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Do Jockey Club à cavalgada de São Jorge: Da sociabilidade mundana ao rito religioso












Friburgo Jochey Club - 1911

Ao longo da história, o fato de se possuir um cavalo e de se transformar em um cavaleiro, sempre deu status aos homens. Na Antiguidade, o imperador romano Calígula elegeu seu cavalo senador. Mas muito antes dele, Alexandre, O Grande, tinha no seu cavalo, Bucéfalo, o seu maior aliado nas batalhas. O cavalo sempre foi um companheiro de reis e nobres, tornando-se um esporte da aristocracia em várias nações europeias. No Brasil, no século XIX, com a europeização da sociedade brasileira, o turfe, ou seja, as corridas de cavalo, passaram a ser um esporte e uma forma de sociabilidade das elites. O turfe foi introduzido no Brasil pelos ingleses, influenciando as modas e os modos da aristocracia brasileira. Em 1877, já há o registro de corridas de cavalo promovidas nas ruas da vila de Nova Friburgo.






















Em 1883, surge, em Nova Friburgo, o clube atlético denominado General Osório que promovia corridas de cavalo na rua do mesmo nome. Há o registro ainda do Clube Atlético Bargossi, que pediu permissão à Câmara para colocar postes de raia na Praça do Suspiro, para que se realizassem corridas aos domingos e dias santificados. Por iniciativa da família do Barão de Nova Friburgo, os Clemente Pinto, foi fundado em 22 de abril de 1881, o Jockey Club de Nova Friburgo. A família inauguraria igualmente, em 12 de julho de 1885, o prado do Jockey Club Cantagalense, no Palacete do Gavião. O primeiro presidente do Jockey Club de Nova Friburgo foi o Barão de São Clemente, fazendo parte do seleto club Augusto Marques Braga, Pedro Eduardo Salusse, o médico e presidente Câmara Municipal Ernesto Brazílio, entre outros. Do conselho fiscal participavam Elias Antonio de Moraes, o 2° Barão de Duas Barras, e o empresário do ramo hoteleiro, Carlos Engert. Não se pode precisar, mas em dado momento o Jockey Club de Nova Friburgo se extinguiu.










Anos depois, foi fundado em 30 de abril de 1911, o Friburgo Jockey Club, também formado pela elite local, por iniciativa de Octávio Veiga, Galdino do Valle Filho e do Cel. Galiano Emilio das Neves Junior, os dois últimos grandes inimigos políticos. Já no século XX, havia em Nova Friburgo dois prados: o prado Entre Rios, em Lumiar, e o Prado de Corridas de Conselheiro Paulino. O prado de Conselheiro Paulino tinha sua sede social no Hotel Salusse. Competições de equitação eram igualmente realizadas no Friburgo Futebol Clube.






Nos dias de competição, era um alvoroço na cidade. Ainda cedo, todas as garagens de bicicletas eram procuradas por visitantes das localidades próximas, que, em trajes esportivos, cortavam alegres as extensas alamedas da Praça 15 de Novembro (atual Getúlio Vargas). Às 11:00 horas, todos se dirigiam à Estação da Leopoldina para recepcionar as “embaixadas” de Niterói, Petrópolis e da “Força Pública”. Eram recebidos com “hurras vibrantes” por todos os esportistas presentes na estação. As torcidas, os sportmen, vinham a Nova Friburgo animar os seus atletas. Os cariocas que vinham assistir ao turf friburguense, ficavam geralmente hospedados no Hotel Central (hoje edifício Folly), Floresta e Suspiro. Como é comum nesses espaços de sociabilidade, as corridas de cavalo atraíram a alta sociedade, sendo ocasião para o exibicionismo de indumentárias e, segundo o jornal A Paz, “as arquibancadas apresentavam o que de mais elegante possui a nossa sociedade”.





Em julho de 1986, foi fundado o Clube do Cavalo de Nova Friburgo, funcionando provisoriamente em Amparo. Objetivava-se incentivar a criação de cavalos de raça no município, com a participação dos criadores locais em exposições e em organizar provas entre os associados. O Clube do Cavalo contava com a participação da classe média friburguense, e não mais da classe alta, como outrora. Curiosamente, o associado não precisava ter cavalo, não se cobrava taxa de seus associados, diferentemente do passado quando se cobrava uma “joia”. No mesmo ano de sua fundação, foi realizada a I Prova de Hipismo Rural de Nova Friburgo, em Conselheiro Paulino. Nas modalidades, marcha, cross, baliza, rodeio, laço e tambor. Leilão de animais e igualmente um espetáculo artístico estavam previstos na programação. Mas o Clube do Cavalo foi extinto. Atualmente, acontece a cada ano, em Nova Friburgo, a Cavalgada de São Jorge, já na sua décima quinta edição. Seus integrantes são cavaleiros pertencentes às classes populares. A cavalgada se inicia no curral do sol, provavelmente por influência do antigo prado de Conselheiro Paulino. O evento conta com a participação de cavalheiros e amazonas provenientes de vários bairros e de outros municípios. Os integrantes percorrem várias localidades de Nova Friburgo, passando inclusive pelo centro da cidade. Nessa ocasião, a imagem de São Jorge, padroeiro dos cavaleiros, abre o préstito, que faz uma procissão de aproximadamente sete quilômetros. Júlio do Cavalo, promotor do evento, prometia churrasco de confraternização com um animado forró aos que quisessem participar da cavalgada.



















A história da cavalaria em Nova Friburgo passa por um processo interessante: como vimos, o turfe era um esporte inicialmente das classes sociais mais abastadas e progressivamente ganhou popularidade. No Clube do Cavalo a montaria ganhou elementos de religiosidade, com a figura São Jorge, orago e padroeiro dos cavaleiros. Isso demonstra o profundo sentimento religioso do povo brasileiro, que acrescentou à festa mundana ritos religiosos, diferentemente das elites que nunca associaram a cavalgada ao santo que lhe é padroeiro.

Observação: Todas as fotos acima são da Cavalgada de São Jorge em Nova Friburgo.





































As Folias de Reis em Nova Friburgo





Conforme escreveu Melo Moraes Filho, “essa bem aventurança popular, esse esquecimento momentâneo das lutas pela vida, só a religião largamente proporciona...” As Folias de Reis ainda estão presentes na cultura popular de Nova Friburgo. Composta por homens das classes populares, elas mantêm a tradição dos tempos de antanho. O objetivo desta matéria é demonstrar como essa prática cultural se manifesta em Nova Friburgo, já que em cada região do Brasil ela varia sobremaneira. São componentes da folia o mestre, os contramestres e os foliões, ocorrendo uma hierarquia nessas posições. As folias iniciam a sua apresentação no dia 08 de dezembro. Porém, há folias em Nova Friburgo que “cantam” durante todo o ano. São muito solicitadas nessa ocasião por particulares ou mesmo por uma comunidade para fazerem uma apresentação. A folia Estrela da Guia, em 2009, deixou de atender a 19 convites por falta de agenda.




Quando chegam a uma residência, o dono da casa abre a porta e recebe a bandeira, guia da folia de reis, que leva estampada a imagem da Sagrada Família e outras representações da passagem bíblica como o nascimento, a fuga o Egito, etc. A bandeira geralmente recebe uma oferta em dinheiro e a espórtula é voluntária. Há um lugar na bandeira para se colocar a oferenda e há muitos versos para agradecê-la quando os foliões entoam o seguinte canto: “Meu senhor dono da casa, eu já lhe devo obrigação, recebeu nossa bandeira e está com ela na mão. Com a bandeira na mão, eu peço o seu consentimento, pra entrar em sua casa, vou parar meus instrumentos.” Ou então: “Recebeu nossa bandeira e está com ela na mão, pra entrar em sua casa, quero a sua permissão”. São infindáveis os versos de cantoria das folias e só a Estrela da Guia possui mais ou menos dois mil versos, fruto da composição de muitas gerações. Os versos não são uma coisa fechada. Cada localidade têm os seus versos, não sendo o mesmo em Nova Friburgo, Minas Gerais ou no Maranhão. César Eduardo Tarden, da folia Estrela da Guia, é da terceira geração de uma família que “cantou reis”. Começou a cantar desde os oito anos, respondendo a “requinta”. Mas o que é a requinta na folia de reis? Segundo Tarden, “quando se arremata um verso a requinta responde. É um grito lá naquelas alturas, tudo trovado”. Exige uma voz muito fina e geralmente são as crianças que fazem a requinta.

A maioria das folias têm como instrumentos uma sanfona, um pandeiro e a bateria. As mais ricas são mais bem aparelhadas, como é o caso da Estrela da Guia, que possui um acordeão, uma caixa, cinco violões, duas violas caipiras, uma rabeca(violino), um bandolim, quatro cavaquinhos e uma caixa de bumbo para marcar a requinta. Mas os instrumentos básicos são a sanfona, o bandolim e a caixa. No entanto, para Tarden, o violão, a viola e o violino fazem a diferença. E a figura do palhaço? O palhaço não está presente em todas as folias. As folias de Minas Gerais, segundo Tarden, não tem palhaço. No entanto, há folias em Nova Friburgo que tem até três palhaços. O palhaço na folia representa os soldados de Herodes, isso porque ele mandou seus soldados se disfarçarem de palhaço.


“Herodes recebe os magos com grande perturbação, e onde nasceu o menino, ele indagou com precisão. Os três reis do Oriente já voltaram de Belém, adoraram o Deus menino, o filho que a virgem tem. Voltaram por outro caminho, pra livrar o Deus menino, das garras do rei Herodes, que têm um gênio Maligno.” Tradicionalmente, a folia está ligada ao nascimento de Jesus Cristo. Há todo um rito na apresentação das folias. Inicia com a Anunciação, entre os dias 08 a 24 de dezembro. Depois da Anunciação vem o Nascimento, em 25 de dezembro. A Anunciação e o Nascimento fazem parte de uma mesma fase. As etapas seguintes são a Visita dos Pastores, a Adoração, a Fuga do Egito, a Perseguição de Herodes, o Martírio e a Crucificação. Todas essas etapas têm cantorias próprias que se estendem em apresentações pelo mês de janeiro e estão relacionadas às passagens bíblicas.


“Eu de todas as mulheres, dali eu fui a escolhida, pelo Divino Espírito Santo, a serva de Deus preferida. No ventre da Virgem Maria, um menino foi gerado, e antes do nascimento, ele foi anunciado.” O versos da folia são rimados, como as trovas, mas alguns cantam sem rimas. “Os três reis foram chegando, cada passo mais além, afinal que até chegaram, no presépio de Belém.” Curiosamente as mulheres não participam das folias, e a sua aceitação é um fato raro. Nas apresentações diante do presépio, que duram entre meia hora e quarenta minutos, há uma ordem, sendo que uma folia tem que aguardar o término do trabalho da outra. Cada folia tem a sua cor, são bicolores, mas não são como as escolas de samba e os times de futebol em que cada qual tem a sua cor. Podem até repetir a mesma cor. Cada folia tem o seu canto, puxado pelo mestre.



Antigamente, quando duas folias se encontravam uma cantava para a outra. Mas como algumas cantavam o calongo, ou seja, bobagens, e não as passagens bíblicas, começou a haver conflitos entre as folias chegando-se, muitas vezes, às vias de fato. Segundo Tarden, “tinham muitos que cantavam provocando um ao outro e o que era necessário cantar não cantava.” Quando o Papa João Paulo II assumiu, proibiu o “desafio” entre as folias de reis em decorrência dessas confusões. Em 2009, vinte e duas folias foram cadastradas na Secretaria de Cultura de Nova Friburgo e nos encontros chegam a participar mais de oitenta, muitas delas provenientes de outros municípios. Finalmente, existe o “arremate” que é o encerramento da folia, com uma grande festa de congraçamento, com a presença de um padre, e toda a comunidade de onde provêm as folias se confraterniza.


A HOSPITALEIRA VILA DE AMPARO


Amparo é uma aprazível vila modorrenta que até hoje preserva seu casario do tipo colonial, alheia à passagem do tempo, cuja tradição é a sua simplicidade e a hospitalidade de seus moradores. Pode-se afirmar que o tempo parou em Amparo. Atualmente, o cinturão verde das regiões do Campo do Coelho, Conquista e Salinas abastecem com hortaliças e legumes o Rio de Janeiro. Mas no passado, Amparo foi o distrito-celeiro que abastecia esses grandes centros urbanos. No século XIX, quando fazia parte da Freguesia de São José do Ribeirão, foi um dos maiores produtores de café de Nova Friburgo. As terras de Amparo foram escolhidas pela aristocracia rural friburguense oitocentista, onde os Galiano das Neves possuíam a Fazenda Cachoeira, ainda hoje na propriedade da família.




Nos tempos de antanho, utilizava-se a estrada do Alto das Braunes para se deslocar de Amparo ao centro de Nova Friburgo. Na primeira metade do século XX, Amparo produzia café, milho, feijão e cana de açúcar. Gradativamente, foram sendo introduzidas a horticultura, a fruticultura e floricultura. Amparo abastecia o Rio de Janeiro e Niterói com produtos de sua lavoura, a exemplo da batata inglesa(“batatinha”), tomate, cenoura, arroz, ervilha, repolho, nabo, aipo, batata doce, feijão e mandioca. Na floricultura existiam extensas plantações de cravo, rosa, margarida, palma, lírio, saudade, entre outras. No tocante a fruticultura, Amparo produzia caqui, lima, tangerina, laranja, banana, pêra, uva, maçã, pêssego e ameixa. Analisando alguns discursos no livro de Heber Alves da Costa, “Amparo Redivivo”, percebe-se que Amparo foi um importante distrito agrícola de Nova Friburgo até aproximadamente a década de 50, do século XX, com predomínio da lavoura branca, hortaliças e legumes. Mas na década de 60 desse século, muitos se reportaram a decadência da lavoura na região, o marasmo, a estagnação, um distrito atolado na inércia qual caramujo segregado numa concha. Um dos maiores problemas da lavoura era a via que ligava os produtores rurais de Amparo ao mercado, com estradas sem pavimentação, dificultando e encarecendo o transporte da produção.


Mas o que possivelmente corroborou com o declínio da lavoura no distrito, foi a migração de muitas famílias para o centro de Nova Friburgo, devido ao emprego atrativo nas grandes indústrias recém estabelecidas na cidade. Nova Friburgo entra na Era industrial. Com a instalação das primeiras indústrias em Nova Friburgo, a partir de 1911, acredita-se que houve uma evasão significativa do campo rumo às fábricas. Segundo o memorialista Heber Alves da Costa, “até o início da Era industrial em Nova Friburgo, a lavoura era explorada em amplas proporções, no distrito de Amparo.”

Outro fator a se considerar foi que os filhos dos prósperos agricultores, distanciando-se por “plagas longínquas”, abraçaram profissões liberais como médicos, veterinários, advogados, professores, dentistas, engenheiros, etc., abandonando a tradição do amanho da terra. Na década de 60 do século XX, Amparo ficou silente e parado, sem evoluir, onde não se via mais as serras onduladas, coberta pelos verdes mantos dos cafezais, dos milharais e das capoeiras. O articulista Nelson Kemp relembra a farta produção agrícola de Amparo, os mais velhos recordando o tempo da fazenda do Coronel Chonchon(Galiano Emílio das Neves Junior), o café enchendo o paiol, os carros de boi repletos de cereais. Amparo, terra fértil e de clima ameno e saudável, atestando a sua salubridade no verde vivo da vegetação, no ouro dos frutos, nas faces rosadas das crianças e na longevidade dos anciãos. A longevidade de seus habitantes é atestada por Eugênio Gripp, o “patricarca de Amparo”.



Nascido em 15 de maio de 1859, filho de uma família de nove filhos, seu pai, Jorge Gripp, diz a tradição oral, foi o introdutor do café java em Cantagalo. Eugênio Gripp fundou em Amparo a Associação Promotora de Instrução à Infância Anália Franco e o Centro Espírita São João Batista, em 02 agosto de 1888. Falecido aos 95 anos de idade, nos últimos anos de vida, levantava cedo para cuidar de seu pomar. Caminhava o ancião pela vila com o costumeiro chapéu de Chile e longa capa cinzenta, cabelos brancos, faces rosadas e brilhantes olhos azuis da herança germânica. Amparo possuíra a Sociedade Musical Recreio Amparense, de fardamento azul com botões dourados, fundada em 13 de janeiro de 1913 e extinta em 1940, com algumas tentativas posteriores de reabilitação; o Amparo Futebol Clube, fundado em 1927; o Grupo Dramático Amparense, o clube de Malha, o animado carnaval e micareme e os bailes no Cine-Teatro Almeida, cujo prédio ainda se mantém, testemunha de um passado glorioso. Ainda que localidade onde boa parte da população era espírita e protestante, a capelinha de Nossa Senhora do Amparo foi inaugurada, em 1950, contando com o auxílio dos não católicos. Junto ao coreto da ajardinada pracinha da vila, é o busto de um medium, Manoel Antonio Monteiro, que foi erigido numa homenagem dos amparenses. Amparo, terra dos Gripp, Alves da Costa, Frossard, Folly, Sanglard, Schuenck, Toledo, Lugon, Monteiro, Lamblet, Mury, Hermsdorff, Heckert, Pereira, Schuabb, Bussinger, Emerick, Heckert, Schumacker, Heller, Thurler e muitas outras famílias. Se há um local que nos remete a um passado longínquo é a vila de Amparo. Toda a sua vila deveria ser tombada pelo patrimônio histórico. Que bom que voltou a pertencer a Nova Friburgo!


DO ENTRUDO MOLEQUE ÀS ESCOLAS DE SAMBA: Breve História do carnaval de Nova Friburgo



Carro da Batalha das Flores em Nova Friburgo



A primeira referência de carnaval em Nova Friburgo pode-se aferir do Código de Posturas de 1849, em seu art.137: “É absolutamente proibido o jogo denominado entrudo”. O entrudo é um antigo folguedo carnavalesco em que os foliões molhavam-se reciprocamente lançando água de baldes ou limões-de-cheiro ou então atiravam farinha numa espécie de batalha. Limões-de-cheiro ou laranjas-de-cheiro era o nome pela qual eram chamadas as pequenas bolas de cera recheadas de água perfumada. Apesar da proibição, pode-se constatar que o entrudo ainda era praticado em Nova Friburgo até o final do século 19, inclusive pela elite. Já no final desse século, o carnaval em Nova Friburgo era bem movimentado devido ao grande número de veranistas na cidade. Havia desfile de carruagens ricamente adornadas por motivos alegóricos cujo préstito percorria as ruas do centro da cidade. Havia ainda o desfile de carruagens da Batalha das Flores.


Eram carruagens ricamente adornadas de flores como camélias, orquídeas, rosas, etc. onde a elite local e veranistas, a exemplo da família de Rui Barbosa, desfilavam com garbo e elegância pelas ruas da pitoresca Nova Friburgo. Alegres foliões em retumbantes Zé-Pereira percorriam as ruas da cidade, atordoando os ares num zabumbar infernal com seus latões de querosene e gritando “formidolosamente” com todas as forças de seus possantes pulmões. O grande barato do carnaval oitocentista era manter-se no anonimato sob as máscaras e disfarces nos três dias de folia e aquela pergunta que ninguém agüentava mais ouvir depois dos folguedos carnavalescos: “Você me conhece”? Muitos vernistas que possuíam residências em Nova Friburgo abriam seus salões na segunda-feira, único dia em que não havia bailes nos hotéis, para folias petit comittèe. Dizia-se à época: “enquanto descansa-se…folga-se”. Ou seja, no dia em que se descansava dos bailes dos hotéis, se folgava nos bailes particulares.


Outrora prevalecia no carnaval a espirituosidade: Ia-se às ruas para ver e ouvir a “idéia e a pilhéria”. Eram críticas aos serviços públicos municipais como a distribuição de água, a iluminação precária, a sujeira das ruas, etc. Os rapazes que amavam a troça e a alegria, cheios de fina verve, preparavam-se para dar um “sortão” medonho nos três dias de carnaval. Até as marchinhas, a crítica social prevaleceu nas letras carnavalescas, mas depois passou a ser substituída por outros temas. Os cordões surgem a partir da segunda metade do século 19. Eram formados por grupos de foliões mascarados com feições de velhos, palhaços, diabos, reis, rainhas, índios, baianas, entre outros, conduzidos por um mestre e obedecendo a um apito de comando. Parecem ter sido cordões ao final desse século, em Nova Friburgo, os “Dominós Espirituosos” e “Caninhas Verdes”. Posteriormente, os cordões passaram a se denominar blocos e outros se transformaram em ranchos.



Na primeira metade do século 20 se percebe que o eixo dos três dias de folia girava em torno dos blocos. Passistas eram chamadas de “bailarinas”. Havia inúmeros blocos na cidade como “Manda quem pode”, “Quem e quais são eles”, “Sossega Serpente”, “Bloco do Boi”, “Mamãe eu quero”, “As Camisas Azuis”, “Bloco dos Abandonados”, “Os Leões da Avenida Quaresma”, “Alegres Foliões”, “O Palhaço quem é?”, “As Baianas do Hotel Roma”, “As 60 mortes”, “Lá vem ela chorando”, “A Lyra da Mocidade”, “Eu sou do Amor”, além dos blocos dos hóspedes dos hotéis. Oficiais e marujos do Sanatório Naval davam um show de evolução nos folguedos carnavalescos de Nova Friburgo com o bloco “Sossega Leão”. Há o registro de pelo menos dois ranchos: “Quem é bom não se mistura” e “As Estrelinhas”. Havia a competição entre eles nas seguintes modalidades: música, harmonia, canto, orquestra, conjunto, “maior número”[de componentes], evolução, elegância, estandarte, fantasia, enredo e “orientação”.


Há referência da existência do “corso” em Nova Friburgo. O desfile de carruagens enfeitadas com motivos florais é substituído por automóveis sem capota. O corso eram os passeios das sociedades carnavalescas numa tentativa de se reproduzir a Batalha das Flores. Como na Batalha das Flores, ao se cruzarem, os ocupantes dos veículos lançavam uns nos outros confetes, serpentinas e esguichos de lança-perfume. Como o automóvel era na ocasião restrito a muito poucos, não aparece em todos os carnavais de Nova Friburgo.




Acima: O Corso no Rio de Janeiro


Quando se inaugura na cidade os clubes de serviço como o Clube do Xadrez, Clube dos 50, a Sociedade Alemã de Nova Friburgo(depois SEF) e o elitista e seleto Country Club, o gret attention dos bailes carnavalescos da elite friburguense passa a ser nesses clubes. Outrora, os bailes carnavalescos eram realizados nos grandes hotéis da cidade como o Hotel Engert, o Hotel Central e o tradicional Hotel Salusse. Os bailes populares eram igualmente promovidos pelas sociedades musicais. Nos dias atuais, os bailes nos clubes de serviço decaíram vertiginosamente. Atualmente, os blocos compartilham com as escolas de samba o eixo principal no carnaval de Nova Friburgo. Os ranchos foram substituídos pelas escolas de samba. Na realidade, o rancho tem a mesma estrutura de uma escola de samba, sendo que a única diferença é que o rancho tem um ritmo mais lento. As pastorinhas, mocinhas recatadas que desfilavam nas escolas, foram substituídas pelos corpos desnudos das passistas, onde seios e nádegas são expostos em um exibicionismo catártico, simbolizando as pombagiras da religião africana, como definiu o antropólogo Roberto da Matta.


As pastorinhas




Infelizmente, a coreografia das escolas de samba eclipsou a figura do passista, aquele que tem o “samba no pé”. Oriundos em sua maior parte das classes populares, sambistas e passistas realizam os jogos de inversão hierárquica em relação às elites nos dias de carnaval. Concentram a atenção da sociedade em torno de si e se esmeram em tornar-se dominantes, os verdadeiros reis da folia. E SÃO!

Abaixo ilustrações do Entrudo:










Ilustrações do Carnaval na primeira metade do século 20. Paris, França.





Crédito da foto da Batalha das Flores: Acervo Castro.





SANTO ANTONIO: glória de Portugal que lhe foi o berço, honra da Itália que lhe guarda o túmulo


Em junho, no final do século XIX, Nova Friburgo se preparava para os folguedos das festas de Santo Antonio, São João, São Pedro e da mãe da Virgem Maria, Sant´Anna. Era a estação das festas populares, dos mastros, das fogueiras, das canas, do cará com melado e da batata-doce. Divertimentos profanos como barracas de comidas, música, dança e leilões davam um colorido às práticas religiosas como as missas, ladainhas e procissões em homenagem aos santos taumaturgos.
A festa de Santo Antonio tinha grande concorrência de fiéis e de romeiros que iam pagar suas promessas. Oito dias antes da festa, ao troar de bombas, foguetes e ao som de repiques, era levantado em frente à capelinha na Praça do Suspiro o tradicional mastro azul e branco, tendo no topo um quadro com a efígie do santo de um lado e do outro a dedicatória que dizia “gloria a Santo Antonio”. Na véspera, havia a ladainha e na alvorada do dia 13, dia de Santo Antonio, a sociedade musical Euterpe percorria a cidade despertando os devotos do santo com harmoniosas peças de seu repertório. Às onze horas era celebrada missa, cantada pelos Levitas do Senhor, subindo à tribuna um pregador que eloqüentemente fazia o panegírico do glorioso taumaturgo. Às cinco horas da tarde, as famílias participavam da procissão, repleta de crianças vestidas de anjos e virgens. Juncava-se de folhagens e flores a frente das casas por onde passava o préstito, em tributo ao santo. À noite, era cantada novamente a ladainha.



O inverno nesta época era muito rigoroso em Friburgo, chegando a temperaturas abaixo de zero graus. A população tirava do armário capas, casacos, mantéos, os clássicos cachenets, luvas e ainda assim “forravam por dentro” com Maria Brizard ou outra bebida qualquer que esquentasse. A Câmara Municipal se esmerava em tornar a praça iluminada por luz de acetileno com um holofote soberbo que dardejava raios possantes. Flores e folhagens ornavam um arraial de barraquinhas na Praça do Suspiro, todas iluminadas a giornos, com paredes de lonas brancas, tetos cinzentos de zinco, realçados pelo verde esmeraldino da vegetação. Por toda a extensão das barraquinhas, havia bandeiras e galhardetes de várias cores e nacionalidades. A festa ensejava a comilança e também o consumo de bebidas quentes. No festim de Santo Antonio, os romeiros tiravam a sorte e se esbaldavam com doces, café, refrescos, patos, perus, leitoas, carneiros, vitelas, carás e melado. Ardiam fogueiras assando-se canas e batatas doces. Armava-se um coreto e ao som de uma banda de música apregoava-se um leilão de prendas oferecidas pelos fiéis. Tocavam todas as sociedades musicais, Euterpe, Campesina, Estrela e Recreio dos Artistas. Tanto a colônia portuguesa como a italiana auxiliava na organização da festa deste santo, glória de Portugal que lhe foi o berço e honra da Itália que lhe guardava o túmulo.


Durante a festividade a população afluía à capelinha, levando promessas e donativos ao santo. Alguns levavam pencas de laranja ou frangos que trocavam por medalhinhas e registros com laços de fitas. Atroavam nos ares girândolas de foguetes e ascendiam balões de todas as cores e tamanhos com dísticos e figuras alegóricas. Durante a festividade, as moças solteiras acendiam velas de cera ao santo casamenteiro pedindo por um bom casamento. As meninas vestidas galantemente saíam como bando de andorinhas travessas, à cata de flores para enfeitarem o oratório. Já os meninos corriam pela multidão jogando bichas(sanguessugas) sobre os transeuntes e ainda busca-pés que atiravam para o ar em direção às moças que corriam esbaforidas, com medo de queimarem os vestidos novos.

No último dia da festa, às dez horas da noite, findo o leilão, encerrava-se com a queima de lindíssimos fogos de artifício ao som de repiques dos sinos da igrejinha de Santo Antonio. Numa época em que não havia luz elétrica, estes fogos de artifício tinham uma dimensão muito maior do que hoje e daí a vozearia alegre da gárrula meninada diante deste espetáculo ao fim da festa de Santo Antônio.

Fonte: Baseada em crônicas publicadas no jornal O Friburguense, no século XIX.









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