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ENTREVISTA: HISTÓRIAS E MEMÓRIA DE NOVA FRIBURGO

Quando surgiu a ideia de tornar os seus artigos em uma compilação como essa?

A ideia do livro surgiu quando percebi que, depois de escrever durante dois anos para o jornal A Voz da Serra, a compilação das matérias, atendendo a uma cronologia, conseguia dar conta de narrar a história local, passando pelos séculos XIX e XX. Curiosamente, esse mosaico de histórias, de situações cambiantes, se organiza na linha do tempo, adquire organicidade e dá sentido a uma história sobre Nova Friburgo.



Como se deu o processo de coleta de informações?
As fontes são a correspondência oficial, jornais, crônicas, fotografias, além de fontes secundárias. Utilizo, igualmente, a memória dos habitantes locais, que nasceram entre 1915 e 1940, entrevistas essas que vão desde o executivo de uma grande indústria até o cidadão comum, mostrando suas visões de mundo, experiências e de que forma perceberam e vivenciaram os acontecimentos do passado.
O livro foca a história a partir da percepção de pessoas comuns. Você acredita que esse seja o diferencial da publicação?
A valorização de cidadãos comuns como atores históricos não apresenta nenhuma novidade. Foi iniciada pelos franceses a partir do segundo quartel do século XX, através da Escola de Anales. Adoro esse exemplo de um dos historiadores que segue essa corrente. Ele diz mais ou menos isso: Não estou interessado apenas na vida de Júlio César. Mas me interesso, também, pelo que pensa e como se comporta um simples soldado da legião de Júlio César.




Quando nasceu a sua paixão pela história?
Infelizmente, não posso atribuir aos meus professores a minha paixão pela história. O ensino de história não era nada atraente até uns 40 anos atrás. Acho que gostar de história é algo nato e tem que ter paixão, pois a pesquisa é árdua, laboriosa, cara, repleta de obstáculos e não há resultado financeiro.
Já que falou obstáculos, qual é a maior dificuldade que um pesquisador encontra?
Inicialmente a relação com o Pró-Memória. Além de encontrar-se fechado desde novembro do ano passado, o espaço e o tempo de pesquisa do historiador foi restringido. Tem-se a impressão de que somos indesejáveis. O acesso a certas fontes somente se dá depois de muitas rogativas. O acervo está sendo digitalizado de forma muito lenta e com isso indisponibilizaram grande parte dele por conta desse trabalho, atrapalhando nossas pesquisas. O acervo está blindado. Uma fundação para tratar da pesquisa sobre a história local foi criada pelo Sr. Heródoto Bento de Melo e a maioria dos historiadores não foi convidada a participar dela. É um paradoxo. É desmotivante? Obviamente. Mas foram os leitores de A Voz da Serra que me deram força e me motivaram para prosseguir nessa que se transformou em uma verdadeira cruzada, fazer pesquisa em Nova Friburgo. Oxalá essa situação se reverta no novo governo.



O que é mais difícil, ouvir as histórias que as pessoas têm para contar ou "traduzir" este material bruto em texto?
Certamente traduzir, ou melhor, reapresentar, o material bruto em texto. A narrativa histórica é um aspecto essencial, pois tem que ter clareza, objetividade, isenção na análise dos fatos, além da problematização dos acontecimentos históricos. Considero a história como algo vivo, sempre mutante, pois volta e meia surgem novas fontes que são capazes de invalidar grandes teses. Mas entendo essa circunstância como parte de nosso ofício.
O livro segue uma linha cronológica dos acontecimentos e assuntos ou segue a linha das publicações das colunas?
Como disse acima, procurei colocá-las atendendo a uma cronologia que vai desde o final do século XVIII, com a ocupação dos Sertões do Macacu, passando pela fundação da vila de Nova Friburgo, em 1820, e acontecimentos ao longo do século XIX. Já no século XX, vou aproximadamente até a década de 60. As formas de sociabilidade, no passado, são sempre o meu foco.
O que Nova Friburgo tem de especial para você?
O que mais me apaixona em Nova Friburgo é o fato de seu clima, a sua geografia, ter sido um fator determinante em sua história. Foi o seu clima salubre que atraiu os tuberculosos, empresas e instituições, como o Instituto Hidroterápico, o Sanatório Naval, diversos estabelecimentos de ensino de qualidade, imigrantes europeus, e até os prisioneiros alemães foram para Nova Friburgo enviados, na Primeira Guerra Mundial, por conta de seu clima.







Percebe-se que é um trabalho cuidadoso efeito com carinho, quanto tempo levou para produzir esta obra?
Essa obra é fruto de um trabalho de pesquisa desde 2005. Mas as pesquisas têm um tempo muito em função da disponibilidade e dos recursos financeiros do pesquisador.
Há uma passagem do livro que queira compartilhar conosco?
Na tragédia ocorrida em Nova Friburgo, entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, passei a escrever diversas matérias sobre como o friburguense lidava com esse sinistro no passado, consultando o código de posturas. Lembrei-me de uma passagem do livro de Martin Nicoulin, “A Gênese de Nova Friburgo”, sobre uma enchente nos primeiros anos de assentamento dos suíços. Surpreendi-me relendo essa passagem, de como a enchente desestruturou a colônia dos suíços, já que perderam toda a sua colheita naquele ano. Isso provocou tensões à época como homicídios, estupros, agressões físicas, etc. o que denota que as enchentes são um problema na região desde os tempos de antanho.
Qual foi o fato mais importante contado no livro?
Não vou dizer que seja a mais importante, mas surpreendeu-me que a matéria que fiz por ocasião do dia de finados, intitulada “A história dos cemitérios em Nova Friburgo”, teve uma repercussão notável. Nunca imaginaria que contar a história sobre cemitérios, um tema tão funesto, provocaria tanto interesse entre os leitores do jornal.



A Europa tem uma forte ligação com a cidade. Você fala a respeito disso?
Certamente, ao final do século XIX, ocorre o fenômeno da “europeização” das elites brasileiras. Em Nova Friburgo não foi diferente. Até porque estávamos próximos do Rio de Janeiro e os cariocas passavam seis meses em Nova Friburgo, permanecendo enquanto a epidemia de febre amarela não cessasse no verão. Temos ainda que considerar que tivemos colonos suíços, alemães, além de imigrantes italianos e portugueses, que auxiliaram a compor esse cenário. Mas apesar das elites serem de ascendência europeia, será a cultura africana que irá prevalecer sobre as demais na história do Brasil e Nova Friburgo, a meu ver, não escaparia desse fenômeno.
Qual é a sua avaliação do livro?
O maior mérito desse meu livro foi destacar a história regional e a valorização das memórias de antigos moradores da cidade. Passei parte de minha infância, nas férias, em diversas cidades do centro-norte fluminense. Isso foi fundamental para que eu me sensibilizasse de que a história de Nova Friburgo passa pela história regional. Através de entrevistas com Nelson Spinelli, Richard Ihns, Mário Babo, Rodolfo Abud e com cidadãos comuns que nasceram no início do século XX, consegui apresentar um quadro do cotidiano do município. No mais, contribuo com a história local em que, felizmente, Nova Friburgo já possui uma historiografia razoável e de muita qualidade, graças à iniciativa de diversos historiadores a exemplo de João Raimundo de Araújo, Jorge Miguel Mayer, Ricardo Costa, José Carlos Pedro e é claro o suíço, Martin Nicoulin.
Há ideias para uma próxima publicação ou teremos que esperar?
Na realidade, já estou trabalhando no terceiro livro. Estou inicialmente analisando as atas da Câmara. Aliás, gostaria de aproveitar a oportunidade de destacar a contribuição de Jayme Jaccoud, que teve a pachorra de transcrever e digitar as atas da Câmara, o que facilita em muito o trabalho dos pesquisadores. O livro é sobre o século XIX, em que procuro suprir uma lacuna na história de Nova Friburgo, ainda não preenchida. Muitos historiadores se limitam à primeira metade do século XIX e depois as pesquisas dão um salto de décadas e iniciam no período republicano. Logo, fica a seguinte pergunta: o que aconteceu com Nova Friburgo depois do fracasso do Núcleo Colonial, atividade-fim para o qual o município tinha se constituído? É essa resposta que pretendo dar a Nova Friburgo, no seu aniversário de 200 anos.






Entrevista publicada em A Voz da Serra em 10 de setembro de 2011.

UMA HISTÓRIA PESSOAL, UMA HISTÓRIA LOCAL: AS MEMÓRIAS DE ELVIRITA



Maria Elvira Veloso Serafim - Elvirita



Maria Elvira Veloso Serafim nasceu em Duas Barras em 04 de maio de 1915. Aos 96 anos de idade possui 18 netos, 26 bisnetos e 3 tataranetos. Elvirita, como é conhecida, viveu um cotidiano bem diferente de seus bisnetos e passou por diversos períodos de transformações sociais e econômicas em seus quase um século de existência. Seu avô, o português Joaquim Gonçalves Corguinha, veio de Portugal no final do século 19 para Duas Barras e juntamente com o irmão adquiriu uma fazenda na região, dedicando-se à cultura do café. A terra era muito barata naquela época. Casou-se com Augusta Ricardo Corguinha, natural da Ilha da Madeira e tiveram dez filhos. Na fazenda de seu avô Elvirita se recorda dos vestígios da escravidão, um paredão enorme que serviu de senzala. A fazenda foi herdada pelos pais de Elvirita e com o fim da escravidão prevalecia o sistema de colonato. No entanto, os colonos não eram estrangeiros, eram nacionais e da região. Os colonos recebiam uma casa, um “trato de terra”(terreno) e davam a “meia” de sua produção ao proprietário da fazenda. Além de café plantava-se milho, feijão e marmelo, daí o nome de Fazenda do Marmelo. O marmelo era uma fruta muito comercializada pelos portugueses onde se fazia o doce e a marmelada. Já a vara de marmelo servia como instrumento de correção das crianças desobedientes e rebeldes. Não há criança de sua geração que não tomasse vez por outra uma surra com vara de marmelo nas pernas. Porém, essas punições disciplinares não afetaram a relação de amor e respeito entre pais e filhos. Pela manhã e à noite os filhos pediam a benção aos pais. Beijava-se a mão e não o rosto. À noite se faziam as orações. Os casados que moravam perto dos pais, todas as manhãs iam tomar a benção. Às vezes nem entravam. Chegava-se na cozinha, tomava um cafezinho, pediam a benção e iam para sua labuta diária, relembra Elvirita.



Era uma rotina diferença da atual. Levantava-se às 6:00 horas da manhã e se tomava apenas um cafezinho. Às 8:00 horas se almoçava. Jantava-se entre duas e três horas da tarde e às oito horas da noite já estava todo mundo dormindo. Comia-se carne de porco, ovo, galinha, canjiquinha, arroz, feijão, verdura e naquele tempo se usava muito o bacalhau, que era barato. Comia-se bacalhau com chuchu, com quiabo, puro ou com batata. A qualidade do bacalhau era melhor do que de hoje, do tipo 8/10, recorda-se Elvirita. Andava-se 3 km a pé para chegar ao colégio e tinham que carregar ainda os livros de geografia, gramática, aritmética, história do Brasil, ciências e catecismo. Nas horas de lazer se pescava no córrego da fazenda lambari, bagre e moréia. Na adolescência, Elvirita se divertia nos bailes nas casas dos amigos onde a sanfona e violão acompanhava as danças. A festa das folias, no dia de reis, era como o carnaval de hoje. A festa de São João era igualmente muito aguardada onde famílias faziam broa, bolo, doce de mamão, etc. Pulavam-se as fogueiras e dançavam-se quadrilhas. Armavam-se as barracas, cada um levava “um prato” de doces e comiam-se as guloseimas das barracas sem pagar nada. Tomava-se vinho de garrafão e cachaça. Nada era vendido. Havia muita fartura, recorda-se Elvirita. A família de Elvirita mudou-se para Sumidouro e foi em Murinelly que conheceu o seu marido, José Ribeiro Serafim, um lindo rapaz descendente de italianos, e tiveram seis filhos. Havia muitos italianos em Murinelly. José Serafim, além de tropeiro, tinha como atividade comprar matas da região, extrair a madeira e vender a lenha para Cia. Leopoldina. Para o proprietário da mata era um bom negócio, pois além de vender a madeira ficava com a terra livre para a agricultura. José Serafim comprava ainda das “terras quentes” cereais como milho, feijão, café, arroz e açúcar. Colocava as mercadorias em bolsas de couro, as bruacas, e seguia com dois ajudantes e sua tropa de doze animais de Sumidouro para Bonsucesso, Frade, Vieira onde vendia no comércio local. Como a linha do trem não existia nesse caminho, muitos tropeiros permaneceram com suas atividades mesmo depois do “cavalo de ferro”. José Serafim passou também a comprar boi de corte na região e em Minas Gerais e conduzia o gado para o matadouro do Cantelmo, no Campo do Coelho. Com suas economias adquiriu a Fazenda Boavista e deixou a atividade de tropeiro, se sedentarizando. Passou a plantar cana-de-açúcar onde possuía um engenho e a produzir açúcar mascavo. Plantou ainda arroz adquirindo uma máquina de beneficiamento. Até 1950, de acordo com Elvirita, a terra ainda era barata na região e ainda se adotava o sistema de colonato e meação. Quando José Serafim faleceu, Elvirita continuou a administrar as propriedades da família, mas os tempos já estavam mudando. Os antigos colonos, denominados campeiros, foram morrendo, uns se entregavam à bebida e a mão de obra ficava cada vez mais difícil. Elvirita optou, em razão da falta de mão de obra, pela pecuária com a comercialização de leite, pois não se necessitava de muitos campeiros nesse ramo de negócio.



Considerando as memórias de Elvirita desde os tempos de avô, temos mais de cem anos de história, que remontam ao final do século 19. A vida de Elvirita, que aparentemente pode nos parecer banal, revela um interessante ciclo econômico pelo qual passou a região fluminense: o tipo de cultivo da região, a adoção do sistema de colonato e da meação na organização do trabalho, o valor da propriedade fundiária, a persistência do sistema de tropas mesmo depois do advento do trem, e as mudanças da atividade econômica relacionadas com a questão da mão de obra. Pela história pessoal de Elvirita, conhecemos a história local, e daí a importância de suas memórias.

ENGENHO CENTRAL LARANJEIRAS: UMA LINHAGEM DE USINEIROS

PRIMEIRA PARTE:


SEGUNDA PARTE:


O ENGENHO CENTRAL LARANJEIRAS: UMA LINHAGEM DE USINEIROS



















O Engenho Central Laranjeiras







Abaixo: familiares das gerações de usineiros.




































Executivos do Engenho Central Laranjeiras




A história de Nova Friburgo não pode ser entendida se não ampliarmos nosso campo de pesquisa para uma região mais ampla. Refiro-me a análise da história regional compreendendo os atuais municípios de Cantagalo, Bom Jardim, Sumidouro, Duas Barras, entre outros. Foram municípios muito mais importantes do que Nova Friburgo, do ponto de vista econômico, no século 19. Dessas regiões saiu a nobreza fluminense, os barões do café, a exemplo do Barão de Nova Friburgo, Barão de Cantagalo, Barão de Duas Barras, Barão de Rimes, entre outros. Por isso, a matéria de hoje, celebrando o mês de aniversário de Nova Friburgo, tem como objetivo chamar a atenção para a importância da história regional, pois tanto a grandeza quanto a decadência desses municípios tiveram impacto direto sobre a história econômica, social e política de Nova Friburgo.







Toda essa região denominava-se Novas Minas das Cachoeiras de Macacu, desbravada inicialmente, ao final do século 18, por garimpeiros originários de Minas Gerais em busca de ouro. Em 1787 é fundado o arraial de Cantagalo, destinado a servir de núcleo de controle, fiscalização e prospecção das lavras de ouro da região. Como as lavras de ouro dos afluentes dos rios Negro, Macuco e Rio Grande fossem pouco significativos, a Coroa Portuguesa recomendou que os sesmeiros voltassem suas atividades à agricultura com o plantio do café, açúcar, lavoura branca (milho, arroz, feijão, de ciclo curto) e na criação de gado. Foram distribuídas inúmeras sesmarias sobre as terras devolutas e assim, ao longo do século 19, surgiram novos povoados, todos eles fazendo parte da Magna Cantagalo. Ao longo desse século esses municípios foram se emancipando gradativamente de Cantagalo, como foi o caso de Nova Friburgo. Por outro lado, Bom Jardim e Sumidouro também já fizeram parte de Nova Friburgo e se emanciparam. Daí a importância de se conhecer a história regional. Nesse artigo, o objetivo é tratar especificamente de um importante distrito de Itaocara, o distrito de Laranjais, que abrigou uma das maiores usinas de produção de açúcar e derivados: O Engenho Central Laranjeiras.







O Engenho Central do Rio Negro foi construído pelos ingleses, em estilo vitoriano, no último quartel do século 19 e suas instalações foram perfeitamente preservadas por seus proprietários ao longo dos anos. Há referência no jornal O Friburguense de que Galdino do Valle foi acionista do engenho na gestão dos ingleses e que em 1893, a usina recebeu imigrantes chineses, os “chins”. Os ingleses montaram um engenho “central” que tinha essa denominação porque centralizavam a produção de açúcar da região objetivando melhorar a qualidade do produto brasileiro para exportação. O engenho adquiria a cana de terceiros in natura, ou na forma de melaço ou de rapadura. Muitos fornecedores preferiam vender ao engenho a matéria-prima em forma de melaço ou de rapadura devido ao custo do transporte. Ao invés de dar várias viagens em carro de boi para entregar a cana ao engenho, davam-se menos viagens para entregar o melaço e muito menos ainda para entregar a rapadura, pois essa última era mais concentrada. No entanto, em 1896, o Engenho Central do Rio Negro faliu e foi a leilão na Comarca de Nova Friburgo. Faltam pesquisas para se saber o motivo da falência e quem eram esses ingleses. O coronel Luiz Corrêa da Rocha arrematou o engenho na ocasião. Filho de um grande proprietário de terras, o pai de Luiz Corrêa da Rocha chegou a possuir 25 fazendas no noroeste fluminense, mas vendeu a maior parte delas devido à má administração de seus negócios. Corrêa da Rocha teve quatro filhos, três mulheres e um filho homem. Foi seu filho Péricles quem deu um grande impulso econômico ao Engenho Central Laranjeiras transformando-o em uma grande potência econômica no noroeste fluminense, como veremos adiante. Engenheiro, Corrêa da Rocha trouxe um grande mestre de açúcar de Campos, Henrique Laranja, e desenvolveu o açúcar cristalizado, extraindo um açúcar mais claro, com uma granulação uniforme. Fabricava igualmente cachaça. Até então, o Brasil produzia na maioria das usinas açúcar mascavo e sem qualidade. Corrêa da Rocha tinha sua base e domicílio em Bom Jardim e por isso só vinha ao engenho de três em três meses. No entanto, tinha controle absoluto de seus negócios. Acompanhado de seu guarda-livros quando inspecionava o engenho, fazia o balanço da lavoura de cana, da “lavoura branca” e da criação. Percorria todo o “quintal”, como se dizia à época, antes de entrar no setor de moagem e produção. Cada gleba de morro tinha uma denominação, a exemplo do Morro Boa Esperança, e em cada um deles um administrador responsável. Ali se definia quanto iria se plantar de cana. O guarda-livros anotava e aquele trato virava um compromisso entre o administrador e o engenho. Era assim que se fazia estimativa da produção. Em Bom Jardim, Corrêa da Rocha foi proprietário de uma torrefação produzindo o Café Luco, onde “Lu” é de Luiz e “Co” de Corrêa.









Luiz Corrêa da Rocha e família. Péricles é o menino à direita.




O sucessor natural de Corrêa da Rocha foi seu filho Péricles Corrêa da Rocha que administrou o Engenho Central Laranjeiras no período de 1930 a 1956. Advogado, prefeito duas vezes em Bom Jardim, deputado estadual e federal foi cassado na Revolução de 30 e a partir de então teve sua carreira política encerrada. Voltou-se assim para a administração do Engenho Central Laranjeiras que herdara sendo o grande modernizador da usina. Péricles substituiu as moendas primitivas e aumentou a quantidade delas, ampliando inicialmente a produção da usina para 400 toneladas de moagem de cana por dia. O maquinário era francês, pois esses detinham a tecnologia do açúcar. A partir de 1932, o maquinário passou a ser americano. Péricles adquiriu novas terras aumentando o plantio de cana própria e mudou a relação com os fornecedores de cana, melaço e rapadura, não se sujeitando mais às condições dos mesmos, que a vendiam a seu alvitre deixando muitas vezes o engenho sem matéria-prima. Um grande avanço empreendido por Péricles foi a construção de uma hidrelétrica, gerando energia própria. Além de ampliar a produção do engenho, diversificou os seus produtos, pois além do açúcar passou a fabricar éter e álcool farmacêutico. O Engenho Central investiu ainda em 28 km de malha ferroviária própria conectada aos trilhos da Cia. Leopoldina. A malha ferroviária atravessava o Rio Negro e ia até o centro de Valão do Barro, distrito de São Sebastião do Alto. Péricles com seu tino comercial estendeu a linha férrea até o Valão do Barro para negociar com os agricultores das lavouras das margens do Rio Grande. Além disso, Valão do Barro era um grande produtor de fumo, café, arroz, milho e cana.







O Engenho Central Laranjeiras na gestão Péricles chegou a ter 1.500 funcionários. Para tanto, Péricles fez o arruamento no entorno do Engenho Central, criando ruas e construindo residências ao redor da sede do engenho para habitação dos seus funcionários, num total de 149 casas. Havia a Rua do Cinema, a Rua da Horta, a Rua “É com esse que eu vou”, a Rua Beija Flor, entre outras. Era um “correr de casas”, conforme denominavam à época. A sociabilidade dos funcionários não foi desprezada. Um cinema foi construído em 1946, com 300 lugares, um clube social para os bailes e uma banda de música formada pelos mecânicos da usina. Na área da assistência social foi igualmente construído um hospital com 22 leitos e uma farmácia. O Engenho Central Laranjeiras era auto-suficiente. Possuía uma grande lavoura de inhame, mandioca, legumes e hortaliças e colhia-se e pilava-se o arroz. Matava-se até oito bois por dia para o açougue, utilizando todo o subproduto do boi para fazer sabão, e criavam-se porcos. As prestações de serviços também não faltavam a exemplo de um sapateiro que há quase um século tem até hoje sua lojinha no mesmo local. A auto-suficiência era tamanha que além de confeccionarem o tecido do saco do açúcar, o algodão do tecido era igualmente plantado no engenho.






Péricles Corrêa da Rocha. O self made man.




Essa prosperidade atraiu algumas famílias de negociantes libaneses que residiam em Nova Friburgo, a exemplo dos Sarruf, Nacif e Nagib, que instalaram comércio em Laranjais. Afinal, todos queriam vender para os 1.500 funcionários da usina. Mas a maior excentricidade e prova da grandeza do Engenho Central Laranjeiras foi a autorização da Casa da Moeda para emissão de uma moeda própria, para circulação interna em Laranjais. Denominavam de “dinheiro próprio”. O objetivo era que o dinheiro circulasse somente por Laranjais e evitasse a sua evasão. A administração do engenho pagava aos funcionários em “dinheiro próprio”, no todo ou em parte. A moeda era quadradinha com a seguinte inscrição: Engenho Central Laranjeiras. O “dinheiro próprio” circulou ainda em papel moeda, mas o que predominava era em metal. Não havia câmbio. Segundo Marcelo Graça, atual proprietário do Engenho, era mais vantagem trabalhar com o “dinheiro próprio”, pois os negociantes de Laranjais adquiriam com essa moeda produtos que a administração do engenho trazia da Aduana a preços mais baratos, já que não pagavam impostos, como bicicletas, tecidos, chapéu panamá, bacalhau, etc. Chama-se isso de “arranjo local”. Alguns estabelecimentos de outros municípios também aceitavam a moeda de Laranjais. Depois essa autorização de emissão de moeda foi cassada. Só essa passagem vale uma tese de doutorado para entender o complexo sistema da microeconomia local. Em Bom Jardim, Péricles montou ainda uma fábrica de balas, a Busi, empregando 150 mulheres e a vendeu ulteriormente para a Dulcora. Construiu ainda nesse município a primeira fábrica de ovos de páscoa do Brasil.






De 1956 a 1958 a administração do engenho ficou acéfala. Em 1958, Álvaro Luiz Corrêa Graça, em sociedade com um primo, adquiriu de seu tio Péricles e das tias o Engenho Central Laranjeiras. Era a quarta fase da gestão do engenho. Mas os tempos eram outros e veio a crise do setor açucareiro. Segundo Marcelo Graça, filho de Álvaro Graça, o governo militar interferiu na atividade açucareira, criou o IAA - Instituto do Açúcar e do Álcool - e passou a ditar regras. Ainda segundo ele, o governo “passou a ser patrão da usina, dono da usina, era ele quem decidia o preço do açúcar”. Deixou de haver o livre comércio e conseqüentemente a falência de inúmeras usinas. Quando o Engenho Central Laranjeiras encerrou suas atividades em 1972, já haviam falido vinte usinas em Campos, devendo a todo mundo. De acordo com o Dr. Álvaro Graça, “por volta de 1965 e 1970 as grandes usinas foram gradativamente indo a leilão e as famílias tradicionais sendo devoradas. Parecia que havia uma intenção política de tirar o Estado do Rio da atividade açucareira.” Marcelo Graça faz questão de destacar que o Engenho Central não requereu falência, mas encerrou suas atividades tão somente. Nessa ocasião, o engenho moía entre 800 e 1.200 toneladas de cana por dia. Era uma grande usina na década de 70.







Quando o Engenho Central encerrou suas atividades muitos de seus funcionários foram trabalhar nas indústrias de Nova Friburgo, a exemplo da Rendas Arp, Ferragens Haga e metalúrgicas em geral. Era uma mão de obra especializada em fundição e mecânica. Em Nova Friburgo, dava-se preferência a quem trabalhara no Engenho Central Laranjeiras. Quem tivesse registro na carteira de trabalho impresso Companhia Engenho Central Laranjeiras tinha emprego certo: “Isso porque sabem que é rassudo. Porque quem nasce numa usina de cana de açúcar não pode ser malandro”, afirma Marcelo Graça. Ainda segundo ele, “Friburgo inchou e quem inchou Friburgo? Foi o noroeste fluminense. O noroeste fluminense de 1850 era o celeiro alimentar do Rio de Janeiro. Miracema foi o município maior plantador de arroz do Brasil até 1920, aproximadamente. Hoje não produz nem um saco. As linhas férreas viviam carregadas. A madeira de lei do Rio de Janeiro saía daqui(...) O sul do Estado do Rio era pobre, Resende era pobre. Em 1900, o noroeste fluminense era um lugar rico e por que não voltar a ter investimento aqui? Foi o berço da civilização fluminense. Foi mais desenvolvida muito antes do Vale Médio do Paraíba[se refere ao cultivo do café]. O noroeste fluminense tinha lavoura branca [milho, arroz, feijão] que alimentava a Corte. O ciclo do café de Valença até Vassouras foi depois, de 1840 em diante....”




Foram três gerações que se iniciou com o coronel Luiz Corrêa Rocha, originando uma linhagem de usineiros. Atualmente as instalações do Engenho Central Laranjeiras estão sendo adaptadas para a construção de uma fábrica de papel que possibilite trabalhar com qualquer tipo de matéria-prima, seja ela reciclada ou virgem. Inicialmente serão gerados 92 empregos diretos. Depois da diáspora dos funcionários do Engenho Central Laranjeiras para Nova Friburgo, devido a crise do setor açucareiro na década de 70, a situação se inverte. Existem nesse momento 30 homens que residem em Friburgo, de famílias do Engenho Central Laranjeiras, trabalhando na instalação da nova indústria de papel. Nós estaremos “descarregando Friburgo um pouco”, diz Marcelo Graça, triunfante. Diante de todos esses fatos, é possível falar da história de Nova Friburgo sem dialogar com a história regional?






Álvaro Graça: último da linhagem de usineiros.







O Clube Social: Nos bailes do Engenho de um lado ficavam os brancos e do outro os negros.







o antigo cinema







Residência na vila do Engenho







Residência na vila do Engenho







Fábrica de caramelos Busi em Bom Jardim(RJ)






Torrefação de café em Bom Jardim(RJ)









Hidrelétrica construída por Luiz Corrêa da Rocha no início do século 20 em Bom Jardim(RJ)






Residência de Péricles Corrêa da Rocha em Bom Jardim(RJ) ainda pertencente à família.








PRIMEIRA PARTE:


SEGUNDA PARTE:


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