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A Hidroterapia: A cura pela água

Abaixo, imagens do antigo Estabelecimento de Hidroterapia e do Hotel Central. Atualmente, Colégio N. S. das Dores.










Vincenzi Priessnitzovi(1799-1851)



Abaixo: fotos da estação de águas de Caxambu - MG


















Abaixo, estação das águas de São Lourenço - MG




A hidroterapia, terapêutica pela água fria, já era conhecida e empregada nos séculos passados. Deve-se a Eduard Hallmann (1813-1855), de Hanover, Alemanha, o estudo científico da hidroterapia. No entanto, como método baseado em princípios racionais e científicos foi adotada pela primeira vez no século XIX, na Europa, por Vincenzi Priessnitzovi(1799-1851). Priessnitzovi nasceu em Gräfenberg, que atualmente faz parte da República Checa. Em 1827, fundou um estabelecimento hospitalar destinado ao tratamento de doenças crônicas onde a água fria era a única terapêutica adotada. Priessnitzovi encontrou adeptos em várias partes do mundo e o método terapêutico da hidroterapia ficou conhecido e praticado em toda a Europa e fora dela. No livro Meine Wasserkur “Meu Tratamento pela Água”, publicado em 1887, pelo clérigo Sebastian Kneipp, o sacerdote alemão ensinou que a água fornecia à força vital humana elementos de combate a diversas enfermidades, tais como bronquites, reumatismo, neurastenia, etc. A terapêutica hídrica encontrou adeptos principalmente entre os pacientes das classes abastadas. No Brasil, um dos primeiros e principais prosélitos foi o dr. Antônio Ildefonso Gomes(1794-1859), cirurgião, estudioso de botânica e tão devotado ao sistema que até ganhou, no Rio de Janeiro, o cognome de “Doutor da água fria”. Publicou em 1848, o seguinte trabalho: “Manual de hidro-sudo-terapia ou diretório para qualquer pessoa em sua casa curar-se de uma grande parte das enfermidades que afligem o corpo humano, não empregando outros meios que suar, água fria, regime e exercício.”


Em Nova Friburgo, podemos atribuir a Gustavo Leuenroth, ex-mercenário alemão, a primeira “Casa de Banhos” em meados do século XIX. Com a hidroterapia preconizada por conceituados médicos nacionais e estrangeiros, possuindo uma base científica, apoiado por políticos e tendo como clientela as classes abastadas, era natural que se expandisse. Em Petrópolis, o francês Antonie Court instalou, em 1877, o Imperial Estabelecimento Hidroterápico, que o Imperador Pedro II frequentava amiúde. Já em Nova Friburgo, foi um italiano, natural de Nápolis, quem trouxe as qualidades terapêuticas da hidroterapia para a então vila. Tratava-se de Carlos Eboli(1832-1885), médico formado em 1856, pela Faculdade de Paris, sócio correspondente da Imperial Academia de Medicina. Eboli edificou, em Nova Friburgo, o que seria considerado o maior estabelecimento de hidroterapia da América Latina: o Estabelecimento Sanitário Hidroterápico.


Em 1872, inaugurou esse estabelecimento em sociedade com o médico Fortunato Correia de Azevedo. Utilizava as denominações de Casa de Saúde, Casa de Duchas, Casa de Banhos e como vimos, Estabelecimento Sanitário Hidroterápico. Não bastasse a ousadia de seu projeto, Eboli nos legou o lindo prédio em estilo neoclássico que é o Colégio N.S. das Dores. Nesse exato local, funcionava o Hotel Central, que na realidade, era o prédio principal, tendo como anexo o Estabelecimento Hidroterápico. O hotel possuía acomodações para 180 hóspedes. O Estabelecimento Hidroterápico tinha um escritório na Rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro, onde os clientes poderiam ter uma consulta com o Dr. Ribeiro de Almeida e obter igualmente informações sobre a hidroterapia. Foi o primeiro prédio na cidade a utilizar luz elétrica, isso quando a eletricidade só chegaria a Nova Friburgo mais de 30 anos depois. Um investimento de tal monta na então pacata vila de Nova Friburgo devia-se ao fato de o município já possuir notoriedade em relação às suas qualidades climáticas, salubridade e possivelmente fartos e notáveis mananciais de água, pois, do contrário, não se justificaria um estabelecimento de hidroterapia. Clima e saúde, eis um paradigma no inconsciente coletivo oitocentista. A hidroterapia era preconizada para a cura dos que sofriam de enfraquecimentos, dispepsias, moléstias nervosas, tuberculose, beribéri, reumatismo, bronquite e outras moléstias. O tratamento à base de hidroterapia, associada às qualidades do clima de Nova Friburgo, atraiu uma chusma de enfermos e turistas à cidade, sendo o mais ilustre de todos, o imperador D. Pedro II e a Princesa Isabel, que procurou a hidroterapia para se curar de sua suposta infertilidade.


Carlos Eboli faleceu em 1885, aos 53 anos de idade e, desde então, o estabelecimento passa a enfrentar dificuldades financeiras mesmo com a administração de novos sócios. A Marinha do Brasil pretendeu adquirir esse prédio, pois já fazia uso da hidroterapia para a cura de seus marujos vítimas do beribéri. No entanto, Rui Barbosa, que era frequentador habituè em Nova Friburgo, solidarizou-se aos friburguenses que não desejavam um “centro de peste” na cidade salubre e advogou contra tal aquisição. No entanto, em 1895, dez anos após a morte de seu timoneiro, Carlos Eboli, o Estabelecimento Hidroterápico e o Hotel Central entram em processo de falência e são penhorados pelo Banco Comercial do Rio de Janeiro, através de uma Ação Hipotecária. Como sabemos, hoje pertence à Irmandade de N. S. das Dores, que manteve apenas o prédio do hotel. A hidroterapia faz parte de uma importante fase da história da medicina no mundo, em que se atribuía a cura de diversas doenças à utilização desse método, numa época em que a ciência médica dava os seus primeiros passos. E Nova Friburgo pode se orgulhar de ter escrito um capítulo dessa importante parte da história da medicina.

PRINCESA ISABEL:A BUSCA DA FERTILIDADE EM NOVA FRIBURGO


“....fomos honrados com a Augusta visita de SS.AA. Imperiais, e por essa ocasião autorizamos ao sr. Fiscal fazer certos serviços para embelezamento da vila a fim de recebermos os Augustos hóspedes...” (Ata da 4ª sessão ordinária, em 21 de novembro de 1868). Em 1868, a Princesa Imperial e o Conde D’Eu estiveram na pacata vila de Nova Friburgo. Todos fizeram a sua parte: os moradores limparam as testadas de suas residências, iluminaram suas frentes durante a estada dos augustos príncipes, a Câmara Municipal caiou seu prédio e a cadeia, recolheu os animais soltos e grandes festejos foram realizados na vila. A princesa foi homenageada com o nome de uma praça e o conde com nome de rua. A “Praça da Vila” passou a denominar-se Praça Princesa Isabel. Posteriormente, na proclamação da república, passou a chamar-se Praça 15 de Novembro e por ocasião da Revolução de 30, Praça Getúlio Vargas, sempre alterando o seu nome de acordo com os ventos políticos. Nessa ocasião, ao que parece, veio com uma vasta comitiva, a exemplo dos embaixadores chilenos. A família real oferecera à embaixada chilena, na Cascata Pinel, uma “festa campesina” a que compareceram D. Pedro II e o Conde d’Eu. Nessa ocasião, Carlos Pinel fez gravar em um dos granitos da cascata de sua propriedade, em homenagem à Princesa Isabel, a seguinte inscrição: Cascata Santa Isabel.

Princesa Izabel, Conde d´Eu e os filhos



Nova Friburgo, pelas condições climáticas favoráveis à cura de determinadas doenças, aliado ao seu Estabelecimento Hidroterápico, fez parte de uma interessante passagem da história da família real portuguesa que envolvia a sucessão do trono imperial. D. Pedro II, excluindo os natimortos, teve duas filhas com D. Teresa Cristina: a Princesa Isabel e Leopoldina. Ambas casaram-se com dois primos de casas reais europeias, os Orleáns(Conde d´Eu) e Saxe-Coburgo(Gusty). D. Pedro II não as queria casadas com portugueses, pois segundo o Imperador, seria como voltar aos tempos da colonização. No entanto, enquanto Leopoldina, a mais nova, engravidava sucessivamente, o útero de Izabel permanecia vazio. A Princesa Izabel se casara em 15 de outubro de 1864 com o Conde d´Eu, e não conseguira engravidar durante dez anos desde o seu casamento. Como disse Flaubert, uma mulher sem filhos é uma monstruosidade.


A infertilidade era considerada como uma doença, dando-se o nome de “frialdade” ou “frigidez”. Recomendava-se, à época, tomar chá de erva de carrapato, de figueira-do-inferno ou ainda fazer um defumadouro das partes íntimas com uma erva chamada pombinha. Novenas à Santa Ana e Santa Comba, padroeiras da fertilidade conjugal, não faltavam. A Princesa Isabel sentia-se constrangida em fazer com que o marido se sujeitasse às crendices nacionais para provocar a gravidez nas mulheres, compelindo-o a urinar no cemitério pela argola de uma campa, ou ainda que untasse a região púbica com sebo de bode, ou bebesse garrafadas de catuaba. Ele a tomaria por uma primitiva. Além do desejo materno de ter um filho, a Princesa Isabel ainda tinha a questão da sucessão, pois se não tivesse herdeiro, provavelmente o trono seria ocupado, com a morte de D. Pedro II, por seu sobrinho, Pedro Augusto. A infertilidade da Princesa Isabel já havia gerado, inclusive, expectativa em Pedro Augusto, o “Príncipe Maldito”, cuja história é narrada no livro de Mary Del Priore. A Princesa Isabel começou a recorrer ao tratamento à base da hidroterapia o qual se julgava aconselhável para a suposta esterilidade de que padecia. Então, Nova Friburgo começa a entrar nessa história, pois abrigava o Instituto Hidroterápico que funcionava onde é atualmente o C.N.S.Dores. Em 1872, o médico italiano Carlos Eboli inaugurou, em Nova Friburgo, o Estabelecimento Hidroterápico a título de “Casa de Saúde”, “Casa de Duchas” ou “Estabelecimento Sanitário Hidroterápico”.


A Princesa Isabel já recorrera a Caxambu e Lambari(MG) para tomar banhos de águas milagrosas. Estações termais, hidroterapia, novenas, viagem a Lourdes(Portugal) fazendo promessas a Santa Bernadette e finalmente tratamento com um especialista na Europa, a tudo a princesa recorreu. Em 1874, a Princesa Isabel retorna a Nova Friburgo acompanhada do pai, D. Pedro II, e de sua dama de companhia, a Condessa de Barral, ficando hospedados no Hotel Leuenroth. A princesa procurava as qualidades da hidroterapia no milagroso clima da cidade salubre, para a cura de sua frigidez. Fizera abluções repetidas na água na tentativa de tornar o útero fecundo. O procedimento da hidroterapia consistia na aplicação externa (duchas) e interna de água. Externa sob a forma de aspersão, banhos e aplicação de toalhas molhadas. Interna, com a ingestão de abundante quantidade de água, na maioria das vezes, fria ou gelada. Tais recursos eram associados a sudoríferos energéticos, massagens prolongadas, exercícios constantes (caminhadas em ladeiras) e alimentação balanceada.



Coincidentemente, no ano seguinte de sua vinda a Nova Friburgo, em 1875, depois de dez anos de infrutíferas tentativas, a Princesa Izabel finalmente engravidara. Seria leviano estabelecer aqui uma relação direta do tratamento da hidroterapia na gravidez da princesa, mas podemos afirmar que Nova Friburgo lhe deu sorte. Teria experimentado as águas da mítica Fonte Encantada do Suspiro? Mesmo tendo abortos naturais sucessivos e uma filha natimorta, a Princesa Isabel deu à Coroa dois herdeiros: Baby e Luís. E foi em razão desse drama pessoal da princesa, que Nova Friburgo tem uma pequena participação nessa história.


O CASO DO CASCATA E O COLÉGIO NOVA FRIBURGO




Dermeval Barbosa Moreira, conhecido em Nova Friburgo como um médico morigerado e caridoso, estranhamente, resolve diversificar a sua atividade profissional. Juntamente com o seu cunhado, edificaram no local denominado “cascata”, um suntuoso prédio destinado a um hotel cassino, o Cassino Cascata. Construíra esse cassino, ao que parece, em sociedade com os mesmos empresários do Cassino da Pampulha, Cassino da Urca e do Quitandinha. No entanto, quando o prédio estava praticamente pronto, eis que o jogo de azar passa a ser proibido no país pelo Governo Dutra e o cassino virou um elefante branco. Desesperado, o médico Dermeval Barbosa Moreira procurou a equipe médica do Hospital de Tuberculosos de Corrêas, em Petrópolis, oferecendo o prédio do Cassino Cascata para a instalação de um hospital de tuberculosos. Houve interesse por parte daquele estabelecimento e as negociações estavam em andamento. Nova Friburgo tinha sido o local escolhido pela Marinha do Brasil para a instalação do Sanatório Naval, estabelecimento destinado a cura de marinheiros tuberculosos. Logo, Nova Friburgo teria mais um sanatório de tísicos na cidade, para desespero da população. Questionava-se se as famílias de outras cidades e Estados continuariam a colocar seus filhos em regime de internato nos colégios existentes; se os turistas continuariam a vir a Nova Friburgo; se os capitalistas se animariam em inverter capital em novas indústrias, sendo o município uma cidade infectada; se após a criação desse hospital não viriam outros.



Surge então um grupo liderado por Augusto Spinelli, e integrado por César Guinle, José Eugênio Muller, Tuffi El Jaick, entre outros, que se mobilizam para impedir a instalação de mais um sanatório, prejudicial à representação de Nova Friburgo como cidade salubre. Resolvem adquirir o prédio a fim de instalar no local um estabelecimento educacional. Criaram então a Empresa Educacional Fluminense, também denominada de Fundação Educacional, e adquiriram o Cassino Cascata de Dr. Dermeval com o propósito de instalar um ginásio. Acontece, entretanto, que a novel empresa não dispondo de recursos financeiros à altura da iniciativa, e também não podendo retroceder na compra do edifício, sob pena de enorme prejuízo, toma a deliberação de procurar um novo proprietário para o prédio. A Empresa Educacional Fluminense entra em entendimentos com os clérigos do Colégio Anchieta a fim de prolongarem aquele estabelecimento até o Cascata, mas o valor para o empreendimento era superior aos recursos do Colégio Anchieta. Oferecem então ao Seminário de São José, no Rio de Janeiro, cujos clérigos vêm à Nova Friburgo estudar as possibilidades. Embora agradassem das instalações, também não puderam arcar com o valor do imóvel. O tempo corria, os prejuízos cresciam, a hipoteca da Caixa Econômica vencendo juros, os fornecedores fazendo pressão e os compromissos com os construtores do Cascata avolumavam-se. A Empresa Educacional Fluminense resolve então abrir o ginásio por conta própria e assim iniciam ampla propaganda pelos grandes jornais do Rio de Janeiro, rádios, etc. No entanto, a empreitada é superior a sua condição econômica e a Empresa Educacional novamente volta ao ponto de partida no intuito de encontrar um comprador para o Cascata. Dessa vez urgia pressa ou uma catástrofe financeira desabaria sobre todos. Surge então a Fundação Getúlio Vargas. O fato do prefeito César Guinle ser amigo de Simões Lopes, presidente da Fundação Getúlio Vargas, e seu cunhado participar do conselho, teria provavelmente facilitado o acordo com essa instituição.
Inicia-se uma negociação que envolve a Prefeitura de Nova Friburgo, a Empresa Educacional Fluminense e a Fundação Getúlio Vargas. A Prefeitura precisaria desembolsar alguns milhões de cruzeiros para viabilizar a vinda de Fundação, o que acabou gerando protestos de alguns segmentos da sociedade friburguense. Porém, a mensagem do prefeito César Guinle foi aprovada pela Câmara Municipal que conseguiu recursos para viabilizar a vinda da Fundação Getúlio Vargas para Nova Friburgo. Foi investido no Cascata um total de CR$6.000.000,00(seis milhões de cruzeiros), nos informa Pedro Cúrio do jornal O Nova Friburgo. A Prefeitura doou CR$2.000.000,00(dois milhões de cruzeiros); uma subscrição realizada entre a população friburguense arrecadou CR$1.000.000,00(um milhão de cruzeiros) e foi feito um empréstimo junto a Caixa Econômica de CR$2.5000.000,00 (dois milhões e quinhentos mil cruzeiros). A Fundação Getúlio Vargas entrou somente com CR$500.000,00(quinhentos mil cruzeiros). Cumpre destacar que particulares ainda doaram terrenos no Cascata para ampliação do colégio. Logo, o Cascata passou a abrigar, a partir de 1949, o Colégio Nova Friburgo sob a égide da Fundação Getúlio Vargas, cujo período letivo se inicia no ano seguinte. Ficou conhecido esse estabelecimento de ensino na cidade como “Fundação”. Tratava-se de um colégio de ensino secundário, em regime de internato, consistindo quase todos os internos do sexo masculino. Esse colégio foi considerado uma referência em todo país pelo alto nível de seu ensino e quadro docente. Foi desativado em 1977, depois de 27 anos em atividade. Mais uma vez evitou-se a “extinção de Friburgo”, como outrora escrevera Rui Barbosa, dotando a cidade de mais um sanatório de tuberculosos. Funciona hoje no local a UERJ. Observando a história desse estabelecimento de ensino, poderíamos afirmar que esse imóvel pertence muito mais à população de Nova Friburgo do que ao órgão estadual. Mas isso é outra história.

DECÁLOGO DE RESPEITO À NATUREZA

Acima: O Prof. Menezes Wanderley




Antonio Francisco de Menezes Wanderley foi o maior intelectual do final do século 19 e início do 20 em Nova Friburgo. Natural do Estado da Paraíba do Norte, residiu na capital federal onde trabalhou em diversos jornais. Do Rio de Janeiro veio para Nova Friburgo contratado para dirigir o periódico O Friburguense. Foi então convidado para ser professor do Lyceo Nacional, do Instituto Sul-Brazil e do Externato América. Abriu uma escola noturna gratuita na cidade para alfabetizar aqueles que labutavam durante o dia. Além de colaborar com diversos periódicos da cidade, como os jornais O Friburguense e A Paz, fundou o Correio Popular, O Rebate, a Escola e dirigiu o Democrata. Muito jovem ainda, com 25 anos de idade, tinha um vasto currículo acadêmico, sendo considerado um excelente orador e latinista, autor de peças teatrais, poeta, literato, tendo lançado os livros “Hosannas” e “Flores Agrestes”, um prodígio à época já que a produção de um livro era muito cara.
Esse ilustre professor era maçom e devido a sua bagagem intelectual, em 1933, recebeu do então prefeito da cidade uma incumbência: elaborar um decálogo, conjunto de dez princípios morais, para educar as crianças friburguenses na sua relação com a natureza. Pelo teor do decálogo, as belas e floridas praças da cidade que povoavam as narrativas e crônicas dos que visitavam o bucólico centro de Nova Friburgo, viviam depredadas por ações de vandalismo, principalmente por parte das crianças. Esse decálogo foi impresso em um livreto e distribuído em todas as escolas municipais de Nova Friburgo.
Vejamos as normas que o Prof. Menezes Wanderley elaborou dando o interessante título de “Voz da Natureza”: “CRIANÇA! OUVE O QUE TE DIGO: SER DE BONS COSTUMES É SER UM MENINO BEM CRIADO E EDUCADO PARA UTILIDADE DA VIDA, DA PÁTRIA E DA FAMÍLIA! 1°: Não derrubes as árvores, não as maltrate, não as desfolhe, seja qual for o lugar em que as encontre; 2°: Não depredes os jardins públicos. São lugares próprios para descanso e recreio dos habitantes do lugar, cujo número tu estás; 3°: não pises no gramado de seus canteiros. É um tapete verde-esmeralda, o qual alegra os olhos em harmonia com o azulado das montanhas e com o anil do céu; 4°: Não arranques as flores que adornam os canteiros. Elas seduzem os olhares dos passeantes e perfumam o ambiente. São como estrelas na terra; 5°: Não tires mudas, pelo fato de achares lindas as flores ou raras as suas qualidades; 6°: Não firas os troncos das árvores, abrindo neles nomes, teu ou de pessoas de tua amizade, só pelo gosto de vê-los aí estampados, quando passares por lá, talvez, um dia na vida; 7°: Não consintas que meninos desocupados e de maus instintos procurem maltratar as plantas que tanto bem fazem abrigando os cansados, atraindo as aves que cantam e as borboletas multicores que adejam; 8°: Não te esqueças que o governo, para ali as colocar, gastou muito dinheiro com o fim de preparar aquele logradouro público e ainda despende anualmente grande soma com a sua conservação. Esse dinheiro é fornecido pelo suor do povo. 9°: Não olvides esses conselhos, que são do maior proveito para a formação do teu caráter, eles dão mostra fiel da tua educação atual, e garantem que hás de ser um homem de bem no futuro. 10°: Não queiras ser um menino que mereça a censura dos homens de bem, mas um amiguinho de tudo o que é bom, merecedor dos aplausos dos homens sensatos e digno das lições que hás recebido na escola.”

Esse decálogo não teria muita razão de ser atualmente. Não que o seu teor esteja ultrapassado, ao contrário. No entanto, perdeu o seu sentido, pois há muito tempo não vemos uma natureza pujante na Praça Getúlio Vargas e nas demais praças da cidade, considerado outrora como o município dos cravos vermelhos e das camélias brancas. É difícil compreender o abandono da praça principal da cidade, que tanto encantava os visitantes do século passado, por sucessivos governos municipais. Foi uma progressiva gestão de administradores que desprezaram o maior e mais simbólico espaço de sociabilidade de uma cidade: as praças públicas. Como no início do século 19 se acreditava que as doenças vinham do ar, pois se desconhecia a existência de microorganismos, só descoberto em 1862, preconizava-se o plantio de árvores e boulevards nas vilas e cidades para higienizar o ar “corrompido” pelos miasmas. Logo, as praças públicas tinham muito mais uma função de atender a uma política pública higienista do que ser um espaço de sociabilidade. Posteriormente essa segunda função superou a primeira.
Porém, atualmente, com a poluição do ar nas cidades, as praças voltam a ter essa função “higiênica” e não somente ser um espaço de recreio da população. A Praça Getúlio Vargas, cujos eucaliptos abrigaram sob suas sombras sucessivas gerações de friburguenses, ainda constitui um espaço de sociabilidade aos mais renitentes, que insistem em sentar-se em seus bancos ruídos, vislumbrar o mato em sua volta e arriscar-se a mordida de roedores. O coreto, com o seu aspecto fúnebre, simboliza o descaso dos prefeitos que justificam a sua inércia sob o manto de que aquele pardieiro é tombado pelo patrimônio histórico. Vamos ver se com as campanhas pela renovação de Nova Friburgo essa praça, e igualmente as demais da cidade, voltem a ser o cartão postal como foi no passado.

NO SUSPIRO TRÊS ALMAS GEMEM DE DOR: AMOR, SAUDADE E CIÚME

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A Fonte do Suspiro era a principal fonte da vila de Nova Friburgo desde a sua fundação em 1820, onde os habitantes abasteciam de água as suas residências. Com o passar do tempo, a fonte provocou a urbanização local surgindo a Praça do Suspiro e a igrejinha de Santo Antônio. O mais interessante é que as águas de suas fontes acabaram cercadas de lendas criadas pela população de Nova Friburgo. Na Fonte do Suspiro foram canalizadas três bicas: do Amor, da Saudade e do Ciúme. Jorrava água fresca e cristalina, cantando andeixas sentidas e amarguradas. Daí o hino de Nova Friburgo que lhe tece louvores: “...Do suspiro na fonte saudosa/ Há três almas que gemem de dor/Repetindo esta prece maviosa/Da saudade, do ciúme e do amor...”. A Fonte do Suspiro era considerada desde tempos antigos, até mais da metade do século 20 como uma das “maravilhas” de Friburgo, o recanto mais formoso da cidade, “onde cada friburguense tem uma parte de sua alma e um pedacinho do seu coração”. Não havia quem tendo amado não tenha procurado aquele recanto florido e bucólico, lugar onde a natureza concentrara sua magia, revestindo-se de galas e pomas. Dizia a lenda que quem beber da “Fonte Encantada do Suspiro” a ela se prenderá por toda a vida! Acreditava-se que o viajante que bebia um pouco de sua água pura, que jorrava cantante das três fontes, certamente voltaria a Friburgo, porque a saudade lhe encheria o coração. Era uma fonte impregnada de feitiço e lendas. Para os que viveram grandes paixões em seus jardins, o suspiro representava o tabernáculo de sonhos do passado. Era uma referência para os que já amaram e para os que ainda amavam. Não há álbum de fotos de mocinhas e touristes do século 19 que não tivesse como locação a Fonte do Suspiro.

Um vereador queixou-se certa feita dos namoros fogosos na Praça do Suspiro, onde se praticava ali “atos que devem ser vedados”. O jornal O Friburguense do final do século 19, nos legou uma deliciosa crônica que traduz um pouco do cotidiano dessa praça. Numa quinta-feira, quando as horas do labor diurno cediam o passo às de descanso, um voyeur, discreto no andar, de paletó-saco, pincenê e guarda-chuva à mão, observando um casal de namorados na Praça do Suspiro, assim escreveu: “...Ali, sentados em um dos bancos, ele, o Romeu de jaqueta de brim e sem escada de seda enlaçou aquela Julieta (…) e ei-los n’um doce colóquio, n’um devaneio amoroso que a brisa suave da tarde acalentava. Discreto caçador que por lá passava, quedou-se, protegido pelo largo tronco de uma árvore, a contemplar o arrulho dos dois pombinhos, que começavam a cantar os seus idílios antes que as sombras da noite caíssem sobre aquele sítio tão propício a tais situações. O quadro vivo era digno de ser visto, enquanto que a fonte cantava sonoramente ao lançar os seus jactos de cristal sobre a bacia de granito, eles, embalados pela cadencia de uma melodia que os seus instintos entoavam, falavam as coisas ternas, de cousas sensíveis e osculavam-se[beijavam-se] impudicamente. Depois ergueram-se, olharam-se naturalmente e tomaram ansiosos o caminho do bosque. O caçador, única testemunha desta cena erótica, farto de presidi-la qual cupido desvendado, seguiu sua trilha; o bosque, que não fala, que guarda tantos segredos, recolheu as últimas horas dessa canção de amor. E o Suspiro, o poético Suspiro, o passeio predileto dos touristes, o logradouro publico onde de preferência as famílias fazem os seus passeios, nem ao menos respeitado durante o dia.” (O Friburguense, “Quadro Vivo”, de 28-6-1896.)

Mas o Suspiro era também um lugar para os que vinham buscar na mansuetude bucólica de Nova Friburgo e na salubridade do bom clima, o reconforto para o espírito e o retempero para sua saúde, encontrando ali o encantamento doce e a estesia miraculosa que erguem o ser abatido. No imaginário da população, além do romantismo que ela evocava, era também notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Faziam lenir as dores dos que sofriam e dizia-se que até mesmo “ressuscitava os quase-mortos”. No século 19, a Praça do Suspiro era o mais importante espaço de sociabilidade. O único passeio público das famílias friburguenses para ali “recrear-se” aos domingos. O Clube Atlético Bargossi solicitou em 1886 à Câmara Municipal permissão para colocar “postes da raia” na Praça do Suspiro para que o clube realizasse corridas de cavalo aos domingos e dias santificados. A batalha das flores, por ocasião do carnaval, era igualmente realizada nessa praça por onde desfilava o préstito de carruagens floridas. Por abrigar a igrejinha de Santo Antônio, as festas do orago eram realizadas em sua praça, para onde acorria toda a população.

Passando ao século 20, José Mastrângelo nos informa que as águas da Fonte do Suspiro eram ferruginosas, auxiliando a “soltar o intestino”. Quando a torcida adversária comparecia ao Campo do Fluminense(atual Friburguense), que era localizado onde hoje é o Teatro Municipal, a gaiata galera de Friburgo oferecia a “famigerada água” da Fonte do Suspiro aos torcedores, provocando-lhes diarréia e terríveis flatulências. Se utilizarmos a fonte iconográfica podemos observar que foi a praça que mais sofreu intervenções dos poderes públicos em Nova Friburgo, diferençando-se imensamente a sua paisagem ao longo dos anos. Nunca imaginaríamos que a pracinha do Suspiro entraria na história simbolizando a catástrofe da enchente e desmoronamentos dos morros ocorridos em Nova Friburgo na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011. O futuro da Fonte do Suspiro ainda não sabemos. Considerando que o hino de Nova Friburgo se refere a essa fonte, as três almas que gemem de dor, Amor, Saudade e Ciúmes, fica o registro da história da Fonte do Suspiro para as futuras gerações.

NOVA FRIBURGO, PETRÓPOLIS OU TERESÓPOLIS? PARA ONDE OS CARIOCAS IRÃO NO VERÃO?

Nova Friburgo. Foto: Paulo Noronha



Nova Friburgo. Foto: Rosana Gomes



Petrópolis: Hotel Quitandinha





Serra de Teresópolis

Diante da catástrofe natural ocorrida entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis se irmanaram na dor das perdas humanas e materiais. As três cidades serranas habituadas a ter seus nomes estampados na imprensa como aprazíveis locais de veraneio, se viram numa macabra estatística no qual Nova Friburgo encabeçou a lista fúnebre com o maior número de mortos e de perdas materiais. Autoridades governamentais desses municípios se solidarizaram e igualmente a população dessas regiões. Mas houve momentos de nossa história em que, pelo menos por parte dos friburguenses, a rivalidade de Nova Friburgo em relação às co-irmãs da região serrana era levada a extremos. A imprensa local, a exemplo do jornal O Friburguense, que era distribuído no Rio de Janeiro e em Niterói, ao mesmo tempo que tecias loas ao clima de Friburgo, menosprezava Petrópolis e Teresópolis.

A partir de 1847, a Corte passou a mudar com regularidade para então vila de Petrópolis. A morte na tenra idade dos dois herdeiros do Imperador Pedro II, Afonso(1845-47) e Pedro(1848-50) consagrava o Rio de Janeiro como uma cidade com uma atmosfera pestilenta, onde grassavam epidemias de febre amarela, provocando a fuga dos cariocas abastados no verão. O ambiente das montanhas passou a ser uma solução imediata para a elite livrar-se da mortandade que se abatia sobre o Rio de Janeiro com a chegada do verão. Quando o mais racional seria resolver o problema do saneamento da cidade, preferiam mudar-se para as montanhas, o que acabou incrementando a economia das cidades serranas, fomentado o turismo. Logo, na estação calmosa, o verão, a elite carioca trocava os “salões” pelas pitorescas e bucólicas cidades próximas a Corte. Nova Friburgo era uma delas. No entanto, Petrópolis sempre fora a favorita da família real e isso incomodava profundamente os friburguenses.
Com a proclamação da República a disputa ficou acirrada. Nova Friburgo concorreu e perdeu para Petrópolis a regalia de ser capital do Estado por um determinado período, mas transformou a ameaça em oportunidade: “...A cidade do Rio de Janeiro está quentíssima, mais quente que o fogo em brasas, faz ali um calor insuportável, quanto mais nos próximos meses de novembro a março. E isto o que todos sabem, não carece demonstrar. Sendo assim, é provável que grande número de pessoas ali residentes se retire para fora, procurando passar alguns meses no gozo do ar livre, fugindo das epidemias que a infestam todos os anos, principalmente nos referidos meses. Está reconhecido pelas observações feitas que a cidade de Teresópolis, embora seja um lugar fresco, não pode ser procurada, por que é diariamente açoitada pelos ventos; é lugar pequeno e insípido – não passa de um estreito beco; as viagens da capital federal para essa cidade são assaz incômodas e dispendiosas e em chovendo tornam-se dificultosas. Para Petrópolis há facilidade e barateza de transporte, mas é lugar de clima muito úmido, o que é nocivo a saúde, mormente para as pessoas já afetadas de alguma moléstia ou que precisam convalescer-se; devendo notar-se mais que Petrópolis, é uma cidade de luxo, aristocrata, própria para diplomatas. Com a mudança da capital do Estado do Rio para ali, encheu-se a cidade de Petrópolis de grande massa de elementos perniciosos, perigosos a moralidade e a tranquilidade públicas, privando as famílias de certos gozos que outr’ora tinham. (…) Todos quantos pretenderem afastar-se por algum tempo do calor que tanto incomoda e que é origem de tantos males, que precisarem de descanso e quiserem gozar do puríssimo ar das montanhas, não encontrarão outro lugar mais apropriado que Friburgo...”(O Friburguense, de 1-10-1894.)

E referindo-se a Nova Friburgo, se escreveu: “O clima é excelente, superior ao de todos os outros povoados do Estado do Rio de Janeiro, inclusive o da cidade de Petrópolis, que já foi imperial e atualmente goza dos foros de capital. A água é pura, fresca, cristalina, abundante não só em quantidade, como no número de milagres que tem operado; a água que desce das montanhas e das cascatas de Friburgo, não tem igual, é incomparável. O clima e a água desta abençoada terra, dão alento aos vivos e ressuscitam os mortos; pode-se afoitamente dizer (…). Friburgo podia ser hoje a primeira cidade do Estado do Rio de Janeiro em tudo, como é e sempre foi a primeira no clima saudável e na água de milagres prodigiosos...”(O Friburguense, de 29-12-1895.)
E continuam as invectivas contra as concorrentes: “O que ninguém poderá negar é que Friburgo é uma cidade cheia, riquíssima de elementos naturais, encantadora, amena, aprazível, que tem merecido olhares benéficos do céu, que tem causado inveja a úmida Petrópolis, que tem como rival apaixonada Teresópolis, e como tenho dito muitas vezes, como sempre hei de dizer, como jamais cansarei de repetir: a bonina do Estado do Rio de Janeiro...”(O Friburguense, de 4-6-1893.)

Por fim, escreveu um jornalista: “O tempo vai correndo favorável aos passeiantes. Dias esplêndidos! O sol doira nas altas montanhas que nos cercam. As manhãs agradam com sua frescura. As noites encantam com o seu céu bordado de fulgurantes estrelas. Que natureza invejável. Que encantadora terra, a formosa Friburgo, a Suíça brasileira, mimosa bonina das cidades do Estado do Rio de Janeiro. Cala-te úmida Petrópolis, humilha-te estreita e ventosa Teresópolis! A verdade é uma só. Friburgo, não tem rival!” (O Friburguense, de 3-4-1892.)
Poderíamos descrever uma miríade de textos como esses publicados na imprensa da época. Nossos ancestrais pegavam pesado na disputa pelos touristes, não?

12 DE JANEIRO: NOSSO 11 DE SETEMBRO





Vila de Nova Friburgo, por Debret.


As enchentes e o desmoronamento de morros, ocorridos na madrugada do dia 12 de janeiro desse ano, entram para a história de Nova Friburgo, e do Brasil, como uma das maiores tragédias provocadas por fenômenos naturais. É nosso “11 de Setembro”, numa analogia aos ataques terroristas ocorridos nos Estados Unidos da América. Nos jornais, além da divulgação de centenas de mortos e destruição material, a notícia de que os preços das hortaliças e legumes vão ficar mais caros nos próximos seis meses. Isso em decorrência dos desmoronamentos que acarretarem danos ao solo das regiões do Campo do Coelho, Conquista e Salinas, que abastece com produtos primários o Rio de Janeiro. Isso demonstra que a região serrana, além de ser procurada pelas suas belezas naturais e por seu clima, também tem importante papel na economia do Estado, e mais propriamente, na mesa dos cariocas e fluminenses. Mais da metade desses produtos consumidos pelos cariocas são produzidos por essa região, incluindo também Teresópolis. Essa região, que correspondia a antiga freguesia de Sebastiana, no século 19, já produziu peras, maçãs, nozes, cerejas, marmelo, amoras e uvas, dando-lhe uma paisagem que se assemelhava às planícies européias.

Giuseppe Arcimboldo.(1527[?]-1593 [?]). Pintor italiano.
Historicamente, Nova Friburgo foi criada justamente para abastecer o mercado da Corte, ou seja, o Rio de Janeiro. No início do século 19, o plantio do café deslocara muitas terras e mão de obra escrava no cultivo desse produto, o mais rentável à época. A economia do Brasil já se baseava na exportação do café, em franca expansão. Logo, produtos como milho, feijão, mandioca e carne já estavam desaparecendo da mesa dos cariocas. A maior parte dos agricultores não queria se dedicar ao cultivo de alimentos, mas tão somente ao ouro verde: o café. Logo, D. João VI deu início a política de colonização, objetivando o plantio de gêneros alimentícios para abastecer a Corte, através de imigrantes estrangeiros. Um decreto de 1818 destinou a Fazenda do Morro Queimado para o assentamento de colonos suíços. Essa antiga fazenda, composta de quatro sesmarias, hoje é Nova Friburgo. Em um pitoresco vale, entre grandiosas montanhas, foi criada a vila de Nova Friburgo, em 1820, para abrigar a “Colônia dos Suíços”, a primeira do Brasil. No entanto, as datas de terras no perímetro do “Núcleo dos Colonos” não eram úberes o suficiente para a agricultura, sendo localizadas em terrenos íngremes ou repletos de brejos. Boa parte das terras distribuídas aos colonos suíços foi abandonada. Em 1824, colonos alemães foram encaminhados para a vila de Nova Friburgo. As terras inférteis abandonadas pelos suíços foram distribuídas aos colonos alemães. Por conseguinte, metade deles se deslocou para outras regiões em busca de terras mais produtivas, como Cantagalo, Barra Alegre, Rio Bonito e São Leopoldo, no sul do país.
Cumpre destacar que somente as glebas coloniais do “Núcleo dos Colonos” eram consideradas inférteis, pois Nova Friburgo possuía uma extensão territorial com terras produtivas, que lhe retiravam a pecha de região com terras sáfaras. Nova Friburgo possuía quatro freguesias: A Freguesia de São João Batista, a vila, a Freguesia de São José do Ribeirão, atualmente Bom Jardim, Nossa Senhora de Paquequer, hoje Sumidouro, e Sebastiana, atualmente compreendendo o cinturão agrícola de Campo do Coelho, Conquista, Salinas e parte de Teresópolis. São José do Ribeirão e Paquequer eram importantes regiões agrícolas, cultivando inclusive o café. Na realidade, parte do desenvolvimento de Nova Friburgo ocorreu devido ao seu clima salubre. A partir de 1830, Nova Friburgo encontra a sua verdadeira vocação, vingando como uma aprazível estação de verão. Foi desde então refúgio dos cariocas que fugiam do calor do Rio de Janeiro e dos que procuravam a saúde do corpo, como a cura da tuberculose, quando se acreditava que o clima era um fator determinante na cura da doença. A partir da segunda metade do século 19, quando começam a grassar as epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro, Nova Friburgo ganha mais visibilidade atraindo uma chusma de cariocas em todo o verão, ponto alto das epidemias.
Já no último quartel desse século, recebeu significativa imigração de italianos, fomentando o comércio e a área de serviços. Imigraram ainda para Nova Friburgo, desde então, em menor proporção, libaneses, espanhóis, húngaros, austríacos e japoneses. É sempre bom lembrar a imigração forçada de africanos, na condição de escravos, ao município. A partir de 1910, empresários alemães estabeleceram indústrias de grande porte na cidade, alterando significativamente a estrutura social e econômica do município. Pode-se afirmar que Nova Friburgo passou a ser uma cidade industrial. Com a diminuição da atividade dessas grandes indústrias, a partir da década de oitenta do século 20, a economia de Nova Friburgo passou a girar em torno de pequenas e médias empresas metalúrgicas e de um grande pólo de moda íntima, essas últimas estabelecidas por antigos funcionários das indústrias têxteis. Como vimos, Nova Friburgo tem uma história nada monolítica.

Há quase dois séculos, cariocas e fluminenses, quando tressuam esbaforidos devido ao calor escaldante do verão, procuram o frescor do clima das montanhas de Nova Friburgo. O município curou igualmente os que se convalesciam da tuberculose. Nova Friburgo coloca diariamente, na mesa dos cariocas, hortaliças e verduras do amanho de suas terras.

Depois da tragédia do dia 12 de janeiro, enterramos nossos mortos, choramos nossas perdas e mal absorvemos ainda o que aconteceu com Nova Friburgo. Porém, corre nas veias dos friburguenses o sangue de portugueses, africanos, suíços, alemães, italianos, libaneses, espanhóis, japoneses, austríacos e húngaros. Logo, vamos transformar essa babel de nacionalidades que correm em nossas veias para reconstruir a cidade e colocá-la no status que possuía no passado: a de mimosa bonina e princesinha do Estado do Rio de Janeiro.

Arcimboldo

Arcimboldo









AS ENCHENTES DO VELHO SÃO JOÃO DAS BENGALAS: UM DÉJÀ VU NA HISTÓRIA DE FRIBURGO

Acima: Enchente na Rua Francisco Miele em 02 de janeiro de 1938.


Acima: Praça Getúlio Vargas. Enchente de 1940.




Acima: Praça do Suspiro. Enchente de 1940.

Acima: Rua Sete de Setembro. Enchente de 1920.




Acima: Praça Getúlio Vargas. Enchente de 1920.



Acima: Avenida Galdino do Vale. Enchente de 1920.



Acima: Rua General Osório. Enchente de 1940.




Acima: Não há referência da foto. Provavelmente a enchente de 1940.


Acima: Avenida Galdino do Vale. 1940.




Acima: Avenida Galdino do Vale. 1940.


Acima: Rua Oliveira Botelho. Enchente de 1940.

A Fazenda do Morro Queimado, onde Nova Friburgo se estabeleceu, pertencia a Cantagalo. Era um belo vale situado entre cinco elevadas montanhas e apelidaram-na de morro queimado por causa da cor tisnada, acinzentada das montanhas. Destaca-se na paisagem o Rio São João das Bengalas, formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antonio que lança-se no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul. Nova Friburgo sempre padeceu com as enchentes do velho Rio Bengalas, desde a instalação da vila em 1820, até os dias de hoje. Mas as civilizações sempre se formaram ao redor dos rios, devido atividade agrícola. A Mesopotâmia, na Antiguidade, formou-se entre os Rios Tigre e Eufrates. A própria etimologia da palavra mesopotâmia significa “entre rios”. O Egito depende das enchentes do Rio Nilo para a sua economia.


Quando instalou a vila de Nova Friburgo não se considerou que a sua proximidade com o rio acarretaria problemas de alagamento nas residências e logradouros com prejuízo material e à salubridade pública? A escolha do local do assentamento da vila, as “vilagens do norte e do sul”, pode ter sido em função da existência do chateau(hoje Colégio Anchieta), sede da administração da Fazenda do Morro Queimado. Mas note que a sede da fazenda ficava no alto do morro, provavelmente em função das enchentes do velho Bengalas.


O “tempo das grandes enchentes”, diziam os friburguenses oitocentistas, era como hoje, iniciando na primavera. Há registro de que choveu em Nova Friburgo ininterruptamente durante três meses consecutivos nessa época. Nova Friburgo possui extensa mata atlântica e daí o grande nível pluvial. Sempre foi uma constante na estação das chuvas as enchentes do Bengalas inundarem suas imediações, entrando nas casas, destruindo pontes e os precários caminhos. Dificultava o trabalho dos tropeiros causando-lhes perda de cargas e até de animais. Além das perdas materiais o maior problema das enchentes era o comprometimento da salubridade. Com as chuvas intensas formavam-se pântanos e acreditava-se que as febres eram atribuídas aos focos de miasmas produzidos pelos pântanos. Os miasmas eram a obsessão dos médicos higienistas oitocentistas. Acreditava-se que dos pântanos e manguezais emanavam seres não visíveis a olho nu, os miasmas venenosos, que aspirados pela boca ou nariz, causavam as febres palustres. Segundo a ciência médica da época, as “febres dos pântanos” ou “febres palúdicas” eram provocadas pelos miasmas deletérios que se desprendiam das águas estagnadas. Logo, o assoreamento de águas estagnadas era uma preocupação constante da Câmara Municipal que se ocupava em aterrar os pântanos. Em conseqüência das chuvas, as ruas da vila foram niveladas e aterradas para evitar a formação de pântanos, brejos e alagadiços. Como disse, a estagnação das águas poderia resultar no aparecimento de epidemias. Foram as enchentes que provocaram a mudança do cemitério da vila para a parte mais alta da cidade. O cemitério era exatamente onde hoje se encontra o prédio da maçonaria, na Rua Sete de Setembro, e foi deslocado para onde se localiza atualmente. No antigo cemitério, depois que as águas baixavam, os corpos ficavam insepultos devido à força das águas e provocavam constrangimento entre a população. E o pior, poderia provocar doenças.


Ao final do século 19, de caniço à mão, comerciantes, caixeiros, aprendizes e oficiais iam aos domingos ao Rio Bengalas pescar pião e piabanha. Os jornais de Friburgo do final do século 19 reclamavam dos moleques e rapazolas que se despiam de seus molambos, de seus trapos de estopa e iam tomar banho completamente nus, em plena luz do dia. O moleque brasileiro tornou-se célebre pelo seu gosto de banho de rio. Influência moura, através do português. Gilberto Freyre nos informa em “Sobrados e Mucambos” que viajantes sempre estranharam homens e mulheres, velhos e meninos regalando-se de banho de rio à vista de toda a cidade. O budum, a catinga, a inhaça e o “cheiro de bode” atribuído aos negros, exagero do “cheiro de raça” tão forte nos sovacos, em torno do qual cresceu o folclore, não foi pela falta de banho, mas pelo rigor do trabalho, nos informa Freyre. Isso porque do banho, o negro, o mulato, o mameluco e o caboclo nunca se mostraram inimigos como os brancos europeus. Era na beira do rio, espaço de sociabilidade feminina, que as lavadeiras lavavam e quaravam as roupas, ganhavam seu pão, trocavam confidências, saberes de curas e remédios, e queixavam-se das pancadas que tomavam dos companheiros. Não obstante a nossa imensa extensão de costa marítima, foi em torno dos rios que a civilização brasileira se desenvolveu.


Aproximadamente entre 1910-1990, período em que as indústrias têxteis e metalúrgicas se instalaram e alcançaram seu apogeu em Nova Friburgo, víamos o velho Bengalas matizado por diversas cores. Quem não se recorda que um dia o Bengalas estava verde, outro vermelho ou furta-cor em razão dos despejos sem tratamento dos produtos químicos das indústrias? Ainda não tínhamos a consciência ecológica de hoje. Mas quem ousaria protestar contra os “capitães” das indústrias alemãs que tantos empregos diretos e indiretos geravam na cidade? Atualmente o Bengalas corta a cidade ressequido, esquecido, poluído, servindo de depósito de lixo de indivíduos irracionais. Mas na época das chuvas, o velho São João das Bengalas ressurge e as enchentes são um déjà Vu, ou seja, algo já visto e já vivenciado em nossa história.

Na semana seguinte em que postei essa matéria, na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, o velho São João das Bengalas inundou a cidade de Nova Friburgo, provocando uma das maiores enchentes e tragédias da história da cidade. Muito mais grave do que a enchente de 1979. Não bastasse isso, muita terra e pedras desceram dos morros, soterrando prédios, no centro e na periferia da cidade. Mais de cem pessoas faleceram. Até mesmo quatro bombeiros da equipe de resgate morreram. A cidade ficou sem luz, sem água e sem comunicação. Principiou-se alguns saques, típico de uma sociedade que retorna ao seu estado de natureza. Sem lei, sem ordem e sem rei.
Note na sequência de charges do cartunista SILVÉRIO, de A Voz da Serra, publicadas antes da tragédia do dia 12 de janeiro, que ele já vinha ilustrando o cotidiano de enchentes no município.


Depois de enterrarmos os nossos mortos, passaremos a contabilizar as perdas materiais. A igreja de Santo Antônio e a Fonte do Suspiro, um dos raros monumentos históricos que nos resta do século 19, foram destruídos pela terra que desceu da encosta. A igreja de Santo Antônio mal é sustida em pé. Até quando essas tragédias serão um dè já vu em nossa história?










Todas as fotos acima são de enchentes em Nova Friburgo, no século XX. Fonte: Centro de Documentação D. João VI.




OS CEMITÉRIOS EM NOVA FRIBURGO: UM LUGAR DE MEMÓRIA




Túmulo de um prussiano morte em um duelo em Nova Friburgo no início do séc.XIX.







Túmulos de civis alemães da Marinha Mercante aprisionados no Sanatório Naval, em Nova Friburgo(RJ), na Primeira Guerra Mundial(1914-18).

Faleceram devido a uma epidemia de tifo em Nova Friburgo.






Lápide de um dos alemães que faleceram de tifo.




AS FOTOS ABAIXO SÃO DO CEMITÉRIO LUTERANO EM NOVA FRIBURGO:













No século XIX, os cemitérios eram considerados pelos médicos higienistas como os responsáveis por diversas doenças, devido ao contato com a terra “corrupta” desses locais. O primeiro cemitério no perímetro da vila de Nova Friburgo localizava-se onde hoje fica o prédio da maçonaria, na Rua Sete de Setembro. Há informação de que numa reforma realizada há alguns anos atrás no prédio da maçonaria, foram encontradas ossadas dos primeiros habitantes da vila. Em 1846, a Câmara resolveu mudar a localização do cemitério da Rua Sete de Setembro. As constantes enchentes que ocorriam no Rio Bengalas inundavam o cemitério fazendo com que alguns corpos emergissem devido a ação água, abrindo sepulturas e provocando grande constrangimento na vila, não bastasse o risco de acarretar doenças. Mas além da situação geográfica do cemitério da Rua Sete de Setembro ser desfavorável, devido as enchentes, urgia ainda a construção de um cemitério maior, “último depósito dos viventes”, tendo em vista que, com o aumento da população, os enterros eram realizados sobre cadáveres ainda “não deteriorados”. Optou-se pelo morro fronteiro à Rua do Senado(atual Alberto Braune), isto é, no local onde o cemitério se encontra atualmente.

Em Nova Friburgo, além do cemitério público, haviam diversos cemitérios particulares espalhados pelas freguesias do município e pelas fazendas nos arredores da vila. Foram muitos os pedidos à Câmara Municipal de licença para se fazer um cemitério protestante nas propriedades de colonos suíços e alemães, devido a longa distância de suas terras nos números coloniais até a vila. Por volta de 1860, Conrado Satler, morador das Cachoeiras de Macahé, confessando a religião cristã evangélica, visto não haver cemitério para seus “correligionários” senão a distância de duas léguas, requer estabelecer um cemitério de sua crença em sua fazenda. Em Nova Friburgo, eram inúmeros os cemitérios: Cemitério da Irmandade do Santísimo Sacramento(o atual), Cemitério de Santo Antonio, na freguesia de São José do Ribeirão, Cemitério dos Números, Cemitério do Alto Macahé, Cemitério de Eggendorn, Cemitério de São José, Cemitério de Lumiar, Cemitério do Córrego Sujo, fora os cemitérios localizados em inúmeras fazendas.

Em 1870, convindo por cobro ao abuso dos cemitérios particulares, o governo provincial recomendou que se proibissem por meio de posturas, os enterramentos fora dos cemitérios públicos ou que as Irmandades autorizassem. Onde eram enterrados os escravos ns vila de Nova Friburgo? Há referência de um cemitério onde os mesmos foram sepultados, o Cemitério do Oratório de Santo Antonio, mas não há indicação de sua localização. Brancos pobres eram igualmente enterrados nesse cemitério. Surpreendentemente, há registro no Livro de Registro de Óbitos na Catedral São João Batista de alguns escravos enterrados no cemitério da Irmandade, uma entidade formada pela elite da época. Um surto de cólera ocorrido em 1865 na Europa e nos Estados Unidos assustou as autoridades do governo imperial. Como disse antes, os cemitérios sempre foram alvos dos médicos higienistas. Recomendou-se à Câmara, entre outras medidas, fiscalizar os cemitérios públicos e particulares, afastando-os quando possível dos centros das povoações. Em 1868, se discutiu sobre a mudança do cemitério da vila para fora do povoado. O governo provincial oferecia aos municípios condições para sua transferência, caso considerassem sua localização prejudicial à salubridade. Quando a Presidência da Província solicitou à Câmara de Nova Friburgo que informasse se convinha a mudança do cemitério da vila, respondeu-se que a transferência era de grande necessidade, visto que o cemitério estava localizado em um morro, tornando-se difícil a condução dos enterros, além de ser “contristador”, por encontrar-se na entrada da vila. No entanto, o que mais preocupava a população era o fato de ser o cemitério um foco de doenças. Segundo ata da Câmara, “estando o cemitério colocado dentro da área da povoação se torna anti-higiênico e, por conseguinte, afetando de algum modo, a salubridade pública...”. Mas nessa ocasião, nada se fez de concreto.


Em 1892, novamente entra em pauta na Câmara Municipal a transferência do cemitério para os arrabaldes da cidade, indicando-se o atual bairro de Duas Pedras. O motivo da remoção era novamente de ordem sanitária, pois já se consolidara o entendimento de uma corrente de higienistas de que a terra dos cemitérios estava impregnada de miasmas morbíficos. Essa mudança não logrou êxito por pressão da própria elite friburguense, mais especificamente por um grupo de notáveis, como o Barão de Duas Barras e Galdino do Vale, que sustentavam que a cidade crescia pelas bandas de Duas Pedras, já havendo muitas habitações no local, conforme noticiava a Gazeta de Friburgo de 20 de outubro de 1895. E assim, o cemitério persiste até hoje no mesmo local. Outrora, havia ainda uma área no cemitério demarcada para o enterro somente de crianças, a “quadra dos anjos”. Cabe por fim destacar que no passado, por ocasião do aniversário da cidade, costumava-se fazer uma peregrinação aos túmulos dos primeiros habitantes da vila, tecendo-lhes preito. O Cemitério Luterano igualmente nos fornece boas fontes históricas. Essa matéria, feita por ocasião do dia de finados, serve apenas para demonstrar que mal nos damos conta de que os cemitérios, além de serem um local onde repousam os nossos mortos, são lugares de MEMÓRIA DA CIDADE.



CEMITÉRIO DE AMPARO





































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