. Posteriormente essa segunda função superou a primeira.
Porém, atualmente, com a poluição do ar nas cidades, as praças voltam a ter essa função “higiênica” e não somente ser um espaço de recreio da população. A Praça Getúlio Vargas, cujos eucaliptos abrigaram sob suas sombras sucessivas gerações de friburguenses, ainda constitui um espaço de sociabilidade aos mais renitentes, que insistem em sentar-se em seus bancos ruídos, vislumbrar o mato em sua volta e arriscar-se a mordida de roedores. O coreto, com o seu aspecto fúnebre, simboliza o descaso dos prefeitos que justificam a sua inércia sob o manto de que aquele pardieiro é tombado pelo patrimônio histórico. Vamos ver se com as campanhas pela renovação de Nova Friburgo essa praça, e igualmente as demais da cidade, voltem a ser o cartão postal como foi no passado.

NO SUSPIRO TRÊS ALMAS GEMEM DE DOR: AMOR, SAUDADE E CIÚME

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A Fonte do Suspiro era a principal fonte da vila de Nova Friburgo desde a sua fundação em 1820, onde os habitantes abasteciam de água as suas residências. Com o passar do tempo, a fonte provocou a urbanização local surgindo a Praça do Suspiro e a igrejinha de Santo Antônio. O mais interessante é que as águas de suas fontes acabaram cercadas de lendas criadas pela população de Nova Friburgo. Na Fonte do Suspiro foram canalizadas três bicas: do Amor, da Saudade e do Ciúme. Jorrava água fresca e cristalina, cantando andeixas sentidas e amarguradas. Daí o hino de Nova Friburgo que lhe tece louvores: “...Do suspiro na fonte saudosa/ Há três almas que gemem de dor/Repetindo esta prece maviosa/Da saudade, do ciúme e do amor...”. A Fonte do Suspiro era considerada desde tempos antigos, até mais da metade do século 20 como uma das “maravilhas” de Friburgo, o recanto mais formoso da cidade, “onde cada friburguense tem uma parte de sua alma e um pedacinho do seu coração”. Não havia quem tendo amado não tenha procurado aquele recanto florido e bucólico, lugar onde a natureza concentrara sua magia, revestindo-se de galas e pomas. Dizia a lenda que quem beber da “Fonte Encantada do Suspiro” a ela se prenderá por toda a vida! Acreditava-se que o viajante que bebia um pouco de sua água pura, que jorrava cantante das três fontes, certamente voltaria a Friburgo, porque a saudade lhe encheria o coração. Era uma fonte impregnada de feitiço e lendas. Para os que viveram grandes paixões em seus jardins, o suspiro representava o tabernáculo de sonhos do passado. Era uma referência para os que já amaram e para os que ainda amavam. Não há álbum de fotos de mocinhas e touristes do século 19 que não tivesse como locação a Fonte do Suspiro.

Um vereador queixou-se certa feita dos namoros fogosos na Praça do Suspiro, onde se praticava ali “atos que devem ser vedados”. O jornal O Friburguense do final do século 19, nos legou uma deliciosa crônica que traduz um pouco do cotidiano dessa praça. Numa quinta-feira, quando as horas do labor diurno cediam o passo às de descanso, um voyeur, discreto no andar, de paletó-saco, pincenê e guarda-chuva à mão, observando um casal de namorados na Praça do Suspiro, assim escreveu: “...Ali, sentados em um dos bancos, ele, o Romeu de jaqueta de brim e sem escada de seda enlaçou aquela Julieta (…) e ei-los n’um doce colóquio, n’um devaneio amoroso que a brisa suave da tarde acalentava. Discreto caçador que por lá passava, quedou-se, protegido pelo largo tronco de uma árvore, a contemplar o arrulho dos dois pombinhos, que começavam a cantar os seus idílios antes que as sombras da noite caíssem sobre aquele sítio tão propício a tais situações. O quadro vivo era digno de ser visto, enquanto que a fonte cantava sonoramente ao lançar os seus jactos de cristal sobre a bacia de granito, eles, embalados pela cadencia de uma melodia que os seus instintos entoavam, falavam as coisas ternas, de cousas sensíveis e osculavam-se[beijavam-se] impudicamente. Depois ergueram-se, olharam-se naturalmente e tomaram ansiosos o caminho do bosque. O caçador, única testemunha desta cena erótica, farto de presidi-la qual cupido desvendado, seguiu sua trilha; o bosque, que não fala, que guarda tantos segredos, recolheu as últimas horas dessa canção de amor. E o Suspiro, o poético Suspiro, o passeio predileto dos touristes, o logradouro publico onde de preferência as famílias fazem os seus passeios, nem ao menos respeitado durante o dia.” (O Friburguense, “Quadro Vivo”, de 28-6-1896.)

Mas o Suspiro era também um lugar para os que vinham buscar na mansuetude bucólica de Nova Friburgo e na salubridade do bom clima, o reconforto para o espírito e o retempero para sua saúde, encontrando ali o encantamento doce e a estesia miraculosa que erguem o ser abatido. No imaginário da população, além do romantismo que ela evocava, era também notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Faziam lenir as dores dos que sofriam e dizia-se que até mesmo “ressuscitava os quase-mortos”. No século 19, a Praça do Suspiro era o mais importante espaço de sociabilidade. O único passeio público das famílias friburguenses para ali “recrear-se” aos domingos. O Clube Atlético Bargossi solicitou em 1886 à Câmara Municipal permissão para colocar “postes da raia” na Praça do Suspiro para que o clube realizasse corridas de cavalo aos domingos e dias santificados. A batalha das flores, por ocasião do carnaval, era igualmente realizada nessa praça por onde desfilava o préstito de carruagens floridas. Por abrigar a igrejinha de Santo Antônio, as festas do orago eram realizadas em sua praça, para onde acorria toda a população.

Passando ao século 20, José Mastrângelo nos informa que as águas da Fonte do Suspiro eram ferruginosas, auxiliando a “soltar o intestino”. Quando a torcida adversária comparecia ao Campo do Fluminense(atual Friburguense), que era localizado onde hoje é o Teatro Municipal, a gaiata galera de Friburgo oferecia a “famigerada água” da Fonte do Suspiro aos torcedores, provocando-lhes diarréia e terríveis flatulências. Se utilizarmos a fonte iconográfica podemos observar que foi a praça que mais sofreu intervenções dos poderes públicos em Nova Friburgo, diferençando-se imensamente a sua paisagem ao longo dos anos. Nunca imaginaríamos que a pracinha do Suspiro entraria na história simbolizando a catástrofe da enchente e desmoronamentos dos morros ocorridos em Nova Friburgo na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011. O futuro da Fonte do Suspiro ainda não sabemos. Considerando que o hino de Nova Friburgo se refere a essa fonte, as três almas que gemem de dor, Amor, Saudade e Ciúmes, fica o registro da história da Fonte do Suspiro para as futuras gerações.

A História dos Cinemas em Nova Friburgo

Cinema Eldorado: Acima uma encenação teatral e abaixo a sua fachada principal na Praça Dermeval Barbosa Moreira



Acima: Interior do Cinema Leal


O século 19 foi um período profícuo para os avanços tecnológicos. Cada vez mais surgiam invenções que impactavam a sociedade oitocentista: Surgiram a fotografia (1839), o fonógrafo (1877) e o aparelho cinematográfico (1895). Nova Friburgo conheceu no fin de siècle 19, o animatógrafo: o cinema de hoje. Segundo a notícia intitulada “O Animatographo”, publicada em A Sentinella de 10 de abril de 1898, o aparelho de projeção consistia em uma bem combinada união da fotografia instantânea, dos efeitos de luz e da passagem dos quadros, que se sucedia com a mesma rapidez dos movimentos naturais, de modo a reproduzir cenas animadas com uma velocidade surpreendente. Inicialmente o aparelho de projeção foi instalado no Cassino Friburguense, pela primeira vez visto na cidade, constituindo “uma novidade do mais vivo atrativo e uma das maravilhas destes tempos de progresso”, dizia um jornal da época. Posteriormente, passou a haver sessões todas as noites, das 18 às 21 horas, no Animatógrafo Joly, localizado na Rua Gal. Argolo, atual Alberto Braune. Entre os filmes vistos pelos friburguenses no século 19 destacavam-se: A Tentação de Santo Antônio, Os Negros de Dackar ao Redor do Vapor, A Briga do Baleeiro com o Passageiro, A Entrada do Czar da Rússia em Paris.

Já no século 20, o português Francisco Leal, da empresa Leal & Cia, inaugura um cinema no final da Praça XV de Novembro, atual Getúlio Vargas, onde hoje se encontra impropriamente a rodoviária urbana. Essa sala de projeção é inaugurada em 1912 com o nome de Cinema Leal. Como quase todo lusitano influenciado pelos mouros, o Cinema Leal era um prédio de madeira em estilo mourisco.

Estilo mourisco do Cinema Leal, no final da Praça Getúlio Vargas.
Esse cinema foi posteriormente transferido para o Teatro D. Eugênia, passando a denominar-se Cine Teatro Leal. Muitos cinemas surgiram nessa mesma década: Cinema São João, Cinema Éden, Ideal Cinema, Cine Nacional, Cinema Odeon, sendo que esse último, de propriedade de José El-Jaick e outro sócio, que funcionava na esquina da Rua Farinha Filho, sofreu um incêndio em março de 1915, destruindo todas as suas instalações. No local inaugurou-se o Cine São José, em 1917.

Cinema Glória


Já na década de trinta surgem o Cinema Popular(1929) e o Cinema Império(1931). O Teatro Dona Eugênia, a partir de 1930, passou a chamar-se Cine-Teatro Leal. O D. Eugênia passa a ter essa denominação de “cine-teatro” porque, no decorrer da década de 1920, o “teatro de revista” começou a ser adaptado para divertir as platéias dos cinemas nos intervalos da projeção dos filmes. É sempre bom esclarecer que outrora a projeção era interrompida para se trocar o “rolo” do filme. Foi a era dos cines-teatro e a simbiose entre o cinema e o teatro aumentava ainda mais a platéia. O Cine-Teatro Leal tinha sessões todos os dias, sempre às 19:00 horas. Nas quartas-feiras tinha a sessão chic, que ganhou essa denominação porque se cobrava somente meia entrada do “belo sexo” e conseqüentemente iam muitas mulheres. No domingo tinha sessões às 13:00, farwest, uma espécie de matinée, para o público infantil. A seguir sessões às 15:30 e às 19:00 horas.


Cinema Odeon


No final da década de 1920, o Cinema Glória, localizado na Praça Dermeval Barbosa Moreira, sofreu igualmente um incêndio. Entretanto, em 24 de julho de 1940, surge no local do outrora Cinema Glória, o Cine Eldorado, e a primeira película exibida foi a “Opereta Balalaika”. O Cine Eldorado se transforma no meeting da alta sociedade friburguense e a sessão chic passa a ser a das 20:00 horas devido a freqüência da high society. De acordo com Leyla Lopes de Mello na crônica “Uma data, muitas recordações”, as mulheres trajavam elegantes tailleurs, vestidos de veludo realçados por colares de pérola e casacos de pele devido ao rígido inverno de Nova Friburgo. Já os homens trajavam impecáveis ternos de casimira inglesa, colete, gravata e chapéus das marcas Mangueira, Prado e Tamenzoni. A propósito, era proibida a entrada de homens sem paletó nos cinemas. Enquanto aguardavam a exibição do filme ouvia-se Glen Miller e outros clássicos. Já as sessões de 15:30, das tardes de domingo, era o rendez vous da juventude friburguense. Quem não chegasse com uma hora de antecedência, não encontrava mais lugar. Dentro do cinema os rapazes faziam footing, ou seja, caminhavam pelas aléias em torno das fileiras de poltronas, provocando frisson e o pulsar descompassado no coração das mocinhas. Muito mais importante do que a fita que se exibia, era a oportunidade de um namoro furtivo quando se apagavam as luzes. De acordo com Leyla “quantos encontros e desencontros, quantos inícios e fins de romances, quantas alegrias e quantas mágoas, ao ver a pessoa amada ao lado da outra”.


Na década de 50 surge o Cine Marabá(1950) na Rua Leuenroth, edificado onde era o afamado Hotel Leuenroth, que hospedava o Imperador D. Pedro II. Já nessa década os cinemas se expandem para os bairros da cidade: surgem em Olaria o Cine São Clemente(1950), no Cônego o Cine Sant’Anna(1955), em Amparo o Cine Theatro Almeida. Finalmente, na década de sessenta, surgem o Cine São José(1963) e o Cine São Luiz(1967), sendo o Cine São José o último cinema do município, fechando suas portas no ano de 1994.



Nova Friburgo ficou sem a sétima arte durante muitos anos até que surgisse um shopping na cidade com salas de cinema. Nesse ínterim, o Country Clube chegou a oferecer exibições de filmes em seu teatro, mas não chegou a atingir o grande público, até porque as pessoas achavam que somente os sócios poderiam freqüentar esse espaço. Mas a crise dos cinemas foi estrutural. No Brasil inteiro fecharam-se os tradicionais cinemas e muitos se transformaram em igrejas evangélicas. Esse fato indignou a população de tal maneira, que surgiu uma lei proibindo que esses estabelecimentos se prestassem a tal finalidade. Mas o cinema nunca deixou de ser um importante espaço de sociabilidade, mudando-se apenas o seu formato. Atualmente são pequenas salas de cinema e os recursos áudios-visuais, com alta tecnologia, faz com que continuem a ser um local de atração para as novas e antigas gerações. Concluindo, pode-se atribuir o auge do cinema em Nova Friburgo, na década de 40 do século 20, com o Cine Eldorado, que funcionou durante 36 anos, fechando suas portas em 31 de maio de 1976. Foi uma época em que assistir a um filme no cinema era, simplesmente, algo secundário. O cinema era um local para ver e ser visto.


Teatro D. Eugênia. Hoje no local, ed. Gustavo Lira, na Rua Augusto Spinellli.

DUAS PEDRAS: A história de um bairro

A cor mais clara na montanha são os deslizamentos ocorridos no dia 12 de janeiro de 2011.













O deslizamento de pedras que destruiu parcialmente o Hospital São Lucas.








Um helicóptero sobrevoa a zona acidentada.


Um exemplo de residência de classe média alta ameaçada pelo desmoronamento.




Festa em homenagem a São Pedro e São Paulo, oragos do bairro. A sociabilidade de pequenas comunidades ocorre sempre em razão de festas religiosas.













Acima: A igreja de São Pedro e São Paulo depois do desmoronamento de 12 de janeiro de 2011.


O bairro de Duas Pedras foi o mais afetado do perímetro urbano de Nova Friburgo, na catástrofe do dia 12 de janeiro de 2011. Tem esse nome devido às duas montanhas que se avistam do bairro. A denominação de “duas pedras”, ao invés talvez de dois morros ou duas montanhas, é significativa. Conforme se depreende das fotos, elas possuem uma formação rochosa com pouca vegetação. Foi em decorrência disso que a localidade, onde se assentou Nova Friburgo, tinha o nome de “Morro “Queimado”, devido a cor tisnada, acinzentada, de suas montanhas, com pouca vegetação.

Ao final do século 19, a Chácara de Duas Pedras, por onde passava a linha do trem, fora indubitavelmente destinada a ser a cloaca de Nova Friburgo. Era lá onde se depositava o lixo da cidade e havia um projeto para se transferir o cemitério para aqueles arrabaldes. Foi também para lá que se deslocou o matadouro quando removido da Praça Primeiro de Março, no centro da então vila. O matadouro era visto como uma atividade econômica insalubre. Consequentemente ali abrigou um curtume, hoje já desativado. A Chácara de Duas Pedras, de fato, foi escolhida para abrigar tudo que fosse indesejado no município. Nesse local, também se edificou o lazareto, para o recolhimento e isolamento de pessoas com doenças infecto-contagiosas. O lazareto, assim como o Sanatório Naval, se localizavam na parte mais alta da cidade, como era natural, àquela época, a localização de hospitais.


Atualmente Duas Pedras transformou-se em uma zona industrial da cidade. No entanto, entre suas encostas, abriga residências da classe média alta da cidade, hoje comprometidas estruturalmente devido aos desmoronamentos dos morros. Já na parte mais urbana no bairro, residem pessoas de classe média baixa. Nesse núcleo está localizada a igreja de São Pedro e São Paulo, o orago do bairro, muito afetada pelos desmoronamentos ocorridos na tragédia do dia 12 de janeiro.



Fotos antigas: Crédito das fotos antigas Centro de Documentação D. João VI e de Osmar Castro.

NOVA FRIBURGO: a História, a Enchente e a Redenção. NOSSO 11 DE SETEMBRO!!!!

Praça do Suspiro. 1930.

Praça do Suspiro. 1905.

Praça do Suspiro, 1930.

Praça do Suspiro. 1920.

Praça do Suspiro. 1990.

Praça do Suspiro. As fotos podem parecer ser de lugares distintos, mas foi a praça que mais sofreu intervenção do poder público, alterando-lhe a paisagem.



A História:
Dois alemães, Leithold e Rango, por ocasião da instalação da colônia dos suíços
em Nova Friburgo, no início do século 19, escreveram: “Só poderá ser um
desastre!”

Quando foi expedido o decreto de 6 de maio de 1818 destinando a Fazenda do Morro Queimado para o assentamento de colonos suíços, era seu proprietário Monsenhor Antonio José da Cunha e Almeida, titular de Mesa de Consciência e Ordens, do Desembargo do Paço e Chanceler das três Ordens Militares. Um tipo de altos coturnos. Monsenhor Almeida havia comprado a Fazenda do Morro Queimado de Lourenço Correa Dias pela modesta quantia de 500$000 e vendeu a propriedade ao governo por 11.932$000, isso sem haver nada que justificasse a valorização do imóvel. A transação foi intermediada pelo Inspetor da Colonização, o eclesiástico Monsenhor Miranda. Não obstante haver terras férteis e devolutas nas proximidades da Corte, o perdulário Monsenhor Miranda escolheu as terras inferiores da Fazenda do Morro Queimado do confrade da Mesa de Consciência e Ordens.


A Fazenda do Morro Queimado tinha esse nome devido a cor tisnada, acinzentada de suas montanhas. Essa antiga fazenda, composta de quatro sesmarias, hoje é Nova Friburgo. A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820 para abrigar uma colônia de suíços, a primeira do Brasil. Era um pitoresco vale, entre cinco grandiosas montanhas. O núcleo urbano foi formado próximo ao Rio São João das Bengalas. As enchentes, desde então, sempre fizeram parte do cotidiano da cidade. Para compreender melhor, ler a matéria “As Enchentes do Velho São João Das Bengalas: Um Déjà Vu na história de Friburgo”, nesse blog.


No entanto, as terras do “Núcleo dos Colonos” não eram úberes o suficiente para a agricultura, sendo localizadas em lugares montanhosos ou repletas de brejos. As datas de terras distribuídas aos colonos suíços foram abandonadas por boa parte deles. Em 1824, colonos alemães foram encaminhados para a vila de Nova Friburgo. As terras sáfaras abandonadas pelos suíços foram as mesmas distribuídas aos colonos alemães. Por conseguinte, metade dos alemães se deslocaram para outras regiões, em busca de terras mais férteis, a exemplo de Cantagalo.


Ao final do século 19, Nova Friburgo recebeu significativa imigração de italianos, onde algumas famílias, a exemplo dos Spinelli, se transformaram na maior fortuna do município. Imigraram ainda para Nova Friburgo, portugueses, e em menor proporção, espanhóis, alemães, libaneses e japoneses. A Praça das Colônias, que possuía o panteão representando todas essas imigrações, inclusive a africana, foi destruída. Cumpre destacar que a partir de 1910, empresários alemães estabeleceram indústrias de grande porte na cidade, alterando significativamente a estrutura social e econômica do município. Pode-se afirmar que Nova Friburgo passou a ser uma cidade industrial. Com a diminuição da atividade dessas grandes indústrias, a partir da década de oitenta do século 20, a economia de Nova Friburgo passou a girar em torno de pequenas e médias empresas metalúrgicas e de um grande pólo de moda íntima, essas últimas estabelecidas por antigos funcionários das indústrias têxteis.

A Tragédia:
Com a tragédia da enchente e deslizamentos dos morros, que é notória, ocorrida na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, dois monumentos históricos se perderam nessa enchente: a Igreja de Santo Antônio e a Fonte do Suspiro. Era na praça em frente a igreja que se realizavam as festas de Santo Antônio, a mais tradicional da cidade. Superava a do orago da cidade, São João Batista. A igreja se localiza na Praça do Suspiro e remonta ao século 19.

A Praça do Suspiro foi completamente destruída pela enchente do rio São João das Bengalas e da queda de barreira. Era o mais importante espaço de sociabilidade de Nova Friburgo no século 19. A praça foi construída no entorno da Fonte do Suspiro, fonte essa que abastecia de água toda a vila, onde os escravos buscavam água para abastecer as residências.

A Fonte do Suspiro era considerada desde tempos antigos, até mais da metade do século 20, uma das “maravilhas” de Friburgo. Jorrava água fresca e cristalina, cantando andeixas sentidas e amarguradas. Não havia quem tendo amado, não tenha procurado aquele recanto florido e bucólico, lugar onde a natureza concentrara sua magia, revestindo-se de galas e pomas. Era o recanto mais formoso da cidade, “onde cada friburguense tem uma parte de sua alma e um pedacinho do seu coração”, de acordo com relatos.

A Fonte do Suspiro possuía três bicas: a do AMOR, da SAUDADE e do CIÚME. Asseguravam os antigos habitantes de Friburgo que a água dessas fontes era misteriosa e atraente, e quem a bebesse, ficava condenado a sofrer no coração os desastrados efeitos do amor, do ciúme e da saudade, formando esses três sentimentos um grosso e inquebrantável elo. Acreditava-se que o viajante que bebia um pouco de sua água pura, que jorrava cantante das três fontes, certamente voltaria a Friburgo, porque a saudade lhe encheria o coração. Era uma fonte impregnada de feitiços e lendas. Para os que viveram grandes paixões nos seus jardins, a Fonte do Suspiro representava o tabernáculo de sonhos do passado. Já para os que vinham buscar a mansuetude bucólica de Nova Friburgo, a salubridade do bom clima, a Fonte do Suspiro promovia um reconforto ao espírito e um retempero para sua saúde, encontrando ali ainda o encantamento doce e a estesia miraculosa que erguem o ser abatido. No imaginário da população, além do romantismo que ela evocava, era também notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Fazia lenir as dores dos que sofriam e dizia-se até mesmo que “ressuscitava os quase-mortos”.

Abaixo, uma sequência de fotos da Fonte do Suspiro.


A Redenção:
Na realidade, parte do desenvolvimento de Nova Friburgo se deu devido ao seu clima salubre, com característica muito próxima a de países europeus. Pode-se afirmar que a partir de 1830, Nova Friburgo encontra a sua verdadeira vocação, vingando como uma aprazível estação de verão, já que a agricultura era economicamente pífia por conta das terras sáfaras. Foi desde então, refúgio dos cariocas que fugiam do calor do Rio de Janeiro e dos que procuravam a saúde do corpo, como a cura da tuberculose, quando se acreditava que o clima era um fator determinante na cura da doença. Por isso, o Sanatório Naval se estabeleceu no município. A partir da segunda metade do século 19, quando começam a grassar as epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro, Nova Friburgo ganha mais visibilidade atraindo uma chusma de cariocas em todo o verão, ponto alto das epidemias.


Passada toda essa tragédia, nós, friburguenses, estamos aguardando os cariocas e fluminenses de Niterói, que sempre procuraram o refúgio de Nova Friburgo, desde os tempos de antanho, para fugir do forte calor do verão e igualmente das epidemias e doenças. Não possuímos o rico patrimônio histórico de Petrópolis, mas temos a oferecer A NATUREZA, já que preservamos setenta por cento da mata atlântica. O espaço urbano de Nova Friburgo se restringe a 30% de seu território.


Dizia a lenda que quem beber da Fonte do Suspiro a ela se prenderá por toda a vida! Mesmo sem poder beber mais a água da fonte encantada, destruída pelo deslizamento das encostas, garantimos aos cariocas e fluminenses que visitarem a bucólica Nova Friburgo que certamente retornarão, porque a saudade lhe encherá o coração!

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