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Do Jockey Club à cavalgada de São Jorge: Da sociabilidade mundana ao rito religioso












Friburgo Jochey Club - 1911

Ao longo da história, o fato de se possuir um cavalo e de se transformar em um cavaleiro, sempre deu status aos homens. Na Antiguidade, o imperador romano Calígula elegeu seu cavalo senador. Mas muito antes dele, Alexandre, O Grande, tinha no seu cavalo, Bucéfalo, o seu maior aliado nas batalhas. O cavalo sempre foi um companheiro de reis e nobres, tornando-se um esporte da aristocracia em várias nações europeias. No Brasil, no século XIX, com a europeização da sociedade brasileira, o turfe, ou seja, as corridas de cavalo, passaram a ser um esporte e uma forma de sociabilidade das elites. O turfe foi introduzido no Brasil pelos ingleses, influenciando as modas e os modos da aristocracia brasileira. Em 1877, já há o registro de corridas de cavalo promovidas nas ruas da vila de Nova Friburgo.






















Em 1883, surge, em Nova Friburgo, o clube atlético denominado General Osório que promovia corridas de cavalo na rua do mesmo nome. Há o registro ainda do Clube Atlético Bargossi, que pediu permissão à Câmara para colocar postes de raia na Praça do Suspiro, para que se realizassem corridas aos domingos e dias santificados. Por iniciativa da família do Barão de Nova Friburgo, os Clemente Pinto, foi fundado em 22 de abril de 1881, o Jockey Club de Nova Friburgo. A família inauguraria igualmente, em 12 de julho de 1885, o prado do Jockey Club Cantagalense, no Palacete do Gavião. O primeiro presidente do Jockey Club de Nova Friburgo foi o Barão de São Clemente, fazendo parte do seleto club Augusto Marques Braga, Pedro Eduardo Salusse, o médico e presidente Câmara Municipal Ernesto Brazílio, entre outros. Do conselho fiscal participavam Elias Antonio de Moraes, o 2° Barão de Duas Barras, e o empresário do ramo hoteleiro, Carlos Engert. Não se pode precisar, mas em dado momento o Jockey Club de Nova Friburgo se extinguiu.










Anos depois, foi fundado em 30 de abril de 1911, o Friburgo Jockey Club, também formado pela elite local, por iniciativa de Octávio Veiga, Galdino do Valle Filho e do Cel. Galiano Emilio das Neves Junior, os dois últimos grandes inimigos políticos. Já no século XX, havia em Nova Friburgo dois prados: o prado Entre Rios, em Lumiar, e o Prado de Corridas de Conselheiro Paulino. O prado de Conselheiro Paulino tinha sua sede social no Hotel Salusse. Competições de equitação eram igualmente realizadas no Friburgo Futebol Clube.






Nos dias de competição, era um alvoroço na cidade. Ainda cedo, todas as garagens de bicicletas eram procuradas por visitantes das localidades próximas, que, em trajes esportivos, cortavam alegres as extensas alamedas da Praça 15 de Novembro (atual Getúlio Vargas). Às 11:00 horas, todos se dirigiam à Estação da Leopoldina para recepcionar as “embaixadas” de Niterói, Petrópolis e da “Força Pública”. Eram recebidos com “hurras vibrantes” por todos os esportistas presentes na estação. As torcidas, os sportmen, vinham a Nova Friburgo animar os seus atletas. Os cariocas que vinham assistir ao turf friburguense, ficavam geralmente hospedados no Hotel Central (hoje edifício Folly), Floresta e Suspiro. Como é comum nesses espaços de sociabilidade, as corridas de cavalo atraíram a alta sociedade, sendo ocasião para o exibicionismo de indumentárias e, segundo o jornal A Paz, “as arquibancadas apresentavam o que de mais elegante possui a nossa sociedade”.





Em julho de 1986, foi fundado o Clube do Cavalo de Nova Friburgo, funcionando provisoriamente em Amparo. Objetivava-se incentivar a criação de cavalos de raça no município, com a participação dos criadores locais em exposições e em organizar provas entre os associados. O Clube do Cavalo contava com a participação da classe média friburguense, e não mais da classe alta, como outrora. Curiosamente, o associado não precisava ter cavalo, não se cobrava taxa de seus associados, diferentemente do passado quando se cobrava uma “joia”. No mesmo ano de sua fundação, foi realizada a I Prova de Hipismo Rural de Nova Friburgo, em Conselheiro Paulino. Nas modalidades, marcha, cross, baliza, rodeio, laço e tambor. Leilão de animais e igualmente um espetáculo artístico estavam previstos na programação. Mas o Clube do Cavalo foi extinto. Atualmente, acontece a cada ano, em Nova Friburgo, a Cavalgada de São Jorge, já na sua décima quinta edição. Seus integrantes são cavaleiros pertencentes às classes populares. A cavalgada se inicia no curral do sol, provavelmente por influência do antigo prado de Conselheiro Paulino. O evento conta com a participação de cavalheiros e amazonas provenientes de vários bairros e de outros municípios. Os integrantes percorrem várias localidades de Nova Friburgo, passando inclusive pelo centro da cidade. Nessa ocasião, a imagem de São Jorge, padroeiro dos cavaleiros, abre o préstito, que faz uma procissão de aproximadamente sete quilômetros. Júlio do Cavalo, promotor do evento, prometia churrasco de confraternização com um animado forró aos que quisessem participar da cavalgada.



















A história da cavalaria em Nova Friburgo passa por um processo interessante: como vimos, o turfe era um esporte inicialmente das classes sociais mais abastadas e progressivamente ganhou popularidade. No Clube do Cavalo a montaria ganhou elementos de religiosidade, com a figura São Jorge, orago e padroeiro dos cavaleiros. Isso demonstra o profundo sentimento religioso do povo brasileiro, que acrescentou à festa mundana ritos religiosos, diferentemente das elites que nunca associaram a cavalgada ao santo que lhe é padroeiro.

Observação: Todas as fotos acima são da Cavalgada de São Jorge em Nova Friburgo.





































O JOGO DE MALHA E DE BOCHA



Os italianos começaram a imigrar para Nova Friburgo na década de 80 do século 19, e desde então, tiveram uma participação significativa na cidade, notadamente como construtores, prestadores de serviço e em atividades culturais. Ficando no ostracismo na sociedade friburguense a partir de meados do século 20, pode-se atribuir esse fato a Segunda Guerra Mundial(1939-45), que colocou italianos e alemães em Nova Friburgo em uma verdadeira saia justa, devido ao fascismo e ao nazismo, respectivamente. Através de leituras dos jornais do final do século 19, pode-se afirmar que a presença italiana em Nova Friburgo foi muito mais pungente. Eram uma verdadeira “falange”, como definiu certo jornal, e pode ter sido ofuscada, assim como a colônia portuguesa, pela construção do mito da Suíça Brasileira que privilegiava a imigração suíça. A matéria de hoje é para tratar da sociabilidade de homens simples, originária de uma prática esportiva própria de imigrantes italianos: o jogo de malha e de bocha. Ouvimos Antonio Senna, nascido em 1932, filho de um italiano cujo nome é homônimo ao seu. Carabineiro, natural de Veneza, o pai de Senna veio para o Brasil em 1917, juntamente com outros italianos, fugindo da guerra(1914-18). Em Nova Friburgo foi carroceiro, profissão abraçada pela maioria dos imigrantes italianos sem recursos. Fazia frete levando a carga de farinha de trigo da estação de trem (hoje Polícia Militar) e distribuía entre as padarias da cidade.





Em entrevista, Antonio Senna nos fala de uma forma de sociabilidade introduzida pelos imigrantes italianos em Nova Friburgo: o jogo de malha. Segundo ele, o jogo de malha é um esporte genuinamente friburguense, criado por imigrantes italianos. O primeiro clube de malha surgiu em 1940, por iniciativa Júlio Thurler, Júlio Nideck, e de outros desportistas. Os clubes possuíam sócios proprietários e sócios contribuintes. O jogo de malha era praticado em uma quadra de 32 metros de comprimento, de largura estreita, com dois círculos de 40x40cm nas duas extremidades da quadra. A pista era de chão, levando apenas uma fina camada de areia. A Praça Dermeval já serviu de pista de malha em certa ocasião. Jogava-se em dupla e cada uma ficava nas extremidades da quadra. O objetivo do jogo era acertar um toco de madeira, o “vinte”, de forma que a malha não saísse do círculo. Eram 30 minutos de jogo e fazia-se a contagem dos pontos no decorrer desse tempo. Havia dois juízes que ficavam do lado de fora, no meio da quadra, sentados à mesa e fazendo a marcação dos pontos. A malha, adquirida de Cia. Ferroviária Leopoldina, pesava de 1,200 Kg, aproximadamente, sendo feita de “aço rápido” que batiam, “faziam fundição” e passavam vela para dar mais efeito, adaptando-a. Cada jogador confeccionava sua própria malha. Era um jogo que envolvia muito mais a habilidade do que a força, não obstante o peso da malha.





Na primeira metade do século 20, havia os seguintes clubes de malha em Nova Friburgo: Conselheiro, Friburgo(próximo a Ferragens Haga), Paissandu(no Recanto da Beira Rio, no final da Rua Baronesa), Rendas, Olaria, Ypu, Catarcione, Floriano Peixoto (Perissê) e Amparo. Os clubes apesar de ter nomes dos bairros, não eram bairristas. Uma pessoa de um bairro poderia pertencer a um clube de outro bairro. Cada clube tinha um time com seis duplas. Os campeonatos eram extensos, durando oito meses, e se iniciavam no verão. As competições ocorriam em todas as quadras dos clubes de malha, realizadas nos fins de semana onde havia muita torcida. O campeonato envolvia ainda times de outros municípios, a exemplo de Cordeiro. Foram grandes nomes entre os jogadores de malha: Orestes, Mussi, Senna, Renne, Pecci, Machado, etc. Havia em Nova Friburgo além do jogo de malha a prática do jogo de bocha, ou melhor, “cancha de bocha”, segundo César Lívio, igualmente descendente de imigrantes italianos. Bocha é um esporte jogado entre duas pessoas ou duas equipes, sendo quatro bochas (bolas) para cada equipe, ou seja, duas para cada jogador. O esporte consiste em lançar bochas e situá-las o mais perto possível de um bolim (bola pequena), previamente lançado. O adversário por sua vez, tentará situar as suas bolas mais perto ainda do bolim, ou remover as bolas dos seus oponentes. Aparentemente complexo, quando nos ocupamos em descrever as suas regras por escrito, na realidade, é um jogo simples. Atribuiu-se o seu surgimento ao tempo do Império Romano e foi trazido pelos italianos para a América.
Mas essas práticas desportivas desapareceram em Nova Friburgo. Na década de 90 do século 20, o jogo de malha e bocha já não eram praticados em Nova Friburgo. E por que acabou? Foram perdendo o interesse, declara Antonio Senna. Mas buscar explicações sobre o desaparecimento dessas práticas mereceria uma outra matéria. O importante é registrar aqui a influência dos imigrantes italianos na sociabilidade do friburguense. Igualmente podemos atribuir ao “bolão” como uma prática desportiva introduzida pelos imigrantes alemães em Nova Friburgo. O cotidiano não é algo meramente residual, e é através de sua análise que podemos encontrar elementos que edificam construções históricas. No caso em epígrafe, a influência dos imigrantes italianos na sociabilidade de homens simples em Nova Friburgo.


O PÉ DE BICHO NO MUNDO DO FAZ DE CONTA:AS MEMÓRIAS DE LEÔNIDAS DA VILAGE DO SAMBA

Normalmente se reconhece um apaixonado por sua escola de samba quando se chega, sem marcar hora, para fazer uma entrevista, como foi o meu caso, e encontra o sujeito com a camisa do “Grêmio Recreativo da Vilage”, a verde e branca. Foi assim que encontrei, com a camisa de sua escola, recostado na janela, Luiz Leônidas do Nascimento. Nascido em 1932, morou a vida inteira na Vilage. No passado, recorda-se que próximo à sua casa ficava a chácara do Manoel Rodrigues onde havia plantação de uvas e fabricação de vinho branco. A molecada ajudava na colheita da uva, que dava direito a generosos copos do vinho do Patatinha, como era conhecido o português Manoel. Leônidas tornou-se uma liderança na Vilage, numa época em que havia rixa entre os bairros da cidade. Havia a turma do Centro, da Vila Amélia, do Paissandu e “o pessoal da General Osório era um perigo”, diz Leônidas. Segundo ele, “rolava o sopapo” quando um membro de um bairro entrava no “território” do outro. Mas a turma da Vilage era considerada a melhor de briga. Leônidas transgrediu duas vezes essa fronteira dos bairros: A primeira, quando se apaixonou por Tereza, que morava nas Braunes, casando-se com ela e levando-a para a Vilage. A segunda, foi quando ele juntamente com Estrangeiro, Eliude, Tião e Nelson resolveram participar da “Alunos do Samba”, escola pertencente ao centro da cidade (hoje a escola pertence a Conselheiro Paulino). Ensaiavam na Rua Monsenhor Miranda, freqüentada pelos “filhos do Sr. Doutor”, relata Leônidas. Chegando lá foram expulsos, pois eram considerados “pé de bicho”, ou seja, andavam descalços. Leônidas e seus amigos não tinham dinheiro para comprar sapatos: “Éramos pé de bicho porque dava bicho[de pé] mesmo, não tinha jeito, de vez em quando tinha que tirar um bichinho do pé...”, recorda-se Leônidas.


Inconformados com a expulsão, fundaram a própria escola e foi nesse momento que surgiu o “Grêmio Recreativo Vilage do Samba”, fundado em 23 de setembro de 1948. Para tanto, foram na fábrica de Carbureto(onde hoje é a Frivel) e roubaram latões de carbureto para fazer os surdos. Cortando os latões ao meio fizeram o tarol. O couro de cabrito e de novilho, ideal para os instrumentos, era doado pelo alemão Edmundo Weidlich, do Curtume de Duas Pedras. Confeccionaram os tamborins, os triângulos e somente o agogô foi comprado. O símbolo da águia foi Leônidas quem escolheu, pois gostou da imagem que um amigo trouxe dos Estados Unidos e a cor verde e branca, também partiu dele. Foram campeões no primeiro ano que a Vilage do Samba desfilou, em 1949. Perderam em 1950, mas ganharam em 1951, 1952 e 1953. E a Vilage do Samba desde então sempre se destacou no carnaval da cidade. Vocês marcaram território quando fundaram a Vilage, pergunto? “Não, na Vilage do Samba qualquer um poderia participar”, responde Leônidas. Não fizeram com os outros o que “Alunos do Samba” fez com ele e o seu grupo, excluindo-os. Além dos “Alunos do Samba” havia outras escolas como a “Saudade”, criada seis meses antes da Vilage, e a “Chacrinha”, ambas do Bairro Ypu. Havia ainda a “Unidos do Terreirão”, de Olaria. O Clube de Futebol Esperança era o único clube esportivo que tinha escola de samba, denominada “Unidos Verdejante”.


Com o passar dos anos a estrutura das escolas de samba não alterou muito, afirma Leônidas. Mas no passado, havia a ala das “Pastorinhas”, ala das moças bonitas, com vestidos longos. A escola tinha pouco mais de cem componentes. Nessa época não havia samba-enredo feito pelas escolas. “Não tinha esse negócio da escola fazer o seu samba”, relata Leônidas. Escolhia-se um samba conhecido e se desfilava cantando esse samba. O compositor da escola de samba surgiu apenas em 1955. Eram bons tempos para o carnaval da cidade. As fábricas disputavam quem auxiliava mais as escolas de samba assinando o “Livro de Ouro”. As fábricas “assinavam” mais que o comércio. O governo federal também auxiliava com dinheiro, através da prefeitura, para as escolas de samba. O folião não pagava pela fantasia. Comprava-se as fantasias com o que se arrecadava no “Livro de Ouro”.

Em novembro se começava os preparativos para o desfile das escolas. Hoje é feito com mais antecedência, em julho. Uma diferença do carnaval antigo eram os passistas, que sambavam mesmo. Tinham que dançar conforme o ritmo da música. Leônidas se ressente que hoje em dia o folião somente pula e não se preocupa em dançar com o ritmo do samba. Fazem coreografia apenas. Tereza, sua esposa, interfere e diz que havia preconceito no passado quanto às passistas: “escola de samba não era para filha de família, era para moça que não prestava”. A casa de Leônidas e Tereza transpira hospitalidade. Quando conversei com ambos parece que já os conhecia há muitos anos. Tereza disse orgulhosa que na véspera, quem tomou café em sua casa foi Rogério Faria, dono da STAM. Rogério, como seu pai Francisco Faria, é um mecenas da Vilage do Samba. A diretoria da escola fizera uma homenagem a Leônidas tocando em frente à sua casa. Leônidas sorriu quando pedi para ouvir o samba, pois a maneira com que se refere à sua escola é contagiante. Ouvi o samba e ele me presenteou com o CD autografado. Quando escrevi a matéria revi o enredo da Vilage do Samba que fala dos “Filhos Do Faz De Conta”. Lembrei-me da trajetória de Leônidas. O “pé de bicho”, como foi chamado, entrou no mundo do faz de conta, criou uma escola de samba com bateria de latões de carbureto e hoje, recostado em sua janela, pode tranquilamente dizer da escola que criou: “Hoje o sonho é real/ ganhei a vida, virei carnaval/ boneca sapeca a sambar/ na vila que me faz cantar.”

Crédito: Fotos extraídas do Blog "Vilage do Samba".

Em virtude da catástrofe natural ocorrida em Nova Friburgo
na madrugada do dia 12 de fevereiro de 2011, não houve carnaval no município em
respeito às vítimas do sinistro.

PARA OS AMIGOS, PÃO, PARA OS INIMIGOS, PAU

Em 1910, a campanha eleitoral de Rui Barbosa, embora apoiada pela máquina eleitoral da oligarquia paulista, denunciou, em praças e comícios públicos, a constante fraude e corrupção do sistema eleitoral. Quando se lê as notícias das eleições municipais para o cargo de vereador da Câmara Municipal(não havia ainda a figura do prefeito) e juízes de paz, percebe-se que as eleições em Nova Friburgo fin-de-siècle XIX eram bem mais movimentadas e aguerridas. Para citar um exemplo, tomemos Lumiar, onde violentos tumultos ocorreram naquela época. Em 09 de junho de 1892, quando vários republicanos autonomistas vindos do Sana resolveram parar em Lumiar para participar de uma festa que ocorria na localidade, foram ameaçados por um oponente político, Pedro Spitz, que os rechaçou, expulsando-os do lugar. Porém, antes mesmo que se retirassem, por ordem do subdelegado Lamas, que aos gritos mandou matar “a canalha”, partiram diversos indivíduos em direção à eles, perseguindo-os. Atirando contra eles, mataram um dos homens e feriram os demais, além de serem encontrados sinais de tortura no que falecera. Esse episódio ilustra o termômetro político daquela época em Nova Friburgo e é narrado na edição de 21 de setembro de 1893 em O Friburguense. Dizia-se à época: “Para os amigos pão, para os inimigos pau”.
Segundo ainda o jornal, a fraude grassava nas eleições do município. Havia denúncias de indeferimentos na qualificação eleitoral de pessoas aptas a serem eleitoras, perante a Junta Municipal, com a exclusão de centenas de cidadãos sem motivo justificado. Nas urnas, roubo de votos, muitas vezes “concertado à custa de bico de pena na apuração das freguesias rurais”. Havia rasuras nas cédulas, votava-se sem exibir o título de qualificação e eleitores da situação ameaçavam eleitores da oposição. As provocações acirravam a animosidade entre os correligionários. Em algumas seções, os fiscais legalmente nomeados foram impedidos de entrar e, por conseqüência, os republicanos autonomistas não tiveram um voto sequer nessa seção. Os emissários e oficiais de justiça cruzavam o município com recomendações expressas aos eleitores para votarem na situação ou “ficarem em casa”. De acordo com O Friburguense, o delegado de polícia cabalava abertamente e com toda desfaçatez entrava nas residências dos eleitores, intimando-os a votar no Partido Republicano Moderado.
No dia da eleição, com os bolsos pejados de cédulas, “insistia arreganhadamente” nas seções com os eleitores para acompanhá-lo no voto. Prometiam-se empregos rendosos e fatura de obras municipais com lucros fabulosos. Enfim, lançavam mão de todos os recursos fraudulentos e segundo o articulista de O Friburguense era preciso vencer, “custasse o que custasse, já que tinham em mente que o poder é o poder”. Conforme A Sentinella de 01 de janeiro de 1899, o judiciário convertera-se no “balandrau dos farricocos políticos”, com a vara da Justiça transformada no cacete do partidarismo, praticando favores aos amigos, vingando-se e perseguindo os desafetos. O problema das fraudes nas eleições envolvendo o judiciário somente seria resolvido com a instituição da Justiça Eleitoral no governo Vargas, criada justamente para coibir tais práticas. Depois de decorridos quase dois séculos de nossa independência ainda vivemos em estágio primário na hora de votar. Atualmente, boa parte da população ainda vive sem saneamento básico, sujeita às doenças, mas contenta-se com os aparelhos domésticos e o assistencialismo do bolsa família. Nessa eleição, estão na iminência de se elegerem cantores de pagode, jogadores de futebol que penduraram a chuteira, comediantes e pode-se imaginar o que produzirá o Senado e a Câmara de Deputados nos próximos anos. A classe política já não se contenta em se eleger: elege os filhos, a mulher e toda a parentela que puder, numa verdadeira “venda casada”.
Nos dias de hoje, a violência política foi substituída pelo poder econômico. Está claro que quem possui os cobres em suas algibeiras, vence as eleições. Mas tudo isso decorre de um processo histórico em que o voto no passado era censitário, ou seja, dependia de uma renda mínima do eleitor, exigia-se alfabetização em um país com a quase totalidade da população de analfabetos, excluía-se o voto feminino, sem contar ainda com os anos ditadura que coibiu a participação política. Recordando a história do Brasil, constataremos que a participação das classes populares no processo político é muito pífia, pois ficou durante muitos anos excluída do voto. Por isso, Senhor, perdoemos o nosso povo que não sabe o faz com o seu voto.

MURY QUER PERTENCER A FRIBURGO


Armazém da famíla Mury (1916)


No início do século 19, foi criada a Vila de Nova Friburgo para abrigar uma das primeiras experiências encetadas pela Coroa Portuguesa de estimular a vinda de colonos estrangeiros ao país em substituição a mão de obra escrava. A região, que até então pertencia a Cantagalo era povoada por fazendeiros luso-brasileiros, e foi escolhida por suas condições climáticas e salubres para abrigar núcleos coloniais de suíços e alemães. Essas duas nacionalidades eram preferidas pela Coroa Portuguesa, principalmente os alemães, pela sua tradição na agricultura. Aos colonos foram distribuídas datas de terras no perímetro denominado de “Colônia dos Suíços”. A região de Mury estava compreendida na colônia. Plantava-se banana, batata, milho, inhame e hortaliças e os colonos possuíam alguma criação. A família Murith recebeu, por sorteio, um desses lotes. No entanto, a localidade só ficou conhecida pelo nome de Mury no século seguinte em razão de Luiz Mury, um comerciante de secos e molhados que conseguiu trazer uma estação de trem à localidade que passou a ser denominada de “Parada do Mury”.


No século 20, os agricultores de Lumiar e região produziam verduras e legumes como nabo, cenoura, couve, alface e batata inglesa, comercializando boa parte de sua produção em Niterói e São Gonçalo. No entanto, tinham que levar seus produtos até a estação de trem no centro da cidade, importando em enorme sacrifício e despesa aos agricultores. Luiz Mury, comerciante local, possivelmente descendente dos colonos suíços Murith, vendo a dificuldade dos agricultores da região, solicitou a Leopoldina Railway que construísse uma estação na localidade, doando inclusive o terreno para tal fim. Foi atendido criando-se a estação “Plataforma Luiz Mury” em frente ao seu comércio, mas que ficou conhecida pela população como “Parada do Mury”, localizada na atual Av. Hamburgo. Mury foi ainda um bairro onde boa parte dos executivos alemães das indústrias que se estabeleceram em Nova Friburgo, a partir de 1910, escolheu para seus domicílios. Depois da Segunda Guerra Mundial, muitos alemães que imigraram para o Brasil igualmente passaram a residir em Mury que quase teve seu nome alterado para Germânia, tantos eram os alemães que residiam no bairro. No passado, o bairro chegou ainda a abrigar algumas indústrias de alemães. Hans Garlipp, do Hotel Galipp, um dos mais antigos de Mury, veio para Friburgo como prisioneiro da primeira guerra mundial. Era comandante de um dos navios alemães atracados no Recife preso pela marinha do Brasil. Ficou no “Campo de Internação do Sanatório Naval”. Terminada a guerra, Hans Garlipp volta a Alemanha, mas devido a uma crise financeira em 1926, retornou no ano seguinte a Friburgo se estabelecendo definitivamente na cidade.


Até alguns anos atrás, Mury ainda era visto pela população friburguense como um bairro insular, isolado do cotidiano da cidade, até porque os moradores de Mury diziam que “iam a Friburgo”, como se não fizessem parte do município. Historicamente é um bairro negligenciado do ponto de vista administrativo por sucessivos governos municipais pelo fato de abrigar a maior parte de veranistas, não eleitores no município. No entanto, seus moradores pagam um dos mais altos IPTU. Atualmente, apesar de Mury ser considerado um bairro de veranistas, a maioria é de friburguenses que já residem no local. A sociabilidade de seus moradores é o futebol no final de semana no campo de futebol do bairro, a cerveja gelada nos botequins, as compras no mercado e as camaradagens fáceis e ligeiras da rua, nas conversas nos bares e padarias, como o Pão da Terra, já que o bairro não possui até hoje uma praça pública. Porta de entrada do município abriga a melhor rede hoteleira e notadamente os melhores restaurantes de Nova Friburgo. Mury não quer ser mais o bairro “dos alemães” e dos veranistas, como outrora. Quer ser um bairro que congregue toda a população local e adventícia. Mury é um bairro que oferece a hospitalidade ao turista, mas no seu dia a dia os seus moradores fomentam a atividade comercial dando dinamismo ao bairro. Por todas essas razões é que Mury não quer ser mais um bairro insular, gregário, uma República de Weimar, e quer merecer a atenção da administração municipal. Mury quer pertencer a Nova Friburgo.








Todas as fotos são do acervo particular de moradores de Mury mostrando o cotidiano do bairro.




Observem que charme essa propaganda de amanteigados suíços que resiste até hoje na fachada de um prédio em Mury. Possivelmente foi colocado entre a década de 50 e 60, do século 20.

As corridas de bicicleta:great attention do verão friburguense





A bicicleta foi inventada em 1839, mas ela apenas surge em Nova Friburgo no final do século XIX. As ruas e as praças, não obstante apresentarem traços de contigüidade com o mundo rural, já possuíam elementos de modernidade, como as bicicletas, um luxo à época. Inúmeras bicicletas já circulavam pela cidade e exigia-se que os ciclistas, à noite, tivessem marcha moderada e a lanterna acesa, pois a população friburguense ainda não se habituara com essa modernidade. Os meninos também exibiam outra novidade, os velocípedes. Com a chegada dos veranistas em Nova Friburgo ao final do ano, se projetavam vários eventos para a temporada na cidade. As corridas de bicicleta eram a great attention do verão friburguense. A então Praça 15 de Novembro(atual Getúlio Vargas) era transformada no Velódromo Friburguense. Eduardo Salusse, de tradicional família da cidade, criou em 9 de abril de 1899, o Bicyclette Club Friburguense, destinado a competições desse veículo. Além de ser considerado um divertimento, era ainda um exercício físico de primeira ordem para robustecer o corpo e dar um porte atlético.


As corridas de bicicleta eram realizadas aos domingos, sempre ao meio-dia. A presença de juízes de partida, de chegada e juízes de raia dava uma conotação de que a disputa era acirrada entre os participantes, muitos dos quais vinham da capital federal. Essas corridas tinham normalmente seis páreos, com uma média de seis participantes em cada um, os quais distribuíam prêmios como medalhas de ouro, prata, bronze e caixas de champanhe. Quando os ciclistas friburguenses participavam de torneios fora da cidade e retornavam como vitoriosos, eram recebidos na gare da estação com grande festa pela população que os acompanhava até as suas residências gritando VIVAS durante o trajeto.
Tendo na comissão organizadora Eduardo Salusse, um campeão da cidade, esses eventos restringiam-se à elite local, a exemplo do barão de Mesquita, que servira como juiz de partida. Próximo ao velódromo, encontrava-se o Botequim do Velódromo Friburguense, e após as partidas os ciclistas se regalavam com cervejas nacionais e estrangeiras, chopp gelado, vinho do Porto, cognac, vermout, champanhe Veuve Clicquot, sorvete, frutas, sanduíches e pastéis.


Alguns anos mais tarde, a bicicleta será um meio de locomoção das classes populares, a exemplo dos operários. Os industriais alemães financiaram esse veículo para que seus funcionários não atrasassem nas fábricas, já que não havia ainda a companhia de ônibus na primeira metade do século passado. A cidade, no final do século XIX, já deveria possuir muitos ciclistas, já que havia anúncio de conserto de bicicletas em um jornal da época, além de uma reclamação sobre a necessidade de o Código de Posturas regular o trânsito delas, pois já vinham causando atropelamentos de transeuntes.
Observação: todas as fotos são de eventos ocorridos em Nova Friburgo.

INDUSTRIALIZAÇÃO E TENSÕES SOCIAIS


Nova Friburgo foi em sua história, um município matizado por diversas cores com imigrantes suíços, alemães, italianos, portugueses, espanhóis e libaneses. No entanto, a partir de 1910, ganhou tons mais fortes da cultura alemã que conduziu Nova Friburgo para uma nova etapa de sua história: a industrialização. Pode-se afirmar que a implantação das indústrias com capital exclusivamente alemão, acarretou a hegemonia dos germanos sobre uma população de perfil ainda indefinido, pois era um município que possuía a tradição de receber colonos e imigrantes, além de uma significativa população flutuante, constituída de veranistas e doentes de tuberculose. Os industriais alemães para garantir o bom funcionamento de suas fábricas, imprimiram a “disciplina” entre a população, visto que a necessidade era a de formar operários industriosos. Julius Arp, Maximiliam Falck e Otto Siems, proprietários das três maiores indústrias como a Rendas Arp, Ypú e Filó, respectivamente, introduziram a cultura da “ordem e disciplina” entre os friburguenses, no estilo ordem e progresso, um precedente no qual esses empresários não abririam mão, já que investiram suas fortunas em Nova Friburgo. Para tanto, criaram o Colégio Rendas Arp, utilizando a mesma pedagogia dos jesuítas no Brasil Colonial, ou seja, formulando a educação dos pais operários por intermédio dos filhos, implementando a disciplina no seu cotidiano. Logo, houve de fato um projeto de cunho ideológico para Nova Friburgo por parte dos industriais alemães.


Acima: populares acompanham as obras da Fábrica Ypú


Richard Ihns foi o mais importante executivo da Fábrica de Rendas Arp, administrando-a no período 1947 a 1997. Enfrentou aquela velha tensão entre capital e trabalho nos anos que antecederam o golpe militar de 1964, onde ocorreram alguns distúrbios na cidade, culminando inclusive com a morte de um operário na Praça Paissandú. Nessa ocasião, os industriais contavam apenas com o Sanatório Naval que enviava fuzileiros navais para manter a ordem pública na cidade. Feliciano Costa, que foi prefeito, que foi prefeito, m morte inclusive de um operario provocou -sr uma imensa tinha uma tendência política de esquerda não esposada pelos industriais da época. O ovo da serpente do comunismo em Friburgo estava entre os funcionários da estrada de ferro.


Transcorridos alguns anos, essas mesmas indústrias estão longe de gerar atualmente os cinco mil empregos diretos de outrora. Richard Ihns vê, no entanto, que deixaram um legado ao município, notadamente a Fábrica Filó, refletida na moda íntima. Entende que se deve desenvolver o turismo, criar eventos permanentes a exemplo de exposições de flores, produtos agrícolas, competições como a de motociclistas e construir um centro de convenções. Para Richard Ihns, Friburgo hoje não é mais uma cidade para abrigar grandes complexos industriais. As indústrias de Friburgo deveriam ser do tipo especializadas, de alta tecnologia e que exija mão de obra técnica e de pequena monta, a exemplo da fábrica de ampola de raio x, que já estivera em Friburgo, ou de aparelhos eletrônicos, mas em pequena escala. Depois dessa mudança de paradigmas pergunto quem mudou, o executivo que administrou uma grande indústria por meio século, ou foi Nova Friburgo? Richard Ihns responde: “Novos tempos”. Enfatiza que a vocação de Friburgo atualmente é para pequenas empresas com alta tecnologia.

Em 2011, a Rendas Arp completará o seu centenário e nos anos seguintes, igualmente, as outras indústrias. Julius Arp, primus inter pares, Maximiliam Falck e Otto Siems foram comparados, no passado, à Santíssima Trindade, a Trindade Teutônica, por terem gerado milhares de empregos em Nova Friburgo. Recordemos, foi Julius Arp quem trouxe a energia elétrica ao município. Quem não se recorda do barulho dos tamancos dos operários, no passado, cruzando a cidade desde às 5:00 horas da manhã? A dialética do capital e do trabalho, do burguês e do operário é um período conturbado da história do município, até porque o golpe militar de 1964 agravou ainda mais as tensões entre as classes sociais. Quem quiser se aventurar em pesquisar esse período da história de Friburgo, deve fazer como nos recomenda Richard Ihns: “Diga a verdade e saia correndo.”
Fonte: Entrevista realizada com Richard Ihns em 2010.

OS CLUBES E O APARTHEID SOCIAL






Vista dos jardins do Country Club


Ultimamente existe um debate em torno da restauração do chalet do Barão de Nova Friburgo, situado no Country Club. O orçamento para o restauro é assustador. Corolário a essa discussão vem à tona a questão da decadência dos clubes de Nova Friburgo. Primeiro foi o Clube do Xadrez, repleto de dívidas e que foi encampado pela prefeitura municipal. Depois foi o Clube dos 50, que foi vendido a uma incorporadora e será brevemente um edifício na cidade. Coincidentemente estamos falando de clubes sociais que foram criados no segundo quartel do século XX para serem exclusivos, restritos à elite local, cujos timoneiros não desejavam se misturar com a arraia miúda, com os populares.


O Clube do Xadrez foi formado pela elite friburguense de ricos comerciantes, diretores executivos das indústrias recém criadas no município, profissionais liberais, enfim, como diziam os friburguenses oitocentistas “o que há de melhor e mais seleto em nossa sociedade”. Funcionou inicialmente no antigo Hotel Salusse, depois passou a funcionar em cima de uma confeitaria, onde é a Predial Primus, antes de construir sua nova sede em estilo mourisco. Seus bailes eram magníficos. Da sacada do prédio do Clube Xadrez vinha um saxofonista que tocava o retumbante instrumento, avisando que o baile já ia começar. Porém, começaram a adquirir títulos do clube pessoas indesejáveis, que não pertenciam à alta classe social. Em razão disso, um pequeno grupo começou a procurar um novo local para formar um clube social que correspondesse ao exclusivismo que se desejava imprimir. Nada menos do que um apartheid social. Logo, adquiriram a esplendida propriedade dos Guinle, outrora casa de campo dos Clemente Pinto, família do Barão de Nova Friburgo e o denominaram de Country Club. Dessa vez, o clube seria realmente seleto. O valor do título era tão caro que muitos homens prósperos titubearam em ingressar no seleto clube. Com o título realmente caro e mensalidade que não caberia no orçamento de um operário de fábrica, finalmente se conseguiria o exclusivismo desejado pela elite local. O Club dos 50, pelo próprio nome, provavelmente foi mais um caso de apartheid social, restringindo o clube a somente cinqüenta sócios.




Chalet do Barão de Nova Friburgo


Já a história da Sociedade Esportiva Friburguense é outro caso interessante. Originalmente era um clube restrito a alemães e seus descendentes. No entanto, depois da segunda guerra mundial, os alemães passaram a ser hostilizados em Nova Friburgo, em razão do nazismo, e começaram a admitir friburguenses, ainda que não fossem descendentes de alemães, para contemporizar as tensões entre os alemães e a população local. Em Nova Friburgo é antiga a demarcação de espaços de sociabilidade entre as classes sociais. Nos bailes de máscara, no final do século XIX, o indivíduo não poderia mostrar a sua identidade senão à meia-noite. Para evitar que um “pobretão”, um “mal nascido” valendo-se do anonimato do disfarce participasse de um baile da elite local, uma comissão de cavalheiros era autorizada, logo na entrada do salão, a solicitar que os mascarados retirassem a máscara, revelando a sua identidade somente a esse pequeno grupo. Com isso, impediam a entrada da canalha na restrita festa.


Quando atualmente vem à tona o debate em torno da decadência dos clubes como o Xadrez, Clube dos 50 e do Country Club, a história nos traz alguma luz. Foram criados como clubes de serviço exclusivistas, numa época em que havia em Nova Friburgo um apartheid social, aspecto atualmente destituído de sentido. Deve-se entender ainda que as sociedades evoluem, vão se tornando mais complexas, e que espaços de sociabilidade, a exemplo dos clubes, ficam sem sentido no momento em que os indivíduos passam a optar por outras formas de entretenimento.

Parte interna do chalet do Barão de Nova Friburgo


As academias, os condomínios dos prédios que já possuem área social comum, a instalação de piscina e sauna em residências, hoje acessíveis à classe média baixa, a facilidade de acesso ao litoral pela Serramar são alguns exemplos de novos espaços de lazer da sociedade atual. Logo, o problema não é a administração dos clubes, mas a mudança de comportamento. Historicizando os clubes sociais de Friburgo, posso garantir que irão agonizar por muito tempo, pois são espaços de sociabilidade do passado.

CRIANÇAS POBRES. ANIMAIS SEM DONO



No primeiro plano: Crianças pobres

Havia em Friburgo, no final do século XIX, um enorme contingente de menores vagando pelas ruas da cidade, vivendo na ociosidade e na vadiice desenfreada. Vagueavam pelas ruas e praças “como fazem os animais sem dono”, dizia o jornal, em estado de miséria, apesar de a maioria possuir família. Não freqüentavam a escola e nem a igreja, sendo vistos ainda pelas estradas, nas “tavernas da roça”, proferindo obscenidades, já dando mostras dos maus costumes e inclinações perversas. Profissionais do “jogo do pau” sabiam engatilhar uma arma de fogo trazendo ainda à cintura a indispensável faquinha. As autoridades normalmente encaminhavam esses menores para as atividades agrícolas. “De pequenino é que se torce o pepino”, dizia-se à época.

Era uma cena freqüente no cotidiano da cidade a briga de gangues de menores. Quase sempre nas tardes de domingo, um numeroso grupo de meninos do lado sul da cidade concentrava-se na Praça 15 de Novembro, atual Getúlio Vargas, dirigindo-se em seguida para a Praça do Suspiro onde já eram aguardados pelo grupo rival, que residia no lado norte da cidade. Começavam então entre eles as escaramuças, desafiando-se entre si, rolando sopapos e bofetadas a junco. Quando o desafeto não chegava às vias de fato a vozearia era atroadora, apupando-se mutuamente e proferindo palavrões que amedrontava os transeuntes. Muitos desses meninos de gangues andavam armados com bengalas, varas de marmeleiro, canivetes, espingarda, revólver ou garrucha. Aos que se recusavam a pertencer a algum destes grupos e que casualmente eram por estes encontrados na rua, apanhavam com bofetões, varadas e empurrões.

Há o registro de um enorme grupo de menores armados de canivete provocando sarrilho na Rua Gal. Argolo, atual Alberto Braune. O delegado, que conseguiu “pilhar na rede” quinze destes menores, constatou que somente dois deles não tinham família. Todavia, não há registro de furtos praticados por estes menores, referindo-se o periódico somente à algazarra, às brigas entre si e às provocações que encetavam aos transeuntes. Há finalmente o registro de uma malta de meninos tributus, alguns já bem taludos e moradores de um mesmo local, que se reuniam todas as noites na Rua Gal Osório, batucando em latas de querosene e fazendo um barulho “de mil diabos”, num infernal “Zé Pereira”. A matinada vinha acompanhada de gritos e assobios e quando alguém reclamava do barulho, os meninos em algazarra soltavam pachouchadas que estremeciam as senhoras.
Circulavam ainda em grande número pela estação aguardando a chegada dos trens. Empurrando uns aos outros na disputa desenfreada pelo serviço, viviam aos sopapos nas estações pelo privilégio de levar as bagagens dos veranistas, constrangendo os passageiros recém-chegados e aos friburguenses pela falta de civilidade. Alguns mais audaciosos subiam nos carros ainda em movimento um pouco antes da estação para garantir o compromisso do passageiro, correndo o risco de serem esmagados ou mutilados. Muitas vezes, a violência entre eles era tão acirrada que os passageiros ficavam atordoados e amedrontados, permanecendo nos carros até que o sarrilho passasse. Tendo em vista estes incidentes, a direção da Companhia Leopoldina chegou a proibir a presença destes menores nas estações, em virtude do constrangimento que causava aos veranistas. O guarda da estação os dispersava fazendo uso da vara de marmelo. No entanto, lá estavam eles, no dia seguinte, disputando o seu espaço naquela sociedade que os alijava.

As crianças de hoje não vivem situação diferente. São objeto da ação de pedófilos, escravidão infantil e ainda povoam as ruas das grandes cidades em situação muito próxima a de séculos atrás. E então a pergunta que não se quer calar: até quando vão existir estes “animais sem dono” em nossa sociedade?

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