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HARTWIG E ANNELISE: OS ANJOS DE SELMA GAISER







Hartwig e Annelise: Os anjos de Selma Gaiser


No passado, em decorrência do alto índice de mortalidade entre as crianças, as mães não estabeleciam relações de afetividade com seus filhos nos primeiros anos de vida, mas somente, quando encontravam-se em idade mais avançada e mais resistentes às doenças. A mortalidade infantil era muito natural já que a medicina não possuía os recursos de hoje. De acordo com Gilberto Freyre, na sociedade patriarcal brasileira, as crianças mortas tornavam-se anjos para suas mães. As mães regozijavam-se com a morte do anjo, como a que Luccock, viajante inglês no século XIX, observou no Rio de Janeiro: mães chorando de alegria porque o Senhor lhe tinha levado o quinto filho pequeno. Eram já cinco anjos a sua espera no céu! Du Petit-Thouars viu em Santa Catarina, em 1825, em volta do altar com um meninozinho morto, mulheres em trajes de festa, ajoelhadas sobre esteiras, cantando. Em Nova Friburgo, no início do século XX, havia no cemitério do da cidade a quadra dos anjos, espaço reservado às crianças. Mas por que falar em morte de crianças em um dia tão festivo, como é o do “dia das crianças”, agora em 12 de outubro?


No primeiro decênio do século XX, várias indústrias instalaram-se em Nova Friburgo. Hans Gaiser(28.02.1897-29.09.1952), engenheiro, alemão, imigra para o Brasil em razão da crise econômica na Alemanha, intensificada depois da Primeira Guerra Mundial(1914-18). Chegando ao Rio de Janeiro, devido à sua experiência na construção de hidrelétricas na Alemanha, foi contratado por uma empresa de pavimentação de estradas. Uma das obras em andamento era a estrada entre o Rio de Janeiro e a região serrana. Essa estrada o conduziu a Nova Friburgo. Gaiser possivelmente se familiarizara com Nova Friburgo, que recebera significativo afluxo de colonos e imigrantes alemães desde o século XIX. Encontrando muitos conterrâneos, optou por estabelecer-se em Nova Friburgo, abrindo uma empresa de construção civil. Casado com Selma Gaiser(05.07.1890-15.05.1967), alemã judia, Hans Gaiser foi um bem sucedido engenheiro em Nova Friburgo, realizando muitas obras nas indústrias recém-instaladas, construindo pontes e residências. Hans e Selma tinham domicílio em uma residência que existe até hoje, em estilo art deco, ao final da Rua Augusto Spinelli, ao lado do edifício que teve sua lateral destruída no sinistro de janeiro de 2011. Foi nessa residência que nasceu o primogênito dos Gaiser, Hartwig, em 31 de março de 1926. Posteriormente, quatro anos depois, nascia a flor da família, Annelise, em 25 de junho de 1930.



Selma Gaiser e Hartwig






Hans Gaiser e seu primogênito


Como o empreendedor Hans Gaiser iniciara a construção da Fábrica de Ferragens Haga, possivelmente optou por um domicílio mais próximo do trabalho. Passou a residir no local que ficou conhecido como Sítio São João, um dos locais mais afetados pela tragédia de janeiro de 2011. Em sua nova residência, o casal Gaiser tinha tudo para ser feliz. Gaiser além de ter sido bem sucedido no ramo da construção civil, prosperava em sua nova indústria, contando com o auxílio de Julius Arp, proprietário da Rendas Arp. Hans Gaiser entrava para o seleto clube da trindade teutônica, de grandes industriais alemães em Nova Friburgo. Sua residência, em um aprazível vale onde a natureza traja sempre galas, era um paraíso onde poderia criar seus dois filhos. No entanto, a felicidade do casal foi interrompida por duas sucessivas mortes. Annelise, a florzinha da família, falece em 18 de fevereiro de 1931, antes de completar um ano de nascimento. Annelise se transformou no anjo para proteger a família. A morte de crianças prematuras ainda era algo aceitável, mesmo advindo das classes sociais economicamente abastadas. Porém, o anjo Annelise não conseguiu proteger a família e mais um infortúnio abateu-se sobre os Gaiser. Misteriosamente, o primogênito da família, Hartwig, falece em 22 de março de 1934 de uma febre intermitente, três anos depois da irmã, nove dias antes de completar oito anos de idade. Foi grande a comoção na família e em toda comunidade alemã luterana de Nova Friburgo. O casal não teve mais filhos.





Hartwig, o 5° da esquerda para a direita, morreria antes de completar oito anos.


Falecida em 1967, Selma Gaiser deixa em testamento a sua residência e todas as terras do seu entorno para a Congregação das Irmãs Franciscanas de Dillingen. Essa Congregação, originária da Baviera, foi fundada em 1241, na Alemanha, e estabelecida no Brasil em 1937, realizando obras assistenciais com crianças órfãs. Hans Gaiser tinha uma sobrinha que fazia parte dessa congregação e já haviam doado uma residência de férias, na Vilage, para as irmãs, que freqüentavam amiúde a residência dos Gaiser. Selma transformou a dor da perda de seus filhos em felicidade para centenas de crianças órfãs e de lares desestruturados. O local passou a denominar-se de Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser. Selma estipulou em seu testamento que as irmãs mantivessem o orfanato para meninas órfãs e carentes por 25 anos, com no máximo vinte meninas, em regime de internato. Mas as meninas internas sempre excederam a esse número. Selma autorizou ainda a venda de terrenos no entorno da propriedade quando houvesse necessidade financeira. Com o passar dos anos, a Congregação alienou vários deles, transformando-se em um belo bairro residencial. Igualmente uma extensa propriedade no Campo do Coelho foi doada por Selma, onde funciona até hoje a Humedica, entidade filantrópica protestante alemã, mantida por alemães, que desenvolve oficinas de artes, música, atividades recreativas e educacionais, com crianças carentes da região.


Entrevistando Márcia Cristina de Souza, com 45 anos de idade, uma das primeiras meninas a habitar o Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser, conhecemos um pouco do cotidiano do internato de meninas. Márcia e sua irmã vieram muito novas para o Lar de Crianças, pois seu pai era alcoólatra e sua mãe não tinha condições de criar as filhas. No internato, uma vida pautada na disciplina: horário para acordar, para as refeições, para o lazer na piscina e para dormir. Os estudos regulares eram feitos nas escolas públicas. Sempre falava-se dos benfeitores Hans e Selma entre as crianças que rezavam para agradecer a grandeza do gesto do casal. Estavam sempre nas orações das meninas. Pelos corredores do Lar de Crianças, os retratos dos filhos, a memória do drama familiar dos Gaiser. Hartwig e Annelise faziam parte do imaginário das meninas: qualquer barulho no quarto à noite, amedrontadas, achavam que as crianças saíam de seus túmulos e retornavam para brincar em seus aposentos. Márcia recorda-se dos dois quartos de Hartwig e Annelise, o papel de parede azul floral do primeiro e rosa da segunda. Ulteriormente um dormitório maior foi construído, pois os dois quartos das crianças eram insuficientes para abrigar as meninas. Márcia lembra-se das cantigas infantis alemãs que cantavam em alemão tosco, como a do “papagaio loiro”: “Papagaio loiro de bico dourado/ leva-me esta carta ao meu namorado./ Ela não é frade, nem homem casado/ é rapaz solteiro, lindo como um cravo./ Para o outro lado, para a outra margem,/ papagaio loiro de linda plumagem./ De linda plumagem, linda como oiro,/ leva-me esta carta, papagaio loiro.” Muitos alemães participavam de atividades festivas no Lar de Crianças. Mas o que Márcia recorda-se com emoção era dos festejos de Natal, em estilo alemão, com encenações teatrais em que cada criança representava um elemento do presépio. Outrossim, a espera do papai Noel descendo a lareira da casa e a expectativa dos presentes.





Maria Cristina de Souza, uma das primeiras meninas internas do Lar de Crianças.


Foram mais de vinte anos recebendo crianças carentes que residiam no orfanato, em regime de internato. Posteriormente, o Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser extinguiu o internato, pois as irmãs desejavam que as crianças não se afastassem do lar paterno. Passou a ser somente creche, depois Jardim de Infância e atualmente a irmãs oferecem outro tipo de serviço às crianças carentes. Pela manhã pegam as crianças nos bairros, a exemplo do Loteamento Floresta, levam para o sítio e lá chegando tomam café da manhã, tem aulas de reforço e de música, recreiam, comem frutas, almoçam e depois são deixadas no colégio para as aulas regulares. Devido à tragédia de janeiro de 2011, cujo sítio foi muito afetado, essas atividades estão interrompidas. A Congregação perdeu parte da verba para esse tipo de assistência. Atualmente, sob a direção das irmãs Maria Helena de Souza e Maria Rodrigues Feitosa, necessitam que a prefeitura arque, ao menos, com as despesas transporte, mas até o momento, esse benefício não lhes foi deferido.


O sofrimento da perda dos filhos, precocemente, levou Selma Gaiser a fazer um gesto altruísta. Beneficiou gerações de meninas que passaram pelo Lar de Crianças. Foi igualmente graças ao trabalho das Irmãs Franciscanas que meninas como Márcia, que provinham de lares desestruturados, tiveram uma boa educação e formação. Abusando da retórica, pode-se afirmar que Hartwig e Annelise, os dois anjos de Selma Gaiser, fizeram jus à representação que se fazia, no passado, de crianças mortas: foram anjos que protegeram as meninas e sua presença podia até ser percebida por elas, à noite, nos dormitórios do Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser.



Abaixo fotos do Lar das Crianças Hans e Selma Gaiser





























A HISTÓRIA DO CAFÉ JAVA: MAIS UMA LENDA EM AMPARO?


O provecto patriarca Eugênio Gripp


O coronel Galiano das Neves(1826-1916), um vulto na história política de Nova Friburgo, no século XIX, escolheu as terras férteis de Amparo para o plantio do café, adquirindo a fazenda Cachoeira do Amparo. Essa fazenda encontra-se até hoje na propriedade da família. Terra fértil para o café, a região de Amparo, que fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão, era coberta por cafezais no século XIX e até início do século seguinte, destoando da paisagem atual. Além do mito do “Amparo dos inconfidentes”, como vimos em matéria anterior, surge ainda a história de que teria partido de Amparo a difusão de um tipo de café, o café java, por toda a província fluminense, gerando os barões do café.


Segundo a tradição oral dos habitantes mais antigos de Amparo, Luiz Sardemberg, alemão, estabelecido em Sana de Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, em viagem por Java, na Oceania, adquiriu duas mudas de café, plantando em sua propriedade, quando de seu retorno ao Brasil. No entanto, Sardemberg faleceu sem ver os dois pés de café maduros que trouxera com tanto sacrifício ao Brasil. Deixando dois filhos como herdeiros, um ficava cuidando da propriedade da família e o outro, o mais velho, viajava a negócios. Certa feita, o mais jovem resolveu construir um viveiro de aves, arrancando os dois pés de café que o pai cultivara e jogou-os em um entulho, para dar lugar ao viveiro. Por um ato da divina Providência, um dos arbustos sobreviveu e continuou brotando, ainda que raquiticamente, sobre o entulho. Quando o primogênito retornou de viagem e procurou pelos pés de café, ralhou com o irmão pelo seu procedimento e correu ao entulho para ver se salvava os pés de café. Como um dos pés brotara, replantou-o, que produziu alguns grãos e fez novas mudas de pés de café. Porém, como fizesse em local impróprio na fazenda, não produziu o resultado desejado e assim não deu muita importância a rubiácea. Certa ocasião, o capitão Augusto José Carlos de Toledo, pernoitando na fazenda dos irmãos Sardemberg, adquiriu uma muda do cafeeiro, plantando-o em seu pomar, em sua propriedade em Amparo.



Começa a entrar nessa história um colono alemão. Os alemães migraram para Nova Friburgo, em 1824, para ocupar as datas de terras abandonados pelos suíços e dar um novo incremento e fomento ao Núcleo dos Colonos. Jorge Gripp, filho de Gaspar Gripp(na realidade, o sobrenome original é Grieb), um dos primeiros colonos alemães, ficou atraído pelo arbusto que viu no pomar de Toledo e inteirou-se de onde o adquirira. Curiosamente, Jorge Gripp comprara a fazenda de uma das filhas de Jerônimo Castro Souza, o pseudo inconfidente que fundara Amparo. Jorge Gripp dirigiu-se a fazenda dos conterrâneos irmãos Sardemberg e encomendou sementes da próxima safra. Em data aprazada, Jorge Gripp enviou seu filho Pedro Alberto Gripp, com 8 anos de idade, acompanhado de um escravo, para buscar as desejadas sementes de café na fazenda dos Sardemberg. Jorge Gripp plantou as sementes, fez diversas mudas e os cafeeiros desenvolveram admiravelmente nas encostas de Amparo, em sua fazenda.



Bernardo Clemente Pinto, o Conde de Nova Friburgo, soube da proficiência de Jorge Gripp com seus cafeeiros e manifestou desejo de possuir algumas mudas. Gripp logo lhe enviou duas de suas melhores mudas. Bernardo Clemente Pinto foi pessoalmente a Cantagalo quando soube da entrega do mimo, intermediado pelo Conselheiro João Lins Cansanção de Sinimbu, que residia na vila de Nova Friburgo. Ficou tão maravilhado com as mudas de café, que contratou bandas de música que desfilaram conduzindo os pés de café festivamente, em procissão, em estilo barroco, até o palacete do Gavião e diante de convidados, plantou-os ali. O conde imediatamente ordenou ao seu administrador em Nova Friburgo que agradecesse a Jorge Gripp, oferecendo-lhes seus préstimos e consignando que compraria toda a colheita de café de Gripp.


O café java foi plantado nas fazendas, em Cantagalo, dos Clemente Pinto(família do barão de Nova Friburgo) e o restante dessa história já conhecemos. Cantagalo tornou-se um dos maiores produtores de café, em meados do século XIX, expandindo o “ouro verde” por todo o vale do Paraíba. Não há comprovação da veracidade desse fato que é relatado por Honorário Lamblet, neto de Jorge Gripp, transmitido pela tradição oral. No centenário da reintegração de Amparo a Nova Friburgo, que se comemora em outubro, essa é mais interessante passagem desse distrito cercado de lenda e mito em sua história.


Bernardo Clemente Pinto

O INTERESSANTE EPISÓDIO DOS PRISIONEIROS ALEMÃES EM NOVA FRIBURGO


Durante a Primeira Guerra Mundial(1914-1918) ocorreu um interessante episódio em Nova Friburgo envolvendo prisioneiros alemães. Esse episódio coincide com o início da industrialização do município e esses dois acontecimentos irão se imbricar para dar novos matizes ao momento histórico pelo qual passava Nova Friburgo. Na Primeira Guerra Mundial, vários navios alemães da Marinha Mercante foram detidos nos portos brasileiros. Ao todo foram apreendidos pelo governo brasileiro 45 navios mercantes que se encontravam ancorados em portos nacionais. O objetivo era aprisionar e “internar” os seus tripulantes bem distante do litoral. Uma das cidades a que destinou esses marinheiros foi Nova Friburgo, notadamente reconhecida como um local onde os imigrantes não padeciam do problema de aclimatação e se adaptavam sobremaneira. Nova Friburgo recebera o primeiro grupo de colonos alemães em 1824(343), sendo que em 1892, igualmente, 703 alemães imigraram para o município.


Para abrigar, em Nova Friburgo, uma parte dos alemães detidos nos portos brasileiros, escolheu-se o Sanatório Naval. Inaugurado poucos anos antes, em 1910, o Sanatório Naval foi instalado para tratamento e convalescença de marujos beribéricos e tuberculosos. Era um local perfeito onde compartilhariam o mesmo espaço com “homens do mar”, não obstante os brasileiros serem militares e os alemães civis. Faltam pesquisas para se saber o número exato de prisioneiros que se instalaram no Sanatório Naval, mas Fischer em “Uma História em Quatro Tempos” nos informa que foram, aproximadamente, 227 alemães da Marinha Mercante. Já José Pereira da Costa Filho, o Costinha, que trabalhou na construção dos barracões até 1916, informa-nos que eram 1.500. Os oficiais ficavam nos barracões e os soldados acampados em barracas. Os oficiais ficaram acomodados em casas de alvenaria e o restante em barracas armadas no terreno do Sanatório. Denominou-se o local de Campo de Internação. De acordo com a memória de alguns friburguenses, o Campo de Internação era uma verdadeira atração na cidade, e todos subiam para o Sanatório Naval curiosos em observar os prisioneiros alemães. Como houvesse muitos alemães e descendentes dos primeiros colonos e imigrantes em Nova Friburgo, levavam a sua solidariedade na qualidade de irmãos germanos. Maximilian Falck, proprietário da recém instalada Fábrica Ypu, dava assistência aos alemães internados como prisioneiros. Mas quanto ao restante da população friburguense, era pura curiosidade, assim como apreciavam ir à estação de trem ver quem chegava e partia da cidade. Mas o que a industrialização em Nova Friburgo tem a ver com esses prisioneiros, como dito acima? Aos tripulantes alemães foi dada permissão pelo governo brasileiro para trabalharem onde estivessem “internados”. Para tanto, o empregador deveria manter periódico contato com a Comissão Militar comunicando a permanência do “internado” a seu serviço. Desde 1911, Peter Julius Ferdinand Arp(1858-1945), um grande empresário alemão, estabelecia-se em Nova Friburgo no ramo da indústria têxtil, atraindo inclusive outros empresários alemães. Como a mão de obra especializada talvez fosse um problema para lidar com o maquinário importado, prisioneiros alemães foram cooptados para as recém instaladas indústrias. Muitos deles, principalmente entre os oficiais, tinham capacitação técnica que se amoldava perfeitamente à demanda das novas indústrias em Nova Friburgo. Até então esses profissionais vinham de outros estados do Brasil. Nesse sentido, utilizaremos como exemplo Richard Hugo Otto Ihns(1889-1960). Originário da Prússia, oficial da Marinha Mercante alemã, encontrava-se em Pernambuco quando em 1914, a Primeira Guerra Mundial eclodiu. Seu navio ficaria detido durante três anos até que, em 1917, as autoridades brasileiras resolveram enviar o seu navio, o “Cap. Finister”, para Nova Friburgo.


Foi Maximilian Falck, um dos empresários alemães quem o colocou na empresa de Julius Arp, em razão de suas habilidades técnicas. Em 1919, Ihns já era gerente da Fábrica de Rendas e estabelecido definitivamente no Brasil. Foi devido à morte de um filho seu que transformou o antigo cemitério alemão em um aprazível parque, fundou um clube social somente para os alemães(atual Sociedade Esportiva Friburguense) e reorganizou a Sociedade Evangélica Luterana em Nova Friburgo. A importância dos empresários alemães na economia local se refletiu no novo status dado aos alemães. Richard Ihns tornou-se membro do Conselho Consultivo de Nova Friburgo e ocupou vários cargos na Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Nova Friburgo. Tem-se a impressão de que Richard Ihns resolveu dar à comunidade alemã, em Nova Friburgo, um upgrade. No campo das sociabilidades, foi sócio-fundador do Rotary Club de Nova Friburgo(1950) e igualmente sócio-fundador do Nova Friburgo Country Clube, da Sociedade de Tiro ao Alvo Sans Souci e do grupo de “Bolão”. No tocante ao Country Clube, a elite friburguense resolveu se desgarrar do Clube do Xadrez, já que incomodava a frequência de operários e pequenos comerciantes naquele clube. Assim como Richard Ihns, outros tripulantes de navios optaram por permanecer na aprazível Nova Friburgo, até porque, conforme sabemos, a situação econômica e social da Alemanha se agravaria depois dessa guerra. Mas essa história não teve somente final feliz. Um surto de tifo em Nova Friburgo matou uma dezena de tripulantes alemães. Quem visita o cemitério luterano normalmente estranha a presença de vários túmulos idênticos, de rapazes mortos em tenra idade em curto período de tempo. São eles os tripulantes que se encontravam detidos no Sanatório Naval e que faleceram de tifo. Trata-se ou não de um interessante episódio ocorrido em Nova Friburgo?





OS TAMANCOS DOS OPERÁRIOS DAS RENDAS ARP


“Quando o apito da fábrica de tecidos vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você. Você que atende ao apito de uma chaminé de barro, porque não atende ao grito tão aflito da buzina do meu carro?...Mas você não sabe que enquanto você faz pano, faço junto do piano, estes versos pra você. Nos meus olhos você vê, que sofro cruelmente, com ciúmes do gerente impertinente, que dá ordenas a você.” Noel Rosa escreveu esses versos para a sua namorada que bem poderiam ter sido escritos, na segunda década do século XX, por um boêmio friburguense. A indústria mudou Nova Friburgo. Todos os dias, às seis horas da manhã, os moradores do centro da cidade eram despertados por um som estridor a que não estavam até então habituados: eram os tamancos dos operários que se deslocavam em várias direções da cidade rumo às fábricas. No apito do último trem do dia, hora de se recolher. No barulho do tamanco dos operários, hora de despertar. Associados ao sino do campanário da igreja Matriz ao meio-dia e às seis horas da tarde, eram sons que regiam o ciclo do dia dos friburguenses: do trem, do sino e do tamanco dos operários.
A nota lacônica da direção da Rendas Arp, anunciando o fechamento das atividades da fábrica, contrasta com as matérias dos jornais, no primeiro decênio do século XX, tecendo loas à vinda de Julius Arp e outros industriais alemães. A nossa cidade experimentará a sensação do estremecimento do seu solo para a força propulsora da indústria moderna; é o início de uma nova Era para Nova Friburgo, assim escreveu o articulista do jornal A Paz, em janeiro de 1911. “Colméias de trabalho”, foi essa a metáfora atribuída a Nova Friburgo a partir da vinda de empresários alemães. Nova Friburgo entra na Era industrial.


O alemão Peter Julius Ferdinand Arp(1858-1945) imigrou para o Brasil em 1882. E por que teve interesse em instalar uma indústria em Nova Friburgo? Possivelmente pelo fato de Nova Friburgo abrigar uma significativa população de descendentes europeus, mais disciplinados ao trabalho, provavelmente conjeturara. O estigma de que o caboclo brasileiro era um trabalhador “desqualificado”, “indolente”, fazia parte do imaginário da época. Amparado pelos vereadores da Câmara Municipal, o coronel Antônio Fernandes não dava impulso ao contrato de concessão de fornecimento de energia elétrica, atravancando o progresso local. Julius Arp conseguiu retirar do coronel Antônio Fernandes essa concessão. A energia elétrica era essencial para implementação de um parque industrial em Nova Friburgo. Ruía antecipadamente a República Velha dos coronéis em Nova Friburgo, não aguardando a Revolução de 30. Julius Arp fundou, em junho de 1911, a Rendas Arp. Igualmente cooptou outros industriais: Maximilian Wilhelm Bogislav Falck(Fábrica Ypu), Carl Ernst Otto Siems(Fábrica de Filó) e Hans Gaiser(Ferragens Haga).


Depois dos tamancos, vieram as bicicletas que cruzavam os bairros, com cada trabalhador dirigindo-se para a sua colméia. Honrando o patriarcalismo nacional, os alemães construíram casas, escola e áreas de lazer para seus funcionários. Mas vieram as tensões sociais. Os primeiros operários, ainda desmobilizados em nível de categoria profissional, eram insuflados pelos ferroviários da Companhia Leopoldina. Mas havia o Sanatório Naval, garantidor da ordem pública. Não havia polícia militar à época e a polícia civil, com poucos praças, era incapaz de conter um conflito na cidade. Disciplina, esse era o projeto da Trindade Teutônica para Nova Friburgo. E assim, capitaneados por Julius Arp, os alemães foram hegemônicos em Nova Friburgo durante décadas. O poder público não os importunava. Quem não recorda-se que o velho Rio São João das Bengalas mudava de cor a cada semana, com as indústrias têxteis despejando soberbamente seus produtos químicos nas águas tranquilas do rio? Mas o que nos importava naquele momento eram tão somente os empregos que as indústrias geravam. Quem precisava do turismo numa cidade que abrigava um dos maiores pólos industriais do país e notadamente, duas multinacionais? Éramos o “paraíso capitalista”, jactava-se Heródoto Bento de Melo.


Já estamos habituados a presenciar a agonia das grandes indústrias, a exemplo da Fábrica Ypu. No entanto, quando uma fábrica fecha definitivamente, não deixa de ser impactante. Imediatamente vêm as memórias. Meu avô, meu pai, meu tio, meu irmão, quem não tem um familiar que trabalhou na Rendas Arp? Tempos difíceis, os alemães eram chefes rigorosos, mas trouxeram empregos. Alguém recorda-se: “meu pai trabalhou a vida inteira lá, criou onze filhos”. Um antigo alfaiate lembrou que os alemães eram os melhores fregueses de ternos. E os times de futebol das fábricas? Para atrair um bom jogador e tirá-lo de um time, bastava arranjar um emprego na fábrica e daí ele mudava de clube, sem pestanejar. Fechada a Rendas Arp, ficam as perguntas: Como e onde ficarão registradas essas memórias? E as primeiras máquinas, o que fazer com elas? E os registros dos primeiros operários? Que órgão será depositário desse acervo? Ainda bem que João Raimundo escreveu “Nova Friburgo: o Processo de urbanização da Suíça Brasileira – 1890-1930”, Rico escreveu “Cem anos de lutas operárias em Nova Friburgo” e Carlos Rodolfo Fisher “Uma história em quatro tempos”, deixando registros desse período. Mas o que não me sai da cabeça é o livro que Richard Ihns, executivo durante décadas da Rendas Arp, disse que escreveria sobre o período de sua gestão. Mas esclareceu que escreveria algo do tipo “diga a verdade e saia correndo”. Mas Santo Deus, por que Richard Ihns sairia correndo?


A TRINDADE TEUTÔNICA:A ERA INDUSTRIAL NO LIMBO DA HISTÓRIA




Operários na saída do trabalho da Fábrica Ypu


No dia 11 desse mês de junho, um anúncio no jornal O Globo trazia os seguintes dizeres:“Rendas Arp. Fundada em Nova Friburgo pelo Conselheiro Peter Julius Ferdinand Arp, imigrante alemão, a Fábrica de Rendas Arp completa, neste sábado, 100 anos de existência. Líder no segmento de bordados no Brasil(...) a empresa é administrada pela 5° geração da família Arp(...)demonstra pelo seu centenário uma prova de superação. Queremos partilhar com nossos clientes e funcionários o sucesso desses 100 anos”. Confesso que achei o anúncio simplório em se tratando do centenário de uma empresa no qual trabalharam cinco gerações de friburguenses. Merecia semelhante anúncio no jornal local.



Aos friburguenses que desconhecem a sua história, o fundador da Rendas Arp, Julius Arp, além da importância de ser o primeiro industrial, foi igualmente o timoneiro de outras indústrias nos ramos têxtil, acessórios em couro e metalúrgica, que se instalaram ao longo da primeira metade do século 20, em Nova Friburgo. A instalação dessas indústrias provocou uma ruptura na história de Nova Friburgo e merecia melhor atenção e reflexão sobre essa rica passagem. Não desejo aqui tecer preito ao capitalismo nem colocar os industriais alemães como os grandes benfeitores do município. Sabe-se da exploração do trabalho e do conflito de classes, motor da História, que o capitalismo gera, mas apenas gostaria de lembrar esse importante momento histórico. Não vi a Associação Comercial e Industrial de N.F. fazer qualquer menção sobre essa data. Os historiadores João Raimundo de Araújo e Ricardo da Gama Rosa Costa publicaram em AVS, em maio, por ocasião do aniversário da cidade, duas interessantes matérias sobre o assunto, “Assim se passaram 100 anos” e “Cem Anos de Lutas Operárias em Nova Friburgo”, respectivamente. A indiferença do poder público municipal e de outras instituições é simbolizada no Pró-Memória, fechado desde novembro de 2010, onde as autoridades fazem ouvidos moucos aos apelos dos historiadores sobre a sua abertura. Nem a linha da “Sorbonne” da Câmara Municipal se sensibilizou a tal apelo. Mas isso é outra história.



A representação da presença alemã em Nova Friburgo é vinculada ao segmento industrial. A partir de 1911, empresários alemães implantaram indústrias têxteis, artigos em couro e metalúrgicas, colocando Nova Friburgo na Era industrial. Peter Julius Ferdinand Arp, primus inter pares, Maximilianus Falck e Otto Siems compunham, de acordo com o jornal O Friburguense, de 28 de abril de 1935, a Trindade Teutônica, os fundadores das “colméias de trabalho”. Julius Arp, Maximilianus Falck e Otto Siems inauguraram as fábricas de Rendas Arp, Ypú e fábrica Filó, respectivamente. Esses empresários eram vistos como representantes do “primoroso povo germânico” e como os responsáveis por uma nova Era, em Nova Friburgo. O município passa da representação de uma bucólica cidade veranista para uma cidade industrial.
Peter Julius Ferdinand Arp(1858-1945) nasceu na Alemanha, vindo com 23 anos de idade para o Brasil. Chegou ao Rio de Janeiro no início de 1882. Em Santos dedicou-se ao comércio do café e um ano depois, retornou ao Rio de Janeiro, empregando-se em uma empresa importadora de máquinas de costura, brinquedos, armas, etc. Trabalhara para a firma Nothmann, mas quando o proprietário faleceu adquiriu essa empresa juntamente com outro sócio, alterando o seu nome para Arp & Cia. Posteriormente, essa firma se transformaria em uma holding. Em 1901, Julius Arp torna-se sócio de uma fábrica de meias em Joinvile, encampando-a ulteriormente. Empresário do tipo self made man, interessou-se na aquisição da concessão do serviço de fornecimento de energia elétrica em Nova Friburgo, contrato até então estagnado entre a Câmara Municipal e o coronel Antônio Fernandes da Costa. Julius Arp obteve a concessão do fornecimento dessa energia e ainda hoje avistamos na estrada que liga o centro da cidade a Mury, uma pequena casa de alvenaria escrita “Usina Hans, 1911”. Ainda que sejamos indiferentes à História, esses monumentos estão aí para nos lembrar por que somos assim.



A Companhia de Eletricidade de Nova Friburgo era o sinal verde para implementação de um parque industrial em Nova Friburgo. Adquirindo terras dos herdeiros dos barões de Nova Friburgo, Julius Arp fundou em junho de 1911, com a razão social M.Sinjen & Cia., a Fábrica de Rendas Arp. Em sociedade com Maximilian Wilhelm Bogislav Falck, Julius Arp montou uma fábrica de artigos de passamanaria, surgindo a Fábrica Ypu S.A. Em 1919, se desligaria da Fábrica Ypu. A estação de trem desde então foi tomada pelo transporte contínuo de máquinas para as indústrias e o bulício de idas e vindas de técnicos alemães a Nova Friburgo despertava a curiosidade local. Foi Julius Arp quem convenceu Carl Ernst Otto Siems, que desejava instalar uma fábrica no Brasil, a investir em Nova Friburgo. Em 1925, surgia a Fábrica de Filó S.A. de propriedade de Otto Siems no qual Arp era acionista. Estava formada a Trindade Teutônica. Em 1937, incentivados por Julius Arp, Hans Gaiser e Frederico Sichel inauguravam o ciclo metalúrgico, somando-se às empresas alemãs no município. Criava-se a Fábrica de Ferragens Hans Gaiser(Haga). Deixo ao articulista do jornal A Paz a conclusão dessa matéria: “...a nossa cidade experimentará, pela primeira vez, a sensação do estremecimento do seu solo para força propulsora da indústria moderna(...) é o início de uma nova Era para a nossa cidade...”(29/01/1911). Diante desses fatos, a Era industrial não merecia ficar no limbo da história de Nova Friburgo.




Curiosos observam a construção da Fábrica Ypu




O anúncio do centenário publicado em O Globo em 11/06/2011

UM BRINDE A ADOLF HITLER! NAZISTAS EM FRIBURGO

Em 1824, colonos alemães migraram para o recém criado termo de Nova Friburgo. Sessenta e oito anos depois ocorreria uma segunda onda migratória de alemães, ainda estimulada pelo governo. Já no primeiro decênio do século XX, um grupo de empresários alemães investiu em indústrias de grande porte, transformando Nova Friburgo em uma cidade industrial. Havia no município a Sociedade Alemã de Nova Friburgo e igualmente a Sociedade Alemã de Escola e Culto, essa última com estatuto próprio, cuja sede ficava na Estrada do Reservatório. No dia 20 de abril de 1935, o jornal O Friburguense noticiava a celebração em Friburgo do 46º aniversário do führer Adolf Hitler promovida pela Sociedade Alemã de Escola e Culto que “comemorou este acontecimento com muito brilho e solenidade”. A celebração contou com “grande número de pessoas de destaque” da sociedade friburguense e de muitos alemães domiciliados em Friburgo. A solenidade foi dividida em duas partes: na primeira, foram cantados os hinos nacionais brasileiro, alemão e nacional-socialista, seguidos por saudações e discursos em alemão e português. Um belo solo de violino acompanhado ao piano entremeava os discursos e alguns números de música foram apresentados. Vivas foram erguidos às duas grandes nações: Brasil e Alemanha. Na segunda parte do evento houve um baile, e danças e cantos se seguiram e se prolongaram até alta madrugada “com extraordinária animação e satisfação de todos que compareceram à festa”, noticiou o jornal. A colônia alemã e igualmente membros da colônia italiana e da elite friburguense participaram do evento.

Foi assim que se comemorou em Friburgo naquele ano a data natalícia de Adolf Hitler. Hitler é colocado nos discursos da dita sociedade como um líder que “conseguiu conduzir o povo alemão para uma vida melhor, dando bem estar a milhões de almas e implantando nelas a inabalável confiança em um futuro melhor.....”, assim transcreveu o jornal. Nos discursos proferidos, a idéia de que o nacional-socialismo fez desaparecer as diferenças sociais, onde se cultivava a verdadeira “camaradagem” entre o povo alemão. À luz dos acontecimentos internacionais, Hitler ainda não mostrara ao mundo a sua verdadeira face. A segunda guerra mundial(1939-45) ocorreria somente quatro anos depois dessa comemoração na cidade. Em Nova Friburgo havia muitos representantes da Ação Integralista Brasileira. No aniversário de Plínio Salgado, chefe nacional do partido, os integralistas friburguenses faziam uma passeata à noite pela cidade, “em exercícios”, fazendo uma parada militar na Praça dos Eucaliptos, ou seja, na Praça Getúlio Vargas.

Em entrevistas realizadas com algumas pessoas cujos familiares participavam do movimento nazista em Nova Friburgo, obtivemos duas afirmações: A primeira, a de que realmente houve um movimento nazista em Nova Friburgo. A segunda, a de que tantos os alemães no tocante a Hitler como os italianos no tocante a Mussolini, possuíam um único sentimento em relação a esses líderes políticos: a de que ambos melhoraram as condições econômicas de seus respectivos países. Destaquemos que esses imigrantes somente deixaram o seu torrão natal em razão da crise econômica que lhes afetava, daí a torcida por esses líderes que tiraram os seus países do horror econômico. Finalmente, não se conhecia ainda os campos de concentração que dizimaram ciganos, comunistas, homossexuais e judeus que só se tornaram notórios ao final da guerra.
No entanto, depois da segunda guerra mundial, muitos alemães foram hostilizados em Friburgo e todos os documentos da colônia italiana foram destruídos, temendo-se deportações. Era natural que em Friburgo, com uma forte presença de imigrantes alemães e de italianos tivessem simpatizantes do nazi-facismo, já que Hitler e Mussolini eram líderes carismáticos. Em uma outra ocasião, falaremos de um movimento eugenista existente em Friburgo, liderado pelo Prof. Júlio Caboclo, que pregava a superioridade de uma raça sobre a outra. Movimento nazista e eugenia. Está aí uma interessante passagem da história de Friburgo que merece ser pesquisada.

Movimento nazista em Petrópolis na década de 30, onde também havia forte presença de imigrantes alemães.


































INDUSTRIALIZAÇÃO E TENSÕES SOCIAIS


Nova Friburgo foi em sua história, um município matizado por diversas cores com imigrantes suíços, alemães, italianos, portugueses, espanhóis e libaneses. No entanto, a partir de 1910, ganhou tons mais fortes da cultura alemã que conduziu Nova Friburgo para uma nova etapa de sua história: a industrialização. Pode-se afirmar que a implantação das indústrias com capital exclusivamente alemão, acarretou a hegemonia dos germanos sobre uma população de perfil ainda indefinido, pois era um município que possuía a tradição de receber colonos e imigrantes, além de uma significativa população flutuante, constituída de veranistas e doentes de tuberculose. Os industriais alemães para garantir o bom funcionamento de suas fábricas, imprimiram a “disciplina” entre a população, visto que a necessidade era a de formar operários industriosos. Julius Arp, Maximiliam Falck e Otto Siems, proprietários das três maiores indústrias como a Rendas Arp, Ypú e Filó, respectivamente, introduziram a cultura da “ordem e disciplina” entre os friburguenses, no estilo ordem e progresso, um precedente no qual esses empresários não abririam mão, já que investiram suas fortunas em Nova Friburgo. Para tanto, criaram o Colégio Rendas Arp, utilizando a mesma pedagogia dos jesuítas no Brasil Colonial, ou seja, formulando a educação dos pais operários por intermédio dos filhos, implementando a disciplina no seu cotidiano. Logo, houve de fato um projeto de cunho ideológico para Nova Friburgo por parte dos industriais alemães.


Acima: populares acompanham as obras da Fábrica Ypú


Richard Ihns foi o mais importante executivo da Fábrica de Rendas Arp, administrando-a no período 1947 a 1997. Enfrentou aquela velha tensão entre capital e trabalho nos anos que antecederam o golpe militar de 1964, onde ocorreram alguns distúrbios na cidade, culminando inclusive com a morte de um operário na Praça Paissandú. Nessa ocasião, os industriais contavam apenas com o Sanatório Naval que enviava fuzileiros navais para manter a ordem pública na cidade. Feliciano Costa, que foi prefeito, que foi prefeito, m morte inclusive de um operario provocou -sr uma imensa tinha uma tendência política de esquerda não esposada pelos industriais da época. O ovo da serpente do comunismo em Friburgo estava entre os funcionários da estrada de ferro.


Transcorridos alguns anos, essas mesmas indústrias estão longe de gerar atualmente os cinco mil empregos diretos de outrora. Richard Ihns vê, no entanto, que deixaram um legado ao município, notadamente a Fábrica Filó, refletida na moda íntima. Entende que se deve desenvolver o turismo, criar eventos permanentes a exemplo de exposições de flores, produtos agrícolas, competições como a de motociclistas e construir um centro de convenções. Para Richard Ihns, Friburgo hoje não é mais uma cidade para abrigar grandes complexos industriais. As indústrias de Friburgo deveriam ser do tipo especializadas, de alta tecnologia e que exija mão de obra técnica e de pequena monta, a exemplo da fábrica de ampola de raio x, que já estivera em Friburgo, ou de aparelhos eletrônicos, mas em pequena escala. Depois dessa mudança de paradigmas pergunto quem mudou, o executivo que administrou uma grande indústria por meio século, ou foi Nova Friburgo? Richard Ihns responde: “Novos tempos”. Enfatiza que a vocação de Friburgo atualmente é para pequenas empresas com alta tecnologia.

Em 2011, a Rendas Arp completará o seu centenário e nos anos seguintes, igualmente, as outras indústrias. Julius Arp, primus inter pares, Maximiliam Falck e Otto Siems foram comparados, no passado, à Santíssima Trindade, a Trindade Teutônica, por terem gerado milhares de empregos em Nova Friburgo. Recordemos, foi Julius Arp quem trouxe a energia elétrica ao município. Quem não se recorda do barulho dos tamancos dos operários, no passado, cruzando a cidade desde às 5:00 horas da manhã? A dialética do capital e do trabalho, do burguês e do operário é um período conturbado da história do município, até porque o golpe militar de 1964 agravou ainda mais as tensões entre as classes sociais. Quem quiser se aventurar em pesquisar esse período da história de Friburgo, deve fazer como nos recomenda Richard Ihns: “Diga a verdade e saia correndo.”
Fonte: Entrevista realizada com Richard Ihns em 2010.

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