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FUJAM RAPAZES! O RECRUTAMENTO MILITAR VEM AÍ!


Aviso Importante: vai ser aberto o recrutamento. Previnam-se no sábado, antes do toque de aleluia, não saiam à rua os homens marca gigante...”. Foi assim que o jornal O Friburguense noticiou a possibilidade de um recrutamento em 1893, em Nova Friburgo. Mas por que o alarde quanto ao recrutamento militar? Na realidade, o problema consistia precipuamente nos “braços” para a lavoura que as famílias perdiam em tendo os seus filhos e até maridos recrutados. Logo, quando corria o boato de recrutamento, os filhos dos agricultores escondiam-se nas matas com o auxílio da família, como verdadeiros fugitivos. Desde o período colonial até o Império, o recrutamento para as tropas sempre foi o maior espantalho da população brasileira e a tradição oral ainda conserva em alguns lugares bem viva a lembrança deste temor, nos informa Caio Prado Júnior. Não havia critério algum para o recrutamento, nem sequer organização. Tudo dependia das necessidades do momento e do arbítrio das autoridades. Por ocasião de revoltas e na guerra, como a Guerra do Paraguai(1865-1870), muitos escravos foram cooptados a defender a soberania nacional como soldados de infantaria. Havendo necessidade de soldados, os agentes recrutadores saíam à cata das vítimas, entrando pelas casas, forçando portas e janelas e se dirigiam até as escolas para arregimentar os estudantes. Nem os eclesiásticos se livravam do recrutamento forçado e eram retirados a força de suas paróquias para servir nas Forças Armadas. Quem fosse encontrado pelo recrutador e julgado em condições de tomar as armas era, incontinenti, arrebanhado e levado aos postos. Logo, ao menor sinal de recrutamento, a população masculina desertava dos lugares habitados embrenhando-se no meio do mato. O maior castigo era por o côvado e meio às costas de um brasileiro, isto é, o pano da farda. A elite da época não valorizava a carreira militar, preferindo chefiar as milícias locais, a exemplo da Guarda Nacional, onde recebiam títulos de coronel e armas.



Com a chegada da Família Real em 1808, D. João VI endureceu estabelecendo em 8 anos o tempo de serviço para os voluntários e o de 16 anos para os não voluntários, ou seja, os recrutados à força. No entanto, como o recrutamento desenfreado estava retirando os braços da lavoura, houve uma crise no fornecimento de alimentos às cidades. João VI, por conseguinte, isentou do recrutamento agricultores, condutores de mantimentos, de gado e mineiros. Como os homens trabalhadores e morigerados não poderiam ser arregimentados, optou-se pelos ociosos, já que havia necessidade de homens para os regimentos de Infantaria e Artilharia da Corte. O Decreto n°9 de 1811, ordenava claramente que se recrutassem vagabundos e homens de má conduta, o que para os padrões atuais das Forças Armadas soa como algo extremamente bizarro. D. Pedro I, igualmente esvaziou as prisões cariocas na condição dos criminosos tomarem em armas nos regimentos da Armada, diminuindo ainda o tempo de 8 para 3 anos no intuito de motivar o voluntariado para o Exército. Manteve a proibição de se recrutarem homens morigerados e de não refrescar no recrutamento dos desocupados. Nas ocasiões de recrutamento, as vilas e cidades aproveitavam a solicitação de recrutas para esvaziar as suas cadeias enviando homicidas e vagabundos para servirem na Armada. Mas na prática os recrutadores não respeitavam os trabalhadores, daí a fuga de rapazes dos campos e das oficinas, acoitados pelas famílias, temendo perder sua força de trabalho. Mas no início da década de 1830, as coisas pareciam estar mudando. Localizamos o seguinte ofício dirigido à Câmara Municipal de Nova Friburgo:“...Manda a Regência, em nome do Imperador (...) que a Câmara do município da vila de Nova Friburgo, na expedição das ordens para o recrutamento aos juízes de paz, toda circunspeção para que no número dos recrutados se não admitam homens desprezíveis, mal procedidos e facínoras a fim de se evitarem as cenas de horror de que infelizmente tem sido testemunha esta capital. Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1832”. Pode ser que esse ofício se refira a revolta dos mercenários alemães ocorrida no Rio de Janeiro.



Chegavam os recrutados ao Rio de Janeiro manietados em grupo, mãos amarradas às costas, pés algemados, os mais rebeldes com gargalheiras e a escolta vez por outra baixando o cacete nos mais desaforados. Os escravos nas ruas faziam pilhéria desses igualmente desgraçados. Em 1826, o governo do Ceará colocou 3.000 homens amontoados em uma sumaca com destino à Corte, seminus, e devido à insalubridade da embarcação morreram 553 recrutas. Há um interessante episódio ocorrido em Nova Friburgo por ocasião da Revolução de 1930. De acordo com a tradição oral, no governo de Galdino do Vale Filho, convocou-se rapazes do município para assistir a uma partida de futebol no Campo do Friburgo. Qual nada! O motivo mesmo para pegar na rede o maior número possível de rapazes para servir nas forças legalistas contra os revolucionários. Muitos rapazes levaram para casa o côvado e meio às costas e nunca mais se esqueceram daquela “partida de futebol”. A técnica de recrutamento era a da surpresa e do sigilo. Geralmente ocorria nos dias de festas religiosas, quando a população rural dispersa vinha à vila. Uma armadilha comum era colocar uma banda de música na praça principal do povoado e dar início a uma maviosa retreta. Tão logo a rapaziada se aproximava para saber o motivo da festa, a patrulha escondida caía-lhes em cima e na base do pau e da corda, arrebanhavam os rapazes e os conduzia, a ferros, para os quartéis do Rio de Janeiro. Não fosse trágico o recrutamento no Brasil, pode-se afirmar que seria cômico.



Todas as fotos acima são relativas ao Tiro de Guerra de Nova Friburgo. Acervo do Centro de Documentação Histórica de Nova Friburgo.


GERAÇÃO BENDITA, GERAÇÃO MALDITA: A TURMA DO GALERIA-BAR

Carlos Bini é o segundo, em pé, da direita para a esquerda.
A turma do “Galeria-Bar” tinha mesa cativa no bar da Galeria União. Suas estripulias foram lembradas pelo memorialista Carlos Bini, que era uma espécie de líder do grupo, no livro “A Turma do Galeria-Bar”. Era um grupo de rapazes de classe média, que se reunia quase todas as noites no bar da Galeria União. Depois de se inflarem de bebida alcoólica, pois nenhum deles usava drogas, faziam planos para infernizar a vida dos moradores da cidade nas madrugadas frias de Nova Friburgo. Não faziam o estilo da geração beat, a exemplo de Jack Kerouac. Eram brincadeiras inocentes como bater os sinos da igreja para assustar a população ou ainda roubar lingüiça do açougue com uma vara, aguardando a primeira fornada de pão de uma padaria para comerem pão com liguiça. Sua vida sexual era sádico-burlesca. Promoviam “curras”, ou seja, arrumavam uma mulher que servia sexualmente a todo o grupo num mesmo programa. Após o terceiro, vira “baba de quiabo”, mas para “afogar o ganso” e tirar o “atraso” somente dessa maneira, devido “a falta de mulher naquela época, não tinha jeito”, segundo Bini. Eram geralmente “empregadinhas domésticas”, a exemplo da “Nega Rosa”. Sem perceberem, repetiam as mesmas práticas dos senhores de outrora, que subjugavam as escravas, delas servindo-se sexualmente, valendo-se de sua condição de classe. Mas desde que o mundo é mundo sempre haverá os “bad boys”. Na civilização romana, os filhos de senadores saíam noite adentro pelas ruas de Roma, espancando os transeuntes e embriagando-se.

De tropelia a tropelia, os rapazes da turma do Galeria-Bar eram os donos da noite friburguense, pois na segurança pública havia somente a polícia civil, que possuía apenas um jeep wyllis para ronda e poucos soldados, velhos conhecidos da galera. Segundo Bini, “o entrosamento com a comunidade era calmo, pois havia poucos casos de delitos”. As brincadeiras dos rapazes eram vistas como “coisas de juventude”. A turma participava do “Parlamento Estudantil”, que congregava estudantes de segundo grau do município, e de atividades artísticas como teatro, festivais de música e palestras. Nova Friburgo, uma cidade celeiro no campo da educação, com colégios referência no país, a exemplo do Anchieta e do Colégio Nova Friburgo, irradiava eventos culturais entre os estudantes secundaristas. Havia festivais de teatro, cinema, artesanato, shows de poesia e música no Centro de Artes, com a participação dos friburguenses Egberto Gismonti e Benito Paula. Era o tempo da contracultura provocada pela guerra do Vietnã. Nova Friburgo abrigou a primeira comunidade hipppie do país, localizada em Vargem Alta, e ganhou as páginas da imprensa nacional, um interessante episódio que merece uma matéria à parte. Essa experiência gerou o filme “Geração Bendita” sobre a comunidade hippie em Nova Friburgo, que apesar de ser de qualidade duvidosa, colocou Bini em evidência pela originalidade do tema. Bini produziu ainda com seus amigos dois jornais: “Força Jovem” e o “Jornal de Friburgo”, ambos de vida efêmera, devido a falta de condições econômicas. Mas a geração bendita logo se transformou em geração maldita. Geração maldita porque foi uma geração que vivenciou o golpe militar de 1964, onde a repressão e o patrulhamento ideológico interferia em suas atividades cotidianas. A turma do Galeria-Bar trocou as brincadeiras juvenis pela militância política, promovendo pichações nos muros da cidade com a seguinte frase: “ABAIXO A DITADURA MILITAR”.
Em Nova Friburgo cai o prefeito Vanor Tassara Moreira, considerado comunista e entra o seu vice Heródoto Bento de Melo, que segundo Bini era “considerado homem de direita”. Ainda segundo ele, “O Sanatório Naval em Friburgo era aonde iam os suspeitos de serem contra a ditadura. Várias pessoas foram chamadas a depor e explicar a participação nos movimentos políticos na cidade. Nós, nunca fomos chamados, pois eram tomadas como coisas de estudantes sem grande importância”. Bini passou a ter seus filmes censurados e a poesia de um membro do grupo proibida e ele se perguntava: “Por que os comunistas eram tão perigosos em um país?”

De geração bendita, a geração maldita, dos doces anos verdes da juventude aos duros tempos da repressão e da prisão sem culpa. Consequentemente, a turma do Galeria-Bar amadureceu e trocou a tropelias da juventude pela militância política através de jornais, cinema, poesias, etc. Atualmente, alguns membros já faleceram, mas até hoje a galeria do edifício União continua a ser um espaço de sociabilidade masculina da geração antiga. Podemos mensurar a diferença entre a turma do Galeria-Bar e a geração atual, considerada essa última como individualista, através de suas referências. Para a geração de hoje, o ícone pop é o personagem fictício capitão Nascimento, do filme “Tropa da Elite”. A de outrora, o revolucionário Che Guevara. A diferença é significativa.

Matéria baseada no livro “A Turma do Galeria-Bar”, de Carlos Bini. 2001.





MÚSICAS DE PROTESTO CONTRA A DITADURA MILITAR:




O IMPACTO DA REVOLUÇÃO DE 30 EM NOVA FRIBURGO



Acima, José Galeano das Neves, líder do movimento revolucionário em Nova Friburgo

Em 03 de outubro, a Revolução de 30 completa oitenta anos. Nova Friburgo tem algo a contar desse importante acontecimento histórico que provocou uma ruptura política das mais impactantes na história nacional. A proclamação da República em 1889, trouxe ao cenário político apenas uma novidade: a centralização do Império deu lugar ao pleno domínio dos fazendeiros no quadro político nacional, fragmentando o poder, que ficou nas mãos das oligarquias locais. A denominada política dos governadores enfraqueceu o Estado e dominou a República Velha até a Revolução de 30. Entre essas oligarquias predominavam os paulistas e os mineiros: o primeiro, pelo fator econômico, a supremacia do café e o segundo por tratar-se do mais populoso Estado da federação, o que mais poderia influenciar nas votações presidenciais.

Os problemas sociais e políticos no país, a insatisfação do exército com as oligarquias rurais, tudo isso gerava fortes tensões na sociedade. Mas quem forneceu a pólvora para eclodir a revolução foi Washington Luis. Ao contrário do que era esperado nas eleições presidenciais, o então presidente não indicou um mineiro para sucedê-lo, como vinham fazendo São Paulo e Minas Gerais se revezando no governo presidencial na denominada política do Café com Leite. Indicou o paulista Júlio Prestes. Getúlio Vargas apoiado por setores descontentes do exército e pelas oligarquias dissidentes fundou o partido da Aliança Liberal, lançando-se candidato. Júlio Prestes foi eleito presidente da república em um quadro de fraude eleitoral, bem característico da República Velha. Em 03 de outubro de 1930, civis e militares(exército) iniciaram a revolução que teria efeito fulminante, terminando no dia 24 daquele mesmo mês. Tomava posse em novembro o novo chefe do governo provisório: Getúlio Vargas. Mas qual foi o impacto da Revolução de 30 em Nova Friburgo?


Galdino do Vale Filho, outrora deputado federal, apoiava o governo de Washington Luis e conseqüentemente o seu indicado Júlio Prestes. No Centro de Documentação D. João VI há dois jornais, A PAZ, do próprio Galdino do Valle e O NOVA FRIBURGO que nos mostra a temperatura política da época. Em A PAZ nos editoriais “O dever dos Fluminenses” (28 de julho); “A candidatura Julio Prestes” (01 de setembro); “Panorama Político” (12 de setembro); “A sucessão presidencial” (13 de outubro); “Que resta, pois a Aliança” (10 de novembro); todos de 1929, Galdino do Valle Filho apóia abertamente Washington Luis. Infelizmente, os jornais do ano da revolução não possuímos.

No entanto, O Jornal, dos diários associados, de 26 de novembro de 1930, nos dá a dimensão de como transcorreu a revolução em Nova Friburgo. Os municípios do Estado do Rio não estavam pela sua situação geográfica e pela desagregação política do partido dominante nos cálculos militares dos revolucionários, nos informa o jornal. Mas em Nova Friburgo uma voz se levantou: a de José Galeano das Neves. Originário de uma das primeiras e mais tradicionais famílias de Nova Friburgo, seu pai e avô participaram da vida política do município desde meados do século XIX. Família oriunda de São João Del Rei, do tronco familiar de Tancredo Neves, o fato de Galeano possuir ligação política com Minas Gerais, pois toda sua parentela mineira era de políticos, colocava os Neves como aliados naturais desse Estado e consequentemente contra a indicação do paulista Júlio Prestes. Afinal, era a vez de Minas Gerais dar um presidente ao país e os Neves eram importantes atores políticos nesse Estado, como são até hoje, a exemplo de Aécio Neves.




De acordo com Galeano “somente com um movimento armado poderíamos sair do descalabro em que vivíamos (...) pensava e disto tenho agora a prova, que o Brasil só se salvaria com uma revolução que sacudisse todo o seu aparelho político administrativo”. Conforme O Jornal, os civis fluminenses surpreenderam os revolucionários, aliando-se aos militares nas ações armadas e articulações políticas. O Partido Democrático Fluminense convidou José Galeano das Neves a organizar em Friburgo “elementos que pegassem em armas quando fosse necessário”. Galeano fora escolhido porque reunia todas as condições para liderar o movimento em Nova Friburgo: Era ligado a Minas Gerais por laços familiares e político; era inimigo ferrenho do legalista Galdino do Vale Filho; homem de posses e líder no município por vir de uma família tradicional de políticos. Mas Galeano era civil e necessitava do apoio de um estrategista militar para coordenar as primeiras ações que denominou de “conspiração friburguense”.

Para tanto, convidou seu amigo de infância Brasiliano Americano Freire, oficial da Escola Militar e afastado de suas funções por ter tomado parte no Levante de 1922, e que oportunamente residia escondido em Friburgo, adotando identidade falsa e dando aula nos colégios locais. Foi o capitão Americano Freire quem auxiliou Galeano e cuidou da logística militar no município. Depois de cooptar um chefe militar procurou um aliado político na figura do advogado Comte Bittencourt.

Na primeira reunião na residência de Galeano ficou decidido que os conspiradores ocupariam Friburgo, contando com seiscentos homens fornecidos pelo coronel Christiano Ribeiro e que deveriam acantonar em Porto Novo. Nesse município iriam se apossar das armas da linha de tiro e danificar, se fosse preciso, as obras da estrada da serra. O capitão Americano Freire marcharia para Porto Novo onde reuniria o contingente de voluntários fluminenses às forças mineiras. Mas essas ações apenas ocorreriam se a revolução tivesse irrompido em 06 de setembro, o que não ocorreu. Galeano das Neves, decepcionado pela revolução ainda não ter eclodido, ficou aguardando ordens em Friburgo para reiniciar as “atividades revolucionárias”. Quando a Revolução irrompeu em 03 de outubro achava-se em sua Fazenda de São Bento e soube do acontecimento apenas dois dias depois devido ao seu isolamento. Os irmãos Sylvio, Carlos e Alberto Braune Filho, o Betinho, que haviam se encarregado do transporte de armamento a Porto Novo, estavam com ordem de prisão decretada pelas autoridades legalistas de Friburgo. Galeano das Neves os escondeu em sua fazenda e dali partiram todos para Porto Novo para engrossarem a coluna de seu amigo o capitão Americano Freire, que já ocupava aquela cidade mineira.

Abaixo, batalhão friburguense revolucionário que lutou em Porto Novo



As cidades de Mar de Espanha, Angustura, Volta Grande e Aventureiro foram, além de Porto Novo, ocupadas pelas tropas friburguenses. Nas proximidades da cidade de Carmo, na Fazenda Boa Esperança, achavam-se algumas centenas de pessoas sob a chefia de Galdino do Valle Filho. Galdino organizara um batalhão de friburguenses e partira para enfrentar os revolucionários na divisa do município de Carmo. O capitão Mury, aliado de Galeano, percebendo que uma força legalista procurava ocupar um ponto em lugar estratégico de Porto Novo, atravessou o rio com a sua coluna e desalojou o adversário após um “áspero combate”, apreendendo metralhadoras, fuzis e fazendo 13 prisioneiros na frente legalista. Galeano das Neves foi incumbido de ocupar em território fluminense a fazenda do Barão do Paraná, assim o fazendo sem que houvesse resistência. Em Friburgo já se encontrava a polícia federal com canhões e com um efetivo de mais de mil homens que pretendiam atacar Porto Novo no dia 26 de outubro.




Acima, batalhão legalista, liderados por Galdino do Valle Filho.
Foto tirada na estação de trem, atual P.M.N.F.

A Revolução de 30 triunfou e se iniciou a caça às bruxas. Galdino do Valle foi preso em outubro do ano seguinte. Foi recolhido inicialmente no Sanatório Naval e depois conduzido a Casa de Detenção do Rio de Janeiro. Nessa ocasião, ficou detido apenas quatro dias. No tocante aos demais partidários de Washington Luis, a exemplo dos Spinelli, ficaram detidos na cadeia da cidade, onde hoje é o Porão do Centro de Arte. Quando as tropas revolucionárias friburguenses chegaram de trem a Nova Friburgo, boa parte da população foi recebê-los na Praça 15 de Novembro(atual Getúlio Vargas). Relembra esse dia a memorialista Yolanda Cavalieri d´Oro: “Quando a revolução triunfou, fomos para a Praça (refere-se a Getúlio Vargas) ver a chegada dos vencedores trazidos no trem. Estava todo mundo na rua, se acotovelando para ver melhor.(...) Lá pelas tantas o povo resolveu destruir a estátua do líder político de Nova Friburgo, o Sr. Galdino do Valle. Ele, que fora sempre venerado por todos, era agora, na fúria da paixão política, vítima do vandalismo desenfreado, comum nessas ocasiões. Quando a estátua rolou do pedestal, apareceu meu tio Dante, mancando e carregando uma bandeira vermelha(símbolo do galdinismo) que colocou triunfalmente no monumento decepado. Palmas delirantes da multidão....” Dante Lívio, revolucionário e conhecido comerciante local, simbolicamente enterrava Galdino do Vale Filho. Galdino foi rotulado de “carcomido”, como ficaram igualmente conhecidos todos aqueles que defenderam Washington Luis. Era o fim de uma era política. Abaixo a chegada vitoriosa dos revolucionários, vindos de Porto Novo, ao centro de Nova Friburgo.




A Revolução de 30 teve forte repercussão em Nova Friburgo por três fatores: primeiro pela sua posição geográfica, próxima da Capital da República, sede do governo federal e palco dos acontecimentos. Segundo pela sua forte relação com o Estado de Minas Gerais, que remonta desde a fundação do município, pois muitos mineiros migraram para Nova Friburgo com quem tinha estreitas relações comerciais. A terceira e principal razão foi o fato de em Nova Friburgo residir um membro aparentado da elite política mineira: Galeano das Neves. Possuindo forte liderança local era o instrumento perfeito para os mineiros revolucionários. Além disso, tradicionalmente sua família sempre fora oposição política ao legalista Galdino do Vale Filho. Galeano das Neves foi o articulador político da insurreição friburguense e ganhou as páginas do jornal carioca. Com isso, colocou Nova Friburgo a cavaleiro na Revolução de 30.


Abaixo, charges da época criticando a política do Café com Leite.




Agradeço a Walther Seng das Neves pelas fontes fornecidas para realização dessa matéria.


Entenda o contexto político da época:














DERRUBANDO ESTÁTUAS EM FRIBURGO

Foto acima tirada na Revolução de 1930, na antiga estação de trem, onde atualmente se encontra a P.M.N.F.
A Revolução de 1930 surgiu para derrubar a República Velha, cujo poder político se concentrava nas mãos das oligarquias estaduais, que tinham como base aliada o clientelismo dos coronéis. Em Nova Friburgo, Galdino do Vale Filho defendia esta oligarquia, e quando a Revolução de 1930 eclodiu, ele foi perseguido por Getúlio Vargas. Saiu de Friburgo e se exilou fora do país. Yolanda Brugnolo Lívio Barilari Bizi Cavalieri d´Oro, nascida em Friburgo em 1922, relata em suas memórias este momento histórico, vivido em sua infância, e assim escreveu:
“...papai era legalista, Tio Dante, revolucionário. Papai era brigão por política, ele que era tão manso em casa. Tio Dante era ousado, dramático, não media conseqüências.(...)Quando a revolução triunfou, fomos para a Praça ver a chegada dos vencedores trazidos no trem. Estava todo mundo na rua, se acotovelando para ver melhor. De repente, atrás de nós, uma mulata começou a falar mal do Washington Luiz. Papai se voltou como uma fera e foi um caso sério evitar que ele desse uns tapas na mulata. Lá pelas tantas o povo resolveu destruir a estátua do líder político de Nova Friburgo, o sr. Galdino do Vale. Ele, que fora sempre venerado por todos, era agora, na fúria da paixão política, vítima do vandalismo desenfreado comum nessas ocasiões. Quando a estátua rolou do pedestal, apareceu meu tio Dante, mancando e carregando uma bandeira vermelha[símbolo do galdinismo] que colocou triunfalmente no monumento decepado. Palmas delirantes da multidão. Acho que aquele foi o grande dia do meu pobre e aloucado Tio Dante...”

O povo de Friburgo gostava de destruir estátuas no passado. Na Praça Dermeval Barbosa Moreira, antiga Princesa Isabel, havia um monumento comemorativo erguido em homenagem ao centenário do município. A estátua era a representação de uma colona suíça segurando em seu colo um bebê. Um grupo de gaiatos roubou a estátua da colona suíça e afixou no local um cartaz com o seguinte dizer: “Cadê mamãe”. Esta foto pode ser vista no Centro de Documentação Fundação D.João VI.

Aproveito a ocasião desse episódio da Revolução de 1930 em Friburgo, para esclarecer sobre a localização da cadeia na antiga propriedade – o solar – do Barão de Nova Friburgo, situado na Praça Getúlio Vargas. Na Revolução de 1930, muitos indivíduos que eram partidários de Galdino do Vale Filho, os galdinistas, a exemplo da família Spinelli e dos Lívio, ficaram custodiados no porão daquele prédio, que serviu de prisão. O “porão” do Centro de Arte é reconhecido como uma antiga cadeia, mas na realidade, todo o rés do chão, ou seja, toda a extensão do porão do solar se transformara em setor de custódia de presos. Como a prefeitura municipal funcionava no solar do barão, foi sempre uma constante em nossa história que a cadeia ficasse próxima a administração municipal. Não devemos nos esquecer que os juízes ordinários outrora compunham a Câmara Municipal. No século XIX, o antigo prédio da cadeia se localizava onde hoje passa a Rua Monte Líbano e denominavam-na de Rua da Cadeia. Com o passar dos anos, a cadeia pública foi sendo itinerante, funcionando em diversos lugares até que se instalou definitivamente na Vila Amélia. E já que estamos falando em itinerância da cadeia pública em Nova Friburgo, já não era hora da cadeia ir para outro local e o casarão histórico onde funciona atualmente ser devolvido à população como um lugar de memória?
Fonte e crédito da foto: Centro de Documentação Fundação D.João VI e livro “Minha vida mágica”, de Yolanda Brugnolo Lívio Bariliari Bizi Cavalieri d´Oro.




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