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ESCRAVIDÃO E COTIDIANO


Entrudo, por Debret. 1834


A pesquisa sobre a escravidão em Nova Friburgo é algo embrionário. A quase inexistência de fontes dificulta o trabalho dos pesquisadores. Diferentemente do escravo norte-americano que foi instruído a ler, os escravos foram proibidos de serem alfabetizados no Brasil, o que torna difícil ainda mais a existência das fontes, não nos deixando as impressões sobre o seu infortúnio. Rui Barbosa, objetivando evitar indenizações por parte do Governo Republicano aos proprietários de escravos, mandou destruir muitos registros e documentos sobre a escravidão, apagando da memória do país importante acervo. Normalmente, os historiadores recorrem a relatos de viajantes que passaram pelo país, geralmente a negócios, como fonte de pesquisa sobre a escravidão. Nessa matéria, objetivamos reconstituir tão somente uma pequena parte do cotidiano dos escravos fora de sua atividade laboral. Já sabemos de suas agruras no eito sob o chicote implacável de feitores, a promiscuidade das senzalas e as sevícias sofridas. Utilizaremos como fonte, as observações de um colono suíço, Joseph Hecht, traduzidas do alemão antigo por Armindo Müller.


Os escravos eram objeto de uma série de restrições em Nova Friburgo. No cotidiano da vila, os “pretos”, como eram chamados, circulavam pelas ruas fazendo serviços, vendendo produtos e buscando água. Já os pretos do libambo, escravos fugitivos sob a custódia da Câmara, eram vistos limpando as praças, as valas e trabalhando nas pequenas construções públicas. Porém, fora de suas ocupações de trabalho, os escravos não eram tolerados circulando pelas ruas da vila. Um juiz de paz exigiu que a Câmara fizesse postura a fim de reprimir os contínuos “abusos” de escravos que continuadamente vagavam pelas ruas. Há uma reclamação na Câmara, de que na Praça do Suspiro não se podia suportar o cheiro de urina dos “pretos” que ali se concentravam. Depois das dez horas da noite, não se tolerava que escravos circulassem pelas ruas da vila.




O colono Hecht observando o comportamento dos escravos em Nova Friburgo, fez interessantes anotações. Os escravos, cuja refeição era cozinhada à parte, se alimentavam de arroz ou legumes e lascas de carne de porco. Uma grande panela era colocada sobre o chão e os escravos, geralmente seminus, sentavam-se em volta, cada qual com sua cuia e se serviam. Farinha de mandioca e água complementava a alimentação. Polvilhavam farinha sobre a refeição, misturando todo o conteúdo da cuia com os dedos até fazer uma massa espessa. A seguir, faziam pelotas redondas que seguravam com três dedos, simulando um garfo e jogavam com habilidade as porções na boca. Segundo Hecht, “Era um espetáculo realmente curioso de ver, tantas pessoas negras sentadas juntas em torno de uma panela preta. Os negros ficavam muito inibidos com a nossa presença e jogavam as apetitosas pelotas ainda mais rapidamente na boca. Sem dúvida, nós precisaríamos praticar um longo tempo até atingir tão elevado grau de perfeição.” Debret também observou essas “pelotas” que os escravos faziam e que Hecht descreveu, composta de farinha de mandioca e misturada com suco de laranja ou banana. Em Nova Friburgo, o angu e o bacalhau salgado eram igualmente a base da alimentação de escravos e das classes populares até o final do século XIX.Nos raros momentos de folga, como domingo e dia santo, música, dança e cachaça no terreiro. A descrição que Hecht faz dos artefatos de música utilizados pelos escravos é o de um arco feito de cordas estiradas, preso ao corpo sobre uma cabaça e tocado por meio de uma vareta de metal com que se golpeiam as cordas do arco. Ao tocar tal instrumento um negro entoa uma cantiga e os outros escravos iniciavam uma dança. As escravas ficavam apartadas dançando em lugar separado. Hecht assim descreveu essa dança: “A maneira de dançarem é muito cômica. Eles correm uns contra os outros(será que devo contar isso?) até esbarrarem com força as barrigas, pulam para trás e giram bastante tempo num espaço pequeno, como se fossem um grande prato. Por seu grande entusiasmo, poder-se-ia inferir que a música é excelente, mas é difícil imaginar algo mais pobre.


A música continua sempre no mesmo ritmo e o tocador canta ou resmunga junto com ela. Se um dos que dança se cansa, um outro salta depressa para o seu lugar e faz os mesmos movimentos.” A dança a que se refere o colono suíço provavelmente é o lundu, muito dançado pelos escravos. O decoro de Hecht quanto à dança, não sabendo se contava ou não, deve-se ao fato de no lundu, homens e mulheres darem umbigada, o que para os europeus parecia não ser algo decente. Depois da dança, os escravos jogavam uma espécie de entrudo. Cada um tenta de surpresa lançar lama sobre o outro ou então arremessar o outro numa poça de lama. Gingavam com tamanha agilidade, a ponto de não serem reconhecidos, surpreendeu-se Hecht. Aquele que foi arremessado se recupera, corre atrás do outro e procura vingar-se. Essas brincadeiras se estendiam noite adentro, até que todos, “se atirem cansados e ensopados em seus leitos miseráveis”.


Em algumas entrevistas realizadas com antigos moradores, que tem as histórias de seus ancestrais, percebe-se que a inserção do afro descendente em Nova Friburgo foi prejudicada em razão da hegemonia no seio da população de imigrantes europeus. Raramente um afro descendente foi admitido nas nascentes indústrias que se implantaram no município. No início XX, eram vistos fornecendo legumes e verduras de suas pequenas roças, confeccionando balaios de taquara, trabalhando como vendedores ambulantes e empregando suas filhas nos serviços domésticos. E paulatinamente, os afros descendentes vêm conquistando o seu espaço na sociedade friburguense.

Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas

Dentro da estatística fornecida pelo meu blog, percebo um grande interesse pelo tema Escravidão em Nova Friburgo. Sugiro então o livro “Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas” de Jorge Miguel Mayer e Edison Lisboa, cuja resenha feita pelo Prof. João Raimundo, como segue abaixo, nos mostra o que representa essa obra. Boa Leitura.



HISTÓRIA REGIONAL E ESCRAVIDÃO
João Raimundo de Araújo
Titular de História do Brasil da FSD
Dr. em História Social pelo PPGH-UFF
LISBOA, E. de C.; MAYER, J.M. Os crimes da Fazenda Ponte de Tábuas – Um
estudo sobre a escravidão em Nova Friburgo no século XIX, Nova Friburgo: Marca,
2008.




O crescimento da pesquisa histórica no Brasil a partir do desenvolvimento dos cursos de pós-graduação desde o último quartel do séc. XX tem trazido interessantes resultados, seja na revelação de fontes, ou na produção de novos e enriquecedores estudos historiográficos. Este é o caso da obra em questão. Acrescente-se ainda o fato de tratar-se de uma pesquisa que se enquadra perfeitamente nos pressupostos da chamada História Regional. Um trabalho de pesquisa nos arquivos do Cartório do 2º Ofício do município de Nova Friburgo possibilitou adescoberta de um processo criminal de 1850, que tratava de um conflito entre feitores e escravos da Fazenda “Ponte de Tábuas”, localizada nas proximidades do atual distrito de Conselheiro Paulino. A importância da descoberta desta fonte transcende os limites do município, já que, sem dúvida alguma, trata-se de interessantíssimo documento para o estudo da escravidão brasileira em geral e, não menos importante, para o estudo da escravidão na Vila de São João Batista de Nova Friburgo. Durante longos anos, alguns intelectuais encarregados de escrever a história oficial de Nova Friburgo perseguiram o lema da criação da “Suíça Brasileira”, a partir da chegada dos imigrantes suíços no início de 1820. Tratava-se de uma colônia criada por um decreto Real (16 de maio de 1818) e que seria responsável pela implantação, em plenos trópicos, de uma comunidade baseada na pequena propriedade e na predominância do trabalho de homens e mulheres livres. Desse modo, a escravidão negra, que se alastrou por áreas rurais e cidades do Brasil, não caracterizaria a colônia dos suíços em Nova Friburgo. Entretanto, a criação, nos anos 80, de um grupo de pesquisadores oriundos do meio universitário - Departamento de História da UFF e da Faculdade S. Doroteia - baseados nos pressupostos da História como “ciência em construção” veio a mudar radicalmente o rumo dessas questões, estimulando a pesquisa de fontes históricas e a elaboração de teses, dissertações e monografias sobre Nova Friburgo. Ressalte-se o pioneirismo da obra A Gênese de Nova Friburgo, do historiador suíço Martin Nicoulin, publicado pela Editora da Biblioteca Nacional, redefinindo o debate sobre as origens, a história e a construção colonial de Nova Friburgo.
A obra que ora resenhamos insere-se nesse contexto de revisão em torno das origens e - por que não? - da própria História e é, sem dúvida, parte importante desse novo olhar, criador de uma nova identidade percebida pelos historiadores a partir dos
anos 80.

O trabalho de Edson Lisboa (licenciado em História pela Faculdade S. Doroteia de Nova Friburgo) e de Jorge Miguel Mayer (Professor Associado do Departamento de História da UFF, Doutor em História pelo PPGH-UFF) estuda um processo criminal relativo a uma violenta revolta de escravos, ocorrida no ano de 1850, na Fazenda Ponte de Tábuas, de propriedade do Comendador Boaventura Ferreira Maciel, em Nova Friburgo. A descrição do fato com riqueza de detalhes é, antes de mais nada, revelador de um processo de luta de classes, não faltando até mesmo o assassinato do feitor, de dois trabalhadores da fazenda, e a espetacular fuga de um significativo número de cativos.

A princípio, o livro conta com um Prefácio elaborado pelo historiador Ciro Flamarion Santana Cardoso, que efetua uma interessante discussão teóricometodológica em que confronta os historiadores que veem a História a partir de uma visão de Totalidade, com os pós-modernos cujos trabalhos não chegariam ao centro das questões. Esta obra, além da contribuição para os estudos regionais é, também, uma contribuição para os estudos baseados na Totalidade histórica.
O 1º capítulo, intitulado “Contribuição ao Estudo da Escravidão” constitui um conjunto de argumentos ressaltando o valor desse tipo de estudo baseado em fontes como inquéritos e processos criminais. Neste caso, a contribuição se faz ainda no que tange ao aprofundamento de questões que valorizam os estudos regionais.

O 2º capítulo, intitulado “A Fuga e o Processo” trata da exposição de relatos constantes nos autos – a fonte histórica -, onde são percebidas as vozes dos protagonistas do fato. As perguntas formuladas à fonte constituem subdivisões do capítulo e revelam os motivos causais bem como a lógica dos crimes e da fuga dos escravos. O leitor desta parte da obra passa a ter noção clara da violência estrutural do regime escravocrata em geral e, especificamente, como essa violência se fazia no cotidiano dos escravos desta fazenda através das ações, sem limites, dos agentes dos
proprietários. Neste caso, a reação dos escravos revela também um alto grau de violência comprovado nos trechos relativos aos depoimentos dos legistas encarregados dos exames de corpo de delito. É importante ressaltar, neste capítulo, o trecho referente ao subtítulo “Raízes do Conflito”, onde o leitor pode concluir que os crimes e a fuga dos escravos são respostas possíveis à manutenção do sistema desumano e hediondo representado pelos três séculos de escravidão no Brasil.

O 3º capítulo, “Inquérito sobre a escravidão em Nova Friburgo” é menos descritivo, porém bem mais analítico que o capitulo anterior. Nele, os autores revelam preocupação no sentido de conhecer e entender a escravidão negra no seu contexto temporal e espacial. A presença da escravidão negra em Nova Friburgo é uma verdade inquestionável, mesmo que a vila tenha sido a princípio colonizada por imigrantes suíços. Os elementos básicos de um sistema montado numa economia agrária e escravocrata não sofreram alterações profundas mesmo numa realidade de pequenas e médias propriedades dedicadas à policultura. Efetivamente, a presença dos colonos
suíços e alemães não foi capaz de mudar mais profundamente o quadro da escravidão na antiga região da fazenda do Morro Queimado. Helvéticos e germânicos, na verdade, adaptaram-se ao mundo da escravidão, revelando absoluta incapacidade de transformálo em sua essência.
A edição do livro “Os crimes da fazenda Ponte de Tábuas” tem enorme importância para os estudos relativos à História Regional/Local, dando visibilidade à existência da escravidão negra em Nova Friburgo, fato negado por alguns escritores do município. Consideramos ainda que o trabalho dos historiadores Lisboa e Mayer constitui-se de maior valor, por revelar uma fonte inestimável para todos aqueles interessados em estudar o passado para melhor compreender o presente, objetivando mudá-lo. Trata-se ainda, de um livro muito bem escrito, de fácil compreensão e que certamente se destina a um público não apenas da academia, mas a todos curiosos e interessados em nossa História.
Vale muito conferir.



DECIFRA-ME OU TE DEVORO: POR QUE A POLÍCIA É TÃO VIOLENTA?

Édipo expõe o Enigma da Esfinge. Obra de Jean Auguste Dominique Ingres, 1808. Museu do Louvre. Paris.


No carnaval de 1901, a imprensa noticiou cenas de violência da polícia contra os cidadãos friburguenses que procuravam se divertir durante os folguedos carnavalescos. Policiais que se achavam em ronda no Beco do Arco(atual Rua do Arco), causaram grande distúrbio, pondo em completa debandada os “mansos transeuntes e os inocentes assistentes”. Relatou o jornal O Friburguense que a polícia, “transformando sabre em sardinha”, a bambolear o corpo com gestos de capoeiragem e atitude agressiva, ameaçava a tudo e a todos, retirando-se somente quando o beco ficou deserto pela fuga precipitada do povo indefeso. Atualmente, quando a sociedade brasileira se reconciliava com a Polícia no episódio da ocupação do Complexo do Alemão em dezembro desse ano, no Rio de Janeiro, eis que começam a surgir denúncias de violência policial contra a população daquela comunidade. Mas quais são as raízes dessa violência policial? Do ponto de vista da história não se pode estabelecer sempre uma relação de causa e efeito, mas há fatores determinantes que merecem ser considerados. Como em Édipo Rei, de Sófocles, e tentando decifrar o enigma da esfinge, acredito que essa violência se inicie por influência da instituição da escravidão. Era a Intendência Geral da Polícia que, por solicitação dos senhores de escravos, aplicava açoites para correção dos mesmos. Esse “serviço” era remunerado pelo proprietário do escravo, que pagava por cento de açoites e entrava como renda da polícia. Quando em 1824, assumiu como Intendente Geral da Polícia, Teixeira de Aragão, expediu portaria recomendando ao administrador do Calabouço(prisão) que na aplicação dos castigos aos escravos se considerasse a idade e a robustez dos supliciados. Em outra portaria determinava aos senhores de escravos que “os trouxessem sempre vestidos, sem ofensa à moralidade pública e à piedade humana.” Estamos aí esboçando uma prática da polícia, o açoite de escravos, que pode ter degenerado a instituição policial na sua formação.


A polícia foi um instrumento utilizado por José Bonifácio, então ministro do Estado de Negócios de D. Pedro I, para perseguir adversários políticos. José Bonifácio não contemporizava com os opositores e assim inaugurou um sistema repressor e inquisitorial na polícia tornando-a uma arma terrível em suas mãos. Competia à polícia obedecer cegamente às suas ordens, constando nos registros policiais um período sombrio de degredos e prisões ditadas pela vesânia de Bonifácio e do próprio D. Pedro I, que viam conspiração contra o governo em qualquer manifestação, como simples reuniões e conciliábulos. D. Pedro I chegou a fazer uma proclamação ao povo criticando a violência dos policiais e declarando-se avesso ao despotismo e as arbitrariedades praticadas pela Intendência Geral de Polícia. Mas pode ter sido uma farsa para minimizar as tensões provocadas pela violência policial. O poder de polícia tinha um papel tão destacado na sociedade que gerou ídolos como o famoso “Onça”, uma espécie de “capitão Nascimento” de outrora. O “Onça” remonta ao século XVIII quando não existia ainda a instituição da polícia de acordo com o modelo atual e era comandada pelos governadores das capitanias. Luiz Vaía Monteiro, um jovem fidalgo português, ganhou a alcunha de “Onça” porque livrou a cidade do Rio de Janeiro da malta de malandros, mandriões e jogadores. Granjeou o reconhecimento público dos cariocas e marcou uma época durante a sua gestão. Bastava dizer “Aí vem Onça!” e a debandada era geral. Pode-se afirmar que a sua reputação chegou aos tempos atuais, pois ainda hoje quando alguém quer se referir há um tempo que já vai longe, um tempo antigo, se diz: “desde o tempo do Onça”. Já no início do governo de D. Pedro II foi atribuído ao Chefe de Polícia, delegados e subdelegados super poderes, através da Reforma de 1841 do Código de Processo Criminal, onde atribuições judiciais foram transferidas dos juízes de paz para a polícia, fenômeno que se denomina de policialismo judiciário.


Na República Velha é impressionante o comportamento libertino e devasso dos “praças”(policiais) em Nova Friburgo. Eram descritos frequentemente embriagados, da menor a mais alta patente, inclusive o comandante do quartel e viviam sempre envolvidos em jogatinas proibitivas. Na coluna “solicitadas” do jornal O Friburguense, que transcrevia as cartas dos leitores, boa parte das reclamações dizia respeito à má conduta dos policiais. As maiores vítimas da violência desses policiais eram os rapazes e não havia, nesse aspecto, distinção de classe social. Por fim, não se pretende aqui simplificar o problema nem esgotar a discussão, mas se percebe que a conduta policial nasce sob a égide da violência proporcionada pelo próprio governo central que utilizava essa instituição para fins casuísticos como perseguir desafetos políticos. Consequentemente, a instituição introjetou em sua cultura a violência respaldada pelo próprio governo. Acrescente-se a isso o cotidiano de violência provocada pelo cancro da escravidão em nossa sociedade. Essa conjuntura somente poderia resultar o que hoje percebemos na polícia, tanto civil, quanto militar: a violência. A polícia e a sociedade necessitam se reconciliar, mas cabe-nos cobrar de forma mais efetiva do governo estadual melhor preparo e melhor salário para os policiais, se quisermos uma boa polícia. Isso porque, em hipótese alguma, desejamos na polícia o belicoso “capitão Nascimento” de Tropa de Elite.

Fontes dessa matéria: Jornal O Friburguense e livro "História da Polícia do Rio de Janeiro", volume I, de Mello Barreto Filho e Hermeto Lima.



Nesse vídeo o historiador José Murilo de Carvalho fala sobre a violência no Rio de Janeiro, do BOPE, do jogo do bicho, da animosidade entre a população e a polícia e do papel do policial no Rio de Janeiro.




O MITO DA IGUALDADE RACIAL

Pessoas detidas pela Polícia Militar em uma comunidade no Rio de Janeiro. Governo Leonel Brizola. Na ocasião, o policial alegou ter utilizado corda nos detidos por falta de algemas na instituição.

Os pretos do libambo. Escravos fugitivos conduzidos pelos capitães do mato.


Gilberto Freyre, não obstante a genialidade de sua obra sobre a história do Brasil, adocicou com o açúcar colonial as relações raciais em nosso país, descrevendo um idílico cenário de democracia racial brasileira. Freyre argumentava que a distância social, no Brasil, fora resultado muito mais de diferenças de classe do que de preconceitos de cor ou raça. No entanto, cientistas sociais dos anos 60, a exemplo de Florestan Fernandes, o principal estudioso das relações raciais no Brasil, comprovaram exatamente o contrário, ou seja, que havia em nossa sociedade a exclusão social de pessoas em decorrência de sua cor. Não houvesse o preconceito das elites brancas no Brasil contra a raça negra, Machado de Assis não seria perseguido em toda a sua vida por três pesadelos: seus ataques epiléticos, sua origem modesta e sua cor mulata, três fontes de medo, ansiedade e vergonha. Mas, nos reportemos à Nova Friburgo.

Na virada para o século XX, Nova Friburgo possuía 67% de sua população constituída por brancos e 32% entre negros, mestiços e caboclos. Como resultado da prevalência da raça branca sobre a negra e mestiça, percebe-se nas memórias de alguns friburguenses que nasceram nos primeiros decênios do século XX, um preconceito de raça, provocadas possivelmente pelas idéias eugenistas que tiveram boa recepção no município, a exemplo do que professava o Prof. Júlio Caboclo, que ironicamente tinha um sobrenome que não condizia com suas idéias de superioridade de uma raça sobre a outra. Mas passemos às memórias. Nondas da Cunha Ferreira, agricultor de Mury, nascido em 1929, nos traz um interessante relato: “Eu ouviu falar, mas não posso provar, que a escravidão em Friburgo acabou mais cedo. Os alemães e suíços eram muito racistas e então eles alforriaram os escravos mais cedo para sair da cidade e que fossem para os outros municípios. Eu me lembro de uma época que eu tinha lá os meus 10 anos, eu guardo muito coisa modéstia à parte, e então a fábrica[refere-se às indústrias que se instalaram em Friburgo a partir de 1910] tinha lá os seus mil e poucos operários e tinha uma colourede só. Querendo ou não querendo a maior parte do mundo é racista(...) e ninguém pode tirar essa idéia de ninguém.(...)Sem dúvida nenhuma, hoje as pessoas escondem as coisas, era[no passado] um racismo sem transparência”.
Curiosamente, a Praça do Suspiro, que tinha recebido o nome de Praça 13 de Maio pela Câmara Municipal, em ata da sessão extraordinária de 21 de maio de 1888, em homenagem a extinção da escravidão no Brasil, perdeu esse nome no decorrer dos anos, um fato que merece ser investigado. Uma situação envolvendo a intolerância racial ocorreu com o Esperança Futebol Clube. Esse clube escolhera as cores pretas e brancas. Mas essas cores logo despertaram a ironia e o sarcasmo, pois havia muitos mulatos no time, associando a cor preta e branca à mulatice dos jogadores. A diretoria do clube, incomodada com a gaiatice da população, mudou as cores do time para verde e branca. Ainda com relação às memórias, segundo relatos, havia em Nova Friburgo, na Praça Getúlio Vargas, duas alamedas: em uma alameda passava os ricos e brancos e na outra passava a classe popular e as “pessoas de cor”. Por Outro lado, no “Grito da Mocidade”, um bar próximo a “Casa de Moças Damas”, na subida do cemitério, homens brancos eram proibidos de freqüentar, salvo raras exceções.


No entanto, transcorridos três séculos e meio de escravidão de africanos na história do Brasil, cada um procurou fazer a sua parte e Nova Friburgo assim o fez. O Decreto municipal n°47 de novembro de 1983, institucionalizou o movimento negro e igualmente a sua bandeira. Nesse documento, se reconhece que na história do município, quando os colonos aqui chegaram, já encontraram negros a mourejar na construção dos alicerces sobre os quais se construiria Nova Friburgo. O decreto é afirmativo, declarando que o povo friburguense deseja redimir-se das injustiças praticadas contra os seus irmãos negros no decorrer de sua história. A bandeira do movimento negro é composta de três faixas horizontais, de igual largura, com as seguintes cores e respectivas representações: vermelho, representando o sangue e a vida dos povos negros; o negro, representando a raça negra e finalmente o verde, a esperança de dias melhores e igualmente a natureza, com quem a raça negra sempre soube conviver harmonicamente.
Essa bandeira encontra-se no panteão juntamente com as outras bandeiras dos povos que colonizaram o município. Nova Friburgo redimiu-se, ao menos a nível institucional, de uma injustiça social. Apesar da crítica inicial que fiz a Gilberto Freyre, finalizemos com uma frase sua sobre a cultura nacional: “O Brasil parece que nunca será, como a Argentina, um país quase europeu; nem como o México, ou o Paraguai, quase ameríndio. A substância da cultura africana permanecerá em nós através de toda a nossa formação e consolidação em nação.”






O BARÃO DE NOVA FRIBURGO:UM ILUSTRE TRAFICANTE DE ESCRAVOS

Antonio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo



Bernardo Clemente Pinto trouxe a linha ferroviária até Nova Friburgo

As gerações futuras dos Clemente Pinto na intimidade da família



Acima, os fundos do solar do Barão de Nova Friburgo. As propriedades do centro de Nova Friburgo,
no século XIX, se estendiam até os limites do Rio Bengalas
Quando se reconhece na história do Brasil um indivíduo de grande fortuna, pode-se praticamente supor que fosse um traficante de escravos, em virtude dos imensos lucros que tais transações alcançavam. Quando foi oficialmente extinto em 1850 o tráfico de escravos no Brasil, o volume de capitais empregados no tráfico era de tal monta que imediatamente surgiu o Código Comercial para regulamentar a febre de negócios provocada pela liberação de capitais até então aplicados exclusivamente na compra e venda de escravos. Antônio Clemente Pinto(1795-1869), o Barão de Nova Friburgo, era um indivíduo apenas remediado quando veio de Portugal para Brasil em 1807, com 12 anos de idade. A origem de sua fortuna é mencionada por um cronista da época. Quando o barão suíço Von Tschudi visitou a região de Cantagalo no século XIX, ao se referir ao Barão de Nova Friburgo, assim escreveu: "...é o mais rico fazendeiro, não só do Distrito de Cantagalo, como de todo o Brasil (…). É português de nascimento (…) veio para o Brasil sem vintém (…) circulam muitas versões quanto à natureza de seus negócios e do modo por que chegou a ser possuidor de tão avultada riqueza (…). O novo-rico é em toda a parte do mundo objeto de inveja e maledicência (…). O que acontece em muitos casos, no Brasil, onde existe mesmo um provérbio bastante malicioso que diz, quem furtou pouco fica ladrão, quem furtou muito, fica barão”, o que bem ilustra o pensamento do povo...”

Acima a Fazenda Gavião em Cantagalo
Há comprovação de que o Barão de Nova Friburgo tornou-se um homem próspero graças ao tráfico de escravos. Dedicou-se ao tráfico entre a África e o Rio de Janeiro no período de 1811 a 1830, fornecendo escravos para as lavouras emergentes de café. Obteve igualmente do governo imperial sesmarias nos Sertões do Macacu onde explorou minas de ouro, porém, sem muito sucesso, e foi um dos primeiros a cultivar o café na região fluminense. Possuía em meados do século XIX quase duas dezenas de latifúndios em Cantagalo, considerada a região em que se aplicava o pior tratamento aos escravos no Brasil. Cantagalo ganhou fama entre as províncias brasileiras não só pela riqueza gerada por seus cafezais em meados do século XIX, como pela crueldade com que tratavam os escravos, os fazendeiros da região. Não faltam relatos de viajantes descrevendo as sevícias dos fazendeiros daquela localidade em relação aos seus escravos. Entre eles se encontrava o Barão de Nova Friburgo.

O Palácio do Catete, que foi sede da presidência da República quando o Rio de Janeiro foi capital federal,
foi de propriedade do Barão de Nova Friburgo, sendo por ele edificado

Em Nova Friburgo até hoje tem-se o hábito de tecer preito ao Barão de Nova Friburgo, o “ilustre” traficante de escravos. As atas da Câmara de Nova Friburgo no século XIX não se cansam de louvar e fazer deferência aos Clemente Pinto pelos benefícios trazidos ao município. Mas pergunta-se, os Clemente Pinto procuravam beneficiar o município ou às suas propriedades? Ora, todas as doações que realizaram para o “aformoseamento” da atual Praça Getúlio Vargas, visavam tão somente beneficiar o seu rico solar que ficava em frente a esse logradouro público. E quanto ao desenvolvimento que a malha ferroviária trouxe a Nova Friburgo graças ao barão e seu filho Bernardo? Certamente o trem trouxe um grande impulso econômico a Nova Friburgo, mas objetivava-se precipuamente o escoamento da produção de café do barão de suas inúmeras fazendas em Cantagalo, barateando o seu custo. Mas o barão não foi o único a auxiliar o município. Cumpre destacar que no século XIX, a receita da Câmara era tão exígua que muitas obras em estradas, pontes e estivas eram realizadas na base da subscrição, ou seja, doação dos fazendeiros locais para as respectivas melhorias na infra-estrutura viária da então vila.
Finalmente, os áulicos do barão gostavam de tecer loas aos seus herdeiros por terem libertado seus escravos antes mesmo da abolição da escravidão. Em 1888, os herdeiros do Barão de Nova Friburgo, às vésperas da abolição, libertaram de forma oportunista, 1.300 escravos. Certamente deveriam ter informações privilegiadas na Corte de que a escravidão seria extinta brevemente. Os Clemente Pinto eram próximos da família imperial que por mais de uma vez se hospedaram em suas propriedades. Sobre esse episódio relata-se que os ex-escravos teriam ficado tão gratos com sua libertação que se recusaram a receber os salários da próxima colheita do café. Os herdeiros do barão receberam honras e títulos do imperador D. Pedro II por esse gesto.
Na verdade, trata-se de uma estratégia que muitos fazendeiros utilizaram libertando seus escravos antecipadamente já que o fim da escravidão era iminente. Com isso, angariavam a simpatia dos libertos que se mantinham nas fazendas ao invés de abandonarem-nas. Stanley Stein em “Grandeza e Decadência do Café”, coloca essa discussão sobre a libertação antecipada entre os fazendeiros de Vassouras no sentido de evitar a evasão dos escravos quando fosse decretado o fim da escravidão. Por fim, gostaria de colocar que a figura do Barão de Nova Friburgo deve ser sempre destacada na história do município, mas na qualidade de um membro da elite de singular importância no progresso da região, já que ele foi o nosso “Mauá”. No entanto, cabe destacar que a origem de sua fortuna foi construída à custa do marchandise humaine, como diziam os suíços. É sempre bom lembrar que por trás daquela figura “benemérita”, cercada de títulos e honras, se encontra um "ilustre" traficante de escravos.
Abaixo, as principais propriedades dos Clemente Pinto em Nova Friburgo, pela ordem: O antigo pavilhão de caça da família(hoje o Sanatório Naval), o solar (tombado pelo patrimônio histórico municipal) e o chalet no Parque São Clemente(hoje pertencente ao Nova Friburgo Country Club)




Visita ao Palácio do Catete do Rio de Janeiro, antiga residência do Barão de Nova Friburgo. Atualmente Museu da República.

A HISTORIA DO QUILOMBO DE MACAÉ DE CIMA CONTINUA...





Região, onde hoje é Casimiro de Abreu, e encontramos referência da existância de um quilombo.

Resolvi interromper a programação de matérias que fiz sobre a escravidão em Nova Friburgo, por um motivo louvável. Recebi um comentário do professor de história da UFF e pesquisador sobre a escravidão em Nova Friburgo, Prof. Jorge Miguel Mayer, e não posso deixar de tornar público ao leitor de A Voz da Serra a posição desse ilustre historiador sobre a história do quilombo de Macaé de Cima. Fazendo um resumo da matéria da semana passada, descrevi a migração dos colonos suíços do Núcleo dos Colonos para as terras devolutas no Sertão das Cachoeiras do Rio Macaé, local onde havia um quilombo. Contrariando a versão de que houve confronto entre os suíços e os quilombolas, como descreve o historiador Martin Nicoulin, afirmei que ao invés do conflito, houve um acordo entre os suíços e os quilombolas, adquirindo os primeiros as plantações dos escravos fugitivos, que acabaram abandonando a região, se deslocando rio abaixo.

O Prof. Jorge Miguel discorda de minha colocação e transcrevo aqui a versão dele sobre esse episódio para que o leitor conheça outras opiniões sobre o assunto: “... Tenho me interessado sobre o assunto e buscado algumas fontes. Nunca soube de qualquer quilombo em Macaé de Cima. Existem, sim, referências a quilombo no vale do Macaé, porém muito abaixo. No livro de Nicoulin há a narração de incursões dos suíços no vale do Macaé. Na ocasião um suíço da família Sardemberg teve seu pé atravessado por uma armadilha protetora do suposto quilombo. Nicoulin transcreve uma carta de colono que afirma que os suíços se impuseram aos quilombolas e se apoderaram de suas plantações. Nada amigável, portanto! Há uma outra carta em que desrespeitosamente colonos falam em ir à região do quilombo. Creio que esta informação (ver Nicoulin) deve ser levada em conta e confrontada com a informação transcrita de que houve uma negociação amigável. Fica difícil aceitar o fato dos suíços e os africanos estarem irmanados por um sentimento comum: longe de seu torrão natal, em busca da sobrevivência em terras estrangeiras. Não vejo qualquer fundamento para esta pretensa aliança que contrasta com a postura transcrita por Nicoulin. Você coloca esta versão como uma possibilidade. Acho difícil. Embora houvesse fazendas na área, havia também muitas terras sem definição de propriedade. Não há comprovação, nem da aliança nem de conflitos, com fazendeiros. Pode-se supor que os quilombolas se defendiam contra os fazendeiros, o Estado e todo aquele que pretendia tomar suas terras.(...)Disponho também das informações sobre quilombos nas nascentes do Macabu e em Trajano de Morais. Enfim, próximo à região serrana, havia quilombos. Há que se estudar as relações com a sociedade local bem como buscar informações sobre as dimensões destes quilombos, que como se sabe não eram todos iguais.”


Como vimos, o Prof. Jorge Miguel, um estudioso sobre a escravidão em nossa região, discorda da composição entre suíços e quilombolas. Mas qual foi a fonte que fundamentou a minha versão? Trata-se de uma fonte extraída do livro “A Imigração Suíça no Brasil”, de Armindo Muller, sobre as memórias do suíço Hecht que veio para Nova Friburgo com os demais colonos no início do século XIX. No entanto, a perda de um de seus dois filhos em Nova Friburgo o desestruturou muito, e somado a outras dificuldades, acabou retornando para a Suíça. O suíço Hecht, ao retornar ao seu país, escreveu em suas memórias interessantes fatos do seu cotidiano em Nova Friburgo e um deles refere-se a esse episódio de migração dos colonos suíços para o Sertão das Cachoeiras do Rio Macaé e seu contato com os quilombolas. Hecht deixou o seguinte registro em suas memórias:“...haviam estabelecido negros foragidos com maravilhosas plantações. O lugar, a localização e as plantações tanto agradaram, que iniciaram conversas com os negros para adquiri-las(...)O líder dos negros, que andava com uma espada desembainhada, falou assim: se vocês suíços fossem lavradores locais, teríamos entrado em luta com vocês; de forma alguma nos teríamos deixado aprisionar.(...)Com pouco dinheiro os colonos suíços compraram as plantações e os negros se mudaram dali. Esse lugar(...)chama-se Macaé...”.
Observem que a força de trabalho valia mais do que a terra propriamente dita, pois foram as “plantações” e não as “terras” que foram adquiridas dos quilombolas. É possível que Hecht tenha mascarado em suas memórias os fatos reais, ou seja, que houve realmente um confronto, para passar uma imagem positiva dos suíços? Não podemos descartar essa possibilidade, pois Hecht era um homem muito religioso, e não foram poucos os seus comentários de aversão ao tratamento dado aos escravos no Brasil. Por fim, apenas para esclarecer ao leitor, é muito comum entre os historiadores haver dissensão, ou seja, a divergência sobre determinados fatos, cujo debate só contribui para nos aproximarmos ao máximo da realidade histórica. Por conseguinte, não pude privar o leitor da opinião do eminente pesquisador Jorge Miguel sobre esse episódio. Ao menos, estamos colocando a escravidão dentro da história da Nova Friburgo, pois ainda há quem pergunte: Mas existiu escravidão em Nova Friburgo?

Segue, na íntegra, a carta do Prof. Jorge Miguel. No entanto, quando ele me corrige quanto à localização do quilombo, percebo que estamos falando de diferentes quilombos. Em Lumiar, existe uma rua chamada de "Rua do Quilombo" e é este a que me refiro como sendo o quilombo de Macaé de Cima. Pode estar aí a chave da questão se houve ou não conflito entre os suíços e os quilombolas. Estou me referindo ao quilombo de Macaé de Cima e ele do Vale do Macaé.
Prezada Janaína,

Sou um leitor assíduo de sua coluna sobre história
e memória, admirando
muito o seu trabalho. Concordo com você que há poucos
estudos sobre
escravidão em Nova Friburgo, agradecendo -lhe inclusive as
referências ao
meu livro com Edson e ao livro da saudosa Gioconda Losada.
Referências aos
quilombos e, sobretudo fontes, são ainda mais escassas.
Tenho me
interessado sobre o assunto e buscado algumas fontes. Nunca soube
de
qualquer quilombo em Macaé de Cima. Existem, sim, referências a quilombo
no vale do Macaé, porém muito abaixo. No livro de Nicoulin há a narração
de incursões dos suíços no vale do Macaé. Na ocasião um suíço da família
Sardemberg teve seu pé atravessado por uma armadilha protetora do suposto
quilombo. Nicoulin transcreve uma carta de colono que afirma que os suíços
se impuseram aos quilombolas e se apoderaram de suas plantações. Nada
amigável portanto! Há uma outra carta em que desrespeitosamente colonos
falam em ir à região do quilombo. Creio que esta informação ( ver
Nicoulin) deve ser levada em conta e confrontada com a informação
transcrita de que houve uma negociação amigável. Fica difícil aceitar o
"fato dos suíços e os africanos estarem irmanados por um sentimento
comum:longe de seu torrão natal, em busca da sobevivência em terras
estrangeiras". Não vejo qualquer fundamento para esta pretensa aliança que
contrasta com a postura trascrita por Nicoulin. Você coloca esta versão
como uma possibilidade. Acho difícil. Embora houvesse fazendas na área,
havia também muitas terras sem definição de propriedade. Não há
comprovação, nem da aliança nem de conflitos, com fazendeiros. Pode-se
supor que os quilombolas se defendiam contra fazendeiros, Estado e todo
aquele que pretendia tomar suas terras. Aproveito o ensejo para lembrar
que existe um local ainda hoje chamado quilombo que mereceu uma pesquisa e
um filme interessante de Renata de Azevedo - Quilombo, cuja cópia será
entregue à Biblioteca da Faculdade Santa Dorotéia. Posso inclusive pedir a
Renata que disponha de cópias para divulgar em instituições da região
serrana. Disponho também das informações sobre quilombos nas nascentes do
Macabu e em Trajano de Marais. Enfim, próximo à região serrana, havia
quilombos. Há que se estudar as relações com a sociedade local bem como
buscar informações sobre as dimensões destes quilombos, que como se sabe
não eram todos iguais. Jorge Miguel Mayer

A ESCRAVIDÃO EM NOVA FRIBURGO: A HISTÓRIA DO QUILOMBO DE MACAÉ DE CIMA


No princípio do século XIX, os suíços foram cooptados para fundar uma colônia no Brasil, objetivando-se fundamentalmente a produção de alimentos, à margem da economia nacional baseada na monocultura e na mão de obra escrava sobre o latifúndio. No entanto, como algumas datas de terra distribuídas não eram úberes, muitos suíços abandonaram o Núcleo Colonial e procuraram terras mais produtivas. Na ocasião em que os colonos buscaram essas novas terras, há um interessante episódio envolvendo os suíços e os quilombolas. Curiosamente, nessa ocasião, o governador militar e diretor da colônia, o tenente coronel João Manoel de Almeida Moraes Pessanha, indica aos colonos suíços as “novas terras do sertão das Cachoeiras do Rio Macaé”, local onde havia um quilombo. Ao que parece, eram terras devolutas, ou seja, terras abandonadas e que consequentemente retornavam à propriedade da Coroa Portuguesa. Logo, a partir de 1821, os suíços insatisfeitos com as terras do “Núcleo dos Colonos”, ocuparam a região de Macaé de Cima, conforme recomendou o coronel Pessanha, e que originariamente não fazia parte das datas de terra outorgadas aos colonos. Há registro de que foram autorizados por D. Pedro I a ocuparem essa região.
A princípio, parece que o coronel Pessanha indicou essas terras devolutas aos suíços no intuito de provocar um confronto entre eles e os quilombolas, cujo quilombo parecia não conseguir debelar. Não há comprovação de que o coronel Pessanha tivesse tal intenção, mas se não teve, acertou no que não viu, já que os quilombolas, devido o deslocamento dos suíços para aquela região, abandonaram essas terras, se deslocando rio abaixo. Porém, um episódio semelhante nos leva a crer que o coronel Pessanha tivesse tal intenção, ou seja, de provocar o conflito entre os suíços e os escravos fugitivos aquilombados. Em Pernambuco, em 1929, deu-se terras aos colonos alemães e suíços na localidade denominada de Catucá ou Cova da Onça. Naquela província, o plano era afugentar quilombolas, refugiados nas matas de Catucá, utilizando para tanto 150 famílias européias. Supunha-se que se instalando naquelas matas, colonos suíços ou germânicos extinguiriam os “negros do quilombo”. No entanto, os colonos se transformaram em simples carvoeiros e o quilombo cresceu de tal modo que foi necessário o Governo da Província lançar contra eles a Companhia de Caboclos Barreiros. Esse episódio é narrado por Gilberto Freire no livro “Sobrados e Mucambos”.

Retornando ao caso de Nova Friburgo, há registro de que houve contato entre os suíços e os quilombolas, mas não houve confronto. O pesquisador Rafael Jaccoud transformou esse episódio em um acontecimento épico favorável aos suíços, coroando-o como mais uma saga desses colonos em Nova Friburgo, assim escrevendo: “...Os suíços não demoraram a explorar as regiões circunvizinhas(...)Todos sabiam, no entanto, que as terras situadas ao longo do rio eram habitadas por quilombos, que formavam verdadeiras tribos hostis(...) Em 1821 correu a notícia de que no Rio de Janeiro estava sendo organizada uma companhia colonizadora para ocupar a região. Os suíços de Friburgo não perderam tempo, tomaram a dianteira e marcharam para conquistar as novas terras(...)O primeiro trabalho foi o de subjugar os quilombos(...) A conquista do Macaé converteu-se, pois, em outro episódio épico e, em pouco tempo, as margens do rio foram tomadas pelos corajosos suíços oriundos de Nova Friburgo.”


No entanto, no livro traduzido por Armindo Müller, “A Imigração Suíça no Brasil”, o colono suíço Hecht deixou o seguinte registro em suas memórias: “Eles[refere-se aos suíços]tinham deparado com um lugar, onde haviam estabelecido negros foragidos com maravilhosas plantações. O lugar, a localização e as plantações tanto agradaram, que iniciaram conversas com os negros para adquiri-las(...)O líder dos negros, que andava com uma espada desembainhada, falou assim: se vocês suíços fossem lavradores locais, teríamos entrado em luta com vocês; de forma alguma nos teríamos deixado aprisionar.(...)Com pouco dinheiro os colonos suíços compraram as plantações e os negros se mudaram dali. Esse lugar(...)chama-se Macaé...”.
Logo, não houve o confronto e sim, um acordo comercial entre os quilombolas e os suíços. Não eram igualmente “tribos hostis” como descreve Jaccoud, e sim, uma micro sociedade organizada, “com maravilhosas plantações”, onde muitos habitantes da localidade realizavam transações comerciais com os quilombolas. Somente para destacar, antes da chegada dos suíços, já havia ocupação de Macaé de Cima por alguns fazendeiros. É curiosa a animosidade dos quilombolas contra os fazendeiros luso-brasileiros e a solidariedade para com os suíços. Talvez isso se deva ao fato dos suíços e os africanos estarem irmanados por um sentimento comum: longe de seu torrão natal, em busca da sobrevivência em terras estrangeiras.
Abaixo: Remanescentes de populações quilombolas.

A ESCRAVIDÃO EM NOVA FRIBURGO: DEUS LHE DÊ BONS DIAS, DEUS LHE DÊ BOAS TARDES

No dia 20 do corrente mês é comemorado o Dia Nacional de Consciência Negra no Brasil. Para tanto, preparei uma série de três matérias sobre a escravidão em Nova Friburgo. Além do ensaio de hoje, incluirão os títulos “A História do Quilombo de Macaé” e “O Mito da Igualdade Racial”. Nova Friburgo foi criada para ser uma região que se caracterizasse pelo modo de produção predominantemente baseado na mão de obra livre. Chegou-se a ensaiar à época um projeto de lei que proibisse a utilização de mão de obra escrava nas colônias de imigrantes europeus espalhadas pelo Brasil. No projeto, havia ainda um artigo que coibia o próprio imigrante de possuir escravos, mas não se converteu em lei. Num verdadeiro paradoxo ao projeto de D. João VI de instalar colônias de homens livres no país que ficassem à margem das sociedades escravocratas, os próprios colonos suíços se converteram em senhores de escravos assim que sua situação financeira lhes permitiu. Era difícil fugir ao binômio monocultura(café) e escravos e Nova Friburgo acabou se transformando em uma sociedade escravocrata .

Em 1835, a população livre de Nova Friburgo era de 2.800 indivíduos contra 2.000 escravos. Cinco anos depois a população livre irá decair e a escrava aumentar. Mas a partir de 1850 a população livre irá se sobrepor à escrava com 4.187 indivíduos livres contra 2.927 escravos. Em 1856 serão 7.009 livres contra 3.874 cativos. Já em 1872, quando a população de Nova Friburgo atinge a margem de 20.656 habitantes, os escravos representarão 32% da população(6.684) contra uma maioria de livres(13.972), provavelmente em sua maior parte constituída de indivíduos brancos. A população escrava de Nova Friburgo não deixou de crescer até o terceiro quartel do século XIX, mas a partir de 1881, passa a declinar. Diminui-se a importação de cativos, substituída pela mão de obra de imigrantes europeus. Segundo os historiadores, a população escrava não aumentava pela reprodução na proporção da população livre pelos seguintes motivos: 1°: Porque, em geral, a importação era de homens e muito pouco de mulheres, pois o que se queria eram braços para lavoura; 2°: porque não se promoviam os casamentos. A família, salvo raras exceções, não existia para os escravos; 3°: Porque dificilmente se cuidava dos filhos devido às próprias condições da escravidão; 4°: As enfermidades, os maus tratos e o trabalho excessivo inutilizavam, esgotavam e matavam dentro em pouco grande número de escravos. Logo, com a diminuição da importação de escravos e a ausência de reprodução dos mesmos, pode-se afirmar que a população de Nova Friburgo foi se “branqueando” ao longo do século XIX.

Quase não existem fontes no Pró-Memória para se pesquisar sobre a escravidão em Nova Friburgo. Mas às turras os historiadores locais têm produzido alguns artigos e trabalhos, sendo que dois livros se destacam: “Presença Negra”, de Gioconda Lozada e “Os Crimes da Fazenda Ponte de Tábuas”, de Jorge Miguel Mayer e Edson de Castro Lisboa. Ainda quando o objeto de nossa pesquisa não é propriamente a escravidão, como é o meu caso, nos deparamos com alguns documentos no Pró-Memória. Achei um interessante anúncio de um escravo fugitivo na região que nos informa a maneira com que os escravos procuravam se libertar da escravidão. O anúncio publicado em O Friburguense em 17 de abril de 1881 demonstra perfeitamente a forma de resistência dos escravos e suas estratégias e dissimulações para livrarem-se do cativeiro. O capitão Luciano José Coelho de Magalhães, lavrador de Cantagalo, ofereceu a quantia de 1:000$000(um conto de réis) a quem capturar, ou a de 500$000 a quem der notícias certas de seu escravo José, pardo, idade entre 28 a 33 anos, marinheiro, cozinheiro, falquejador e serrador. José pertencera a um português que o castigou nas nádegas e nas costas pela “irregularidade de seu proceder”, destacava o anúncio, mas ele tinha o hábito de encobrir essas cicatrizes dizendo que as feridas das costas eram devidas ao “incômodo”(doença) que dava o nome de “fogo selvagem”. José era muito falante e cortês, ainda destacava o anúncio. Tinha a voz fina e quando cumprimentava as pessoas dizia sempre a seguinte frase: “Deus lhe dê bons dias” ou “Deus lhe dê boas tardes”. José, uma das raras “vozes” que possuímos dos escravos, viu na adequação aos padrões de comportamento do branco livre, a cortesia, uma forma de dissimular a sua condição de escravo.

ESCRAVIDÃO EM NOVA FRIBURGO


Nova Friburgo, considerada a Suíça Brasileira, foi em sua fundação uma sociedade escravocrata como outra qualquer. A população negra e escrava foi quase paritária com a população branca nos primórdios de sua história. No entanto, no decorrer dos anos, o número de imigrantes europeus foi suplantando ao de africanos, até que Nova Friburgo chega ao final do século XIX, com uma população majoritamente branca.


Mas tudo isso, é para dizer que ainda falta muita pesquisa sobre a escravidão em Nova Friburgo. No entanto, uma má notícia. No centro de documentação de Nova Friburgo não existe quase nenhuma fonte. Porém, nós historiadores temos tentado juntar os "cacos" para reconstruir essa história. Os livros "Presença Negra" de Gioconda Lozada e "Os Crimes da Fazenda Ponte de Tábuas", de Jorge Miguel Mayer e Edison Lisboa são um início dessa trajetória.


No ano passado, escrevi alguns artigos sobre a escravidão em Nova Friburgo, por ocasião dos festejos do dia da consciência negra, que estão à disposição nesse blog. Esses artigos me trouxeram uma grata surpresa. Recebi uma correspondência eletrônica da Secretaria de Igualdade Racial, na pessoa do secretário de Eloi Ferreira de Araújo, elogiando a iniciativa, o que me incentivou a pequisar ainda mais. Em novembro, postarei mais alguns artigos por ocasião dessse mesmo acontecimento. Três séculos e meio de escravidão em nossa história faz com que tenhamos uma dívida muito grande para com aqueles que foram apresados em sua nação e submetidos ao cativeiro no Brasil. Abaixo a correspondência que recebi da citada secretaria que me levou a levar essa pesquisa adiante.

Prezada Dra. Janaína, Li seus artigos publicados na "Voz da Serra", nos dias 05 e 12 de novembro deste ano, e faço questão de cumprimentá-la pelos textos. Trazer a baila os relatos dos sofrimentos dos negros brasileiros, durante o longo período da escravidão é um imperativo para que se transmita às novas gerações a verdadeira história do Brasil. O fim da escravidão não incluiu os negros e negras na nova sociedade que surgiu naquele momento. Educação, saúde, trabalho, habitação, terra, enfim direitos imprescindíveis para sua emancipação foram negados aos ex-escravos. Nestes 121 anos avançou-se muito timidamente na inclusão de políticas publicas para os negros(as). Por isso o presidente Lula exige rapidez e precisão na implementação de políticas públicas de inclusão de negros e negras. A contribuição do suor e do sangue dos negros e negras para a construção do Estado Brasileiro e formação da nossa nação, precisam ser ensinados nas escolas para valorização da identidade nacional e elevação da auto estima de nosso povo. Por isso professora, penso que seus artigos ajudam a remover os recalcitrantes em face às políticas afirmativas. As cotas raciais nas universidades e o PROUNI são exemplos de Ações Afirmativas, que tem levado pretos(as) e pardos(as) às universidades brasileiras como nunca antes na história deste país, sem perda de qualidade do ensino. A construção de um ambiente de igualdade de oportunidades e de superação dos preconceitos e do racismo dependem de políticas públicas, mas elas não seriam nada se não houver pessoas com o seu compromisso com a história e com a verdade. Um abraço,

Eloi Ferreira de Araujo Secretario Adjunto Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República-SEPPIR/PR Tel: 55 (61) 3411 4973 - Fax: 55 (61) 3226 5625 Esplanada dos Ministérios - Bloco "A", 9º Andar - Gabinete CEP - 70054-906 - Brasília - DF - Brasil www.presidencia.gov.br/seppir









http://cameraweb.ccuec.unicamp.br/video/UN4M17BGB1MN/

Observem essa cena. Não parece que na década de 60 ainda vivíamos a escravidão no Rio de Janeiro?

AS CIDADES MORTAS

Acima: Imigrante italiana, da família Zagnner, natural de Nápolis(Itália), que foi trabalhar nas lavouras de café de Valão do Barro.


Monteiro Lobato publicou um conto em 1906 intitulado “Cidades Mortas”, descrevendo a decadência das cidades outrora opulentas do Vale do Paraíba Fluminense. Lobato escreveu: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. Muitos habitantes dessas cidades mortas migraram para municípios mais prósperos, como o caso de Nova Friburgo que se tornou um ponto de convergência e referência educacional e cultural de inúmeras cidades do norte-fluminense. Vamos nos limitar a um único exemplo que serve de parâmetro para outros municípios. Valão do Barro, distrito de São Sebastião do Alto foi uma cidade próspera no século XIX. A revista Singra, encartada no jornal Correio da Manhã, descreve sobre essa cidade com um passado áureo e que depois perdeu toda a sua importância. E por falar em áureo, o ouro foi uma das razões da existência de Valão do Barro.


São Sebastião do Alto foi desbravada em 1770, com a chegada de diversos aventureiros às margens dos rios Grande, Negro, Macuco e afluentes, atraídos pela febre do ouro. Nos primeiros tempos, além de lutarem contra a natureza hostil, esses aventureiros ainda tiveram que enfrentar os índios coroados e goitacazes, senhores da região. O vice-rei Dom Luis de Vasconcelos e Sousa, ao ter notícia da existência desses garimpeiros em terras altenses, por volta de 1787, tomou providências para resguardar os interesses da Fazenda Real, enviando uma tropa militar à região. Entretanto, seus enviados verificaram que os aventureiros haviam esgotado os principais filões auríferos, não compensando mais a sua exploração. Muitos garimpeiros, já diante da incerteza da garimpagem, passaram a dedicar-se à lavoura do café e a criação. Surgiram inúmeras e prósperas fazendas de café na região devido a transferência do capital proveniente da lavra de ouro, a exemplo da Fazenda Monte Verde.


No planalto da serra “Deus-me-livre”, ponto obrigatório de passagem das tropas que se dirigiam a Macaé, procedentes de Cantagalo e até de Minas Gerais, surgia em 1840, o arraial de São Sebastião do Alto. Seu progresso foi rápido, sendo elevado à categoria de curato em 1852, e três anos depois já se tornava freguesia. Vivia sua época de esplendor, com latifúndios baseados na mão de obra escrava e na monocultura do café. A região é fértil com diversos rios e ribeirões lhes banhando as terras. Luiz Fernando Folly nos informa que Francisco Clemente Pinto, irmão do Primeiro Barão de Nova Friburgo, Comendador da Imperial Ordem de N.S.Jesus Cristo e Oficial da Imperial Ordem da Rosa possuía fazendas em Itaocara, Ibipeba, Pedra Lisa, Valão de Barro, entre outras.


Naturais de Valão do Barro

O fim da escravidão deixou, no entanto, as fazendas desertas e é nesse momento que alguns imigrantes italianos foram cooptados para substituir a mão-de-obra escrava. Mas São Sebastião do Alto não se reergueu, pois a estrada de ferro passava longe das fazendas e o sistema de tropas de mulas para transporte do café tornava sua produção não competitiva. Tivessem os trilhos de Macuco se estendido até Valão do Barro sua história seria outra. Assim, muitos fazendeiros trocaram suas atividades e passaram então para outro ramo: a pecuária. Em razão de sua decadência, somente muito tarde São Sebastião do Alto foi erguido à categoria de cidade, em 27 de dezembro de 1929. Transcorridos muitos anos, em 1953, Valão do Barro ainda apresentava aspecto colonial. Quando viajamos pelo interior fluminense, devemos ficar atentos para o fato de que atualmente muitas cidades pequenas, decadentes, “cidades mortas” como quer Monteiro Lobato, viveram fase de esplendor no passado. Valão do Barro, hoje um remoto lugarejo, é um exemplo de cidade sobre o qual passamos e sequer nos damos conta de sua importância no passado, visto que guarda muito pouca permanência de seu passado glorioso.



Acima: Segunda geração dos descendentes dos Zagnner

MINHA VIDA MÁGICA - Memórias

Acima Yolanda, já idosa, e seu marido Bonaventura no plano maior

“Acho que todas as pessoas deveriam escrever a história de suas vidas. Não para publicar, é óbvio, que isto é para os sábios, artistas, heróis....mesmo porque, quem é que iria se interessar pela obscura vida desta humilde filha de Deus que se chama Yolanda Brugnolo Lívio Barilari Bizi Cavalieri d´Oro?” Este pensamento de Yolanda, de que somente os grandes acontecimentos históricos, a exemplo de guerras e revoluções e os grandes personagens destes acontecimentos é que mereceriam destaque na história, não existe mais. Desde que os franceses fundaram a Escola de Annales, novos “atores” e objetos passaram a ser de interesse da história, entrando em cena o cidadão comum.

Yolanda nasceu em 1922, em Nova Friburgo, vindo a falecer em 2007. Descendente de imigrantes italianos que vieram para Friburgo no final do século XIX, escreveu uma deliciosa história de sua vida, cuja infância foi passada em Friburgo até seus oito anos de idade. Seu pai era caixeiro viajante, filho dos imigrantes Pedro Bizi Cavalieri d´Oro e Eugenia Barilari Cavalieri d´Oro, oriundos da aldeia de Commachio, província de Ferrara, na região Emília Romagna. Vieram para o Brasil já casados e com filhos. “Descendemos de família de italianos pobres, que vieram para o Brasil em fins do século XIX, por ocasião da grande imigração decorrente do alastramento da cultura cafeeira”, relata Yolanda. Pelo lado materno, vindos de Padova, região Veneto, vieram Marco Brugnolo e Catarina Brugnolo com seus três filhos. Um destes filhos seria Antonia, conhecida por Anita, que seria sua avó, casando-se com o também imigrante italiano Bonaventura Lívio. Sua avó Anita marcaria muito a sua infância.

A família de Yolanda, de um modo geral, não era como a de hoje classificada como “família orgânica”, consistindo de pai, mãe e filhos. Em sua casa e a de seus avós, povoam afilhados, primos, sobrinhos e uma parentela que troca de domicílio entre si, além dos criados que passam a fazer parte da família. Lembra uma típica família do tempo colonial e que parece ter sido ainda uma característica do início do século XX. Quem não tinha um sobrinho que deixava a casa de seus pais na roça e ia morar com a madrinha na cidade? No entanto, os homens não faziam o tipo paterfamilias, senhor autoritário da casa, pois as mulheres, ao menos estas imigrantes italianas, mandavam e muito. Yolanda tinha duas irmãs, Zaíra e Lúcia, e Ninita, esta última uma parenta que morava com ela e ajudou na sua criação. A condição social de sua família era de remediados, como se dizia à época, o que seria hoje uma classe média, já que moravam numa casa própria e tinham lazeres modestos. Residiam na Rua General Câmara, atual Augusto Spinelli, rua iluminada pelas lâmpadas fraquinhas dos magros postes da época. Não havia calçamento e sapos cruzavam para lá e para cá, além de cobrinhas que volta e meia se enrolavam nas pernas das crianças.

Toda a descrição de Yolanda será a de uma Nova Friburgo na década de vinte, do século XX, durante a infância dela. E como era Nova Friburgo naquela época? O frio intenso entra muito nas memórias de Yolanda, pois, segundo ela, “as florestas eram densas, os regatos abundantes(...)Eu ensaboava roupinhas de boneca e as punha ao sereno; amanhecia durinhas de gelo, o que me encantava(...). Recordo Ninita e Mamãe nos dando banho numa bacia, dentro do quarto fechado e depois passando o ferro quente nos lençóis das caminhas para que pudéssemos dormir.” Era uma Nova Friburgo em que as casas tinham vastos quintais, onde todos cultivavam legumes e verduras em pequenas hortas, a exemplo de couves e cenouras, além de um pomar com jabuticabeiras e laranjeiras carregadas de frutos dourados e as casas divididas por cercas de bambu.

Pouco mais de quarenta anos depois de extinta a escravidão(1888), suas memórias nos mostra como ficou a situação de ex-escravos e seus descendentes em Nova Friburgo. Sua infância é povoada de empregadas e crianças negras em sua residência, todos lembrados com muito carinho a exemplo dos “pretinhos” Lidia, Cidália e Simplício, tão difíceis de esquecer. Numa convivência doméstica e amistosa, nos remete a obra de Gilberto Freire, Casa Grande e Senzala, das mães pretas e negrinhos convivendo harmoniosamente com os senhores da casa.
Yolanda tinha quatro anos quando Felizmina veio trabalhar em sua casa. Era uma “crioula gorda”, de uns quinze anos, inteligente e muito tímida. Sua avó e sua mãe já haviam sido empregadas de sua casa, e a tinham trazido para que a mãe de Yolanda a ensinasse a trabalhar. Felizmina ficou na família por 27 anos. “Ajudou a nos criar, participando de nossa vida mais como amiga do que como empregada”, recorda-se Yolanda. Já sua avó Anita, racista, segundo ela, reclamava que a cozinha da casa de Yolanda parecia uma senzala, sempre cheia de negros. “E era verdade. Mamãe acolhia-os, ajudava-os, ensinava-os a ler, a viver. Também, nunca precisou fazer trabalhos pesados, sempre havia alguma negra adorando trabalhar para ela, verdureiros[negros] perguntando se D. Carmen queria “rapoio”(repolho), vizinhos mais pobres ajudando nas tachadas de goiabada ou no fabricação do polvilho(...)Era Mamãe quem escolhia os feitios dos vestidos natalinos das pretinhas e as ajudava nas tarefas escolares”. Yolanda se recorda dos roletes de sorvete, ancestral do picolé, apregoados por moleques negrinhos com suas caixas de madeira com gelo, empregados de algumas senhoras da cidade. A avó Anita tinha uma empregada que a acompanhava há anos de nome D. Fortunada. Era uma velhinha preta, nascida escrava, que “executava suas ordens sem pensar em discutir”.

Uma interessante herança da escravidão era um castigo ao qual denominavam à época de pelourinho. Quando se fazia alguma “arte”, havia uma cadeira especial para o castigo, o pelourinho, que ficava disposta no quarto. A criança ficava lá até que o castigo cessasse. No entanto, não havia violência física contra as crianças, diferente da prática do pelourinho que castigava os escravos com açoites e outros tipos de sevícias.

No tocante a moral da época, como o pai de Yolanda era caixeiro-viajante e ficava muitos dias fora de casa, sua mamãe achava que não deveria sair, pois poderia “ficar falada”. Certo dia, uma garota da vizinhança disse a Yolanda que era sua prima, filha de seu tio. Indignada, chamou-a de mentirosa, pois seu tio era casado, tinha família e morava no Rio de Janeiro. Quando contou à sua mãe o ocorrido, ela lhe disse para não tocar mais naquele assunto. Adultério e situações que chocavam a moral da época eram tratados nas alcovas. No ouvir dizer, Yolanda recorda-se das histórias dos “conquistadores de capa preta”, figuras importantes da sociedade, segundo ela, que saíam à noite, “embuçados como dominós”, para visitar suas amantes. No início do século XX, muitos casamentos, e me refiro aos das classes abastadas, ainda eram realizados na base das convenções sociais.

Acima o pomar de peras da Vila Amélia, hoje delegacia de polícia.

O casamento por amor, prevalecendo a vontade dos noivos em escolher seus parceiros, ainda dava seus primeiros passos, principalmente entre a elite, onde os jovens eram ainda objeto de “arranjos” matrimoniais entre seus familiares. Daí ser comum que muitos homens buscassem parceiras fora do casamento, já que suas consortes não foram objeto de sua escolha. Em relação ao homem que deixasse a amante e vivesse só para a família, dizia-se que ele “calçou os chinelos”.


Baseada no livro de memórias, "Minha Viva Mágica", de Yolanda Brugnolo Lívio Barilari Bizi Cavalieri d´Oro.




















ESCRAVOS OU COLONOS?


O clima de Nova Friburgo, com característica semelhante à de vários países da Europa, sempre atraiu imigrantes do velho mundo. Da primeira imigração de suíços encetada em 1818, seguida por alemães em 1824, todos nós, friburguenses, conhecemos bem, sendo devidamente explorada por professores por ocasião do aniversário da cidade. Porém, Friburgo, no decorrer do século XIX, teve outras experiências na recepção de imigrantes.

Em 1858, a Câmara Municipal de Nova Friburgo recebeu um Aviso do Ministério do Império informando que chegariam da Europa colonos contratados pela Associação Central de Colonização. O aviso solicitava que informasse se havia em Friburgo fazendeiros que desejassem receber colonos. As despesas que os fazendeiros arcariam seriam com as passagens dos referidos colonos, da Europa à Corte, que importavam de 80 a 90$000 réis, aproximadamente, somadas às despesas de hospedagem e comissão. Os fazendeiros obrigar-se-iam, ainda, a fazer às suas custas, a condução dos colonos desde a Corte até o lugar em que se estabeleceriam. Era a denominada “colonização particular”.
Em resposta à Câmara, alguns fazendeiros de Friburgo declararam que já haviam engajado colonos para o seu serviço, porém, em pequena quantidade, devido à escassez deles no “depósito” da Associação. Logo, Friburgo mesmo depois de fracassadas as colonizações iniciais de suíços e alemães, não deixou de dar continuidade ao regime de colonato, tornando-se núcleo de imigração de colonos europeus, ininterruptamente. Afinal, a falta de braços na lavoura sempre foi uma reclamação dos agricultores friburguenses. Mas como se desenvolveu esta terceira onda de imigração?

A princípio, nada satisfatória. Percebe-se que os colonos que vieram para Friburgo não cumpriam os contratos de colonato e “não serviam de boa vontade”, segundo relatos. Isto significa que estes colonos se evadiram das fazendas, deixando os fazendeiros friburguenses, que investiram seus réis, a ver navios. Para contratar mais colonos, os fazendeiros sugeriram que o Governo Imperial desse garantias contratuais de que os colonos serviriam entre quatro e seis anos, tempo mínimo para o retorno dos investimentos realizados, incluindo o tempo de aprendizagem no trabalho que, segundo eles, era inteiramente diferente da Europa. Sugeriu-se ainda, a reserva de um “fundo” para quando o colono terminasse o seu contrato “ter um princípio de vida, tendo segura a sua subsistência e de sua família, tornando-se, no fim daquele tempo, um lavrador em terrenos que o Governo Imperial lhes concedesse pelo preço da medição, dando-lhe um prazo razoável para pagarem”. Com a garantia de acesso à terra dada aos colonos, seria mais fácil obrigá-los a cumprir o contrato de colonato.

Adquirir escravos ou contratar colonos? Qual era o investimento mais vantajoso? Adquirir colonos é claro. Fiz as contas. Para se ter uma idéia de como era mais vantajoso ter colonos, em 1858, um escravo custava 1:840$000(um conto, oitocentos e quarenta mil réis). Considerando que cada colono sairia, incluídas todas as despesas, por aproximadamente 150$000, se contrataria doze colonos ao mesmo preço de um único escravo.

Logo, a história do colonato em Friburgo não se encerra na primeira metade do século XIX. Suas experiências de imigração permeiam a formação social da cidade até o século XX, cuja similaridade com o clima da Europa, a fez tornar-se um ponto de convergência dos imigrantes europeus por mais de um século de sua história.
Fonte: Atas da Câmara de Nova Friburgo.

SISTEMA CARCERÁRIO: PASSADO, AINDA PRESENTE

O jornal A VOZ DA SERRA publicou uma matéria, no dia 27 de novembro, sobre a carceragem da Vila Amélia. A reportagem trata das péssimas condições deste setor de custódia, com celas mofadas, presos dormindo amontoados e os banhos feitos pelos detentos com garrafa pet. O conhecido “boi”, um buraco que fica no meio da cela onde os presos fazem suas necessidades fisiológicas, entupidos, causando um odor insuportável. “Masmorras medievais” e “campos de concentração” foi assim representada a carceragem pelo chefe da Polinter. A notícia foi ainda muito bem retratada na charge do Silvério simbolizando a carceragem como um barril de pólvora. A Câmara Municipal promoveu audiência pública, contando com a presença de delegados, cuja situação foi discutida, com algumas ações concretas já encetadas com o auxílio de uma comissão que se denominou de “carceragem cidadã”.
Quando li a matéria me veio uma espécie de déjà vu, ou seja, aquilo que dá a impressão de já ter sido visto antes, e assim o foi. A casa de custódia atual de Friburgo, encontra-se na mesma situação desde o século retrasado. No século XIX, a precariedade da cadeia em nosso município sempre foi objeto de preocupação da Câmara Municipal, que tinha inclusive uma comissão permanente para tratar do assunto. Mas a preocupação àquela época não era tanto em função da dignidade dos presos, mas sim “a bem da salubridade pública”, podendo as cadeias, devido às suas péssimas condições de higiene, transformarem-se em um foco de doenças e serem transmitidas ao restante da população. Mas o problema das prisões não ocorre somente em Friburgo. O problema é nacional. A primeira prisão no Brasil foi, imaginem, o nosso próprio país. O Brasil era visto no século XVI como um lugar de desterro onde eram enviados homicidas, prostitutas, ladrões, enfim toda a canalha que Portugal desejava livrar-se, e foi com esses indivíduos que iniciamos o povoamento do Brasil. Martin Nicoulin também nos informa que alguns suíços, tidos como criminosos, tiveram suas penas comutadas em degredo e incluídos entre as famílias suíças que migraram para Friburgo. Da transição de lugares de desterro até o condicionamento de pessoas em celas, o Brasil até hoje não resolveu o problema das péssimas condições da carceragem.

Na Colônia e no Império as cadeias eram, em todo o país, praticamente depósitos de escravos fugitivos. Em Friburgo, os “pretos do libambo”, escravos fujões detidos até que seus senhores os reclamassem, se confundiam com os presos da cadeia. A cadeia em Friburgo foi instalada numa das antigas casas dos colonos suíços, mas cuja construção, devido à má qualidade do material empregado, estava quase ruindo. Era comum os friburguenses oitocentistas darem garrafas de cachaça aos presos, passando-a por um pequeno gradil da cadeia. Na primeira metade do século XIX, a Câmara só alimentava os presos considerados pobres. Aos que não fossem indigentes, cabia à família alimentá-los. O Hospital da Santa Casa no Rio de Janeiro, alimentava os presos do Tribunal da Relação para que não morressem de fome. Mas é interessante que, já no final deste século, nas “comedorias” dos presos da cadeia de Friburgo, servia-se bacalhau às sextas-feiras:
“....Dieta: Leite, caldo de galinha, canja, ovos, chá, bifes; Almoço: um pão de 200 réis com uma caneca de café; Jantar: feijão, carne seca, arroz, toucinho, carne fresca, de domingo a quinta-feira e bacalhau, às sextas-feiras.”

Finalizando, gostaria de sugerir à comissão da “carceragem cidadã” que, além do altruísmo de se preocupar com a dignidade humana, serem os seus membros também os timoneiros de um projeto de desocupação do prédio histórico em que a carceragem está localizada. No passado longínquo, vemos fotos do casarão onde se encontra a atual carceragem, rodeada de um pomar de peras “ferro”. Entristece-nos constatar que onde está a atual casa de custódia, além de destruir um prédio histórico, não atende às condições físicas e de segurança que tal estabelecimento deveria ter. Em nome do patrimônio histórico, fica aí a sugestão.

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