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DO ENTRUDO MOLEQUE ÀS ESCOLAS DE SAMBA: Breve História do carnaval de Nova Friburgo



Carro da Batalha das Flores em Nova Friburgo



A primeira referência de carnaval em Nova Friburgo pode-se aferir do Código de Posturas de 1849, em seu art.137: “É absolutamente proibido o jogo denominado entrudo”. O entrudo é um antigo folguedo carnavalesco em que os foliões molhavam-se reciprocamente lançando água de baldes ou limões-de-cheiro ou então atiravam farinha numa espécie de batalha. Limões-de-cheiro ou laranjas-de-cheiro era o nome pela qual eram chamadas as pequenas bolas de cera recheadas de água perfumada. Apesar da proibição, pode-se constatar que o entrudo ainda era praticado em Nova Friburgo até o final do século 19, inclusive pela elite. Já no final desse século, o carnaval em Nova Friburgo era bem movimentado devido ao grande número de veranistas na cidade. Havia desfile de carruagens ricamente adornadas por motivos alegóricos cujo préstito percorria as ruas do centro da cidade. Havia ainda o desfile de carruagens da Batalha das Flores.


Eram carruagens ricamente adornadas de flores como camélias, orquídeas, rosas, etc. onde a elite local e veranistas, a exemplo da família de Rui Barbosa, desfilavam com garbo e elegância pelas ruas da pitoresca Nova Friburgo. Alegres foliões em retumbantes Zé-Pereira percorriam as ruas da cidade, atordoando os ares num zabumbar infernal com seus latões de querosene e gritando “formidolosamente” com todas as forças de seus possantes pulmões. O grande barato do carnaval oitocentista era manter-se no anonimato sob as máscaras e disfarces nos três dias de folia e aquela pergunta que ninguém agüentava mais ouvir depois dos folguedos carnavalescos: “Você me conhece”? Muitos vernistas que possuíam residências em Nova Friburgo abriam seus salões na segunda-feira, único dia em que não havia bailes nos hotéis, para folias petit comittèe. Dizia-se à época: “enquanto descansa-se…folga-se”. Ou seja, no dia em que se descansava dos bailes dos hotéis, se folgava nos bailes particulares.


Outrora prevalecia no carnaval a espirituosidade: Ia-se às ruas para ver e ouvir a “idéia e a pilhéria”. Eram críticas aos serviços públicos municipais como a distribuição de água, a iluminação precária, a sujeira das ruas, etc. Os rapazes que amavam a troça e a alegria, cheios de fina verve, preparavam-se para dar um “sortão” medonho nos três dias de carnaval. Até as marchinhas, a crítica social prevaleceu nas letras carnavalescas, mas depois passou a ser substituída por outros temas. Os cordões surgem a partir da segunda metade do século 19. Eram formados por grupos de foliões mascarados com feições de velhos, palhaços, diabos, reis, rainhas, índios, baianas, entre outros, conduzidos por um mestre e obedecendo a um apito de comando. Parecem ter sido cordões ao final desse século, em Nova Friburgo, os “Dominós Espirituosos” e “Caninhas Verdes”. Posteriormente, os cordões passaram a se denominar blocos e outros se transformaram em ranchos.



Na primeira metade do século 20 se percebe que o eixo dos três dias de folia girava em torno dos blocos. Passistas eram chamadas de “bailarinas”. Havia inúmeros blocos na cidade como “Manda quem pode”, “Quem e quais são eles”, “Sossega Serpente”, “Bloco do Boi”, “Mamãe eu quero”, “As Camisas Azuis”, “Bloco dos Abandonados”, “Os Leões da Avenida Quaresma”, “Alegres Foliões”, “O Palhaço quem é?”, “As Baianas do Hotel Roma”, “As 60 mortes”, “Lá vem ela chorando”, “A Lyra da Mocidade”, “Eu sou do Amor”, além dos blocos dos hóspedes dos hotéis. Oficiais e marujos do Sanatório Naval davam um show de evolução nos folguedos carnavalescos de Nova Friburgo com o bloco “Sossega Leão”. Há o registro de pelo menos dois ranchos: “Quem é bom não se mistura” e “As Estrelinhas”. Havia a competição entre eles nas seguintes modalidades: música, harmonia, canto, orquestra, conjunto, “maior número”[de componentes], evolução, elegância, estandarte, fantasia, enredo e “orientação”.


Há referência da existência do “corso” em Nova Friburgo. O desfile de carruagens enfeitadas com motivos florais é substituído por automóveis sem capota. O corso eram os passeios das sociedades carnavalescas numa tentativa de se reproduzir a Batalha das Flores. Como na Batalha das Flores, ao se cruzarem, os ocupantes dos veículos lançavam uns nos outros confetes, serpentinas e esguichos de lança-perfume. Como o automóvel era na ocasião restrito a muito poucos, não aparece em todos os carnavais de Nova Friburgo.




Acima: O Corso no Rio de Janeiro


Quando se inaugura na cidade os clubes de serviço como o Clube do Xadrez, Clube dos 50, a Sociedade Alemã de Nova Friburgo(depois SEF) e o elitista e seleto Country Club, o gret attention dos bailes carnavalescos da elite friburguense passa a ser nesses clubes. Outrora, os bailes carnavalescos eram realizados nos grandes hotéis da cidade como o Hotel Engert, o Hotel Central e o tradicional Hotel Salusse. Os bailes populares eram igualmente promovidos pelas sociedades musicais. Nos dias atuais, os bailes nos clubes de serviço decaíram vertiginosamente. Atualmente, os blocos compartilham com as escolas de samba o eixo principal no carnaval de Nova Friburgo. Os ranchos foram substituídos pelas escolas de samba. Na realidade, o rancho tem a mesma estrutura de uma escola de samba, sendo que a única diferença é que o rancho tem um ritmo mais lento. As pastorinhas, mocinhas recatadas que desfilavam nas escolas, foram substituídas pelos corpos desnudos das passistas, onde seios e nádegas são expostos em um exibicionismo catártico, simbolizando as pombagiras da religião africana, como definiu o antropólogo Roberto da Matta.


As pastorinhas




Infelizmente, a coreografia das escolas de samba eclipsou a figura do passista, aquele que tem o “samba no pé”. Oriundos em sua maior parte das classes populares, sambistas e passistas realizam os jogos de inversão hierárquica em relação às elites nos dias de carnaval. Concentram a atenção da sociedade em torno de si e se esmeram em tornar-se dominantes, os verdadeiros reis da folia. E SÃO!

Abaixo ilustrações do Entrudo:










Ilustrações do Carnaval na primeira metade do século 20. Paris, França.





Crédito da foto da Batalha das Flores: Acervo Castro.





O PÉ DE BICHO NO MUNDO DO FAZ DE CONTA:AS MEMÓRIAS DE LEÔNIDAS DA VILAGE DO SAMBA

Normalmente se reconhece um apaixonado por sua escola de samba quando se chega, sem marcar hora, para fazer uma entrevista, como foi o meu caso, e encontra o sujeito com a camisa do “Grêmio Recreativo da Vilage”, a verde e branca. Foi assim que encontrei, com a camisa de sua escola, recostado na janela, Luiz Leônidas do Nascimento. Nascido em 1932, morou a vida inteira na Vilage. No passado, recorda-se que próximo à sua casa ficava a chácara do Manoel Rodrigues onde havia plantação de uvas e fabricação de vinho branco. A molecada ajudava na colheita da uva, que dava direito a generosos copos do vinho do Patatinha, como era conhecido o português Manoel. Leônidas tornou-se uma liderança na Vilage, numa época em que havia rixa entre os bairros da cidade. Havia a turma do Centro, da Vila Amélia, do Paissandu e “o pessoal da General Osório era um perigo”, diz Leônidas. Segundo ele, “rolava o sopapo” quando um membro de um bairro entrava no “território” do outro. Mas a turma da Vilage era considerada a melhor de briga. Leônidas transgrediu duas vezes essa fronteira dos bairros: A primeira, quando se apaixonou por Tereza, que morava nas Braunes, casando-se com ela e levando-a para a Vilage. A segunda, foi quando ele juntamente com Estrangeiro, Eliude, Tião e Nelson resolveram participar da “Alunos do Samba”, escola pertencente ao centro da cidade (hoje a escola pertence a Conselheiro Paulino). Ensaiavam na Rua Monsenhor Miranda, freqüentada pelos “filhos do Sr. Doutor”, relata Leônidas. Chegando lá foram expulsos, pois eram considerados “pé de bicho”, ou seja, andavam descalços. Leônidas e seus amigos não tinham dinheiro para comprar sapatos: “Éramos pé de bicho porque dava bicho[de pé] mesmo, não tinha jeito, de vez em quando tinha que tirar um bichinho do pé...”, recorda-se Leônidas.


Inconformados com a expulsão, fundaram a própria escola e foi nesse momento que surgiu o “Grêmio Recreativo Vilage do Samba”, fundado em 23 de setembro de 1948. Para tanto, foram na fábrica de Carbureto(onde hoje é a Frivel) e roubaram latões de carbureto para fazer os surdos. Cortando os latões ao meio fizeram o tarol. O couro de cabrito e de novilho, ideal para os instrumentos, era doado pelo alemão Edmundo Weidlich, do Curtume de Duas Pedras. Confeccionaram os tamborins, os triângulos e somente o agogô foi comprado. O símbolo da águia foi Leônidas quem escolheu, pois gostou da imagem que um amigo trouxe dos Estados Unidos e a cor verde e branca, também partiu dele. Foram campeões no primeiro ano que a Vilage do Samba desfilou, em 1949. Perderam em 1950, mas ganharam em 1951, 1952 e 1953. E a Vilage do Samba desde então sempre se destacou no carnaval da cidade. Vocês marcaram território quando fundaram a Vilage, pergunto? “Não, na Vilage do Samba qualquer um poderia participar”, responde Leônidas. Não fizeram com os outros o que “Alunos do Samba” fez com ele e o seu grupo, excluindo-os. Além dos “Alunos do Samba” havia outras escolas como a “Saudade”, criada seis meses antes da Vilage, e a “Chacrinha”, ambas do Bairro Ypu. Havia ainda a “Unidos do Terreirão”, de Olaria. O Clube de Futebol Esperança era o único clube esportivo que tinha escola de samba, denominada “Unidos Verdejante”.


Com o passar dos anos a estrutura das escolas de samba não alterou muito, afirma Leônidas. Mas no passado, havia a ala das “Pastorinhas”, ala das moças bonitas, com vestidos longos. A escola tinha pouco mais de cem componentes. Nessa época não havia samba-enredo feito pelas escolas. “Não tinha esse negócio da escola fazer o seu samba”, relata Leônidas. Escolhia-se um samba conhecido e se desfilava cantando esse samba. O compositor da escola de samba surgiu apenas em 1955. Eram bons tempos para o carnaval da cidade. As fábricas disputavam quem auxiliava mais as escolas de samba assinando o “Livro de Ouro”. As fábricas “assinavam” mais que o comércio. O governo federal também auxiliava com dinheiro, através da prefeitura, para as escolas de samba. O folião não pagava pela fantasia. Comprava-se as fantasias com o que se arrecadava no “Livro de Ouro”.

Em novembro se começava os preparativos para o desfile das escolas. Hoje é feito com mais antecedência, em julho. Uma diferença do carnaval antigo eram os passistas, que sambavam mesmo. Tinham que dançar conforme o ritmo da música. Leônidas se ressente que hoje em dia o folião somente pula e não se preocupa em dançar com o ritmo do samba. Fazem coreografia apenas. Tereza, sua esposa, interfere e diz que havia preconceito no passado quanto às passistas: “escola de samba não era para filha de família, era para moça que não prestava”. A casa de Leônidas e Tereza transpira hospitalidade. Quando conversei com ambos parece que já os conhecia há muitos anos. Tereza disse orgulhosa que na véspera, quem tomou café em sua casa foi Rogério Faria, dono da STAM. Rogério, como seu pai Francisco Faria, é um mecenas da Vilage do Samba. A diretoria da escola fizera uma homenagem a Leônidas tocando em frente à sua casa. Leônidas sorriu quando pedi para ouvir o samba, pois a maneira com que se refere à sua escola é contagiante. Ouvi o samba e ele me presenteou com o CD autografado. Quando escrevi a matéria revi o enredo da Vilage do Samba que fala dos “Filhos Do Faz De Conta”. Lembrei-me da trajetória de Leônidas. O “pé de bicho”, como foi chamado, entrou no mundo do faz de conta, criou uma escola de samba com bateria de latões de carbureto e hoje, recostado em sua janela, pode tranquilamente dizer da escola que criou: “Hoje o sonho é real/ ganhei a vida, virei carnaval/ boneca sapeca a sambar/ na vila que me faz cantar.”

Crédito: Fotos extraídas do Blog "Vilage do Samba".

Em virtude da catástrofe natural ocorrida em Nova Friburgo
na madrugada do dia 12 de fevereiro de 2011, não houve carnaval no município em
respeito às vítimas do sinistro.

A BELLE ÉPOQUE



Jornal A Voz da Serra:
"Obra apresenta pontos polêmicos e retrata a Belle Époque da cidade"
matéria publicada em 29/06/2009


Obra apresenta pontos polêmicos e retrata a Belle Époque da cidade:

Política e Economia entram como pano de fundo para contextualizar e explicar uma realidade social diferente sobre Nova Friburgo, na última década do século XIX – espaço temporal sob análise. Janaína Botelho vai desconstruir, basicamente, pontos tidos como inquestionáveis na História do município serrano. O primeiro é a suposta supremacia da agricultura na referida década. Segundo a pesquisadora, foi o turismo o grande motor da economia local por conta das epidemias que assolavam a então capital do País, o Rio de Janeiro, fazendo com que os cariocas passassem quase seis meses por ano em Friburgo. Outro ponto polêmico do livro diz respeito à qualificação da cidade como “Suíça Brasileira” se os parâmetros que justificam tal título forem socioculturais. Para Janaína, critérios geográficos e climáticos são os únicos a favorecer tal similitude. A pesquisadora é enfática ao afirmar que imigrantes italianos e portugueses tiveram participação bem mais ativa na região do que os colonizadores suíços, sem esquecer dos turcos, espanhóis e africanos.Mas o livro revela muito mais do que as desconstruções históricas: mostra que Friburgo viveu a sua Belle Époque, seguindo uma tendência nacional de europeização dos costumes. Janaína Botelho pesquisou os jornais “O Friburguense” e “A Sentinella”, publicações periódicas entre 1890 e 1900, em especial as crônicas sociais do período, e consegue traçar, com riqueza de detalhes, o cotidiano da cidade e o perfil de seus habitantes, analisando seus costumes, modos de convivência, atitudes, tensões e formas de sociabilidades. Ao mesmo tempo, abre espaço para crítica social e aponta formas preconceituosas e racistas adotadas pela população.


Foto acima: Famílias tradicionais na elite friburguense, na Batalha das Flores, divertimento do carnaval do final do século XIX.


Polícia carnavalesca – soldados rolistas e maxixeiros


Na matéria de hoje relato uma situação que ocorreu no carnaval de Nova Friburgo, no início do século XX. Apesar da violência do fato, não deixa também de ser jocoso. Trata-se de um carnaval de rua, onde participava o “Zé-Povinho”, palavras da época, que se divertia a fartar na Rua do Arco, à época denominada Beco do Arco. Até hoje temos a rua com este nome. No passado, era onde moravam as classes populares, com casas do tipo meia-água, estreitas e geminadas. Era onde funcionavam as casas de tavolagem ou alcouces de prostituição e ainda, pequenas oficinas de falsificação de bebidas alcoólicas.
No carnaval, as classes populares se divertiam na Rua do Arco, onde se praticava o entrudo, jogando limões uns nos outros. Mas havia ainda os bailes populares promovidos pelas sociedades musicais da época. Neste último caso, o público era o que corresponderia hoje a uma classe média. Mas vejamos o que ocorreu naquele malfadado carnaval de fevereiro de 1901, em que a população friburguense sofreu a macaca. Segundo o jornal, a polícia, que era paga para garantir a ordem e a tranqüilidade pública, transformou-se durante os três dias de carnaval em verdadeiro “pomo” de discórdia e em ameaça perene ao pacato cidadão que procurava divertir-se durante os folguedos carnavalescos. No primeiro dia de carnaval, enquanto populares se divertiam no Beco do Arco, soldados que se achavam em ronda naquela rua causaram grande distúrbio, pondo em completa debandada os “mansos transeuntes e os inocentes assistentes”. “Transformando sabre em sardinha”, ainda segundo o jornal, a “bambolear” o corpo, com gestos de capoeiragem e atitude agressiva, ameaçavam a tudo e todos, retirando-se “os valentes homens” somente quando o beco ficou deserto pela fuga precipitada do povo indefeso.
Mas o pior ainda estava por vir. Além de diversos conflitos com população durante o carnaval, no terceiro e último dia provocaram novo sarrilho na sede da Sociedade Musical Estrela, na Rua Gal. Osório, onde ocorria um baile de carnaval. Os “heróicos” homens trocaram o Campo de Marte pelo do Momo. Invadiram a sede da Sociedade Musical Estrela, apesar do protesto dos sócios, avançaram com ganância sobre a mesa de um botequim comendo todos os pastéis, beberam quanto quiseram e se retiraram para a sala do baile, recusando-se a efetuar o pagamento do que haviam consumido. Na sala do baile, “tomaram a pulso” parte nas danças e ao som de um tango “choroso e mole” dançaram os policiais num “maxixe quebrado e dengoso”, a folgar carnavalescamente. O subdelegado, esquecendo-se também da posição de seu cargo, atirou-se num “choro gostoso”, gritando: “Não sou autoridade, não sou nada! Sou um homem como os demais!” Depois de quebrarem uma talha d´água transformando a sala em um vasto lago, o subdelegado e os soldados em promíscua confusão, ao som de uma habanera, deixaram a sede em roxo fandanguassú. Chegando à rua, com a voz esganiçada, falavam aos assustados transeuntes: “vocês nos conhecem? Nós somos os encarregados de velar pela segurança e tranqüilidade pública!”.
Apesar do delegado haver prometido descontar dos soldos dos soldados as despesas das bebidas, pastéis e doces que haviam se refestelado, além da talha que quebraram quando estiveram “bamboleando com o corpo”, o encarregado do baile ficou a ver navios, “pois do cobre, nem sombra”. Concluía o jornal na matéria “Polícia Carnavalesca – soldados rolistas e maxixeiros”: “Durma-se com um barulho deste!”
Fonte: Jornal O Friburguense. Fundação D.João VI de Nova Friburgo.

ARLEQUINS, PIERRÔS E COLOMBINAS: O CARNAVAL EM ESTILO COMMEDIA DELL ARTE EM FRIBURGO

O carnaval de Nova Friburgo demarcava posições sociais e estabelecia territórios, fazendo emergir no mesmo tempo e espaço, realidades distintas e comportamentos bem diversos. Enquanto a elite friburguense buscava o estilo europeizado, inspirada na commedia dell´arte, o Zé-Povinho ainda trazia resquícios da festa colonial com seu retumbante Zé-Pereira e os entrudos moleques que chocavam aos arautos da civilidade. Mas por que carnaval no estilo commedia dell´arte? O casamento de D.Pedro II com d.Tereza Cristina, irmã do rei das Duas Sicílias, traz de Nápolis e outras cidades ao Brasil, músicos e cantores italianos. As óperas italianas eram uma verdadeira coqueluche na Corte. Mas em que momento o carnaval se mistura com a ópera? Tudo começou em meados de 1840, quando uma trupe italiana, falida, resolveu se virar e organizou no Teatro São Januário um carnaval no estilo veneziano de máscaras. A partir de então, figuras carnavalescas da commedia dell´arte italiana como o pierrô, o arlequim e a colombina incorporam-se ao carnaval brasileiro. Nos salões de carnaval da Nova Friburgo fin-de-siècle, os bailes à fantasia causavam verdadeiro frisson entre os veranistas e os cortesãos friburguenses, incansáveis por representarem, nas montanhas, o clima e a atmosfera dos bailes venezianos, tão em moda naquela época. Porém, nos restritos bailes de carnaval da elite friburguense, como os do Hotel Central, Salusse e D. Eugênia, a vigilância nos salões era sistemática. Nestas soirèes carnavalescas, os organizadores temendo que a canalha da cidade se infiltrasse entre “pessoas gradas da sociedade friburguense”, nomeavam uma comissão especial de cavalheiros para incumbir-se de identificar, na porta da entrada, os convidados que se apresentavam mascarados, já que a graça do carnaval da época era o anonimato.

Nos carnavais de Nova Friburgo eram freqüentadores habituès o Conde e a Condessa de Nova Friburgo, o Barão e a Baronesa de São Clemente, o Barão e a Baronesa de Duas Barras, a família do notório político Rui Barbosa, entre outros. Nos salões a iluminação era feita com acuidade para destacar as ricas ornamentações feitas com folhagens, flores, bandeirolas, lanternas, escudos com máscaras, tudo feito para dar ao local uma atmosfera do carnaval veneziano. O baile carnavalesco era dividido em duas partes: antes e depois da meia-noite. Na primeira parte, brincadeiras de dominós que circulavam anônimos e silenciosos e cavalheiros fantasiados sob máscaras de cetim, que com voz em falsete, teciam ditos espirituosos e proferiam intrigas carnavalescamente inofensivas. E a pergunta que não cessavam de fazer: “Você me conhece?” O grande frisson era descobrir quem se encontrava por detrás das fantasias. Em todos os bailes da cidade, mesmo nos populares, era norma que até a meia-noite os convidados conservassem a fantasia e a máscara, mantendo o anonimato. Na segunda parte, depois da meia-noite, dançavam com o espocar das garrafas de champanhe quadrilhas, valsas, tangos, mazurcas, polcas e o schottisch, este último abrasileirado e conhecido como “xote”. A partir de 1870, aparece o maxixe, que Ernesto Nazareth chamará de “tango brasileiro”.

Entre os cavalheiros predominava o dominó e fantasias como chevalier fin-de-siècle, egípcio, astrônomo, pescador napolitano, jockey, folie, turco e clown. Já senhoras e senhoritas vestiam-se de coquellicot, paysanne coquette, cordon bleu, arlequine, charlotte corday, mercière, vendeuse de fleurs, bebé, napolitana, moyen âge, bonquetière, papoula rubra, trovadora, dominó, santuzza da ópera de Mascagni, miosótis, jardim, camponesa suíça, arlequim e cigana.

Em Nova Friburgo, muitas famílias da elite promoviam durante o carnaval soirées privadas em suas residências, ocorrendo geralmente na segunda-feira, isto porque os bailes nos salões dos hotéis se realizavam no domingo e na terça-feira. Os nobres foliões apesar dos ardores na noite anterior não deixavam de atender a estes convites. Havia entre eles o seguinte jargão: “enquanto descança-se...folga-se”. Enquanto “descansavam” dos bailes do domingo gordo e da terça-feira, “folgava-se” nas residências dos anfitriões com baile à fantasia, verdadeiro pendant dos hotéis. Conforme um cronista da época, “parecia que se vivia em um mundo à parte, aonde não chegavam os ecos e clamores do mundo contingente: longe da carestia dos gêneros, longe dos maus criados e longe do piano da vizinha”.

Fonte: Jornal O Friburguense. Fundação D.João VI de Nova Friburgo.

BATALHA DAS FLORES, ENTRUDO E O ZÉ PEREIRA: "VOCÊ ME CONHECE?"



“Salve, Carnaval!/Esperar pelo folguedo/Um ano, não é brinquedo../(...)Enfim, chegou o tal, suspirado carnaval./Cloriforme virgulado, virá ele, com micróbios?/ Digam os sábios ambrosios/ se o sobredito traz mal?/ Se o cujo está constipado/ e preso sobre o costado/conduz a constipação./Dê-se uma polvilhada/água de seringada/ completa desinfecção.”
Esta foi uma das músicas cantada nas ruas de Friburgo, no carnaval de 1895. Percebe-se uma ironia à política higienista empreendida pela Câmara Municipal, que era administrada em sua maioria por médicos. Mas o carnaval era assim, um momento para citar os denominados “ditos espirituosos” e os friburguenses percorriam a cidade para ouvir a “idéia e a pilhéria” que normalmente criticavam o governo em relação aos bonds que não chegavam, o projeto de luz elétrica que não saía do papel, o imposto da décima urbana, nosso IPTU de hoje, a iluminação precária dos lampiões ou a campeã das reclamações, a Companhia de Trem Leopoldina. Logo, os foliões friburguenses adoravam ouvir os grupos carnavalescos, como os caninhas verdes, que percorriam as ruas da cidade cantando os “ditos espirituosos”. Era uma verdadeira catarse do povo contra os governantes da cidade. Ainda pelas ruas, retumbantes Zé Pereiras num zabumbar contínuo atroavam os ares com os ruídos de suas latas de querosene, destruindo os ouvidos da pobre humanidade. A escravidão mostrava sua permanência no carnaval de rua, pois um gaiato vestido de negra “Mina” tirava a sorte dos transeuntes, provocando gargalhadas da população. Grupos de rapazes e moças da sociedade percorriam as casas e o comércio, troteando e “pintando o padre”.
O entrudo moleque ainda era praticado e a população munida de bisnagas, confetes e limões, divertia-se “pintando o sete”, não obstante o entrudo ter sido proibido em Friburgo, a partir do carnaval de 1895. O entrudo é um antigo folguedo carnavalesco em que os brincalhões molhavam-se reciprocamente lançando água de baldes, limões-de-cheiro, que consistiam em bolas de cera, alguns contendo até urina, ou atiravam farinha uns aos outros. Depois fez-se uso de bisnagas, que substituíram os limões de cera. Essa prática foi popular em Portugal, mas, sobretudo no Brasil, até 1845, quando a brincadeira ficou sujeita a proibições mais rigorosas.




No carnaval de rua, havia ainda a Batalha das Flores, realizada na Praça do Suspiro, sendo promovida pela elite da cidade ou no dizer dos jornais da época, o que havia de “seleto e distinto em nossa sociedade”. A Batalha das Flores tinha este nome porque os “carros” puxados a cavalo eram ornamentados por inteiro com flores artificiais e naturais como orquídeas, rosas, papoulas, camélias ou cravos, estas duas últimas muito comuns na cidade. Estes ornamentos de flores tinham formas de animais, como um cisne, borboletas, motivos de mar ou estilo japonês. O “carro” da família Rui Barbosa era um char á bancs, bouton d'or em feuillage, trés distingue, dizia o jornal. Já “carro” dos descendentes do Barão de Nova Friburgo era uma delicada corbeille blanche de camélias. Era “uma verdadeira tetéia”.

Depois do desfile pelas ruas, damas e cavalheiros digladiavam-se em animada e ardente batalha atirando uns aos outros as flores dos “carros”, ao som das “furiosas” bandas de música. E ainda havia os anônimos mascarados que enchiam a paciência dos foliões com aquela incessante e enjoada pergunta: “Você me conhece?”

Fonte: Jornal O Friburguense, Fundação Pró-Memória de Nova Friburgo.

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