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POR QUE NÃO MORREMOS MAIS EM CASA?


Os romanos, no início de sua civilização, tinham entre os familiares mortos, os seus ancestrais, seus primeiros deuses. Esse culto aos mortos foi encontrado entre os helenos, os latinos, os sabinos e os etruscos. Diante do túmulo havia um altar para os sacrifícios. Freqüentemente levavam ao túmulo de seus ancestrais leite, vinho, óleos, incenso, perfumes e imolavam animais em oferenda, num banquete fúnebre. O túmulo romano tinha a sua culina, espécie de cozinha destinada as oferendas ao morto. Se deixassem de oferecer a refeição fúnebre aos mortos, sairiam esses dos túmulos e, como sombras errantes, seriam ouvidos gemer na noite silenciosa. Repreendiam igualmente os vivos pela sua negligência ímpia, procuravam puni-los, enviando-lhes doenças ou ameaçando-os com a esterilidade do solo. Enfim, não davam aos vivos descanso até que os repastos fúnebres lhes fossem oferecidos. O sacrifício, a oferta de alimentos e a libação faziam-nos voltar ao túmulo e garantiam-lhes o repouso e os atributos divinos. O homem estaria então em paz com os seus mortos. Essa religião dos mortos parece ter sido a mais antiga entre os homens e a origem do sentimento religioso. A morte foi o seu primeiro mistério.



A Lei das XII Tábuas determinava que os mortos fossem enterrados fora dos limites da cidade e estabelecia o modo de vestir o cadáver. Disciplinava ainda o comportamento das pessoas nos funerais, especialmente das mulheres: “Que as mulheres não arranhem as faces nem soltem gritos imoderados”. Cumpre esclarecer, que muito antes os egípcios foram os precursores da religião funerária e as pirâmides são o que mais simbolizam a sua obsessão pela morte. Os gregos e os romanos promoviam os jogos fúnebres em homenagem a um falecido ilustre. Tanto as olimpíadas gregas como as lutas entre os gladiadores romanos, têm a sua origem nesses ritos fúnebres para tecer preito aos de cujus honoráveis. Na Idade Média, acreditava-se que, por serem as mulheres que davam “a luz”, eram igualmente encarregados do preparo do defunto, pois quem dá a vida, também se encarrega da morte.



Analisemos alguns comportamentos dos friburguenses diante da morte, no início do século XX. Outrora, quando “falecia da vida presente” um friburguense, o corpo era velado na residência do falecido. A sala era transformada em “câmara ardente”. No ataúde, o corpo repousava rodeado por círios tendo ainda à cabeça, um crucifixo. As paredes da câmara ardente eram forradas de preto, com uma profusão de coroas mortuárias e velas que ardiam ao redor do esquife. Durante o dia, a residência era visitada pelos amigos, sendo praxe ainda enviar à família cartas, cartões e telegramas. Nas ruas, a população aguardava a saída do féretro, no mais sincero acatamento. Os homens tiravam o chapéu em sinal de respeito. O préstito fúnebre que percorria a cidade, dava certa familiaridade aos friburguenses com a morte, incorporando-a ao seu cotidiano. Ao final da tarde, geralmente às cinco horas, partia o cortejo fúnebre para a Igreja Matriz, onde, depois da cerimônia da encomendação, seguia para o cemitério. Da igreja até o cemitério, tocava uma banda de música sentida marcha fúnebre, e igualmente ao baixar o caixão à sepultura, após a oração de estilo. Os necrólogos faziam discursos fúnebres antes de baixar o caixão à sepultura. Os jornais transcreviam os nomes de todos que enviavam flores e acompanharam o enterro, no caso do falecimento de um membro da elite.


É curioso que primeira metade do século XX, por ocasião do aniversário da cidade, os friburguenses peregrinavam aos túmulos dos primeiros colonos que habitaram a vila, um costume perdido ao longo dos anos. No passado as mães acreditavam que as crianças mortas viravam anjos e isso as reconfortava. Outrora no cemitério de Nova Friburgo havia uma área reservada apenas para as crianças, a “Quadra dos Anjos”. Na tragédia ocorrida em Nova Friburgo em 12 de janeiro, nos emocionou um homem simples do povo que perdera sua filha pela queda de um barranco. Ele disse: “Que Deus a tenha em bom lugar”. De forma inconsciente, aquele homem se culpava por não ter dado a sua filhinha um lugar seguro, um bom lugar para viver. O conforto de que Deus levou sua filha para a sua glória.
Outrora nascia-se e morria-se em casa. Transferimos o velório da sala, onde viveu o morto, como se fazia outrora, para os imundos necrotérios.



Atualmente, temos a prática de retirar o doente desenganado do convívio familiar para sepultá-lo antecipadamente em estabelecimentos de saúde, a morte “higiênica e técnica, mas solitária e desumana”, conforme José de Souza Martins. No jargão médico se diz “paciente fora das possibilidades terapêuticas” ou ainda “vai a óbito”. Quantas vezes presenciamos familiares aguardar a morte de um parente desenganado internado em um hospital? Não se morre mais em casa, no meio dos seus: morre-se em um leito hospitalar e sozinho. Pergunta-se? Por que não deixar o doente desenganado morrer em casa? São essas mudanças de comportamento na sociedade que faz com que alguns historiadores se debrucem sob esse objeto, a morte, para escrever a história das mentalidades coletivas.

O CENTENÁRIO DA REINTEGRAÇÃO DE AMPARO



Quando li em A Voz da Serra a matéria “Amparo comemora cem anos de reintegração a Nova Friburgo”, senti-me com a missão de escrever algo sobre esse importante distrito. Na celebração do centenário, com uma intensa e elaborada programação, as apresentações musicais são bem ecléticas como samba, forró, gospel, tango, baião, MPB, dança típica suíça e capoeira, traduzindo aquilo que é o Brasil, uma miscigenação de raças e culturas. Contadores de histórias, teatro de fantoches, concurso de boneca viva, jipeiros, gincana, atividades esportivas e os primeiros jogos florais de Amparo, complementam a programação. Comparando com a comemoração do cinquentenário, em 1961, quando era prefeito Amâncio Mário de Azevedo, a celebração fora bem mais cívica e singela, com desfile de escolas, bandas de músicas e à noite um grande baile no Cine-Theatro de Amparo. Aproveitando a presença de autoridades políticas como o prefeito, vereadores e deputados, os amparenses, na ocasião do cinquentenário, não perderam a oportunidade de apresentar sua reivindicação que era, à época, a pavimentação da estrada Zigue-Zag e a que ligava Amparo às Braunes, muito utilizada para se deslocar de Amparo ao centro de Friburgo. A ASSAMAM, Associação de Moradores e Amigos de Amparo era muito articulada e possivelmente pioneira em termos de mobilização de comunidades de bairros. No centenário de reintegração de Amparo à Nova Friburgo, não faltarão clamores e reivindicações aos políticos que comparecerem aos festejos, pois o bairro está absolutamente abandonado pelo poder municipal depois da tragédia de janeiro. É assustador os barrancos e encostas sustidas pela obra do Divino que não viram uma ação sequer do poder público municipal, estadual ou federal. No passado, foram muitas as rogativas dos amparenses pela melhoria de suas estradas e igualmente serão, no presente, para que os órgãos públicos tomem providências no sentido de arrefecer e minimizar o impacto das chuvas de verão.



Para realizar a minha pesquisa sobre a história de Amparo, por mais bizarro que possa parecer, encaminhei-me ao cemitério da vila. Percorri suas alamedas em busca dos túmulos dos primeiros habitantes locais. Os registros mais antigos que localizei foram de enterramentos no último quartel do século XIX. As famílias que se destacam nas transcrições das lápides são de alemães e suíços, a exemplo dos Gripp e dos Frossard, respectivamente, mas igualmente os Alves da Costa. Era natural que ali convivessem suíços e alemães, pois muitas das datas de terras abandonadas pelos colonos suíços, nos Núcleos Coloniais, foram transferidas aos colonos alemães, que vieram justamente para ocupar essas áreas desprezadas por alguns suíços. Já possuía dois importantes pontos de partida: a datação aproximada da ocupação de Amparo e a constatação de que suíços e alemães ocuparam aquelas terras. Logo, Amparo teria uma ocupação territorial que remonta ao século XIX e ocupada por colonos. Mas estava enganada, pois sua ocupação foi anterior, trinta anos antes. A ocupação de Amparo remonta ao final do século XVIII, no último decênio desse século, muito antes do que nos revela o cemitério da vila. Recorrendo a fontes secundárias, foi nos apontamentos do major Heber Alves da Costa, “Amparo Redivivo”, que uma janela abriu-se a respeito de um distrito que tem uma das histórias mais fascinantes.


A região onde se localiza Amparo pertencia inicialmente a Cantagalo. Mas com a criação do Termo de Nova Friburgo, em 1820, Amparo passou a pertencer-lhe, pois fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão. Era uma importante freguesia de Nova Friburgo, devido a uberdade de suas terras. São José do Ribeirão, Sebastiana(Estrada Friburgo-Teresópolis) e Paquequer(Sumidouro) eram importantes freguesias agrícolas de Nova Friburgo. Em 1857, a Freguesia de São José do Ribeirão possuía uma população de “mil almas”, onde cultivava-se o café e a cana-de-açúcar, com predominância do café, e com forte concentração de escravos. Não foi por acaso que quando extinguiu-se a escravidão no Brasil, os moradores da Freguesia de São José do Ribeirão foram um dos que mais se queixaram junto à Câmara Municipal, pleiteando que aquele órgão intermediasse a indenização pelos prejuízos causados.


No centenário de reintegração a Nova Friburgo, fica a seguinte pergunta: por que reintegração? Isso deve-se ao fato de Amparo ter sido anexado a Bom Jardim no início da República. Isso não agradou em nada a população local e depois de incessantes reivindicações conseguiram reverter a situação e tornar a anexar-se, em 1911, a Nova Friburgo. O governo republicano mexeu e remexeu muito as fronteiras dessa região, ao sabor dos caciques políticos. Mas a história de Amparo é muito instigante e cercada de mito e lenda, a exemplo do mito de sua origem: jactam-se seus habitantes ser Amparo a terra dos inconfidentes. Outra é a história de que foi graças ao colono alemão da família Gripp, morador de Amparo, que o café java difundiu-se na província fluminense. E Amparo sediou um dos primeiros núcleos do espiritismo no Brasil e foi um grande produtor de café e celeiro do Rio de Janeiro e de Niterói, na primeira metade do século XX. Convido o leitor de AVS a acompanhar, nas próximas semanas, a história do distrito de Amparo, que sem sombra de dúvida, é uma das mais interessantes de Nova Friburgo.



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O HOMEM DIANTE DA MORTE: RITOS E MENTALIDADE.SOMOS TODOS CAVEIRAS DO BOPE











Pode causar estranheza, mas muitas vezes os historiadores se valem de fontes que o senso comum pode até considerar bizarro, mas que fornecem ao pesquisador material suficiente para se reconstituir as relações familiares, as mentalidades, as visões de mundo, o comportamento, entre outras. Assim o fez o historiador francês Philippe Ariès em dois volumes de sua obra, “O Homem perante a Morte”, um clássico no tema. No Brasil, “A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira” organizado por José de Souza Martins é um livro interessantíssimo e igualmente “A Morte é uma Festa”, por João José Reis. A morte vem sendo historicizada dando importante contribuição à história das mentalidades. Chamou-me a atenção o emblema do BOPE em uma visita que fiz àquela instituição, em outubro desse ano, com meus alunos de História do Direito Brasileiro da Candido Mendes. O símbolo do BOPE, uma caveira com uma faca verticalmente encravada no crânio e duas pistolas transversas foi apropriado de um esquadrão inglês da Segunda Guerra Mundial, que tinha como missão sabotar as bases nazistas na França ocupada. Essa alegoria significa VENCER A MORTE. Não é necessário esclarecer aqui o risco diário de suas vidas a que esses homens estão sujeitos em suas atividades cotidianas. Em 2007, Marco Antonio Gripp, sargento do BOPE, nascido em Nova Friburgo, foi baleado logo depois de sair do blindado numa incursão em uma comunidade no Rio de Janeiro. Em entrevista a um jornal, assim declarou: “...Eram 23h quando avistamos um grupo. Trocamos tiros e eles entraram no beco. Demos a volta e desembarcamos para ver se tínhamos acertado alguém. Entramos no beco escuro e eu puxei a ponta [foi à frente]. Quando virei a esquina, estava a dois passos do cara[traficante]. Como estava escuro, só vi a boca de fogo da arma dele. Levei dois tiros na barriga. Uma passou a um centímetro do rim. Pensei que ia morrer. Continuei trocando tiros. Travou a arma e fui para um abrigo. Um tiro pegou no carregador e ficou no colete. Dois tiros acertaram o meu fuzil, um bateu na câmara de gás e outra na janela de injeção. FOI MINHA VITÓRIA SOBRE A MORTE..” Apesar de dois tiros que o atingiu, ele sobreviveu e está novamente na ativa. Por isso, esses homens gritam sempre: CAVEIRA!

Como disse antes, a “vitória sobre a morte” é representada pela alegoria da caveira com uma faca encravada sobre o crânio. Mas é possível uma vitória sobre a morte? Desde que a medicina evoluiu é plausível que o homem contemporâneo tenha tal pensamento, o que era absolutamente inconcebível para o homem oitocentista(sec.XIX), época em que medicina ainda dava os primeiros passos. Diante da morte, só lhes restava a resignação, a contrição, o resguardo e principalmente a humildade. No século XIX, quando a medicina nada mais podia fazer no padecimento da doença, quando se vai perdendo o vigor e azougam as forças, os poderosos homens de outrora, senhores de escravos e ricos proprietários, tornam-se humildes diante dos últimos sacramentos. Numa contrição religiosa e desprendidos de tudo que é profano, aprestam-se a comparecer súplices, humildes e caridosos perante o Juiz Divino. Nesse momento, alguns se vestem com indumentárias de ordens religiosas, outros libertam escravos ou pedem mortalhas simples. D. Pedro I, homem autoritário, morreu tuberculoso aos 35 anos de idade em 1834. No seu leito de morte em Portugal, pediu que no seu enterro não houvesse exéquias reais, como determinava o protocolo. Queria ser enterrado em caixão de madeira simples, como um soldado. Já a sua amante, a biscaia Marquesa de Santos, falecida em 1867, encomendou 70 missas: 50 pela sua própria alma e em um gesto de humildade hipócrita, característica das elites da época nessas ocasiões, pediu 20 missas para seus escravos mortos. Elias Antonio de Moraes, o Barão de Duas Barras(1840-1928) por ocasião de sua morte é colocado como um benemérito por ter auxiliado na educação de “moços desfavorecidos” que depois alcançaram posição de relevo na sociedade. Na hora da morte, de senhor de escravo passa a “pai dos pobres”. O Barão de Nova Friburgo(1795-1869) igualmente pediu ritos simples, por ocasião de sua morte, nos informa Luiz Fernando Folly no livro “Barão de Nova Friburgo”. O barão solicitou ser envolto em um pano preto, colocado em caixão simples e enterrado em cova rasa, simbolizando nesse rito o desapego às coisas materiais. Tanto o Barão de Nova Friburgo quanto o de Duas Barras, no derradeiro momento de suas vidas, trocam o açoite do “bacalhau” que tanto rasgou os corpos de seus escravos, pelo cajado e o báculo dos humildes. Imaginam que os ritos simples na hora da morte os tornam sublimes e apagam seu passado onde amealharam fortuna às custas do sofrimento humano, a escravidão.


Passados pouco mais de um século, é interessante comparar essas duas visões de mundo do homem perante a morte: a das elites oitocentistas e a de Marco Antonio Gripp, soldado do BOPE. Dos primeiros, a resignação, a contrição e a humildade. Do segundo, o desafio, a luta e o triunfo. Nessa ambivalência do pensamento humano podemos perceber uma mudança de mentalidade que coloca um fosso profundo, ditado pela linha do tempo, entre esses dois estágios da história da humanidade. Muda-se o pensamento diante da morte que pode ser vencida pelo homem contemporâneo, sendo a ciência médica um fator determinante. Atualmente, doenças como a tuberculose, o câncer e a AIDS não são mais sentenças de morte, começa-se a acreditar. Consequentemente, já que podemos vencer a morte, pode-se afirmar, por analogia à alegoria do BOPE, que somos todos CAVEIRAS!
Foto abaixo: O sargento Marco Antonio Gripp em ação. Na foto é o quinto da esquerda para a direita, em primeiro plano, com uma arma na mão.





O sargento Marco Antonio Gripp é o segundo da esquerda para a direita.



É interessante as representações sobre a morte. No século XIX , era comum as pessoas da elite fotografarem seus familiares mortos antes de os enterrarem, em situações do seu cotidiano. Alguns até já apresentavam o rigor mortis. Muitas vezes os familiares vivos participavam dessas fotos com os mortos.



A simulação era tão perfeita, que abaixo, mal percebemos na foto qual das mocinhas é a morta.



Provavelmente é a que se encontra sentada antes de apresentar o rigor mortis.












Uma criança morta. A mãe provavelmente desejava uma última imagem da filha entre suas bonecas.

OS CEMITÉRIOS EM NOVA FRIBURGO: UM LUGAR DE MEMÓRIA




Túmulo de um prussiano morte em um duelo em Nova Friburgo no início do séc.XIX.







Túmulos de civis alemães da Marinha Mercante aprisionados no Sanatório Naval, em Nova Friburgo(RJ), na Primeira Guerra Mundial(1914-18).

Faleceram devido a uma epidemia de tifo em Nova Friburgo.






Lápide de um dos alemães que faleceram de tifo.




AS FOTOS ABAIXO SÃO DO CEMITÉRIO LUTERANO EM NOVA FRIBURGO:













No século XIX, os cemitérios eram considerados pelos médicos higienistas como os responsáveis por diversas doenças, devido ao contato com a terra “corrupta” desses locais. O primeiro cemitério no perímetro da vila de Nova Friburgo localizava-se onde hoje fica o prédio da maçonaria, na Rua Sete de Setembro. Há informação de que numa reforma realizada há alguns anos atrás no prédio da maçonaria, foram encontradas ossadas dos primeiros habitantes da vila. Em 1846, a Câmara resolveu mudar a localização do cemitério da Rua Sete de Setembro. As constantes enchentes que ocorriam no Rio Bengalas inundavam o cemitério fazendo com que alguns corpos emergissem devido a ação água, abrindo sepulturas e provocando grande constrangimento na vila, não bastasse o risco de acarretar doenças. Mas além da situação geográfica do cemitério da Rua Sete de Setembro ser desfavorável, devido as enchentes, urgia ainda a construção de um cemitério maior, “último depósito dos viventes”, tendo em vista que, com o aumento da população, os enterros eram realizados sobre cadáveres ainda “não deteriorados”. Optou-se pelo morro fronteiro à Rua do Senado(atual Alberto Braune), isto é, no local onde o cemitério se encontra atualmente.

Em Nova Friburgo, além do cemitério público, haviam diversos cemitérios particulares espalhados pelas freguesias do município e pelas fazendas nos arredores da vila. Foram muitos os pedidos à Câmara Municipal de licença para se fazer um cemitério protestante nas propriedades de colonos suíços e alemães, devido a longa distância de suas terras nos números coloniais até a vila. Por volta de 1860, Conrado Satler, morador das Cachoeiras de Macahé, confessando a religião cristã evangélica, visto não haver cemitério para seus “correligionários” senão a distância de duas léguas, requer estabelecer um cemitério de sua crença em sua fazenda. Em Nova Friburgo, eram inúmeros os cemitérios: Cemitério da Irmandade do Santísimo Sacramento(o atual), Cemitério de Santo Antonio, na freguesia de São José do Ribeirão, Cemitério dos Números, Cemitério do Alto Macahé, Cemitério de Eggendorn, Cemitério de São José, Cemitério de Lumiar, Cemitério do Córrego Sujo, fora os cemitérios localizados em inúmeras fazendas.

Em 1870, convindo por cobro ao abuso dos cemitérios particulares, o governo provincial recomendou que se proibissem por meio de posturas, os enterramentos fora dos cemitérios públicos ou que as Irmandades autorizassem. Onde eram enterrados os escravos ns vila de Nova Friburgo? Há referência de um cemitério onde os mesmos foram sepultados, o Cemitério do Oratório de Santo Antonio, mas não há indicação de sua localização. Brancos pobres eram igualmente enterrados nesse cemitério. Surpreendentemente, há registro no Livro de Registro de Óbitos na Catedral São João Batista de alguns escravos enterrados no cemitério da Irmandade, uma entidade formada pela elite da época. Um surto de cólera ocorrido em 1865 na Europa e nos Estados Unidos assustou as autoridades do governo imperial. Como disse antes, os cemitérios sempre foram alvos dos médicos higienistas. Recomendou-se à Câmara, entre outras medidas, fiscalizar os cemitérios públicos e particulares, afastando-os quando possível dos centros das povoações. Em 1868, se discutiu sobre a mudança do cemitério da vila para fora do povoado. O governo provincial oferecia aos municípios condições para sua transferência, caso considerassem sua localização prejudicial à salubridade. Quando a Presidência da Província solicitou à Câmara de Nova Friburgo que informasse se convinha a mudança do cemitério da vila, respondeu-se que a transferência era de grande necessidade, visto que o cemitério estava localizado em um morro, tornando-se difícil a condução dos enterros, além de ser “contristador”, por encontrar-se na entrada da vila. No entanto, o que mais preocupava a população era o fato de ser o cemitério um foco de doenças. Segundo ata da Câmara, “estando o cemitério colocado dentro da área da povoação se torna anti-higiênico e, por conseguinte, afetando de algum modo, a salubridade pública...”. Mas nessa ocasião, nada se fez de concreto.


Em 1892, novamente entra em pauta na Câmara Municipal a transferência do cemitério para os arrabaldes da cidade, indicando-se o atual bairro de Duas Pedras. O motivo da remoção era novamente de ordem sanitária, pois já se consolidara o entendimento de uma corrente de higienistas de que a terra dos cemitérios estava impregnada de miasmas morbíficos. Essa mudança não logrou êxito por pressão da própria elite friburguense, mais especificamente por um grupo de notáveis, como o Barão de Duas Barras e Galdino do Vale, que sustentavam que a cidade crescia pelas bandas de Duas Pedras, já havendo muitas habitações no local, conforme noticiava a Gazeta de Friburgo de 20 de outubro de 1895. E assim, o cemitério persiste até hoje no mesmo local. Outrora, havia ainda uma área no cemitério demarcada para o enterro somente de crianças, a “quadra dos anjos”. Cabe por fim destacar que no passado, por ocasião do aniversário da cidade, costumava-se fazer uma peregrinação aos túmulos dos primeiros habitantes da vila, tecendo-lhes preito. O Cemitério Luterano igualmente nos fornece boas fontes históricas. Essa matéria, feita por ocasião do dia de finados, serve apenas para demonstrar que mal nos damos conta de que os cemitérios, além de serem um local onde repousam os nossos mortos, são lugares de MEMÓRIA DA CIDADE.



CEMITÉRIO DE AMPARO





































Curiosidade: CEMITÉRIO

Em Nova Friburgo, há coisas curiosas. Na primeira metade do século XX, a administração do cemitério reservava uma quadra para o sepultamento somente de crianças, denominado-a de “Quadra dos Anjos”.
Outra curiosidade é que na atual sede da Maçonaria, na Rua Sete de Setembro, existia o antigo cemitério da Vila de Nova Friburgo. No entanto, como as enchentes do Rio Bengalas eram constantes, depois que as águas baixavam muitos corpos ficavam à vista, já que todo cemitério ficava inundado. Por isso, o cemitério atualmente se encontra localizado na parte alta cidade, em virtude do constrangimento que provocava junto à população de ver sepulturas descobertas após as enchentes. Segundo relatos, até recentemente, quando a Maçonaria fez obras em sua sede, alguns esqueletos do antigo cemitério foram encontrados.

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