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ENCHENTES, COTIDIANO E HISTÓRIA


Para quem conhece a história de Nova Friburgo, as enchentes do rio São João das Bengalas não surpreende. O que de fato, surpreende, é ausência do poder público durante décadas em lidar com uma situação cotidiana do município. É notório que desde a fundação da vila as enchentes desse rio, mormente no verão, sempre causaram danos materiais, e às vezes humano, à população. Logo, já que as chuvas torrenciais de verão são um déjà Vu em Nova Friburgo, já não deveríamos ter um plano de prevenção que minimizasse o infortúnio da população? Muitas vezes tem-se a impressão do quanto pior, melhor. Melhor para os políticos oportunistas que aproveitam a situação para oferecer um favor, naquilo que deveria ser uma obrigação. O município ainda tem que lidar com a interferência de políticos a serviço do Estado, que colocam prontamente empresas de fachada para prestar serviços pós tragédia e locupletam o ganho pessoal. As redes sociais como o facebook, mostram em tempo real, através dos grupos, a exemplo do grupo “Alerta Chuva em Nova Friburgo”, o que está ocorrendo em cada bairro. A tragédia das chuvas não é mais aquilo do ouvi dizer, mas o que se registra nessas redes sociais pelos moradores dos bairros que “postam” fotografias e até mesmo vídeos do que ocorre em suas localidades. Mas como o objeto dessa coluna é fazer um paralelo entre o passado e o presente, vamos à ele.


A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820, para servir de base administrativa para a primeira experiência de núcleos coloniais no Brasil, utilizando a mão de obra livre, em um país que tinha até então o seu modo de produção e sua economia baseada no trabalho escravo. Essa primeira experiência com colonos foi feita com suíços originários de vários cantões da Confederação Helvética, prevalecendo entre os colonos os do Cantão de Fribourg, daí a origem do nome do município. Como as cidades se originam ao redor dos rios, em Nova Friburgo não foi diferente, desenvolvendo-se às margens do rio São João das Bengalas, formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antonio que lança-se no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul. As enchentes desse rio começam a fazer parte da história de Nova Friburgo desde a sua fundação. Em 1820, devido às incessantes chuvas de verão, a primeira colheita dos colonos suíços recém instalados foi um fracasso. Os suíços abandonaram suas terras e retornaram para a vila. Com as chuvas incessantes, Nova Friburgo apresentava aos colonos um aspecto desolador, acarretando um clima de tensão. O Rio Bengalas transbordara, as pontes que não foram arrastadas ficaram danificadas e as árvores plantadas nas calçadas foram arrancadas. A enchente atingiu igualmente as casas da vila e os riachos tornaram-se torrentes que devastavam os jardins, derrubadando as cercas. Tudo estava inundado. Durante alguns dias, as precárias vias públicas ficaram fechadas para o trânsito. Sob as chuvas intermitentes, Nova Friburgo não parecia uma vila, mas um alagado. Os colonos ociosos reuniam-se nas tabernas e bebiam para matar o tempo, procurando no copo de cachaça um consolo para suas miseráveis vidas. Monsenhor Miranda, Inspetor responsável pela Colônia, lastimava as bebedeiras e a ociosidade entre os colonos que se desentendiam e trocavam insultos. Os colonos chegaram às vias de fato e à noite, ecoava na vila, tiros de fuzil, sendo registrados tumultos e até mesmo casos de estupros.


Já em 1849, o Código de Postura previa que em caso de inundação, a Câmara Municipal poderia solicitar a colaboração da população para debelar tal sinistro. Caso não houvesse colaboração, punia-se o cidadão com pena de multa e até mesmo prisão. Quando havia inundação do Rio Bengalas na vila, fazia-se o “sinal de rebate e chamada”, e cada vizinho do quarteirão era obrigado a acudir ao lugar que sofria danos com todas as “pessoas úteis” de sua família. Ainda no caso de inundação, estando as ruas às escuras, deveriam todas as casas vizinhas iluminarem-se desde o ponto destinado a socorrer. Igualmente, toda pessoa que possuísse máquinas e instrumentos úteis para os socorros de inundação, tais como bombas d´água, barris, tinas, baldes, barcos, carroças, escadas, machados, serras, calabrês, moirões, cordas, correntes e couros ou outros quaisquer objetos de préstimo, seria obrigado a concorrer com os mesmos, colocando-os na ocasião da inundação, à disposição das autoridades presentes, com direito a indenização por qualquer dano ou prejuízo que neles viesse a sofrer. Atualmente, o voluntariado substitui essas práticas. Já no decorrer do século XX, as fontes iconográficas demonstram, notadamente, que as enchentes faziam parte do cotidiano da cidade.
Logo, passando uma vista d´olhos no passado, fica claro que o problema das enchentes não tem como marco inicial as tragédias naturais dos últimos anos, provocadas por mudanças climáticas, como vaticinam algumas pessoas. No entanto, a ocorrida em 2011, vai ficar na memória da população em virtude dos desmoronamentos dos morros, considerada como uma das maiores cem tragédias, nessa categoria, na história da humanidade. Nova Friburgo ocupou espaço na mídia internacional em razão desse sinistro. Não bastasse isso, a história de Nova Friburgo ainda é matizada pela passagem de três prefeitos num só mandato acarretando a descontinuidade de políticas públicas. As eleições municipais ocorrem nesse ano, tendo o efeito simbólico de se saber se os friburguenses desejam mudança ou continuidade, quer em relação ao executivo(prefeito), quer em relação à Câmara Municipal. Somos todos cidadãos ativos para responder, nas urnas, aqueles que serão os timoneiros de Nova Friburgo nos próximos anos.

COMO LIDÁVAMOS COM AS ENCHENTES NO PASSADO?
























As enchentes sempre fizeram parte do cotidiano de Nova Friburgo. A vila de Nova Friburgo, criada em 1820, nas proximidades do rio São João das Bengalas, passaria toda a sua história lidando com as inundações desse rio. E como os friburguenses lidavam com esse infortúnio no passado remoto? Para responder a essa questão, utilizaremos como fonte os códigos de postura do século 19, nosso recorte temporal. O código de postura era uma espécie de lei orgânica municipal. A primeira fonte que localizamos prevendo situações de sinistros, como as enchentes e incêndios, foi o Código de Postura 1849. É interessante que nas posturas anteriores, a de 1822 e a de 1833, e na posterior, a de 1893, não encontramos nada que regulamentasse a ocorrência desses sinistros.



Em 1849 foi votado pela Câmara Municipal o novo Código de Posturas da vila, regulamentando diversos aspectos da vida dos friburguenses de antanho. Tanto a possibilidade de inundações quanto de incêndio eram tratados nos mesmos artigos. Quanto aos incêndios, era natural que se preocupassem, pois estávamos em uma época que deveriam ocorrer com freqüência, já que na primeira metade do século 19, a iluminação era à base da vela de sebo e os lampiões das residências utilizavam óleo de baleia e azeite. Cinco artigos do Código de Postura de 1849 regulamentavam os procedimentos que a população deveria tomar em caso de incêndio ou inundação. Da análise deles, depreende-se que a Câmara Municipal dependia da colaboração da população para debelar tais sinistros. Caso não houvesse colaboração, punia-se com pena de multa e até mesmo prisão, dependendo da gravidade do fato.



Previa o art. 227 do referido código: “Quando haja incêndio ou inundação dentro dos povoados, far-se-á o sinal de rebate e chamada, e cada vizinho do quarteirão em que a calamidade for, será obrigado a acudir ao lugar com todas as pessoas úteis da sua família. Serão multados os que não comparecerem em 10$ a 30$, quando não justifiquem impedimento atendível, e o fiscal respectivo findo o conflito e ouvindo o oficial de polícia do quarteirão, autuará imediatamente a todos os que se acharem infratores para ter lugar a cobrança das multas.”



Quando atualmente utilizamos a divisão da cidade em bairros, no passado se dividia em quarteirões, tendo em cada um deles um inspetor ou oficial de polícia. O “poder de polícia”, na maior parte do século 19, tinha uma conotação bem diferenciada da atual, ou seja, possuía um sentido mais lato sensu. Atualmente a polícia se limita a investigação(civil) e repressão(militar) de crimes, mas no passado, a polícia tinha uma função também administrativa, fiscalizando o comércio, a construção de pontes, a limpeza das ruas, etc.



Já o art. 228 dizia: “Logo que for público incêndio ou inundação, estando as ruas e o lugar às escuras, deverão todas as casas vizinhas iluminarem-se desde o ponto em que principiar o concurso destinado a socorrer: os donos das casas que assim o não fizerem serão multados com 6$ a 12$.”



Apesar de obrigar os cidadãos friburguenses a prestar socorro, o poder público, por outro lado, se preocupava com os danos causados ao patrimônio dos que auxiliavam, conforme constatamos no artigo 229: “Toda pessoa que possuir máquinas e instrumentos úteis para os socorros de incêndio ou inundação, tais como bombas d´água, barris, tinas, baldes, barcos, carros, carroças, escadas, machados, serras, calabrês, moitões, cordas, correntes e couros ou outros quaisquer de préstimo, será obrigado a concorrer com os mesmos objetos, entregando-os na ocasião do incêndio ou inundação à disposição das autoridades presentes, e com direito a haver qualquer dano ou prejuízo que neles sofrer: os que os recusarem em tais circunstâncias serão imediatamente presos até pagarem 30$ de multa, além de ficarem obrigados aos danos que causarem pela sua oposição.


E ainda, o art. 230: “As casas que tiverem águas correntes ou poços nas imediações dos incêndios serão obrigados a franquear a entrada para se tirar a água, podendo, porém os respectivos donos exigir das autoridades as medidas de precaução necessárias para não serem prejudicados: os que se opuserem à execução desta providência incorrerão nas penas do artigo antecedente.” Finalmente o art. 231: “A negação de socorros e serviços de qualquer natureza, ordenados ou requeridos pelos fiscais e pelas autoridades em caso de incêndio ou inundação será punida com 10$ a 30$ de multa, e mais 2 a 8 dias de cadeia segunda a gravidade das circunstâncias.”



Segundo fontes iconográficas(fotografias), as enchentes continuam a ser uma constante em Nova Friburgo durante todo o século 20. É interessante como as residências do centro da cidade, muitas existentes até hoje, não foram adaptadas para suportar tais infortúnios. Pelo contrário, quase todas as residências têm porão em sua base que certamente se enchiam de água nas inundações. Os porões objetivavam, nos parece, minimizar o impacto da umidade do solo, que causava doenças respiratórias. Desde a fundação da vila até o presente momento são 191 anos de convivência com as enchentes do Rio Bengalas, um déjà vu em nossa história. Foi necessária uma catástrofe de proporções aterradoras para que se discutisse um melhor planejamento da Nova Friburgo. Entramos para a história como um local onde ocorreu uma das maiores catástrofes mundiais nos últimos cento e dez anos, na categoria de desmoronamentos. Vamos ver se igualmente entramos para história como uma cidade que conseguiu criar um plano para minimizar as catástrofes naturais, como faz Tóquio com os terremotos.










SOLIDARIEDADE, VOLUNTARIADO E HISTÓRIA


Pode parecer um paradoxo, mas na tragédia ocorrida no dia 12 de janeiro desse ano, existe algo de bom: a solidariedade. Esse espírito predominou em pessoas físicas, jurídicas, privadas e públicas. No episódio do Complexo do Alemão se derrubou o mito de que o Estado não atingia determinadas zonas geográficas dominadas pelo tráfico de drogas. Esse mito foi destruído devido à conjunção de forças federal, estadual e municipal. A catástrofe ocorrida em Nova Friburgo, igualmente demonstra que quando o poder público federal, estadual e municipal trabalha uníssono, o resultado é extremamente positivo. Assistimos em nosso cotidiano, circulando pelas ruas e arrabaldes da cidade, um préstito de caminhões do Exército, da Cruz Vermelha, do Corpo de Bombeiros, viaturas de diversos batalhões da Polícia Militar, do Bope, caminhões da Comlurb do Rio de Janeiro, inúmeras retroescavadeiras, caminhões munck e helicópteros. Habituamo-nos a esse cenário de guerra de tal forma que, depois de três dias, as sirenes dos veículos já não chamavam tanto a atenção dos transeuntes. Muitas empresas privadas comprovaram que a “responsabilidade social” existe na prática. Citar nomes dessas empresas seria relacionar desde grandes construtoras a redes de supermercado. Um pequeno empresário de Franca(SP) veio anonimamente e instalou uma cozinha industrial na cidade, um auxílio providencial já que as escolas não estavam dando conta de alimentar desabrigados e o pessoal de apoio. Muitos friburguenses se dispuseram como voluntários e foi fundamental para a distribuição dos donativos e preparo de alimentos. As redes sociais foram importante mecanismo para a arrecadação de donativos aos desabrigados. Mas qual era o papel da solidariedade e do voluntariado no passado?


Charge: Silvério, de A VOZ DA SERRA.

O povo brasileiro até as três primeiras décadas do século 20, sempre viveu à sua própria sorte. Mas como ficava uma família que perdia o seu provedor? A assistência social dada pelo Estado, no modelo que conhecemos atualmente, passou a existir somente partir do governo Vargas, na década de 30 do século 20. Foi quando surgiu a previdência social(aposentadoria), a carteira de trabalho, o auxílio maternidade e outros benefícios. Antes disso, as funções atualmente inerentes ao Estado eram praticadas pelas sociedades de Socorros Mútuos, Corporações e Caixas Beneficentes para o auxílio dos trabalhadores. No campo da organização do trabalho havia no município o Centro Operário de Nova Friburgo, fundado em 1892, e a Sociedade União Beneficente Humanitária dos Operários, fundada em 1893 e que existe até hoje, destinadas ao socorro da classe operária. Eram basicamente formadas por funcionários da Companhia Leopoldina. De cunho mutualista, destinavam-se a prestar socorro aos operários enfermos, encarregar-se dos funerais dos sócios falecidos e auxiliar, através de pensões, as famílias que perdiam o seu provedor. O espírito associativo das sociedades de auxílio mútuo foi bastante expressivo em Nova Friburgo. Dos imigrantes, somente os portugueses e os italianos possuíam associações de mútuo socorro: a Associação Portuguesa de Beneficência e a Sociedade Operária de Mútuos Socorros 20 de Setembro, embora os italianos participassem também da formação da Sociedade Humanitária dos Operários. O sindicalismo brasileiro nasceu das associações de mútuo socorro. José de Souza Martins nos informa que as primeiras formas de organização dos trabalhadores urbanos no Brasil decorreram diretamente dos problemas sociais causados pela doença e pela morte na classe operária.


Outra forma de solidariedade muito comum em Nova Friburgo eram as “subscrições” abertas em favor dos órfãos e famílias carentes. Subscrições eram quantias em dinheiro arrecadadas de doações individuais e destinadas aos necessitados. Basta uma leitura dos jornais do século 19 de Nova Friburgo e se verá com freqüência subscrições abertas em favor de viúvas, doentes, órfãos, etc. Utilizava-se ainda as subscrições para reconstruir estradas e pontes devastadas pelas inundações das chuvas. Como o poder público tratava os seus doentes pobres, indigentes e flagelados? A Intendência(Câmara) Municipal auxiliava os enfermos com a distribuição gratuita de medicamentos e fornecia um médico para atendê-los. De resto, os indigentes dependiam do voluntariado. O sistema de caridade voluntária para auxílio dos pobres, enfermos e moribundos ficava a cargo das senhoras da elite, sendo-lhes reservada uma importante posição nas relações sociais: a filantropia. Organizou-se em Nova Friburgo a “Sociedade de Caridade”, uma instituição que prestava socorro direto as famílias pobres e necessitadas, fornecendo alimentação, medicamentos, serviços médicos e enterros. Essas mademoiselles organizavam quermesses exercendo o oficio de caixeiras vendendo balas, vinho, licor, cerveja, doces, café, flores, sorvete, cigarros, promoviam tômbola, uma espécie de loto, e concertos-soirée beneficentes. Outra forma de captação de recursos para essa entidade eram os espetáculos de teatro e circo. Não havia quem se apresentasse na cidade que não destinasse um dia de bilheteria do espetáculo às obras de caridade.





Logo, a solidariedade e o voluntariado tiveram um papel muito importante no passado, mas que foi se esmaecendo ao longo dos anos devido à evolução do papel do Estado na sociedade. Atualmente se manifesta em situações de catástrofes, como suporte às ações do Estado, de forma coadjuvante. Depois da tragédia do dia 12 de janeiro, a solidariedade e o voluntariado de empresas e de pessoas físicas escreveram uma bonita página na história de Nova Friburgo. Como é bom acreditar no SER HUMANO!
Para comentar essa matéria estou no facebook e twitter.

ENCHENTES E COTIDIANO DA CIDADE




Nada como ter amigos, principalmente amigos como Walther Seng das Neves. Descendente de duas famílias tradicionais de Nova Friburgo, os NEVES e os SALUSSE, que imigraram para Nova Friburgo desde a sua formação, no início do século 19, é sempre uma alegria quando ele abre o seu precioso baú.

Desta vez, ele nos presenteia com fotos do cotidiano das enchentes em Nova Friburgo. Algumas já havia publicado, mas outras são inéditas. Compartilho com vocês essas imagens, todas da primeira metade do século 20, no centro da cidade.







Sobre os NEVES e SALUSSE:

Livro: "O Cotidiano de Nova Friburgo no Final do Século XIX - Práticas e Representação Social".

Neste Bolg: "Coronel Galiano das Neves - Um atípico Coronel da República Velha"; "Colégio Freese - A Formação da Elite Política no Império" e "Impacto da Revolução de 30 em Nova Friburgo."



DUAS PEDRAS: A história de um bairro

A cor mais clara na montanha são os deslizamentos ocorridos no dia 12 de janeiro de 2011.













O deslizamento de pedras que destruiu parcialmente o Hospital São Lucas.








Um helicóptero sobrevoa a zona acidentada.


Um exemplo de residência de classe média alta ameaçada pelo desmoronamento.




Festa em homenagem a São Pedro e São Paulo, oragos do bairro. A sociabilidade de pequenas comunidades ocorre sempre em razão de festas religiosas.













Acima: A igreja de São Pedro e São Paulo depois do desmoronamento de 12 de janeiro de 2011.


O bairro de Duas Pedras foi o mais afetado do perímetro urbano de Nova Friburgo, na catástrofe do dia 12 de janeiro de 2011. Tem esse nome devido às duas montanhas que se avistam do bairro. A denominação de “duas pedras”, ao invés talvez de dois morros ou duas montanhas, é significativa. Conforme se depreende das fotos, elas possuem uma formação rochosa com pouca vegetação. Foi em decorrência disso que a localidade, onde se assentou Nova Friburgo, tinha o nome de “Morro “Queimado”, devido a cor tisnada, acinzentada, de suas montanhas, com pouca vegetação.

Ao final do século 19, a Chácara de Duas Pedras, por onde passava a linha do trem, fora indubitavelmente destinada a ser a cloaca de Nova Friburgo. Era lá onde se depositava o lixo da cidade e havia um projeto para se transferir o cemitério para aqueles arrabaldes. Foi também para lá que se deslocou o matadouro quando removido da Praça Primeiro de Março, no centro da então vila. O matadouro era visto como uma atividade econômica insalubre. Consequentemente ali abrigou um curtume, hoje já desativado. A Chácara de Duas Pedras, de fato, foi escolhida para abrigar tudo que fosse indesejado no município. Nesse local, também se edificou o lazareto, para o recolhimento e isolamento de pessoas com doenças infecto-contagiosas. O lazareto, assim como o Sanatório Naval, se localizavam na parte mais alta da cidade, como era natural, àquela época, a localização de hospitais.


Atualmente Duas Pedras transformou-se em uma zona industrial da cidade. No entanto, entre suas encostas, abriga residências da classe média alta da cidade, hoje comprometidas estruturalmente devido aos desmoronamentos dos morros. Já na parte mais urbana no bairro, residem pessoas de classe média baixa. Nesse núcleo está localizada a igreja de São Pedro e São Paulo, o orago do bairro, muito afetada pelos desmoronamentos ocorridos na tragédia do dia 12 de janeiro.



Fotos antigas: Crédito das fotos antigas Centro de Documentação D. João VI e de Osmar Castro.

12 DE JANEIRO: NOSSO 11 DE SETEMBRO





Vila de Nova Friburgo, por Debret.


As enchentes e o desmoronamento de morros, ocorridos na madrugada do dia 12 de janeiro desse ano, entram para a história de Nova Friburgo, e do Brasil, como uma das maiores tragédias provocadas por fenômenos naturais. É nosso “11 de Setembro”, numa analogia aos ataques terroristas ocorridos nos Estados Unidos da América. Nos jornais, além da divulgação de centenas de mortos e destruição material, a notícia de que os preços das hortaliças e legumes vão ficar mais caros nos próximos seis meses. Isso em decorrência dos desmoronamentos que acarretarem danos ao solo das regiões do Campo do Coelho, Conquista e Salinas, que abastece com produtos primários o Rio de Janeiro. Isso demonstra que a região serrana, além de ser procurada pelas suas belezas naturais e por seu clima, também tem importante papel na economia do Estado, e mais propriamente, na mesa dos cariocas e fluminenses. Mais da metade desses produtos consumidos pelos cariocas são produzidos por essa região, incluindo também Teresópolis. Essa região, que correspondia a antiga freguesia de Sebastiana, no século 19, já produziu peras, maçãs, nozes, cerejas, marmelo, amoras e uvas, dando-lhe uma paisagem que se assemelhava às planícies européias.

Giuseppe Arcimboldo.(1527[?]-1593 [?]). Pintor italiano.
Historicamente, Nova Friburgo foi criada justamente para abastecer o mercado da Corte, ou seja, o Rio de Janeiro. No início do século 19, o plantio do café deslocara muitas terras e mão de obra escrava no cultivo desse produto, o mais rentável à época. A economia do Brasil já se baseava na exportação do café, em franca expansão. Logo, produtos como milho, feijão, mandioca e carne já estavam desaparecendo da mesa dos cariocas. A maior parte dos agricultores não queria se dedicar ao cultivo de alimentos, mas tão somente ao ouro verde: o café. Logo, D. João VI deu início a política de colonização, objetivando o plantio de gêneros alimentícios para abastecer a Corte, através de imigrantes estrangeiros. Um decreto de 1818 destinou a Fazenda do Morro Queimado para o assentamento de colonos suíços. Essa antiga fazenda, composta de quatro sesmarias, hoje é Nova Friburgo. Em um pitoresco vale, entre grandiosas montanhas, foi criada a vila de Nova Friburgo, em 1820, para abrigar a “Colônia dos Suíços”, a primeira do Brasil. No entanto, as datas de terras no perímetro do “Núcleo dos Colonos” não eram úberes o suficiente para a agricultura, sendo localizadas em terrenos íngremes ou repletos de brejos. Boa parte das terras distribuídas aos colonos suíços foi abandonada. Em 1824, colonos alemães foram encaminhados para a vila de Nova Friburgo. As terras inférteis abandonadas pelos suíços foram distribuídas aos colonos alemães. Por conseguinte, metade deles se deslocou para outras regiões em busca de terras mais produtivas, como Cantagalo, Barra Alegre, Rio Bonito e São Leopoldo, no sul do país.
Cumpre destacar que somente as glebas coloniais do “Núcleo dos Colonos” eram consideradas inférteis, pois Nova Friburgo possuía uma extensão territorial com terras produtivas, que lhe retiravam a pecha de região com terras sáfaras. Nova Friburgo possuía quatro freguesias: A Freguesia de São João Batista, a vila, a Freguesia de São José do Ribeirão, atualmente Bom Jardim, Nossa Senhora de Paquequer, hoje Sumidouro, e Sebastiana, atualmente compreendendo o cinturão agrícola de Campo do Coelho, Conquista, Salinas e parte de Teresópolis. São José do Ribeirão e Paquequer eram importantes regiões agrícolas, cultivando inclusive o café. Na realidade, parte do desenvolvimento de Nova Friburgo ocorreu devido ao seu clima salubre. A partir de 1830, Nova Friburgo encontra a sua verdadeira vocação, vingando como uma aprazível estação de verão. Foi desde então refúgio dos cariocas que fugiam do calor do Rio de Janeiro e dos que procuravam a saúde do corpo, como a cura da tuberculose, quando se acreditava que o clima era um fator determinante na cura da doença. A partir da segunda metade do século 19, quando começam a grassar as epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro, Nova Friburgo ganha mais visibilidade atraindo uma chusma de cariocas em todo o verão, ponto alto das epidemias.
Já no último quartel desse século, recebeu significativa imigração de italianos, fomentando o comércio e a área de serviços. Imigraram ainda para Nova Friburgo, desde então, em menor proporção, libaneses, espanhóis, húngaros, austríacos e japoneses. É sempre bom lembrar a imigração forçada de africanos, na condição de escravos, ao município. A partir de 1910, empresários alemães estabeleceram indústrias de grande porte na cidade, alterando significativamente a estrutura social e econômica do município. Pode-se afirmar que Nova Friburgo passou a ser uma cidade industrial. Com a diminuição da atividade dessas grandes indústrias, a partir da década de oitenta do século 20, a economia de Nova Friburgo passou a girar em torno de pequenas e médias empresas metalúrgicas e de um grande pólo de moda íntima, essas últimas estabelecidas por antigos funcionários das indústrias têxteis. Como vimos, Nova Friburgo tem uma história nada monolítica.

Há quase dois séculos, cariocas e fluminenses, quando tressuam esbaforidos devido ao calor escaldante do verão, procuram o frescor do clima das montanhas de Nova Friburgo. O município curou igualmente os que se convalesciam da tuberculose. Nova Friburgo coloca diariamente, na mesa dos cariocas, hortaliças e verduras do amanho de suas terras.

Depois da tragédia do dia 12 de janeiro, enterramos nossos mortos, choramos nossas perdas e mal absorvemos ainda o que aconteceu com Nova Friburgo. Porém, corre nas veias dos friburguenses o sangue de portugueses, africanos, suíços, alemães, italianos, libaneses, espanhóis, japoneses, austríacos e húngaros. Logo, vamos transformar essa babel de nacionalidades que correm em nossas veias para reconstruir a cidade e colocá-la no status que possuía no passado: a de mimosa bonina e princesinha do Estado do Rio de Janeiro.

Arcimboldo

Arcimboldo









NOVA FRIBURGO: a História, a Enchente e a Redenção. NOSSO 11 DE SETEMBRO!!!!

Praça do Suspiro. 1930.

Praça do Suspiro. 1905.

Praça do Suspiro, 1930.

Praça do Suspiro. 1920.

Praça do Suspiro. 1990.

Praça do Suspiro. As fotos podem parecer ser de lugares distintos, mas foi a praça que mais sofreu intervenção do poder público, alterando-lhe a paisagem.



A História:
Dois alemães, Leithold e Rango, por ocasião da instalação da colônia dos suíços
em Nova Friburgo, no início do século 19, escreveram: “Só poderá ser um
desastre!”

Quando foi expedido o decreto de 6 de maio de 1818 destinando a Fazenda do Morro Queimado para o assentamento de colonos suíços, era seu proprietário Monsenhor Antonio José da Cunha e Almeida, titular de Mesa de Consciência e Ordens, do Desembargo do Paço e Chanceler das três Ordens Militares. Um tipo de altos coturnos. Monsenhor Almeida havia comprado a Fazenda do Morro Queimado de Lourenço Correa Dias pela modesta quantia de 500$000 e vendeu a propriedade ao governo por 11.932$000, isso sem haver nada que justificasse a valorização do imóvel. A transação foi intermediada pelo Inspetor da Colonização, o eclesiástico Monsenhor Miranda. Não obstante haver terras férteis e devolutas nas proximidades da Corte, o perdulário Monsenhor Miranda escolheu as terras inferiores da Fazenda do Morro Queimado do confrade da Mesa de Consciência e Ordens.


A Fazenda do Morro Queimado tinha esse nome devido a cor tisnada, acinzentada de suas montanhas. Essa antiga fazenda, composta de quatro sesmarias, hoje é Nova Friburgo. A vila de Nova Friburgo foi criada em 1820 para abrigar uma colônia de suíços, a primeira do Brasil. Era um pitoresco vale, entre cinco grandiosas montanhas. O núcleo urbano foi formado próximo ao Rio São João das Bengalas. As enchentes, desde então, sempre fizeram parte do cotidiano da cidade. Para compreender melhor, ler a matéria “As Enchentes do Velho São João Das Bengalas: Um Déjà Vu na história de Friburgo”, nesse blog.


No entanto, as terras do “Núcleo dos Colonos” não eram úberes o suficiente para a agricultura, sendo localizadas em lugares montanhosos ou repletas de brejos. As datas de terras distribuídas aos colonos suíços foram abandonadas por boa parte deles. Em 1824, colonos alemães foram encaminhados para a vila de Nova Friburgo. As terras sáfaras abandonadas pelos suíços foram as mesmas distribuídas aos colonos alemães. Por conseguinte, metade dos alemães se deslocaram para outras regiões, em busca de terras mais férteis, a exemplo de Cantagalo.


Ao final do século 19, Nova Friburgo recebeu significativa imigração de italianos, onde algumas famílias, a exemplo dos Spinelli, se transformaram na maior fortuna do município. Imigraram ainda para Nova Friburgo, portugueses, e em menor proporção, espanhóis, alemães, libaneses e japoneses. A Praça das Colônias, que possuía o panteão representando todas essas imigrações, inclusive a africana, foi destruída. Cumpre destacar que a partir de 1910, empresários alemães estabeleceram indústrias de grande porte na cidade, alterando significativamente a estrutura social e econômica do município. Pode-se afirmar que Nova Friburgo passou a ser uma cidade industrial. Com a diminuição da atividade dessas grandes indústrias, a partir da década de oitenta do século 20, a economia de Nova Friburgo passou a girar em torno de pequenas e médias empresas metalúrgicas e de um grande pólo de moda íntima, essas últimas estabelecidas por antigos funcionários das indústrias têxteis.

A Tragédia:
Com a tragédia da enchente e deslizamentos dos morros, que é notória, ocorrida na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, dois monumentos históricos se perderam nessa enchente: a Igreja de Santo Antônio e a Fonte do Suspiro. Era na praça em frente a igreja que se realizavam as festas de Santo Antônio, a mais tradicional da cidade. Superava a do orago da cidade, São João Batista. A igreja se localiza na Praça do Suspiro e remonta ao século 19.

A Praça do Suspiro foi completamente destruída pela enchente do rio São João das Bengalas e da queda de barreira. Era o mais importante espaço de sociabilidade de Nova Friburgo no século 19. A praça foi construída no entorno da Fonte do Suspiro, fonte essa que abastecia de água toda a vila, onde os escravos buscavam água para abastecer as residências.

A Fonte do Suspiro era considerada desde tempos antigos, até mais da metade do século 20, uma das “maravilhas” de Friburgo. Jorrava água fresca e cristalina, cantando andeixas sentidas e amarguradas. Não havia quem tendo amado, não tenha procurado aquele recanto florido e bucólico, lugar onde a natureza concentrara sua magia, revestindo-se de galas e pomas. Era o recanto mais formoso da cidade, “onde cada friburguense tem uma parte de sua alma e um pedacinho do seu coração”, de acordo com relatos.

A Fonte do Suspiro possuía três bicas: a do AMOR, da SAUDADE e do CIÚME. Asseguravam os antigos habitantes de Friburgo que a água dessas fontes era misteriosa e atraente, e quem a bebesse, ficava condenado a sofrer no coração os desastrados efeitos do amor, do ciúme e da saudade, formando esses três sentimentos um grosso e inquebrantável elo. Acreditava-se que o viajante que bebia um pouco de sua água pura, que jorrava cantante das três fontes, certamente voltaria a Friburgo, porque a saudade lhe encheria o coração. Era uma fonte impregnada de feitiços e lendas. Para os que viveram grandes paixões nos seus jardins, a Fonte do Suspiro representava o tabernáculo de sonhos do passado. Já para os que vinham buscar a mansuetude bucólica de Nova Friburgo, a salubridade do bom clima, a Fonte do Suspiro promovia um reconforto ao espírito e um retempero para sua saúde, encontrando ali ainda o encantamento doce e a estesia miraculosa que erguem o ser abatido. No imaginário da população, além do romantismo que ela evocava, era também notório que as águas de suas fontes restauravam a saúde, consolavam os tristes, alentavam os vivos, davam robustez aos fracos, restaurando-lhes o vigor. Fazia lenir as dores dos que sofriam e dizia-se até mesmo que “ressuscitava os quase-mortos”.

Abaixo, uma sequência de fotos da Fonte do Suspiro.


A Redenção:
Na realidade, parte do desenvolvimento de Nova Friburgo se deu devido ao seu clima salubre, com característica muito próxima a de países europeus. Pode-se afirmar que a partir de 1830, Nova Friburgo encontra a sua verdadeira vocação, vingando como uma aprazível estação de verão, já que a agricultura era economicamente pífia por conta das terras sáfaras. Foi desde então, refúgio dos cariocas que fugiam do calor do Rio de Janeiro e dos que procuravam a saúde do corpo, como a cura da tuberculose, quando se acreditava que o clima era um fator determinante na cura da doença. Por isso, o Sanatório Naval se estabeleceu no município. A partir da segunda metade do século 19, quando começam a grassar as epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro, Nova Friburgo ganha mais visibilidade atraindo uma chusma de cariocas em todo o verão, ponto alto das epidemias.


Passada toda essa tragédia, nós, friburguenses, estamos aguardando os cariocas e fluminenses de Niterói, que sempre procuraram o refúgio de Nova Friburgo, desde os tempos de antanho, para fugir do forte calor do verão e igualmente das epidemias e doenças. Não possuímos o rico patrimônio histórico de Petrópolis, mas temos a oferecer A NATUREZA, já que preservamos setenta por cento da mata atlântica. O espaço urbano de Nova Friburgo se restringe a 30% de seu território.


Dizia a lenda que quem beber da Fonte do Suspiro a ela se prenderá por toda a vida! Mesmo sem poder beber mais a água da fonte encantada, destruída pelo deslizamento das encostas, garantimos aos cariocas e fluminenses que visitarem a bucólica Nova Friburgo que certamente retornarão, porque a saudade lhe encherá o coração!

AS ENCHENTES DO VELHO SÃO JOÃO DAS BENGALAS: UM DÉJÀ VU NA HISTÓRIA DE FRIBURGO

Acima: Enchente na Rua Francisco Miele em 02 de janeiro de 1938.


Acima: Praça Getúlio Vargas. Enchente de 1940.




Acima: Praça do Suspiro. Enchente de 1940.

Acima: Rua Sete de Setembro. Enchente de 1920.




Acima: Praça Getúlio Vargas. Enchente de 1920.



Acima: Avenida Galdino do Vale. Enchente de 1920.



Acima: Rua General Osório. Enchente de 1940.




Acima: Não há referência da foto. Provavelmente a enchente de 1940.


Acima: Avenida Galdino do Vale. 1940.




Acima: Avenida Galdino do Vale. 1940.


Acima: Rua Oliveira Botelho. Enchente de 1940.

A Fazenda do Morro Queimado, onde Nova Friburgo se estabeleceu, pertencia a Cantagalo. Era um belo vale situado entre cinco elevadas montanhas e apelidaram-na de morro queimado por causa da cor tisnada, acinzentada das montanhas. Destaca-se na paisagem o Rio São João das Bengalas, formado pela confluência dos rios Cônego e Santo Antonio que lança-se no Rio Grande e deságua no Paraíba do Sul. Nova Friburgo sempre padeceu com as enchentes do velho Rio Bengalas, desde a instalação da vila em 1820, até os dias de hoje. Mas as civilizações sempre se formaram ao redor dos rios, devido atividade agrícola. A Mesopotâmia, na Antiguidade, formou-se entre os Rios Tigre e Eufrates. A própria etimologia da palavra mesopotâmia significa “entre rios”. O Egito depende das enchentes do Rio Nilo para a sua economia.


Quando instalou a vila de Nova Friburgo não se considerou que a sua proximidade com o rio acarretaria problemas de alagamento nas residências e logradouros com prejuízo material e à salubridade pública? A escolha do local do assentamento da vila, as “vilagens do norte e do sul”, pode ter sido em função da existência do chateau(hoje Colégio Anchieta), sede da administração da Fazenda do Morro Queimado. Mas note que a sede da fazenda ficava no alto do morro, provavelmente em função das enchentes do velho Bengalas.


O “tempo das grandes enchentes”, diziam os friburguenses oitocentistas, era como hoje, iniciando na primavera. Há registro de que choveu em Nova Friburgo ininterruptamente durante três meses consecutivos nessa época. Nova Friburgo possui extensa mata atlântica e daí o grande nível pluvial. Sempre foi uma constante na estação das chuvas as enchentes do Bengalas inundarem suas imediações, entrando nas casas, destruindo pontes e os precários caminhos. Dificultava o trabalho dos tropeiros causando-lhes perda de cargas e até de animais. Além das perdas materiais o maior problema das enchentes era o comprometimento da salubridade. Com as chuvas intensas formavam-se pântanos e acreditava-se que as febres eram atribuídas aos focos de miasmas produzidos pelos pântanos. Os miasmas eram a obsessão dos médicos higienistas oitocentistas. Acreditava-se que dos pântanos e manguezais emanavam seres não visíveis a olho nu, os miasmas venenosos, que aspirados pela boca ou nariz, causavam as febres palustres. Segundo a ciência médica da época, as “febres dos pântanos” ou “febres palúdicas” eram provocadas pelos miasmas deletérios que se desprendiam das águas estagnadas. Logo, o assoreamento de águas estagnadas era uma preocupação constante da Câmara Municipal que se ocupava em aterrar os pântanos. Em conseqüência das chuvas, as ruas da vila foram niveladas e aterradas para evitar a formação de pântanos, brejos e alagadiços. Como disse, a estagnação das águas poderia resultar no aparecimento de epidemias. Foram as enchentes que provocaram a mudança do cemitério da vila para a parte mais alta da cidade. O cemitério era exatamente onde hoje se encontra o prédio da maçonaria, na Rua Sete de Setembro, e foi deslocado para onde se localiza atualmente. No antigo cemitério, depois que as águas baixavam, os corpos ficavam insepultos devido à força das águas e provocavam constrangimento entre a população. E o pior, poderia provocar doenças.


Ao final do século 19, de caniço à mão, comerciantes, caixeiros, aprendizes e oficiais iam aos domingos ao Rio Bengalas pescar pião e piabanha. Os jornais de Friburgo do final do século 19 reclamavam dos moleques e rapazolas que se despiam de seus molambos, de seus trapos de estopa e iam tomar banho completamente nus, em plena luz do dia. O moleque brasileiro tornou-se célebre pelo seu gosto de banho de rio. Influência moura, através do português. Gilberto Freyre nos informa em “Sobrados e Mucambos” que viajantes sempre estranharam homens e mulheres, velhos e meninos regalando-se de banho de rio à vista de toda a cidade. O budum, a catinga, a inhaça e o “cheiro de bode” atribuído aos negros, exagero do “cheiro de raça” tão forte nos sovacos, em torno do qual cresceu o folclore, não foi pela falta de banho, mas pelo rigor do trabalho, nos informa Freyre. Isso porque do banho, o negro, o mulato, o mameluco e o caboclo nunca se mostraram inimigos como os brancos europeus. Era na beira do rio, espaço de sociabilidade feminina, que as lavadeiras lavavam e quaravam as roupas, ganhavam seu pão, trocavam confidências, saberes de curas e remédios, e queixavam-se das pancadas que tomavam dos companheiros. Não obstante a nossa imensa extensão de costa marítima, foi em torno dos rios que a civilização brasileira se desenvolveu.


Aproximadamente entre 1910-1990, período em que as indústrias têxteis e metalúrgicas se instalaram e alcançaram seu apogeu em Nova Friburgo, víamos o velho Bengalas matizado por diversas cores. Quem não se recorda que um dia o Bengalas estava verde, outro vermelho ou furta-cor em razão dos despejos sem tratamento dos produtos químicos das indústrias? Ainda não tínhamos a consciência ecológica de hoje. Mas quem ousaria protestar contra os “capitães” das indústrias alemãs que tantos empregos diretos e indiretos geravam na cidade? Atualmente o Bengalas corta a cidade ressequido, esquecido, poluído, servindo de depósito de lixo de indivíduos irracionais. Mas na época das chuvas, o velho São João das Bengalas ressurge e as enchentes são um déjà Vu, ou seja, algo já visto e já vivenciado em nossa história.

Na semana seguinte em que postei essa matéria, na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, o velho São João das Bengalas inundou a cidade de Nova Friburgo, provocando uma das maiores enchentes e tragédias da história da cidade. Muito mais grave do que a enchente de 1979. Não bastasse isso, muita terra e pedras desceram dos morros, soterrando prédios, no centro e na periferia da cidade. Mais de cem pessoas faleceram. Até mesmo quatro bombeiros da equipe de resgate morreram. A cidade ficou sem luz, sem água e sem comunicação. Principiou-se alguns saques, típico de uma sociedade que retorna ao seu estado de natureza. Sem lei, sem ordem e sem rei.
Note na sequência de charges do cartunista SILVÉRIO, de A Voz da Serra, publicadas antes da tragédia do dia 12 de janeiro, que ele já vinha ilustrando o cotidiano de enchentes no município.


Depois de enterrarmos os nossos mortos, passaremos a contabilizar as perdas materiais. A igreja de Santo Antônio e a Fonte do Suspiro, um dos raros monumentos históricos que nos resta do século 19, foram destruídos pela terra que desceu da encosta. A igreja de Santo Antônio mal é sustida em pé. Até quando essas tragédias serão um dè já vu em nossa história?










Todas as fotos acima são de enchentes em Nova Friburgo, no século XX. Fonte: Centro de Documentação D. João VI.




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