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Imigração italiana:prosperidade na cidade, miséria no campo


A prosperidade dos Spinelli. Os primeiros a possuírem automóvel em Nova Friburgo.



Luiz Spinelli entre seus filhos


Abaixo: As empresas dos Spinelli. Marcenaria e carpintaria






A imigração foi um dos traços mais importantes nas mudanças socioeconômicas ocorridas no Brasil a partir das últimas décadas do século XIX. Cerca de 3,8 milhões de estrangeiros entraram no Brasil entre 1887 e 1930, com os italianos formando o grupo mais numeroso (35,5% do total), vindo a seguir os portugueses (29%) e os espanhóis (14,6%). Em decorrência da forte demanda de força de trabalho para a lavoura do café, o período de 1887 a 1914 concentrou o maior número de imigrantes, com aproximadamente 2,74 milhões de pessoas. Os italianos, mais uma vez, constituíram o principal agrupamento nacional a fornecer mão de obra para a economia cafeeira. A mobilidade social ascendente dos imigrantes nas cidades é inquestionável, como atesta seu êxito em atividades comerciais e industriais, informa-nos o historiador Boris Fausto. E foi exatamente isso que ocorreu, comparando-se os italianos que imigraram para Nova Friburgo em relação aos que se deslocaram para o Centro-Norte Fluminense.



Os que imigraram para essa região para trabalhar nas plantações de café, raramente prosperaram. Imigraram para o Centro-Norte Fluminense os Zagni, Bianchini, Pietrani, Bolorini, Temperini, Boquimpani, Stanísio, Topini, Chimini, Polloni, Topini, Broglia, Montechiari, Angelis, Giampaoli, Latini, Storani, Tambesi, Baldoni, Forconi, Tacconi, Cimini, Pianesi, Bartola, Moriconi, Lelli, Temperini, Fratani, Badini, Sagretti, Talarico, Castricini, Pietrani, Bonan, Bollorini, Campagnucci, Bochimpani, Margaratini e Segalotti. A maioria desses italianos vieram na condição de colonos e ficaram reduzidos à mesma condição social e econômica de um caboclo. No entanto, se observarmos os italianos que, ao final do século XIX, imigraram para Nova Friburgo, percebemos que, ao contrário, boa parte deles prosperou economicamente, atuando em diversos ramos industriais, comerciais e de prestação de serviços. Presume-se que os núcleos urbanos ofereciam melhores condições de ascensão social do que o campo. No caso dos Spinelli, Luiz e Marieta Zuanazzi Spinelli chegaram ao Rio de Janeiro em 13 de janeiro de 1889, e depois de trabalharem algum tempo para o Barão de Duas Barras, em Cantagalo, migraram para Nova Friburgo. Luiz Spinelli trabalhou inicialmente em serviços de aluguel de carroças, limpeza pública e na construção civil. Seu primeiro estabelecimento comercial foi uma padaria e a partir de então, Luiz Spinelli, já auxiliado pelos seus onze filhos, fez com que os negócios da família Spinelli prosperassem até tornar-se uma grande holding em Nova Friburgo.



Já outros italianos que imigraram para Nova Friburgo aparentavam ser mais remediados, a exemplo de Giovanni Giffoni. Alfaiate por oficio, Giffoni era proprietário de um grande estabelecimento comercial denominado “Vesuvio”, um armazém de secos e molhados, do Café Colombo, de um bilhar na Praça 15 de Novembro (Getúlio Vargas), além de ser importador e representante de vinhos italianos. Também possuía outras propriedades, como uma fazenda de café e residia em uma das residências mais elegantes de Nova Friburgo. Em 1892, conseguiu a concessão do serviço de iluminação pública a gás, remoção do lixo e limpeza da cidade. Em outubro de 1893, chegou a requerer a concessão da iluminação pública e particular por meio de luz elétrica. Já Fernando Bizzotto, natural da cidade de Pádua, era “cidadão que pelo seu esforço próprio, sua dedicação ao trabalho e honestidade, atingiu alto grau de prosperidade e consideração que desfruta no seio da sociedade friburguense”, assim o descreveu o periódico O Nova Friburgo. Vindo para o Brasil em 1884, Bizzotto estabeleceu-se na Rua Gal. Osório com oficina de carpintaria e serralheria. Na seção de serralheria fabricava fogões “econômicos”, marquises, portas de aço, caixa d’água, portões e gradis. Já na seção de carpintaria fabricava esquadrias, “carros”, carroças e móveis. O italiano Raspatini chegou a patentear um tipo de cimento para a construção civil.





Bonfiglio Zagni. Exemplo de colono italiano que imigrou para o centro-norte fluminense e ficou reduzido à condição econômica de um caboclo.























































Além de obterem concessões de obras e serviços públicos, como os de limpeza, iluminação a gás e construção civil, alguns imigrantes italianos ocupavam posição política como vereadores na Câmara Municipal. Por outro lado, incrementavam as atividades culturais na cidade, sendo as Sociedades Musicais Recreio dos Artistas e Campesina, praticamente mantidas por italianos. Alguns, no entanto, dedicaram-se à agricultura em Nova Friburgo. Uma boa parte deles foi trabalhar como lavrador em Sebastiana, e há igualmente o registro de italianos no povoado de São Pedro, distrito de Nova Friburgo. Os que imigraram para Sebastiana (estrada Friburgo-Teresópolis) parecem ter se dedicado a fruticultura. Logo, percebe-se que os italianos que imigraram para Nova Friburgo e trabalharam como prestadores de serviço, comerciantes e até mesmo como agricultores tornaram-se afortunados. Já os que foram trabalhar como colonos no Centro-Norte Fluminense não prosperaram. Concluiu-se que os núcleos urbanos, ainda que incipientes à época, ofereciam muito mais oportunidades do que o campo, corroborando com o escreveu Boris Fausto de que a ascensão social dos imigrantes nas cidades é algo inquestionável.


















A HOSPITALEIRA VILA DE AMPARO


Amparo é uma aprazível vila modorrenta que até hoje preserva seu casario do tipo colonial, alheia à passagem do tempo, cuja tradição é a sua simplicidade e a hospitalidade de seus moradores. Pode-se afirmar que o tempo parou em Amparo. Atualmente, o cinturão verde das regiões do Campo do Coelho, Conquista e Salinas abastecem com hortaliças e legumes o Rio de Janeiro. Mas no passado, Amparo foi o distrito-celeiro que abastecia esses grandes centros urbanos. No século XIX, quando fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão, foi um dos maiores produtores de café de Nova Friburgo. As terras de Amparo foram escolhidas pela aristocracia rural friburguense oitocentista, onde os Galiano das Neves possuíam a Fazenda Cachoeira, ainda hoje na propriedade da família.




Nos tempos de antanho, utilizava-se a estrada do Alto das Braunes para se deslocar de Amparo ao centro de Nova Friburgo. Na primeira metade do século XX, Amparo produzia café, milho, feijão e cana de açúcar. Gradativamente, foram sendo introduzidas a horticultura, a fruticultura e floricultura. Amparo abastecia o Rio de Janeiro e Niterói com produtos de sua lavoura, a exemplo da batata inglesa(“batatinha”), tomate, cenoura, arroz, ervilha, repolho, nabo, aipo, batata doce, feijão e mandioca. Na floricultura existiam extensas plantações de cravo, rosa, margarida, palma, lírio, saudade, entre outras. No tocante a fruticultura, Amparo produzia caqui, lima, tangerina, laranja, banana, pêra, uva, maçã, pêssego e ameixa. Analisando alguns discursos no livro de Heber Alves da Costa, “Amparo Redivivo”, percebe-se que Amparo foi um importante distrito agrícola de Nova Friburgo até aproximadamente a década de 50, do século XX, com predomínio da lavoura branca, hortaliças e legumes. Mas na década de 60 desse século, muitos se reportaram a decadência da lavoura na região, o marasmo, a estagnação, um distrito atolado na inércia qual caramujo segregado numa concha. Um dos maiores problemas da lavoura era a via que ligava os produtores rurais de Amparo ao mercado, com estradas sem pavimentação, dificultando e encarecendo o transporte da produção.


Mas o que possivelmente corroborou com o declínio da lavoura no distrito, foi a migração de muitas famílias para o centro de Nova Friburgo, devido ao emprego atrativo nas grandes indústrias recém estabelecidas na cidade. Nova Friburgo entra na Era industrial. Com a instalação das primeiras indústrias em Nova Friburgo, a partir de 1911, acredita-se que houve uma evasão significativa do campo rumo às fábricas. Segundo o memorialista Heber Alves da Costa, “até o início da Era industrial em Nova Friburgo, a lavoura era explorada em amplas proporções, no distrito de Amparo.”

Outro fator a se considerar foi que os filhos dos prósperos agricultores, distanciando-se por “plagas longínquas”, abraçaram profissões liberais como médicos, veterinários, advogados, professores, dentistas, engenheiros, etc., abandonando a tradição do amanho da terra. Na década de 60 do século XX, Amparo ficou silente e parado, sem evoluir, onde não se via mais as serras onduladas, coberta pelos verdes mantos dos cafezais, dos milharais e das capoeiras. O articulista Nelson Kemp relembra a farta produção agrícola de Amparo, os mais velhos recordando o tempo da fazenda do Coronel Chonchon(Galiano Emílio das Neves Junior), o café enchendo o paiol, os carros de boi repletos de cereais. Amparo, terra fértil e de clima ameno e saudável, atestando a sua salubridade no verde vivo da vegetação, no ouro dos frutos, nas faces rosadas das crianças e na longevidade dos anciãos. A longevidade de seus habitantes é atestada por Eugênio Gripp, o “patricarca de Amparo”.



Nascido em 15 de maio de 1859, filho de uma família de nove filhos, seu pai, Jorge Gripp, diz a tradição oral, foi o introdutor do café java em Cantagalo. Eugênio Gripp fundou em Amparo a Associação Promotora de Instrução à Infância Anália Franco e o Centro Espírita São João Batista, em 02 agosto de 1888. Falecido aos 95 anos de idade, nos últimos anos de vida, levantava cedo para cuidar de seu pomar. Caminhava o ancião pela vila com o costumeiro chapéu de Chile e longa capa cinzenta, cabelos brancos, faces rosadas e brilhantes olhos azuis da herança germânica. Amparo possuíra a Sociedade Musical Recreio Amparense, de fardamento azul com botões dourados, fundada em 13 de janeiro de 1913 e extinta em 1940, com algumas tentativas posteriores de reabilitação; o Amparo Futebol Clube, fundado em 1927; o Grupo Dramático Amparense, o clube de Malha, o animado carnaval e micareme e os bailes no Cine-Teatro Almeida, cujo prédio ainda se mantém, testemunha de um passado glorioso. Ainda que localidade onde boa parte da população era espírita e protestante, a capelinha de Nossa Senhora do Amparo foi inaugurada, em 1950, contando com o auxílio dos não católicos. Junto ao coreto da ajardinada pracinha da vila, é o busto de um medium, Manoel Antonio Monteiro, que foi erigido numa homenagem dos amparenses. Amparo, terra dos Gripp, Alves da Costa, Frossard, Folly, Sanglard, Schuenck, Toledo, Lugon, Monteiro, Lamblet, Mury, Hermsdorff, Heckert, Pereira, Schuabb, Bussinger, Emerick, Heckert, Schumacker, Heller, Thurler e muitas outras famílias. Se há um local que nos remete a um passado longínquo é a vila de Amparo. Toda a sua vila deveria ser tombada pelo patrimônio histórico. Que bom que voltou a pertencer a Nova Friburgo!


HARTWIG E ANNELISE: OS ANJOS DE SELMA GAISER







Hartwig e Annelise: Os anjos de Selma Gaiser


No passado, em decorrência do alto índice de mortalidade entre as crianças, as mães não estabeleciam relações de afetividade com seus filhos nos primeiros anos de vida, mas somente, quando encontravam-se em idade mais avançada e mais resistentes às doenças. A mortalidade infantil era muito natural já que a medicina não possuía os recursos de hoje. De acordo com Gilberto Freyre, na sociedade patriarcal brasileira, as crianças mortas tornavam-se anjos para suas mães. As mães regozijavam-se com a morte do anjo, como a que Luccock, viajante inglês no século XIX, observou no Rio de Janeiro: mães chorando de alegria porque o Senhor lhe tinha levado o quinto filho pequeno. Eram já cinco anjos a sua espera no céu! Du Petit-Thouars viu em Santa Catarina, em 1825, em volta do altar com um meninozinho morto, mulheres em trajes de festa, ajoelhadas sobre esteiras, cantando. Em Nova Friburgo, no início do século XX, havia no cemitério do da cidade a quadra dos anjos, espaço reservado às crianças. Mas por que falar em morte de crianças em um dia tão festivo, como é o do “dia das crianças”, agora em 12 de outubro?


No primeiro decênio do século XX, várias indústrias instalaram-se em Nova Friburgo. Hans Gaiser(28.02.1897-29.09.1952), engenheiro, alemão, imigra para o Brasil em razão da crise econômica na Alemanha, intensificada depois da Primeira Guerra Mundial(1914-18). Chegando ao Rio de Janeiro, devido à sua experiência na construção de hidrelétricas na Alemanha, foi contratado por uma empresa de pavimentação de estradas. Uma das obras em andamento era a estrada entre o Rio de Janeiro e a região serrana. Essa estrada o conduziu a Nova Friburgo. Gaiser possivelmente se familiarizara com Nova Friburgo, que recebera significativo afluxo de colonos e imigrantes alemães desde o século XIX. Encontrando muitos conterrâneos, optou por estabelecer-se em Nova Friburgo, abrindo uma empresa de construção civil. Casado com Selma Gaiser(05.07.1890-15.05.1967), alemã judia, Hans Gaiser foi um bem sucedido engenheiro em Nova Friburgo, realizando muitas obras nas indústrias recém-instaladas, construindo pontes e residências. Hans e Selma tinham domicílio em uma residência que existe até hoje, em estilo art deco, ao final da Rua Augusto Spinelli, ao lado do edifício que teve sua lateral destruída no sinistro de janeiro de 2011. Foi nessa residência que nasceu o primogênito dos Gaiser, Hartwig, em 31 de março de 1926. Posteriormente, quatro anos depois, nascia a flor da família, Annelise, em 25 de junho de 1930.



Selma Gaiser e Hartwig






Hans Gaiser e seu primogênito


Como o empreendedor Hans Gaiser iniciara a construção da Fábrica de Ferragens Haga, possivelmente optou por um domicílio mais próximo do trabalho. Passou a residir no local que ficou conhecido como Sítio São João, um dos locais mais afetados pela tragédia de janeiro de 2011. Em sua nova residência, o casal Gaiser tinha tudo para ser feliz. Gaiser além de ter sido bem sucedido no ramo da construção civil, prosperava em sua nova indústria, contando com o auxílio de Julius Arp, proprietário da Rendas Arp. Hans Gaiser entrava para o seleto clube da trindade teutônica, de grandes industriais alemães em Nova Friburgo. Sua residência, em um aprazível vale onde a natureza traja sempre galas, era um paraíso onde poderia criar seus dois filhos. No entanto, a felicidade do casal foi interrompida por duas sucessivas mortes. Annelise, a florzinha da família, falece em 18 de fevereiro de 1931, antes de completar um ano de nascimento. Annelise se transformou no anjo para proteger a família. A morte de crianças prematuras ainda era algo aceitável, mesmo advindo das classes sociais economicamente abastadas. Porém, o anjo Annelise não conseguiu proteger a família e mais um infortúnio abateu-se sobre os Gaiser. Misteriosamente, o primogênito da família, Hartwig, falece em 22 de março de 1934 de uma febre intermitente, três anos depois da irmã, nove dias antes de completar oito anos de idade. Foi grande a comoção na família e em toda comunidade alemã luterana de Nova Friburgo. O casal não teve mais filhos.





Hartwig, o 5° da esquerda para a direita, morreria antes de completar oito anos.


Falecida em 1967, Selma Gaiser deixa em testamento a sua residência e todas as terras do seu entorno para a Congregação das Irmãs Franciscanas de Dillingen. Essa Congregação, originária da Baviera, foi fundada em 1241, na Alemanha, e estabelecida no Brasil em 1937, realizando obras assistenciais com crianças órfãs. Hans Gaiser tinha uma sobrinha que fazia parte dessa congregação e já haviam doado uma residência de férias, na Vilage, para as irmãs, que freqüentavam amiúde a residência dos Gaiser. Selma transformou a dor da perda de seus filhos em felicidade para centenas de crianças órfãs e de lares desestruturados. O local passou a denominar-se de Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser. Selma estipulou em seu testamento que as irmãs mantivessem o orfanato para meninas órfãs e carentes por 25 anos, com no máximo vinte meninas, em regime de internato. Mas as meninas internas sempre excederam a esse número. Selma autorizou ainda a venda de terrenos no entorno da propriedade quando houvesse necessidade financeira. Com o passar dos anos, a Congregação alienou vários deles, transformando-se em um belo bairro residencial. Igualmente uma extensa propriedade no Campo do Coelho foi doada por Selma, onde funciona até hoje a Humedica, entidade filantrópica protestante alemã, mantida por alemães, que desenvolve oficinas de artes, música, atividades recreativas e educacionais, com crianças carentes da região.


Entrevistando Márcia Cristina de Souza, com 45 anos de idade, uma das primeiras meninas a habitar o Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser, conhecemos um pouco do cotidiano do internato de meninas. Márcia e sua irmã vieram muito novas para o Lar de Crianças, pois seu pai era alcoólatra e sua mãe não tinha condições de criar as filhas. No internato, uma vida pautada na disciplina: horário para acordar, para as refeições, para o lazer na piscina e para dormir. Os estudos regulares eram feitos nas escolas públicas. Sempre falava-se dos benfeitores Hans e Selma entre as crianças que rezavam para agradecer a grandeza do gesto do casal. Estavam sempre nas orações das meninas. Pelos corredores do Lar de Crianças, os retratos dos filhos, a memória do drama familiar dos Gaiser. Hartwig e Annelise faziam parte do imaginário das meninas: qualquer barulho no quarto à noite, amedrontadas, achavam que as crianças saíam de seus túmulos e retornavam para brincar em seus aposentos. Márcia recorda-se dos dois quartos de Hartwig e Annelise, o papel de parede azul floral do primeiro e rosa da segunda. Ulteriormente um dormitório maior foi construído, pois os dois quartos das crianças eram insuficientes para abrigar as meninas. Márcia lembra-se das cantigas infantis alemãs que cantavam em alemão tosco, como a do “papagaio loiro”: “Papagaio loiro de bico dourado/ leva-me esta carta ao meu namorado./ Ela não é frade, nem homem casado/ é rapaz solteiro, lindo como um cravo./ Para o outro lado, para a outra margem,/ papagaio loiro de linda plumagem./ De linda plumagem, linda como oiro,/ leva-me esta carta, papagaio loiro.” Muitos alemães participavam de atividades festivas no Lar de Crianças. Mas o que Márcia recorda-se com emoção era dos festejos de Natal, em estilo alemão, com encenações teatrais em que cada criança representava um elemento do presépio. Outrossim, a espera do papai Noel descendo a lareira da casa e a expectativa dos presentes.





Maria Cristina de Souza, uma das primeiras meninas internas do Lar de Crianças.


Foram mais de vinte anos recebendo crianças carentes que residiam no orfanato, em regime de internato. Posteriormente, o Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser extinguiu o internato, pois as irmãs desejavam que as crianças não se afastassem do lar paterno. Passou a ser somente creche, depois Jardim de Infância e atualmente a irmãs oferecem outro tipo de serviço às crianças carentes. Pela manhã pegam as crianças nos bairros, a exemplo do Loteamento Floresta, levam para o sítio e lá chegando tomam café da manhã, tem aulas de reforço e de música, recreiam, comem frutas, almoçam e depois são deixadas no colégio para as aulas regulares. Devido à tragédia de janeiro de 2011, cujo sítio foi muito afetado, essas atividades estão interrompidas. A Congregação perdeu parte da verba para esse tipo de assistência. Atualmente, sob a direção das irmãs Maria Helena de Souza e Maria Rodrigues Feitosa, necessitam que a prefeitura arque, ao menos, com as despesas transporte, mas até o momento, esse benefício não lhes foi deferido.


O sofrimento da perda dos filhos, precocemente, levou Selma Gaiser a fazer um gesto altruísta. Beneficiou gerações de meninas que passaram pelo Lar de Crianças. Foi igualmente graças ao trabalho das Irmãs Franciscanas que meninas como Márcia, que provinham de lares desestruturados, tiveram uma boa educação e formação. Abusando da retórica, pode-se afirmar que Hartwig e Annelise, os dois anjos de Selma Gaiser, fizeram jus à representação que se fazia, no passado, de crianças mortas: foram anjos que protegeram as meninas e sua presença podia até ser percebida por elas, à noite, nos dormitórios do Lar de Crianças Hans e Selma Gaiser.



Abaixo fotos do Lar das Crianças Hans e Selma Gaiser





























A HISTÓRIA DO CAFÉ JAVA: MAIS UMA LENDA EM AMPARO?


O provecto patriarca Eugênio Gripp


O coronel Galiano das Neves(1826-1916), um vulto na história política de Nova Friburgo, no século XIX, escolheu as terras férteis de Amparo para o plantio do café, adquirindo a fazenda Cachoeira do Amparo. Essa fazenda encontra-se até hoje na propriedade da família. Terra fértil para o café, a região de Amparo, que fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão, era coberta por cafezais no século XIX e até início do século seguinte, destoando da paisagem atual. Além do mito do “Amparo dos inconfidentes”, como vimos em matéria anterior, surge ainda a história de que teria partido de Amparo a difusão de um tipo de café, o café java, por toda a província fluminense, gerando os barões do café.


Segundo a tradição oral dos habitantes mais antigos de Amparo, Luiz Sardemberg, alemão, estabelecido em Sana de Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, em viagem por Java, na Oceania, adquiriu duas mudas de café, plantando em sua propriedade, quando de seu retorno ao Brasil. No entanto, Sardemberg faleceu sem ver os dois pés de café maduros que trouxera com tanto sacrifício ao Brasil. Deixando dois filhos como herdeiros, um ficava cuidando da propriedade da família e o outro, o mais velho, viajava a negócios. Certa feita, o mais jovem resolveu construir um viveiro de aves, arrancando os dois pés de café que o pai cultivara e jogou-os em um entulho, para dar lugar ao viveiro. Por um ato da divina Providência, um dos arbustos sobreviveu e continuou brotando, ainda que raquiticamente, sobre o entulho. Quando o primogênito retornou de viagem e procurou pelos pés de café, ralhou com o irmão pelo seu procedimento e correu ao entulho para ver se salvava os pés de café. Como um dos pés brotara, replantou-o, que produziu alguns grãos e fez novas mudas de pés de café. Porém, como fizesse em local impróprio na fazenda, não produziu o resultado desejado e assim não deu muita importância a rubiácea. Certa ocasião, o capitão Augusto José Carlos de Toledo, pernoitando na fazenda dos irmãos Sardemberg, adquiriu uma muda do cafeeiro, plantando-o em seu pomar, em sua propriedade em Amparo.



Começa a entrar nessa história um colono alemão. Os alemães migraram para Nova Friburgo, em 1824, para ocupar as datas de terras abandonados pelos suíços e dar um novo incremento e fomento ao Núcleo dos Colonos. Jorge Gripp, filho de Gaspar Gripp(na realidade, o sobrenome original é Grieb), um dos primeiros colonos alemães, ficou atraído pelo arbusto que viu no pomar de Toledo e inteirou-se de onde o adquirira. Curiosamente, Jorge Gripp comprara a fazenda de uma das filhas de Jerônimo Castro Souza, o pseudo inconfidente que fundara Amparo. Jorge Gripp dirigiu-se a fazenda dos conterrâneos irmãos Sardemberg e encomendou sementes da próxima safra. Em data aprazada, Jorge Gripp enviou seu filho Pedro Alberto Gripp, com 8 anos de idade, acompanhado de um escravo, para buscar as desejadas sementes de café na fazenda dos Sardemberg. Jorge Gripp plantou as sementes, fez diversas mudas e os cafeeiros desenvolveram admiravelmente nas encostas de Amparo, em sua fazenda.



Bernardo Clemente Pinto, o Conde de Nova Friburgo, soube da proficiência de Jorge Gripp com seus cafeeiros e manifestou desejo de possuir algumas mudas. Gripp logo lhe enviou duas de suas melhores mudas. Bernardo Clemente Pinto foi pessoalmente a Cantagalo quando soube da entrega do mimo, intermediado pelo Conselheiro João Lins Cansanção de Sinimbu, que residia na vila de Nova Friburgo. Ficou tão maravilhado com as mudas de café, que contratou bandas de música que desfilaram conduzindo os pés de café festivamente, em procissão, em estilo barroco, até o palacete do Gavião e diante de convidados, plantou-os ali. O conde imediatamente ordenou ao seu administrador em Nova Friburgo que agradecesse a Jorge Gripp, oferecendo-lhes seus préstimos e consignando que compraria toda a colheita de café de Gripp.


O café java foi plantado nas fazendas, em Cantagalo, dos Clemente Pinto(família do barão de Nova Friburgo) e o restante dessa história já conhecemos. Cantagalo tornou-se um dos maiores produtores de café, em meados do século XIX, expandindo o “ouro verde” por todo o vale do Paraíba. Não há comprovação da veracidade desse fato que é relatado por Honorário Lamblet, neto de Jorge Gripp, transmitido pela tradição oral. No centenário da reintegração de Amparo a Nova Friburgo, que se comemora em outubro, essa é mais interessante passagem desse distrito cercado de lenda e mito em sua história.


Bernardo Clemente Pinto

AMPARO DE UM INCONFIDENTE OU REFÚGIO DE UM DELATOR?




Higina Rozena de Castro Toledo. Neta do delator de Tiradentes, Jerônimo de Castro e Souza.




A população do 4° distrito de Nova Friburgo, sempre desejou ser reconhecida como a “Amparo dos Inconfidentes”, região que teve sua formação iniciada por um inconfidente, que lutara pela liberdade do Brasil juntamente com Tiradentes. Mas essa assertiva incomodou a muita gente que tinha a história provando o contrário, ou seja, de que Amparo foi, na realidade, refúgio de um traidor, delator de Tiradentes. Em 30 de novembro de 1938, no salão da escola estadual de Amparo, sob a presidência de Dante Laginestra, diversos moradores da localidade reuniram-se para definir a justificativa do nome “Amparo” ao respectivo distrito. O depoimento mais esperado era o do patriarca da localidade, Eugênio Gripp, na ocasião com 78 anos de idade e residente na região desde 1860, ano em que nascera. O provecto Eugênio Gripp declarou que o nome “Amparo” já era dado à localidade desde a sua infância, e por ouvir dizer, essa denominação vinha desde a Inconfidência Mineira. Segundo ele, o sargento Jerônimo de Castro e Souza era compadre e companheiro de Tiradentes na conspiração. Jerônimo, com receio de ser preso, fugiu para Cantagalo e posteriormente obteve uma sesmaria(terras), onde hoje é Amparo, construindo uma moradia e uma olaria, no qual ainda haviam vestígios. A denominação “amparo” foi dada pelo próprio Jerônimo que se julgava livre, “amparado” das perseguições contra os inconfidentes. Reza a tradição que ele disse à família: “estamos amparados” e crismou o seu novo domicílio de Amparo. Conforme Eugênio Gripp, esses fatos lhe foram narrados por Higgina de Castro Toledo, filha de José de Castro e neta de Jerônimo de Castro e Souza. Estava criado o mito de origem.



Vila de Amparo




Ainda de acordo com a tradição oral, Jerônimo de Castro e Souza era oficial do exército colonial, exercendo a função de cartógrafo em Minas Gerais ao tempo da insurreição. Abraçara a causa dos inconfidentes e participara da trama revolucionária. Durante a devassa(processo), ficou detido na prisão da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Como não havia provas para uma condenação, foi libertado, e desde então, embrenhou-se pelo interior da província fluminense indo parar onde hoje é Amparo, nome dado por ele por ter sido o “amparo” das vicissitudes e perseguições. No entanto, há quem afirme que Jerônimo foi um delator de Tiradentes, beneficiado com sesmarias pela Coroa Portuguesa em razão de sua delação. Mirtarístides de Toledo Piza, membro da Academia Fluminense de Letras, classifica Jerônimo de Castro e Souza como um “falso inconfidente”, um ignominioso traidor da pátria brasileira. Piza vê os românticos rasgos de heroicidade de Jerônimo como uma lenda. Pesquisando os “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, Piza desconstrói o herói de Amparo provando que ele foi um traidor. Segundo Piza, Jerônimo de Castro e Souza era português, casado e alferes do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Capitania do Rio de Janeiro, onde nascera e tinha domicílio. De acordo com os autos, Jerônimo foi delator de Tiradentes e diante do desembargador nomeado para a devassa, denunciou Tiradentes, e como prêmio pela delação, foi nomeado 1° tabelião da Vila de Cantagalo, tomando posse em 08 de outubro de 1815. Anos depois, mudou-se para o Morro Queimado e de acordo com Piza, “não foi para livrar-se das perseguições governamentais da época, mas, talvez, para esquecer o seu gesto ignominioso”. O depoimento de Jerônimo de Castro e Souza consta nos "Autos de Devassa da Inconfidência Mineira" - publicação autorizada pelo doc. nº 756-A, de 21 de abril de 1936 - Vol. IV, Rio de Janeiro, 1936, Ministério da Educação, Biblioteca Nacional, pp. 29 a 101). De acordo com os defensores dessa tese, Amparo foi o “Refúgio” de um traidor e como tal deveria ser denominada a localidade, e não, o “Amparo” de um inconfidente perseguido pela justiça portuguesa. De acordo com Clélio Erthal, em “Cantagalo, da miragem do ouro ao esplendor do café”, Jerônimo de Castro e Souza teria recebido o cargo de tabelião na vila de Cantagalo, como recompensa pela delação que prestou à Coroa Portuguesa. Em razão disso, fora sempre hostilizado pelos habitantes locais, vindo a refugiar-se no recanto por ele mesmo denominado de “amparo”, nas cabeceiras do Ribeirão de São José. A matéria “Um falso inconfidente”, de Mirtaristides de Toledo Piza, não deixa dúvidas de que Jerônimo foi um delator. Mas Jerônimo conseguiu que os moradores da Vila de Nova Friburgo acreditassem em sua versão de inconfidente perseguido e, segundo relatos, um de seus filhos foi vereador e outro juiz de paz, o que denota que tinham prestígio no município.


Em função das provas contra Jerônimo nos “Autos da Devassa da Inconfidência Mineira”, uma lei estadual de 641, de 15 de dezembro de 1938, modificou a denominação de Amparo para Refúgio. O povo de Amparo protestou veementemente! Diante da pressão dos moradores de Amparo, uma Resolução de n°220, de 06 de abril de 1953, do prefeito municipal José Eugênio Muller, restabeleceu o nome de Amparo, em lugar de “Refúgio”. Igualmente a Assembléia Legislativa do Estado, em 22 de julho de 1957, ratificou o nome de Amparo como denominação do quarto distrito de Nova Friburgo. “Amparo” de um inconfidente ou “Refúgio” de um traidor? O triângulo, símbolo dos inconfidentes, faz parte do brasão de armas do distrito de Amparo, o que prova que será sempre difícil destruir a força criadora do mito de origem. Na próxima semana “A História do café de java: mais uma lenda em Amparo?”








Capelinha de Nossa Senhora do Amparo






Vila de Amparo

O CENTENÁRIO DA REINTEGRAÇÃO DE AMPARO



Quando li em A Voz da Serra a matéria “Amparo comemora cem anos de reintegração a Nova Friburgo”, senti-me com a missão de escrever algo sobre esse importante distrito. Na celebração do centenário, com uma intensa e elaborada programação, as apresentações musicais são bem ecléticas como samba, forró, gospel, tango, baião, MPB, dança típica suíça e capoeira, traduzindo aquilo que é o Brasil, uma miscigenação de raças e culturas. Contadores de histórias, teatro de fantoches, concurso de boneca viva, jipeiros, gincana, atividades esportivas e os primeiros jogos florais de Amparo, complementam a programação. Comparando com a comemoração do cinquentenário, em 1961, quando era prefeito Amâncio Mário de Azevedo, a celebração fora bem mais cívica e singela, com desfile de escolas, bandas de músicas e à noite um grande baile no Cine-Theatro de Amparo. Aproveitando a presença de autoridades políticas como o prefeito, vereadores e deputados, os amparenses, na ocasião do cinquentenário, não perderam a oportunidade de apresentar sua reivindicação que era, à época, a pavimentação da estrada Zigue-Zag e a que ligava Amparo às Braunes, muito utilizada para se deslocar de Amparo ao centro de Friburgo. A ASSAMAM, Associação de Moradores e Amigos de Amparo era muito articulada e possivelmente pioneira em termos de mobilização de comunidades de bairros. No centenário de reintegração de Amparo à Nova Friburgo, não faltarão clamores e reivindicações aos políticos que comparecerem aos festejos, pois o bairro está absolutamente abandonado pelo poder municipal depois da tragédia de janeiro. É assustador os barrancos e encostas sustidas pela obra do Divino que não viram uma ação sequer do poder público municipal, estadual ou federal. No passado, foram muitas as rogativas dos amparenses pela melhoria de suas estradas e igualmente serão, no presente, para que os órgãos públicos tomem providências no sentido de arrefecer e minimizar o impacto das chuvas de verão.



Para realizar a minha pesquisa sobre a história de Amparo, por mais bizarro que possa parecer, encaminhei-me ao cemitério da vila. Percorri suas alamedas em busca dos túmulos dos primeiros habitantes locais. Os registros mais antigos que localizei foram de enterramentos no último quartel do século XIX. As famílias que se destacam nas transcrições das lápides são de alemães e suíços, a exemplo dos Gripp e dos Frossard, respectivamente, mas igualmente os Alves da Costa. Era natural que ali convivessem suíços e alemães, pois muitas das datas de terras abandonadas pelos colonos suíços, nos Núcleos Coloniais, foram transferidas aos colonos alemães, que vieram justamente para ocupar essas áreas desprezadas por alguns suíços. Já possuía dois importantes pontos de partida: a datação aproximada da ocupação de Amparo e a constatação de que suíços e alemães ocuparam aquelas terras. Logo, Amparo teria uma ocupação territorial que remonta ao século XIX e ocupada por colonos. Mas estava enganada, pois sua ocupação foi anterior, trinta anos antes. A ocupação de Amparo remonta ao final do século XVIII, no último decênio desse século, muito antes do que nos revela o cemitério da vila. Recorrendo a fontes secundárias, foi nos apontamentos do major Heber Alves da Costa, “Amparo Redivivo”, que uma janela abriu-se a respeito de um distrito que tem uma das histórias mais fascinantes.


A região onde se localiza Amparo pertencia inicialmente a Cantagalo. Mas com a criação do Termo de Nova Friburgo, em 1820, Amparo passou a pertencer-lhe, pois fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão. Era uma importante freguesia de Nova Friburgo, devido a uberdade de suas terras. São José do Ribeirão, Sebastiana(Estrada Friburgo-Teresópolis) e Paquequer(Sumidouro) eram importantes freguesias agrícolas de Nova Friburgo. Em 1857, a Freguesia de São José do Ribeirão possuía uma população de “mil almas”, onde cultivava-se o café e a cana-de-açúcar, com predominância do café, e com forte concentração de escravos. Não foi por acaso que quando extinguiu-se a escravidão no Brasil, os moradores da Freguesia de São José do Ribeirão foram um dos que mais se queixaram junto à Câmara Municipal, pleiteando que aquele órgão intermediasse a indenização pelos prejuízos causados.


No centenário de reintegração a Nova Friburgo, fica a seguinte pergunta: por que reintegração? Isso deve-se ao fato de Amparo ter sido anexado a Bom Jardim no início da República. Isso não agradou em nada a população local e depois de incessantes reivindicações conseguiram reverter a situação e tornar a anexar-se, em 1911, a Nova Friburgo. O governo republicano mexeu e remexeu muito as fronteiras dessa região, ao sabor dos caciques políticos. Mas a história de Amparo é muito instigante e cercada de mito e lenda, a exemplo do mito de sua origem: jactam-se seus habitantes ser Amparo a terra dos inconfidentes. Outra é a história de que foi graças ao colono alemão da família Gripp, morador de Amparo, que o café java difundiu-se na província fluminense. E Amparo sediou um dos primeiros núcleos do espiritismo no Brasil e foi um grande produtor de café e celeiro do Rio de Janeiro e de Niterói, na primeira metade do século XX. Convido o leitor de AVS a acompanhar, nas próximas semanas, a história do distrito de Amparo, que sem sombra de dúvida, é uma das mais interessantes de Nova Friburgo.



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O INTERESSANTE EPISÓDIO DOS PRISIONEIROS ALEMÃES EM NOVA FRIBURGO


Durante a Primeira Guerra Mundial(1914-1918) ocorreu um interessante episódio em Nova Friburgo envolvendo prisioneiros alemães. Esse episódio coincide com o início da industrialização do município e esses dois acontecimentos irão se imbricar para dar novos matizes ao momento histórico pelo qual passava Nova Friburgo. Na Primeira Guerra Mundial, vários navios alemães da Marinha Mercante foram detidos nos portos brasileiros. Ao todo foram apreendidos pelo governo brasileiro 45 navios mercantes que se encontravam ancorados em portos nacionais. O objetivo era aprisionar e “internar” os seus tripulantes bem distante do litoral. Uma das cidades a que destinou esses marinheiros foi Nova Friburgo, notadamente reconhecida como um local onde os imigrantes não padeciam do problema de aclimatação e se adaptavam sobremaneira. Nova Friburgo recebera o primeiro grupo de colonos alemães em 1824(343), sendo que em 1892, igualmente, 703 alemães imigraram para o município.


Para abrigar, em Nova Friburgo, uma parte dos alemães detidos nos portos brasileiros, escolheu-se o Sanatório Naval. Inaugurado poucos anos antes, em 1910, o Sanatório Naval foi instalado para tratamento e convalescença de marujos beribéricos e tuberculosos. Era um local perfeito onde compartilhariam o mesmo espaço com “homens do mar”, não obstante os brasileiros serem militares e os alemães civis. Faltam pesquisas para se saber o número exato de prisioneiros que se instalaram no Sanatório Naval, mas Fischer em “Uma História em Quatro Tempos” nos informa que foram, aproximadamente, 227 alemães da Marinha Mercante. Já José Pereira da Costa Filho, o Costinha, que trabalhou na construção dos barracões até 1916, informa-nos que eram 1.500. Os oficiais ficavam nos barracões e os soldados acampados em barracas. Os oficiais ficaram acomodados em casas de alvenaria e o restante em barracas armadas no terreno do Sanatório. Denominou-se o local de Campo de Internação. De acordo com a memória de alguns friburguenses, o Campo de Internação era uma verdadeira atração na cidade, e todos subiam para o Sanatório Naval curiosos em observar os prisioneiros alemães. Como houvesse muitos alemães e descendentes dos primeiros colonos e imigrantes em Nova Friburgo, levavam a sua solidariedade na qualidade de irmãos germanos. Maximilian Falck, proprietário da recém instalada Fábrica Ypu, dava assistência aos alemães internados como prisioneiros. Mas quanto ao restante da população friburguense, era pura curiosidade, assim como apreciavam ir à estação de trem ver quem chegava e partia da cidade. Mas o que a industrialização em Nova Friburgo tem a ver com esses prisioneiros, como dito acima? Aos tripulantes alemães foi dada permissão pelo governo brasileiro para trabalharem onde estivessem “internados”. Para tanto, o empregador deveria manter periódico contato com a Comissão Militar comunicando a permanência do “internado” a seu serviço. Desde 1911, Peter Julius Ferdinand Arp(1858-1945), um grande empresário alemão, estabelecia-se em Nova Friburgo no ramo da indústria têxtil, atraindo inclusive outros empresários alemães. Como a mão de obra especializada talvez fosse um problema para lidar com o maquinário importado, prisioneiros alemães foram cooptados para as recém instaladas indústrias. Muitos deles, principalmente entre os oficiais, tinham capacitação técnica que se amoldava perfeitamente à demanda das novas indústrias em Nova Friburgo. Até então esses profissionais vinham de outros estados do Brasil. Nesse sentido, utilizaremos como exemplo Richard Hugo Otto Ihns(1889-1960). Originário da Prússia, oficial da Marinha Mercante alemã, encontrava-se em Pernambuco quando em 1914, a Primeira Guerra Mundial eclodiu. Seu navio ficaria detido durante três anos até que, em 1917, as autoridades brasileiras resolveram enviar o seu navio, o “Cap. Finister”, para Nova Friburgo.


Foi Maximilian Falck, um dos empresários alemães quem o colocou na empresa de Julius Arp, em razão de suas habilidades técnicas. Em 1919, Ihns já era gerente da Fábrica de Rendas e estabelecido definitivamente no Brasil. Foi devido à morte de um filho seu que transformou o antigo cemitério alemão em um aprazível parque, fundou um clube social somente para os alemães(atual Sociedade Esportiva Friburguense) e reorganizou a Sociedade Evangélica Luterana em Nova Friburgo. A importância dos empresários alemães na economia local se refletiu no novo status dado aos alemães. Richard Ihns tornou-se membro do Conselho Consultivo de Nova Friburgo e ocupou vários cargos na Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Nova Friburgo. Tem-se a impressão de que Richard Ihns resolveu dar à comunidade alemã, em Nova Friburgo, um upgrade. No campo das sociabilidades, foi sócio-fundador do Rotary Club de Nova Friburgo(1950) e igualmente sócio-fundador do Nova Friburgo Country Clube, da Sociedade de Tiro ao Alvo Sans Souci e do grupo de “Bolão”. No tocante ao Country Clube, a elite friburguense resolveu se desgarrar do Clube do Xadrez, já que incomodava a frequência de operários e pequenos comerciantes naquele clube. Assim como Richard Ihns, outros tripulantes de navios optaram por permanecer na aprazível Nova Friburgo, até porque, conforme sabemos, a situação econômica e social da Alemanha se agravaria depois dessa guerra. Mas essa história não teve somente final feliz. Um surto de tifo em Nova Friburgo matou uma dezena de tripulantes alemães. Quem visita o cemitério luterano normalmente estranha a presença de vários túmulos idênticos, de rapazes mortos em tenra idade em curto período de tempo. São eles os tripulantes que se encontravam detidos no Sanatório Naval e que faleceram de tifo. Trata-se ou não de um interessante episódio ocorrido em Nova Friburgo?





OS TAMANCOS DOS OPERÁRIOS DAS RENDAS ARP


“Quando o apito da fábrica de tecidos vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você. Você que atende ao apito de uma chaminé de barro, porque não atende ao grito tão aflito da buzina do meu carro?...Mas você não sabe que enquanto você faz pano, faço junto do piano, estes versos pra você. Nos meus olhos você vê, que sofro cruelmente, com ciúmes do gerente impertinente, que dá ordenas a você.” Noel Rosa escreveu esses versos para a sua namorada que bem poderiam ter sido escritos, na segunda década do século XX, por um boêmio friburguense. A indústria mudou Nova Friburgo. Todos os dias, às seis horas da manhã, os moradores do centro da cidade eram despertados por um som estridor a que não estavam até então habituados: eram os tamancos dos operários que se deslocavam em várias direções da cidade rumo às fábricas. No apito do último trem do dia, hora de se recolher. No barulho do tamanco dos operários, hora de despertar. Associados ao sino do campanário da igreja Matriz ao meio-dia e às seis horas da tarde, eram sons que regiam o ciclo do dia dos friburguenses: do trem, do sino e do tamanco dos operários.
A nota lacônica da direção da Rendas Arp, anunciando o fechamento das atividades da fábrica, contrasta com as matérias dos jornais, no primeiro decênio do século XX, tecendo loas à vinda de Julius Arp e outros industriais alemães. A nossa cidade experimentará a sensação do estremecimento do seu solo para a força propulsora da indústria moderna; é o início de uma nova Era para Nova Friburgo, assim escreveu o articulista do jornal A Paz, em janeiro de 1911. “Colméias de trabalho”, foi essa a metáfora atribuída a Nova Friburgo a partir da vinda de empresários alemães. Nova Friburgo entra na Era industrial.


O alemão Peter Julius Ferdinand Arp(1858-1945) imigrou para o Brasil em 1882. E por que teve interesse em instalar uma indústria em Nova Friburgo? Possivelmente pelo fato de Nova Friburgo abrigar uma significativa população de descendentes europeus, mais disciplinados ao trabalho, provavelmente conjeturara. O estigma de que o caboclo brasileiro era um trabalhador “desqualificado”, “indolente”, fazia parte do imaginário da época. Amparado pelos vereadores da Câmara Municipal, o coronel Antônio Fernandes não dava impulso ao contrato de concessão de fornecimento de energia elétrica, atravancando o progresso local. Julius Arp conseguiu retirar do coronel Antônio Fernandes essa concessão. A energia elétrica era essencial para implementação de um parque industrial em Nova Friburgo. Ruía antecipadamente a República Velha dos coronéis em Nova Friburgo, não aguardando a Revolução de 30. Julius Arp fundou, em junho de 1911, a Rendas Arp. Igualmente cooptou outros industriais: Maximilian Wilhelm Bogislav Falck(Fábrica Ypu), Carl Ernst Otto Siems(Fábrica de Filó) e Hans Gaiser(Ferragens Haga).


Depois dos tamancos, vieram as bicicletas que cruzavam os bairros, com cada trabalhador dirigindo-se para a sua colméia. Honrando o patriarcalismo nacional, os alemães construíram casas, escola e áreas de lazer para seus funcionários. Mas vieram as tensões sociais. Os primeiros operários, ainda desmobilizados em nível de categoria profissional, eram insuflados pelos ferroviários da Companhia Leopoldina. Mas havia o Sanatório Naval, garantidor da ordem pública. Não havia polícia militar à época e a polícia civil, com poucos praças, era incapaz de conter um conflito na cidade. Disciplina, esse era o projeto da Trindade Teutônica para Nova Friburgo. E assim, capitaneados por Julius Arp, os alemães foram hegemônicos em Nova Friburgo durante décadas. O poder público não os importunava. Quem não recorda-se que o velho Rio São João das Bengalas mudava de cor a cada semana, com as indústrias têxteis despejando soberbamente seus produtos químicos nas águas tranquilas do rio? Mas o que nos importava naquele momento eram tão somente os empregos que as indústrias geravam. Quem precisava do turismo numa cidade que abrigava um dos maiores pólos industriais do país e notadamente, duas multinacionais? Éramos o “paraíso capitalista”, jactava-se Heródoto Bento de Melo.


Já estamos habituados a presenciar a agonia das grandes indústrias, a exemplo da Fábrica Ypu. No entanto, quando uma fábrica fecha definitivamente, não deixa de ser impactante. Imediatamente vêm as memórias. Meu avô, meu pai, meu tio, meu irmão, quem não tem um familiar que trabalhou na Rendas Arp? Tempos difíceis, os alemães eram chefes rigorosos, mas trouxeram empregos. Alguém recorda-se: “meu pai trabalhou a vida inteira lá, criou onze filhos”. Um antigo alfaiate lembrou que os alemães eram os melhores fregueses de ternos. E os times de futebol das fábricas? Para atrair um bom jogador e tirá-lo de um time, bastava arranjar um emprego na fábrica e daí ele mudava de clube, sem pestanejar. Fechada a Rendas Arp, ficam as perguntas: Como e onde ficarão registradas essas memórias? E as primeiras máquinas, o que fazer com elas? E os registros dos primeiros operários? Que órgão será depositário desse acervo? Ainda bem que João Raimundo escreveu “Nova Friburgo: o Processo de urbanização da Suíça Brasileira – 1890-1930”, Rico escreveu “Cem anos de lutas operárias em Nova Friburgo” e Carlos Rodolfo Fisher “Uma história em quatro tempos”, deixando registros desse período. Mas o que não me sai da cabeça é o livro que Richard Ihns, executivo durante décadas da Rendas Arp, disse que escreveria sobre o período de sua gestão. Mas esclareceu que escreveria algo do tipo “diga a verdade e saia correndo”. Mas Santo Deus, por que Richard Ihns sairia correndo?


PRECISA-SE DE AMAS-DE-LEITE, MADEIXAS E LACAIOS DA COLÔNIA NOVA FRIBURGO






A Imperatriz Leopoldina, esposa de D. Pedro I, solicitou certa feita dois rapazes de “boa aparência” da colônia da Nova Friburgo para servir como lacaios. Poderiam ser suíços ou alemães, mas de preferência que soubessem o idioma francês. Logo em seguida, surgiu outro pedido inusitado: o diretor da colônia deveria providenciar uma cabeleira de colonas para a confecção de perucas para a Imperatriz. “Mandou-me a S. M. Imperatriz que fizesse toda a diligência possível por cabelos que sejam exatamente da cor dos que envio para amostra, e que tenham de comprimento um palmo pelo menos(...)No caso de que V. Sa. os ache, dê alguma coisa a pessoa de quem eles forem.” A austríaca Leopoldina era uma mulher loura, de olhos claros e certamente considerou que as suíças e alemães da colônia da Nova Friburgo poderiam fornecer-lhe madeixas próximas ao seu tom alourado de cabelo. Possivelmente deveria ter dificuldade em conseguir no Brasil essas madeixas já que a maior parte da população era morena. Porém, a sua solicitação mais importante ocorrera alguns anos antes, quando do nascimento de seu filho, o futuro Imperador D. Pedro II.


Pedro de Alcântara era o sétimo filho de D. Pedro I e da arquiduquesa Leopoldina. Nascido em 2 de dezembro de 1825, sucedeu o pai que renunciou em seu favor ao trono do Brasil, tornando-se o futuro Imperador Pedro II. O nascimento do futuro príncipe ou infanta provocaria uma série de correspondências entre o diretor da colônia de Nova Friburgo, Francisco de Salles Ferreira de Souza, e o Inspetor da Colonização, Monsenhor Miranda. O motivo era que a família real desejava para amamentar o próximo herdeiro do trono uma colona suíça, ou melhor, os seios úberes de uma colona que vivia na salubre vila de Nova Friburgo. No século 19, os médicos higienistas passaram a estabelecer uma relação entre o aleitamento mercenário das amas-de-leite e a mortalidade infantil, detonando o processo de criação da mãe higiênica, ou seja, aquela que amamenta o seu rebento. O discurso médico preconizando a amamentação por parte da mãe somente surtiria seus efeitos ao final daquele século. Antes disso, vivia-se no império das amas-de-leite. Entre as muitas justificativas para que as mães não amamentassem, circulava a ideia de que as relações sexuais corrompiam o leite.
Monsenhor Miranda solicitou duas colonas suíças, casadas ou solteiras, que tivessem parido e em circunstância de serem amas do futuro Príncipe ou Infanta que se esperava. As mulheres obviamente deveriam gozar de boa saúde, ter maneiras polidas, bons dentes e não estar trabalhando na lavoura. Como havia naquele momento recentemente chegado a Nova Friburgo colonas alemãs, caso as suíças não se adequassem ao perfil solicitado, elas igualmente serviriam. Coube ao médico Dr. Bazet realizar as necessárias averiguações e escolha das amas-de-leite e as acompanharia até a Corte. No entanto, as duas primeiras colonas enviadas pelo diretor da colônia foram devolvidas. Há referência na correspondência entre Monsenhor Miranda e a administração colonial que a colona Annette, filha do colono suíço João Werner, foi rejeitada por possuir “moléstia” e a mulher de Kuentzi por ter sido considerada “incapaz.”


Antonio José Paiva Guedes d´Andrade, secretário de Inspeção da Colonização Estrangeira envia nova correspondência à vila de Nova Friburgo solicitando outras colonas. O dr. Jean Bazet não precisaria mais acompanhá-las mas tão somente o marido ou o pai, caso fosse essa última solteira. Foi selecionada a colona suíça Leonor Frotè. No entanto, ocorreu uma tragédia. Quando de sua viagem à Corte, o pai de Leonor Frotè morreu afogado caindo do barco na localidade do Sítio da Paciência. Pode ser que tal tragédia tenha afetado a colona psicologicamente, pois foi rejeitada por possuir uma “purgação contínua.” Optou-se então enviar mais três colonas aptas a amamentarem e a seleção seria feita na própria Corte. Foram selecionadas as colonas Izabel Falz, Doline Bellet e Maria Josephina Gavillet. Segundo Pedro Cúrio no livro “Como surgiu Friburgo”, entre essas foi escolhida como ama-de-leite Doline Bellet, que escreveu: ‘Acho-me muito honrada em ser escolhida para servir no palácio imperial, como ama-de-leite; porém tomo a liberdade de informar a V. Sa. que desejo muito, para meu sossego, que meu marido seja admitido no palácio, para cuidar da minha criança com aquele mimo que só pode ter um pai. Portanto, peço a V. Sa. como um grande favor que queira me dar uma recomendação para me ajudar a alcançar o meu desejo. Sou com todo o respeito a humilde criada. Doline Bellet.” No entanto, José Murilo de Carvalho no livro “D. Pedro II” nos informa que coube a colona suíça Maria Catarina Equey a honra de amamentar o príncipe Pedro de Alcântara. Segundo esse autor, a família real acreditava ser mais saudável empregar uma mulher branca e europeia do que as negras amas-de-leite. A Imperatriz Leopoldina já havia solicitado uma ama-de-leite alemã para seu filinho Dom João Carlos, que nascera em 06 de março de 1821.
Era comum as escravas amamentarem os filhos da elite daquela época. No entanto, a família real optou por colonas brancas e europeias. A solicitação deve ter partido da própria Imperatriz Leopoldina que, sendo austríaca, talvez tivesse algum tipo de preconceito com relação às amas-de-leite negras. Logo, a colônia de Nova Friburgo, criada para abastecer a Corte de gêneros alimentícios do amanho de suas terras, prestou-se a fornecer dos seios úberes de suas colonas,o leite para alimentar D. Pedro II, o último Imperador do Brasil.


Diferentemente do costume da elite brasileira da época, que utilizava

africanas, a Imperatriz Leopoldina optou por uma ama-de-leite suíça.


MEMÓRIA SOBRE O NAZISMO EM NOVA FRIBURGO





Nascido na Alemanha em 19 de abril de 1911, Johannes Edward Schlupp fez sua formação inicial e cursou Teologia em sua terra natal. Ainda muito jovem foi solicitado a assumir o trabalho evangélico no Brasil. Aprendendo o português, chegou ao país em 1933, trabalhando inicialmente como pastor auxiliar de uma comunidade evangélica em Petrópolis. Nessa ocasião, pouco antes da Segunda Guerra Mundial(1939-45), havia uma comunidade luterana em crise e dividida em razão de divergências quanto ao nazismo: a de Nova Friburgo. E foi para lá que Johannes Schlupp foi encaminhado para apaziguar os ânimos entre os luteranos. O proselitismo em relação ao nazismo gerava tensões em Nova Friburgo entre a comunidade evangélica luterana. O nacionalismo alemão, através do partido nazista, conseguira tirar a Alemanha da crise em se encontrava. Em 1933, mais de um terço da mão de obra ativa encontrava-se desempregada gerando uma miséria no país a níveis nunca anteriormente alcançados. Um regime que propusesse o bem estar geral e tirasse a Alemanha da crise, somente poderia lograr êxito. Daí o prestígio de Adolf Hitler. Segundo o Pastor Schlupp, foi a infiltração de pessoas com idéias absurdas, a exemplo do racismo, que levou a Igreja Luterana a entrar em conflito com o partido nazista. Essa celeuma se refletiu em toda a comunidade internacional luterana e se estendeu a Nova Friburgo, provocando um cisma entre os evangélicos. Existia no município a “Deutscher Schul und Kirchenverein”, ou seja, a Sociedade Alemã da Escola e Culto. Em razão das divergências em relação ao nazismo, houve uma cisão dessa sociedade que originou outra pró nazismo, denominada Sociedade Alemã. Com a separação, a Deutscher Schul und Kirchenverein abandonou o nome alemão e adotou a designação de Sociedade Esportiva. As duas sociedades separaram inclusive as duas escolas alemãs. Uma funcionava na Av. Rui Barbosa e a outra antes da Ponte da Saudade. Essa animosidade atingiu a comunidade evangélica ao ponto de não se cumprimentarem e igualmente os poderosos industriais alemães estabelecidos em Nova Friburgo. De um lado, estavam os proprietários das Fábricas Arp e Filó, o Conselheiro Julius Arp e Otto Siems, além de Hans Gaiser, contrários ao movimento nazista. De outro estava Maximilian Falck, apoiando a dissidente Sociedade Alemã, recém-formada e que defendia de forma incondicional o Partido Nazista. A Sociedade Alemã se estabeleceu na Rua Gal. Câmara(atual Augusto Spinelli), onde atualmente funciona a Secretaria de Promoção Social da P.M.N.F. Esse prédio, no decorrer da Segunda Guerra, seria desapropriado dos alemães pelo governo. Foi essa a situação encontrada em Nova Friburgo pelo jovem Pastor Schlupp, que conseguiu apaziguar os ânimos e minimizar as tensões entre os luteranos. Sua orientação para a união dos evangélicos luteranos foi a de que deveriam ficar afastados da política interna da Alemanha e manter-se unidos em razão de possuírem a mesma cultura, tradição e professarem o mesmo credo. Foi graças ao seu êxito, contemporizando os dois lados, que Julius Arp solicitou para que ficasse e garantisse a paz obtida. E de oito semanas, tempo previsto para sua permanência, o jovem pastor Johannes Schlupp permaneceu 44 anos em Nova Friburgo, onde se casou e constituiu família.





O estabelecimento dos industriais alemães em Nova Friburgo, a partir de 1910, auxiliou em muito a desassistida comunidade alemã. Nova Friburgo era uma cidade pacata de veraneio quando o Conselheiro Julius Arp obteve a concessão do fornecimento de energia elétrica para garantir a energia necessária para as indústrias que seriam instaladas. Os primeiros colonos alemães que vieram para a então vila de Nova Friburgo, em 1824, não tiveram como os suíços, o auxílio de uma assistência filantrópica. Na Praça do Pelourinho, atual Marcílio Dias, os luteranos construíram um templo modesto, que foi demolido posteriormente pelas autoridades locais. Em 1856, foi construído outro templo de pau a pique, mas era proibido dar o aspecto de igreja aos templos protestantes. Não poderia haver torres, sinos ou qualquer símbolo de seu credo e a fachada deveria ser idêntica a de uma casa residencial. Foi essa construção tosca que o jovem Pastor Schlupp encontrou quando chegou a Nova Friburgo. Mas os industriais alemães deram mais dignidade aos luteranos estabelecidos no município, até porque professavam a mesma crença e freqüentavam os mesmos templos. Todos os técnicos trazidos da Alemanha e suas famílias eram igualmente luteranos. Em junho de 1952, foi inaugurado um novo templo na Av. Galdino do Vale Filho à altura dos novos ilustres freqüentadores. O antigo templo foi vendido aos metodistas.


A trindade teutônica formada por Julius Arp, Maximilian Falck e Otto Siems, bem como Hans Gaiser auxiliaram, além da construção do templo, na melhoria do cemitério e em várias obras assistenciais. Quando faleceu o filho do Pastor Sauerbronn em 1824, o infante foi impedido pelo vigário Jacob Joye de ser enterrado no cemitério da vila, e foi-lhe reservado um local no morro, onde hoje se localiza o cemitério dos luteranos. Era um local ermo na ocasião e desde então nunca mereceu a atenção das autoridades municipais. Com o auxílio desses industriais o cemitério luterano teve uma grande reforma, com a duplicação de sua área e pavimentação de seu acesso. Mas quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu e o Brasil entrou na guerra, muitos alemães em Nova Friburgo foram presos e levados para Niterói. O Pastor Schlupp os acompanhou. Os cultos e as reuniões dos luteranos foram proibidos. Casamentos e batizados deveriam ter autorização expressa. Foi uma época difícil para os alemães, apesar de grande parte deles ser de nacionalidade brasileira. Como vimos, o jovem Pastor Schlupp tinha muitos motivos para permanecer em Nova Friburgo por mais de quatro décadas para proteger a suas ovelhas.



A TRINDADE TEUTÔNICA:A ERA INDUSTRIAL NO LIMBO DA HISTÓRIA




Operários na saída do trabalho da Fábrica Ypu


No dia 11 desse mês de junho, um anúncio no jornal O Globo trazia os seguintes dizeres:“Rendas Arp. Fundada em Nova Friburgo pelo Conselheiro Peter Julius Ferdinand Arp, imigrante alemão, a Fábrica de Rendas Arp completa, neste sábado, 100 anos de existência. Líder no segmento de bordados no Brasil(...) a empresa é administrada pela 5° geração da família Arp(...)demonstra pelo seu centenário uma prova de superação. Queremos partilhar com nossos clientes e funcionários o sucesso desses 100 anos”. Confesso que achei o anúncio simplório em se tratando do centenário de uma empresa no qual trabalharam cinco gerações de friburguenses. Merecia semelhante anúncio no jornal local.



Aos friburguenses que desconhecem a sua história, o fundador da Rendas Arp, Julius Arp, além da importância de ser o primeiro industrial, foi igualmente o timoneiro de outras indústrias nos ramos têxtil, acessórios em couro e metalúrgica, que se instalaram ao longo da primeira metade do século 20, em Nova Friburgo. A instalação dessas indústrias provocou uma ruptura na história de Nova Friburgo e merecia melhor atenção e reflexão sobre essa rica passagem. Não desejo aqui tecer preito ao capitalismo nem colocar os industriais alemães como os grandes benfeitores do município. Sabe-se da exploração do trabalho e do conflito de classes, motor da História, que o capitalismo gera, mas apenas gostaria de lembrar esse importante momento histórico. Não vi a Associação Comercial e Industrial de N.F. fazer qualquer menção sobre essa data. Os historiadores João Raimundo de Araújo e Ricardo da Gama Rosa Costa publicaram em AVS, em maio, por ocasião do aniversário da cidade, duas interessantes matérias sobre o assunto, “Assim se passaram 100 anos” e “Cem Anos de Lutas Operárias em Nova Friburgo”, respectivamente. A indiferença do poder público municipal e de outras instituições é simbolizada no Pró-Memória, fechado desde novembro de 2010, onde as autoridades fazem ouvidos moucos aos apelos dos historiadores sobre a sua abertura. Nem a linha da “Sorbonne” da Câmara Municipal se sensibilizou a tal apelo. Mas isso é outra história.



A representação da presença alemã em Nova Friburgo é vinculada ao segmento industrial. A partir de 1911, empresários alemães implantaram indústrias têxteis, artigos em couro e metalúrgicas, colocando Nova Friburgo na Era industrial. Peter Julius Ferdinand Arp, primus inter pares, Maximilianus Falck e Otto Siems compunham, de acordo com o jornal O Friburguense, de 28 de abril de 1935, a Trindade Teutônica, os fundadores das “colméias de trabalho”. Julius Arp, Maximilianus Falck e Otto Siems inauguraram as fábricas de Rendas Arp, Ypú e fábrica Filó, respectivamente. Esses empresários eram vistos como representantes do “primoroso povo germânico” e como os responsáveis por uma nova Era, em Nova Friburgo. O município passa da representação de uma bucólica cidade veranista para uma cidade industrial.
Peter Julius Ferdinand Arp(1858-1945) nasceu na Alemanha, vindo com 23 anos de idade para o Brasil. Chegou ao Rio de Janeiro no início de 1882. Em Santos dedicou-se ao comércio do café e um ano depois, retornou ao Rio de Janeiro, empregando-se em uma empresa importadora de máquinas de costura, brinquedos, armas, etc. Trabalhara para a firma Nothmann, mas quando o proprietário faleceu adquiriu essa empresa juntamente com outro sócio, alterando o seu nome para Arp & Cia. Posteriormente, essa firma se transformaria em uma holding. Em 1901, Julius Arp torna-se sócio de uma fábrica de meias em Joinvile, encampando-a ulteriormente. Empresário do tipo self made man, interessou-se na aquisição da concessão do serviço de fornecimento de energia elétrica em Nova Friburgo, contrato até então estagnado entre a Câmara Municipal e o coronel Antônio Fernandes da Costa. Julius Arp obteve a concessão do fornecimento dessa energia e ainda hoje avistamos na estrada que liga o centro da cidade a Mury, uma pequena casa de alvenaria escrita “Usina Hans, 1911”. Ainda que sejamos indiferentes à História, esses monumentos estão aí para nos lembrar por que somos assim.



A Companhia de Eletricidade de Nova Friburgo era o sinal verde para implementação de um parque industrial em Nova Friburgo. Adquirindo terras dos herdeiros dos barões de Nova Friburgo, Julius Arp fundou em junho de 1911, com a razão social M.Sinjen & Cia., a Fábrica de Rendas Arp. Em sociedade com Maximilian Wilhelm Bogislav Falck, Julius Arp montou uma fábrica de artigos de passamanaria, surgindo a Fábrica Ypu S.A. Em 1919, se desligaria da Fábrica Ypu. A estação de trem desde então foi tomada pelo transporte contínuo de máquinas para as indústrias e o bulício de idas e vindas de técnicos alemães a Nova Friburgo despertava a curiosidade local. Foi Julius Arp quem convenceu Carl Ernst Otto Siems, que desejava instalar uma fábrica no Brasil, a investir em Nova Friburgo. Em 1925, surgia a Fábrica de Filó S.A. de propriedade de Otto Siems no qual Arp era acionista. Estava formada a Trindade Teutônica. Em 1937, incentivados por Julius Arp, Hans Gaiser e Frederico Sichel inauguravam o ciclo metalúrgico, somando-se às empresas alemãs no município. Criava-se a Fábrica de Ferragens Hans Gaiser(Haga). Deixo ao articulista do jornal A Paz a conclusão dessa matéria: “...a nossa cidade experimentará, pela primeira vez, a sensação do estremecimento do seu solo para força propulsora da indústria moderna(...) é o início de uma nova Era para a nossa cidade...”(29/01/1911). Diante desses fatos, a Era industrial não merecia ficar no limbo da história de Nova Friburgo.




Curiosos observam a construção da Fábrica Ypu




O anúncio do centenário publicado em O Globo em 11/06/2011

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