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Do Jockey Club à cavalgada de São Jorge: Da sociabilidade mundana ao rito religioso












Friburgo Jochey Club - 1911

Ao longo da história, o fato de se possuir um cavalo e de se transformar em um cavaleiro, sempre deu status aos homens. Na Antiguidade, o imperador romano Calígula elegeu seu cavalo senador. Mas muito antes dele, Alexandre, O Grande, tinha no seu cavalo, Bucéfalo, o seu maior aliado nas batalhas. O cavalo sempre foi um companheiro de reis e nobres, tornando-se um esporte da aristocracia em várias nações europeias. No Brasil, no século XIX, com a europeização da sociedade brasileira, o turfe, ou seja, as corridas de cavalo, passaram a ser um esporte e uma forma de sociabilidade das elites. O turfe foi introduzido no Brasil pelos ingleses, influenciando as modas e os modos da aristocracia brasileira. Em 1877, já há o registro de corridas de cavalo promovidas nas ruas da vila de Nova Friburgo.






















Em 1883, surge, em Nova Friburgo, o clube atlético denominado General Osório que promovia corridas de cavalo na rua do mesmo nome. Há o registro ainda do Clube Atlético Bargossi, que pediu permissão à Câmara para colocar postes de raia na Praça do Suspiro, para que se realizassem corridas aos domingos e dias santificados. Por iniciativa da família do Barão de Nova Friburgo, os Clemente Pinto, foi fundado em 22 de abril de 1881, o Jockey Club de Nova Friburgo. A família inauguraria igualmente, em 12 de julho de 1885, o prado do Jockey Club Cantagalense, no Palacete do Gavião. O primeiro presidente do Jockey Club de Nova Friburgo foi o Barão de São Clemente, fazendo parte do seleto club Augusto Marques Braga, Pedro Eduardo Salusse, o médico e presidente Câmara Municipal Ernesto Brazílio, entre outros. Do conselho fiscal participavam Elias Antonio de Moraes, o 2° Barão de Duas Barras, e o empresário do ramo hoteleiro, Carlos Engert. Não se pode precisar, mas em dado momento o Jockey Club de Nova Friburgo se extinguiu.










Anos depois, foi fundado em 30 de abril de 1911, o Friburgo Jockey Club, também formado pela elite local, por iniciativa de Octávio Veiga, Galdino do Valle Filho e do Cel. Galiano Emilio das Neves Junior, os dois últimos grandes inimigos políticos. Já no século XX, havia em Nova Friburgo dois prados: o prado Entre Rios, em Lumiar, e o Prado de Corridas de Conselheiro Paulino. O prado de Conselheiro Paulino tinha sua sede social no Hotel Salusse. Competições de equitação eram igualmente realizadas no Friburgo Futebol Clube.






Nos dias de competição, era um alvoroço na cidade. Ainda cedo, todas as garagens de bicicletas eram procuradas por visitantes das localidades próximas, que, em trajes esportivos, cortavam alegres as extensas alamedas da Praça 15 de Novembro (atual Getúlio Vargas). Às 11:00 horas, todos se dirigiam à Estação da Leopoldina para recepcionar as “embaixadas” de Niterói, Petrópolis e da “Força Pública”. Eram recebidos com “hurras vibrantes” por todos os esportistas presentes na estação. As torcidas, os sportmen, vinham a Nova Friburgo animar os seus atletas. Os cariocas que vinham assistir ao turf friburguense, ficavam geralmente hospedados no Hotel Central (hoje edifício Folly), Floresta e Suspiro. Como é comum nesses espaços de sociabilidade, as corridas de cavalo atraíram a alta sociedade, sendo ocasião para o exibicionismo de indumentárias e, segundo o jornal A Paz, “as arquibancadas apresentavam o que de mais elegante possui a nossa sociedade”.





Em julho de 1986, foi fundado o Clube do Cavalo de Nova Friburgo, funcionando provisoriamente em Amparo. Objetivava-se incentivar a criação de cavalos de raça no município, com a participação dos criadores locais em exposições e em organizar provas entre os associados. O Clube do Cavalo contava com a participação da classe média friburguense, e não mais da classe alta, como outrora. Curiosamente, o associado não precisava ter cavalo, não se cobrava taxa de seus associados, diferentemente do passado quando se cobrava uma “joia”. No mesmo ano de sua fundação, foi realizada a I Prova de Hipismo Rural de Nova Friburgo, em Conselheiro Paulino. Nas modalidades, marcha, cross, baliza, rodeio, laço e tambor. Leilão de animais e igualmente um espetáculo artístico estavam previstos na programação. Mas o Clube do Cavalo foi extinto. Atualmente, acontece a cada ano, em Nova Friburgo, a Cavalgada de São Jorge, já na sua décima quinta edição. Seus integrantes são cavaleiros pertencentes às classes populares. A cavalgada se inicia no curral do sol, provavelmente por influência do antigo prado de Conselheiro Paulino. O evento conta com a participação de cavalheiros e amazonas provenientes de vários bairros e de outros municípios. Os integrantes percorrem várias localidades de Nova Friburgo, passando inclusive pelo centro da cidade. Nessa ocasião, a imagem de São Jorge, padroeiro dos cavaleiros, abre o préstito, que faz uma procissão de aproximadamente sete quilômetros. Júlio do Cavalo, promotor do evento, prometia churrasco de confraternização com um animado forró aos que quisessem participar da cavalgada.



















A história da cavalaria em Nova Friburgo passa por um processo interessante: como vimos, o turfe era um esporte inicialmente das classes sociais mais abastadas e progressivamente ganhou popularidade. No Clube do Cavalo a montaria ganhou elementos de religiosidade, com a figura São Jorge, orago e padroeiro dos cavaleiros. Isso demonstra o profundo sentimento religioso do povo brasileiro, que acrescentou à festa mundana ritos religiosos, diferentemente das elites que nunca associaram a cavalgada ao santo que lhe é padroeiro.

Observação: Todas as fotos acima são da Cavalgada de São Jorge em Nova Friburgo.





































DEPOIS DE FORASTEIRO, AMPARO VOLTA ALTANEIRO



No último quartel do século XVIII, muitos bandoleiros e garimpeiros de Minas Gerais migraram para os Sertões do Macacu em busca de novas lavras de ouro. Os garimpeiros tinham como liderança Manoel Henriques, conhecido pela alcunha de Mão de Luva. Quando Jerônimo de Castro de Souza chegou a essa região, denominava-se Sertões do Macacu, que depois viria a ser Cantagalo. Muitas datas de terras estavam sendo distribuídas e Jerônimo, como vimos em matéria anterior, foi beneficiário de uma delas, como prêmio pela delação feita contra Tiradentes. Em 1820, houve um desmembramento de parte de Cantagalo para a formação da Vila de Nova Friburgo, para abrigar um Núcleo Colonial de Suíços. A sesmaria(terras) de Jerônimo, localizada nessa região, passou a pertencer a Freguesia de São João Batista, no termo de Nova Friburgo. Como a região, onde hoje parte é Amparo, desenvolvesse sobremaneira em razão das plantações de café, em 13 de outubro de 1857, o decreto 969, erigiu aquela região ao status de freguesia, aumentando-lhe a importância, sob a denominação de Freguesia de São José do Ribeirão. As terras de Amparo encontravam-se incluídas nessa freguesia.



Com a proclamação da República, futricas políticas do governo Francisco Portela culminaram com a perda de Nova Friburgo do 3° distrito de São José do Ribeirão, que se tornou, em julho de 1891, por decreto, município de São José do Ribeirão, tendo a sede na povoação do mesmo nome. Em 1891, Bom Jardim passou a ser distrito do recém criado município de Cordeiro. Porém, já em maio de 1892, uma nova reforma administrativa extinguiu o município de Cordeiro e devolveu as terras de Bom Jardim para Cantagalo, no qual sempre pertencera. Igualmente, devolveu São José do Ribeirão para Nova Friburgo por faltar a essa localidade requisitos essenciais para tornar-se um município. Devido a instabilidade política, a Lei nº 37 de 17 de dezembro de 1892, novamente altera a região: São José do Ribeirão volta a ser município. Em 5 de março de 1893, o distrito de Bom Jardim deixa de pertencer a Cantagalo e é erigido a município com o mesmo. São José do Ribeirão passa igualmente a pertencer-lhe. Logo, definitivamente Amparo passaria a pertencer a Bom Jardim. A população de Amparo ficou desesperada culminando com uma intensa mobilização para o retorno a Nova Friburgo.


Diante de todo esse imbróglio, que sempre tem interesses político e econômico das elites por detrás dessas disputas territoriais, fica a pergunta: por que o pacato distrito de Bom Jardim ganharia tanta força política, desmembrando-se de Cantagalo e anexando a Freguesia de São José do Ribeirão? Provavelmente, o responsável por esse up grade de Bom Jardim teria sido Luiz Corrêa da Rocha, o maior latifundiário da região, ao qual o território onde hoje é Bom Jardim, praticamente lhe pertencia. O coronel Luiz Corrêa da Rocha foi quem arrematou, em leilão, em 1896, o Engenho Central do Rio Negro, localizado em Laranjais, hoje distrito de Itaocara. Luiz Corrêa da Rocha, curiosamente, será um dos defensores da desanexação de Amparo do município de Bom Jardim e tem nome gravado em uma estela, entre o nome de outros, na praça principal de Amparo, tecendo-lhe gratidão.


O articulista Nelson Kemp, em matéria publicada em A Voz da Serra(20.8.1961), informa-nos que na ocasião do desmembramento, Eugênio e Pedro Gripp, adversários na política de Amparo, uniram-se para eleger Pedro Gripp a vereador na Câmara de Bom Jardim. Empossado, Pedro Gripp requereu o desmembramento de Amparo do município de Bom Jardim. Já em Nova Friburgo, Galdino do Valle Filho, deputado estadual, atendendo aos clamores da comunidade, igualmente apresentou projeto de lei, em 1911, solicitando a transferência do distrito de Amparo de Bom Jardim para Nova Friburgo. Esse projeto, certamente, atendia aos interesses políticos de Galdino do Valle Filho. Cabe ressaltar ainda que os Galiano das Neves não ficaram nada satisfeitos com a anexação da Fazenda Cachoeira a Bom Jardim.




No entanto, acreditamos que quem deu a palavra final foi o Coronel Luiz Corrêa da Rocha, vereador na ocasião juntamente com Manoel Corrêa da Rocha. Em 10 de outubro de 1911, Amparo volta a fazer parte de Nova Friburgo, incorporado ao 1° distrito, e em 1924, passa a ser distrito, o quarto do município. Com o retorno ao berço natural, os amparenses deixaram consignado em seu hino: “depois da quatro lustros, forasteiros, sem poder aclamar a nossa terra, a Friburgo voltamos altaneiros....sempre fomos friburguenses e seremos!...a Friburgo aportamos destemidos, a Bom Jardim, porém, nunca olvidando...”


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PRINCESA ISABEL:A BUSCA DA FERTILIDADE EM NOVA FRIBURGO


“....fomos honrados com a Augusta visita de SS.AA. Imperiais, e por essa ocasião autorizamos ao sr. Fiscal fazer certos serviços para embelezamento da vila a fim de recebermos os Augustos hóspedes...” (Ata da 4ª sessão ordinária, em 21 de novembro de 1868). Em 1868, a Princesa Imperial e o Conde D’Eu estiveram na pacata vila de Nova Friburgo. Todos fizeram a sua parte: os moradores limparam as testadas de suas residências, iluminaram suas frentes durante a estada dos augustos príncipes, a Câmara Municipal caiou seu prédio e a cadeia, recolheu os animais soltos e grandes festejos foram realizados na vila. A princesa foi homenageada com o nome de uma praça e o conde com nome de rua. A “Praça da Vila” passou a denominar-se Praça Princesa Isabel. Posteriormente, na proclamação da república, passou a chamar-se Praça 15 de Novembro e por ocasião da Revolução de 30, Praça Getúlio Vargas, sempre alterando o seu nome de acordo com os ventos políticos. Nessa ocasião, ao que parece, veio com uma vasta comitiva, a exemplo dos embaixadores chilenos. A família real oferecera à embaixada chilena, na Cascata Pinel, uma “festa campesina” a que compareceram D. Pedro II e o Conde d’Eu. Nessa ocasião, Carlos Pinel fez gravar em um dos granitos da cascata de sua propriedade, em homenagem à Princesa Isabel, a seguinte inscrição: Cascata Santa Isabel.

Princesa Izabel, Conde d´Eu e os filhos



Nova Friburgo, pelas condições climáticas favoráveis à cura de determinadas doenças, aliado ao seu Estabelecimento Hidroterápico, fez parte de uma interessante passagem da história da família real portuguesa que envolvia a sucessão do trono imperial. D. Pedro II, excluindo os natimortos, teve duas filhas com D. Teresa Cristina: a Princesa Isabel e Leopoldina. Ambas casaram-se com dois primos de casas reais europeias, os Orleáns(Conde d´Eu) e Saxe-Coburgo(Gusty). D. Pedro II não as queria casadas com portugueses, pois segundo o Imperador, seria como voltar aos tempos da colonização. No entanto, enquanto Leopoldina, a mais nova, engravidava sucessivamente, o útero de Izabel permanecia vazio. A Princesa Izabel se casara em 15 de outubro de 1864 com o Conde d´Eu, e não conseguira engravidar durante dez anos desde o seu casamento. Como disse Flaubert, uma mulher sem filhos é uma monstruosidade.


A infertilidade era considerada como uma doença, dando-se o nome de “frialdade” ou “frigidez”. Recomendava-se, à época, tomar chá de erva de carrapato, de figueira-do-inferno ou ainda fazer um defumadouro das partes íntimas com uma erva chamada pombinha. Novenas à Santa Ana e Santa Comba, padroeiras da fertilidade conjugal, não faltavam. A Princesa Isabel sentia-se constrangida em fazer com que o marido se sujeitasse às crendices nacionais para provocar a gravidez nas mulheres, compelindo-o a urinar no cemitério pela argola de uma campa, ou ainda que untasse a região púbica com sebo de bode, ou bebesse garrafadas de catuaba. Ele a tomaria por uma primitiva. Além do desejo materno de ter um filho, a Princesa Isabel ainda tinha a questão da sucessão, pois se não tivesse herdeiro, provavelmente o trono seria ocupado, com a morte de D. Pedro II, por seu sobrinho, Pedro Augusto. A infertilidade da Princesa Isabel já havia gerado, inclusive, expectativa em Pedro Augusto, o “Príncipe Maldito”, cuja história é narrada no livro de Mary Del Priore. A Princesa Isabel começou a recorrer ao tratamento à base da hidroterapia o qual se julgava aconselhável para a suposta esterilidade de que padecia. Então, Nova Friburgo começa a entrar nessa história, pois abrigava o Instituto Hidroterápico que funcionava onde é atualmente o C.N.S.Dores. Em 1872, o médico italiano Carlos Eboli inaugurou, em Nova Friburgo, o Estabelecimento Hidroterápico a título de “Casa de Saúde”, “Casa de Duchas” ou “Estabelecimento Sanitário Hidroterápico”.


A Princesa Isabel já recorrera a Caxambu e Lambari(MG) para tomar banhos de águas milagrosas. Estações termais, hidroterapia, novenas, viagem a Lourdes(Portugal) fazendo promessas a Santa Bernadette e finalmente tratamento com um especialista na Europa, a tudo a princesa recorreu. Em 1874, a Princesa Isabel retorna a Nova Friburgo acompanhada do pai, D. Pedro II, e de sua dama de companhia, a Condessa de Barral, ficando hospedados no Hotel Leuenroth. A princesa procurava as qualidades da hidroterapia no milagroso clima da cidade salubre, para a cura de sua frigidez. Fizera abluções repetidas na água na tentativa de tornar o útero fecundo. O procedimento da hidroterapia consistia na aplicação externa (duchas) e interna de água. Externa sob a forma de aspersão, banhos e aplicação de toalhas molhadas. Interna, com a ingestão de abundante quantidade de água, na maioria das vezes, fria ou gelada. Tais recursos eram associados a sudoríferos energéticos, massagens prolongadas, exercícios constantes (caminhadas em ladeiras) e alimentação balanceada.



Coincidentemente, no ano seguinte de sua vinda a Nova Friburgo, em 1875, depois de dez anos de infrutíferas tentativas, a Princesa Izabel finalmente engravidara. Seria leviano estabelecer aqui uma relação direta do tratamento da hidroterapia na gravidez da princesa, mas podemos afirmar que Nova Friburgo lhe deu sorte. Teria experimentado as águas da mítica Fonte Encantada do Suspiro? Mesmo tendo abortos naturais sucessivos e uma filha natimorta, a Princesa Isabel deu à Coroa dois herdeiros: Baby e Luís. E foi em razão desse drama pessoal da princesa, que Nova Friburgo tem uma pequena participação nessa história.


PRECISA-SE DE AMAS-DE-LEITE, MADEIXAS E LACAIOS DA COLÔNIA NOVA FRIBURGO






A Imperatriz Leopoldina, esposa de D. Pedro I, solicitou certa feita dois rapazes de “boa aparência” da colônia da Nova Friburgo para servir como lacaios. Poderiam ser suíços ou alemães, mas de preferência que soubessem o idioma francês. Logo em seguida, surgiu outro pedido inusitado: o diretor da colônia deveria providenciar uma cabeleira de colonas para a confecção de perucas para a Imperatriz. “Mandou-me a S. M. Imperatriz que fizesse toda a diligência possível por cabelos que sejam exatamente da cor dos que envio para amostra, e que tenham de comprimento um palmo pelo menos(...)No caso de que V. Sa. os ache, dê alguma coisa a pessoa de quem eles forem.” A austríaca Leopoldina era uma mulher loura, de olhos claros e certamente considerou que as suíças e alemães da colônia da Nova Friburgo poderiam fornecer-lhe madeixas próximas ao seu tom alourado de cabelo. Possivelmente deveria ter dificuldade em conseguir no Brasil essas madeixas já que a maior parte da população era morena. Porém, a sua solicitação mais importante ocorrera alguns anos antes, quando do nascimento de seu filho, o futuro Imperador D. Pedro II.


Pedro de Alcântara era o sétimo filho de D. Pedro I e da arquiduquesa Leopoldina. Nascido em 2 de dezembro de 1825, sucedeu o pai que renunciou em seu favor ao trono do Brasil, tornando-se o futuro Imperador Pedro II. O nascimento do futuro príncipe ou infanta provocaria uma série de correspondências entre o diretor da colônia de Nova Friburgo, Francisco de Salles Ferreira de Souza, e o Inspetor da Colonização, Monsenhor Miranda. O motivo era que a família real desejava para amamentar o próximo herdeiro do trono uma colona suíça, ou melhor, os seios úberes de uma colona que vivia na salubre vila de Nova Friburgo. No século 19, os médicos higienistas passaram a estabelecer uma relação entre o aleitamento mercenário das amas-de-leite e a mortalidade infantil, detonando o processo de criação da mãe higiênica, ou seja, aquela que amamenta o seu rebento. O discurso médico preconizando a amamentação por parte da mãe somente surtiria seus efeitos ao final daquele século. Antes disso, vivia-se no império das amas-de-leite. Entre as muitas justificativas para que as mães não amamentassem, circulava a ideia de que as relações sexuais corrompiam o leite.
Monsenhor Miranda solicitou duas colonas suíças, casadas ou solteiras, que tivessem parido e em circunstância de serem amas do futuro Príncipe ou Infanta que se esperava. As mulheres obviamente deveriam gozar de boa saúde, ter maneiras polidas, bons dentes e não estar trabalhando na lavoura. Como havia naquele momento recentemente chegado a Nova Friburgo colonas alemãs, caso as suíças não se adequassem ao perfil solicitado, elas igualmente serviriam. Coube ao médico Dr. Bazet realizar as necessárias averiguações e escolha das amas-de-leite e as acompanharia até a Corte. No entanto, as duas primeiras colonas enviadas pelo diretor da colônia foram devolvidas. Há referência na correspondência entre Monsenhor Miranda e a administração colonial que a colona Annette, filha do colono suíço João Werner, foi rejeitada por possuir “moléstia” e a mulher de Kuentzi por ter sido considerada “incapaz.”


Antonio José Paiva Guedes d´Andrade, secretário de Inspeção da Colonização Estrangeira envia nova correspondência à vila de Nova Friburgo solicitando outras colonas. O dr. Jean Bazet não precisaria mais acompanhá-las mas tão somente o marido ou o pai, caso fosse essa última solteira. Foi selecionada a colona suíça Leonor Frotè. No entanto, ocorreu uma tragédia. Quando de sua viagem à Corte, o pai de Leonor Frotè morreu afogado caindo do barco na localidade do Sítio da Paciência. Pode ser que tal tragédia tenha afetado a colona psicologicamente, pois foi rejeitada por possuir uma “purgação contínua.” Optou-se então enviar mais três colonas aptas a amamentarem e a seleção seria feita na própria Corte. Foram selecionadas as colonas Izabel Falz, Doline Bellet e Maria Josephina Gavillet. Segundo Pedro Cúrio no livro “Como surgiu Friburgo”, entre essas foi escolhida como ama-de-leite Doline Bellet, que escreveu: ‘Acho-me muito honrada em ser escolhida para servir no palácio imperial, como ama-de-leite; porém tomo a liberdade de informar a V. Sa. que desejo muito, para meu sossego, que meu marido seja admitido no palácio, para cuidar da minha criança com aquele mimo que só pode ter um pai. Portanto, peço a V. Sa. como um grande favor que queira me dar uma recomendação para me ajudar a alcançar o meu desejo. Sou com todo o respeito a humilde criada. Doline Bellet.” No entanto, José Murilo de Carvalho no livro “D. Pedro II” nos informa que coube a colona suíça Maria Catarina Equey a honra de amamentar o príncipe Pedro de Alcântara. Segundo esse autor, a família real acreditava ser mais saudável empregar uma mulher branca e europeia do que as negras amas-de-leite. A Imperatriz Leopoldina já havia solicitado uma ama-de-leite alemã para seu filinho Dom João Carlos, que nascera em 06 de março de 1821.
Era comum as escravas amamentarem os filhos da elite daquela época. No entanto, a família real optou por colonas brancas e europeias. A solicitação deve ter partido da própria Imperatriz Leopoldina que, sendo austríaca, talvez tivesse algum tipo de preconceito com relação às amas-de-leite negras. Logo, a colônia de Nova Friburgo, criada para abastecer a Corte de gêneros alimentícios do amanho de suas terras, prestou-se a fornecer dos seios úberes de suas colonas,o leite para alimentar D. Pedro II, o último Imperador do Brasil.


Diferentemente do costume da elite brasileira da época, que utilizava

africanas, a Imperatriz Leopoldina optou por uma ama-de-leite suíça.


O HOMEM DIANTE DA MORTE: RITOS E MENTALIDADE.SOMOS TODOS CAVEIRAS DO BOPE











Pode causar estranheza, mas muitas vezes os historiadores se valem de fontes que o senso comum pode até considerar bizarro, mas que fornecem ao pesquisador material suficiente para se reconstituir as relações familiares, as mentalidades, as visões de mundo, o comportamento, entre outras. Assim o fez o historiador francês Philippe Ariès em dois volumes de sua obra, “O Homem perante a Morte”, um clássico no tema. No Brasil, “A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira” organizado por José de Souza Martins é um livro interessantíssimo e igualmente “A Morte é uma Festa”, por João José Reis. A morte vem sendo historicizada dando importante contribuição à história das mentalidades. Chamou-me a atenção o emblema do BOPE em uma visita que fiz àquela instituição, em outubro desse ano, com meus alunos de História do Direito Brasileiro da Candido Mendes. O símbolo do BOPE, uma caveira com uma faca verticalmente encravada no crânio e duas pistolas transversas foi apropriado de um esquadrão inglês da Segunda Guerra Mundial, que tinha como missão sabotar as bases nazistas na França ocupada. Essa alegoria significa VENCER A MORTE. Não é necessário esclarecer aqui o risco diário de suas vidas a que esses homens estão sujeitos em suas atividades cotidianas. Em 2007, Marco Antonio Gripp, sargento do BOPE, nascido em Nova Friburgo, foi baleado logo depois de sair do blindado numa incursão em uma comunidade no Rio de Janeiro. Em entrevista a um jornal, assim declarou: “...Eram 23h quando avistamos um grupo. Trocamos tiros e eles entraram no beco. Demos a volta e desembarcamos para ver se tínhamos acertado alguém. Entramos no beco escuro e eu puxei a ponta [foi à frente]. Quando virei a esquina, estava a dois passos do cara[traficante]. Como estava escuro, só vi a boca de fogo da arma dele. Levei dois tiros na barriga. Uma passou a um centímetro do rim. Pensei que ia morrer. Continuei trocando tiros. Travou a arma e fui para um abrigo. Um tiro pegou no carregador e ficou no colete. Dois tiros acertaram o meu fuzil, um bateu na câmara de gás e outra na janela de injeção. FOI MINHA VITÓRIA SOBRE A MORTE..” Apesar de dois tiros que o atingiu, ele sobreviveu e está novamente na ativa. Por isso, esses homens gritam sempre: CAVEIRA!

Como disse antes, a “vitória sobre a morte” é representada pela alegoria da caveira com uma faca encravada sobre o crânio. Mas é possível uma vitória sobre a morte? Desde que a medicina evoluiu é plausível que o homem contemporâneo tenha tal pensamento, o que era absolutamente inconcebível para o homem oitocentista(sec.XIX), época em que medicina ainda dava os primeiros passos. Diante da morte, só lhes restava a resignação, a contrição, o resguardo e principalmente a humildade. No século XIX, quando a medicina nada mais podia fazer no padecimento da doença, quando se vai perdendo o vigor e azougam as forças, os poderosos homens de outrora, senhores de escravos e ricos proprietários, tornam-se humildes diante dos últimos sacramentos. Numa contrição religiosa e desprendidos de tudo que é profano, aprestam-se a comparecer súplices, humildes e caridosos perante o Juiz Divino. Nesse momento, alguns se vestem com indumentárias de ordens religiosas, outros libertam escravos ou pedem mortalhas simples. D. Pedro I, homem autoritário, morreu tuberculoso aos 35 anos de idade em 1834. No seu leito de morte em Portugal, pediu que no seu enterro não houvesse exéquias reais, como determinava o protocolo. Queria ser enterrado em caixão de madeira simples, como um soldado. Já a sua amante, a biscaia Marquesa de Santos, falecida em 1867, encomendou 70 missas: 50 pela sua própria alma e em um gesto de humildade hipócrita, característica das elites da época nessas ocasiões, pediu 20 missas para seus escravos mortos. Elias Antonio de Moraes, o Barão de Duas Barras(1840-1928) por ocasião de sua morte é colocado como um benemérito por ter auxiliado na educação de “moços desfavorecidos” que depois alcançaram posição de relevo na sociedade. Na hora da morte, de senhor de escravo passa a “pai dos pobres”. O Barão de Nova Friburgo(1795-1869) igualmente pediu ritos simples, por ocasião de sua morte, nos informa Luiz Fernando Folly no livro “Barão de Nova Friburgo”. O barão solicitou ser envolto em um pano preto, colocado em caixão simples e enterrado em cova rasa, simbolizando nesse rito o desapego às coisas materiais. Tanto o Barão de Nova Friburgo quanto o de Duas Barras, no derradeiro momento de suas vidas, trocam o açoite do “bacalhau” que tanto rasgou os corpos de seus escravos, pelo cajado e o báculo dos humildes. Imaginam que os ritos simples na hora da morte os tornam sublimes e apagam seu passado onde amealharam fortuna às custas do sofrimento humano, a escravidão.


Passados pouco mais de um século, é interessante comparar essas duas visões de mundo do homem perante a morte: a das elites oitocentistas e a de Marco Antonio Gripp, soldado do BOPE. Dos primeiros, a resignação, a contrição e a humildade. Do segundo, o desafio, a luta e o triunfo. Nessa ambivalência do pensamento humano podemos perceber uma mudança de mentalidade que coloca um fosso profundo, ditado pela linha do tempo, entre esses dois estágios da história da humanidade. Muda-se o pensamento diante da morte que pode ser vencida pelo homem contemporâneo, sendo a ciência médica um fator determinante. Atualmente, doenças como a tuberculose, o câncer e a AIDS não são mais sentenças de morte, começa-se a acreditar. Consequentemente, já que podemos vencer a morte, pode-se afirmar, por analogia à alegoria do BOPE, que somos todos CAVEIRAS!
Foto abaixo: O sargento Marco Antonio Gripp em ação. Na foto é o quinto da esquerda para a direita, em primeiro plano, com uma arma na mão.





O sargento Marco Antonio Gripp é o segundo da esquerda para a direita.



É interessante as representações sobre a morte. No século XIX , era comum as pessoas da elite fotografarem seus familiares mortos antes de os enterrarem, em situações do seu cotidiano. Alguns até já apresentavam o rigor mortis. Muitas vezes os familiares vivos participavam dessas fotos com os mortos.



A simulação era tão perfeita, que abaixo, mal percebemos na foto qual das mocinhas é a morta.



Provavelmente é a que se encontra sentada antes de apresentar o rigor mortis.












Uma criança morta. A mãe provavelmente desejava uma última imagem da filha entre suas bonecas.

O BARÃO DE NOVA FRIBURGO:UM ILUSTRE TRAFICANTE DE ESCRAVOS

Antonio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo



Bernardo Clemente Pinto trouxe a linha ferroviária até Nova Friburgo

As gerações futuras dos Clemente Pinto na intimidade da família



Acima, os fundos do solar do Barão de Nova Friburgo. As propriedades do centro de Nova Friburgo,
no século XIX, se estendiam até os limites do Rio Bengalas
Quando se reconhece na história do Brasil um indivíduo de grande fortuna, pode-se praticamente supor que fosse um traficante de escravos, em virtude dos imensos lucros que tais transações alcançavam. Quando foi oficialmente extinto em 1850 o tráfico de escravos no Brasil, o volume de capitais empregados no tráfico era de tal monta que imediatamente surgiu o Código Comercial para regulamentar a febre de negócios provocada pela liberação de capitais até então aplicados exclusivamente na compra e venda de escravos. Antônio Clemente Pinto(1795-1869), o Barão de Nova Friburgo, era um indivíduo apenas remediado quando veio de Portugal para Brasil em 1807, com 12 anos de idade. A origem de sua fortuna é mencionada por um cronista da época. Quando o barão suíço Von Tschudi visitou a região de Cantagalo no século XIX, ao se referir ao Barão de Nova Friburgo, assim escreveu: "...é o mais rico fazendeiro, não só do Distrito de Cantagalo, como de todo o Brasil (…). É português de nascimento (…) veio para o Brasil sem vintém (…) circulam muitas versões quanto à natureza de seus negócios e do modo por que chegou a ser possuidor de tão avultada riqueza (…). O novo-rico é em toda a parte do mundo objeto de inveja e maledicência (…). O que acontece em muitos casos, no Brasil, onde existe mesmo um provérbio bastante malicioso que diz, quem furtou pouco fica ladrão, quem furtou muito, fica barão”, o que bem ilustra o pensamento do povo...”

Acima a Fazenda Gavião em Cantagalo
Há comprovação de que o Barão de Nova Friburgo tornou-se um homem próspero graças ao tráfico de escravos. Dedicou-se ao tráfico entre a África e o Rio de Janeiro no período de 1811 a 1830, fornecendo escravos para as lavouras emergentes de café. Obteve igualmente do governo imperial sesmarias nos Sertões do Macacu onde explorou minas de ouro, porém, sem muito sucesso, e foi um dos primeiros a cultivar o café na região fluminense. Possuía em meados do século XIX quase duas dezenas de latifúndios em Cantagalo, considerada a região em que se aplicava o pior tratamento aos escravos no Brasil. Cantagalo ganhou fama entre as províncias brasileiras não só pela riqueza gerada por seus cafezais em meados do século XIX, como pela crueldade com que tratavam os escravos, os fazendeiros da região. Não faltam relatos de viajantes descrevendo as sevícias dos fazendeiros daquela localidade em relação aos seus escravos. Entre eles se encontrava o Barão de Nova Friburgo.

O Palácio do Catete, que foi sede da presidência da República quando o Rio de Janeiro foi capital federal,
foi de propriedade do Barão de Nova Friburgo, sendo por ele edificado

Em Nova Friburgo até hoje tem-se o hábito de tecer preito ao Barão de Nova Friburgo, o “ilustre” traficante de escravos. As atas da Câmara de Nova Friburgo no século XIX não se cansam de louvar e fazer deferência aos Clemente Pinto pelos benefícios trazidos ao município. Mas pergunta-se, os Clemente Pinto procuravam beneficiar o município ou às suas propriedades? Ora, todas as doações que realizaram para o “aformoseamento” da atual Praça Getúlio Vargas, visavam tão somente beneficiar o seu rico solar que ficava em frente a esse logradouro público. E quanto ao desenvolvimento que a malha ferroviária trouxe a Nova Friburgo graças ao barão e seu filho Bernardo? Certamente o trem trouxe um grande impulso econômico a Nova Friburgo, mas objetivava-se precipuamente o escoamento da produção de café do barão de suas inúmeras fazendas em Cantagalo, barateando o seu custo. Mas o barão não foi o único a auxiliar o município. Cumpre destacar que no século XIX, a receita da Câmara era tão exígua que muitas obras em estradas, pontes e estivas eram realizadas na base da subscrição, ou seja, doação dos fazendeiros locais para as respectivas melhorias na infra-estrutura viária da então vila.
Finalmente, os áulicos do barão gostavam de tecer loas aos seus herdeiros por terem libertado seus escravos antes mesmo da abolição da escravidão. Em 1888, os herdeiros do Barão de Nova Friburgo, às vésperas da abolição, libertaram de forma oportunista, 1.300 escravos. Certamente deveriam ter informações privilegiadas na Corte de que a escravidão seria extinta brevemente. Os Clemente Pinto eram próximos da família imperial que por mais de uma vez se hospedaram em suas propriedades. Sobre esse episódio relata-se que os ex-escravos teriam ficado tão gratos com sua libertação que se recusaram a receber os salários da próxima colheita do café. Os herdeiros do barão receberam honras e títulos do imperador D. Pedro II por esse gesto.
Na verdade, trata-se de uma estratégia que muitos fazendeiros utilizaram libertando seus escravos antecipadamente já que o fim da escravidão era iminente. Com isso, angariavam a simpatia dos libertos que se mantinham nas fazendas ao invés de abandonarem-nas. Stanley Stein em “Grandeza e Decadência do Café”, coloca essa discussão sobre a libertação antecipada entre os fazendeiros de Vassouras no sentido de evitar a evasão dos escravos quando fosse decretado o fim da escravidão. Por fim, gostaria de colocar que a figura do Barão de Nova Friburgo deve ser sempre destacada na história do município, mas na qualidade de um membro da elite de singular importância no progresso da região, já que ele foi o nosso “Mauá”. No entanto, cabe destacar que a origem de sua fortuna foi construída à custa do marchandise humaine, como diziam os suíços. É sempre bom lembrar que por trás daquela figura “benemérita”, cercada de títulos e honras, se encontra um "ilustre" traficante de escravos.
Abaixo, as principais propriedades dos Clemente Pinto em Nova Friburgo, pela ordem: O antigo pavilhão de caça da família(hoje o Sanatório Naval), o solar (tombado pelo patrimônio histórico municipal) e o chalet no Parque São Clemente(hoje pertencente ao Nova Friburgo Country Club)




Visita ao Palácio do Catete do Rio de Janeiro, antiga residência do Barão de Nova Friburgo. Atualmente Museu da República.

A ESCRAVIDÃO EM NOVA FRIBURGO: DEUS LHE DÊ BONS DIAS, DEUS LHE DÊ BOAS TARDES

No dia 20 do corrente mês é comemorado o Dia Nacional de Consciência Negra no Brasil. Para tanto, preparei uma série de três matérias sobre a escravidão em Nova Friburgo. Além do ensaio de hoje, incluirão os títulos “A História do Quilombo de Macaé” e “O Mito da Igualdade Racial”. Nova Friburgo foi criada para ser uma região que se caracterizasse pelo modo de produção predominantemente baseado na mão de obra livre. Chegou-se a ensaiar à época um projeto de lei que proibisse a utilização de mão de obra escrava nas colônias de imigrantes europeus espalhadas pelo Brasil. No projeto, havia ainda um artigo que coibia o próprio imigrante de possuir escravos, mas não se converteu em lei. Num verdadeiro paradoxo ao projeto de D. João VI de instalar colônias de homens livres no país que ficassem à margem das sociedades escravocratas, os próprios colonos suíços se converteram em senhores de escravos assim que sua situação financeira lhes permitiu. Era difícil fugir ao binômio monocultura(café) e escravos e Nova Friburgo acabou se transformando em uma sociedade escravocrata .

Em 1835, a população livre de Nova Friburgo era de 2.800 indivíduos contra 2.000 escravos. Cinco anos depois a população livre irá decair e a escrava aumentar. Mas a partir de 1850 a população livre irá se sobrepor à escrava com 4.187 indivíduos livres contra 2.927 escravos. Em 1856 serão 7.009 livres contra 3.874 cativos. Já em 1872, quando a população de Nova Friburgo atinge a margem de 20.656 habitantes, os escravos representarão 32% da população(6.684) contra uma maioria de livres(13.972), provavelmente em sua maior parte constituída de indivíduos brancos. A população escrava de Nova Friburgo não deixou de crescer até o terceiro quartel do século XIX, mas a partir de 1881, passa a declinar. Diminui-se a importação de cativos, substituída pela mão de obra de imigrantes europeus. Segundo os historiadores, a população escrava não aumentava pela reprodução na proporção da população livre pelos seguintes motivos: 1°: Porque, em geral, a importação era de homens e muito pouco de mulheres, pois o que se queria eram braços para lavoura; 2°: porque não se promoviam os casamentos. A família, salvo raras exceções, não existia para os escravos; 3°: Porque dificilmente se cuidava dos filhos devido às próprias condições da escravidão; 4°: As enfermidades, os maus tratos e o trabalho excessivo inutilizavam, esgotavam e matavam dentro em pouco grande número de escravos. Logo, com a diminuição da importação de escravos e a ausência de reprodução dos mesmos, pode-se afirmar que a população de Nova Friburgo foi se “branqueando” ao longo do século XIX.

Quase não existem fontes no Pró-Memória para se pesquisar sobre a escravidão em Nova Friburgo. Mas às turras os historiadores locais têm produzido alguns artigos e trabalhos, sendo que dois livros se destacam: “Presença Negra”, de Gioconda Lozada e “Os Crimes da Fazenda Ponte de Tábuas”, de Jorge Miguel Mayer e Edson de Castro Lisboa. Ainda quando o objeto de nossa pesquisa não é propriamente a escravidão, como é o meu caso, nos deparamos com alguns documentos no Pró-Memória. Achei um interessante anúncio de um escravo fugitivo na região que nos informa a maneira com que os escravos procuravam se libertar da escravidão. O anúncio publicado em O Friburguense em 17 de abril de 1881 demonstra perfeitamente a forma de resistência dos escravos e suas estratégias e dissimulações para livrarem-se do cativeiro. O capitão Luciano José Coelho de Magalhães, lavrador de Cantagalo, ofereceu a quantia de 1:000$000(um conto de réis) a quem capturar, ou a de 500$000 a quem der notícias certas de seu escravo José, pardo, idade entre 28 a 33 anos, marinheiro, cozinheiro, falquejador e serrador. José pertencera a um português que o castigou nas nádegas e nas costas pela “irregularidade de seu proceder”, destacava o anúncio, mas ele tinha o hábito de encobrir essas cicatrizes dizendo que as feridas das costas eram devidas ao “incômodo”(doença) que dava o nome de “fogo selvagem”. José era muito falante e cortês, ainda destacava o anúncio. Tinha a voz fina e quando cumprimentava as pessoas dizia sempre a seguinte frase: “Deus lhe dê bons dias” ou “Deus lhe dê boas tardes”. José, uma das raras “vozes” que possuímos dos escravos, viu na adequação aos padrões de comportamento do branco livre, a cortesia, uma forma de dissimular a sua condição de escravo.

TEATRO D. EUGÊNIA: O ÓPERA DE NOVA FRIBURGO


A história do Teatro D. Eugênia se inicia, no último quartel do século XIX. Sua origem partiu de uma deliberação dos membros da Sociedade Musical Campesina dispondo que, além da música, deveria essa sociedade também desenvolver e estimular as artes dramáticas, cuidando de edificar um teatro para tal fim. A Campesina abriu subscrição e realizou uma série de espetáculos e leilões na cidade e os friburguenses solidarizaram-se com a campanha promovida para a construção do teatro. O primeiro passo para o tão sonhado projeto foi a aquisição de um terreno que pertencia a Pedro Eduardo Salusse localizado na Rua Gal. Câmara, atual Augusto Spinelli, exatamente onde hoje se localiza o edifício Gustavo Lira.
No dia 30 de maio de 1886, foi lançada a pedra fundamental, concorrendo boa parte da população e sendo nessa data escolhido um nome para o teatro: Theatro Victor Hugo, um autor muito lido em Nova Friburgo. Dando-se início às obras foi o teatro edificado, tendo sido nele empregados os materiais doados e os valores recebidos pelos associados em leilões e espetáculos. Acontecimentos sucessivos, porém, interrompeu a execução do teatro que se encontrava até “certo ponto de adiantamento”, segundo um jornal da época. Primeiro, foi o falecimento, na Itália, de seu presidente, Fioravanti André Martinoya, seguido da elevação excessiva dos preços dos materiais de construção e do salário dos operários. Os débitos contraídos impediram a continuidade da obra, que acabou sendo suspensa. Não podendo dar continuidade à edificação do teatro, em sessão extraordinária os associados deliberaram colocar à venda o prédio na situação em que se encontrava. No entanto, por exigência da diretoria da Campesina, ficaria consignado na escritura uma cláusula de não poder ser a propriedade voltada a outro fim, senão àquele a que fora destinado, ou seja, servir às artes dramáticas. Os fazendeiros da região já diversificavam seus investimentos e foi o que aconteceu com Manoel Amancio de Souza Jordão, um dos mais importantes usineiros do município de Sumidouro, que resolveu adquirir o teatro em fase de execução. A consolidação de Friburgo como cidade de veraneio ao final do século XIX e a melhoria do sistema de transporte com a Capital Federal facilitado pelo trem, despertou o interesse desse fazendeiro que adquiriu o teatro.
Sob o comando de Souza Jordão, tomou a obra um grande incremento que levaria dois anos até que o teatro pudesse finalmente ser inaugurado. Contudo, o nome Victor Hugo foi substituído por Dona Eugênia, em homenagem à esposa do proprietário, Eugênia dos Santos Jordão. Em 7 de junho de 1894, por uma fatalidade, Souza Jordão veio a falecer vitimado por febre amarela, na Capital Federal. Como nesse ano as obras do teatro se encontravam praticamente concluídas foi inaugurado no início de 1895 o Theatro D. Eugênia, com a ópera de Verdi, Um Baile de Máscaras, pela companhia italiana Verdini & Rotoli. O prédio tinha um estilo eclético e era dividido em dois pavimentos. No primeiro andar ficava a platéia. Já no segundo ficavam as galerias, com alguns camarotes fechados. Havia ainda as “torrinhas”, onde ficavam os populares e os rapazes que gostavam de bagunça. Não era luxuoso, era simples, mas “muito bonitinho”, segundo entrevistas com quem o conheceu. Internamente possuía acabamento de madeira toda trabalhada e uma acústica maravilhosa. O teatro possuía lotação para 600 pessoas, com 212 cadeiras de primeira classe e 17 camarotes, sendo um de honra.

O Teatro D. Eugênia foi palco de famosas óperas italianas, muito em moda desde a época imperial e igualmente de peças do teatro português, cujos espetáculos faziam parte do calendário cultural da cidade. Além da primeira representação da ópera de Verdi, Um Baile de Máscaras, a Companhia Lírica Italiana Verdini & Rotoli promoveu as seguintes óperas na cidade: Lucrecia Borgia e A Favorita, de Donizetti; Carmen, de Bizet; Aida, La Traviata e O Trovador, de Verdi; e ainda Fausto, de Goethe. Além de Verdini & Rotoli, a companhia dramática do teatro português representou dramas e comédias, com as seguintes peças, entre muitas outras: A Morgadinha de Val-Flor, Gaspar Cacete, O Fidalgo Ladrão ou Os Pupilos do Escravo, Fidalgos e Operários ou A Tomada da Bastilha, Mosquitos por Cordas, Os Estranguladores de Paris, Os Dois Proscritos ou A Restauração de Portugal em 1640, Veneno dos Bórgias e O Homem da Máscara Negra. Peças mais picantes como A Estátua de Carne, que exibia as “horisontaes”(prostitutas) e “Can-Can”, dançadas por mascarados. A cidade recebeu ainda companhias de zarzuelas, obra dramática e musical de origem espanhola, uma espécie de ópera-cômica na qual alternadamente se declama e se canta. A Companhia Dramática Empresa Mayor & Cia levou para Nova Friburgo zarzuelas como A Galinha Cega, Lucero del Alba, Torear por lo Fino. Demolido em julho de 1975 para dar lugar ao atual edifício Gustavo Lira, o Teatro D. Eugênia foi depositário de exatos oitenta anos de entretenimentos culturais, do teatro ao cinema, tendo sido inclusive sede provisória da Sociedade Musical Euterpe e no século XX, cine-teatro. Entre muitos descasos contra o patrimônio histórico impetrados pelos outrora gestores públicos do município, a demolição do Teatro D. Eugênia é um dos que mais pesa na consciência desses administradores.

LAR-ESCOLA E AS MÃES ESPIRITUAIS



No dia do professor nada mais pertinente do que falar sobre a educação no passado. Para tanto, seguem as memórias de algumas senhorinhas que nasceram na década de vinte do século passado. Em princípios do século XX, no currículo das alunas do curso “Normal” havia aulas de português, matemática, geografia nacional, história do Brasil e geral, história sagrada, catecismo, pedagogia, puericultura, psicologia, sociologia, moral e civismo, trabalhos manuais, higiene escolar e economia doméstica. Aprenderam canto orfeônico, tinham aulas de ginástica e até mesmo de teatro. Boa parte das crianças de classes abastadas em Nova Friburgo, no século passado, iniciava o curso primário nas próprias residências das professoras. O ensino era ministrado normalmente por notórias educadoras da cidade, a exemplo do que foi a Dona Helena Coutinho, a italiana Ítala Massa, D. Ermínia, D. Cely Ennes, entre outras, intituladas à época de “mães espirituais”. Eram mistas essas escolinhas e a atitude de abrir uma escola na própria residência era apenas de professoras. Os homens educadores não tinham tais práticas. A educação era território feminino. As salas de aula eram extensões de seu lar.
Separava-se um cômodo da casa, mobiliavam com uma mesa comprida e bancos coletivos onde todos compartilhavam as lições. Na escolinha de D. Helena, improvisava-se com bancos de madeira e caixotes de banha que funcionavam como carteiras. A professora ensinava a todos conjuntamente, desde os alunos que aprendiam as primeiras letras até a quarta ou quinta série. Iniciavam-se os estudos com cinco anos de idade. Não havia, como hoje, jardim de infância ou maternal. As matérias como geografia, matemática e português eram dadas todas numa só aula. Não eram separadas. A tabuada era de Galhardo. Idiomas somente no ginásio. Algumas professoras, mas muito raro, no último ano do primário davam noções de francês.

Depois do primário, o ginásio. Fazia-se então o exame de admissão para a nova fase. A idade mínima para fazer a admissão era de 11 anos. Era um rito de passagem entre a educação informal, na casa da professora, para um estabelecimento formal de educação. A elite de Friburgo tinha como opção o Colégio N.S.das Dores, o Chateau, como era chamado o Anchieta e o Colégio Modelo. O N.S.das Dores, na década de quarenta, ainda era em regime de internato para moças. Paradoxalmente, muitas meninas, mesmo residindo no município, foram internas do N.S.das Dores. O Chateau era somente para meninos da elite e o Colégio Modelo misto, nesse último estudando o que corresponderia a uma classe média. No lugar dos trabalhos manuais como o bordado, aprendido no primário, ensinavam-se no ginásio as línguas estrangeiras como o latim, inglês e francês. Terminava-se o ginásio, que durava quatro anos, com 15 anos, aproximadamente. Escolhia-se entre o normal, científico, clássico e técnico de contabilidade. Esse último, ainda que destinado aos rapazes, tivera muitas moças na turma que eram cooptadas para trabalhar nos escritórios das recém instaladas indústrias em Friburgo.

Uma professora àquela época era muito respeitada e ganhava um bom salário. A historiadora Guacira Louro em seu trabalho “Mulheres na sala de aula” nos informa que a imagem de “professora solteirona” não passava de uma das representações fabricadas no magistério feminino, muito adequada para justificar a completa entrega das mulheres à atividade docente, esquecendo-se de si, reforçando o caráter de doação para desprofissionalizar a atividade. Mas em Nova Friburgo, apesar do prestígio do magistério e do bom salário, muitas ficaram “solteironas”. E por que? Explicam as entrevistadas que muitos rapazes não quiseram casar-se com professoras para não serem rotulados, devido a importância delas na sociedade, de “marido da professora”.
Entrevistadas: Maria Corrêa de Souza(1920), Maria Luiza Braune(1929), Nelie da Costa(1925) e Leyla da Silva Melo(1937).

PARA OS AMIGOS, PÃO, PARA OS INIMIGOS, PAU

Em 1910, a campanha eleitoral de Rui Barbosa, embora apoiada pela máquina eleitoral da oligarquia paulista, denunciou, em praças e comícios públicos, a constante fraude e corrupção do sistema eleitoral. Quando se lê as notícias das eleições municipais para o cargo de vereador da Câmara Municipal(não havia ainda a figura do prefeito) e juízes de paz, percebe-se que as eleições em Nova Friburgo fin-de-siècle XIX eram bem mais movimentadas e aguerridas. Para citar um exemplo, tomemos Lumiar, onde violentos tumultos ocorreram naquela época. Em 09 de junho de 1892, quando vários republicanos autonomistas vindos do Sana resolveram parar em Lumiar para participar de uma festa que ocorria na localidade, foram ameaçados por um oponente político, Pedro Spitz, que os rechaçou, expulsando-os do lugar. Porém, antes mesmo que se retirassem, por ordem do subdelegado Lamas, que aos gritos mandou matar “a canalha”, partiram diversos indivíduos em direção à eles, perseguindo-os. Atirando contra eles, mataram um dos homens e feriram os demais, além de serem encontrados sinais de tortura no que falecera. Esse episódio ilustra o termômetro político daquela época em Nova Friburgo e é narrado na edição de 21 de setembro de 1893 em O Friburguense. Dizia-se à época: “Para os amigos pão, para os inimigos pau”.
Segundo ainda o jornal, a fraude grassava nas eleições do município. Havia denúncias de indeferimentos na qualificação eleitoral de pessoas aptas a serem eleitoras, perante a Junta Municipal, com a exclusão de centenas de cidadãos sem motivo justificado. Nas urnas, roubo de votos, muitas vezes “concertado à custa de bico de pena na apuração das freguesias rurais”. Havia rasuras nas cédulas, votava-se sem exibir o título de qualificação e eleitores da situação ameaçavam eleitores da oposição. As provocações acirravam a animosidade entre os correligionários. Em algumas seções, os fiscais legalmente nomeados foram impedidos de entrar e, por conseqüência, os republicanos autonomistas não tiveram um voto sequer nessa seção. Os emissários e oficiais de justiça cruzavam o município com recomendações expressas aos eleitores para votarem na situação ou “ficarem em casa”. De acordo com O Friburguense, o delegado de polícia cabalava abertamente e com toda desfaçatez entrava nas residências dos eleitores, intimando-os a votar no Partido Republicano Moderado.
No dia da eleição, com os bolsos pejados de cédulas, “insistia arreganhadamente” nas seções com os eleitores para acompanhá-lo no voto. Prometiam-se empregos rendosos e fatura de obras municipais com lucros fabulosos. Enfim, lançavam mão de todos os recursos fraudulentos e segundo o articulista de O Friburguense era preciso vencer, “custasse o que custasse, já que tinham em mente que o poder é o poder”. Conforme A Sentinella de 01 de janeiro de 1899, o judiciário convertera-se no “balandrau dos farricocos políticos”, com a vara da Justiça transformada no cacete do partidarismo, praticando favores aos amigos, vingando-se e perseguindo os desafetos. O problema das fraudes nas eleições envolvendo o judiciário somente seria resolvido com a instituição da Justiça Eleitoral no governo Vargas, criada justamente para coibir tais práticas. Depois de decorridos quase dois séculos de nossa independência ainda vivemos em estágio primário na hora de votar. Atualmente, boa parte da população ainda vive sem saneamento básico, sujeita às doenças, mas contenta-se com os aparelhos domésticos e o assistencialismo do bolsa família. Nessa eleição, estão na iminência de se elegerem cantores de pagode, jogadores de futebol que penduraram a chuteira, comediantes e pode-se imaginar o que produzirá o Senado e a Câmara de Deputados nos próximos anos. A classe política já não se contenta em se eleger: elege os filhos, a mulher e toda a parentela que puder, numa verdadeira “venda casada”.
Nos dias de hoje, a violência política foi substituída pelo poder econômico. Está claro que quem possui os cobres em suas algibeiras, vence as eleições. Mas tudo isso decorre de um processo histórico em que o voto no passado era censitário, ou seja, dependia de uma renda mínima do eleitor, exigia-se alfabetização em um país com a quase totalidade da população de analfabetos, excluía-se o voto feminino, sem contar ainda com os anos ditadura que coibiu a participação política. Recordando a história do Brasil, constataremos que a participação das classes populares no processo político é muito pífia, pois ficou durante muitos anos excluída do voto. Por isso, Senhor, perdoemos o nosso povo que não sabe o faz com o seu voto.

CASCATA PINEL: UM RECANTO POÉTICO EM FRIBURGO





Foto tirada por volta de 1870 na Cascata Pinel. Acervo Biblioteca Nacional

(O Brasil no século XIX fotografado por paisagistas europeus)



“A belezas magníficas que Friburgo ostenta, com seus horizontes orlados por
imensas serras de granito, atalaias naturais da cidade dos cravos rubros e das
camélias brancas; os panoramas maravilhosos que se abrem para todos os lados,
sempre variados, sempre diversos, encantando o viajante que não cessa de mirá-lo
com olhos fascinado de ver (...) Friburgo é assim uma cidade que encanta(...)
pelos matizes e nuances dos painéis que surpreendem, como telas aprimoradas por
um artista divino...”


Essa citação está inscrita no jornal O Nova Friburgo de 1935 em uma matéria que trata dos lugares pitorescos de Friburgo. Eram descritos como pontos de inigualável beleza na primeira metade do século XX, a Chácara do Paraíso, a Granja Spinelli, a Ponte da Saudade, o Sanatório Naval com sua alameda de bambuais, a Vila Amélia com suas chácaras de pêra, a Chácara Braune com seus açudes, o Tingly com seus craveiros policrômicos, o Parque São Clemente com a nobreza de seu solar, o Cônego, o Moinho da Saudade e o Catete. Eram lugares de belezas inconfundíveis onde os turistas visitavam com frequência, cuja descrição de um bucolismo inebriante povoava o jornal da época. Porém, o jornal destacava que alguns lugares que outrora constituíram verdadeiros centros de atração dos veranistas, já se encontravam desprezados “graças a incúria, a displicência, e indiferentismo dos governos que se vem sucedendo, cada qual com menor visão administrativa, cada qual com menor respeito às tradições e as belezas de Friburgo”. Na década de 30 do século XX, esses lugares já se encontravam em completo abandono e dificilmente se poderia chegar a eles porque os caminhos desapareceram e os atalhos e as picadas foram invadidos pela espessa vegetação.

Entre esses lugares que figuraram outrora entre os pontos prediletos para passeios e pic-nics estavam ainda a Vista Chinesa ou Vale do Hans - a Cascata Hans, com uma queda de setenta metros -, a Cascata da Estação do Rio Grande(possivelmente o Véu das Noivas), e a mais famosa de todas, a Cascata Pinel, formada pelo Rio Grande, com uma altura de cinqüenta metros, circundada por moitas e rochas de granito. A Cascata Pinel, um dos mais poéticos recantos de Nova Friburgo, era lugar de passeio de veranistas “desde os tempos coloniais para pic-nics dos nobres e convescotes imperiais”, nos informa O Nova Friburgo de 1935.

O nome Pinel advém do sobrenome do proprietário das terras onde se situava a cascata. Carlos Pinel, descendente de Felippe Pinel, o grande psiquiatra francês, veio para o Brasil em 1839 e depois percorrer diversas províncias chegou a Friburgo em visita a família Salusse, hospedando-se em seu hotel. Encantado com a suavidade do clima de Friburgo e a pujança de sua natureza, adquiriu uma propriedade em 1842, denominada “Fazenda dos Pinéis”. Nas memórias de seus descendentes Pinel não comprara e sim recebera, por doação, essas terras(sesmarias) de D.Pedro II. Casou-se com Catharina Rimes, descendente do Barão de Rimes. Pinel era advogado e foi também um dos responsáveis pela implantação da maçonaria em Friburgo. No entanto, Carlos Pinel dedicou-se somente a agricultura no município. Foi no recanto bucólico da Cascata Pinel que em 1868, a Princesa Izabel ofereceu à embaixada chilena, uma “festa campesina” a que compareceram D. Pedro II e o Conde d’Eau, tendo sido construídas para o evento, na sua proximidade, barracas de pinho envernizadas. Nessa ocasião, Carlos Pinel fez gravar em um dos granitos que atalaiam a cachoeira, em homenagem a Princesa Izabel, a seguinte inscrição: Cascata Santa Izabel. Essa cascata, segundo descrições, fica entre Sumidouro e D. Mariana. Essa localização pode nos levar a concluir erroneamente que se trata da Cascata do Conde d’Eau, mas na realidade essa é outra queda d´água.

Em 1908, foi filmada uma “fita cinematográfica” dessa cascata, período em que teve seus dias de glória e fulgor entre os excursionistas, a nobreza e a própria família real. Fica aí uma sugestão aos poderes públicos para resgatar esse aprazível lugar, averiguar se ainda existe a inscrição Cascata Santa Izabel, e informando aos turistas que Nova Friburgo não foi a princesinha da Coroa, como Petrópolis, mas encantava a monarquia e a nobreza lusitana.

UM BRINDE A ADOLF HITLER! NAZISTAS EM FRIBURGO

Em 1824, colonos alemães migraram para o recém criado termo de Nova Friburgo. Sessenta e oito anos depois ocorreria uma segunda onda migratória de alemães, ainda estimulada pelo governo. Já no primeiro decênio do século XX, um grupo de empresários alemães investiu em indústrias de grande porte, transformando Nova Friburgo em uma cidade industrial. Havia no município a Sociedade Alemã de Nova Friburgo e igualmente a Sociedade Alemã de Escola e Culto, essa última com estatuto próprio, cuja sede ficava na Estrada do Reservatório. No dia 20 de abril de 1935, o jornal O Friburguense noticiava a celebração em Friburgo do 46º aniversário do führer Adolf Hitler promovida pela Sociedade Alemã de Escola e Culto que “comemorou este acontecimento com muito brilho e solenidade”. A celebração contou com “grande número de pessoas de destaque” da sociedade friburguense e de muitos alemães domiciliados em Friburgo. A solenidade foi dividida em duas partes: na primeira, foram cantados os hinos nacionais brasileiro, alemão e nacional-socialista, seguidos por saudações e discursos em alemão e português. Um belo solo de violino acompanhado ao piano entremeava os discursos e alguns números de música foram apresentados. Vivas foram erguidos às duas grandes nações: Brasil e Alemanha. Na segunda parte do evento houve um baile, e danças e cantos se seguiram e se prolongaram até alta madrugada “com extraordinária animação e satisfação de todos que compareceram à festa”, noticiou o jornal. A colônia alemã e igualmente membros da colônia italiana e da elite friburguense participaram do evento.

Foi assim que se comemorou em Friburgo naquele ano a data natalícia de Adolf Hitler. Hitler é colocado nos discursos da dita sociedade como um líder que “conseguiu conduzir o povo alemão para uma vida melhor, dando bem estar a milhões de almas e implantando nelas a inabalável confiança em um futuro melhor.....”, assim transcreveu o jornal. Nos discursos proferidos, a idéia de que o nacional-socialismo fez desaparecer as diferenças sociais, onde se cultivava a verdadeira “camaradagem” entre o povo alemão. À luz dos acontecimentos internacionais, Hitler ainda não mostrara ao mundo a sua verdadeira face. A segunda guerra mundial(1939-45) ocorreria somente quatro anos depois dessa comemoração na cidade. Em Nova Friburgo havia muitos representantes da Ação Integralista Brasileira. No aniversário de Plínio Salgado, chefe nacional do partido, os integralistas friburguenses faziam uma passeata à noite pela cidade, “em exercícios”, fazendo uma parada militar na Praça dos Eucaliptos, ou seja, na Praça Getúlio Vargas.

Em entrevistas realizadas com algumas pessoas cujos familiares participavam do movimento nazista em Nova Friburgo, obtivemos duas afirmações: A primeira, a de que realmente houve um movimento nazista em Nova Friburgo. A segunda, a de que tantos os alemães no tocante a Hitler como os italianos no tocante a Mussolini, possuíam um único sentimento em relação a esses líderes políticos: a de que ambos melhoraram as condições econômicas de seus respectivos países. Destaquemos que esses imigrantes somente deixaram o seu torrão natal em razão da crise econômica que lhes afetava, daí a torcida por esses líderes que tiraram os seus países do horror econômico. Finalmente, não se conhecia ainda os campos de concentração que dizimaram ciganos, comunistas, homossexuais e judeus que só se tornaram notórios ao final da guerra.
No entanto, depois da segunda guerra mundial, muitos alemães foram hostilizados em Friburgo e todos os documentos da colônia italiana foram destruídos, temendo-se deportações. Era natural que em Friburgo, com uma forte presença de imigrantes alemães e de italianos tivessem simpatizantes do nazi-facismo, já que Hitler e Mussolini eram líderes carismáticos. Em uma outra ocasião, falaremos de um movimento eugenista existente em Friburgo, liderado pelo Prof. Júlio Caboclo, que pregava a superioridade de uma raça sobre a outra. Movimento nazista e eugenia. Está aí uma interessante passagem da história de Friburgo que merece ser pesquisada.

Movimento nazista em Petrópolis na década de 30, onde também havia forte presença de imigrantes alemães.


































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