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NOVA FRIBURGO, PETRÓPOLIS OU TERESÓPOLIS? PARA ONDE OS CARIOCAS IRÃO NO VERÃO?

Nova Friburgo. Foto: Paulo Noronha



Nova Friburgo. Foto: Rosana Gomes



Petrópolis: Hotel Quitandinha





Serra de Teresópolis

Diante da catástrofe natural ocorrida entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis se irmanaram na dor das perdas humanas e materiais. As três cidades serranas habituadas a ter seus nomes estampados na imprensa como aprazíveis locais de veraneio, se viram numa macabra estatística no qual Nova Friburgo encabeçou a lista fúnebre com o maior número de mortos e de perdas materiais. Autoridades governamentais desses municípios se solidarizaram e igualmente a população dessas regiões. Mas houve momentos de nossa história em que, pelo menos por parte dos friburguenses, a rivalidade de Nova Friburgo em relação às co-irmãs da região serrana era levada a extremos. A imprensa local, a exemplo do jornal O Friburguense, que era distribuído no Rio de Janeiro e em Niterói, ao mesmo tempo que tecias loas ao clima de Friburgo, menosprezava Petrópolis e Teresópolis.

A partir de 1847, a Corte passou a mudar com regularidade para então vila de Petrópolis. A morte na tenra idade dos dois herdeiros do Imperador Pedro II, Afonso(1845-47) e Pedro(1848-50) consagrava o Rio de Janeiro como uma cidade com uma atmosfera pestilenta, onde grassavam epidemias de febre amarela, provocando a fuga dos cariocas abastados no verão. O ambiente das montanhas passou a ser uma solução imediata para a elite livrar-se da mortandade que se abatia sobre o Rio de Janeiro com a chegada do verão. Quando o mais racional seria resolver o problema do saneamento da cidade, preferiam mudar-se para as montanhas, o que acabou incrementando a economia das cidades serranas, fomentado o turismo. Logo, na estação calmosa, o verão, a elite carioca trocava os “salões” pelas pitorescas e bucólicas cidades próximas a Corte. Nova Friburgo era uma delas. No entanto, Petrópolis sempre fora a favorita da família real e isso incomodava profundamente os friburguenses.
Com a proclamação da República a disputa ficou acirrada. Nova Friburgo concorreu e perdeu para Petrópolis a regalia de ser capital do Estado por um determinado período, mas transformou a ameaça em oportunidade: “...A cidade do Rio de Janeiro está quentíssima, mais quente que o fogo em brasas, faz ali um calor insuportável, quanto mais nos próximos meses de novembro a março. E isto o que todos sabem, não carece demonstrar. Sendo assim, é provável que grande número de pessoas ali residentes se retire para fora, procurando passar alguns meses no gozo do ar livre, fugindo das epidemias que a infestam todos os anos, principalmente nos referidos meses. Está reconhecido pelas observações feitas que a cidade de Teresópolis, embora seja um lugar fresco, não pode ser procurada, por que é diariamente açoitada pelos ventos; é lugar pequeno e insípido – não passa de um estreito beco; as viagens da capital federal para essa cidade são assaz incômodas e dispendiosas e em chovendo tornam-se dificultosas. Para Petrópolis há facilidade e barateza de transporte, mas é lugar de clima muito úmido, o que é nocivo a saúde, mormente para as pessoas já afetadas de alguma moléstia ou que precisam convalescer-se; devendo notar-se mais que Petrópolis, é uma cidade de luxo, aristocrata, própria para diplomatas. Com a mudança da capital do Estado do Rio para ali, encheu-se a cidade de Petrópolis de grande massa de elementos perniciosos, perigosos a moralidade e a tranquilidade públicas, privando as famílias de certos gozos que outr’ora tinham. (…) Todos quantos pretenderem afastar-se por algum tempo do calor que tanto incomoda e que é origem de tantos males, que precisarem de descanso e quiserem gozar do puríssimo ar das montanhas, não encontrarão outro lugar mais apropriado que Friburgo...”(O Friburguense, de 1-10-1894.)

E referindo-se a Nova Friburgo, se escreveu: “O clima é excelente, superior ao de todos os outros povoados do Estado do Rio de Janeiro, inclusive o da cidade de Petrópolis, que já foi imperial e atualmente goza dos foros de capital. A água é pura, fresca, cristalina, abundante não só em quantidade, como no número de milagres que tem operado; a água que desce das montanhas e das cascatas de Friburgo, não tem igual, é incomparável. O clima e a água desta abençoada terra, dão alento aos vivos e ressuscitam os mortos; pode-se afoitamente dizer (…). Friburgo podia ser hoje a primeira cidade do Estado do Rio de Janeiro em tudo, como é e sempre foi a primeira no clima saudável e na água de milagres prodigiosos...”(O Friburguense, de 29-12-1895.)
E continuam as invectivas contra as concorrentes: “O que ninguém poderá negar é que Friburgo é uma cidade cheia, riquíssima de elementos naturais, encantadora, amena, aprazível, que tem merecido olhares benéficos do céu, que tem causado inveja a úmida Petrópolis, que tem como rival apaixonada Teresópolis, e como tenho dito muitas vezes, como sempre hei de dizer, como jamais cansarei de repetir: a bonina do Estado do Rio de Janeiro...”(O Friburguense, de 4-6-1893.)

Por fim, escreveu um jornalista: “O tempo vai correndo favorável aos passeiantes. Dias esplêndidos! O sol doira nas altas montanhas que nos cercam. As manhãs agradam com sua frescura. As noites encantam com o seu céu bordado de fulgurantes estrelas. Que natureza invejável. Que encantadora terra, a formosa Friburgo, a Suíça brasileira, mimosa bonina das cidades do Estado do Rio de Janeiro. Cala-te úmida Petrópolis, humilha-te estreita e ventosa Teresópolis! A verdade é uma só. Friburgo, não tem rival!” (O Friburguense, de 3-4-1892.)
Poderíamos descrever uma miríade de textos como esses publicados na imprensa da época. Nossos ancestrais pegavam pesado na disputa pelos touristes, não?

12 DE JANEIRO: NOSSO 11 DE SETEMBRO





Vila de Nova Friburgo, por Debret.


As enchentes e o desmoronamento de morros, ocorridos na madrugada do dia 12 de janeiro desse ano, entram para a história de Nova Friburgo, e do Brasil, como uma das maiores tragédias provocadas por fenômenos naturais. É nosso “11 de Setembro”, numa analogia aos ataques terroristas ocorridos nos Estados Unidos da América. Nos jornais, além da divulgação de centenas de mortos e destruição material, a notícia de que os preços das hortaliças e legumes vão ficar mais caros nos próximos seis meses. Isso em decorrência dos desmoronamentos que acarretarem danos ao solo das regiões do Campo do Coelho, Conquista e Salinas, que abastece com produtos primários o Rio de Janeiro. Isso demonstra que a região serrana, além de ser procurada pelas suas belezas naturais e por seu clima, também tem importante papel na economia do Estado, e mais propriamente, na mesa dos cariocas e fluminenses. Mais da metade desses produtos consumidos pelos cariocas são produzidos por essa região, incluindo também Teresópolis. Essa região, que correspondia a antiga freguesia de Sebastiana, no século 19, já produziu peras, maçãs, nozes, cerejas, marmelo, amoras e uvas, dando-lhe uma paisagem que se assemelhava às planícies européias.

Giuseppe Arcimboldo.(1527[?]-1593 [?]). Pintor italiano.
Historicamente, Nova Friburgo foi criada justamente para abastecer o mercado da Corte, ou seja, o Rio de Janeiro. No início do século 19, o plantio do café deslocara muitas terras e mão de obra escrava no cultivo desse produto, o mais rentável à época. A economia do Brasil já se baseava na exportação do café, em franca expansão. Logo, produtos como milho, feijão, mandioca e carne já estavam desaparecendo da mesa dos cariocas. A maior parte dos agricultores não queria se dedicar ao cultivo de alimentos, mas tão somente ao ouro verde: o café. Logo, D. João VI deu início a política de colonização, objetivando o plantio de gêneros alimentícios para abastecer a Corte, através de imigrantes estrangeiros. Um decreto de 1818 destinou a Fazenda do Morro Queimado para o assentamento de colonos suíços. Essa antiga fazenda, composta de quatro sesmarias, hoje é Nova Friburgo. Em um pitoresco vale, entre grandiosas montanhas, foi criada a vila de Nova Friburgo, em 1820, para abrigar a “Colônia dos Suíços”, a primeira do Brasil. No entanto, as datas de terras no perímetro do “Núcleo dos Colonos” não eram úberes o suficiente para a agricultura, sendo localizadas em terrenos íngremes ou repletos de brejos. Boa parte das terras distribuídas aos colonos suíços foi abandonada. Em 1824, colonos alemães foram encaminhados para a vila de Nova Friburgo. As terras inférteis abandonadas pelos suíços foram distribuídas aos colonos alemães. Por conseguinte, metade deles se deslocou para outras regiões em busca de terras mais produtivas, como Cantagalo, Barra Alegre, Rio Bonito e São Leopoldo, no sul do país.
Cumpre destacar que somente as glebas coloniais do “Núcleo dos Colonos” eram consideradas inférteis, pois Nova Friburgo possuía uma extensão territorial com terras produtivas, que lhe retiravam a pecha de região com terras sáfaras. Nova Friburgo possuía quatro freguesias: A Freguesia de São João Batista, a vila, a Freguesia de São José do Ribeirão, atualmente Bom Jardim, Nossa Senhora de Paquequer, hoje Sumidouro, e Sebastiana, atualmente compreendendo o cinturão agrícola de Campo do Coelho, Conquista, Salinas e parte de Teresópolis. São José do Ribeirão e Paquequer eram importantes regiões agrícolas, cultivando inclusive o café. Na realidade, parte do desenvolvimento de Nova Friburgo ocorreu devido ao seu clima salubre. A partir de 1830, Nova Friburgo encontra a sua verdadeira vocação, vingando como uma aprazível estação de verão. Foi desde então refúgio dos cariocas que fugiam do calor do Rio de Janeiro e dos que procuravam a saúde do corpo, como a cura da tuberculose, quando se acreditava que o clima era um fator determinante na cura da doença. A partir da segunda metade do século 19, quando começam a grassar as epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro, Nova Friburgo ganha mais visibilidade atraindo uma chusma de cariocas em todo o verão, ponto alto das epidemias.
Já no último quartel desse século, recebeu significativa imigração de italianos, fomentando o comércio e a área de serviços. Imigraram ainda para Nova Friburgo, desde então, em menor proporção, libaneses, espanhóis, húngaros, austríacos e japoneses. É sempre bom lembrar a imigração forçada de africanos, na condição de escravos, ao município. A partir de 1910, empresários alemães estabeleceram indústrias de grande porte na cidade, alterando significativamente a estrutura social e econômica do município. Pode-se afirmar que Nova Friburgo passou a ser uma cidade industrial. Com a diminuição da atividade dessas grandes indústrias, a partir da década de oitenta do século 20, a economia de Nova Friburgo passou a girar em torno de pequenas e médias empresas metalúrgicas e de um grande pólo de moda íntima, essas últimas estabelecidas por antigos funcionários das indústrias têxteis. Como vimos, Nova Friburgo tem uma história nada monolítica.

Há quase dois séculos, cariocas e fluminenses, quando tressuam esbaforidos devido ao calor escaldante do verão, procuram o frescor do clima das montanhas de Nova Friburgo. O município curou igualmente os que se convalesciam da tuberculose. Nova Friburgo coloca diariamente, na mesa dos cariocas, hortaliças e verduras do amanho de suas terras.

Depois da tragédia do dia 12 de janeiro, enterramos nossos mortos, choramos nossas perdas e mal absorvemos ainda o que aconteceu com Nova Friburgo. Porém, corre nas veias dos friburguenses o sangue de portugueses, africanos, suíços, alemães, italianos, libaneses, espanhóis, japoneses, austríacos e húngaros. Logo, vamos transformar essa babel de nacionalidades que correm em nossas veias para reconstruir a cidade e colocá-la no status que possuía no passado: a de mimosa bonina e princesinha do Estado do Rio de Janeiro.

Arcimboldo

Arcimboldo









PASSAGEM DE NOEL ROSA POR NOVA FRIBURGO




Esse ano se comemora o centenário do nascimento do grande compositor carioca Noel Rosa, nascido em 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro. Nada mais oportuno falar de Noel Rosa nesse momento em que passa o Rio Janeiro, onde as elites cariocas finalmente derrubam os muros da “cidade partida”, como definiu Zuenir Ventura, e o poder público volta sua atenção às comunidades das classes populares do Rio Janeiro. Noel Rosa já se antecipara nessa vinculação entre o asfalto e o morro. Nunca aceitou essas fronteiras e sempre fez uma ponte entre a classe média carioca, no qual era originário, e os compositores dos “morros” (comunidades) do Rio de Janeiro. Era fascinado pela figura do “malandro do morro” que nada se assemelha aos atuais bandidos cariocas. O que hoje as elites querem resgatar, Noel o fez há quase um século atrás.


Noel Rosa ingressou no curso de medicina mas a boemia falava mais forte em sua vida, levando-o a abandonar o curso. Franzino e debilitado desde muito cedo, sua mãe ficava sempre preocupada com o filho que vivia nas noites cariocas. Sabendo, certa vez, que Noel iria à uma festa, escondeu todas as suas roupas. Quando seus amigos chegaram para apanhá-lo, Noel grita, de seu quarto: "Com que roupa?". No mesmo instante a inspiração para seu primeiro grande sucesso, gravado no carnaval de 1931, onde vendeu 15000 discos.

Tímido e recatado, Noel relaxava bebendo e compondo. A polícia, à época, prendia o sujeito que tinha calo nos dedos de tocar violão, pois o considerava um “vagabundo”. Sempre sem dinheiro, suas composições lhe rendiam apenas alguns parcos tostões e o pouco que recebia gastava tudo na boemia com as mulheres e com a bebida. Sua vida desregrada acabou lhe gerando uma tuberculose. Há o relato de que quando já apresentava um quadro clínico de tuberculose avançada e proibido de beber sem comer alguma coisa, um amigo o encontrou em um bar tomando cerveja e caçhaça e o recriminou, ao que ele respondeu: “Dizem que cerveja alimenta e eu como não posso beber sem comer, eu como cerveja e bebo cachaça.” E foi devido a tuberculose que contraíra que Nova Friburgo entra em um difícil momento de sua vida.

Há relatos de que Noel Rosa se tratou em Nova Friburgo. Era natural. Nova Friburgo era considerada a “cidade sanatório” para onde afluíam, devido a salubridade de seu clima, muitos doentes vítimas da tuberculose. A proximidade com o Rio de Janeiro aumentava ainda mais o número de pessoas que buscavam o muncípio para se convalescer dessa temível doença. Ao contrário do que ocorrera no passado, no início do século 20, os bons hotéis da cidade já não aceitavam hospedar pessoas doentes de tuberculose. Nova Friburgo recebia tantos tísicos que já assustava os veranistas que se hospedavam nos hotéis, pois a doença era contagiosa. A recepção desses tuberculosos ficava a cargo das inúmeras pensões que havia na cidade. O Sanatório Santa Terezinha, no Catarcione, seria inaugurado somente na década de 40, do século 20 e o Sanatório Naval apenas recebia militares da Marinha. Há referência de que Noel Rosa alugou uma casa em Nova Friburgo. Consequentemente, pode ter permanecido por alguns meses. Noel Rosa deve ter estado em Friburgo entre 1930 e 1936 para se curar da tuberculose. Há quem afirme que a música “O Orvalho Vem Caindo” tenha sido composta em Nova Friburgo por Noel enquanto se convalescia. A letra e a melodia triste de fato nos remetem a Friburgo nesse período de sua vida, que diz: “O orvalho vem caindo, vai molhar o meu chapéu/ e também vão sumindo, as estrelas lá do céu/ Tenho passado tão mal(...)A minha sopa não tem osso e nem tem sal/Se um dia passo bem, dois e três passo mal.”

Mas como provar que Noel Rosa esteve em Nova Friburgo? Infelizmente, os jornais da época, que devem ter registrado sua passagem por aqui, não estão disponíveis para consulta no Centro de Documentação da Prefeitura. No entanto, Derly Moreira Chlaloub, nascida em 1921, nos informa que sua mãe contava que via Noel Rosa na Praça Getúlio Vargas. Sentado no banco, cuspia constantemente no chão, uma postura típica dos tuberculosos. Noel, habituado a boemia nas rodas de samba, o autor de “Conversa de Botequim”, onde explora a sociabilidade carioca, deve ter achado entediante sua passagem pela modorrenta Nova Friburgo. Nessa ocasião, Friburgo tinha uma influência muito forte da cultura alemã, sendo que os industriais alemães, por conta das indústrias de grande porte que por aqui se instalaram, implementaram uma cultura baseada na disciplina no cotidiano da cidade. O comportamento dos friburguenses em nada se assemelhava a camaradagem fácil da boemia carioca que tanto atraíra Noel. Falecido no Rio de Janeiro, em 04 de maio de 1937, aos 26 anos, vitimado pela tuberculose, deixou um legado de mais de duzentas músicas onde a tônica de sua obra foi o cotidiano do carioca e a crítica social. O trovador friburguense José Nogueira, o Bieca, registrou a passagem de Noel Rosa por Nova Friburgo. Em suas trovas sobre Friburgo na década de quarenta, do século 20, escreveu: “Friburgo que Rui Barbosa aplaudiu quando chegou, Friburgo que Noel Rosa, no seu coração guardou”.

Monumento dedicado a Noel Rosa, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro




PRAÇAS PÚBLICAS: HIGIENE E SOCIABILIDADE

Acima: Praça Getúlio Vargas

Na semana passada fui convidada pela Associação de Engenheiros e Arquitetos para participar do programa “Hora Técnica”, exibido na tv Zoom. O assunto foi sobre as praças, contando com a presença do arquiteto Luiz Cláudio, responsável pelo projeto urbanístico das praças da cidade. A mencionada associação conta atualmente com um presidente, José Augusto Spinelli, que para nossa sorte gosta de história e por isso o assunto “praça” foi abordado numa linha de tempo passado e presente. Nossos antepassados nos legaram muitas praças: A Praça Getúlio Vargas, Praça Paissandu, Praça do Suspiro, Praça da Alegria(atual pátio da Prefeitura) que ficava na entrada da vila, e por último a Praça Cantagalo (depois Primeiro de Março), localizada na vilagem. De todas as praças a única extinta foi a Praça da Alegria, desapropriada a pedido de Bernardo Clemente Pinto para se transformar em estação de trem. Mas por que Nova Friburgo possuía tantas praças em um exíguo perímetro urbano?



No século XIX, grassam em todo país epidemias de febre amarela, cólera e varíola. Atribuía-se essas doenças aos miasmas, emanações pútridas que se desprendiam de animais e vegetais em decomposição, corrompendo o ar atmosférico e desencadeando diversas doenças. Os médicos higienistas acreditavam que as doenças vinham do ar, pois a descoberta dos micróbios só aconteceria em 1862, mas levaria algum tempo para ser difundida e aceita. Preconizava-se o plantio de árvores e boulevards nas vilas e cidades para higienizar o ar “corrompido” pelos miasmas. Logo, as praças públicas, os passeios como eram denominados, tinham muito mais uma função de atender a uma política pública higienista do que se tornar um espaço de sociabilidade. Basta uma leitura do Código de Posturas de 1848 de Nova Friburgo, para perceber que a Câmara estava muito mais preocupada com a salubridade da vila do que propriamente com o lazer de seus habitantes.

Acima: Praça do Suspiro


A rigor, a primeira praça foi a Praça Paissandu, anteriormente denominada de Praça do Pelourinho, pois sempre que uma vila era instalada se estabelecia “pelouros de justiça”, um ato simbólico da demonstração da autoridade real. Já a Praça Getúlio Vargas, outrora Princesa Izabel, homenagem que o município lhe fez em virtude de uma visita da princesa a vila, somente a partir de intervenção do arquiteto e paisagista Glaziou começou a ser de fato freqüentada. No entanto, durante todo o século XIX, o comportamento rural fazia com que a população, transgredindo as posturas, fizesse dessa praça pasto de animais. De todas as praças a mais freqüentada no século XIX foi a Praça do Suspiro. Deve-se ao fato da existência da fonte do suspiro, que além do romantismo que dela se evocava, “amor, saudade e ciúme”, acreditava-se no poder curativo de suas águas, fazendo lenir as dores dos que sofriam e “ressuscitava os quase-mortos”. Dizia a lenda que quem bebesse da Fonte Encantada do Suspiro a ela se prenderá por toda a vida! O viajante que bebia de sua água, certamente voltaria a Friburgo, porque a saudade lhe encheria o coração. O dia 2 de dezembro de 1865, data do aniversário natalício de D. Pedro II, foi escolhido para a inauguração da Praça do Suspiro, completando ela 145 anos em dezembro próximo. Quando da abolição da escravidão recebeu o nome de Praça 13 de Maio, mas não se sabe por que em algum momento da história essa praça perdeu esse nome.


A teoria microbiana derrubou a teoria dos miasmas, ou seja, descobriu-se que as doenças provinham dos micróbios e não do ar, e as praças públicas no século XX prestam-se tão somente a espaços de sociabilidade. Atualmente, devido ao efeito estufa, nos parece que as praças voltam a sua função originária de higienizar a cidade, minimizando o impacto de poluição do ar e melhorando a qualidade de vida dos que vivem nas cidades. Mas há muito que fazer. Além de preservar as praças que nossos antepassados nos legaram no centro da cidade, não devemos nos esquecer das praças dos bairros periféricos como Olaria, Cônego e Conselheiro Paulino e criar novas, como no bairro de Mury. Finalmente, Gilberto Freyre nos informa que os homens brasileiros, à maneira dos gregos, gostavam das camaradagens fáceis e ligeiras da rua e da praça pública. Era na rua e na praça pública que discutiam política e realizavam negócios ou transações. Em Nova Friburgo, depois do trem, as praças estão sempre na memória das pessoas, o que demonstra a sua importância como espaço de sociabilidade.
Abaixo: Praça Paissandú

Acervo: Fundação D. João VI

A CIDADE TAUMATURGA

Antes que o amigo leitor tenha o trabalho de ir ao dicionário vou logo dar o verbete do que seja taumaturgo: o que faz milagres. Desde a fundação de Friburgo acorriam a cidade inúmeros indivíduos, vítimas da tuberculose, a peste branca, surgindo nesta ocasião as primeiras pensões, como a do francês Guilherme Salusse, para abrigar estes corpos doentes. A partir de então, grassam na história de Friburgo documentos e relatos que testemunham que a vinda a cidade proporcionava a estes enfermos a cura de sua doença, transformando o vale da pacata vila em um verdadeiro santuário. Se Jerusalém(Israel), Santiago de Compostela(Espanha) e Mont de Saint Michel(França) foram centros de peregrinação na Idade Média, pode-se afirmar que a taumaturga Friburgo foi durante mais de um século, entre a primeira metade do século XIX e igualmente do século XX, um ponto de convergência e peregrinação daqueles que buscavam na salubridade de seu clima a cura de seus males. “O clima e a água desta abençoada terra, dão alento aos vivos e ressuscitam os mortos; pode-se afoitamente dizer....”, vem escrito em uma crônica publicada em O Friburguense, em 1895. O trovador J.G. de Araújo Jorge não disse que do céu se lê as cinco montanhas formarem a palavra “SAÚDE”? Machado de Assis, quando esteve em Friburgo, em 1879, para cuidar da saúde abalada, escreveu: “A mim esse lugar para onde fui cadavérico há dezessete anos, e donde saí gordo(...)há de sempre lembrar com saudades....Nova Friburgo é terra abençoada. Foi aí que, depois de longa moléstia, me refis das carnes perdidas e do ânimo abatido.

Foi devido ao clima de Friburgo e a qualidade de suas águas que o médico napolitano Carlos Éboli instalou o Instituto de Hidroterapia, nos legando o belo prédio em estilo neoclássico, que foi o Hotel Central, anexo ao instituto, hoje o C.N. das Dores. O clima provavelmente foi um fator determinante para a vinda de imigrantes italianos, alemães, portugueses, espanhóis e libaneses a Friburgo no final do Século XIX. A taumaturga cidade pagou, no entanto, o preço da fama da salubridade de seu clima. A Marinha do Império envia para Friburgo marujos acometidos por beribéri, doença que se supunha infecto-contagiosa. Acreditava-se que o clima da cidade proveria a cura destes doentes. Mais adiante, em 1910, a Marinha instalou o Sanatório Naval para a convalescença destes doentes e igualmente dos tuberculosos. Além dos hospitais do Sanatório Naval e Santa Terezinha, Friburgo quase teve um terceiro Hospital de Tuberculosos, que seria na atual sede da UERJ, não ultimando este projeto graças aos protestos da população da cidade.
Como os habitantes de outrora lutaram em Nova Friburgo para manter a fama de sua salubridade, pois se orgulhavam muito dela. Dizia-se à época que Friburgo estava “na ponta” e a imprensa jactava-se do município ser o segundo maior do Estado do Rio, só perdendo para a então capital do país, o Rio de Janeiro. Ao final do século XIX, Nova Friburgo quase foi capital do Estado, perdendo por pouco para Petrópolis. Talvez alguns achem exagerada a afirmação de que Friburgo, à época, era um vale operador de milagres. No entanto, a crônica que segue, uma entre uma centena de relatos, confirma esta assertiva. A crônica “Pérola Esquecida”, publicada no jornal O Nova Friburgo, de 09 de maio de 1937, é significativa e demonstra como Friburgo era vista no imaginário da época como uma cidade taumaturga, se transformando em um centro de convergência de peregrinos doentes:
“....E o coração da gente como que pára para cantar seu hino a Friburgo, como tive ocasião de ouvi-lo o mês passado no pesar de uma moça que descia definitivamente [refere-se a retornar ao Rio de Janeiro] e que muito me impressionou(...)Trazia pálido o semblante e chorava copiosamente, perdida sua alma num soluço comovente e com o qual se despedia de Friburgo! Perguntando um passageiro se havia perdido algum parente, respondeu: Não, eu choro de gratidão, porque volto curada de Friburgo!”
Acervo documental e fotográfico: Centro de Documentação Fundação D.João VI.

O Sanatório Naval em Nova Friburgo – AS MEMÓRIAS última parte

Durante uma série de matérias divididas em sete partes, procurei mostrar a trajetória do Sanatório Naval em Nova Friburgo, utilizando algumas fontes secundárias e artigos de jornais da época. No entanto, é fundamental conhecer as memórias de alguns friburguenses que recordam-se dos primeiros anos de instalação do Sanatório Naval. Inicialmente, nas memórias de Nondas da Cunha Ferreira, agricultor, nascido em 1929, um fato que presenciou no Sanatório Naval lhe chamou a atenção. Como sua mãe lavava a roupa dos doentes tuberculosos do sanatório, Nondas, com oito anos de idade, a acompanhava puxando um carro de boi. Às 5:00 horas da manhã, quando ele e sua mãe iam apanhar a roupa, o médico tisiologista, com uma lista na mão, dizia o seguinte para os oficiais e praças doentes: “Antônio, José, Alberto e Paschoal, vocês vão até o paralelo 1.” No paralelo havia uma bica d’água e eles tinham que caminhar até ali e beber bastante água em jejum. “Gilberto, Antonio e João vão até o paralelo 3”. Já o paralelo 3 ficava mais distante, e os que eram indicados para lá poderiam andar mais, pois estavam em melhor condição de saúde. “Nossa água contém muito oxigênio”, esclarece Nondas e acrescenta: “O que se praticava com a marujada à época era tomar água mesmo sem querer, de manhã, em jejum, e andar a pé de manhã bem cedo. Às cinco horas da manhã o médico despachava todo mundo. Agora quando voltavam do mato afora, uma estradinha de cinco quilômetros, eles tomavam café e na mesa tinha pão, queijo, geléia, bolo, para comer à vontade e quanto quisesse. Água boa, oxigênio, boa alimentação, era o que curava”, recorda-se. “Hoje já tem a vacina, o remédio, mas naquela época se tratava assim”, observou ele.

Maria Corrêa de Souza, Maria Luiza Braune, Leyla Melo e Nelie da Costa, que viveram sua adolescência na década de 40, do século XX, recordam-se dos lindos rapazes do H.T.(do Hospital de Tuberculosos). Os mais saudáveis, os “baixados”, eram autorizados a vir ao centro da cidade passear, porém, muitos fugiam do sanatório, saindo sem permissão. Os marinheiros portavam roupa azul e branca e os fuzileiros navais um traje vermelho. Os pais proibiam as moças de flertarem com os H.T., por receio de contágio da doença, mas apesar da proibição, muitas se casaram com os rapazes do “H.T.”. Um diretor do Sanatório Naval declarara que o procedimento moral dos “H.T.” nunca recebera críticas da população. No entanto, Rui Barbosa já teria se queixado da “marujada desenvolta, sem freio possível de disciplina, nem repressão policial exeqüível” na patriarcal Nova Friburgo. Na Casa da Sofia, um estabelecimento de “moças-damas” na cidade, os “H.T.” eram considerados criadores de caso e eram vistos com certa aversão pelos friburguenses. Nelson Spinelli nos informa que os “H.T.” viviam passeando pela cidade, mesmo os não autorizados pelo médico, sem o menor controle por parte da direção do sanatório.
A história do Sanatório Naval em Nova Friburgo vai além dos cem anos que comemora este ano, em 30 de junho, como vimos nas matérias anteriores. Possivelmente bode expiatório para os problemas crônicos de saneamento do município, o Sanatório Naval sofreu diversas investidas. Porém, sua história só faz corroborar com o tipo de representação que se fazia à época de Nova Friburgo, a de cidade salubre. Foi temendo macular o clima daquele santo vale, onde do céu se lê as cinco montanhas formarem a palavra “SAÚDE”, já dizia o trovador J.G. de Araújo Jorge, que se criou uma animosidade por parte da população contra o Sanatório Naval. Mas deixemos as tensões de lado e fiquemos com a lembrança do Sanatório Naval conforme as memórias de Maria, Maria Luiza, Leyla e Nelie, que se recordam dos marinheiros e fuzileiros navais com seus lindos trajes e adornos militares flanando pela praça da cidade. Quando perguntei a elas se os H.T. eram bonitos, responderam em uníssono: “ERAM LINDOS!!!!!”.
Crédito da Foto: Centro de Documentação da Fundação D.João VI.

O Sanatório Naval em Nova Friburgo – O Caso do Campo de Internação - Parte VII



O Sanatório Naval foi palco de acontecimentos importantes na história do país e nas memórias de alguns habitantes. Há uma interessante passagem ocorrida ao final da Primeira Guerra Mundial(1914-18). O Sanatório Naval recebeu em 1917, quando o Brasil entra na guerra contra a Alemanha, 600(seiscentos) marinheiros alemães tripulantes dos 45 navios mercantes estacionados em portos brasileiros e que foram apresados.


Os tripulantes foram detidos na qualidade de “internados”. Criou-se uma infra-estrutura para abrigar estes prisioneiros construindo-se duas casas de alvenaria e quatro grandes barracões de madeira para alojamento dos mesmos. Nesta ocasião, ocorre entre outubro e novembro de 1918, um surto de gripe espanhola no mundo, atingindo o Brasil e matando boa parte da população. Foram trazidos para Nova Friburgo 32 doentes acometidos por esta gripe, transferidos do Hospital Central da Marinha. Ocorre então uma tragédia. Estes doentes da gripe espanhola acabaram infectando o acampamento dos prisioneiros alemães. Foram contaminados por esta doença 276 dos 600 prisioneiros, tendo falecido cinco deles. Agora, por que trazer prisioneiros de guerra alemães para Nova Friburgo se o Sanatório Naval era tão somente um hospital e não uma base militar propriamente dita? Provavelmente foi o clima Friburgo, semelhante ao europeu, que teria concorrido para abrigar os alemães, por lhes ser mais favorável em termos de adaptação. D.João VI não escolheu esta região para abrigar os suíços devido ao fator climático? Por outro lado, Friburgo já possuía uma considerável colônia de alemães, o que facilitaria na comunicação com os prisioneiros.


Paralelamente a todos estes acontecimentos, Nova Friburgo iniciava seu processo de industrialização, cujas empresas eram de empresários alemães. Terminada a guerra em 1918, os prisioneiros alemães foram retirados do Sanatório Naval. No entanto, há relatos de que vários destes alemães prisioneiros de guerra no Sanatório Naval foram cooptados pelos industriais alemães para trabalhar em suas fábricas, instalando-se definitivamente em Nova Friburgo. Os prisioneiros alemães foram autorizados a trabalhar nas comunidades onde estavam locados, desde que o empregador mantivesse a Comissão Militar informada sobre a situação do “internado”. Carlos Rodolpho Fischer nos informa que diversos prisioneiros alemães “internados” no Sanatório Naval, se radicaram em Friburgo, a exemplo de Richard Hugo Otto Ihns(1889-1960), que após a guerra se radicou em Friburgo e ingressou na empresa M. Sinjen & Cia., a convite do Conselheiro Julius Arp, tornando-se um líder militante da colônia alemã no município. Fischer afirma que esta foi a “terceira leva” de colonos alemães, marcando a história de Friburgo, apesar de não fornecer o quantitativo dos que ficaram. Não se sabe quantos destes prisioneiros alemães se estabeleceram em Friburgo. Porém, se consideramos que as imigrações anteriores de 1824(343 colonos) e de 1892 (703 imigrantes) de alemães a Nova Friburgo foram pouco significativas, pode-se de fato afirmar ser esta a “terceira leva”, como disse Fischer.

As duas fotos registram o acampamento destes prisioneiros alemães. No cemitério luterano, um lugar de memória, se encontram enterrados os corpos dos cinco alemães aprisionados que morreram simultaneamente de tifo. Na próxima semana finalizo esta série com uma matéria sobre as memórias de alguns friburguenses sobre o Sanatório Naval, já que por muitos anos este estabelecimento assemelhava-se no imaginário local ao “castelo” de Kafka, soberbo e misterioso no alto da colina da cidade.

Crédito das Fotos: Centro de Documentação Fundação D.João VI e Acervo Castro.

O Sanatório Naval em Nova Friburgo – O BERIBÉRI EM FRIBURGO - Parte VI

Depois de narrar a trajetória do Sanatório Naval em Nova Friburgo, vale à pena a transcrição de alguns trechos da brilhante defesa de Rui Barbosa, que impediu que o Sanatório Naval se implantasse no centro da cidade. Não fosse Rui Barbosa, o Sanatório Naval estaria atualmente no coração da cidade, instalado onde é o Colégio N.S.das Dores e completando 119 anos em Friburgo e não, o seu centenário. Na primeira parte, a carta de Rui Barbosa contra a aquisição do Instituto Hidroterápico, que ficou conhecida na imprensa como “O Beribéri em Friburgo”:
“Ao nobre Ministro da Marinha vimos endereçar hoje uma petição em nome do povo de Nova Friburgo e dessa parte seleta dos habitantes do Rio de Janeiro, que atualmente procura nas amenidades daquele bom clima refúgio precioso contra as inclemências do verão nesta capital (...) somos o eco, rigorosamente exato, das apreensões, sob que se acham, quase aterrados, os habitantes daquela região, digna, por mais de um título, de especiais atenções por parte do governo.(...)Tivemos a franqueza de reprovar essas medidas(...)e contrariaram seriamente os da população permanente e flutuante de Friburgo, ameaçando-a na sua salubridade(...)A presença da marujada desenvolta, sem freio possível de disciplina, nem repressão policial exeqüível, nas condições do lugar e nas relações inevitáveis desses hóspedes para com ele, têm sido um elemento de insegurança, desordem e alvoroto entre os hábitos morigerados e pacíficos daquele povoado, promovendo cenas inquietadoras, alterando a tranqüilidade patriarcal daqueles sítios, e trazendo as famílias em contínuos receios, justificados por incidentes, que se multiplicam, e engravescem com o decorrer do tempo.(...)É o caso estar se negociando por parte do governo a compra do estabelecimento Éboli cujas duchas são um dos atrativos capitais à corrente, que todos os anos se dirige para ali, em procura de ares e banhos medicinais. A inserção da enfermaria naval no centro do povoado seria para ele verdadeira calamidade. Alterar-se-iam, com essa inovação deplorável, todas as condições de paz, higiene e recato, que constituem o principal encanto daquela estação de saúde, e fazem dela esse doce abrigo remansoso e abençoado, para os que carecem de pedir à natureza, em regaços como aquele, restauração das forças do espírito e do corpo. Friburgo despojado de seu instituto público de hidroterapia e habitado pela maruja, não seria mais Friburgo. Toda a população adventícia, que o cobiça seis meses em cada ano, desertaria, parte da indígena ver-se-ia obrigada também a abalar pouco a pouco, e o resultado seria a decadência, a ruína, a extinção daquela colônia formosa e prestantíssima em breve tempo, se de pronto lhe não acudissem com o remédio reparador..."
A seguir, a argumentação de Rui Barbosa quando da aquisição do Hotel Leuenroth:
“Anda, com efeito, estes dias, outra vez, o Ministério da Marinha em diligências, para dotar Friburgo de um bem organizado centro de peste. Variou apenas a escolha do Instituto Eboli para o Hotel Leuenroth. (...)aquela singela casaria...não é só o albergue dos hóspedes, que a ocupam: é o refúgio comum de todos os veranistas nas horas menos frescas da estiagem por aquelas serras. Ora aí está o que se imagina transformar agora numa estação matalotes e num viveiro permanente de epidemia. Este projeto é a extinção de Friburgo......” .

O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte V - NOVA FRIBURGO: UM VASTO HOSPITAL DE TUBERCULOSOS

No artigo anterior relatei que a prefeitura, baseada em decreto-lei estadual, intimara o Sanatório Naval a deslocar o Hospital de Tuberculosos para um local mais afastado da cidade. Fez coro ao prefeito um empresário de uma das mais importantes e prósperas famílias da cidade: Augusto Spinelli. Spinelli declarara em artigo no jornal “A Paz”, que o H.T. “trazia estragos à população, à sua economia, vida social, à sua fama de cidade salubre, além de ser um foco de infecção pernicioso para os habitantes de Friburgo”.

Este manifesto causou tamanho furor que mereceu uma resposta aberta à imprensa do então diretor do Sanatório Naval. A resposta do diretor, em forma de entrevista, inicia com um relatório sobre um quantum que o sanatório injetava na economia local anualmente, adquirindo gêneros no comércio, fora o que consumia seu corpo médico, pessoal administrativo e seus familiares, que habitando no município, também fomentavam a economia da cidade. A seguir, enumera a prestação de serviços que o sanatório realizava, gratuitamente, aos civis friburguenses, tais como consultas médicas, radiografias, radioscopias e exames de urina, fezes e sangue. Lembrou que antes do Departamento de Tisiologia para tratamento de tuberculosos ter sido instalado em Friburgo, em 1937, a cidade já era habitada por centenas de tuberculosos, exercendo suas múltiplas atividades, inclusive no comércio de gêneros alimentícios, colocando em perigo a população. Discorre ainda sobre todo o procedimento higiênico adotado no sanatório, como captação de água própria, tratamento do esgoto, esterilização de todos os objetos e que os “baixados” só eram licenciados para ir à cidade quando apresentam negativo o exame do escarro. Terminou por criticar os tuberculosos que circulavam pela cidade sem qualquer repreensão e a falta de tratamento do esgoto do município, já que abrigava muitos destes doentes que para ali acorriam desde tempos imemoriais devido às características favoráveis de seu clima à cura da doença.
Diante deste episódio, percebe-se que Friburgo transformara-se, como bem definiu Augusto Spinelli, em um “vasto hospital”. Um diretor do Sanatório Naval assim declarou:
“(...)Esses quarenta marinheiros tuberculosos, representam pequena parcela frente à esmagadora a maioria de muitas centenas de tuberculosos da cidade, que livremente habitam os prédios particulares, os hotéis e as pensões improvisadas e que são outros focos ambulantes de disseminação dessa triste enfermidade(...)concluímos que a cidade de Nova Friburgo é que constitui por si mesma, perigoso foco de tuberculose, tifo e outras doenças contagiosas, contaminando ainda as localidades vizinhas, pelo transporte fluvial de milhões de micróbios vivos, procedentes do lançamento direto aos rios da cidade de todos os excreta de seus habitantes, sem o menor tratamento de prévia depuração....”

Ao que parece esta foi a última investida contra o Sanatório Naval. Porém, para contemporizar e prevenir futuros reclamos, em 11 de junho de 1958, foi finalizada a obra da “Escola Primária Sanatório Naval”, iniciando as atividades escolares no ano seguinte. Funcionava em três turnos, sendo o terceiro noturno para alfabetização de adultos. Fornecia ainda merenda escolar, uniforme aos alunos, atividades esportivas e cinema às crianças. Estava selada a pax romana com Nova Friburgo.

A história do Sanatório Naval em Nova Friburgo só faz corroborar com o tipo de representação que se fazia à época da cidade, a de cidade salubre, onde o “clima e a água desta abençoada terra, dão alento aos vivos e ressuscitam os mortos; pode-se afoitamente dizer....”.

O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte IV - SURGE O H.T. O HOSPITAL DE TUBERCULOSOS

Desde a sua inauguração em 30 de junho de 1910, o Sanatório Naval dedicava essencialmente sua prestação de serviço à cura do beribéri de seus oficiais e praças da armada. Não obstante estar no regulamento do Sanatório Naval de Nova Friburgo o tratamento de tuberculosos desde a sua implantação, até então a prioridade fora o beribéri. No entanto, a partir do ano de 1933, a prioridade voltara-se para outra doença: a tuberculose. Em 18 de fevereiro de 1936, foi inaugurado o Hospital de Tuberculosos(foto acima). Desde então, os oficiais e praças da Marinha passaram a levar a alcunha de “H.T.” entre os friburguenses, ou seja, oriundos do hospital de tuberculosos. Complementando seus serviços seriam criados o Departamento de Convalescentes e ainda a Colônia de Férias. Sempre festejada, Nova Friburgo, a cidade salubre, foi assim descrita pelo Jornal do Brasil:

Nova Friburgo é um recanto silencioso do estado do Rio, de um clima ameno, suspenso entre montanhas verdejantes por onde correm fios dá água cristalina e brisas suaves que espalham perfume de flores. No ponto mais alto edificou o conde de Nova Friburgo o seu palácio de verão. Grandes árvores, um imenso jardim rodeia os edifícios, há alguns anos adquirido pelo governo Nilo Peçanha para nele instalar o Sanatório Naval...” (Jornal do Brasil, 06/03/1939)

Friburgo testemunhava o charmoso bonde de burros do Sanatório Naval que corria sobre os trilhos de ferro, destinado a conduzir oficiais e funcionários que residiam fora do sanatório e igualmente os convalescentes que chegavam. O livro de visitas do Sanatório traz nomes da quase totalidade dos titulares da pasta da Marinha, governadores do Estado do Rio, ministros de Estado, Getúlio Vargas, entre muitas outras autoridades. Depois de mais de três décadas na cidade, tudo era harmonia e paz entre os friburguenses e o Sanatório Naval até que um decreto-lei estadual, de n°1943, de 09 de junho de 1947, provoca nova investida contra aquele estabelecimento. Os prefeitos do estado deveriam proceder ao zoneamento da cidade, e dentro de cinco anos, a contar da data do decreto, todas as organizações hospitalares para tuberculosos deveriam ser removidas dos perímetros urbanos e suburbanos. Em 1947, o então prefeito de curto mandato, José Eugênio Muller, envia correspondência ao Ministro da Marinha, o almirante Silvio de Noronha, pedindo o deslocamento do H.T. para outro local, mais afastado da cidade.

Entre 1910 e 1945 inúmeras indústrias de grande porte já haviam se instalado em Friburgo, como a Rendas Arp, Ypu, Filó e Ferragens Haga, modificando a geografia cidade. O município se urbaniza e um bairro operário se instalara próximo ao H.T. e o Sanatório Naval já não era um estabelecimento tão isolado como outrora. De acordo com o prefeito, iniciar-se-ia uma verdadeira “cruzada” na cidade contra peste branca, assim chamada a tuberculose, removendo pensões que recebiam tuberculosos e promovendo o isolamento destes doentes do centro da cidade. Em correspondência oficial o prefeito é acido ao afirmar ao Ministro de Marinha que “...ninguém ignora que o H.T. é o maior responsável pelo alarmante surto de peste branca neste município”. A investida, destaco, era tão somente contra o H.T., em que se pedia a sua remoção, e não contra os demais departamentos do Sanatório Naval. Mas quem colocou mais lenha na fogueira fazendo coro ao prefeito, foi um importante empresário, descendente de italianos que imigraram para Nova Friburgo no final do século XIX, e um dos homens mais prósperos da cidade: Augusto Luiz Spinelli. Continua....
Crédito da Foto: Centro de Documentação Fundação D. João VI

O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte III - DE BARRACÃO DE CAÇA A SANATÓRIO NAVAL

Sanatório Naval em 1900. Crédito: Centro de Documentação D.João VI.

Como disse na matéria anterior, a Marinha desejava estabelecer em Friburgo um sanatório para cura de seus oficiais e praças acometidos por beribéri. Depois de ter negociado a aquisição do Instituto Hidroterápico e do Hotel Leuenroth, foi impedido nestes dois momentos pela intervenção de Rui Barbosa, veranista habitué em Friburgo, que era contra a instalação um hospital de beribéricos no coração da cidade, famosa no país por sua salubridade. Mas a Marinha finalmente acertou e escolheu um local ermo, no alto de uma colina, a exemplo do lazareto, para abrigar seus doentes: o barracão de caça do Conde de Nova Friburgo, que consistia em um pitoresco chalé compreendendo ainda alguns anexos. Numa quinta-feira, em 30 de junho de 1910, finalmente o Sanatório Naval foi inaugurado em Nova Friburgo. Instalado numa colina e cercado de extensa mata, desta vez não houve protesto dos habitantes locais. Para inauguração compareceu o próprio presidente da República, Nilo Peçanha e uma grande comitiva, que incluía ministros de Estado e oficiais de alto escalão na hierarquia militar.

A gare da Leopoldina ficou revestida de folhagens, flores multicores e bandeiras. Um piquete de cavalaria de atiradores escoltou a carruagem do presidente da República em seu percurso pela cidade. Os alunos do Colégio Anchieta deram grande realce aos festejos e todo o corpo discente, formado em batalhão, devidamente uniformizado, se estendeu em linha e acompanhou também o cortejo do presidente. O banquete para oitenta talheres teve início às 18:00 horas e na hora dos brindes, o diretor do sanatório, o Capitão-de-Fragata e médico, o Dr. Joaquim Ignácio Bulcão, disse em seu discurso: “Exmo. Sr. presidente: Coube a V. Exa. a glória de dotar a Marinha de Guerra de um sanatório, instalado em belo edifício, em local salubre, clima ameno, necessidade essa há muito reclamada e agora de pronto e sem vacilação realizado por V.Exa....”. De acordo com os discursos, percebe-se que a interferência do presidente Nilo Peçanha foi essencial para se concretizar o antigo projeto da Marinha. Sua presença na cidade era somente para referendar o sanatório em Nova Friburgo que tantos ânimos despertaram nos anos antecedentes, tendo como arauto contra a vinda deste estabelecimento à cidade o grande jurista e estadista Rui Barbosa. Mas desta vez a pena de ouro de Rui Barbosa se calara. Os ventos políticos eram outros e além do mais o sanatório, como disse, encontrava-se em local distante do centro da cidade.

O Sanatório Naval compreendia uma área de 196 alqueires, com extensa mata que cercava o prédio principal e anexos. Cumpre destacar que quando de sua inauguração, o Sanatório Naval não estava devidamente aparelhado, faltando a instalação hidroelétrica, a enfermaria dos tuberculosos, entre outros aspectos de infra-estrutura. O serviço considerado imprescindível no Sanatório Naval era a hidroterapia. Em 1918, já contava com esta aparelhagem, faltando apenas as obras de alvenaria para a sua instalação. Em relatório anual neste mesmo ano apresentado pelo diretor do Sanatório Naval, colocou-se em destaque a “...ação salubérrima do clima das montanhas de Nova Friburgo...”.

No entanto, até 1921, o Sanatório Naval ainda não havia concluído suas obras de infra-estrutura, o serviço de hidroterapia funcionava precariamente, faltavam os aparelhos destinados à eletroterapia e de fisioterapia, cujo pavilhão fora recentemente concluído. Cumpre destacar que o hospital servia somente às praças e oficiais da Marinha e não à população em geral. Em 1921, o então diretor do Sanatório Naval, consignara em relatório: “A magnificência deste clima adorável, que eu jamais cansarei de exaltar, cujos surpreendentes resultados para a saúde dos nossos marinheiros têm observado todos os médicos da Marinha que aqui servem, me levam a, ainda uma vez, manifestar minha opinião, já bastante conhecida, isto é, que a Marinha tudo teria a lucrar em construir aqui definitivamente a enfermaria para seus tuberculosos.” Surge em Friburgo o Hospital de Tuberculosos, conhecido na cidade como “o H.T.”, modo pela qual a população friburguense iria se referir em relação a este estabelecimento. Continua....

EDUARDO DAS NEVES: O PALHAÇO NEGRO EM FRIBURGO



Nova Friburgo, no final do século XIX, vivia a sua belle époque. As epidemias freqüentes de febre amarela que a todo verão assolavam o Rio de Janeiro, fazia com que os cariocas migrassem para Friburgo e aí permanecessem até que cessasse a epidemia. Mas o que tem a ver a belle époque com epidemias de febre amarela? Ora, naturalmente migravam para Nova Friburgo os cidadãos cariocas mais abastados, que chegavam a permanecer seis meses na cidade, incrementando a sua vida social. Este público atraía, igualmente, inúmeras companhias teatrais e os melhores circos da época. A importância de Nova Friburgo no circuito dos grandes espetáculos pode ser abalizada pela presença do afamado Circo Brasileiro, que além de artistas nacionais e estrangeiros contava, à época, com um dos maiores artistas: Eduardo das Neves, o palhaço negro, célebre compositor e cantor de modinhas brasileiras. Eduardo Sebastião das Neves, palhaço, poeta, cantor, compositor e violonista, nasceu em 1874 no Rio de Janeiro e morreu na mesma cidade em 11 de novembro de 1919. Trabalhou na Estrada de Ferro Central do Brasil e como soldado do Corpo de Bombeiros, de onde foi expulso por freqüentar fardado rodas boêmias. Em 1895, tornou-se palhaço e cantor, apresentando-se em circos. Era conhecido como Palhaço Negro, Diamante Negro, Dudu das Neves e Crioulo Dudu.

Sua importância foi tamanha para Nova Friburgo que em certa ocasião gerou polêmica. A Câmara Municipal não autorizou que o Circo Brasileiro fosse armado na Praça 15 de Novembro(atual Getúlio Vargas), local onde normalmente se armavam os circos. Foi autorizado somente na Praça do Suspiro. A imprensa denunciou: A Câmara foi pressionada pelo proprietário do teatro, temendo que o circo tirasse o público do Teatro D. Eugênia. Os jornais da época davam grande destaque a cada vez que Eduardo das Neves se apresentava em Friburgo, e curiosamente ressaltavam o fato de ser ele um “palhaço negro". Eduardo das Neves, o palhaço negro, era célebre compositor e cantor de modinhas brasileiras sendo exclusivo da Casa Edison, contratado a partir de 1906. Era considerado o mais popular e influente de todos os primeiros cantores profissionais, compondo modinhas, lundus, recitativos, monólogos, cançonetas, tremeliques, choros e chulas. No prefácio do disco intitulado Trovador da Malandragem, que escreveu em 1902, queixara-se de que muitos duvidavam ser ele o autor das modinhas que cantava, devido à sua condição de negro e origem humilde. Segundo José Ramos Tinhorão uma das razões do sucesso de Eduardo das Neves era a de ter lançado a novidade de compor modinhas e lundus sobre acontecimentos da atualidade, a exemplo de O aumento das passagens, O 5 de novembro, A conquista do ar, essa última canção numa alusão a Santos Dumont. São ainda autorias suas Pegas na chaleira e Pelo buraco.

Ainda segundo Tinhorão, a importância de Eduardo das Neves estava no fato de que, dirigindo-se às camadas heterogêneas, como o povo humilde freqüentador de circo, e o público médio dos teatros, ele ainda estendia sua ação em vários estados brasileiros, viajando com circos e companhias teatrais e espalhando seus discos por todo país. O filho de Eduardo das Neves, o “negro Cândido das Neves”, o Índio, continuou a obra do pai. Juntamente com outros compositores chegariam à fase de expansão do rádio, a partir da década de 30, dando continuidade ao gênero das modinhas que contavam com cantores de veleidades operísticas como Vicente Celestino, Francisco Alves, Orlando Silva e Sílvio Caldas.

Eduardo das Neves, que se apresentava freqüentemente em Friburgo, é provavelmente o autor de um teatro-revista sobre o seu cotidiano intitulado Costumes de Friburgo, ganhando a cidade inclusive uma cançoneta denominada Friburgo na Ponta. O teatro-revista consiste em uma peça com quadros de música, dança, anedotas, alegorias, esquetes, na qual se criticam os fatos mais em evidência da época. Friburgo na Ponta teria hoje como expressão correspondente “Friburgo no auge”. A presença constante de Eduardo das Neves no município e igualmente o título de sua canção, Friburgo na Ponta, são uma prova evidente de que a cidade vivia a sua belle époque ao final do século XIX.

O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte II - Rui Barbosa evita a extinção de Friburgo

Como disse no artigo anterior, a Marinha desejava estabelecer em Friburgo uma enfermaria para cura de seus oficiais e praças acometidos por beribéri. Para tanto, iniciou negociações para aquisição do Instituto Hidroterápico que havia em Friburgo. No entanto, Rui Barbosa, veranista habituè em Friburgo, fez uma brilhante defesa contra a instalação de um hospital do coração da cidade salubre. No jornal Diário de Notícias, de setembro de 1889, escrevia Rui Barbosa dirigindo-se diretamente ao Ministro Ouro Preto, homem forte do governo imperial, protestando contra a aquisição do Instituto Hidroterápico pela Marinha, pois contrariava a população permanente e flutuante de Friburgo, “ameaçando-a na sua salubridade”. Em 1891, a viúva de Carlos Éboli, médico fundador do Instituto Hidroterápico, terminou por vender as ações da sociedade para os médicos Ernesto Brazílio, Galdino do Valle, entre outros acionistas. Em dezembro de 1891, foi reinaugurado o Instituto Hidroterápico em grande estilo na cidade. Porém, em 1895, dez anos depois do falecimento de Éboli, o instituto entrou em processo de falência e todo o complexo incluindo o hotel e a Casa de Duchas foi arrematado pelo Banco Comercial.

Como dito acima, foi devido a brilhante argumentação retórica de Rui Barbosa que foi extinta em Friburgo a enfermaria de beribéricos em 1890, tendo os doentes sido transferidos de volta para a de Copacabana, no Rio de Janeiro. No entanto, quase dez anos depois, o pesadelo volta a assombrar Friburgo. A Marinha inicia negociações com Carlos Engert, proprietário do Hotel Leuenroth, para ali instalar seu hospital. Entra em cena novamente a “pena” de Rui Barbosa em outra eloquentíssima e erudita defesa da salubridade do clima de Friburgo, que poderia ser afetado com a vinda de um “centro de peste” no coração da galante vila. O beribéri era considerado à época uma doença infecto-contagiosa e, portanto, transmissível. Hoje sabemos que não é contagiosa. Este projeto é a “extinção de Friburgo”, argumentava Rui Barbosa, e mais uma vez o brilhante advogado impede a vinda do Sanatório Naval para Friburgo.

Já havia na cidade um lazareto, um prédio construído para abrigar doentes na hipótese de uma epidemia. Este prédio existe até hoje em Friburgo, em Duas Pedras, esquecido em meio a um conjunto habitacional de classe popular denominado de “Lazareto”. O lazareto encontra-se localizado no alto de um morro, bem distante do núcleo urbano. A Marinha provavelmente percebendo que o que incomodava a população era a localização da enfermaria de beribéricos e não, o estabelecimento em si, optou por um local distante do centro da cidade, a exemplo do lazareto. Fiquemos atentos que o Sanatório Naval hoje nos parece perto, mas naquela época o sentido de distância era outro. Para tanto, a Marinha vislumbrou o “barracão” do Conde de Nova Friburgo que consistia em um pitoresco chalé, que servia de pavilhão de caça da família do conde. Desta feita, a Marinha ampliara seus projetos. De acordo com o regulamento do Serviço Hospitalar, não se instalaria apenas uma enfermaria, mas sim um sanatório que serviria para o tratamento não somente do beribéri, mas igualmente de tuberculosos e de portadores de moléstias infecciosas.

O Sanatório Naval em Nova Friburgo - Parte I - Um centro de peste na cidade salubre



Cidade privilegiada do estado do Rio em decorrência de suas excepcionais condições climáticas, uma das mais aprazíveis e lindas estâncias brasileiras, era assim considerada, desde o início do século XIX, a vila de Nova Friburgo. No centenário da independência do Brasil, em setembro de 1922, assim se descreveu Friburgo no álbum do estado do Rio de Janeiro: “a pureza do ar, a temperatura amena, a superioridade da água, fazem de todo o município um inigualável sanatório”. Virgílio Corrêa Filho, assim escreveu sobre Friburgo, no início do século XX: “Por isso espalhou-se, célere, a fama de cidade salubre, para a qual convergem os doentes esperançosos de uma cura ou alívio aos seus achaques, naquele ambiente de ar leve e puro, em que a vida desabrocha em manifestações sugestivas de pujança”.


Foi em razão destes cantos de louvor ao clima de Nova Friburgo que no último quartel do século XIX, a Marinha de Guerra Imperial elegeu Nova Friburgo para estabelecer uma enfermaria de beribéricos. A enfermaria proveria à cura e convalescença de seus marujos acometidos de beribéri, doença que atacava aos indivíduos que permaneciam muito tempo no mar, provocando-lhes a deficiência de vitamina B1. Até então a marujada ficava internada na “Enfermaria de Beribéricos de Copacabana”, no Rio de Janeiro. Em abril de 1889, entra em cena o Almirante Carlos Balthazar da Silveira, Ministro da Marinha, que expressou seu descontentamento em relação à enfermaria de Copacabana. Declarava que a mortalidade era avultada naquela enfermaria devido à sua instalação ser quente e úmida. De acordo com ele: “...Torna-se urgente sua remoção para uma localidade de clima mais ameno, que possua água potável boa e abundante...”


Em decorrência deste manifesto, em 25 de julho de 1889, foi inaugurada em Nova Friburgo uma enfermaria provisória para tratamento das oficiais e praças da Armada acometidos de beribéri. A enfermaria funcionava na rua Gal. Osório, próximo ao Colégio Anchieta. Mais de um mês depois de instalada, um diretor do Hospital de Marinha da Corte enviava o seguinte ofício ao Ministro da Marinha: “Tenho a honra de enviar a Exa. os mapas dos doentes de beribéri tratados em Nova Friburgo (...)as duchas aplicadas com método e cuidado constituem um meio terapêutico de grande alcance(...)aqueles que foram paralíticos e com atrofias musculares ainda se acham muito enfraquecidos e que só agora e depois de trinta e tantas duchas é que deixaram as muletas....”. Estas duchas foram aplicadas no Instituto Hidroterápico que já havia em Friburgo.


Foi provavelmente neste momento que a Marinha abre os olhos para aquisição de tal estabelecimento. O Instituto Hidroterápico ou Casa de Duchas foi construído em 1870, pelos médicos Carlos Éboli e o Dr. Fortunato. No entanto, com o falecimento de Éboli, em 1885, o estabelecimento fica acéfalo, pois perde seu timoneiro no tratamento à base da hidroterapia. Desde então, o instituto parece enfrentar dificuldades financeiras. O Ministério da Marinha entabulou então negociações para aquisição do Instituto Hidroterápico, do qual já se servia. Os friburguenses e as instituições, a exemplo da Câmara, se pronunciaram contra tal aquisição, pois iria comprometer a salubridade de Friburgo já que o instituto se localizava no centro da cidade. Anexo ao Instituto Hidroterápico havia o Hotel Central, que fazia parte do instituto, que é hoje o Colégio N.S. das Dores.


O interesse no Instituto Hidroterápico adequava-se perfeitamente os propósitos da Marinha, pois o tratamento à base da hidroterapia era preconizado como medida terapêutica para a cura do beribéri. Possuindo a Casa de Duchas todas as instalações e aparelhos para tal fim, os problemas financeiros do instituto encaixavam-se como uma luva junto aos projetos da Marinha para adquirir tal estabelecimento. Porém, a Marinha não contava com a presença de um ilustre veranista e assíduo freqüentador de Friburgo: Rui Barbosa. Foi este advogado e político o responsável pela obstrução deste projeto, adiando por alguns anos a vinda do Sanatório para Friburgo.

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